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Ecocídio – Como civilizações se destruíram ao destruir o ambiente à sua volta

Quando pensamos na destruição ambiental causada pelo ser humano, logo lembramos de extinção de espécies, desmatamento ou extinções em larga escala. O que muita gente não sabe, entretanto, é que a ação humana já foi responsável por alterar alguns ambientes em uma escala tão grande, que até mesmo a vida humana se tornou ameaçada. Em…

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Quando pensamos na destruição ambiental causada pelo ser humano, logo lembramos de extinção de espécies, desmatamento ou extinções em larga escala. O que muita gente não sabe, entretanto, é que a ação humana já foi responsável por alterar alguns ambientes em uma escala tão grande, que até mesmo a vida humana se tornou ameaçada. Em uma época que tanto falamos do futuro de nossa espécie, devemos analisar o passado para não cometer os mesmos erros. Porém, infelizmente estamos tomando o mesmo rumo dessas civilizações extintas pela destruição ambiental que elas mesmas causaram.

Vista da cidade de Petra, na Jordânia, exemplo de civilização destruída por colapso ambiental causado pela ação humana
A cidade de Petra, na Jordânia, é um exemplo de como a destruição ambiental pode levar à ruína de um povo – Foto por Olena Pavlovich

Em seu livro “O Poema Imperfeito”, anteriormente já mencionado nesse site, Fernando Fernandez cita três exemplos de crises ecológicas que destruíram civilizações no passado. Brilhantemente, ele conta como o povo Anasazi construiu o pueblo de Chaco Canyon, a maior construção das Américas até o final do século XIX, no meio do deserto do Novo México. Por muito tempo, cientistas se questionaram como, no ano 900, esse grupo indígena conseguiu erguer uma edificação de madeira que abrigaria 3 mil pessoas, no meio de um deserto, e porque, poucos anos depois, ela teria sido completamente abandonada. A árvore mais próxima estava a centenas de quilômetros e, mesmo assim, mais de 200 mil troncos foram usados em sua estrutura.

Reconstituíção digital do Chaco Canyon no auge dos Anasazi, estrutura que abrigou até 3 mil pessoas no deserto do Novo México
Pintura digital representando Chaco Canyon em seu ápice – a estrutura abrigava até 3 mil pessoas – Por Saravask

Quando paleobotânicos estudaram a madeira da construção, tiveram uma grande surpresa. A madeira utilizada tinha vindo dali mesmo! Antes uma floresta, a área teve a maior parte de suas árvores arrancadas, ou para a construção de Chaco Canyon, ou para abrir espaço para lavouras, ou para servir de combustível para fogueiras. Com o tempo, esses nativos americanos tiveram que ir cada vez mais longe para buscar madeira. A falta de cobertura vegetal gerou um intenso processo de desertificação e, consequentemente, assoreamento dos rios. Menos de 300 anos após o fim da construção, esse pueblo estava vazio. Ao chegarem na área pela primeira vez, os europeus se depararam com essa enorme estrutura e, por onde iam, perguntavam quem foram os responsáveis pela grandiosa obra. O povo Navajo se referia a eles como “anasazi“, que em sua língua significa “os antigos”. Nem mesmo eles sabiam para onde os Anasazi tinham ido mas, atualmente, cientistas acreditam que a maioria morreu de fome ou sede, e o restante deixou a região para nunca mais ser visto.

Chaco Canyon atualmente no meio de grande deserto, resultado do desmatamento e desertificação provocados pelos Anasazi
Chaco Canyon se localiza hoje no meio de um grande deserto – Foto por D. Kennett

A região no Oriente Médio chamada de “Crescente Fértil” foi um dos berços da civilização humana, devido aos enormes avanços agrícolas feitos na área. Ao longo de milhares de anos, povos da Mesopotâmia surgiram e desapareceram, tendo construído enormes impérios como nenhum outro da época. Após mais de 5 mil anos de exploração, a área hoje é um grande deserto no qual nenhuma grande plantação pode existir sem o uso de tecnologias específicas. Da mesma forma, o Saara, antes uma enorme área verde, se desertificou rapidamente. Embora o ser humano não seja o único culpado, com certeza aceleramos drasticamente o processo em algumas áreas, o que gerou o fim de centenas de povos.

Representação artística do Império da Babilônia, civilização que floresceu e entrou em colapso no Crescente Fértil da Mesopotâmia
Representação do grande império da Babilônia (acima) em comparação com a mesma área atualmente (abaixo) – Foto por M. Lubinski
Sítio arqueológico da Babilônia, no Iraque, região hoje desertificada após milênios de exploração agrícola intensa

Entretanto, nenhum colapso ambiental causado pelo ser humano é tão intrigante quanto o da Ilha de Páscoa. Situada a 4.000 km da América do Sul, essa ilha vulcânica no Oceano Pacífico possui um clima ameno e, até pouco tempo atrás, possuía um solo extremamente fértil. Seu isolamento fez com que, ao longo de milhões de anos, diversas novas espécies surgissem no local, que contava com uma densa floresta, povoada com palmeiras gigantes, corujas, papagaios e saracuras. Por muito tempo, a ilha foi um ponto de nidificação de mais de 30 espécies de aves marinhas, mais do que qualquer outro local do planeta. Então, os seres humanos chegaram.

