A Serra do Curral, símbolo de Belo Horizonte, foi eleita patrimônio natural, cultural e paisagístico da cidade desde sua fundação e hoje, mais do que nunca, corre perigo devido à mineração. A Serra do Curral é um complexo montanhoso que pertence ao quadrilátero ferrífero, porção sul da Cordilheira do Espinhaço, em Minas Gerais, que se extende por 7000 km², possuindo afloramentos de dolomita, rochas quartzíticas, itabirito, magnetita e hematita. O minério de ferro presente nesses tipos rochosos torna o solo avermelhado, dando origem ao campo rupestre ferruginoso, ou a chamada canga.
As informações históricas contidas nesse texto são retiradas do estudo “SERRA DO CURRAL: SIGNIFICADOS E IMPORTÂNCIA DE PROTEÇÃO“, de 2021.
Importância ambiental da Serra do Curral para Belo Horizonte
A montanha engloba uma região de transição entre a Mata Atlântica e o Cerrado. Visando à proteção da serra e da sua biodiversidade, existem parques na base da Serra, como a mata da Baleia, o Parque das Mangabeiras e o Córrego do Cercadinho. E por sua variedade de biomas, se tornou morada de várias espécies de animais, inclusive alguns com risco de extinção. Dentre as espécies de animais mais famosas, destacam-se o lobo-guará, o quati, a águia-serrana e o pássaro rabo-mole-da-serra (Embernagra longicauda), que em Belo Horizonte é encontrado exclusivamente na região da Serra do Curral.
Segundo Custódio (2021), a Serra é fonte de várias nascentes de córregos, inclusive sendo este um dos motivos da escolha desta área para a capital mineira no séc. XIX, que abastecem a região metropolitana de Belo Horizonte, como, por exemplo, afluentes do Ribeirão Arrudas e o Córrego do Cercadinho, que têm suas nascentes na Serra do Curral. Ou seja, se hoje uma cidade existe chamada de Belo Horizonte, antigo Curral Del Rey, a Serra do Curral é a grande responsável.
Tais características tornam a Serra do Curral um ativo econômico valoroso pelo minério, mas também um ativo ambiental ainda mais importante pela flora, fauna, nascentes e o micro clima da cidade.

Breve histórico de Belo Horizonte e a exploração da Serra
Inicialmente conhecida como Curral Del Rey, Belo Horizonte foi fundada no início do século XVIII, tendo duas versões para o seu surgimento. Na primeira versão, a cidade foi criada em 1709 pelo Capitão Francisco Homem Del Rey, daí seu nome. Na segunda versão e a mais aceita, o Arraial foi criado pelo bandeirante João Leite da Silva Ortiz, em 1701, após o mesmo fundar a Fazenda do Cercado.
Foi na localidade denominada Curral Del Rey que, nos finais do século XIX, o governo de Minas Gerais decidiu implantar a nova capital, inicialmente chamada Cidade de Minas, e, mais tarde, de Belo Horizonte, pela beleza da paisagem da Serra que cercava a localidade.
Em 1897 surge Belo Horizonte, da poeira da demolição total do Curral Del Rey, como cidade planejada, tendo Paris e Washington como inspirações, e criada para duzentos e cinquenta mil habitantes. A organização urbana foi planejada com influência da Serra do Curral e tecnicamente pensada para valorizar a presença da Serra, com seus mananciais para abastecer a cidade, sendo vista como uma barreira para manter o clima agradável e que inspira, inclusive, o nome da Capital.
A mineração na Serra se inicia na década de 40 do séc. XX, mas o conhecimento da existência de minério de ferro na Serra do Curral era sabido desde os primórdios, mas faltavam técnicas para a sua exploração. Uma parte da mineração era estatizada e a outra parte realizada por empresas privadas, nascendo, assim, o valor econômico direto da Serra.
Segundo o IPHAN (1961), na década de 1960, a Fazenda Capão, que ficava ao pé da Serra do Curral, foi cedida à Mineradora Ferro Belo Horizonte S/A (Ferrobel). Todavia, com vistas à proteção da Serra do Curral, em 1961, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) procedeu ao tombamento do Pico de Belo Horizonte e sua base composta pelo maciço montanhoso, numa extensão total de 1.800 metros, sendo 900 metros para cada lado, tendo como referência o eixo formado pela Avenida Afonso Pena.
Mesmo com o tombamento, a cidade de Belo Horizonte criou a Ferrobel no intuito de explorar a Serra. As atividades da empresa pararam em 1979 e em 1983 o Parque das Mangabeiras foi inaugurado com uma área de 2,4 milhões de m², abrigando dezenas de nascentes, como do córrego da Serra, afluente do Ribeirão Arrudas e do Rio das Velhas, que integram a bacia do Rio São Francisco.

