Você já ouviu falar das PANC (Plantas Alimentícias Não Convencionais)? Elas, mais do que nunca, são extremamente importantes para nossa segurança alimentar e contribuem para o segundo Objetivo do Desenvolvimento Sustentável: Fome Zero e Agricultura Sustentável.
Ao caminhar pelas feiras ou por um supermercado, a primeira impressão que temos é que existem ali uma grande abundância de cores e sabores as quais podemos escolher. Porém basta conversar com um botânico e ele te contará que na verdade você está equivocado.
Das cerca de 400.000 espécies de plantas da Terra, poderíamos comer cerca de 300.000, utilizando a imaginação e o preparo correto. No entanto, os seres humanos comem apenas 200 espécies globalmente (apenas 0,066%) e metade de nossas proteínas e calorias de origem vegetal vêm de apenas três fontes: milho, arroz e trigo. É de se pensar que, com tantas opções incríveis, porque escolhemos apenas essas?
Agrobiodiversidade
Bom, primeiramente precisamos entender sobre biodiversidade agrícola, também chamada de agrobiodiversidade, que é a base da agricultura e da alimentação. É o que é formado através da conexão entre:
- os microrganismos, plantas e animais que comemos e bebemos;
- os insumos que apoiam sua criação e desenvolvimento, incluindo abelhas e outros polinizadores, bem como a qualidade dos nutrientes no solo;
- influências não vivas (ou abióticas) em nossa capacidade de cultivar e coletar alimentos, como temperatura e estruturas das fazendas; e
- uma série de questões socioeconômicas e culturais que ditam o quê e como comemos.
A agrobiodiversidade é moldada a cada refeição que nós comemos. E quando dizemos nós, nos referimos ao mundo inteiro. Nenhum país é autossustentável quando se trata da gama de diversidade necessária para desenvolver variedades melhoradas de culturas.
A banana, por exemplo, é a fruta mais popular da América e carrega poucas variedades. Por mais incrível que possa parecer, existem mais de 1.000 variedades de bananas cultivadas no mundo. No entanto, a que acaba nas prateleiras dos supermercados não é a que possui a melhor textura ou sabor, mas sim a que se transporta com maior facilidade e que, até agora, consegue contrair menos doenças.

Vida Sexual das Plantas
Um dos motivos pelos quais muitos explicam essa domesticação seria para se evitar o consumo de plantas tóxicas. Porém, John Warrer, autor de “A Natureza do Cultivo”, questiona esse argumento:
“Muitas das plantas que comemos são originalmente tóxicas, mas, com o passar do tempo, nós e outros animais encontramos formas de lidar com estes componentes tóxicos.”
“Na verdade, fazemos isto pois escolhemos deliberadamente comer plantas que têm uma vida sexual muito tediosa”
Vida sexual em plantas? Sim! O tipo de polinização de cada planta diz respeito à forma como a espécie se reproduz, ou seja, sua vida sexual, como foi chamada por John Warrer . Um belíssimo exemplo disso são as orquídeas. Existem cerca de 20 mil espécies de orquídeas e muitas delas são comestíveis, porém utilizamos comercialmente como alimento apenas uma: a baunilha. (Já falamos sobre o aroma de baunilha e do que ele é estranhamente feito CLICANDO AQUI)
Orquídeas possuem uma vida sexual um tanto quanto estranha. A fecundação natural requer a intervenção de insetos especializados, apenas presentes nas florestas densas onde a baunilha é originária, na América Central.
Essa especialização sexual de muitas plantas as tornam desinteressantes quando se trata de cultivo de larga escala. Para a indústria são muito mais interessante espécies de planta que se reproduzem por um mecanismo de polinização muito generalizado, que pode ser o vento ou os serviços de insetos como as abelhas.
Os polarizadores são extremamente importantes para a segurança alimentar mundial e a redução drástica no número de indivíduos pode colocar em risco a humanidade (Já falamos disso no artigo sobre Disturbio do Colapso das Colônias) .

PANC
Dentro desse cenário caótico de grande diminuição da agrobiodiversidade, encontramos uma luz no fim do túnel: as Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC). Fazem parte desse grupo aquelas plantas que não temos o costume de comer e nem de encontrar nos supermercados. Porém, basta conversar com pessoas mais sábias que elas, com certeza, saberão listar várias dessas plantas. Isso não é surpresa já que 100 anos atrás consumíamos mais de 10 mil plantas, um número muito maior que as poucas 200 de hoje.
Não somente as plantas desconhecidas são consideradas PANCs. A bananeira, por exemplo, possui um enorme potencial alimentício em muitas de suas partes, porém insistimos em consumir apenas seu fruto.
5 Exemplos de PANCs :
1 – Flor de Abóbora

Apesar de já estarmos muito acostumados com o fruto da abóbora, sua flor não é tão comum assim de ser vista nos pratos dos brasileiros, e, por isso, é considerada uma PANC. Ela possui um sabor suave e levemente adocicado.
2 – Ora-pro-nóbis

O Ora-pro-nóbis (Orai por nós) é muito comum em muitas cidades de Minas Gerais, mas para a maioria dos estados é uma PANC. Possui alto teor de proteínas, fibras, ferro e magnésio.
3 – Cupuchinha

A capuchinha é uma planta medicinal, também conhecida como chagas, mastruço e capuchinho. Dela pode-se utilizar folhas, flores e sementes.
4 – Dente de Leão

O dente-de-leão é rico em fitonutrientes. Ele possui vitaminas A e C, e tanto suas flores como suas folhas podem ser consumidas.
5 – Peixinho

O Peixinho ou Lambari da Horta ganhou esse nome popular, não só por causa do seu formato alongado, mas principalmente pelo leve sabor de peixe quando empanado e frito.
Mudança de Hábito
Sabemos o quanto é bem mais simples e fácil chegar ao supermercado, pegar um saco plástico descartável e escolher dentre as, aparentemente, várias opções de legumes e verduras que estão à disposição. Porém, se quisermos resolver muitos dos problemas que enfrentamos atualmente, tanto de saúde individual, quanto da saúde do planeta em que vivemos, precisamos pensar fora da caixa. Levar nossa própria sacola retornável, passar a comprar nossas verduras e legumes diretamente de um produtor independente e local, bem como diversificar e ampliar o consumo desses alimentos pode, não só gerar um benefício coletivo, como também melhorar a qualidade dos nutrientes que colocamos para dentro do nosso corpo. Viva as PANCs!
Referências:
Khoury, Colin K et al. “Increasing homogeneity in global food supplies and the implications for food security.” Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America vol. 111,11 (2014)
Marcelo A. Aizen et al. “Global agricultural productivity is threatened by increasing pollinator dependence without a parallel increase in crop diversification” Global Change Biology (2019)
Livro de John Warren: A Natureza das Culturas: Como chegamos a comer as plantas que fazemos


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