Representação da Ilha de Páscoa coberta por densas florestas antes da colonização polinésia, por Andreas Mieth
Representação da Ilha de Páscoa antes da colonização humana – Por Andreas Mieth

Os povos Polinésios originaram-se na região de Taiwan, no Sudeste Asiático. Há cerca de 5 mil anos, começaram a migrar entre ilhas, utilizando inicialmente canoas rudimentares, que foram substituídas por longas canoas a vela que suportavam várias pessoas ao mesmo tempo. Ao longo de 4 mil anos, colonizaram a maior parte das ilhas do Pacífico, incluindo a Nova Zelândia, Samoa, Taiti, Havaí, Ilhas Cook e diversos arquipélagos menores. Por onde iam, levavam consigo porcos e, provavelmente de forma intencional, ratos, que foram responsáveis por diversas extinções nos locais em que chegavam.

Mapa da região da Polinésia mostrando ilhas colonizadas pelos povos polinésios ao longo de quatro mil anos de navegação
Mapa da região da Polinésia – Por  K.R. Howe

Ao chegarem na Ilha de Páscoa, a quase 15 mil km de distância de sua terra original, os polinésios rapidamente começaram a alterar seu ambiente. Alimentavam-se principalmente de plantas nativas, porcos, ratos e animais marinhos, que pescavam utilizando técnicas sofisticadas. Centenas de árvores eram derrubadas anualmente para a construção de casas e, sobretudo, canoas. Chamados de Rapa nui, os habitantes da ilha ergueram grandes estátuas de pedra, chamadas de Moai, utilizando uma tecnologia sofisticada, ainda desconhecida. Em muitos casos, a cabeça é a única parte acima da superfície, mas um corpo de pedra existe enterrado abaixo. Cada estátua mede cerca de 20 metros e pesa mais de 15 toneladas. 

Estátuas Moai da Ilha de Páscoa, monumentos erguidos pelos Rapa Nui com tecnologia sofisticada ainda não completamente compreendida
Estátuas da Ilha de Páscoa – Fonte UCLA
Corpo completo de estátua Moai da Ilha de Páscoa, com a maior parte enterrada, revelando a verdadeira escala desses monumentos

Por volta de 1200, a população da pequena ilha era de mais de 15 mil pessoas. Grandes áreas de floresta eram destruídas para a agricultura, enquanto árvores também eram derrubadas para construções. A população de ratos da ilha também crescia de forma significativa. Esses animais alimentavam-se de ovos de aves e de sementes das grandes palmeiras, o que reduziu drasticamente a diversidade da ilha. Rapidamente, as florestas começaram a desaparecer e, com elas, grande parte dos alimentos dos Rapa Nui também sumiam. Ondas de fome varreram a população da ilha e os habitantes, acreditando que isso fosse obra de deuses, construíram ainda mais estátuas para agradá-los. Para movê-las, mais árvores ainda eram derrubadas para a construção de plataformas de madeira.  No total, mais de 880 estátuas foram erguidas.

Palmeiras gigantes da Ilha de Páscoa, espécie extinta por volta de 1600 pelo desmatamento e pela proliferação de ratos introduzidos
Palmeiras gigantes da Ilha de Páscoa foram extintas por volta de 1600 – Rod6807 em wikiMedia

Com o fim das últimas florestas, novas canoas não podiam mais ser construídas, o que impossibilitou a pesca de grandes animais. A erosão rapidamente tomou conta da ilha, acabando com a agricultura e secando fontes de água. A fome tomou conta da população, que começou a lutar por comida. Aves marinhas rapidamente foram consumidas e, quando acabaram, o canibalismo se tornou a opção de muitos sobreviventes. Quando os Europeus chegaram na ilha, na páscoa de 1722, encontraram uma pequena população de nativos famintos. Uma grande sociedade com tecnologias sofisticadas chegava ao fim, devido a um apocalipse que eles mesmos criaram.

Ilha de Páscoa após o colapso da civilização Rapa Nui, consequência do ecocídio que devastou a flora e fauna nativas da ilha
Fonte: gettyimages

A nossa noção de imutabilidade do mundo à nossa volta é extremamente danosa. Temos consciência de que nossos recursos são esgotáveis, mas preferimos fingir que sabemos, e, dessa forma, usamos o planeta de forma descontrolada. Muitas vezes no passado, acabamos com grandes ecossistemas e alteramos completamente a região em que vivíamos mas, pela primeira vez em nossa história, isso tem acontecido de forma global. Já eliminamos 83% das espécies de grande porte do nosso planeta e mais de 50% de nossas florestas. Criamos desertos, secamos mares e extinguimos até mesmo a ave mais comum do mundo. Se não alterarmos o nosso modo de vida rapidamente, deixaremos de presenciar, muito em breve, o fim de mais uma civilização: a nossa.

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Referências


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Comentários

One response to “Ecocídio – Como civilizações se destruíram ao destruir o ambiente à sua volta”

  1. Avatar de Rafael
    Rafael

    O que a cidade de Petra tem a ver com destruição ambiental? Vocês estão equivocados e levando as pessoas ao erro.

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