“Extinção é para sempre”. Essa pequena frase é frequentemente utilizada como forma de conscientização para a gravidade da onda de extinção que varre nosso planeta, mas ela não conta toda a verdade. Parte disso vem do fato que, devido às nossas dificuldades metodológicas, não conhecemos todos os seres vivos presentes no planeta e, por esse motivo, várias espécies tidas como extintas são posteriormente reencontradas. (Saiba mais sobre em A Volta dos que Não Foram – Como espécies extintas podem ser encontradas novamente). Além disso, avanços científicos nos deixam cada vez mais perto da clonagem de espécies extintas, no estilo Jurassic Park, que inclusive já permitiu que uma espécie fosse extinta duas vezes na história. Entretanto, o assunto desse texto é bem diferente desses dois cenários.

Muitas vezes, espécies que desapareceram completamente da natureza ainda estão presentes em zoológicos ou centros de reprodução. Na maioria dos casos, esses organismos jamais retornarão para o ambiente selvagem. Em outros, esses indivíduos são capazes de repovoar ecossistemas e transformar o ambiente em que vivem. Essa prática, conhecida como reintrodução, é muito cara e possui muitos riscos, motivos pelos quais não é feita com frequência. Quando bem administrada, entretanto, pode fazer com que savanas, pradarias, florestas e desertos voltem a ser o que já foram, dezenas ou centenas de anos atrás.

Quando pensamos em reintrodução, temos um grande desafio pela frente. O primeiro passo é determinar quem são os possíveis candidatos. A IUCN (União Internacional para Conservação da Natureza) possui o inventários mais detalhado e mais utilizado sobre o estado de conservação de espécies do planeta e, atualmente, cita 38 animais extintos na natureza.
Para escolher um candidato, deve-se primeiramente pensar: onde devemos soltar esses animais? O leão-do-atlas, por exemplo, é a maior subespécie de leão do planeta, extinta na natureza no século XX. Esse animal vivia em florestas e regiões semi-áridas da costa africana do Mediterrâneo e foi extinto sobretudo devido à caça esportiva e à perda de habitat. Atualmente, nem as grandes florestas muito menos as grandes populações de presas existem mais na região. Além disso, a caça esportiva ainda ameaça as subespécies de leões existentes na África. O que impediria que o leão-do-atlas fosse solto para ser extinto novamente pela caça anos depois? Esse é o motivo pelo qual ainda não podemos devolver esse animal para a natureza.

Um outro grande problema que enfrentamos é a chamada depressão endogâmica. Em espécies extremamente raras, poucos indivíduos na população reproduzem e, consequentemente, poucos alelos existem na população. O cruzamento desses organismos pode aumentar a chance de que alelos recessivos deletérios, ou seja, que contribuiriam para a extinção da espécie, se propaguem na população, em um processo conhecido como “depressão endogâmica”. Isso pode se refletir em doenças genéticas, baixas taxas de reprodução ou, até mesmo, na resistência da espécie a certos patógenos. Ao escolher uma espécie para a reintrodução, os cientistas necessitam garantir a diversidade genética entre os indivíduos. Protocolos criados em 2004 conseguiram garantir que uma população de apenas 30 indivíduos possuíssem 95% da diversidade genética de uma espécie.

Mas, afinal, a reintrodução dá certo? Por causa dos inúmeros estudos realizados antes da soltura dos animais, pouquíssimos casos até hoje falharam. O melhor exemplo para entender o potencial da soltura de espécies extintas na natureza é o do cavalo-selvagem-de-przewalski, o único cavalo selvagem de nosso planeta. Historicamente presentes por toda Eurásia, esses animais tiveram um declínio populacional significativo devido à perda de habitat, caça e captura. Por muitos anos, essa espécie permaneceu negligenciada até que, em 1950, apenas 12 indivíduos restavam em todo o planeta. Esforços de zoológicos contribuíram para a sua reprodução em cativeiro e estudos genéticos contribuíram para tentar minimizar os efeitos da depressão endogâmica. Em 1992, 16 indivíduos foram soltos em planícies da Mongólia. Em outras três ocasiões nos anos seguintes, mais 60 animais foram soltos e começaram a se reproduzir na natureza em várias localidades diferentes, atingindo uma população selvagem de 248 animais por volta de 2005. Foi a primeira vez na história que um grande animal passou de Extinto na Natureza para Criticamente Ameaçado, segundo a classificação da IUCN. Graças ao crescimento rápido de sua população, o animal saiu de Criticamente Ameaçado para Ameaçado, em 2011.

Além das reintroduções de espécies extintas na natureza, centenas de outras espécies de animais extintos localmente têm sido feitas e, até o momento, mais de 200 casos de sucesso já foram registrados pelo mundo. No Brasil, diversos estudos vêm sendo realizados para reintrodução de animais, sobretudo na Mata Atlântica. O mutum-de-alagoas (Pauxi mitu) é a maior ave desse bioma, tendo um papel fundamental na dispersão de sementes. A caça e o desmatamento fizeram com que seus números decaíssem drasticamente no século XX, tendo sido avistado pela última vez em 1977. No ano passado, seis exemplares vindos de criadouros especializados foram levados para a Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Mata do Cedro, no município de Rio Largo, próximo à cidade de Maceió. Após um período de aclimatação, os animais foram soltos na reserva, em uma área de mil hectares, onde estão sendo monitorados. Pela primeira vez, uma espécie extinta voltou para a natureza no Brasil.

No Dia Mundial da Vida Selvagem (03/03), 52 ararinhas-azuis (Cyanopsitta spixii) chegaram no Brasil, vindas da Alemanha. A espécie, extinta na natureza desde 2000, foi mantida em cativeiro graças a esforços de conservação e de parcerias com zoológicos. As aves foram levadas para o município de Curaçá, na Bahia, onde ficarão em um centro de reprodução e, após alguns meses, serão soltas, enchendo nossa caatinga de cor após 20 anos de sua ausência.

A extinção é um processo muito prejudicial, mas nem sempre é irreversível. Milhares de pessoas em todo o mundo lutam para reverter as ações de seres humanos do passado e, sobretudo, para garantir um futuro para aqueles organismos que agora dependem de nós para existir. Esses animais são uma lição para a conservação e nos mostram, não só o nosso poder de extinguir espécies, mas também de salvá-las.
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Referências
Mutum-de-alagoas será reintroduzido na natureza depois de extinto há mais de 40 anos


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