Qual o maior animal terrestre vivendo nas selvas da América do Sul? Se você chutou hipopótamo (o que é fácil pelo título do nosso texto), você está certíssimo! Mas, pera aí. Como e por que esse grande mamífero africano veio parar no nosso continente? E, ainda, o que eles têm a ver com Pablo Escobar, um dos maiores chefes do tráfico internacional de drogas? Descubra como o mais famoso cartel colombiano criou um problema ambiental na Colômbia, praticamente impossível de ser resolvido. Essa é a história dos Hipopótamos de Escobar, os maiores e mais perigosos mamíferos da América do Sul.

Você já deve estar familiarizado com a história de Pablo Emilio Escobar Gaviria, o famoso senhor das drogas colombiano. Nascido em 1949, começou a se envolver diretamente com o tráfico internacional de drogas a partir de 1970, com a ajuda de seu irmão. Rapidamente enriquecendo, Escobar se tornou um dos nomes mais influentes no mercado de cocaína pela América do Sul. Após expandir seus negócios para os Estados Unidos, seu cartel em Medelín passou a contrabandear quinze toneladas de cocaína por dia, no valor de mais de meio bilhão de dólares. Era um dos homens mais ricos do planeta quando foi morto em 1993 em uma operação contra o tráfico.

Após sua morte, oficiais colombianos invadiram sua moradia na Fazenda Nápoles, onde encontraram toneladas de cocaína, dinheiro e um enorme zoológico particular, com a presença de elefantes, antílopes, girafas, centenas de aves exóticas e quatro hipopótamos adultos, traficados para a Colômbia anos antes. Enquanto os outros animais foram sedados e transportados para zoológicos e santuários, os hipopótamos foram abandonados no local devido ao seu manejo difícil e à sua alta periculosidade.


Deixados de lado por muito tempo, esses animais foram praticamente esquecidos pelas autoridades do país, até que parte da Fazenda Nápoles e das antigas propriedades de Escobar começaram a ser reformadas para servirem como moradias populares. Ao chegar nos lagos do antigo zoológico, em 2007, trabalhadores notaram uma família de 16 indivíduos, florescendo no clima tropical colombiano similar ao de seu ambiente natural a 9.000 km de distância.

Mais uma vez, sem saber como lidar com esse grande problema, os Hipopótamos de Escobar foram ignorados. Além de terem até 3 toneladas, hipopótamos-comuns (Hippopotamus amphibius) são famosos por sua grande agressividade, sendo o mamífero que mais mata na África. Além disso, sua pele extremamente grossa torna a aplicação de sedativos para seu transporte um feito extremamente complicado. Transportar quatro hipopótamos já seria um manejo custoso. Transportar 16 animais, por sua vez, seria uma tarefa milionária, que após alguns orçamentos foi rapidamente esquecida.

Um incidente em 2009 trouxe os hipopótamos para as notícias novamente, quando um casal deles se separou de seu bando e começou a matar bois e vacas na região. Após atacarem uma pessoa, caçadores foram contratados pelo governo para matar um dos animais, o que gerou um intenso debate sobre a proteção desses animais e o risco que oferecem para a população local.

Em 2014, os quatro Hipopótamos de Escobar originais já tinham criado uma população de 40 animais que, em vez de permanecerem nas lagoas da fazenda em que nasceram, passaram a migrar para os rios da região. Após a antiga Hacienda Nápoles ser transformada em um parque temático, turistas de toda a Colômbia começaram a viajar para a região para conhecer o antigo parque de Pablo Escobar e, sobretudo, seus hipopótamos, que passaram a ser amados pelo público.
Em 2020, a população de mais de 120 indivíduos já ocupava uma área de 2,250 km2 em suas migrações. Embora os idealizadores do parque temático tenham criado medidas para fazer com que os animais permanecessem na região, várias pequenas subpopulações já vivem pelo grande Rio Magdalena. Sem predadores naturais de seus filhotes (os únicos hipopótamos que possuem predadores) e sem secas para controlar sua população, estima-se que eles chegarão a mais de mil indivíduos em poucas décadas.

