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Saara – O paraíso transformado em deserto

Imagine um ambiente megadiverso, repleto de um mosaico de savanas, pântanos e florestas tropicais, no continente africano. Manadas de elefantes vivem em meio a leões, antílopes e zebras, enquanto o solo fértil da região permitiu o surgimento de grandes civilizações, que, por sua vez, criaram novas técnicas de agricultura e construíram verdadeiros impérios. Em volta…

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Imagine um ambiente megadiverso, repleto de um mosaico de savanas, pântanos e florestas tropicais, no continente africano. Manadas de elefantes vivem em meio a leões, antílopes e zebras, enquanto o solo fértil da região permitiu o surgimento de grandes civilizações, que, por sua vez, criaram novas técnicas de agricultura e construíram verdadeiros impérios. Em volta de grandes rios, esses povos ergueram templos e pirâmides, que resistiram à ação do tempo por milhares de anos e foram redescobertos apenas recentemente.  Embora essa descrição também se encaixe com a do Egito Antigo, essa região fértil se estendia desde o Delta do Nilo até o Oceano Atlântico. Hoje, o local mais quente do planeta, esse enorme deserto, já foi um verdadeiro paraíso para diversas populações humanas, há poucos milhares de anos.

Deserto do Saara fotografado em paisagem de dunas, o maior deserto quente do planeta Terra
Foto por Marsel van Oorsten

Quando pensamos no Saara, logo imaginamos um grande ambiente hostil, que isola o Magrebe da África Subsaariana. Com pouquíssimas fontes naturais de água, temperaturas que podem chegar a 58°C e grandes tempestades de areias, essa região do tamanho da Europa é uma das mais inóspitas para a vida. Por esse motivo, poucos estudos são realizados no Saara em comparação com outros desertos quentes. Apenas recentemente, com o avanço de tecnologias de monitoramento via satélite, toda sua área está sendo detalhadamente conhecida, o que revelou algumas das mais impressionantes descobertas arqueológicas do planeta.

Camelos atravessam as dunas do deserto do Saara, evidenciando a adaptação da fauna ao clima árido
Por  Hillary Fox

Ao analisarem depósitos de rocha de diversas regiões do Saara de até 240.000 anos de idade, pesquisadores do MIT (Massachusetts Institute of Technology) concluíram que esse enorme deserto possui ciclos de  avanços e retrações, que ocorrem a cada 20 mil anos. Durante esse tempo, mudanças na  inclinação da órbita terrestre fazem com que grandes florestas tropicais e savanas alagadas sejam rapidamente convertidas em deserto, eliminando a maior parte da biodiversidade local. Quando o Norte da África recebe um maior grau de incidência solar, as monções são intensificadas, o que gera um aumento do regime de chuvas na região e torna o Saara um paraíso verde. Entretanto, quando a incidência solar diminui, as chuvas tornam-se escassas na área, chegando a menos de 1mm anual em certos pontos, o que ocasiona a expansão do deserto. Esse fato contrasta com o que sabíamos sobre os ciclos climáticos da Terra, uma vez que a periodicidade de eras do gelo, também determinadas pela inclinação terrestre, é de cerca de 100 mil anos, o que indica que outras forças também influenciam os ciclos de glaciação.

Savana verde no Norte da África ilustra como o Saara foi ecossistema fértil e habitado há milênios
A maior parte do Saara era semelhante às savanas verdes de regiões úmidas da África – Foto por Chris Cooper

Uma pergunta que sempre intrigou os cientistas é como diversos grupos de animais, incluindo o ser humano, conseguiram atravessar milhares de quilômetros de areia para sair da África Subsaariana e chegar até o Oriente Médio, colonizando outras regiões posteriormente. Esses ciclos temporais do Saara não só permitiram essa passagem, como também foram responsáveis por diversos eventos de especiação na região, que hoje possui faunas únicas isoladas por um mar de areia. Acredita-se que, entre 130.000 e 100.000 anos atrás, o ser humano foi capaz de sair da África devido a corredores verdes criados por esse sistema de chuvas, mudando completamente o curso de nossa história.  O modelo proposto pelos pesquisadores do MIT explica perfeitamente a história de nossa expansão e da expansão dessas espécies, que migraram, não por desertos inóspitos, mas, sim, por ambientes férteis e verdejantes.

