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A Grande Muralha Verde da África é possível?

A Grande Muralha Verde é um movimento liderado pela África com uma ambição épica de cultivar uma maravilha natural de 8.000 km na região do Sahel. Uma década depois e cerca de 15% em andamento, a iniciativa já está trazendo vida de volta às paisagens degradadas da África em uma escala sem precedentes, proporcionando segurança…

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Grande Muralha Verde Mundo

A Grande Muralha Verde da África é um plano um tanto quanto audacioso e emblemático. Esse plano demonstra a união de povos, culturas e mostra a urgência nas resoluções das questões climáticas atuais.

Entre 1984 e 1985, a mídia internacional chamou a atenção do mundo para a existência do que foi chamado de “Cinturão da Fome”. Uma grande seca afetou o Sahel, a grande faixa de 5.400 km que atravessa a África de oeste a leste, do Oceano Atlântico ao Mar Vermelho. A terra ficou sem água e sem verde, e muitos habitantes dessa vasta área de quatro milhões de km², em sua maioria pastores, viram morrer todo o gado. Foi então que ocorreu a Grande Fome. Isso mudou de maneira significativa a maneira como a comunidade científica passou a relacionar o clima à desertificação. Cientistas e economistas apontaram que ações humanas inadequadas foram a principal causa da desertificação e que as secas apenas desencadearam seus efeitos.

Grande Muralha Verde ( Sahel )
Localização do Sahel

Não foi a primeira vez que o Sahel foi assolado por uma seca. Desde que os registros sistemáticos começaram a ser mantidos, no início do século 20, a área passou por períodos climáticos alternados de chuvas abundantes e escassas. A primeira seca registrada ocorreu em 1915, causando uma grande migração para áreas mais férteis do sul. Durante a década de 1960, houve um período de chuvas abundantes que encheram os poços de água e provocaram o retorno de pastores e agricultores, em grande parte impulsionados pelos governos dos países da faixa, sendo que alguns deles haviam acabado de ser descolonizados.

Foi então que as secas voltaram com mais força. Entre os anos 1968 e 1974, o pastoreio tornou-se impossível e a falta de água desencadeou uma fome em grande escala que levou à primeira mobilização de ajuda externa e à criação do Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola pelas Nações Unidas. O solo do Sahel estava tão degradado que, em 1977, foi organizada em Nairóbi, no Quênia, a primeira Conferência das Nações Unidas sobre Desertificação. Em 1994, as Nações Unidas declararam o dia 17 de junho como o Dia Mundial de Combate à Desertificação e Seca. Já a Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD) foi estabelecida em 1996.

A UNCCD definiu a desertificação como “a degradação da terra nas zonas áridas, semiáridas e subúmidas secas, resultante de vários fatores, incluindo as atividades humanas e as variações climáticas”. Um aspecto significativo desta definição é a separação de dois conceitos, “variações climáticas” e “atividades humanas”, que até então não eram claros para a opinião pública e para muitos especialistas, que tradicionalmente consideravam a desertificação como efeito direto das secas.

Em 1984 houve uma terrível crise, que trouxe à tona as más práticas adotadas na área até então: o aumento da pastagem e da agricultura, promovido pelos governos e pelos próprios agricultores nos períodos de chuva, tinha causado uma superexploração sistemática das terras bem acima da sua capacidade média de recuperação. A visão de curto prazo de governos e comunidades, buscando maximizar o retorno econômico no menor tempo possível, levou a uma severa degradação do solo.

Entre o deserto e a savana: Sahel

O termo Sahel vem da palavra árabe sāḥil, que significa “orla ou costa”. Um significado geograficamente e climaticamente correto para uma área limitada ao norte pelo Deserto do Saara e ao sul pelas savanas e selvas do Golfo da Guiné e da África Central. Não há dados precisos sobre a população do Sahel, onde ocorre uma das maiores taxas de invisibilidade estatística e movimentos migratórios descontrolados causados ​​por secas, conflitos armados e terrorismo do Boko Haram, que afetam algumas de suas regiões.

Grande Muralha Verde Sahel
Sahel

De acordo com as previsões das Nações Unidas, a população atual do Sahel gira em torno de 75 milhões de habitantes e quase triplicará até 2050, chegando a quase 200 milhões. Em 2016, os menores de 24 anos estavam entre 60 e 70% da população, e esses números tendem a se manter nos próximos 20 anos. A falta de perspectivas obriga esta população jovem a exercer uma pressão migratória considerável nas zonas do sul, pressão esta que se estende aos países europeus.

A Grande Muralha Verde: esperança

Em 2007, os Chefes de Estado e de Governo de Burkina Faso, Djibouti, Eritreia, Etiópia, Mali, Mauritânia, Níger, Nigéria, Senegal, Sudão e Chade, com o apoio da União Africana, decidiram lançar um projeto de combate à desertificação em Sahel visando proporcionar uma vida digna com futuro aos seus habitantes: a Grande Muralha Verde da África. A iniciativa reflete o espírito da ecologista queniana Wangari Maathai, que foi a primeira mulher africana a receber o Prêmio Nobel da Paz em 2004. Maathai criou o Movimento Cinturão Verde, uma iniciativa que plantou mais de 30 milhões de árvores em seu país.