O investimento do governo de milhares de dólares em cercas mostrou-se totalmente inútil, uma vez que hipopótamos de todas as idades conseguiam derrubá-las. Posteriormente, a castração dos machos também se mostrou inefetiva, já que apenas um indivíduo poderia ser castrado por ano devido ao alto custo e ao difícil manejo, em contraste com os 5 a 10 filhotes que nascem anualmente.


A única solução viável para o governo em acabar com esse problema era simples: exterminar esses animais. Perigosos para as pessoas e para o gado, os hipopótamos também ameaçam diretamente diversas espécies nativas e, muitas vezes, ameaçadas, como o peixe-boi (Trichechus manatus), jacarés, lontras e os cágados criticamente ameaçados Mesoclemmys dahli e Podocnemis lewyana. Dessa forma, seria mais ecologicamente correto matar uma espécie agressiva e invasora do que permitir que ela levasse outras à extinção. Como podem imaginar, a polêmica estava apenas começando.

Primeiramente, é importante ressaltar que a população colombiana ama os hipopótamos. Sem nenhum ataque fatal a humanos e com um enorme potencial turístico, esses animais são vistos como uma espécie carismática que deveria ser protegida pelo governo, e não o contrário. Com poucas campanhas educacionais que mostrem o perigo dos hipopótamos para a fauna e para as pessoas, as primeiras tentativas de caça aos hipopótamos resultaram em protestos e em uma queda drástica na satisfação popular com o governo.
Em segundo lugar, é importante ressaltar que o hipopótamo-comum é uma espécie considerada Vulnerável pela IUCN, a união internacional de pesquisadores responsável por apontar o grau de ameaça de extinção de uma espécie. Seria correto caçar um animal ameaçado de extinção mesmo que este esteja fora de sua área de ocorrência? Embora alguns pesquisadores e conservacionistas que trabalham com hipopótamos apontem que, nesse caso, a caça é a única solução, outros apontam que esses animais poderiam auxiliar na conservação da espécie caso fossem realocados.
Por fim, é importante ressaltar a opinião de alguns ecologistas favoráveis aos processos de refaunação pleistocênica. Como mencionamos no texto O Fim dos Gigantes, os últimos milênios de nosso planeta passaram por um rápido processo de extinção em massa da maior parte dos animais com mais de 40 kg, denominados de megafauna. A América do Sul foi um dos locais mais afetados, com mais de 86% dos grandes animais tendo sido extintos nos últimos 12 mil anos.
Para alguns pesquisadores, a perda desses organismos impactou drasticamente nossos ecossistemas, que poderiam ser introduzidos com espécies exóticas que tenham algum papel ecológico similar a seres extintos. Embora controversa, essa ideia aponta que, a longo prazo, os hipopótamos podem trazer diversos benefícios ao preencherem os nichos deixados vagos após a extinção dos Toxodontes, grandes mamíferos herbívoros que já viveram na região. Dessa forma, o extermínio dos hipopótamos seria, surpreendentemente, danoso para as florestas e rios da Colômbia.


Não existe uma resposta correta para como solucionar a crise dos hipopótamos da Colômbia e, até o presente momento, os 120 animais vivem livres pelo país, sem nenhum plano governamental de manejo que determine o que deverá ser feito com esses indivíduos. Se deixados de lado, sua população poderá crescer drasticamente, o que será capaz de aumentar seu contato com humanos e gerar mortes, além de que sua presença nos rios do país poderá extinguir espécies já extremamente ameaçadas. Por outro lado, a população geral e alguns cientistas concordam que seu extermínio não é a solução, embora também não apontem nenhuma medida para os problemas que eles oferecem.
Referências
Colombia’s ‘cocaine hippos’ must be culled, scientists say — but not everyone agrees – CNN
Pablo Escobar: Why scientists want to kill Colombia’s hippos – BBC
Dealing with Pablo Escobar’s fugitive hippos … one snip at a time – Earth Touch News
Colombia Confronts Drug Lord’s Legacy: Hippos – New York Times
Artigo – Ecosystem effects of the world’s largest invasive animal
How this drug lord created a hippo problem in Colombia


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