Imagine um clássico domingo em família. Sol, piscina, música e muita cerveja gelada. Para acompanhar, não poderia faltar um churrasco com uma boa carne de capivara, né? Por mais estranho que isso possa parecer para nós, brasileiros, essa é uma prática crescente em todo o planeta, na qual comer animais nativos ou invasores pode ser uma opção muito mais sustentável que a tradicional carne de criação. É a chamada ecovoria (tradução livre de ecovore), prática que se opõe ao veganismo mas que, para muitos, pode ser a chave para a conservação dos nossos ecossistemas e para um consumo consciente.

Para entender essa prática, precisamos conhecer um pouco da história da Austrália, um país isolado que, por milhares de anos, utilizou a carne de canguru como forma de sustento. Como já contamos anteriormente em nosso site, o ser humano chegou nesse território há cerca de 65 mil anos e, desde então, extinguiu cerca de 85% da sua megafauna, com destaque para os grandes predadores que ali viviam. Além disso, o constante uso de fogo transformou as grandes florestas tropicais secas no interior do continente em pradarias e regiões semi-áridas.

A redução drástica no número de predadores e a transformação de florestas em ambientes abertos favoreceram o canguru-vermelho (Osphranter rufus), que teve um crescimento populacional significativo. Com pouquíssimos predadores, sem competição com outros grandes herbívoros e com uma alta taxa reprodutiva, o impacto da caça pela população nativa não diminuiu sua população, que até a chegada dos europeus era controlada principalmente pela disponibilidade de água na Austrália. Após o início da agricultura nos moldes ocidentais a partir de 1770, entretanto, grandes sistemas de irrigação foram construídos, levando água para as regiões desérticas. Nesse momento, o número de cangurus explodiu novamente, levando a mais de 45 milhões de indivíduos no dia de hoje (o dobro da população humana no local).



Como controlar uma população crescente desses grandes animais, que não só causam acidentes envolvendo veículos, mas também causam enormes prejuízos para a agricultura do país e que competem com diversas espécies menores e, muitas vezes, ameaçadas de extinção? Além de custosa, a esterilização não funciona para controlar o número de cangurus e, por esse motivo, a caça é a opção adotada pelo governo. Além de contratar caçadores em determinadas épocas, o governo australiano incentiva a caça de canguru para o consumo, uma vez que a caça tradicional desperdiça toneladas de carne que poderiam servir para alimentar os habitantes do país.

Nesse caso, a caça é a única alternativa para preservar o equilíbrio dos ecossistemas australianos e, portanto, necessária. Por outro lado, assim como no Brasil, o consumo de carne na Austrália demanda muitos recursos, destrói florestas e pradarias para a criação de pastos e destina toneladas de alimentos para a indústria pecuária. Dessa forma, o governo australiano incentiva que a população civil cace e coma cangurus, que devem ser mortos seguindo um protocolo muito rígido, de forma a minimizar o sofrimento do animal. Foi assim que surgiram os “kangatarians” (neologismo que brinca com as palavras “canguru” e “vegetariano”; não consegui pensar em uma boa tradução: cangutarianos? cangurívoros?), pessoas que trocaram o consumo tradicional de carne de criação pela carne de canguru, uma vez que ela não só não gera impactos negativos para o planeta, como também cria um destino para toneladas de carne de canguru que iriam parar no lixo.

Todos os anos, a população de cangurus é contabilizada e um número máximo de animais a serem abatidos é estabelecido. Das 48 espécies de macrópodes da Austrália, apenas 6 podem ser abatidas. Devido à crescente demanda, diversas empresas se especializaram em caçar cangurus e oferecer sua carne para os supermercados e, dessa forma, o consumo de carnes tradicionais vem caindo no país. Por dar destino a toneladas de alimento que iriam ser descartadas e por reduzir os impactos ambientais de seu consumo, muitos kangatarians se consideram mais ecologicamente corretos do que os veganos, afirmação que gera muita polêmica no país.

Foi pensando nessa polêmica que alguns australianos criaram uma vertente alimentar totalmente voltada para o meio ambiente. Os ecóvoros (ecovores, em inglês) são um grupo de pessoas que, mesmo que com diversos pensamentos muito similares aos dos veganos, tentam utilizar sua alimentação como uma forma de resolver problemas ambientais. Na maior parte do tempo, possuem uma alimentação vegana, não comendo nem utilizando nenhum produto originário de animais de criação, como carne de boi, porco e frango, além de leite e ovos. Entretanto, esses indivíduos comem carne de animais de vida livre, desde que esse consumo beneficie o ambiente. Além do exemplo do canguru que citei anteriormente, essas pessoas também comem determinados animais invasores, como coelhos, veados (nos países que possuem cervídeos invasores), peixes-leão, cabras, capivaras e javalis. Espécies invasoras são uma das principais ameaças para a biodiversidade do planeta e sua erradicação fora dos seus ambientes nativos é extremamente recomendada. Portanto, comer sua carne é, para os ecóvoros, a melhor forma de se ter uma alimentação consciente.

