Todos os anos, notícias sensacionalistas apontam algum animal selvagem como um dos predadores dos humanos. A destruição de seus habitats, bem como a maior aproximação entre nossa espécie e esses predadores fazem com que, cada vez com mais frequência, ataques de animais ocorram, até mesmo em centros urbanos.
Entretanto, o que essas notícias falham em apontar é que esses ataques estão muito mais relacionados ao animal se defendendo do que a um ataque proposital com fins alimentares, o que nem sempre foi assim. Ao longo de nossa evolução, vários animais atuaram como nossos principais controles populacionais, tendo sido responsáveis, inclusive, pela baixa densidade populacional em algumas regiões do planeta. Descubra quem foram nossos predadores e como saímos do meio até o topo da cadeia alimentar.
Obs.: Reconstruções e fotos de crânios humanos serão apresentadas. Caso não se sinta confortável, não leia. O foco principal do texto é falar sobre registros arqueológicos e paleontológicos de predação. Casos isolados de animais que não nos enxergam como presa, mas que alguns indivíduos específicos já se alimentaram de pessoas (como os leões Sombra e Escuridão de Tsavo), não serão comentados.
Grandes águias africanas – Águia-coroada-africana (Stephanoaetus coronatus) e águia-marcial (Polemaetus bellicosus)
No início da evolução da linhagem humana direta (grupo Australopithecina, que conta com todos os primatas mais próximos evolutivamente dos seres humanos do que dos chimpanzés e bonobos), águias atuavam como predadoras vorazes. Na África Subsaariana, várias evidências apontam que essas aves se alimentavam de nossos parentes com certa frequência, como os crânios encontrados com furos muito similares aos também encontrados em macacos atacados por aves de rapina.

O crânio desse tipo mais famoso é o de um filhote da espécie Australopithecus africanus. Apelidado de Criança de Taung, ela foi morta há aproximadamente 3 milhões de anos. Possuía entre três e quatro anos e seu crânio indica perfurações consistentes similares às provocadas por águias. A águia-coroada-africana é uma espécie que caça antílopes de até 30 kg, que pode carregar animais de até 11 kg, e que poderia, em teoria, matar até mesmo Australopithecus adultos. Acredita-se que a pressão seletiva imposta por esses animais pode ter sido um dos motivos que levou os membros de nossa linhagem a crescerem, passando de 1 metro nas espécies mais basais para mais de 1,70 metro em nossa espécie.

Cânio da Taung Child 
Representação de uma águia carregando o filhote de Australopithecus 
Representação de como as garras da águia danificaram o crânio

Águias-coroadas-africanas não são um risco para nossa espécie atualmente, com apenas um ataque registrado, possivelmente com fins predatórios, e dois casos conhecidos de ossos de crianças desaparecidas encontrados nos ninhos dessas aves, que podem ou não terem sido responsáveis pelas mortes. Uma outra águia africana, a águia-marcial (Polemaetus bellicosus), possivelmente também predava nossos ancestrais, com um único caso registrado de um ataque predatório a uma criança humana.


Surpreendentemente, águias podem ter se alimentado de humanos modernos. Quando os primeiros humanos chegaram na Nova Zelândia, uma enorme águia se alimentava dos moas gigantes da região e, supostamente, de crianças. Histórias indígenas contam que o mesmo acontecia com harpias nas Américas e com as águias-das-filipinas na Ásia, as maiores águias modernas.

Leopardo – Panthera pardus
Por muito tempo, Australopithecinos também tiveram que se preocupar com diversos predadores na superfície terrestre, sobretudo leopardos. Fósseis dos gêneros Australopithecus (Paranthropus) e Homo mostram que leopardos caçavam essas espécies e carregavam seus restos para árvores e cavernas, assim como fazem com suas presas atuais.

Leopardos são excelentes caçadores de hominídeos, caçando chimpanzés e bonobos (jovens e adultos), assim como gorilas fêmeas e jovens (embora existam relatos de leopardos que mataram gorilas machos da subespécie gorila-ocidental-das-terras-baixas Gorilla gorilla gorilla).
Capazes de carregar presas de até 60kg para o topo das árvores, provavelmente faziam o mesmo com a maioria de nossos ancestrais. Um fóssil famoso encontrado em Swartkrans, no Quênia, apresenta perfurações perfeitamente condizentes com os dentes de um leopardo. Provavelmente, a presa foi levada para o topo de uma árvore, em cima de uma caverna vertical, e caiu lá dentro, onde foi encontrada milênios depois por pesquisadores.