Mapa científico mostra rotas de migração de hominídeos pelo Saara verde durante períodos úmidos do passado
Corredor de rios possibilitou a migração de hominídeos para fora da África – Retirado do artigo de  Osborne et. al. (2008)

Em 2015, uma equipe de cientistas franceses publicou na revista Nature Communications um achado que confirmou o passado verde do Saara. Utilizando um sistema avançado de mapeamento por satélite, eles descobriram um complexo de rios secos, que cruzavam grande parte do Saara há menos de 5 mil anos. Esses rios proporcionavam a água necessária para o sustento de diversos ecossistemas na região e suas bacias interligavam os principais ambientes férteis africanos. Dessa forma, não seria estranho se grandes civilizações, assim como a egípcia, tivessem habitado países como o Sudão, Chad, Níger ou a Mauritânia, no passado.

Paleobacias hidrográficas do Saara mapeadas por satélite revelam rede de rios extintos há menos de 5 mil anos
Paleobacias hidrográficas do Saara – Por Nature Communications

Somado a isso, pesquisadores de Cambridge descreveram diversos lagos antigos para a região, em 2010, um fato que permaneceu sem explicação até o descobrimento das bacias hidrográficas extintas e dos ciclos climáticos do Saara. Dentre eles, o lago Mega-Chad era o maior de todos, com uma área de 360.000 quilômetros quadrados e mais de 247 metros de profundidade. Atualmente, o Lago Chad é um pequeno remanescente desse mar continental, que possui apenas 354 quilômetros quadrados e que continua a diminuir a cada ano. A área seca do Mega-Chad, entretanto, é composta por uma areia incrivelmente fina e rica em nutrientes, que é carregada pelo vento por intermédio do Oceano Atlântico até a Amazônia, contribuindo para sua fertilização.

Comparação entre o tamanho do lago Mega-Chad e o atual lago Chade ilustra a drástica redução hídrica
Tamanho do Lago Chad em comparação ao lago Mega-Chad – Por DailyMail
Mapa do Saara verde mostrando principais rios e lagos que existiram na região há menos de 5 mil anos
Mapa contendo principais rios e lagos do Saara verde (os nomes das regiões são fictícios) – Retirado do site Worldanvil

Com tantos rios e lagos no passado do Saara, essa área extremamente fértil atraiu milhares de pessoas, que construíram grandes cidades na região. Com uma cultura similar à do Egito, esses povos ergueram templos e pirâmides por toda porção Noroeste da África, criando técnicas complexas de urbanismo e de agricultura. Por mais estranho que isso possa parecer, essas grandes civilizações foram descobertas apenas recentemente com o uso de drones e satélites, sobretudo devido ao tamanho do deserto. Além dos já conhecidos sítios arqueológicos no Egito e no Sudão, pesquisadores encontraram outros na Líbia, Chad e Mali, demonstrando o potencial para novas pesquisas na região. Outro fator que contribui para a dificuldade em encontrar ruínas no Saara é a mobilidade das dunas, que podem ter dezenas de metros de profundidade. A Esfinge de Gizé, por exemplo, estava quase totalmente enterrada quando foi descoberta, assim como diversas pirâmides menores do Egito.