Olhai as montanhas, olhai as montanhas, mineiros, como a Serra do Curral, mutilada, vós que não as defendeis, olhai-as enquanto vivem pois, a golpes de tratores vão sendo assassinadas, pela culpa única de suas entranhas de ferro. Mineiros, porque não percebeis que essa ferrugem que vos empoeira os olhos, essa terra vermelha, é o vosso sangue injustamente derramado, na luta que vos abate.
Carlos Drummond de Andrade
O que está acontecendo agora?
Desde 2018, a Tamisa (Taquaril Mineração S.A.) tenta emplacar um grande projeto de mineração na Serra do Curral. O empreendimento vai destruir o que resta da Serra e afetar a saúde e a qualidade de vida da população. É um projeto considerado de alto impacto ambiental – enquadrado na classe 6, a categoria mais alta na legislação.
Mesmo com as negativas de conselhos, o IEF apresentou parecer favorável à proposta. Na madrugada do dia 30 de abril, o Conselho Estadual de Política Ambiental (Copam) aprovou o licenciamento total para o Complexo Minerário Serra do Taquaril, na região da Serra do Curral, em Nova Lima (Região Metropolitana de Belo Horizonte).
De acordo com parecer da Secretaria de Estado do Meio Ambiente (SEMAD), 41 hectares de Mata Atlântica (o equivalente a cerca de 57 campos de futebol) serão devastados. Destes 41 hectares, 6 são em área de preservação.
O empreendimento será instalado em um local considerado uma Área Prioritária para Conservação da Biodiversidade Especial, sobretudo devido à alta concentração de espécies da Mata Atlântica e dos Campos Rupestres na Serra, estando pelo menos 40 destas ameaçadas de extinção.
Atualmente 526 espécies de animais vivem no local, sendo 33 endêmicas, com vivência restrita à região. Grandes animais carnívoros, importantes para a manutenção da população de presas, serão severamente afetados, como onças-pardas, lobos-guarás e águias-serranas, sendo esta última frequentemente avistada na região.

Além disso, existe um projeto em curso para a Serra do Curral se tornar um Patrimônio Cultural e Ambiental do Estado, ela é um dos cartões postais de Belo Horizonte e o complexo vai desmatar 41,27 hectares de vegetação nativa.
O Observatório da Mineração aponta outros impactos na vida dos belorizontinos, como a poluição do ar causada pelas explosões utilizadas para a extração do minério, a poluição sonora causada pela atividade mineradora em três turnos diários, riscos de desabamentos ampliados pelas explosões e pela falta de vegetação (que evita a erosão do solo), além da morte de cursos d’água que nascem na região, prejudicando o abastecimento de Belo Horizonte. Além disso, a mineração pode ocasionar a migração de animais para áreas mais povoadas de Belo Horizonte, facilitando a transmissão de doenças como a Febre Amarela.
Nós, do Tunes Ambiental, como moradores de Belo Horizonte que prezam pela preservação do meio ambiente e da manutenção da qualidade de vida animal e humana da região, expressamos aqui nossa indignação pela falta de cuidado com a Serra do Curral,que inspirou o nome, fornece a água e é motivo de preservação para a nossa cidade. Que Belo Horizonte não perca aquilo que a torna mais bela.
Como ajudar?
Acesse Tira o Pé da Minha Serra e ajude a colocar pressão sobre o governo de MG, que NÃO PODE emitir a licença!
Saiba as últimas notícias no site do Projeto Manuelzão e nas redes sociais da vereadora Duda Salabert.
Leia também: Mineração: Um risco iminente em Minas Gerais
Referências:
Serra do Curral: Significados e Importância de proteção
IPHAN – INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL. Ata da reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, de 13 de junho de 1961.


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