Leopardos ainda matam cerca de 55 pessoas por ano. Na esmagadora maioria das vezes, entretanto, o animal ataca para se defender. Diversos casos de leopardos que consumiram humanos existem na história recente, mas quase todos estavam feridos e não podiam caçar presas maiores ou suas presas haviam desaparecido.
Crocodilos – Crocodylus anthropophagus
Perto da água, a situação não era melhor para nossos ancestrais. O Crocodylus anthropophagus foi um enorme crocodilo da Tanzânia que recebeu seu nome por ter sido descoberto juntamente com diversos esqueletos de Homo habilis e Paranthropus boiseicom com marcas de mordidas.


Crocodilos são os animais que, atualmente, mais predam humanos modernos (embora o termo crocodilo reúna diversas espécies). Cerca de 1000 pessoas morrem todos os anos por ataques de crocodilos, o que quase sempre está relacionado a pessoas que não mantiveram uma distância segura.
Entretanto, esse número pode ser exagerado, uma vez que diversos afogamentos em rios da África e da Ásia resultam em crocodilos comendo carcaças humanas e esses animais acabam levando a culpa pelas mortes. Na Segunda Guerra Mundial, uma batalha na ilha de Ramree (Myanmar) resultou no naufrágio de um navio japonês em um mangue. Mais de 500 homens foram, supostamente, atacados e devorados por crocodilos. Entretanto, análises recentes mostram que, na realidade, os homens afogaram e os animais comeram seus corpos posteriormente.
Gato terrível – Dinofelis
Poucos predadores devem ter superado o felídeo Dinofelis no número de Australopithecineos consumidos. Sua anatomia era perfeita para quebrar o crânio desses animais e, por milhões de anos, o gênero conviveu com nossos ancestrais. Com um crânio semelhante a um tigre-dentes-de-sabre, porém sem seus famosos caninos expostos, esses felídeos caçavam perfurando o crânio ou quebrando vértebras cervicais. O gênero foi extinto há 1,2 milhões de anos.

Gato-dentes-de-sabre – Megantereon
Avançando alguns milhões de anos, ancestrais mais próximos de nossa espécie ainda eram predados por um grande felídeo. Um crânio de um hominídeo, provavelmente já do gênero Homo encontrado no Quênia, mostra a predação por um dentes-de-sabre denominado Megantereon. Esse gênero predava, inclusive, o hominídeo Homo erectus, um dos nossos ancestrais mais próximos.



Dragões-de-komodo – Varanus komodoensis
O Homo erectus foi o hominídeo que teve a maior distribuição depois de nossa espécie. Durante o Pleistoceno, se espalhou pelo planeta e chegou a conquistar até mesmo ilhas. Após milênios de isolamento, deu origem a novas espécies, como o Homo floresiensis.
Apelidado de “hobbit”, por ter pouco mais de 1 metro e pesar apenas 25kg (assim como a raça fictícia popularizada nos livros de J. R. R. Tolkien “O Hobbit” e “Senhor dos Anéis”), o Homo floresiensis viveu entre 190 e 50 mil anos atrás na ilha de Flores, na Indonésia. Lá, se deparou com diversos predadores, sobretudo o grande dragão-de-komodo, que ainda vive no local.

Evidências científicas apontam que o Homo floresiensis caçava dragões-de-komodo, pequenos elefantes que viviam na ilha e ratos gigantes e nenhuma evidência direta mostra que esses enormes lagartos caçavam a espécie. Mesmo assim, casos de predação de humanos modernos por esse réptil já foram relatados, o que torna a predação do pequeno “hobbit” provável.

Cegonhas gigantes – Leptoptilos robustus
Já ouviu falar das cegonhas que carregam crianças? Essa também poderia ser uma realidade na ilha de Flores! A enorme Leptoptilos robustus era um dos maiores predadores da ilha, com 1,80m. Evidências apontam que a ave consumia desde os ratos gigantes até dragões-de-komodo jovens, podendo, também, facilmente ter consumido os pequenos humanos.


Hienas – Gênero Crocuta
Nossa espécie (Homo sapiens) surgiu há cerca de 350 mil anos e, pelo menos nos primeiros 200 mil anos, permaneceu na África, onde convivia com hienas. Além de competirem por nossa comida, hienas do gênero Crocuta são excelentes predadoras e atacavam nossa espécie. No norte da África, uma caverna cheia de restos humanos foi encontrada com marcas de predação e, provavelmente, as hienas foram as responsáveis pelas mortes humanas.
Mesmo após sair da África, hienas continuaram sendo um dos nossos principais predadores. A enorme Crocuta spelaea vivia na Europa e na Ásia e caçava em bandos, levando suas presas para cavernas. Ossos de Homo sapiens e H. neanderthalensis foram encontrados nessas cavernas.



