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Uma Espécie Invasora pode ser boa para o meio ambiente? Conheça 5 espécies invasoras benéficas!

Sempre associamos o termo “espécies invasoras” a algo ruim, mas será que isso é verdade? Entenda o significado desse termo e conheça 5 casos de espécies exóticas que auxiliam o ambiente em que vivem!

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Sempre associamos o termo “espécies invasoras” a algo ruim, mas será que isso é verdade? Entenda o significado desse termo e conheça 5 casos de espécies exóticas que auxiliam o ambiente em que vivem!

Introdução – Conhecendo os termos

Uma espécie silvestre ou nativa é aquela encontrada naturalmente em um país ou em uma região específica. Uma espécie exótica, por sua vez, é aquela naturalmente encontrada em outros locais do planeta mas que, de forma intencional ou acidental, foi parar fora de sua área natural de ocorrência, como é o caso de grande parte das plantas e animais domésticos do nosso convívio. Caso uma espécie exótica escape para a natureza e passe a se multiplicar, se integrando ao ambiente, ela passa a ser chamada de espécie introduzida, “espécie invasora” ou “espécie alien”, como mencionamos no nosso texto “Aliens entre nós” e como é o caso dos hipopótamos da Colômbia, por exemplo.

Píton-birmanesa (Python bivittatus), espécie invasora extremamente danosa ao meio ambiente, capturada nos Estados Unidos Foto de Ohio State University Pressbook

Espécie Invasora
Píton-birmanesa (Python bivittatus), espécie invasora extremamente danosa ao meio ambiente, capturada nos Estados Unidos – Foto de Ohio State University Pressbook

Na maioria das vezes, uma espécie exótica não consegue se fixar em um novo ambiente, uma vez que está adaptada a predadores, alimentos e pressões ambientais completamente diferentes desse ambiente em que foi inserida. Em outros casos, entretanto, a falta de predadores, patógenos e competidores, assim como o fato de presas não os reconhecerem como uma ameaça (um caso comum de ingenuidade ecológica), fazem com que esses organismos possam extinguir completamente outras espécies. Estima-se que, nos últimos 500 anos, espécies invasoras foram a principal causa de extinções no planeta.

Gatos-domésticos são considerados um dos maiores problemas ambientais da Nova Zelândia atualmente - Foto de stuff.co.nz

Espécie invasora
Gatos-domésticos são considerados um dos maiores problemas ambientais da Nova Zelândia atualmente – Foto de stuff.co.nz

No entanto, em alguns casos mais raros, animais invasores podem impactar um ambiente de forma extremamente positiva, sendo, posteriormente, introduzidos também em outros locais ou utilizados como uma forma de substituir espécies que foram extintas e cujos nichos ambientais permaneceram vagos. Conheça 5 exemplos de Invasores que ajudam o meio ambiente:

1- Lagartixa-doméstica-tropical (Hemidactylus mabouia)

A lagartixa-doméstica-tropical é também conhecida como lagartixa-de-parede, víbora, briba, lambioia, labigó, taruíra e jacarezinho-de-parede, dependendo da região do Brasil. Ela é um exemplo de uma espécie previamente invasora que se tornou parte importante do ecossistema em que vive, passando a ser chamada de espécie naturalizada. Em alguns casos, uma espécie torna-se naturalizada exclusivamente devido ao longo prazo desde sua invasão, uma vez que o ambiente teve tempo para se adaptar à sua presença. No caso desse réptil, entretanto, sua presença beneficia a natureza e também os ambientes urbanos.

Lagartixa-doméstica-tropical (Hemidactylus mabouia), espécie invasora benéfica no Brasil - Foto por Pedro Henrique Tunes
Lagartixa-doméstica-tropical (Hemidactylus mabouia), espécie invasora benéfica no Brasil – Foto por Pedro Henrique Tunes

Estudos mitocondriais indicam que essa espécie surgiu na ilha Mayotte, no Oceano Índico, e migrou para Madagascar em blocos flutuantes de vegetação, local onde se naturalizou e viveu durante milhares de anos. Posteriormente, a espécie chegou na África Continental, também de forma natural, e se espalhou por todo o continente.


Localização da  ilha Mayotte e de Madagascar 
Por Stéphane Dupuy
Localização da ilha Mayotte e de Madagascar
Por Stéphane Dupuy

Durante o século XVI, a espécie chegou no Brasil por meio de viagens marítimas humanas, provavelmente em navios negreiros, que também serviram de transporte para outras espécies invasoras, como o mosquito Aedes aegypti. A espécie migrou para nosso país em duas grandes levas, uma pelo nordeste e uma pela região sudeste.

