Introdução
A Caatinga (do Tupi ka’a [mata] + tinga [branca] = mata branca) é um bioma* encontrado no nordeste do Brasil, presente nos estados da Paraíba, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Maranhão, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Bahia e ao norte do estado de Minas Gerais. Embora visto como seco e sem vida por muitas pessoas, é considerado o bioma semiárido mais biodiverso de todo o planeta, com altas taxas de endemismo e cuja origem ainda é um grande mistério para a ciência.

Estendendo-se por uma área de 1.037.000 km² segundo alguns autores , ocupa mais de 12% do território nacional e é lar de 12% da população brasileira e de 63% da população nordestina, o que, por si só, já demonstraria a importância do estudo desse bioma. Além disso, apresenta altas taxas de endemismo (chegando a mais de 57% em alguns grupos estudados) e é a região menos amostrada do Brasil, na qual a maioria das espécies ainda não foram descritas.

Famosa por suas secas ocasionais e pela enorme diferença sazonal do bioma, sofre com estiagens que duram até 5 anos a cada quatro décadas, mas as recentes mudanças climáticas têm tornado as secas mais frequentes e, durante a época chuvosa, provocado chuvas mais intensas e alagamentos severos em algumas regiões. Eventos climáticos como o El Niño podem afetar drasticamente a região, ameaçando a biodiversidade e as populações locais.

O Surgimento da Caatinga – Relíquias do Passado
Para entender um bioma precisamos entender seu passado a fim de descobrir como cada espécie chegou ali e, principalmente, para prever como mudanças no ambiente podem afetar a vegetação ou a fauna local. Com a Caatinga, entretanto, essa é uma tarefa quase impossível. Pouquíssimas pesquisas foram realizadas sobre sua formação e as existentes apresentam dados extremamente conflitantes. Dessa forma, embora embasado em dados científicos, a história da formação desse bioma contada aqui será parcialmente opinativa, misturando dados de fontes diferentes para tornar essa história a mais razoável possível.
Parte da biodiversidade nordestina (do nordeste do Brasil, incluindo a Região Nordeste e o norte de Minas Gerais) é um relicto da biodiversidade do Mesozoico, há pelo menos 65 milhões de anos. Algumas plantas da região vivem em topos de Inselbergs (formações rochosas do mesmo tipo do famoso Pão de Açúcar) e, provavelmente, sobreviveram no clima ameno das altitudes mais elevadas mesmo com a desertificação das áreas baixas, com altitudes elevadas servindo como refúgios para esses vegetais. O Podocarpus lambertii, por exemplo, é um pinheiro que pertence a uma linhagem que surgiu quando os continentes do sul ainda estavam conectados entre si, antes mesmo da época dos dinossauros. Encontrado em zonas frias do sudeste, sul e da Argentina, pode também ser encontrado em Inselbergs no interior do sertão baiano.


Outros locais da caatinga apresentam refúgios de altitude de plantas amazônicas, muito mais recentes que os pinheiros mencionados anteriormente. Em épocas úmidas do passado, o domínio amazônico se expandiu para uma área muito maior que a atual, alcançando o nordeste brasileiro. Em sua retração, algumas plantas foram deixadas para trás em refúgios, como é o caso da Attalea speciosa, palmeira amazônica popularmente conhecida como Babaçu, que pode ser encontrada em serras do Ceará.