Pilhas de ossos levadas para cavernas por hienas na Arábia Saudita 
Hiena carregando crânio – Por Hodari 
Ossos de Neanderthal consumidos por hienas
Ursos, lobos e outros mamíferos carnívoros
Na Europa, nossa espécie e os Neanderthais encontraram outros desafios. Uma pesquisa recente demonstrou que, dos esqueletos de 176 Neanderthais analisados, 36% morreram por ataques de ursos, 21% de felídeos e 17% por ataques de lobos, o que indica que 74% morreram por tentativas de predação. Portanto, até pouco mais de 10 mil anos atrás, a predação ainda era extremamente frequente.


Ursos são um dos únicos mamíferos atuais que enxergam pessoas como alimento, sobretudo o urso-polar (Ursus maritimus), mas seu hábitat isolado faz com que os ataques sejam raros. Os ataques mais frequentes, entretanto, ocorrem com o pequeno urso-negro (Ursus americanus). Por ser relativamente dócil, pessoas tendem a alimentá-lo, o que faz com que ele perca o medo de seres humanos, aumentando o risco de ataques.
Ataques de tigre eram frequentes no passado recente, mas estão praticamente ausentes na pré-história. Entre 1800 e 2009, 1800 pessoas morreram anualmente por ataques de tigre, com a esmagadora maioria concentrada no século XIV. Atualmente, apenas 85 ataques acontecem por ano, geralmente por contato de humanos e tigres em áreas rurais da Índia e do Nepal, assim como por manejos inadequados de animais de cativeiro.
Historicamente, leões também atacavam pessoas, com alguns casos famosos de indivíduos específicos ou pequenas populações que passaram a consumir humanos. Todos os casos recentes de predação, entretanto, são resultado da caça de suas presas ou de manejos em cativeiro.
Tubarões – Diversas espécies
Ataques de tubarão geralmente não resultam em predação e são extremamente raros. Têm aumentado nos últimos anos devido à pesca excessiva dos peixes dos quais eles se alimentam e à destruição de seus locais de reprodução (como mangues e recifes), o que aumenta a interação entre humanos e esses animais. Um único esqueleto humano antigo (3 mil anos) foi encontrado com marcas de mordida, no Japão. Todo ano, apenas 10 pessoas morrem por ataques de tubarão e casos de predação são virtualmente inexistentes.

Cobras gigantes – Malayopython reticulatus
O Homo luzonensis foi uma outra espécie de um pequeno humano nativo de ilhas do Sudeste Asiático. Encontrado nas Filipinas, era ainda menor que seu parente de Flores, com apenas 1,2 metros de altura. Nas ilhas, encontravam a grande serpente Malayopython reticulatus, que provavelmente era uma predadora frequente da espécie.

,Essa espécie é a única serpente atual que pode ver o Homo sapiens como alimento. Com até 9 metros de comprimento, pelo menos 20 casos de tentativas de predação ocorreram nos últimos anos, o que fez com que a importação da espécie pelo mercado pet fosse proibida em diversos países. Também nas Filipinas, 1/4 das pessoas de comunidades pigmeias (onde a maior parte da população tem menos de 1,5m de altura) já foram atacadas por pítons.

As famosas anacondas – nome em inglês para as sucuris (gênero Eunectes) – levam erroneamente a fama das pítons. Mesmo ultrapassando os 6 metros, não existem registros de tentativas de predação a humanos por essas cobras. Mesmo assim, são caçadas por medo da população.
Nossos maiores assassinos – Famílias Culicidae e Psychodidae
Atualmente, nosso modo de vida e a densidade desses animais anteriormente citados fazem com que eles não sejam um risco. Mantendo uma distância segura e, sobretudo, seus habitats intactos, a chance de um ataque fatal é praticamente nula, com mais pessoas morrendo de ataques de vacas ou cães do que de qualquer animal dessa lista, por exemplo.
Entretanto, o animal que mais matou e ainda mata nossa espécie é o mosquito (nome popular para animais das famílias Culicidae e Psychocidae). Contaminando 700 milhões de pessoas e matando um milhão por ano, foi responsável por, pelo menos, 52 bilhões de mortes em nossa história. Ele é, verdadeiramente, o maior assassino de seres humanos. Mosquitos matam, diariamente, o que todas as espécies de tubarão mataram juntas nos últimos 100 anos.

Não é possível manter uma distância segura deles e eles se encontram, até mesmo, dentro de nossas casas. Zika, dengue, chikungunya, malária, febre amarela silvestre, leishmaniose tegumentar e visceral, filaríase linfática, virose do Nilo Ocidental, tularemia e encefalite de São Luís são apenas alguns dos problemas ocasionados por eles.
Portanto, por incrível que pareça, os mosquitos são os únicos animais de nossa lista que realmente devem ser temidos.
Referências
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