Você já ouviu falar de um incêndio subterrâneo? O fogo é uma característica comum a quase todos os ambientes terrestres do planeta. Seja através de raios, eventos vulcânicos ou reações químicas naturais, as queimadas assolam o planeta desde o surgimento de ecossistemas terrestres, tendo moldado diversos biomas e sendo parte essencial de inúmeros ambientes. Entretanto, existe um fenômeno, ainda pouco estudado, que embora no mundo natural não seja um problema, ameaça a biodiversidade em um mundo com cada vez mais incêndios provocados pelo homem.

Frequentemente, as grandes florestas boreais da Sibéria pegam fogo. Durante o verão do Ártico, as florestas ficam extremamente secas, e um único raio é capaz de iniciar incêndios que durarão meses. O estranho é que, estudando imagens de satélites, cientistas perceberam que, todo ano, o fogo se iniciava no mesmo local. Considerando que a área não é de interesse humano e descartando incêndios artificiais acidentais, será que raios estavam caindo exatamente no mesmo local, ano após ano?
Apelidado de fogo zumbi, por morrer e renascer anualmente, o processo que já era conhecido por bombeiros da região, atraiu também a atenção de cientistas. A grande camada de matéria orgânica enterrada no solo possui combustão lenta, mesmo sendo extremamente inflamável. Durante incêndios, o subsolo também queimava e, surpreendentemente, continuava queimando meses após o incêndio na floresta já ter sido extinto.

Durante o inverno da região, o fogo continua se espalhando por debaixo de metros de neve. Não se sabe ao certo como os animais e plantas da região se adaptaram para sobreviver a esse fenômeno natural ou se ele possui alguma importância para os organismos da região. Entretanto, o crescente número de queimadas e de recordes de temperatura na Sibéria tornam essa situação extremamente preocupante, pois ameaça a continuidade da taiga e a manutenção do permafrost na região.
Um estudo recente publicado na revista Nature apontou que os fogos zumbis, denominados em inglês de “overwintering fires”, são responsáveis por diversos novos incêndios em situações específicas, podendo ter um impacto extremamente negativo na região. Embora eles tenham contribuído apenas com 0,8% dos focos entre 2002 e 2018, em alguns anos eles foram responsáveis pelo início de 38% das queimadas siberianas, o que está relacionado à temperatura do verão anterior, com verões quentes sendo seguidos por incêndios subterrâneos nos invernos seguintes e, consequentemente, por mais incêndios no próximo ano.

Considerando o rápido derretimento do permafrost (que contribui para o ressecamento do solo a longo prazo e, consequentemente, para aumentar sua flamabilidade) e as crescentes temperaturas do Ártico (que ultrapassaram os 38ºC no verão de 2020), esses fenômenos podem se tornar cada vez mais frequentes. Pela lógica do estudo, um verão tão quente como o de 2020 acarretaria uma grande quantidade de incêndios esse ano. Até esse momento, 2021 teve a maior quantidade de incêndios já registrada na Sibéria, equivalente a todos os outros incêndios somados do planeta. Com a repetição de um verão quente esse ano, a situação não tende a melhorar.

Além disso, o subsolo da Sibéria armazena duas vezes mais carbono do que o presente na atmosfera. Como consequência, incêndios subterrâneos na região liberam uma enorme quantidade de carbono que, por sua vez, aumentam ainda mais as temperaturas dos verões na região e agravam o problema.
Além dos impactos para a fauna local e para o clima de todo o planeta, o fogo subterrâneo pode, também, afetar diretamente ecossistemas brasileiros. Apesar de ser ainda pouco estudado, o fogo na turfa, camada rica em matéria orgânica do solo de vários ecossistemas brasileiros, pode dificultar muito a ação de bombeiros e brigadistas no controle de incêndios.

No ano passado, os incêndios do Pantanal, que destruíram 20% do bioma, voltavam a queimar nas mesmas áreas onde o fogo havia sido controlado e, ainda, ultrapassavam, no subsolo, barreiras colocadas na superfície para impedir o avanço das chamas. Dessa forma, é fundamental que mais estudos e pequisas sobre esse fenômeno sejam realizados para que possamos nos prevenir de eventos como esse.
Referências
Texto inspirado na Thread do Twitter do usuário @punkbiology
Artigo Irannezhad, M., Liu, J., Ahmadi, B. & Chen, D. The dangers of Arctic zombie wildfires. Science 369, 1171 (2020).
Reportagem Fogo Volta a Ganhar Força no Pantanal – 2020
Reportagem BBC – Os seis fatores que tornam incêndios no Pantanal difíceis de serem controlados
Reportagem BBC – Temperatura recorde no Ártico
Texto de NASA Earth Observatory – Overwintering Fires on the Rise


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