Atualmente, as lagartixas vivem em toda a América do Sul, grande parte da América Central e no sul dos Estados Unidos. Embora tenham gerado um impacto negativo nesses locais nos primeiros anos de invasão, provavelmente competindo com lagartos noturnos, atualmente esses animais são o principal agente no combate de pragas domésticas na porção tropical do globo, tanto no meio urbano, quanto silvestre, uma vez que se alimentam de baratas-domésticas (Periplaneta americana, invasoras vindas da África) e de pernilongos (tanto do invasor Aedes aegypti, quanto de espécies nativas, que contribuem para a disseminação de doenças como a Febre Amarela).

Lagartixa-doméstica-tropical (Hemidactylus mabouia) se alimentando de barata - Foto via independente.com.br

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Lagartixa-doméstica-tropical (Hemidactylus mabouia) comendo uma barata – Foto via independente.com.br

2- Abelha-europeia (Apis mellifera)

A abelha-europeia é, apesar do nome, um inseto nativo da Europa, África e Ásia. A espécie foi domesticada por milhares de anos, com as colônias tendo adquirido as seguintes habilidades: sobrevivência por longos períodos sem alimento, sobrevivência em períodos frios, resistência a diversas doenças que afetam abelhas silvestres, aumento considerável da produção de mel, redução de sua agressividade e aumento da sensibilidade à fumaça, facilitando o seu manejo.

Abelha-europeia (Apis mellifera), espécie invasora chegada na América do Sul no século XVI e atualmente é de extrema importância
Abelha-europeia (Apis mellifera), espécie invasora chegada na América do Sul no século XVI sendo atualmente de extrema importância

Chegada na América do Sul no século XVI, na América do Norte no século XVII e na Austrália no século XIX, rapidamente essas abelhas se espalharam no meio selvagem, competindo diretamente com as abelhas nativas e eliminando localmente diversas espécies. Por outro lado, essa espécie é uma excelente transportadora de pólen, com uma única colônia dispersando 18 kg desse grão por ano.

Durante os séculos XX e XXI, o uso desenfreado de pesticidas dizimou populações de abelhas nativas em grande parte do Novo Mundo. As abelhas-europeias também sofreram esse impacto, mas por serem criadas em larga escala, hoje são indispensáveis na polinização de plantas em muitos ambientes urbanos, peri-urbanos e agrícolas, economizando bilhões de dólares em métodos alternativos de polinização de culturas e auxiliando na manutenção de árvores e flores silvestres.

Colméia de vida livre de abelhas-europeias no Brasil - Foto de topelegance.com.br
Colmeia de abelhas-europeias de vida livre no Brasil – Foto de topelegance.com.br

3- Caranguejo-verde (Carcinus maenas)

O Carcinus maenas é uma espécie de crustáceo nativo de grande parte do nordeste do Oceano Atlântico, incluindo a Europa e o norte da África, mas que, nos últimos anos, se espalhou por todos os oceanos do planeta. Essa espécie consta em 18º lugar na lista das 100 espécies exóticas invasoras mais perigosas para o ambiente do mundo, devido à sua capacidade de dispersão e ao seu apetite voraz, já que se alimenta de plantas, algas, moluscos, vermes marinhos, peixes e outros caranguejos.

Caranguejo-verde (Carcinus maenas), 18º lugar na lista das 100 das espécies exóticas invasoras mais perigosas para o ambiente do mundo - Por Lycaon (WikiMedia Commons)
Caranguejo-verde (Carcinus maenas), 18º lugar na lista das 100 espécies exóticas invasoras mais perigosas para o ambiente do mundo – Por Lycaon (WikiMedia Commons)

Seu maior impacto ocorre nos Estados Unidos, onde a espécie chegou em 1817 por meio de navios. Na maioria das regiões onde é encontrado, esse caranguejo causa enormes danos às populações nativas, com exceção de uma região.

No Leste do país, existe um bioma conhecido como “Salt Marshes” (ou Sapal, em português), uma região salobra coberta por gramíneas endêmicas e com uma enorme biodiversidade. A exploração de animais no local, sobretudo de aves e de grandes espécies de caranguejos, fez com que a população da espécie Sesarma reticulatum explodisse. Esse caranguejo herbívoro alimenta-se principalmente de gramíneas do gênero Spartina, a principal cobertura vegetal dos sapais. Em poucos anos, enormes extensões do local permaneceram sem cobertura vegetal, o que espantou diversas espécies de aves, reduziu a população de peixes e contribuiu para a erosão do solo.

