Em 1993, Steven Spielberg nos apresentou uma das ficções científicas mais famosas do mundo, popularizando as ideias do livro de Michael Crichton lançado em 1990. O seu “Parque dos Dinossauros” (Jurassic Park, no título original) popularizou a ideia da clonagem como forma de trazer de volta à vida seres extintos. Mas afinal, o quão perto estamos de ressuscitar seres extintos? E ainda, devemos realmente tentar?

No “Jurassic Park” os cientistas da empresa InGen coletam DNA de animais extintos por meio da coleta do sangue existente dentro de mosquitos presos em âmbar há milhões de anos atrás. Entretanto, para a tristeza de muitos, provavelmente nunca veremos um Tiranossauro caminhando por nosso planeta, uma vez que o DNA possui uma meia-vida de 521 anos. Mesmo em condições ideais, nenhum DNA sobreviveria a mais de 6,8 milhões de anos.


Mesmo assim, nem tudo está perdido. Na última década, avanços nos estudos de sequenciamento e de engenharia genética mostraram-se eficazes para encontrar DNA antigo em fósseis mais recentes. É o que está sendo feito nesse momento no Museu de Mamutes de Yakutsk, na Rússia, onde DNA foi extraído de mamutes preservados sob o gelo da Sibéria. Os cientistas esperam conseguir completar lacunas nesse DNA e implantá-lo em um óvulo de elefante. Outra possibilidade seria comparar o DNA do mamute com o de elefantes atuais e substituir possíveis diferenças em um óvulo de elefante, fornecendo genes-chaves do mamute.

Mas afinal, o que faríamos com um mamute? O Pleitocene Park é uma iniciativa russa de recriar, em uma área de 160 km², as condições das estepes locais antes da chegada dos seres humanos na área. Após a reintrodução de mais de 20 mamíferos de grande porte nativos, as condições do ambiente mudaram drasticamente, possibilitando o crescimento de gramíneas e árvores de grande porte.


Entretanto, muitos ainda estão céticos com esses resultados. O jornalista Brian Swiket afirma que esses animais clonados seriam apenas uma reinvenção dos seus progenitores extintos. Além disso, o mundo atual é bem diferente do que era há milhares de anos atrás e os animais que deixaram de ser extintos poderiam não se adaptar.

Além disso, existe um outro lado da clonagem de espécies extintas: a sobrevivência das espécies atuais. No ano 2000, morreu o último exemplar de íbex-dos-pireneus (Capra pyrenaica pyrenaica). Felizmente, um ano antes, seu material genético havia sido colhido por cientistas espanhóis e, por meio de financiamento governamental, eles implantaram o DNA desse animal em óvulos de cabras-montesas viventes. Após 439 tentativas, apenas uma deu à luz ao primeiro clone de um animal extinto da história, batizado de Célia. Infelizmente, o filhote sobreviveu apenas por 10 minutos, extinguindo a espécie pela segunda vez na história.


Embora essa tentativa de recriar a espécie tenha falhado, ela abriu portas para esse tipo de pesquisa por todo o planeta, incluindo o estudo de clonagem de mamutes. Atualmente, os cientistas buscam clonar animais extintos recentemente como tigres-da-tasmânia e alguns sapos da Austrália e Madagascar. Além disso, a “reversão genética” vem sendo empregada para recriar características de espécies como o auroque e a quaga (Equus quagga quagga), subespécie de zebra extinta no século XIX.
Ao empregar técnicas de clonagem e de ressurreição de animais extintos em espécies ameaçadas, podemos, em teoria, salvar espécies à beira da extinção. Um projeto da Embrapa e do Zoológico de Brasília preserva atualmente material genético de diversos animais como onças, lobos-guará, veados, tamanduás e primatas. Com um banco genético com mais de 400 espécies, esse zoológico pode, futuramente, auxiliar na preservação de nossa fauna com a clonagem e a engenharia genética.

Atualmente, a maior crítica da desextinção é a banalização da extinção. Caso, no futuro, clonar um animal extinto seja algo extremamente fácil e barato, esforços para impedir que a extinção ocorra em primeiro lugar podem ser vistos como desnecessários, aumentando a degradação de nossos ecossistemas. Além disso, quais direitos esses animais teriam? Provavelmente esses organismos seriam propriedade dos cientistas que os clonaram.

Contudo, se feita com responsabilidade, a desextinção pode ser uma ferramenta para salvar nossas espécies e para corrigir nossos erros do passado. Zoológicos com mamutes podem ser um lembrete do tempo em que o ser humano extinguia as espécies indiscriminadamente. Podemos reconstruir ecossistemas e devolver a vida a animais extintos por nossa culpa. Mais do que nunca, temos o poder de mudar o futuro de nossas espécies atuais, e, até mesmo, das extintas. Se essa mudança será para o bem ou para o mal, só depende de nós.
Referências
Clonagem de animais extintos e desextinção
http://www.nhm.ac.uk/discover/could-scientists-bring-dinosaurs-back.html
https://nypost.com/2017/01/07/how-scientists-actually-could-bring-dinosaurs-back-to-life/
Artigo “A molecular mechanism for the origin of a key evolutionary innovation, the bird beak and palate, revealed by an integrative approach to major transitions in vertebrate history”, por Bhart‐Anjan S. Bhullar et. al.
Livro ” How to Clone a Mammoth“, por Beth Shapiro
Revista Superinteressante “Ressurreição – A volta dos animais extintos já começou” -Edição 332 – Maio de 2014
Clonagem de animais atuais
http://revistagalileu.globo.com/Revista/Common/0,,EMI329340-18537,00-EMBRAPA+POLEMIZA+COM+PROJETO+PARA+CLONAR+ANIMAIS+EM+EXTINCAO+PARA+ZOOS.html


Deixe seu comentário