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O que perdemos no fogo – Uma análise da importância do Museu Nacional para a ciência do mundo

O Museu Nacional, fundado por Dom João VI em 1818 com o nome de Museu Real, foi a maior instituição científica e maior museu do país, e um dos maiores da América Latina, o que lhe conferiu fama mundial. Instalado no Palácio Imperial, que abrigou a família real portuguesa e a família imperial brasileira entre…

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O Museu Nacional, fundado por Dom João VI em 1818 com o nome de Museu Real, foi a maior instituição científica e maior museu do país, e um dos maiores da América Latina, o que lhe conferiu fama mundial. Instalado no Palácio Imperial, que abrigou a família real portuguesa e a família imperial brasileira entre 1809 e 1889, o museu foi criado com o objetivo de impulsionar os conhecimentos científicos no país. Ao longo dos anos, itens culturais do mundo todo, minerais, meteoritos, fósseis, ossadas e plantas foram adquiridos para o museu, que passou a ser o mais influente da América do Sul na época.

Em 1946 o museu passou a fazer parte da UFRJ. Em seu entorno, novos prédios e laboratórios foram erguidos no Horto Botânico, na Quinta da Boa Vista. Até setembro de 2018, possuía mais de 20 milhões de peças em seu acervo.

No dia 2 de setembro de 2018, um incêndio de grandes proporções queimou os três andares do Palácio Imperial, destruindo mais de 200 anos de coleta de materiais históricos e científicos. Estima-se que mais de 90% dos 20 milhões de itens tenham sido incinerados, extinguindo anos de pesquisa, inúmeros materiais biológicos, uma parcela significativa da nossa história e de culturas inteiras. Afinal, o que perdemos no Museu Nacional?

Geologia

O depósito mineral do Museu foi, sem dúvidas, o menos afetado pelas chamas. As maiores perdas provavelmente foram as concreções carbonáticas em arenito fino do Cretáceo, oriundas da Antártida, diversas pedras preciosas e um frasco contendo petróleo do Poço de Lobato, a primeira reserva dessa substância encontrada no Brasil.

Frasco com amostra de petróleo do Poço de Lobato, a primeira reserva de petróleo encontrada no Brasil, pertencente ao acervo do Museu Nacional
Amostra de petróleo do Poço de Lobato
Concreção carbonática em arenito fino do Cretáceo, oriunda da Antártida, uma das peças geológicas únicas do acervo perdido no incêndio do Museu Nacional
Concreção carbonática da Antártida

Mesmo com as elevadas temperaturas do incêndio, parte dos meteoritos depositados no museu permaneceram praticamente intactos. Entretanto, peças menores poderão ser perdidas nos próximos dias com a remoção de escombros.

Meteorito Bendegó, maior meteorito brasileiro pesando 5 toneladas, exposto no Museu Nacional e um dos poucos objetos que sobreviveram ao incêndio de 2018
Meteorito Bendegó, maior meteorito brasileiro pesando 5 toneladas
Trabalho de rescaldo após o incêndio do Museu Nacional em setembro de 2018, com o meteorito Bendegó intacto visível entre os escombros do Palácio Imperial
O meteorito foi um dos poucos sobreviventes do incêndio

Paleontologia

A paleontologia no Brasil se consolidou significativamente nos últimos 200 anos. Grande parte dos fósseis encontrados no território nacional eram armazenados no Museu Nacional, que continha mais de 56 mil exemplares, incluindo uma das maiores coleções de pterossauros do mundo, com espécies únicas como Tropeognathus mesembrinus, Cearadactylus atrox e Tupandactylus imperator.

Esqueleto do pterossauro Tupandactylus imperator em exposição no Museu Nacional antes do incêndio - Wikimedia Commons
Esqueleto de Tupandactylus imperator em exposição no Museu Nacional
Reconstrução artística do pterossauro Tupandactylus imperator por John Conway, mostrando a crista craniana característica da espécie do Cretáceo brasileiro
Reconstrução de Tupandactylus imperator por John Conway
Fóssil de Stereosternum, réptil aquático de 280 milhões de anos pertencente ao acervo paleontológico do Museu Nacional, perdido no incêndio de 2018
Fóssil de um Stereosternum de 280 milhões de anos perdido no Museu

A coleção de dinossauros presente no Museu era uma das mais diversas do país. Exemplares de Oxalaia quilombensis, Irritator challengeri e Angaturama limai eram a prova da paleobiologia do Mesozoico em nosso país.

Representação artística de um Spinossaurídeo brasileiro, grupo de dinossauros semi-aquáticos cujos únicos exemplares do Brasil eram guardados no Museu Nacional - por Julio Lacerda
Representação de um Spinossaurídeo brasileiro – por Julio Lacerda

O primeiro grande dinossauro brasileiro a ser completamente montado também fazia parte do acervo. O Maxakalisaurus topai era um titanossauro do Cretáceo, de 13 metros de comprimento, cujos ossos foram encontrados no Triângulo Mineiro. Sua réplica e seus fósseis não resistiram ao incêndio.

