Bitcoin e seu impacto no Meio Ambiente. Elon Musk tinha razão?

A crescente utilização e investimentos em criptomoedas, principalmente no Bitcoin, tem trazido à tona impactos ambientais significativos. O Bitcoin consome tanta eletricidade quanto um país europeu de tamanho médio. Como é possível?

Minerar Bitcoin Impacto Meio Ambiente

Se eu te disser que existe uma moeda chamada Bitcoin que vale atualmente milhares de Reais (aproximadamente R$200.000,00) mas não é feita de ouro, platina ou qualquer metal precioso, você acreditaria? Acho que sim, pois muito provavelmente você já ouviu falar dos Bitcoins ou das chamadas Criptomoedas. Os Bitcoins têm um potencial de transformar radicalmente o futuro e nossa maneira de viver, já que a moeda não está vinculada a um estado ou governo, portanto, não tem uma autoridade emissora central ou órgão regulador. Basicamente, isso significa que não há uma organização decidindo quando emitir mais dessa moeda, pensando na quantidade a ser produzida ou nas possíveis fraudes, pois ela é totalmente digital. Se você não possui nenhum tipo de órgão cuidando dessa criptomoeda, como é possível ela ter algum valor?

Bem, o Bitcoin não existiria sem a existência de uma rede de pessoas a “minerando” e uma outra coisa chamada criptografia. A criptografia, você provavelmente já sabe, é a utilização de um algoritmo para codificar informações de modo que elas não tenham mais o formato original e, portanto, não possam ser lidas. Mas e a mineração de Bitcoin? 

Elon Musk, Bitcoin e o Meio Ambiente

Você deve estar se perguntando por que um site que fala do meio ambiente está falando de economia e moedas digitais. No dia 12 de maio o bilionário Elon Musk, dono da empresa Tesla, declarou que a automotiva não aceitaria mais Bitcoin como forma de pagamento para seus carros. O que chocou os investidores foi o motivo alegado por Elon, que escreveu em seu Twitter: “Estamos preocupados com o crescimento acelerado do uso de combustíveis fósseis para mineração e transações com Bitcoin, especialmente carvão, que tem as piores emissões do que qualquer combustível.” O preço do Bitcoin caiu cerca de 4% apenas com a declaração do bilionário tão “preocupado” com nosso Planeta Terra. 

Temos fortes motivos para crer que talvez o meio ambiente não seja a principal motivação de Elon para tal declaração, mas o importante é entender por que ele não está errado. O potencial econômico dessa moeda é enorme, No entanto, apesar de todos os benefícios positivos, devemos nos perguntar se estamos dispostos a viver em um mundo tecnológico ao custo de uma enorme pegada ambiental por meio da, já citada, mineração de Bitcoin. Como é possível uma moeda digital precisar de algum tipo de mineração?

Mineração da criptomoeda Bitcoin

A mineração de Bitcoin consiste em um processo de criação de novos bitcoins resolvendo um quebra-cabeça computacional. O resultado da mineração de bitcoin é duplo. Primeiro, quando os computadores resolvem esses problemas matemáticos complexos na rede, eles produzem novos bitcoins (não muito diferente quando a mineração convencional extrai ouro do chão). E segundo, após resolverem os problemas de matemática computacional, os mineiros de bitcoin tornam a rede de pagamento dessa moeda confiável e segura, verificando suas informações de transações. Ao encontrar a sequência compatível, o minerador recebe uma recompensa na mesma moeda para cada bloco que ele minerar. Essa recompensa foi criada com a intenção de pagar as pessoas que emprestam seu poderio computacional para manter a rede do Bitcoin funcionando, a chamada blockchain.

Computadores funcionando para minerar Bitcoin
Computadores testando problemas matemáticos – Blockchain

Milhares de mineradores competem diariamente pela recompensa que os blocos oferecem. Um bloco de transações de Bitcoin é formado a cada 10 minutos, logo a competição recomeça nesse período. Até então tudo parece prosseguir bem no mundo digital, porém existe um detalhe muito importante: para minerar Bitcoin é necessário ter um computador com extrema capacidade de processamento, o que seria praticamente impossível em um simples computador caseiro.

Sendo assim, os mineradores compram máquinas que foram feitas especialmente para minerar. Isso significa que os computadores devem testar uma infinidade de alternativas antes de encontrarem a solução, em um processo chamado de Prova de Trabalho (PoW, sigla em inglês). Dessa forma são criadas fábricas de minerar bitcoin por todo o mundo, que nada mais são do que galpões lotados de computadores superpotentes testando possibilidades para resolver problemas matemáticos da moeda. Todas essas estruturas possuem três coisas em comum: enorme quantidade de equipamentos, grande capacidade de armazenamento e muitas ventoinhas para resfriar as máquinas. 

Criptomoeda Bitcoin
A BitCluster criou um data center na Rússia para minerar Bitcoin. Energia mais barata e o custo menor para resfriar os computadores. Fotógrafo: Andrey Rudakov/Bloomberg

Atualmente foram desenvolvidas duas ferramentas para estimar o consumo de eletricidade pela rede Bitcoin:
• Cambridge Bitcoin Electricity Consumption Index (CBECI), desenvolvido recentemente pela Universidade de Cambridge
• Índice de Consumo de Energia Bitcoin (BECI) realizado por Digiconomista.

