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Austrália em Chamas – Parte 1: Uma ilha moldada pelo fogo

Nos últimos meses, a Austrália sofreu com os maiores incêndios registados de sua história. No total, o fogo consumiu mais de 110.000 km² (uma área maior do que o estado de Santa Catarina), destruindo mais de duas mil casas e matando 32 pessoas até o momento. Mais de um bilhão de animais morreram em meio…

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Nos últimos meses, a Austrália sofreu com os maiores incêndios registados de sua história. No total, o fogo consumiu mais de 110.000 km² (uma área maior do que o estado de Santa Catarina), destruindo mais de duas mil casas e matando 32 pessoas até o momento. Mais de um bilhão de animais morreram em meio às chamas e, para 327 espécies, esse pode ser o fim, uma vez que mais de 80% de seu habitat foi completamente destruído. No dia do lançamento desse texto (24/01/2019), 120 focos de queimadas ainda destroem o país. Embora essa onda de incêndios tenha sido a mais destrutiva dos últimos anos, o fogo tem um papel crucial para alguns ecossistemas australianos. Além disso, ele moldou a história biogeográfica do país e foi responsável por permitir que nossa espécie sobrevivesse em meio a predadores gigantes, que já não existem mais. Na primeira parte dessa série, descubra como o fogo construiu a Austrália que conhecemos.

Incêndio florestal em New South Wales, Austrália, em janeiro de 2020, que destruíu mais de 110 mil km² de território e um bilhão de animais
Fogo em New South Wales, no dia 10 de janeiro. Foto por: Matthew Abbott

Esse enorme país está situado na menor área continental do planeta, que se isolou de outros continentes há cerca de 45 milhões de anos. Eventos de vicariância (quando os animais surgem e permanecem em um determinado ambiente após o seu isolamento) e de colonização da ilha por outros grupos de animais fizeram com que essa região possuísse uma fauna muito diferente do resto do mundo, composta principalmente por grandes aves, marsupiais gigantes e répteis vorazes. E assim esse ambiente permaneceu isolado até que uma redução drástica no nível do mar, durante o Pleistoceno, permitiu que a nossa espécie migrasse até a ilha em embarcações através do sudeste asiático, há cerca de 65.000 anos.

Mapa da Austrália e sudeste asiático durante o Pleistoceno, mostrando a rota de migração humana para o continente há cerca de 65 mil anos
Mapa da Austrália e sudeste asiático durante o Pleistoceno – Por J. O’connell

Ao chegar nesse novo continente, o ser humano se deparou com cenas nunca vistas antes em sua história. Crocodilos corriam em quatro patas, longe da água, atrás de grandes herbívoros do tamanho de rinocerontes, que guardavam seus filhotes em bolsas. Lagartos venenosos de 8 metros espreitavam as aves mais altas que nossa espécie já havia encontrado, enquanto estranhos animais carnívoros caçavam grandes animais saltadores com suas grandes unhas. Embora não existam grandes registros desses encontros iniciais entre nossa espécie e a fauna dessa terra alienígena, esses organismos cativaram a imaginação dos primeiros povos australianos, que representaram esses gigantes em sua arte e em sua cultura.

Exemplos da megafauna australiana, incluindo marsupiais gigantes e répteis colossais que habitavam o continente antes da chegada humana
Exemplos da megafauna australiana – Por Peter Trusler
Ilustração do Quinkana, crocodilo terrícola australiano extinto, com marsupiais gigantes ao fundo, por Roman Uchytel
Quinkana, um crocodilo terrícola australiano e marsupiais gigantes ao fundo – Por Roman Uchytel
Thylacoleo, marsupial carnívoro australiano extinto, caçando um canguru-gigante, ilustração por Maurício Antón
Thylacoleo caçando um canguru-gigante – Por Maurício Antón
Megalania (Varanus priscus), o maior lagarto da história, caçando a ave gigante Bullockornis na Austrália pré-histórica, por Peter Trusler
Megalania (Varanus priscus) caçando ave gigante (Bullockornis) – Por Peter Trusler

Inicialmente limitados à parte norte dessa ilha, os seres humanos começaram a migrar para seu interior há 47.000 anos. Entre 45.000 e 43.100 anos atrás, a Austrália sofreu um rápido declínio de toda sua megafauna, em um processo muito similar a outras extinções do Pleistoceno/Holoceno, já mencionadas em textos anteriores. Enquanto a caça direta foi a principal causa dessa extinção em outros continentes, o modo da expansão humana foi o que causou a extinção de quase 85% da megafauna da Australásia.

