Por mais que a natureza seja um lugar assustador, muitos animais não têm nada a temer em um mundo sem humanos. Conheça a Ingenuidade Ecológica e como ela ameaça a vida dos animais nos ambientes mais remotos do planeta!
Atenção: Esse texto contém descrições de violência animal.
Em 2015, pesquisadores navegaram até uma ilha remota, perto da Tasmânia, na Austrália. Milhares de aves marinhas fazem ninhos por toda a ilha e, para não influenciar a observação, os pesquisadores não queriam alterar o comportamento dos albatrozes que vivem no local. Como realizar a coleta de dados científicos sem incomodar ou assustar os animais? Nesse caso, absolutamente nada, uma vez que eles mal notavam a presença dos pesquisadores.

Mais chocante que isso, em 2014, o brilhante fotógrafo Paul Nicklen estava realizando uma expedição fotográfica nas águas da Antártida, quando foi surpreendido por uma foca-leopardo (Hydrurga leptonyx), um predador voraz de quase 4 metros, que tentou brincar com ele e depois desapareceu. Minutos depois, o animal retornou e o presenteou com um pinguim morto, um comportamento comum entre essas focas, mas que não seria esperado ser repetido com um humano.




Por mais que, atualmente, casos como esses sejam raros, na história humana nos deparamos com milhares de espécies que não possuíam medo de nós, sobretudo em ilhas oceânicas. O que justifica um comportamento tão arriscado para a sobrevivência da própria espécie?
A ingenuidade ecológica (ecological naïvete) é um acontecimento evolutivo no qual animais que não possuem predadores (ou possuem predadores muito específicos) não têm medo de um novo predador em potencial, sobretudo dos humanos. Extremamente frequente em ilhas oceânicas (onde ganha o nome de Island Tameness, algo como “adestrabilidade insular”), ela foi indiretamente responsável pela extinção de diversos animais do planeta.
Um trabalho de 2014 estudou 66 espécies de lagartos de ilhas para determinar o quão perto um lagarto deixa um predador se aproximar antes de fugir, e constatou que, quanto mais longe do continente ele vive, menor será a distância que ele permite que o predador se aproxime antes de fugir, o que está relacionado ao maior número de predadores no continente. Esse fato foi reportado, inclusive, por Charles Darwin, que acreditava que animais com poucos ou nenhum predador não fogem para economizar energia.

Em 2016, Attila Hettyey e colaboradores apresentaram um trabalho mostrando que girinos da espécie (Rana dalmatina) fogem de seus predadores naturais, mas ignoram seus predadores que foram introduzidos recentemente. Dessa forma, a ingenuidade ecológica pode ser o fenômeno responsável por animais invasores causarem tantos danos em ecossistemas, já que os animais predados não reconhecem a nova ameaça. O fenômeno também explica o motivo de vários animais não fugirem de carros vindo em sua direção, uma vez que não os identificam como perigos.

Exemplos
O dodô e as Ilhas Maurício
O dodô (Raphus cucullatus) é um dos animais extintos mais famosos do planta. Com mais de 1 metro de altura, era uma ave não-voadora nativa das Ilhas Maurício, localizadas no Oceano Índico. Foi descoberto em 1598 por navegadores holandeses e, assim como a maior parte dos grandes animais das Ilhas Maurício, desapareceu completamente em poucas décadas. Descritos como sendo de pouca inteligência, não fugiam nem mesmo quando outros exemplares de sua espécie eram mortos na sua frente.

Sem predadores naturais, exploradores da época geralmente capturavam um dodô e o dependuravam vivo de cabeça para baixo, o que fazia o animal gritar e atrair mais membros da sua espécie, que também eram capturados. O impacto da caça já seria grande, porém sua extinção provavelmente foi causada pelo desmatamento da maior parte da principal ilha em que viviam e pela introdução de cães e gatos, que também não causavam medo nessas aves.