Em 30 de setembro de 2019, de acordo com os dois índices, a rede consumia anualmente entre 73,1 e 78,3 terawatts-hora (TWh) de eletricidade. No entanto, outros estudos destacam que, com base em uma análise das vendas dos mineradores de Bitcoin, pode-se estimar que, de fato, a rede Bitcoin consumiu 87,1 TWh anuais em 2019, superando as estimativas feitas com base nos dois índices. Isso equivale ao consumo de um país como a Bélgica. Há pesquisas, como a conduzida pelo Citigroup, que afirmam que, se a eletricidade necessária para a rede e as transações com Bitcoin continuarem a crescer, é possível que o sistema Bitcoin entre em colapso. Contudo, devemos ter em mente que os mineiros estão mais preocupados com o tamanho dos lucros que podem ser obtidos, do que com a eficiência energética.

pegada de carbono bitcoin
Pegada de carbono (em vermelho) versus o preço em dólar do Bitcoin (em azul) entre Janeiro/18 e Janeiro/2019.
Fonte: Environmental Science & Technology

Segundo estudo conduzido neste ano, há várias especulações sobre a fonte de combustível usada pela rede Bitcoin, e, algumas delas, nos levam ao carvão chinês, energia geotérmica islandesa e subsídios venezuelanos. A indústria do Bitcoin está enfrentando uma competição acirrada. Por exemplo, a empresa sueca KnCminer posicionou seus centros de mineração de Bitcoin no Círculo Polar Ártico para se beneficiar da energia hidrelétrica local e do ar frio a custos extremamente baixos. Apesar disso, foi à falência em meados de 2016.

Um estudo realizado pela Cambridge University mostrou que 58% da mineração de Bitcoin é feita na China, seguida pelos EUA com 16%. Já segundo o estudo mais recente de 2019, da Environmental Science & Technology, a China e a província Sichuan (também pertencente à China) lideram com mais de 80% dos centros de mineração. E qual seria o principal motivo para se ter os maquinários de mineração no país asiático? A resposta é porque na China a eletricidade é mais barata. O grande problema disso é que os centros de Bitcoin na China continuam a depender principalmente do carvão mineral como fonte de sua energia.

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Distribuição geográfica de mineradores de bitcoin usados ​​no modelo de linha de base de atribuição. Fonte: Environmental Science & Technology

Existem dois aspectos fundamentais que devem ser levados em consideração na avaliação do impacto do Bitcoin no meio ambiente:

  • Consumo de energia do computador (expresso em kWh) para computação, rede e refrigeração;
  • Eliminação dos resíduos eletrônicos produzidos.

Partindo do fato de que os equipamentos de mineração usados para obter Bitcoin se tornam obsoletos em cerca de 1,5 anos, restando apenas aqueles que se mostram economicamente viáveis, devemos considerar também como eles se transformam em lixo eletrônico, cuja quantidade é comparável ao total de lixo eletrônico gerado por um país como Luxemburgo.

Existe solução?

Apesar dos custos ambientais descritos acima, o Bitcoin parece permanecer como uma alternativa economicamente mais viável do que as moedas tradicionais. Aparentemente, os custos ambientais da mineração de Bitcoin são menores do que os custos de emissão de papel-moeda, mineração de ouro e sistemas bancários. Entretanto, esse tipo de comparação é importante, porém vazia, pois o Bitcoin não está substituindo os métodos tradicionais. Então existe outra maneira? Sim, a chamada Prova de Participação (PoS, em inglês). Assim como a mineração PoW (Prova de Trabalho), citada anteriormente, a mineração PoS funciona como uma espécie de loteria. Ela dispensa o uso de eletricidade e também a necessidade de possuir grandes máquinas. Na PoS, o processo não funciona por meio dessas máquinas, e sim por meio de um sistema que aloca moedas para verificadores, semelhantes aos mineradores, que dão moedas como garantia. Em caso de fraude, os verificadores correm o risco de perder o que apostaram. A confiança se estabelece por meio desse canal, e não por meio de um “trabalho” que consome muita energia. Não vamos entrar em mais detalhes sobre sua particularidade, mas já sabemos que esse método é bom para os verificadores, que terão um menor custo, e também para o meio ambiente.

Muitos investidores de Bitcoin são contra o uso da mineração PoS porque acreditam que somente as pessoas que possuem mais dinheiro são beneficiadas. Porém, se é esperado que o Bitcoin seja uma moeda do futuro, não faz sentido iniciarmos essa mudança dando um passo para trás. A tendência é que, com a expansão desse mercado, haverá um crescimento ainda maior da pegada de carbono dessa criptomoeda. O futuro é verde e, quanto mais o mercado aceitar isso, maior será o ganho para todos nós e para as futuras gerações.

Referências:

A. D. Vries, ‘‘Bitcoin’s energy consumption is underestimated: A mar- ket dynamics approach’’

L. Badea and M. C. Mungiu-Pupӑzan, “The Economic and Environmental Impact of Bitcoin,” in IEEE Access

J. Loviscach. (2012). “The Environmental Cost of Bitcoin.

Susanne Köhler and Massimo Pizzol Environmental Science & Technology 2019Life Cycle Assessment of Bitcoin Mining”

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