Comparação entre espécies extintas e atuais da megafauna australiana, evidenciando as perdas causadas pela chegada humana ao continente
Alguns exemplos da megafauna extinta (preto) e atual (verde) da Austrália – Stuart (2015)

Quando os humanos chegaram no continente, a Austrália era amplamente florestada. Embora a porção norte da ilha, ainda hoje, seja composta por grandes florestas tropicais úmidas, o interior da ilha mudou drasticamente com nossa presença. Enormes florestas tropicais secas e savanas estendiam-se pelas áreas mais centrais do local, com um grande deserto em seu centro. Mesmo que esses ambientes possuam um ciclo de queimadas, que muitas vezes contribuem para a saúde e manutenção do bioma, a expansão humana foi marcada por incêndios em larga escala. Florestas eram incendiadas para abrir espaço para moradias e para a migração humana, mas, principalmente, para caçar. Ao iniciar um incêndio, pessoas se posicionavam em áreas estratégicas para capturar animais que fugissem das chamas e, ocasionalmente, também coletavam animais assados pelo fogo.

Canguru fugindo de incêndio florestal na Austrália, ilustrando o impacto devastador das queimadas sobre a fauna nativa
Canguru fugindo de incêndio – Fonte: news.com.au

Embora essa técnica sofisticada de caça pareça uma inovação humana, ela já era utilizada por outros animais da Austrália há milhares de anos. Os chamados “firehawks” (ou gaviões de fogo, em tradução livre) são aves de rapina australianas, das espécies  Milvus migrans, Haliastur sphenurus e Falco berigora, que aproveitam os incêndios existentes para perseguir pequenos animais em fuga. Se poucos animais estão fugindo daquele incêndio, esses gaviões pegam galhos em brasa e jogam em uma outra área, iniciando uma nova queimada. Entretanto, ao aproveitar brasas de incêndios pré-existentes, essas aves não alteram o ciclo natural do fogo. A nossa espécie, por outro lado, conseguia criar novos incêndios ao longo de todo ano, mesmo nas épocas em que, naturalmente, a floresta não pegaria fogo. Dessa forma, a floresta seca no interior foi sendo substituída por gramíneas e desertos, enquanto a porção sul da Austrália teve um aumento considerável de matas de eucalipto, mais resistentes ao fogo que as florestas que antes existiam ali.

Firehawk australiano iniciando novo foco de incêndio ao carregar brasa, comportamento documentado em aves de rapina, por Bob Gosford
“Firehawks” iniciando novo foco de incêndio – Por Bob Gosford

Enquanto mais de 85% da megafauna australiana desapareceu completamente  devido aos incêndios, outras espécies, como o diabo-da-tasmânia (Sarcophilus harrisii), foram extintas apenas na Austrália continental, mas sobreviveram em ilhas menores que foram colonizadas mais tardiamente pelo homem. Mas o que a extinção desses animais tem haver com o fogo que queima o país nos dias de hoje?

Diabo-da-Tasmânia (Sarcophilus harrisii), marsupial carnívoro extinto na Austrália continental e ameaçado de extinção, foto por Greg Wood
Extinto na Austrália continental, o diabo-da-tasmânia (Sarcophilus harrisii) ainda vive em pequenas ilhas do país – Foto por Greg Wood

Dentre os diversos papeis executados por grandes animais herbívoros em seu ambiente, um dos principais é o consumo de vegetação. Ao se alimentarem de diversos tipos de plantas em diferentes locais, esses animais contribuem para a redução de ervas na floresta, diminuem a densidade de plantas e colaboram para a heterogeneidade da vegetação. Além disso, criam trilhas, evitam o acúmulo de plantas mortas no solo e dispersam sementes, o que ajuda na manutenção das florestas. O fim da megafauna cria um acúmulo de matéria vegetal no solo e aumenta a densidade de plantas, com destaque para arbustos e gramíneas, o que torna o ambiente muito mais inflamável. Além de um maior número de incêndios, o aumento do combustível os torna muito mais quentes, duradouros e destrutivos, criando um ciclo vicioso, cuja tendência é só piorar.

Pessoas sendo evacuadas da cidade costeira de Mallacoota pela Marinha Real Australiana durante os incêndios de 2020
Pessoas sendo evacuadas na costa australiana – Por Royal Australian Navy
Fumaça dos incêndios florestais australianos de 2020, que consumiram mais de 110 mil km² e ameaçaram 327 espécies de plantas e animais

Em resumo, no passado tornamos a Austrália muito mais seca e demasiadamente mais inflamável. No presente, estamos contribuindo ainda mais para esse cenário.

Descubra como impactamos o clima e aceleramos esse processo na semana que vem, na segunda parte dessa série de textos!

Referências


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