Além do consumo de carnes de animais invasores ou com superpopulação, os ecóvoros não consomem alimentos produzidos de forma destrutiva. Óleo de palma e de coco, chocolate, chá, café e palmito, por exemplo, só devem ser consumidos se tiverem selos que comprovem que toda a sua produção foi ecologicamente correta, com o reflorestamento de uma área equivalente à área desmatada para o plantio ou que venham de agroflorestas.

Em adição, a dieta ecóvora pode ser uma alternativa para aqueles indivíduos que querem ter um consumo mais consciente, mas que também não querem abrir mão totalmente de carnes. Um ponto importante da dieta, entretanto, é a retirada do protagonismo animal da alimentação. Enquanto a maioria das culturas ocidentais colocam a carne como um alimento essencial e a parte principal de todo cardápio, um ecóvoro deve comer carne apenas esporadicamente, e sempre de forma consciente.
Assim como toda dieta, a ecovoria possui alguns pontos polêmicos. Primeiramente, muitos veganos e vegetarianos questionam a forma “humana” de matar esses animais por meio da caça. Mesmo com protocolos para uma caça que minimize a dor ao máximo, nada justificaria tirar a vida desses animais, mesmo que para a conservação. Outros, ainda, afirmam que a fiscalização seria inefetiva, e que, de uma maneira ou de outra, muitos animais acabariam sofrendo. A procura por esses diferentes tipos de carne poderiam, inclusive, financiar o mercado ilegal da caça de espécies nativas, uma vez que a mesma pessoa poderia matar os diferentes tipos de animais.

Alguns ecóvoros afirmam que, em um cenário ideal, com essa prática poderíamos abolir completamente o espaço destinado, de forma direta ou indireta, à pecuária (até 70% da área rural de alguns países). Se revertidas para seus ecossistemas originais, essas áreas seriam fazendas ao ar livre, com diversas espécies selvagens que poderiam ser caçadas de forma ética, com estimativas populacionais anuais para saber quanto de cada espécie poderia ser abatido por ano, inclusive de espécies nativas com populações crescentes, como cangurus na Austrália, capivaras no Brasil (caça ainda não regulamentada) ou cervos nos Estados Unidos.

Essa é uma discussão extremamente complexa, sobretudo devido ao surgimento muito recente desse movimento. Para mim, sua ideia é muito interessante, mas ainda não poderia ser aplicada em todos os países. No Brasil, por exemplo, possuímos diversas populações de animais exóticos introduzidos (como javalis) ou ferais (animais domésticos que criaram uma população viável na natureza, como é o caso de búfalos na região Norte), cuja caça é, sob determinadas circunstâncias, permitida. Entretanto, ao contrário do que ocorre na Austrália, toda a carne exótica encontrada nos supermercados provém de animais de criação. Aumentar a demanda por carne de javali, por exemplo, pode aumentar a produção em cativeiro desses animais com potencial invasor, o que agravaria o problema que a ecovoria se propõe a destruir. No caso de espécies nativas (como a capivara, que citei anteriormente), a situação é ainda pior devido à falta de fiscalização. As carnes de espécies nativas vêm de cativeiro (o que salvou várias espécies da extinção, como nossos jacarés) e o controle de quais animais podem ou não ser caçados é pouco eficaz. Infelizmente, acredito que a prática da ecovoria no Brasil iria apenas fortalecer a caça de animais silvestres, pelo menos no presente. Por outro lado, a maioria dos conservacionistas é contra a proibição da caça de javalis no país e poderia ser interessante destinar essa carne para o mercado.

Mesmo com suas falhas, o vegetarianismo, o veganismo, o kangatarianismo e a ecovoria são práticas alimentares que, em sua maior parte, visam a reduzir os impactos humanos no planeta. Nos últimos anos, o mercado vegetariano e vegano ganhou muita força no Brasil, com cada vez mais produtos sendo oferecidos para essa parcela da população, produtos esses que, pouco a pouco, vão entrando na alimentação de não-veganos e substituindo os produtos originários de animais de criação utilizados no dia-a-dia. Quem sabe, daqui a alguns anos, a carne de caça de animais invasores vai se tornar um alimento mais comum, e mais pessoas possam ajudar o meio ambiente por meio do consumo de carne consciente.
E aí, o que acharam dessa ideia? Nos contem no nosso Instagram!
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Referências
- https://www.theland.com.au/story/5722389/researcher-says-kangaroo-industry-could-be-answer-to-carbon-emissions/
- https://www.cnabrasil.org.br/noticias/faep-coordena-acoes-para-controle-efetivo-de-javalis
- https://www.themonthly.com.au/issue/2015/july/1435672800/sam-vincent/culling-season#mtr
- https://ecovore.wordpress.com/
- http://www.angelfire.com/ult/ecovore/
- https://theconversation.com/did-fire-kill-off-australias-megafauna-19679
- https://www.nature.com/articles/ncomms14142
- https://www.pnas.org/content/113/4/838
- https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2684593/
- https://royalsocietypublishing.org/doi/10.1098/rstb.2017.0443
- https://www.ft.com/content/c068339e-3c55-11ea-b232-000f4477fbca
- https://www.oeco.org.br/colunas/colunistas-convidados/porque-nao-podemos-proibir-a-caca-do-javali-no-brasil/


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