Ruínas de fortificação do povo Garamantes na Líbia, civilização que prosperou no Saara verde antigo
Ruínas de fortificação do povo Garamantes, na Líbia (acima) e de construções funerárias (abaixo) – Fotógrafos desconhecidos
Necrópole dos Garamantes no Saara evidencia presença de civilizações avançadas no deserto africano

Forte dos Garamantes descoberto por satélite revela campos de plantio e sistemas de irrigação no Saara
Foto de forte do Garamantes descoberto com o uso de satélites mostra campos de plantio e técnicas de irrigação – U. Leicester
Esfinge de Gizé parcialmente soterrada quando descoberta pelos europeus, comparada à área já escavada atualmente
Esfinge de Gizé quando descoberta pelos europeus (acima) em comparação com a área já escavada atualmente (abaixo)  – Por b. Anthony Stewart
Grande Esfinge de Gizé após escavações, símbolo da civilização egípcia no norte africano

Pirâmides do Sudão superam em número as do Egito, herança das civilizações que floresceram no Saara verde
O Sudão possui mais pirâmides conhecidas do que o Egito – Foto do  Getty Images

Mas então, o que aconteceu com as milhões de pessoas e animais que viviam no Saara? O fim do período chuvoso africano fez com que diversos rios secassem, o que impulsionou ondas migratórias em toda a região.  Além de enormes manadas de elefantes e antílopes, cidades humanas inteiras também migravam, levando consigo milhares de bois, ovelhas e, sobretudo, cabras, animais com extremo poder devastador em populações de plantas nativas. Por onde fossem, os humanos traziam essas espécies invasoras, que comiam toda vegetação do local, o que contribuía para processos ainda mais rápidos de desertificação. Cientistas acreditam que o Saara se transformou em um deserto em apenas pouco mais de 100 anos, o que demonstra a velocidade em que grandes mudanças podem ocorrer em nosso planeta.

Esquema mostrando concentrações humanas ao longo do tempo no Saara durante os períodos úmido e árido
Esquema mostrando diferenças na concentrações humanas ao longo do tempo no Saara – Por Krögelin et. al.
Ossadas humanas antigas encontradas no Saara evidenciam populações que viveram na região há milênios
Diversas ossadas humanas antigas foram encontradas em regiões previamente habitadas do Saara – Foto por Mike Hettwer

Com essa mudança abrupta, diversos povos e populações de animais morreram rapidamente. Hoje, cerca de 86% da megafauna do Saara está extinta ou ameaçada. Grandes animais de savanas, como elefantes, leões, guepardos e cachorros-pintados, não sobreviveram na região, enquanto outros restaram com populações extremamente fragmentadas. Além disso, o aquecimento global está contribuindo de forma significativa para o aumento das áreas desertificadas na região, ameaçando ainda mais as savanas e florestas do Norte da África. Desde 1920, o deserto já cresceu mais de 10%, em uma velocidade cada vez maior.

Órix-cimitarra (Oryx dammah), espécie outrora comum no Saara, hoje extinta na natureza pela desertificação
Uma vez comum no Saara, o Órix-cimitarra (Oryx dammah) está extinto na natureza – Por BIOSPHOTO
Alcelaphus buselaphus buselaphus, o gnu-bubal-africano, extinto no século XIX pela expansão do deserto
Alcelaphus buselaphus buselaphus, extinto no século XIX
Guepardo-do-Saara, um dos felídeos mais raros do planeta, ameaçado pela desertificação e fragmentação
O Guepardo-do-Saara é um dos felídeos mais raros do mundo – Farid Belbachir
Dromedário extinto na natureza há mais de 2 mil anos sobrevive apenas em cativeiro em todo o mundo
Embora comum em cativeiro, o dromedário está extinto na natureza há mais de 2 mil anos – Foto por PixaBay

O Saara teve uma importância significativa para a nossa evolução, considerando que foi por meio de seus corredores verdes do passado que os humanos conseguiram migrar para outras partes do mundo. No entanto, a desertificação recente da região obrigou povos a se deslocarem para outras regiões e provocou a extinção de inúmeras espécies. Com o agravamento do aquecimento global, tememos que, cada vez mais, savanas e florestas sejam destruídas. A história desse deserto revela a velocidade com que as mudanças acontecem na natureza e, com os processos de desertificação ocorrendo em diversas regiões do mundo, sobretudo na Amazônia, questionamos se novos Saaras vão surgir em breve.

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