Quando falamos da extinção humana, geralmente imaginamos cenários futuros, dignos de Hollywood. Seja por enchentes, meteoros, vulcões, invasões de espécies alienígenas ou pandemias, o fim da nossa espécie é um dos temas mais abordados pela indústria cinematográfica e na literatura de ficção científica, uma vez que temos medo e curiosidade em relação a uma das perguntas mais fundamentais da vida humana: para onde vamos no futuro? Embora esse tópico pareça totalmente ficcional, todas as espécies se extinguem um dia. Descubra a seguir como, mesmo sendo uma espécie extremamente recente, o Homo sapiens já quase desapareceu do planeta.

Introdução – Como descobrimos a quase extinção humana
Em diversos momentos da história recente, a humanidade foi assolada por pragas e desastres que, de certa forma, ameaçaram nossa existência. Durante a Idade Média, um surto específico de peste bubônica (conhecido como Peste Negra) eliminou entre 75 e 200 milhões de pessoas na Eurásia, matando mais de 80% dos moradores de algumas cidades e 60% de toda a Europa. Posteriormente, a Gripe Espanhola matou cerca de 20% da população mundial após a Primeira Guerra, que já havia matado quase 2% do planeta. A Segunda Guerra, por sua vez, matou 3% dos humanos do mundo.

Em comparação, a Covid-19, que até o momento já matou mais de 500 mil brasileiros, foi responsável pela morte de 3,9 milhões de pessoas em todo o mundo, o que equivale a 0.049% da população mundial. Dessa forma, percebemos que a maior ameaça sanitária do século, até o momento, não representa nenhum risco para nossa extinção, assim como algumas pandemias do passado que, mesmo tendo impactado drasticamente nossa população, também não chegaram perto de nos extinguir.

Como nenhuma guerra ou desastre registrado teve um impacto tão significativo em nossa população quanto pandemias e essas ameaçaram apenas parte do planeta ou mataram, no máximo, 20% de todos os humanos, por muito tempo acreditou-se que nossa espécie nunca esteve ameaçada em toda sua história.
Entretanto, em 1993 e, posteriormente, em 1998, cientistas detectaram evidências em nosso DNA de que, há cerca de 75 mil anos, sofremos um processo biológico conhecido como “efeito gargalo”. Isso significa que, nesse momento da história, tivemos uma redução brusca de nossa diversidade genética, com um possível aumento da frequência de genes mais raros em decorrência do desaparecimento de diversos genes comuns.

Efeitos gargalo são conhecidos em diversas espécies e, geralmente, estão associados a reduções populacionais intensas em populações ou em toda a espécie. No nosso caso, perdemos a maior parte da diversidade genética que existia fora da África Subsaariana e, surpreendentemente, até hoje ela não foi recuperada, tendo em vista que as populações africanas são mais geneticamente diversas que todas as outras populações nativas.
O mais assustador, entretanto, foi a intensidade desse evento, segundo alguns cientistas. Enquanto na história tivemos catástrofes, guerras e epidemias que mataram até 60% de algumas grandes populações humanas, esse evento foi, sem dúvida, o mais perto da extinção humana que chegamos até hoje. Evidências apontam que nossa população foi reduzida em até 99%, de acordo com alguns cientistas, quase aniquilando nossa espécie completamente.

Como quase sumimos?
Na mesma época em que o possível efeito gargalo nos humanos foi descoberto, pesquisadores na Indonésia descobriram a maior erupção vulcânica já presenciada por nossa espécie. Enquanto vulcões podem destruir cidades e alterar completamente o clima do planeta, um supervulcão pode, em teoria, eliminar a biodiversidade de continentes inteiros. Na ilha de Sumatra, um supervulcão conhecido como Toba entrou em erupção há 75 mil anos, a única erupção desse tipo desde o surgimento do Homo sapiens.

