Introdução – A Refaunação como uma solução
Você já ouviu falar da refaunção? Embora pouco conhecida no Brasil, a refaunação promete ser a salvação para os ecossistemas mais degradados de nosso planeta, utilizando uma tecnologia muito simples: o uso de animais! Imagine um ambiente megadiverso, cheio de grandes animais selvagens. Enormes predadores caçam presas em meio à migração de milhões de herbívoros, que cruzam continentes inteiros em busca de campos verdejantes para se alimentarem. Milhares de aves seguem o bando para se alimentarem dos bilhões de insetos nos pelos desses animais, enquanto toda a vegetação, pouco a pouco, é transformada pela ação da megafauna.
É difícil não pensar na África quando descrevemos esse cenário, mas essa era a realidade de todos os continentes do planeta há poucos milhares de anos, com exceção da Antártida. Como vimos anteriormente, trazer animais de volta da extinção não é fácil. Por outro lado, acrescentar algumas espécies no ambiente pode ter uma infinidade de benefícios e auxiliar na restauração de um ecossistema.

Provavelmente, ainda vai demorar para que mamutes e preguiças-gigantes voltem a caminhar na Terra (se isso for possível). Entretanto, existe uma maneira de preencher ecossistemas esvaziados de uma forma muito mais simples: é a chamada Refaunação (ou Rewilding, em inglês). Por definição, esse termo consiste no preenchimento de nichos esvaziados recentemente por animais extintos localmente em tempos recentes. Além de benefícios para as espécies envolvidas, esse processo é uma tentativa de restaurar relações ecológicas do passado que, pouco a pouco, estão desaparecendo de nosso planeta.

Justificativa – Por que deixar o mundo selvagem novamente?
Desde a sua idealização original, em 1998, pelos biólogos Michael Soulé e Reed Noss, diversas ideias de refaunação se espalharam pela comunidade científica. A mais usual, a refaunação trófica, é aquela que utiliza organismos chave para restaurar um ecossistema, como é o caso dos lobos de Yellowstone. A refaunação visa, primariamente, à correção dos efeitos humanos na fauna que têm ocorrido desenfreadamente nos últimos 50 mil anos.

Extinguimos cerca de 82% de todos os grandes animais do planeta (Stuart, 2015), coisa que, infelizmente, não podemos corrigir ainda. Entretanto, um fato menos discutido, porém mais preocupante, é a extirpação das espécies viventes, ou seja, a sua extinção em diversas áreas em que ocorriam previamente. Há 40 mil anos, leões viviam do sul ao norte da África, em toda a Ásia e na maior parte da Europa (embora alguns autores acreditem que o leão que vivia no norte da Europa e da Ásia fosse uma espécie distinta). Há 2 mil anos, leões viviam por toda África, sul da Ásia e por parte do Leste Europeu, chegando até mesmo à Grécia. 200 anos atrás, leões foram extintos no norte da África e na maior parte da Ásia. Atualmente, esse animal vive em pequenas áreas pelo continente africano e em um único parque na Ásia, em uma província indiana.

Desde 1970, extinguimos 70% das populações de animais selvagens. Com eles, também foram localmente extintos milhões de relações de parasitismo, predação, dispersão de sementes, pisoteamento ou aeramento do solo, inquilinismo, competição e cooperação. Na maioria das regiões do Brasil, por exemplo, aves que se alimentam de parasitas de grandes animais e aves carniceiras dependem diretamente do gado para sobreviver, uma vez que não podemos encontrar grandes animais nas florestas e savanas vazias, cercadas por pasto. As poucas regiões selvagens do planeta encontram-se em constante ameaça. Antigas rotas de migração de gnus e zebras são, atualmente, bloqueadas por cercas e estradas, o que acarreta na mortalidade em massa desses animais. Conservacionistas concordam que a prática de preservar apenas deixando a natureza seguir o seu rumo já não funciona mais, uma vez que os estragos que causamos são irreparáveis de forma natural. Por isso, a refaunação pode ser uma medida eficiente para esses problemas.


Como restaurar nossa fauna – Ainda dá tempo?
Na teoria, a refaunação pode parecer simples. Se quisermos restaurar os antigos ecossistemas de Minas Gerais, por exemplo, tudo o que temos que fazer é aumentar o número de animais que ainda existem aqui, além de reintroduzir organismos que estão extintos ou quase extintos nesse estado. Tudo que precisamos é reproduzir tamanduás em cativeiro e soltá-los na natureza, liberar antas em nossas matas, importar emas de outros estados, repovoar nossas zonas úmidas com cervos-do-pantanal e, quem sabe, liberar algumas onças por aí. Já complicou um pouco, né? Tirando o fato de que emas reintroduzidas costumam morrer, que tamanduás raramente reproduzem em cativeiro, que cervos geralmente morrem quando capturados e que não temos espaços para soltar antas ou onças, o resto é tranquilo!
A principal dificuldade da refaunação é a mais importante: onde vamos conseguir restaurar um ecossistema? Uma mata no meio de uma cidade, por exemplo, não consegue manter sua biodiversidade a longo prazo se não tiver conexão com outros ambientes selvagens. O mesmo vale para grandes savanas que, na maioria das vezes, são cercadas por centenas de quilômetros de pasto, o que tornaria o esforço de uma refaunação inviável. Além disso, a caça é a maior responsável pelo desaparecimento de espécies de várias regiões. Por que reintroduzir uma espécie em um local onde ela tem grandes chances de ser novamente extinta?

