Amazonas: O rio brasileiro que surgiu na África

O Rio Amazonas é considerado por muitos o maior rio do planeta. Com quase 7 mil quilômetros de comprimento, uma bacia que ocupa cerca de 40% de toda a América do Sul e uma vazão de 209.000 m³/s (o equivalente à vazão combinada dos sete outros maiores rios do planeta), esse corpo d’água é responsável por 20% de toda água doce despejada … Read More

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O Rio Amazonas é considerado por muitos o maior rio do planeta. Com quase 7 mil quilômetros de comprimento, uma bacia que ocupa cerca de 40% de toda a América do Sul e uma vazão de 209.000 m³/s (o equivalente à vazão combinada dos sete outros maiores rios do planeta), esse corpo d’água é responsável por 20% de toda água doce despejada nos oceanos diariamente. Mas afinal, de onde vem toda a sua água? Como é possível que ele exista? E ainda, como ele surgiu?

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Encontro do Rio Negro e do Rio Solimões, afluentes do Amazonas

As origens do Rio Amazonas remontam à Gondwana, um supercontinente formado pela junção da América do Sul, África, Antártida, Austrália e do sub-continente indiano. Na metade do período Cretáceo, há cerca de 100 milhões de anos, uma grande bacia, apelidada de  “proto-Amazon-Congo river system” existia desde a porção central do continente africano até o Oceano Pacífico. Um grande rio que cruzava os dois continentes no sentindo leste-oeste, oposto ao Amazonas atual, foi, provavelmente, um dos maiores que já existiram na história do nosso planeta, mas foi parcialmente destruído com o surgimento do Oceano Atlântico. A nova bacia exclusivamente africana formou o molde para o que se tornaria o Rio Congo milhões de anos depois.

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Representação gráfica da bacia de vários rios atuais em comparação com a geografia durante a quebra da Gondwana com a América do Sul à esquerda e a África à direita – Imagem do artigo de Ribeiro (2006)

Durante a separação dos dois continentes, o fluxo de água na porção sul-americana foi cortado, e, posteriormente, sua bacia foi invadida pelos oceanos circundantes, criando uma área de mares rasos e recifes. Posteriormente, a porção Atlântica foi fechada com o surgimento de uma cadeia de montanhas na região, deixando aberta apenas a conexão com o Oceano Pacífico e, posteriormente, criando rios que desaguariam no mar interior do continente.

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Modelo paleogeográfico representando os possíveis mares rasos na América do Sul durante a fragmentação da Gondwana, 122 milhões de anos atrás  (ARAI, 2005, 2007, 2011) – Retirado da apresentação “Reconstrução paleogeográfica com base em paleontologia: Estudo de caso do Atlântico Sul Aptiano”, feita por Mitsuru Arai com apoio da Petrobrás
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O surgimento de uma cadeia de montanhas na porção leste da América do Sul  fechou a ligação da bacia proto-amazônica com o Oceano Atlântico – Diagrama feito pela UNC (EUA).

A quebra da Gondwana foi causada pela movimentação no sentido leste-oeste da Placa Sul-Americana, que colidiu com a Placa de Nazca, que, por sua vez, se movia no sentido oeste-leste.  Esse choque ocasionou a subducção de Nazca e, consequentemente, o fechamento do braço do pacífico para dentro da América do Sul, na região que se tornaria os Andes. Esse processo gerou um mar interior com espécies, sobretudo do pacífico, que deixaram linhagens que evoluíram em condições salobras e, posteriormente, na água doce, uma vez que o constante fluxo de rios para o mar interior e a deposição de sais foi progressivamente reduzindo a salinidade da água. Atualmente, mais de 20 espécies de raias de água-doce, filogeneticamente próximas a raias de água-salgada do Pacífico, vivem no Amazonas.

Cordilheira dos Andes: a fascinante cadeia de montanhas da América do Sul!  - Rodas nos pés | Geology, Plate tectonics, Indian history facts
Placas de Nazca e Sul Americana se chocando
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O fechamento do braço do Pacífico no interior da América do Sul criou um grande lago de água doce, com espécies únicas descendentes de animais do Pacífico –  (Acima)                                                       Comparação entre espécies de raias do Pacífico e da Bacia do Amazonas (Abaixo)
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Nos milhões de anos seguintes, o surgimento de uma cordilheira na porção central do continente, além do aparecimento da floresta amazônica 15 milhões de anos atrás, criou uma rede de afluentes que desaguavam no grande lago amazônico, que transbordou e criou um novo rio em direção ao Pacífico. (Para entender como as florestas podem alterar o regime de chuvas e criar rios, clique aqui). Há cerca de 9 milhões de anos, golfinhos do Pacífico colonizaram o continente, dando origem aos botos dulcícolas. Entretanto, o crescimento acelerado dos Andes durante o Mioceno, entre 8 e 6 milhões de anos atrás, cortou a sua drenagem, criando uma rede de planícies alagadas entre as duas cordilheiras, além de um rio que seguia na direção do Atlântico na porção leste dos Arcos Purus. Essa bacia endorreica foi o que originou a Bacia do Solimões, que existe até hoje na área e possui uma fauna exclusiva.