Lagartos, papagaios não-voadores e, principalmente, tartarugas-gigantes, também sofreram o mesmo destino do dodô. As maiores tartarugas da ilha, Cylindraspis triserrata, eram mortas às dezenas por vez, para alimentarem humanos e porcos e para serem utilizadas como combustível, devido à enorme quantidade de gordura que carregavam em seu corpo.

Lobo-das-Malvinas (Dusicyon australis)
O lobo-das-malvinas (Dusicyon australis) foi uma espécie de canídeo descrita nas Ilhas Malvinas (Falkland), na costa da Argentina, em 1690. Alimentava-se de aves marinhas (sobretudo pinguins) e filhotes de leões-marinhos. Possuía até 30 kg e, historicamente, caçava em bandos, o que foi mudando ao longo da colonização da ilha por europeus.

A partir de 1850, as ilhas foram povoadas com uma enorme quantidade de ovelhas, que frequentemente apareciam mortas. Embora o Dusicyon levasse a culpa, nenhuma era consumida pelo animal, o que indica que as ovelhas provavelmente morriam ao tentar fugir desse canídeo, por temê-lo.
Isso fez com que uma enorme perseguição à espécie se iniciasse na década de 1860. O animal era tão manso que era atraído com carinhos na cabeça ou com pedaços de carne em mãos, para que fosse esfaqueado ao se aproximar. Entretanto, uma enorme campanha de erradicação se iniciou no local com o uso de carnes envenenadas. Quando chegou nas Malvinas em 1834, Charles Darwin já havia previsto sua extinção futura.

O último exemplar foi avistado e morto em 1876 e, surpreendentemente para os colonos, as mortes das ovelhas não pararam, pois elas continuavam se assustando facilmente (agora ao avistarem cães domésticos) e fugindo, morrendo de fome depois.
Arau-gigante (Pinguinus impennis)
O arau-gigante (Pinguinus impennis), o animal que inspirou o nome dos pinguins, descoberto anos depois, era uma ave que não voava, mas que não tinha muitos predadores em terra firme, uma vez que nidificava nas ilhas mais inacessíveis do Atlântico Norte. Durante o início das grandes pescarias de bacalhau do século XVI, a carne do arau passou a ser muito apreciada e relatos apontam que, em meia hora, tripulantes enchiam dois barcos inteiros com esses animais mortos.


Um relato de 1622, do comandante Richard Whitbourne, afirma que os animais eram levados às centenas de cada vez, “como se Deus tivesse transformado a inocência daquelas pobres criaturas num admirável instrumento de sustento para o Homem”. Por viveram aos milhares, ninguém da época imaginava o impacto que essa atividade pudesse ter nesses animais e, mais ainda, ninguém se importava com o bem-estar dos pinguins verdadeiros.
Descrições da época mostram que, caso quisessem utilizar as penas, elas seriam arrancadas do animal vivo, que depois era jogado no mar. Por terem tanta gordura, eram colocados (com vida) dentro das caldeiras, que rapidamente se incendeavam com seu óleo. Animais vivos eram amarrados em cordas e arrastados por quilômetros no mar para atraírem peixes grandes e ovos eram retirados de seus pais e vendidos na europa como curiosidades.

A caça a nível industrial do animal, que começou em 1600, mostrava-se promissora. Entretanto, o último pinguim verdadeiro conhecido foi morto no dia 3 de julho de 1844.
Vaca-marinha-de-steller (Hydrodamalis gigas)
O maior sirênio do planeta, a vaca-marinha-de-steller (Hydrodamalis gigas), possuía até 9 metros de comprimento e foi descoberto pela ciência moderna por Georg Wilhelm Steller, em 1741, na região do Mar da Beríngia, entre a Rússia e a América do Norte. Steller descreveu a enorme facilidade em caçar o animal que, por possuir uma enorme quantidade de gordura, era incapaz de afundar. Estima-se que, na época, 2.000 vacas-marinhas de Steller viviam no planeta.