O Manual Técnico da Vegetação Brasileira do IBGE demonstra como diferentes regiões da Caatinga apresentam diversas plantas de outros domínios fitogeográficos (leitura da citação é opcional para a compreensão do texto, acrescentada aqui para os profissionais da área e para aqueles que se interessam por botânica ou biogeografia):
A primeira faixa florestal, denominada popularmente de “Zona da Mata”, apresenta gêneros amazônicos endêmicos, de famílias Pantropicais, como, por exemplo, as Fabaceae Mim., Parkia pendula (Willd.) Vent. ex Walp. (visgueiro) e Enterolobium maximum Ducke (fava), a Fabaceae Caes. Hymenaea latifolia Hayne (jatobá) e as Fabaceae Caes. Peltogyne pauciflora Vent. (roxinho), Diplotropis purpurea (Rich.) Amshoff (sucupira), a Fabaceae Pap. Myroxylon cf. balsamum (L.) Harms (bálsamo) e muitas outras, que, segundo Andrade-Lima (1966a), chegam a 19 gêneros e 388 espécies comuns às duas regiões, Nordestina e Amazônica. Além destas espécies, ocorrem outras com origem no Escudo Atlântico, como, por exemplo: Gallesia integrifolia (Spreng.) Harms (pau-d’alho, Phytolaccaceae) e outras (RIZZINI, 1963).
A segunda faixa de vegetação também florestal, denominada popularmente de “Zona do Agreste”, situada entre as áreas costeira-úmida e interiorana-árida, apresenta ochlospecies bem características, como, por exemplo, Zizyphus joazeiro (juazeiro, Rhamnaceae), que ocorre também ao longo dos cursos de água intermitentes. Além desta faixa, ocorrem também outras áreas florestais estacionais disjuntas, desde o sul de Natal (RN) ao longo da costa, desviando-se daí para o interior, já no Estado da Paraíba, e seguindo até o Estado da Bahia, quando se interna para formar na região centro-sul um grande território com clima continental onde ocorre a Floresta Estacional.
A terceira faixa, já constituindo uma grande área, denominada de “Zona do Sertão”, apresenta uma florística endêmica própria dos climas semiáridos, com chuvas intermitentes torrenciais seguidas por longo período seco, que pode durar alguns anos. O tipo de vegetação que aí se instala é “savânico”, com predominância de plantas espinhosas deciduais, e, embora estabelecido dentro do espaço intertropical sul, apresenta uma florística homóloga das áreas estépicas dos climas temperados pré-andinos da Argentina e Bolívia. Daí a denominação de “Savana-Estépica” para este tipo de vegetação core árida brasileira, pois sua florística apresenta homologias bastante significativas com o Chaco Boreal argentino-boliviano-paraguaio, o denominado Parque de Espinilho Rio-Grandense-do-Sul e os Campos de Roraima, situados no extremo norte do País, na fronteira Brasil-Venezuela.
Os cactos são importantes agentes na paisagem da caatinga, cuja dispersão ocorreu vinda dos Andes, provavelmente há milhões de anos. Utilizando aves como dispersoras, essas plantas se espalharam por toda a América e, ao chegar na região da Caatinga, provavelmente viveram por muito tempo associadas aos ambientes de afloramentos rochosos ou crescendo em cima de outras plantas. Quando o clima local se tornou semiárido, puderam se espalhar para áreas onde outras plantas não sobreviveriam, sobretudo devido a suas adaptações para a redução da perda da água nos seus organismos.

Como a Caatinga secou?
A grande pergunta, entretanto, é: quando a Caatinga se tornou seca, adquirindo suas características atuais e gerando altas taxas de endemismo, tanto da flora quanto da fauna? Não sabemos quando determinados grupos faunísticos chegaram ao local e muito menos como era a região quando eles chegaram, o que abre caminho para a especulação.
Embora alguns autores afirmem que a Caatinga, como conhecemos, surgiu nos últimos 10 mil anos, essa afirmação é extremamente improvável, tendo em vista a enorme quantidade de espécies que não podem ser encontradas em nenhum outro local do planeta. Dessa forma, considerando as características climáticas e vegetais da área e mantendo a afirmação de autores como Malvezzi, de que a Caatinga é um bioma recente, pode-se teorizar que ela tenha surgido nos últimos 740 mil anos, durante um dos oito períodos de glaciação que ocorreram nessa época. No decorrer de épocas glaciais, grande parte da umidade do planeta é retida nos polos, o que gera um ressecamento dos continentes e ,consequentemente, a retração de florestas. Esses eventos poderiam explicar, tanto a expansão amazônica para a área, quanto o surgimento de um clima semiárido na região.

Eventos mais recentes, como o surgimento do Saara há 2 mil anos, ou mais antigos, como o congelamento da Antártida e o aparecimento da Corrente Equatorial Sul, há 30 milhões de anos, também poderiam explicar parte do processo, mas a falta de estudos faz com que essas teorias sejam mera especulação no momento. Por enquanto, a teoria glacial parece, na minha opinião, a mais plausível.
Conclusão
A Caatinga é uma região socialmente e cientificamente negligenciada pelo resto do país. Mesmo com altas taxas de endemismo e de espécies ameaçadas, esse bioma continua sendo um dos menos estudados do país, sobretudo devido à falta de financiamento para esses estudos e à desvalorização de sua importância. O uso inadequado da água e do solo da região fazem com que 15% do seu território esteja ameaçado pela desertificação, enquanto apenas 53,62% ainda não foram desmatados. Menos de 1% da região está protegido em unidades de conservação, o que faz com que muitas espécies estejam ameaçadas antes mesmo de serem conhecidas.

Contendo, possivelmente, a maior concentração de espécies extintas recentemente no Brasil, a Caatinga é um desafio para a conservação e para as gerações futuras, sendo afetada pela produção agropecuária e pelas mudanças climáticas. Esse texto é um pequeno incentivo para que sejam realizadas mais pesquisas em uma das áreas mais ricas e ameaçadas do planeta, cujo desenvolvimento científico auxiliaria, tanto na sua preservação, quanto na valorização das comunidades locais. A riqueza e o potencial desse bioma não podem ser perdidos.

*A Caatinga não é mais considerada um bioma por muitos autores mas, sim, um conjunto de biomas
Referências
Manual Técnico da Vegetação Brasileira – IBGE
Sistema Nacional de Informações Florestais


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