Sapal nos Estados Unidos - Por earth.com

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Sapal nos Estados Unidos – Por earth.com
Sesarma reticulatum, espécie nativa que causou diversos problemas ambientais nos Estados Unidos  - Por Eric A. Lazo-Wasem - Gall L (2019). Invertebrate Zoology Division, Yale Peabody Museum. Yale University Peabody Museum.
Sesarma reticulatum, espécie nativa que causou diversos problemas ambientais nos Estados Unidos – Por Eric A. Lazo-Wasem – Gall L (2019). Invertebrate Zoology Division, Yale Peabody Museum. Yale University Peabody Museum.

Entretanto, após a chegada do caranguejo-verde, a população do Sesarma reticulatum foi controlada e, pouco a pouco, os sapais estão se recuperando, o que pode ser notado pelo aumento da cobertura vegetal e da biodiversidade como um todo.

4- Caramujo-maçã (Pomacea maculata)

O gavião-caramujeiro (Rostrhamus sociabilis) é uma ave de rapina sociável que, embora possa viver sozinha, também é encontrada em bandos de dezenas ou até de milhares de animais. Como seu nome indica, alimenta-se quase exclusivamente de grandes caramujos aquáticos (do gênero Pomacea), que geralmente captura quando eles estão em movimento fora ou na beira d’água. Para isso, passa muito tempo olhando para baixo e tentando detectar o lento movimento dos animais. Quando pega sua presa, pousa em um galho, segura sua concha com uma das patas e retira o molusco de dentro com seu bico fino e especializado.

 Gavião-caramujeiro (Rostrhamus sociabilis) - Foto por Pedro Henrique Tunes
Gavião-caramujeiro (Rostrhamus sociabilis) – Foto por Pedro Henrique Tunes

Embora comum na maior parte da América do Sul e Central, se tornou ameaçado na Flórida devido à perda de seu habitat, com diversas populações colapsando nas últimas décadas. Nesse estado, apenas 700 indivíduos viviam na natureza nos anos 90 e, embora tentativas de proteger suas áreas de ocorrência tenham ajudado, sua alimentação extremamente restrita contribuía para seu declínio.

Durante o início dos anos 2000, entretanto, o caramujo da espécie Pomacea maculata foi introduzido nos Estados Unidos através da indústria do aquarismo e rapidamente se tornou um dos caramujos mais comuns na maior parte de suas áreas de ocorrência, eliminando rapidamente diversos caramujos nativos. Esses caramujos, com cascos extremamente resistentes e robustos, não eram consumidos pelo gavião-caramujeiro e, nos primeiros anos de sua invasão, reduziram a população dessa ave em 80% dos números originais.

Caramujo invasor (Pomacea maculata) - Por RealGatba - Wikimedia Commons

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Caramujo invasor (Pomacea maculata) – Por RealGatba – Wikimedia Commons

Curiosamente, o final dos anos 2000 foi marcado por números recordes nas populações do gavião-caramujeiro, que não só se recuperaram após a chegada dos caramujos invasores, como passaram a tê-los como sua principal fonte de alimento. Embora a evolução seja geralmente um processo lento, cientistas detectaram que, apenas 1 ano após a chegada da Pomacea maculata, todas populações de gaviões-caramujeiros da Flórida passaram a ter bicos extremamente mais robustos, capazes de retirar os moluscos do interior de suas conchas.

 Gavião-caramujeiro (Rostrhamus sociabilis) juvenil se alimentando de caramujo - Foto de BrianLasenby/iStock 
Gavião-caramujeiro (Rostrhamus sociabilis) juvenil se alimentando de caramujo – Foto de BrianLasenby/iStock 

Por um tempo, acreditou-se que a queda inicial na população de gaviões foi ocasionada pela morte de gaviões com bicos mais finos, deixando apenas os gaviões com bicos robustos para perpetuar a espécie no local e que, nesse caso, a chegada do invasor não só beneficiou a espécie a longo prazo, como, também, moldou sua evolução. Entretanto, o tempo geracional da espécie é de cerca de 8 anos, o que torna essa teoria impossível.

