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Ainda dá tempo de salvar nossas espécies mais ameaçadas?

Quando pensamos em espécies ameaçadas, geralmente lembramos de pandas, tigres e elefantes. Embora estejam em risco de desaparecer completamente do planeta, sua fama ajudou a financiar diversos projetos de conservação, que trabalham dia e noite para salvar esses organismos únicos. Entretanto, pesquisas apontam que, anualmente, mais de 2000 mil espécies são extintas (alguns dados sugerem…

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RR Red Panda Aug 2016

Quando pensamos em espécies ameaçadas, geralmente lembramos de pandas, tigres e elefantes. Embora estejam em risco de desaparecer completamente do planeta, sua fama ajudou a financiar diversos projetos de conservação, que trabalham dia e noite para salvar esses organismos únicos. Entretanto, pesquisas apontam que, anualmente, mais de 2000 mil espécies são extintas (alguns dados sugerem que cerca de 200 são extintas diariamente, totalizando mais de 73.000 ao ano), das quais a maioria é totalmente desconhecida para o público comum. Sendo assim, ainda dá tempo de salvar as espécies mais ameaçadas do planeta? E ainda, o que podemos aprender com nossos erros e acertos?

Baleia jubarte saltando no oceano, uma das maiores espécies ameaçadas do planeta salva pela proibição da caça comercial
Jubarte, uma das espécies ameaçadas mais famosas do planeta

O ato de preservar uma espécie ameaçada consiste em seu monitoramento, proteção governamental, fiscalização, prevenção de caça/pesca e, em alguns casos, sua reprodução em cativeiro, bem como todo o processo de reabilitação e de devolução à natureza. Embora pareça relativamente simples, a maioria das espécies é negligenciada ou sequer é conhecida, enquanto outras lutam contra a destruição de habitat, a caça ilegal ou com a falta de investimentos do governo. Em outros casos, por outro lado, alguns animais cuja extinção era considerada inevitável voltaram à natureza de forma surpreendente, graças ao esforço de governos e até de organizações não governamentais.

Último tilacino fotografado no zoológico de Hobart em 1933, espécie extinta em 1936 pela negligência do governo australiano
Tigre-da-tasmânia, uma espécie extinta em 1936 devido à negligência do governo australiano. A primeira e única lei visando sua proteção foi aprovada 59 dias após sua extinção.

Um bom exemplo da importância dessas ações de proteção é o caso da saiga (Saiga tatarica), um antílope peculiar que possui uma tromba e que vive em grandes bandos, em estepes da Ásia. Originalmente, essa espécie vivia em toda a América do Norte, Europa e Ásia mas, devido a mudanças climáticas e, mais recentemente, à ação do homem, sua população se reduziu de forma extremamente drástica, de milhões de indivíduos para poucas centenas, por volta de 1920. Entretanto, a proibição de sua caça pela antiga União Soviética elevou sua população para mais de 2 milhões de indivíduos em 1950, mostrando a eficiência de leis para a proteção animal. Após a queda da União Soviética, os novos países que dela faziam parte não mantiveram sua proteção, fazendo com que a espécie entrasse em declínio novamente. Atualmente, apenas 50 mil desses animais vivem na natureza, o que corresponde a aproximadamente 5% do número de 15 anos atrás.

Saiga (Saiga tatarica), antílope de tromba peculiar das estepes asiáticas, em grave declínío populacional e risco de extinção
A saiga, um dos antílopes mais raros do mundo

No momento em que você está lendo esse texto, existem animais cuja extinção é apenas uma questão de tempo, e que, provavelmente, nada mais poderá ser feito. A vaquita (Phocoena sinus), uma espécie de golfinho do México com apenas 140 cm de comprimento, é, atualmente, um dos animais documentados mais ameaçados do mundo, sobretudo devido à poluição e ao uso de redes de pesca nas áreas em que vive. Segundo dados da IUCN (International Union for Conservation of Nature), sua população era de aproximadamente 600 animais em 1997, 100 em 2014, 60 em 2015, 30 em 2016 e apenas 12 em 2018. Embora seu declínio já estivesse acentuado nas últimas décadas, apenas em 2017 grandes projetos de proteção foram iniciados pelos governos do México e dos Estados Unidos. Após tentativas falhas de criação em cativeiro, essa espécie será, provavelmente, uma das próximas vítimas conhecida da ação humana.

Vaquita (Phocoena sinus) no Golfo da Califórnia, o menor cetáceo do mundo e o mais ameaçado, com apenas 12 indivíduos em 2018
Uma vaquita, o cetáceo mais raro do mundo

Entretanto, nem tudo está perdido. Com um manejo correto e com investimentos governamentais ou do setor privado, uma espécie quase extinta pode, sim, florescer novamente. Dentro de inúmeros exemplos, o que mais se destaca é o do Falco punctatus.  Após constatarem uma população de apenas 4 indivíduos em 1974, os biólogos Gerald Durrell e Carl Jones criaram um santuário na Ile aux Aigrettes, no arquipélago de Maurício, com o objetivo de salvar essa ave. Foram anos de estudo, coleta e manejo de ovos e de monitoramento dos filhotes e adultos e, em 1984, sua população ultrapassava os 50 indivíduos. Por volta de 1990, uma população autossustentável já vivia na ilha e, atualmente, mais de 400 animais em idade reprodutiva estão vivos. Embora possuam baixa diversidade genética, estudos apontam sua viabilidade no ambiente.

Falco punctatus em Maurício, espécie de falcão salva da extinção por programa de reprodução em cativeiro iniciado nos anos 1970
Falco punctatus, uma espécie que voltou da beira da extinção

Dessa forma, podemos perceber que, caso as espécies ameaçadas sejam corretamente manejadas, elas podem, sim, ter um futuro pela frente. Pelo mundo, diversos projetos como o Tamar possuem a missão de auxiliar na preservação e na reprodução de espécies ameaçadas, criando um futuro melhor para todo o planeta. Espécies como o rinoceronte-de-java (43 indivíduos) ou o íbis-eremita (500 indivíduos) podem não estar mais entre nós nos próximos anos mas, com toda certeza, o trabalho e a dedicação de centenas de profissionais em todo o mundo garantirão que muitas outras espécies perdurem por milhares de anos.

Referências


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