Introdução – Conservar ou Preservar
No final de 2020, a Assembleia Geral das Nações Unidas declarou o período de 2021-2030 como a Década da Restauração de Ecossistemas. A visão tradicional da proteção da natureza se baseia na ideia da preservação, que consiste na proibição de seu uso para que a ausência humana possa ter impactos positivos em ecossistemas intactos. Com o tempo, essa forma de manejo passou a ser menos utilizada, sobretudo por ela ignorar a possível existência de populações locais e sua possível dependência de produtos naturais. Espécies ameaçadas, se ignoradas, podem também desaparecer mais rapidamente sem programas de reprodução. A conservação, por outro lado, ganhou força nas últimas décadas, uma vez que busca a utilização do meio de maneiras sustentáveis, levando em conta todos os fatores socioambientais envolvidos.

Embora pareça simples e uma estratégia eficiente, a ideia original da conservação, infelizmente, não é o bastante. Diversos estudos mostram que alguns ecossistemas, mesmo sem nenhum tipo de extrativismo, não são mais sustentáveis, uma vez que os utilizamos de diversas formas há milhares de anos. Se deixados de lado, irão lentamente continuar perdendo sua biodiversidade até serem completamente extintos, uma vez que diversas peças-chave foram removidas desses ambientes. Seja por meio do replantio, da refaunação ou de uma completa reestruturação do ambiente, a maior parte dos ecossistemas só poderão existir a longo prazo através da restauração, ou seja, tornar o ambiente o mais parecido com que ele era antes da interferência humana.

Ecossistemas intactos
Por muito tempo, considerávamos que, embora uma grande parcela do planeta estivesse degradada, diversos ambientes intactos se escondessem nas grandes savanas africanas, no interior de florestas tropicais ou nos desertos mais isolados. Mapeamentos por satélite indicavam que, de todas as zonas em terra firme, apenas cerca de 20% a 40% estariam livres da interferência humana, ou seja, seriam ecossistemas intactos. Embora os números gerados por essas pesquisas remotas já sejam alarmantes, eles não retratam a perda da biodiversidade animal ou a redução da complexidade de cadeias alimentares, sobretudo por não levarem em conta fatores históricos.

Um novo artigo, publicado esse mês na revista Frontiers in Forests and Global Change, mostra um cenário muito mais alarmante. Utilizando mapeamentos de zonas naturais por satélite, mapas de ocorrência de espécies no passado e mapas de extinções locais nos últimos 500 anos de mais de 7 mil espécies contidos nos bancos de dados da IUCN, cientistas previram que apenas 3% das áreas naturais com mais de 10,000 km2 estão intactas, valor que aumenta para apenas 3,4% se em áreas de até 1,000 km2.

Embora alguns pesquisadores tenham criticado a pesquisa, por ela utilizar dados antigos de distribuição de espécies que podem conter erros estatísticos, outros apontaram que os 3% de áreas preservadas são extremamente otimistas se levarmos em conta que começamos a alterar drasticamente nosso planeta há pelo menos 50 mil anos. Isso indica que apenas 3% das áreas naturais de 500 anos atrás estão intactas. Porém, se levarmos em conta toda a nossa história, provavelmente não existem mais ecossistemas intactos.

Espalhadas pelo mundo, essas zonas naturais preservam comunidades quase idênticas ao que eram há 500 anos, mas isso pode mudar em breve. Apenas 11% das regiões intactas estão dentro de áreas protegidas e muitas delas estão na mira das indústrias mineradora, pecuária ou imobiliária. Áreas identificadas como ecossistemas intactos incluem partes do Leste da Sibéria e do Norte do Canadá, para florestas boreais e regiões de tundra, partes da bacia do Amazonas e do Congo, para florestas tropicais, e regiões do Saara, para os desertos. A maior parte das zonas preservadas estão dentro de reservas indígenas e sua proteção depende das comunidades locais.

Curiosamente, mapeamentos passados que mostraram a ausência da pegada ecológica humana não foram coincidentes com os achados desse estudo, que mostraram que mesmo regiões remotas e livres de impactos em larga escala podem não ser ecologicamente intactos, sobretudo devido à pressão da caça, espécies invasoras e zoonoses reversas (doenças humanas que transmitimos para animais), que se espalham rapidamente pelo ambiente sem que sejam detectadas por satélites, com destaque para o Ebola na África e para a Febre Amarela nas Américas.

Uma possível solução?
Entretanto, nem tudo está perdido. Como mencionamos em textos passados, a reintrodução de uma única espécie consegue, muitas vezes, devolver relações ecológicas a um ecossistema e, a longo prazo, aumentar drasticamente a biodiversidade local. Os autores também apontaram que cerca de 20% do planeta pode retornar ao mesmo nível de preservação do que era há cerca de 500 anos com a introdução de apenas uma a cinco espécies, o que é um verdadeiro alívio para a conservação. Algumas florestas do Congo, por exemplo, poderiam ser recuperadas apenas com a reintrodução do elefante-da-floresta (Loxodonta cyclotis), extinto localmente, mas cuja caça é proibida atualmente.

Há milhares de anos, podemos ter tido uma parcela de culpa na extinção de 80% dos grandes animais do planeta. Já cortamos metade das árvores da Terra (que podem se esgotar em apenas 200 anos), pescamos mais da metade dos peixes e extinguimos, de forma proposital, dezenas de espécies (sem contar as milhares de espécies extintas anualmente devido às nossas ações, mesmo sem intenção de extingui-las). Desde 1970, perdemos 68% das populações selvagens e, atualmente, a biomassa humana supera a de todos os mamíferos selvagens juntos. Mesmo assim, a Década da Restauração de Ecossistemas tem como algumas das metas proteger mais áreas selvagens e transformar quase metade do planeta em reservas ambientais, além de devolver protagonistas a cenários onde eles não existem mais.

Embora seja uma meta difícil, ela mostra nosso empenho e perseverança de conservar nosso planeta e de devolver vida a nossos ecossistemas, minimizando, na medida do possível, nossos impactos. Resta esperar 2030 para ver o quanto caminhamos.
Referências
Artigo Where Might We Find Ecologically Intact Communities?
Artigo Late Quaternary megafaunal extinctions on the continents: a short review
Artigo The last frontiers of wilderness: Tracking loss of intact forest landscapes from 2000 to 2013
Texto Restauração de ecossistemas será o tema do Conservação Integrada Summit 2021-2030
Texto 97% of Earth’s land area may no longer be ecologically intact


Deixe seu comentário