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Organismos Geneticamente Modificados: Uma ameaça ou uma solução?

Após a descoberta do DNA como sendo uma molécula universal, presente em todos os seres vivos e em sua estrutura, em 7 de Março de 1953, cientistas do mundo todo puderam conhecer e, posteriormente, alterar o material genético dos organismos que conhecemos, para nosso uso, a partir de 1973. Os Organismos Geneticamente Modificados (GMO ou OGM,…

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Após a descoberta do DNA como sendo uma molécula universal, presente em todos os seres vivos e em sua estrutura, em 7 de Março de 1953, cientistas do mundo todo puderam conhecer e, posteriormente, alterar o material genético dos organismos que conhecemos, para nosso uso, a partir de 1973. Os Organismos Geneticamente Modificados (GMO ou OGM, como são conhecidos), passaram a fazer parte de nossa rotina e alteraram nosso planeta de maneira inimaginável. Mas afinal, até que ponto podemos mudar a natureza? E quais são os riscos do progresso científico?

Os primeiros organismos geneticamente modificados surgiram cerca de 12 mil anos atrás, não no interior de um laboratório, mas sim, em nossas plantações. Quando o Homo sapiens sapiens domesticou as primeiras plantas, ele selecionou aquelas que possuíam características que mais o interessavam. Ele percebeu que, se uma determinada fruta era mais doce que as demais e que, ao plantar apenas suas sementes, as gerações seguintes passariam a possuir frutas mais doces, por exemplo. Plantas como melancia, banana, trigo, milho, couve e tomate não são encontradas no ambiente natural da forma que conhecemos, sendo, muitas vezes, irreconhecíveis.

Comparação entre o milho selvagem (Zea luxurians) e o milho cultivado moderno (Zea mays), evidenciando diferenças morfológicas resultantes da domesticação
Diferenças de tamanho e aparência do milho natural (Zea luxurians) para o milho moderno (Zea mays) – Imagem por rrunrrun.blogspot.com
Comparação entre a banana selvagem com sementes e a banana cultivada moderna, resultado de milênios de seleção artificial
Variedades natural e artificial da banana

Além disso, ao criar animais e incentivar a reprodução dos mais dóceis, que produzem mais leite ou são mais eficientes, pôde-se gerar animais com inúmeras características tão diferentes de seus ancestrais, que impossibilitava, até mesmo, sua reprodução, surgindo novas espécies. Esse processo, conhecido como seleção artificial, possibilitou que nossos ancestrais, mesmo sem entender as normas por trás da genética e da hereditariedade, pudessem originar animais como lhamas, alpacas, cães, porcos, bois e cavalos.

Comparação morfológica entre lobo selvagem e cão doméstico, ambos subespécies de Canis lupus, ilustrando o impacto da seleção artificial na morfologia animal
Diferenças morfológicas entre as subespécies doméstica (cão) e selvagem (lobo) de Canis lupus acima e de carneiros ( gênero Ovis) abaixo
Muflon europeu (Ovis orientalis musimon), ancestral selvagem das ovelhas domésticas, em parque natural na Europa
Ovelha Welsh Mountain, raça doméstica resultado de seleção artificial, com lã branca densa característica

Com o surgimento das primeiras plantas geneticamente modificadas no mercado, em 1983, e dos primeiros animais, em 1985, grande parte da população acusou esses produtos de serem extremamente artificiais e, portanto, de não serem apropriados para o consumo humano. Entretanto, os homens vêm alterando animais e plantas para seu próprio benefício há milhares de anos, o que torna praticamente todos os nossos organismos domésticos artificiais. Então, quais são os verdadeiros problemas?

Primeiramente, vale ressaltar que, em muitos casos,  apenas grandes agricultores têm acesso a essa tecnologia, devido ao seu alto preço de mercado. Nos últimos anos, avanços na tecnologia genética puderam reduzir drasticamente o preço de mercado de plantas transgênicas, mas empresas como a Monsanto apostam em organismos estéreis (Genetic use restriction technology), com os quais o agricultor irá realizar apenas uma colheita e não conseguirá germinar uma segunda geração. Em teoria, esse mecanismo foi criado para impedir que plantas geneticamente modificadas se espalhassem pelo meio natural, mas essa técnica mostrou-se falha.

Outro forte argumento contra os OGM’s é seu risco à saúde humana. Muitas pessoas alegam que seu consumo pode trazer graves consequências, como câncer e alergias severas. Entretanto, após mais de 30 anos de uso e dezenas de pesquisas, constatou-se que, no geral, plantas geneticamente modificadas tendem a ser tão seguras quanto plantas “naturais”. Historicamente, foram constatados casos de alergias a plantas transgênicas em pessoas do mundo todo. Na verdade a alergia era ao organismo que forneceu genes responsáveis pela formulação de uma proteína específica da planta, mas esses  produtos foram rapidamente removidos do mercado.