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Isthminia, golfinho extinto do Pacífico ancestral dos botos – Artista desconhecido
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Boto-cor-de-rosa (Inia geoffrensis), uma das três espécies atuais de botos continentais sul-americanos – Foto por Martina Kiselová
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O surgimento dos Arcos Purus e, posteriormente, dos Andes, criou uma bacia endorreica na região Amzônica

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O enorme roedor Phoberomys pula para tentar escapar do ataque de um jacaré (Purussaurus). – Arte por Julio Lacerda

Pouco tempo depois, essa bacia cavou seu caminho pelos Arcos Purus e originou um rio que unia as porções leste e oeste dessa cordilheira, criando, finalmente, o Rio Amazonas. O ciclo de glaciações ocorrido nesse período colaborou para a drenagem do grande lago para dentro do rio, além de favorecer que milhares de litros de água, vindos dos Andes, entrassem na bacia, o que aumentou ainda mais o seu fluxo. Cerca de 4 milhões de anos atrás, surgiu uma corrente de ar, que partia da África e chegava na Amazônia, carregando toneladas de nutrientes do recém formado Saara para a floresta, o que colaborou para a sua expansão. O crescimento da floresta corroborou para a manutenção do rio e para o surgimento de inúmeras outras bacias da América do Sul, através dos rios voadores. Cerca de 3 milhões de anos atrás, uma nova leva de animais vindos do Atlântico colonizou sua foz e alguns se adaptaram à água-doce, como o peixe-boi-da-amazônia (Trichechus inunguis), que vive exclusivamente no rio, e o tubarão-cabeça-chata (Carcharhinus leucas), espécie marinha que pode ser eventualmente encontrada a mais de 4.000 quilômetros de seu delta.  A quantidade de sedimentos transportados pelo rio era tanta que essa característica moldou o leito oceano perto de sua foz e possibilitou a fixação de corais, que são nutridos pelos sedimentos da bacia. Um recife com mais de 9,500 km² existe no local até hoje, com uma fauna conhecida de 40 espécies de coral, 60 espécies de esponja (sendo 29 ainda não descritas pela ciência) e 73 espécies de peixes.

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Configuração simplificada atual da bacia amazônica
Área de ocorrência do peixe-boi-da-amazônia e do peixe-boi-marinho, além de uma área de hibridização.
Área de distribuição dos peixes-boi americanos
Tubarão-cabeça-chata ao lado de um peixe de água doce, ambos pescados no Rio Amazonas
Tubarão-de-cabeça-chata (Carcharhinus leucas) encontrado no Rio Amazonas
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Recife de coral próximo da foz do Amazonas

A configuração e os ciclos atuais do Rio Amazonas são, relativamente, muito recentes, tendo sido firmadas há pouco mais de 400 mil anos. Entretanto, a porção central da bacia manteve uma configuração similar nos últimos milhões de anos, sobretudo nas regiões de planícies alagadas. O lento fluxo de água nessas áreas gerou meandros extremamente longos, que caracterizam a área. Durante a época das cheias, a região se torna uma grande planície alagada, com uma diferença de até 7 metros no nível da água em algumas regiões.

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Meandros do Rio Amazonas – Foto por SK Films
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Planícies alagadas do Amazonas – acima – e foto de árvores submersas – abaixo – Por Cristian Dimitrius

Atualmente, no seu ponto mais largo, o Rio Amazonas pode alcançar 11 quilômetros entre uma margem e outra e até 100 metros de profundidade em sua região mais profunda. Possui mais de 2.500 espécies de peixes, além de centenas de espécies de plantas endêmicas. Ele desloca tanta massa diariamente que é capaz de criar uma anomalia no campo eletromagnético da Terra sobre a América do Sul.  Ele é essencial para a manutenção da floresta e de inúmeras comunidades locais. Sua relevância mundial se deve, principalmente, a seu valor sócio-ambiental e a sua história, que nos mostra a mutabilidade do planeta e, ao mesmo tempo, nos ensina a importância da preservação de nossa natureza.

Referências

Sobre o Amazonas

Texto “Amazon River”, publicado no site geologypage.com

Origem Gondwanica do Amazonas

Artigo “Modification of the Western Gondwana craton by plume–lithosphere interaction”, por Hu et al.

Texto “The Amazon-Congo River

Origem dos Andes e Inversão do Fluxo do Amazonas

Texto “Age of the Amazon River estimated at 11 million years”, publicado no site  Mongabay.com

Artigo “Amazonia Through Time: Andean Uplift, Climate Change, Landscape Evolution, and Biodiversity”, por Hoorn et al.

Artigo “Eustatic and tectonic change effects in the reversion of the transcontinental Amazon River drainage system”, por Caputo e Soares

Artigo “Late Miocene onset of the Amazon River and the Amazon deep-sea fan: Evidence from the Foz do Amazonas Basin”, por Figueiredo et al.

Cetáceos Sul-Americanos

Artigo “Isthminia panamensis, a new fossil inioid (Mammalia, Cetacea) from the Chagres Formation of Panama and the evolution of ‘river dolphins’ in the Americas”, por Pyenson et. al

Tubarão-cabeça-chata no Amazonas

Texto “Sharks In The Amazon River?”, publicado no site rainforestcruises.com

Recife Amazônico

Artigo “An extensive reef system at the Amazon River mouth”, por Moura et al.

6 Comments on “Amazonas: O rio brasileiro que surgiu na África”

  1. Realmente quem mora na Amazônia, percebe o quanto se parecem as Bacias hidrográficas dos Rios Congo e Amazonas. Basta viajar de avião.

  2. Só uma correção, o rio amazonas em seu ponto mais largo tem muito mais do que o dobro da que foi dita na matéria.

    A matéria disse que o Rio Amazonas chega a ter 11 km de largura, porem, a Cidade de Santarem fica em uma margem, e a cidade de Alenquer fica na exata margem oposta, e elas ficam há 50 km de distancia, separadas unicamente pelo Rio Amazonas.

    1. Olá, entre Santarém e Alenquer existem faixas de terra que não são considerados como leito do rio. Aritapera por exemplo fica entre as duas cidades. Mesmo sendo alagada a maior parte do tempo, não é considerado como leito.

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