A extinção não necessariamente é o fim. Assim como mencionamos em diversos textos, organismos considerados extintos podem ser redescobertos (tema central do texto A Volta dos que Não Foram) e avanços científicos já nos permitiram até mesmo clonar espécies extintas).
Em contrapartida, uma espécie extinta na natureza (EW) é aquela que, segundo a definição da IUCN, só pode ser encontrada cultivada, em cativeiro (como o caso de reservas privadas, santuários e zoológicos) ou naturalizada (quando a espécie vive no meio selvagem sem o auxílio humano, porém longe de sua área de ocorrência natural). A espécie deve ser buscada exaustivamente em diferentes épocas do ano e por um longo período de tempo e, caso não seja encontrada, mas ainda sobreviva fora do ambiente natural, entrará para essa categoria.

Embora seja uma categoria alarmante de risco de extinção, a espécie EW pode ser reintroduzida caso sua população seja viável e caso seu habitat seja relativamente estável e protegido, um feito extremamente complexo que envolve políticas públicas, avanços científicos e a própria existência de zoológicos, o único local onde muitas dessas espécies ainda existem.

Atualmente, 84 espécies são consideradas Extintas na Natureza pela IUCN. Dessas, 40 são animais, sendo 2 artrópodes, 16 moluscos, 11 peixes, 5 aves, 2 répteis, 2 anfíbios e 2 mamíferos. Conheça a seguir quatro animais que poderão repovoar nossos ambientes naturais no futuro:a
1- Caracois Partula
As espécies de caracóis do gênero Partula são nativas de diversas ilhas na região da Polinésia Francesa. Em 1967, o caramujo-gigante-africano (Lissachatina fulica) foi introduzido na área para fins alimentares e, poucos anos depois, passou a ser um grande problema ao se tornar uma praga agrícola (problema que afetou grande parte do mundo, inclusive o Brasil), tendo afetado também os ambientes selvagens, reduzindo as populações de diversas espécies do gênero.


Em 1977, cientistas introduziram o Euglandina rosea nas ilhas, uma espécie de caracol carnívoro, com o objetivo de reduzir as populações do gigante africano. Entretanto, o novo invasor passou a se alimentar também dos caracóis Partula. Das 76 espécies consideradas aceitas pela IUCN, 32 são hoje consideradas Extintas (EX), 13 são avaliadas como Extintas na Natureza (EW), 19 são Criticamente Ameaçadas (CR), 7 Ameaçadas (EN), 1 Vulnerável (VU), 2 Baixo Risco de Extinção (LC) e 2 possuem Dados Insuficientes para sua avaliação de risco (DD).

Atualmente, algumas das espécies EW estão sendo estudadas para serem reintroduzidas, com sua reprodução assistida em cativeiro e com mais de 5.000 sendo soltas em reservas livres de caramujos invasores. Embora esses projetos tenham tido certo sucesso, sua sobrevivência ainda dependerá do ser humano enquanto as espécies danosas ainda existirem em suas ilhas.

2- Isópode-de-Socorro (Thermosphaeroma thermophilum)
O isópode-de-socorro é um crustáceo aquático parente dos famosos tatuzinhos-de-jardim. Endêmico de uma única fonte termal em Socorro, Novo México, foi descoberto em 1897 e, devido à sua pequena área de ocorrência, foi extensamente coletado e passou a viver em diversos zoológicos e centros de pesquisas dos Estados Unidos. Após a construção de um aqueduto que levava água para a cidade local, em 1947, o animal passou a viver praticamente de forma exclusiva dentro dessa construção humana.

Em 1980, o rompimento da tubulação secou o aqueduto, extinguindo o animal também nesse local, mas a espécie foi então reintroduzida em tanques na área. Em 1988, uma seca matou a população selvagem, que foi novamente reintroduzida mas, em 1990, a fonte natural foi convertida em uma sauna e casa de banho, destruindo completamente seu habitat natural, o que levou a espécie a ser considerada extinta na natureza. Hoje, sua população na área vive em tanques artificiais, com um número total de cerca de 300 indivíduos. Esforços de revitalizar sua área de ocorrência são atualmente planejados.