Grande Muralha Verde Idealizadora
Wangari Maathai

A Grande Muralha Verde pretende se tornar uma barreira de vegetação nativa de 15 km de largura e 8.000 km de comprimento ao longo do Sahel. As alterações climáticas e a última fome de 2010 deram força a esta iniciativa, que visa reparar os erros de governança na área e a abordagem errônea frequentemente tomada perante o problema da desertificação. Pelas suas dimensões, supera qualquer trabalho coletivo realizado pelo homem e alguns o definem como a oitava maravilha do mundo: nada menos do que cobrir 100 milhões de hectares de semi-deserto com um manto verde.

O projeto é alvo de críticas de ecologistas, que consideram que a solução não é “plantar árvores”, como o projeto se centrou essencialmente, mas sim, optar pela regeneração natural do terreno, identificando a flora de cada área a ser preservada. Esta obra audaciosa requer necessariamente a participação dos moradores, que precisam ser capacitados para que o processo seja sustentável e para que as áreas restauradas sejam mantidas.

Houve também críticas de diversos economistas, que apontaram que o ritmo de implementação não era realista e que a obtenção do alto investimento necessário não havia sido levada em consideração. A realização do projeto está ligada à Agenda 2030 da ONU para o Desenvolvimento Sustentável, que pretende impor um ritmo de regeneração de 5 milhões de hectares por ano.

Perante a atual circunstância, a União Africana propôs uma data menos ambiciosa e mais realista: a que leva em consideração a Agenda 2063. Mas muitos apontam que ainda é preciso trabalhar a um ritmo de dois milhões de hectares por ano, muito superior ao estimado.

Três equívocos comuns sobre a Grande Muralha Verde

Equívoco n ° 1:

❌O deserto é uma doença

O Saara às vezes é considerado como uma espécie de doença que se espalha para as áreas circundantes. No entanto, este deserto é, na verdade, um ecossistema saudável e precioso que, como outros desertos em todo o mundo, contribui para a diversidade e riqueza da Terra. Ele não é, de forma alguma, a imagem de um ambiente insalubre. As mudanças climáticas modificaram seu padrão de extensão no passado e o aquecimento da superfície terrestre atual pode levar a uma mudança gradual em algumas das fronteiras do deserto.

Deserto do Sahara
Deserto do Sahara

Equívoco n ° 2:

❌O Sahel está sendo invadido por um mar de areia

Algumas pessoas pensam que um mar de dunas de areia do Saara está avançando gradualmente e invadindo o Sahel, mas este não é o padrão que os cientistas observaram. A areia tem mudado em algumas áreas, mas esses são fenômenos locais controláveis e, além disso, a areia nem sempre se move na direção sul. Portanto, esta não é uma tendência de movimento em todo o continente que deva ser interrompida como um invasor.
O Saara é, portanto, um ecossistema desértico estável, enquanto o Sahel é afetado pela desertificação. A desertificação não é induzida pela invasão de areia do deserto, mas é uma forma única de degradação do solo que ocorre nessas regiões de sequeiro, onde chove, mas de forma irregular e com baixos volumes totais.
Não se engane. Não é o deserto que está crescendo para as outras áreas. É a falta de manejo e degradação que estão tornando algumas áreas do Sahel um deserto como o Sahara.

Equívoco n ° 3:

❌É possível plantar e preservar mais em regiões desabitadas ou pouco habitadas

Na verdade, a trajetória proposta é passar justamente por regiões habitadas, onde a agricultura e a pecuária já estão plenamente desenvolvidas em terras alocadas de acordo com as tradições locais. Os habitantes locais devem, portanto, ser associados a quaisquer iniciativas destinadas a combater a desertificação por meio do plantio de árvores.
Em seu desenho atual, A Grande Muralha verde é muito mais do que o seu nome ou a sua passagem sugerem. Segundo Censad, o objetivo é garantir o plantio e o desenvolvimento integrado de espécies de plantas tolerantes, lagoas de retenção de água, sistemas de produção agrícola e outras atividades geradoras de renda, bem como infraestruturas sociais básicas.

África Grande Muralha Verde
Agricultura na Grande Muralha Verde

Isso já foi feito antes

Plantar árvores em regiões de sequeiro para combater a desertificação não é uma ideia nova. Algumas das mais famosas são o projeto Argelino Green Dam que, conforme indicado em relatórios e conclusões publicadas, teve algum sucesso, mas também algumas falhas, resultando em grandes mudanças no projeto.

