Descubra como um vulcão criou o sítio fossilífero Ashfall Fossil Beds, em um desastre ecológico que mudou a história da América do Norte para sempre.
A cidade de Pompeia, localizada no antigo Império Romano (hoje na Itália), teve seu destino alterado em 79 d.C. após a erupção do vulcão Vesúvio. Em um dia como outro qualquer, o grande monte na beira da cidade começou a expelir cinzas de forma abrupta e cada vez mais vigorosa, que lentamente cobriu a cidade, o que assustou mais de mil moradores de Pompeia, Herculano e de vilas vizinhas, que deixaram o local nas horas seguintes.


Na madrugada do dia seguinte, o vulcão expeliu enormes fluxos piroclásticos (fumaça densa composta por gases, cinzas e rochas a mais de 1.000 graus célsius), que engoliram a região, matando os moradores que escolheram permanecer no local. Suas casas, corpos e objetos foram petrificados, permanecendo na mesma posição em que estavam no momento e enterrados por mais de 1.600 anos, quando foram descobertos por arqueólogos.


Do outro lado do mundo, 12 milhões de anos antes de Pompeia, um evento similar ocorreu em proporções muito maiores. Um supervulcão em Idaho, nos Estados Unidos, entrou em erupção repentinamente e enviou cinzas por toda a América do Norte. Um lago, no estado de Nebraska, a milhares de quilômetros de distância, será o cenário de nossa história.
Essa erupção vulcânica ficou conhecida, não apenas por seu poder destrutivo, mas por seu incrível poder na preservação de fósseis. Esse evento congelou um ecossistema inteiro no local, permitindo o conhecimento de todos os seus agentes por cientistas, milhões de anos no futuro, em um sítio fossilífero conhecido como Ashfall Fossil Beds. Escavada ao longo de anos, cada uma de suas camadas revelou um pouco dessa catástrofe e, sobretudo, a biodiversidade que vivia na região.


Em uma grande pradaria quente na porção central de onde hoje fica os Estados Unidos, cavalos e grandes bandos de rinocerontes pastavam tranquilamente, enquanto cães primitivos caçavam roedores na região. Cágados e peixes nadavam, enquanto grandes grous buscavam alimento na água cristalina. Um estrondo no horizonte assustou os animais momentaneamente, mas rapidamente eles retomaram suas atividades. Foi quando a chuva de cinzas começou.
Os animais encontrados no local incluem:
Um gênero de rinoceronte: Teleoceras

Cinco gêneros de cavalos: Cormohipparion, Protohippus, Pseudhipparion, Neohipparion e Pliohippus

Três gêneros de camelídeos: Procamelus, Aepycamelus e Protolabis

Um gênero de cervo-almiscarado com dentes-de-sabre: Longirostromeryx

Três gêneros de canídeos: Leptocyon, Cynarctus e evidências indiretas da presença de Epicyon

Três gêneros de aves: Balearica (um grou-coroado), Apatosagittarius (uma ave de rapina), e Anchigyps (uma ave carniceira)

Três gêneros de quelônios: Hesperotestudo (um jubuti-gigante), Sternotherus e Chrysemys (cágados)

A 1.600 km do local, um supervulcão do Yellowstone Hotspot explodiu, dando origem a uma tempestade de cinzas que duraria anos. Mesmo sendo bem distante de onde hoje fica o supervulcão Yellowstone (no parque com o mesmo nome), sua formação geológica é basicamente a mesma. Um enorme bolsão de magma está localizado sob a América do Norte, criando supervulcões que mudam de local com o tempo. Enquanto o continente em si se move, o manto de magma permanece no mesmo local, criando uma cadeia de vulcões à medida que diferentes regiões passam sobre o local.

Erupções desses supervulcões são extremamente raras, ocorrendo uma vez a cada centena de milhares de anos. Na pradaria, o céu se tornava escuro como noite e os animais ali presentes nunca mais veriam a luz do dia.

O que começou como uma pequena chuva de cinzas não teria impactado a área se não fosse sua duração. Depois de horas, o lago estava extremamente ácido, matando os peixes locais. A queda constante de cinzas danificou o pulmão dos animais pequenos, matando-os em poucas horas à medida que as partículas afiadas perfuravam seus alvéolos. Todos os animais pequenos da área se encontram em uma camada mais profunda do sítio fossilífero, indicando uma morte rápida. Os grandes animais não tiveram a mesma sorte.


As camadas intermediárias do sítio fossilífero são compostas quase exclusivamente por equídeos. À medida que os dias passavam, os dentes dos cavalos foram sendo triturados, uma vez que tentavam mastigar grama cheia de partículas afiadas. A inalação de cinzas por semanas ocasionou crescimentos ósseos exacerbados (osteoartropatia hipertrófica), além de fibroses pulmonares, matando-os logo em seguida.

Por fim, após meses de sofrimento e fome, os rinocerontes foram os últimos a morrer no local. Os filhotes tinham danos em suas vértebras cervicais por olharem constantemente para cima para tirar sua cara das cinzas, que cobriam o chão a mais de 40 cm de profundidade. Mais de cem indivíduos morreram juntos e foram lentamente soterrados pelas cinzas, em um ambiente quase sem oxigênio, o que permitiu uma preservação excepcional de seus fósseis, inclusive de fêmeas com embriões em suas barrigas.



Embora tenha sido um evento extremamente doloroso, esse acontecimento foi um dos raros casos na paleontologia onde quase todos animais de um ecossistema morreram ao mesmo tempo e de uma forma não destrutiva, o que permitiu que os cientistas conhecessem os agentes de uma teia alimentar complexa de 12 milhões de anos, em uma área em que é rara a formação de fósseis.

No passado, vulcões já quase provocaram a extinção humana e eventos desse porte são impossíveis de serem impedidos. Felizmente, esses fenômenos são incrivelmente raros, não devendo ocorrer nos próximos milhares de anos. Dessa forma, nos resta constatar que, embora tristes, esses acontecimentos nos lembram da força da natureza e nos permitem entender, pelo menos um pouco, o passado de nosso planeta.
Referências
Primeiras escavações na Ashfall Fossil Beds – Por EarthMagazine
Vídeo Eons – How a Supervolcano Made the Cenozoic’s Coolest Fossils
Bonnichsen, B. (1982). “The Bruneau-Jarbidge eruptive center, southwestern Idaho”. In Bonnichsen, B.; Breckenridge, R. M. (eds.). Cenozoic Geology of Idaho. Bureau of Mines and Geol. Bulletin. Vol. 26.
E. De Carolis, G. Patricelli and A. Ciarallo, ‘Rinvenimenti di corpi umani nell’area urbana di Pompei’, RStPomp, 1998, vol. 9, pp. 75–123.
Leeman, William P.; Annen, Catherine; and Dufek, Josef (2008). Snake River Plain – Yellowstone silicic volcanism: implications for magma genesis and magma fluxes, pp. 235–259 in Annen, Catherine and Zellmer, Georg F., Dynamics of Crustal Magma Transfer, Storage and Differentiation, Geological Society, London, Special Publications, 304.
Tucker, S.T. & Otto, R.E. & Joeckel, R.M. & Voorhies, M.R.. (2014). The geology and paleontology of Ashfall Fossil Beds, a late Miocene (Clarendonian) mass-death assemblage, Antelope County and adjacent Knox County, Nebraska, USA. 10.1130/2014.0036(01).


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