Réplica do Maxakalisaurus topai, maior dinossauro montado do Brasil com 13 metros de comprimento, exposta no Museu Nacional e destruída no incêndio de 2018
Maxakalisaurus topai, o maior grande dinossauro montado no brasil

Zoologia

A coleção zoológica do Museu era composta por mais de 5 milhões de insetos, sendo um dos maiores centros de pesquisa entomológica da América do Sul. Acredita-se que todo esse acervo tenha sido perdido. A coleção de vertebrados ficava em outro prédio e não foi atingida, com exceção de mais de 80 espécies de aves e mamíferos empalhados e de um esqueleto de jubarte expostos no museu.

Coleção de besouros (Ordem Coleoptera) do Museu Nacional, parte do acervo de mais de 5 milhões de insetos catalogados e destruídos no incêndio de 2018
Coleção de grilos e esperâncias (Ordem Orthoptera) do Museu Nacional, um dos maiores centros de pesquisa entomológica da América do Sul
Parte da coleção entomológica de besouros do Museu Nacional, composta por mais de 5 milhões de insetos catalogados e perdidos no incêndio
Espécimes de borboletas da coleção entomológica do Museu Nacional, parte das milhões de peças destruídas no incêndio de 2018
Parte dos 5 milhões de insetos destruídos no incêndio

Antropologia Biológica

O Museu contava com ossos de mais de 80 indivíduos do Paleolítico, com destaque para o crânio de Luzia, o ser humano mais antigo do Brasil. Sua descoberta reescreveu a história dos humanos na América.

Reconstrução facial de Luzia, o ser humano mais antigo encontrado no Brasil com aproximadamente 11.500 anos, ao lado de seu crânio encontrado em Lagoa Santa
Representação do rosto de Luzia ao lado de seu crânio
Cabeça mumificada produzida pelo povo Jivaro, parte do acervo de antropologia biológica do Museu Nacional destruído no incêndio de 2018
Cabeça mumificada produzida pelo povo Jivaro

Dois dias depois do incêndio, um crânio que poderia ser o de Luzia foi encontrado em um cofre entre os escombros.

Arqueologia

O acervo do Museu contava com peças do Brasil pré-colombiano, múmias andinas e objetos do Mediterrâneo, incluindo sarcófagos, animais mumificados e uma das nove únicas múmias egípcias preparadas com linho colorido já encontradas no mundo.

Sarcófago egípcio pertencente ao acervo arqueológico do Museu Nacional, peça única de coleção egípcia perdida no incêndio de 2018
Sarcófago egípcio
Gato mumificado do Egito Antigo, rara peça do acervo arqueológico do Museu Nacional perdida no incêndio de setembro de 2018
Gato mumificado
Escultura feminina sem cabeça encontrada na Itália em 1853, pertencente ao acervo de culturas mediterrâneas do Museu Nacional destruída no incêndio
Estatua encontrada na Itália em 1853
Múmia do Atacama do acervo de culturas pré-colombianas do Museu Nacional, destruída no incêndio de 2018
Múmia do Atacama
Pontas de projéteis da pré-história brasileira do acervo de arqueologia do Museu Nacional, peças únicas do patrimônio arqueológico nacional perdidas no incêndio
Pontas de projéteis da pré-história brasileira

Etnologia

A sessão de Etnologia do museu abrigava mais de 40 mil itens de culturas do mundo todo. Máscaras de guerra, armas, instrumentos musicais e até um trono de um rei africano foram perdidos no incêndio.

Coifa indígena de penas com manto, um dos mais de 40 mil itens do acervo etnológico do Museu Nacional destruídos no incêndio de 2018
Coifa indígena de penas com manto
Boneca Karajá, artefato indígena do acervo etnológico do Museu Nacional representando a cultura dos povos originários brasileiros
Boneca Karajá
Baioneta africana do século XIX do acervo Kumbukumbu de culturas africanas do Museu Nacional, destruída no incêndio de 2018
Baioneta africana do século XIX
Cópia do trono do rei Kpengla feita no século XIX, peça única do acervo africano do Museu Nacional destruída no incêndio de 2018
Cópia do trono do rei Kpengla feita no século XIX

Parte do acervo audiovisual foi mantido devido à sua digitalização prévia. Mesmo assim, inúmeras gravações de músicas e de línguas indígenas sem falantes vivos foram perdidas.

Família Real

O Palácio Imperial teve sua estrutura pouco alterada desde a sua criação, preservando suas características arquitetônicas originais que foram perdidas com o incêndio. O Museu possuía, também, peças originais utilizadas pela corte portuguesa no Brasil e pela família imperial.

Fachada do Palácio Imperial no Rio de Janeiro, sede do Museu Nacional desde 1818, fotografada antes do incêndio que destruiu mais de 90% do acervo em setembro de 2018
Museu Nacional

Esse acontecimento só veio comprovar o descaso dos governos federal e estadual com a ciência, história e cultura do Brasil, uma vez que, anualmente, o museu custava aos cofres públicos menos do que se gasta com apenas um dos 18 mil juízes do país. Os museus são importantes para a preservação da memória científica e cultural de toda uma sociedade. Eles também representam o presente e o futuro de um país, por produzir conhecimento e gerar frutos que poderão ser colhidos pelas próximas gerações.

Referências


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