Para criar uma área de refaunação, portanto, é necessário escolher uma área preservada, com uma diversidade pré-existente de determinados grupos animais e relativamente bem protegida pela legislação local. Além disso, essa área deve ser conectada a outros ambientes naturais para permitir migrações e processos de troca genética. Preferencialmente, a área deve ser de pouco valor econômico associado e não deve ter grandes projetos futuros ligados a ela, como, por exemplo, intenção de construção de minas ou de usinas hidroelétricas. Por fim, o plantio de espécies nativas extirpadas, a reconstrução de partes degradadas da geologia local, a eliminação de espécies invasoras e a escolha das espécies corretas são cruciais para o sucesso do projeto. Para conhecer todos os critérios, clique aqui (página em inglês).
Críticas
Projetos de refaunação são caros e, em algumas instâncias, podem dar drasticamente errado. Na maioria das vezes, os impactos da reintrodução de uma espécie não são devidamente estudados ou as relações ecológicas pretendidas não são alcançadas. Em breve, traremos um texto sobre a parte mais polêmica da refaunação e, com ele, todas as críticas a esse programa.
Estudo de caso – O Bisão
Para entender melhor a refaunação, veremos a seguir o caso dos bisões, alguns dos maiores bovídeos do mundo que, no passado, foram também um dos grupos mais numerosos. No Pleistoceno, viviam por toda a América do Norte, Europa e Ásia mas, pouco a pouco, diversas espécies foram sendo extintas. Historicamente, duas espécies de bisão podiam ser encontradas na maior parte da América do Norte e Europa, com uma pequena população vivendo no Oeste da Ásia. A espécie norte-americana (Bison bison) realizava grandes migrações pelos Estados Unidos, México e Canadá em números ainda maiores que as migrações de gnus na África. Estima-se que, antes de 1800, mais de 60 milhões de bisões viviam no continente. Com a expansão para o Oeste, os Estados Unidos passaram a caçar esses animais em grandes quantidades, o que rapidamente alterou as paisagens das planícies centrais do país. Por volta de 1880, menos de 100 bisões restavam na natureza.



Com o bisão-europeu (Bison bonasus) a história não foi tão diferente. Utilizados no Coliseu romano e em caçadas das realezas europeias, sua população foi diminuindo até sua quase extinção. Durante a Primeira Guerra, dezenas de bisões foram caçados para alimentar soldados e em 1927, o último bisão-europeu selvagem foi morto. Apenas 50 indivíduos restavam em todo o planeta, todos em zoológicos.


Enquanto duras leis foram aprovadas para a proteção dos bisões-americanos, projetos de reprodução e reintrodução do bisão-europeu foram sendo colocados em prática na Europa. Seguindo o mesmo exemplo, conservacionistas canadenses começaram a reintroduzir bisões em pradarias nas quais haviam sido extintos, com um surpreendente sucesso. Os 300 bisões-americanos existentes em 1900 geraram os 15 mil indivíduos adultos atualmente em ambientes totalmente selvagens, pelo menos 20 subpopulações do sul dos EUA até o Alasca e mais de 500.000 animais em zonas privadas. O bisão-europeu, previamente extinto na natureza, ultrapassa os 5 mil animais, que vivem até mesmo em zonas em que estavam extintos há milhares de anos. Pesquisas demonstraram que essas espécies aumentaram drasticamente a biodiversidade das áreas em que foram reintroduzidas, por meio da dispersão de sementes, atração de aves, insetos e predadores, transporte de nutrientes entre diferentes regiões e, até mesmo, contribuíram para a redução da população de plantas invasoras, não adaptadas ao constante pisoteamento de grandes manadas.

Nos últimos milênios extinguimos a maior parte dos grandes protagonistas de nossos ecossistemas e destruímos a maioria das teias alimentares mais complexas. Nos últimos séculos, reduzimos tanto a população de grandes animais que, na maior parte do mundo, não conseguimos mais encontrá-los sem viajar dezenas de quilômetros. Esvaziamos nossos mares e silenciamos nossas florestas, deixando o planeta cada vez mais humano. Embora imperfeita, a refaunação pode, segundo alguns cientistas, corrigir nossos erros do passado e garantir, de uma vez por todas, um mundo muito mais selvagem. Resta saber se teremos ambientes naturais o bastante para preenchê-los com vida no futuro.
Referências
Artigo – Trophic rewilding: impact on ecosystems under global change
Barriers to migration: The negative impact of fences on ungulate populations in Africa
Artigo – Late Quaternary megafaunal extinctions on the continents: a short review – Stuart (2015)
Artigo – Saving the Great Migrations: declining Wildebeest in East Africa?
Artigo – Status and Ecological Effects of the World’s Largest Carnivores
American Bison – Bison bison – IUCN
European Bison – Bison bonasus – IUCN


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