A resposta para esse mistério encontra-se em um fenômeno conhecido como Plasticidade Fenotípica, ou seja, na habilidade de alguns organismos de alterarem sua morfologia em resposta ao ambiente em que se encontram. Ao se depararem com alimentos de difícil acesso, filhotes de gaviões-caramujeiro desenvolveram bicos maiores ao longo de seu desenvolvimento em relação a seus pais, e, consequentemente, conseguiram uma maior disponibilidade de alimento, garantindo uma maior taxa reprodutiva e um crescimento populacional nas próximas gerações.

5- Tartaruga-gigante-de-Aldabra (Aldabrachelys gigantea)

O arquipélago das Marcarenhas, no Oceano Índico, era um dos maiores pontos de endemismo no planeta até a chegada dos europeus, em 1598. O desmatamento, a caça e, principalmente, a introdução de espécies invasoras (como ratos, gatos e porcos) eliminaram a maior parte da biodiversidade das ilhas, sobretudo de Maurício, que hoje possuem apenas 3% de sua cobertura vegetal original. Além do famoso dodô, o local possuía outras diversas espécies de aves, mamíferos, anfíbios e répteis, com destaque para as enormes tartarugas-gigantes que viviam no local.

Reconstrução das ilhas Mascarenhas antes da chegada dos Europeus - Bour, Roger & Griffiths, Owen & Hume, Julian. (2021). Discovery of the first Mascarene giant tortoise nesting site on Rodrigues Island, Indian Ocean (Testudinidae: Cylindraspis). Herpetology Notes. 14. 103-116.
Reconstrução das ilhas Mascarenhas antes da chegada dos Europeus – Bour, Roger & Griffiths, Owen & Hume, Julian. (2021). Discovery of the first Mascarene giant tortoise nesting site on Rodrigues Island, Indian Ocean (Testudinidae: Cylindraspis). Herpetology Notes. 14. 103-116.
Tartarugas extintas de Maurício (Cylindraspis inepta)  perto de um grupo de dodôs (Raphus cucullatus) - Por XtinctDesign
Tartarugas extintas de Maurício (Cylindraspis inepta) perto de um grupo de dodôs (Raphus cucullatus) – Por XtinctDesign

A extinção desses animais levou a um rápido declínio na taxa de dispersão de sementes na ilha, o que fez com que várias espécies de plantas se tornassem ameaçadas. Algumas, como a árvore-dodô (Sideroxylon grandiflorum), só podiam ser disseminadas caso suas sementes passassem pelo trato digestivo de animais atualmente extintos, como os dodôs e as tartarugas.

Perto dali, no arquipélago de Seychelles, humanos também eliminaram a maior parte da biodiversidade e todos os grandes animais desses ilhas, com excessão de uma espécie: a tartaruga-gigante-de-aldabra (Aldabrachelys gigantea). Por serem indispensáveis na dispersão de sementes de algumas plantas em Seychelles e por serem parentes próximas das espécies extintas de Maurício, esses jabutis foram exportados para algumas ilhas do outro arquipélago nos anos 2000.

Tartaruga-gigante-de-aldabra (Aldabrachelys gigantea) perto de ser humano - Foto por floridaiguana.com/
Tartaruga-gigante-de-aldabra (Aldabrachelys gigantea) perto de ser humano – Foto por floridaiguana.com

Após sua introdução, a cobertura vegetal dessas ilhas aumentou drasticamente e atualmente o governo tem novos planos de reintrodução. Madagascar, também no Oceano Índico, hoje também estuda a introdução desses animais para ocupar o lugar de tartarugas-gigantes que viviam nessa enorme ilha e que provavelmente eram as principais dispersoras de algumas espécies de baobads.

Fauna de Madagascar dos últimos milhares de anos. Tartaruga-gigante pode ser vista ao fundo (esquerda) perto de baobad – Por studioschouten
Fauna de Madagascar dos últimos milhares de anos. Tartaruga-gigante pode ser vista ao fundo (esquerda) perto de baobad – Por studioschouten

Conclusão

Governos devem investir na prevenção da invasão de espécies para reduzir os gastos bilionários anuais no combate a animais, plantas e fungos invasores, além dos inúmeros prejuízos na agropecuária. Entretanto, após o início de uma invasão, é muito importante estudar seus efeitos no ambiente, não só para entender melhor como eliminá-la, como também para saber quando deixar que a invasão continue acontecendo. Enquanto as invasões forem combatidas após já terem ocorrido e enquanto seus efeitos permanecerem sem estudos de longo prazo, continuaremos com prejuízos econômicos e ambientais incalculáveis e com um planeta cada vez menos biodiverso.

Referências


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