3- Corvo-do-havaí (Corvus hawaiiensis)
O corvo-do-havaí (Corvus hawaiiensis) é uma ave nativa de florestas tropicais da porção sudoeste da Ilha do Havaí, a maior ilha do arquipélago. A destruição da cobertura vegetal da região, assim como a introdução de gatos, ratos e mangustos-asiáticos (Urva auropunctata) reduziram drasticamente a população dessa ave, além da infecção dos parasitas Toxoplasma gondii e Plasmodium relictum nesses animais.

Considerada uma das aves mais inteligentes do mundo, sobretudo devido à sua capacidade de vocalização e do uso de ferramentas, foi extinta na natureza no ano de 2002. Com uma população atual de cerca de 120 indivíduos em cativeiro, é atualmente um dos animais com maior investimento financeiro em sua reintrodução, embora esse processo seja extremamente difícil no momento.

Em primeiro lugar, tentativas de soltura foram falhas até o momento, uma vez que aves nascidas em cativeiro são facilmente predadas pelo gavião-do-havaí (Buteo solitarius). Isso fez com que a espécie fosse extinta na natureza novamente após sua primeira reintrodução. Além disso, a baixa diversidade genética das aves em cativeiro resultam em uma grande preocupação com a endogamia, problema que os cientistas pretendem resolver com manipulação genética no futuro. No momento, pesquisadores pretendem introduzir essa ave em Maui, uma outra ilha local que, embora não seja o último lugar de ocorrência da mesma, parece ter abrigado esse animal antes da chegada humana.

4- Órix-cimitarra (Oryx dammah)
O órix-cimitarra é um grande herbívoro nativo do norte da África, extremamente bem adaptado ao clima semi-árido da região. Sua população foi impactada após a desertificação do Saara nos últimos milhares de anos e, posteriormente, continuou em rápido declínio ao ser caçada como fonte de carne e por seus chifres. Posteriormente, a introdução de cavalos e vacas em suas áreas de pastagem, o início de sua caça com armas de fogo e, posteriormente, seu uso como fonte de alimento na Segunda Guerra Mundial e na Guerra Civil do Chad provocaram o desaparecimento da maioria das populações restantes. A espécie passou a ser considerada Extinta na Natureza em 2000, após anos sem nenhum avistamento.

Atualmente, a espécie faz parte de um grande plano mundial de conservação, que envolve centros de reprodução, zoológicos e reservas particulares de quatro continentes. Cerca de 1.750 animais são destinados à reprodução e/ou reintrodução, de uma população total de cerca de 15.000 indivíduos em cativeiro.

Desde 2016, centenas de indivíduos foram soltos em uma reserva fechada no Chad, que já conta com diversos filhotes nascidos no local, com uma população semi-selvagem atual de aproximadamente 400 indivíduos. Em breve, alguns desses animais serão completamente soltos e mais reservas serão criadas, comprovando mais um caso de sucesso na conservação de espécies ameaçadas.

Obs.: Se você quer saber mais sobre as duas espécies brasileiras extintas na natureza, a ararinha-azul (Cyanopsitta spixii) e o mutum-do-nordeste (Pauxi mitu), leia o nosso texto de 2020 De Volta ao Lar – Conheça os desafios da reintrodução de espécies extintas na natureza.
Para conhecer o que aconteceu nesses últimos 3 anos com essas duas espécies, leia as reportagens de O Eco (que fala sobre os mutuns que já se reproduzem livremente na natureza) e acompanhe o trabalho da Associação para a Conservação de Pcitacídeos Ameaçados (para acompanhar a vida das ararinhas que foram reintroduzidas na caatinga). Em breve, teremos um novo texto exclusivamente sobre essas duas histórias.
Referências
Artigo Caracol Partula – National Geographic Brasil
“Moorean tree snail survival revisited: a multi-island genealogical perspective”
CRAX – Sociedade de Pesquisa da Fauna Silvestre
Mutuns-de-alagoas se reproduzem de forma natural pela primeira vez em 40 anos
“The Hawaiian Crow Is Once Again Extinct in the Wild
Recovery Effort Looks to Maui as Next Step for Future of the Hawaiian Crow
Polynesian snails release is biggest ever of ‘extinct in the wild’ species
“Scimitar-horned Oryx–the End of the Line?


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