Após sua descoberta, as principais rotas de comércio de peles da região, sobretudo de lontras-marinhas, passaram a percorrer a área de ocorrência do animal, que era uma fonte de alimento para os viajantes, o que levou sua população rapidamente a entrar em colapso. Caçadores eram capazes de matar um indivíduo sem ocasionar a fuga de outros membros do bando, e rapidamente todos eram dizimados.

O animal foi extinto em 1772, apenas 27 anos após seu descobrimento.
Baleia-franca (Eubalaena sp.)
Por séculos, a indústria baleeira foi um dos principais polos econômicos do planeta, utilizada na produção de óleo para o uso em máquinas agrícolas e industriais, combustível, iluminação pública, produção de cosméticos, alimentação humana e animal, ligante para argamassa de construções e na indústria da moda.

A baleia-franca, nome que compreende três espécies pertencentes ao gênero Eubalaena, foi uma das maiores vítimas dessa indústria . Seu nome em inglês, “right whale”, indica que era a baleia certa para ser caçada, em parte por sua carcaça não afundar depois de morta e também por seu comportamento extremamente dócil. Ela não possuía medo das enormes embarcações de pesca, nem mesmo após o resto do bando já ter sido morto.

Anos de caça impactaram severamente suas populações. A Baleia-franca-austral (Eubalaena australis) possuía uma população de cerca de 70.000 indivíduos no século XVIII e, em 1920, seu número era de apenas 300 indivíduos. Atualmente, a E. australis é a única não ameaçada de seu gênero, com uma população de 14.000 indivíduos após a proibição da caça.
A Baleia-franca-do-atlântico-norte (Eubalaena glacialis) encontra-se Criticamente Ameaçada, com menos de 300 indivíduos na natureza e uma população ainda decrescente devido a seu lento ciclo reprodutivo, ao atropelamento por grandes embarcações e às redes de pesca. Eubalaena japonica, a Baleia-franca-do-pacífico-norte, conta hoje com duas populações, que chegam a quase 400 indivíduos, mas que se encontram Ameaçadas e com uma população crescente (embora de forma lenta).
Quokka (Setonix brachyurus)
Felizmente, para algumas espécies, a ingenuidade ecológica é considerada fofa e atrai diversos turistas do mundo todo. O quokka (Setonix brachyurus), apelidado de “o animal selvagem mais feliz do mundo”, é um pequeno marsupial parente dos cangurus, nativo de ilhas do Oeste da Austrália. Tendo como principais predadores as aves-de-rapinas, quokkas não possuem medo de mamíferos, sendo frequentemente mortos por cães e gatos introduzidos em seus habitats, o que tornou a espécie Vulnerável.

Essa falta de medo, entretanto, atraiu milhões de dólares para a conservação desses animais, uma vez que não possuíam medo nem mesmo dos turistas. Selfies com os quokkas se tornaram um dos principais cartões postais dessa região da Austrália. Eles passaram de animais desconhecidos para fenômenos da internet, e, hoje, recebem doações de todo o planeta.

Conclusão
A ingenuidade ecológica tem colocado em risco a vida de diversas espécies. Para nossa felicidade, entretanto, ela pode ser uma excelente ferramenta para a conservação, inclusive das maiores criaturas do nosso planeta!
Referências
Albatross Island: the remote outcrop where conservation counts – in pictures
How a Leopard Seal Fed Me Penguins
Naive tadpoles do not recognize recent invasive predatory fishes as dangerous
Naïveté in novel ecological interactions: Lessons from theory and experimental evidence
Island tameness: living on islands reduces flight initiation distance
Demographic reconstruction from ancient DNA supports rapid extinction of the great auk
Scientists pinpoint dodo’s demise
Cheke AS, Bour R: Unequal struggle—how humans displaced the tortoise’s dominant place in island ecosystems. In: Gerlach J, ed. Western Indian Ocean Tortoises: biodiversity. 2014
Livro de Elisabeth Kolbert (2015) – A Sexta Extinção
Livro de David Quammen (2004) – The Song of the Dodo: Island Biogeography in an Age of Extinctions


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