A maior explosão vulcânica registrada na história ocorreu em 1815, quando o Monte Tambora, também na Indonésia, entrou em erupção. Ele eliminou tantas cinzas na atmosfera que elas impediram que grande parte da radiação solar chegasse ao solo, fazendo com que 1816 ficasse conhecido como “O Ano Sem Verão”, após as temperaturas do planeta caírem cerca de 0.7°C em decorrência de um inverno vulcânico. Considerando que as mudanças climáticas atuais representam o acréscimo de 1°C, pode-se perceber como uma pequena mudança de temperatura no planeta pode gerar grandes impactos.
O Supervulcão Toba criou uma explosão equivalente a 12 Montes Tambora, liberando o equivalente a 13.200 km3 de cinzas, o suficiente para cobrir todo o sul da Ásia com uma camada que variava de 12 centímetros a vários metros de cinzas. Provavelmente, os céus de todo o hemisfério sul escureceram por várias semanas ou até por meses, com florestas inteiras na Índia morrendo por falta de luz solar e com grandes depósitos de cinzas sendo encontrados na África, a mais de 7 mil quilômetros de distância do local da explosão.


Diversas pesquisas diferentes encontraram resultados muito conflitantes sobre como esse evento alterou o clima, com o planeta podendo ter sido resfriado de 3ºC até 15ºC, dependendo da composição dos gases liberados por essa explosão. Provavelmente, esse evento envenenou os mares do Sudeste Asiático, contaminou rios na Europa, África, Ásia e Oceania, bem como modificou completamente ecossistemas inteiros.
Embora não exista um consenso do impacto desse supervulcão na nossa espécie, com alguns cientistas afirmando que seu impacto pode ter sido quase nulo, evidências apontam que gorilas, orangotangos, chimpanzés, macacos rhesus, guepardos e tigres também sofreram perdas populacionais bruscas há cerca de 75 mil anos, o que aponta alguma grande mudança climática ocorrendo nessa época, responsável por impactar todas essas espécies.
Artigos mais recentes colocaram essa teoria em cheque, argumentando que achados arqueológicos demonstram a presença de humanos na Indonésia mesmo pouco tempo depois do desastre ou que as evidências para afirmar esse efeito gargalo ou sua relação com o vulcão não são suficientes. Mesmo assim, parte da comunidade científica ainda está convencida e continua tentando desvendar essa que pode ter sido a maior ameaça para nossa espécie na história.

Curiosamente, os eventos dessa super erupção podem ter contribuído para o assentamento do Homo sapiens em regiões que se tornaram férteis após receberem toneladas de cinzas vulcânicas. A longo prazo, essas populações na Índia e na China dominaram a agricultura e floresceram em algumas das terras mais férteis do planeta, alcançando enormes populações muito antes da África, Europa ou América.
Conclusão – A Extinção Humana é coisa do passado?
Dessa forma, podemos concluir que, nos tempos modernos, nunca estivemos realmente próximos de desaparecer. É evidente que a Guerra Fria ou as recentes ameaças de grandes conflitos bélicos representam riscos, mas nunca repetimos reduções populacionais tão drásticas quanto às do paleolítico, comparáveis aos efeitos que uma guerra nuclear poderia gerar no planeta.
Mesmo chegando a pouco mais de 2 mil pessoas no mundo no passado, hoje estamos próximos de 8 bilhões e continuamos a crescer. Se tem uma coisa que o Monte Toba pode nos ensinar é a resiliência de nossa espécie, que sobreviveu a um verdadeiro apocalipse digno de produções hollywoodianas e, posteriormente, pôde criar enormes civilizações erguidas graças ao solos férteis gerados por esse evento. Como sempre, a vida encontra um jeito de resistir.
Referências
Artigos científicos
Late Pleistocene human population bottlenecks, volcanic winter, and differentiation of modern humans
Population Bottlenecks and Pleistocene Human Evolution
Evidence that two main bottleneck events shaped modern human genetic diversity
Goldberg, T.L. (1996). “Genetics and biogeography of East African chimpanzees (Pan troglodytes schweinfurthii)” (PhD). Harvard University
Steiper, M.E. (2006). “Population history, biogeography, and taxonomy of orangutans (Genus:Pongo) based on a population genetic meta-analysis of multiple loci”. Journal of Human Evolution. 50 (5): 509–522.
Phylogeography and Genetic Ancestry of Tigers (Panthera tigris)
The Complex Evolutionary History of Gorillas: Insights from Genomic Data
Demographic Histories and Patterns of Linkage Disequilibrium in Chinese and Indian Rhesus Macaques
Textos
The human race once came dangerously close to dying out — here’s how it changed us


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