A Grande Muralha Verde da China não foi projetada como uma barragem, mas sim como um gigantesco projeto de gestão integrada para combater a desertificação em uma área de mais de 4000 km de comprimento e 1000 km de largura. Isso envolve uma combinação de plantações de florestas e arbustos, bem como de cobertura de vegetação gramínea em sistemas agrícolas. Além disso, muitas iniciativas locais de reflorestamento e experimentos agroflorestais foram realizados no Sahel.

Os múltiplos usos de diferentes espécies de árvores e os benefícios para os habitantes desta região são amplamente reconhecidos. No entanto, os resultados de muitos projetos não foram divulgados formalmente, apesar do fato de que o acesso a esta mina de informações deva ser disponibilizada para que os gestores de campo e as partes interessadas saibam em quais iniciativas podem ou não trabalhar.

O desafio está só começando

Não se iluda. Quem espera chegar lá hoje e encontrar uma grande muralha feita de mata fechada de árvores frondosas vai se decepcionar e muito. A área da muralha é extremamente extensa, como já se pode imaginar, e dentro dela há verdadeiros bairros, escolas, plantações, animais de criação, entre outros. Diferente de um muro contínuo, como a maior parte das pessoas imaginam, na verdade há intervalos a cada 15 km e nesses intervalos existem várias atividades humanas, estradas, pastos e comunidades. Esses intervalos possuem de 3 a 5 km de distância e tudo isso faz parte da Grande Muralha Verde. Caso fosse criado um muro contínuo, sem a presença desses intervalos, haveria então um conflito social que atrapalharia a finalidade ambiental do muro, forçando as comunidades a migrarem e a plantarem em outros locais.

Sahel África Grande Muralha Verde

Um dos programas que fazem parte desse organismo vivo da Grande Muralha Verde é o Jardim Polivalente, que tem como objetivo ensinar um sistema de agricultura sustentável para as mulheres da região. Tradicionalmente, essas mulheres dependiam de seus maridos agricultores. Sem o conhecimento desse tipo de plantio, eles viviam como nômades. Hoje, elas possuem uma atividade, contribuindo com a renda familiar e conquistando sua independência. No Senegal, antes do projeto, a população teria que andar 40 km para comprar legumes, convivendo com a má nutrição e a pobreza.

Sahel Comunidade África
Jardim Polivalente

A principal ideia é criar um senso de educação coletivo sobre a Muralha Verde, principalmente com relação às crianças. A população atual não entende ainda a importância e a representação de um projeto tão audacioso, porém as crianças já estão sendo educadas nas escolas sobre o valor da barreira.

A principal função da barreira não é apenas o plantio e sim, a educação ambiental. As crianças que moram dentro da área da Muralha aprendem desde cedo como plantar, adubar e a entender a importância e o porquê a Muralha existe. Cursam uma matéria chamada Educação Científica e Tecnológica, na qual aprendem na prática sobre ecologia, agricultura e sustentabilidade.

A Grande Muralha Verde é muito mais complexa, impressionante e importante que se imagina. Mais do que um muro do bem, ela é um conjunto de sistemas, estratégias e mecanismos que irão conter o avanço do deserto, permitindo assim a sobrevivência de uma parte importante da África. Esse delicado processo não será possível sem aqueles que dedicam sua vida para ensinar às novas gerações sobre a importância de se preservar.

Muralha Verde Africa

Independentemente do seu realismo, a Grande Muralha Verde africana tem como principal valor ter reunido governos e comunidades num compromisso comum de combater a desertificação e avançar na luta contra a pobreza. Também permitiu a criação de um observatório internacional que revela a falta de acesso à água e à educação, bem como a necessidade de uma gestão eficiente do território e de seus recursos para combater a seca e retirar milhões de pessoas da vulnerabilidade climática.

Referências

ONG Wear Water

Great Green Wall – https://www.greatgreenwall.org

Nature – Get Africa’s Great Green Wall back on track

Assista ao Trailer do Documentário The Great Green Wall:


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Comentários

4 respostas para “A Grande Muralha Verde da África é possível?”

  1. Avatar de Mauro Assis
    Mauro Assis

    Em primeiro lugar, parabéns à Ana Luíza pelo seu dia, 11/02 é o Dia das Mulheres e Meninas na Ciência.

    Depois parabéns pelo artigo! Eu já tinha lido outras coisas sobre o assunto mas essa “desmistificada” me esclareceu muito.

    Obrigado,

    Mauro

    1. Obrigada Mauro!
      Muito importante feedbacks como esse.
      Que a ciência seja cada vez mais democrática e que as mulheres estejam cada vez mais presentes!

      Gratidão

  2. Avatar de Roberto Gonçalves Tunes
    Roberto Gonçalves Tunes

    Parabéns minha querida afilhada. Como sempre texto esclarecedor e limpo, que nos ensina com clareza, sem colocações dúbias e paralelas. Muito sucesso e felicidades a você e ao Pedro. Te amo.

    1. Muito obrigada!
      Adorei o feedback Padrinho querido!

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