Ilustração sobre alergias alimentares relacionadas a organismos transgênicos, tema central no debate sobre segurança dos OGMs

Entretanto, existe um perigo real com relação aos GMO’s : os pesticidas. Em teoria, podemos criar plantas resistentes a pragas ou a doenças específicas manipulando-as geneticamente, o que reduziria drasticamente a demanda por agrotóxicos em todo mundo. Empresas de menor porte rapidamente começaram a vender esses produtos, enquanto a Monsanto, líder de venda do mercado de sementes e defensores agrícolas, criou plantas que, ao invés de serem resistentes às pragas, são mais resistentes aos agrotóxicos. Hoje, cerca de 90% das grandes plantações dos Estados Unidos utilizam plantas resistentes a herbicidas e, consequentemente, seu uso e absorção pela planta são elevados, o que oferece risco à saúde da população e, mais ainda, ao meio ambiente, impactando campos, florestas, cursos d’água e populações de polinizadores.

Trabalhador rural exposto a agrotóxicos durante pulverização em lavoura, representando os riscos à saúde humana e ao meio ambiente
Agrotóxicos oferecem inúmeros riscos ambientais e à saúde da população, especialmente aos trabalhadores de lavouras – Imagem do jornal O Globo

Então, o que podemos ganhar com os organismos geneticamente modificados? Enquanto grandes empresas tentam monopolizar o mercado e forçar agricultores a utilizarem seus produtos, alguns pesquisadores criaram plantas que podem ser a solução para diversos problemas. O arroz-dourado, por exemplo, foi geneticamente criado para ser mais nutritivo e saudável, sobretudo para as populações mais pobres. Ao adicionar genes precursores de betacaroteno nessa planta, seus grãos tornaram-se fontes de vitamina A, essencial para o crescimento e desenvolvimento de crianças. O tomate-roxo, por outro lado, foi criado com pigmentos antioxidantes presentes em mirtilos, o que confere uma cor característica e diversos benefícios para a saúde de seus consumidores.

Arroz dourado geneticamente modificado com betacaroteno, desenvolvido para combater a deficiência de vitamina A em populações vulneráveis

Além disso, esses organismos podem ser utilizados para solucionar problemas ainda maiores. Recentemente, plantas resistentes à seca vêm sendo produzidas em diversas partes do mundo, o que aumenta a produtividade de pequenos agricultores e evita o desperdício. A produção de árvores resistentes a pragas está sendo, nos últimos anos, a solução para conservação de florestas em algumas regiões dos Estados Unidos e da Ásia, o que mostra um enorme potencial na conservação de espécies ameaçadas do mundo todo.

Por fim, a manipulação genética pode, inclusive, ser utilizada para a erradicação de vetores como o Anopheles, espécie de díptero responsável por transmitir a malária ao ser humano. Ao criar mosquitos imunes à doença por um gene dominante, espera-se que esse gene seja, ao longo do tempo, encontrado na maior parte da população de mosquitos, erradicando a doença nos próximos anos. A soltura desses mosquitos em larga escala ainda não foi aprovada devido a seus riscos, mas espera-se que essa seja uma solução para essa doença que mata milhões de pessoas anualmente.

Existe hoje no mercado uma substância utilizado por milhares de pessoas diariamente feita à base de um organismo transgênico: a insulina humana. No passado, pacientes portadores de diabetes tipo 1 utilizavam insulina retirada diretamente de porcos, o que gerava alguns efeitos colaterais no ser humano. Na década de 70, pesquisadores criaram bactérias Escherichia coli com genes humanos responsáveis pela produção desse hormônio e ainda são utilizadas no mundo todo para produzir a insulina comercial, salvando milhares de vidas anualmente. Mais de 400 produtos médicos são gerados hoje à partir de organismos transgênicos, dentre eles a vitamina C e medicamentos contra a AIDS.

Frascos de insulina humana produzida por bactérias Escherichia coli transgênicas, um dos primeiros e mais importantes produtos comerciais derivados de OGMs

As possibilidades com a manipulação genética são infinitas, mas assim também são seus riscos. Essas tecnologias podem ser utilizadas para beneficiar, não somente a nossa sociedade, mas nossa biosfera como um todo. Infelizmente, os OGM’s ainda não estão sendo bem empregados mas, através do conhecimento e da mudança de hábitos, poderemos criar um mundo mais saudável, mais seguro e cada vez mais natural.

Referências

História dos OGM’s:

Sobre a segurança dos OGM’s

Sobre os OGM’s:


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