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O mar não está para peixe – Como a pescaria está matando nossos oceanos

A pescaria é uma prática extremamente difundida em diversas culturas humanas. Desde o seu surgimento, ela tornou-se parte integrante de várias tradições, compondo a culinária, o artesanato e, em muitos casos, até mesmo a religião dos povos que dependem dela. Entretanto, nos últimos anos, a pescaria industrial tornou-se uma ameaça, não só para as populações…

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A pescaria é uma prática extremamente difundida em diversas culturas humanas. Desde o seu surgimento, ela tornou-se parte integrante de várias tradições, compondo a culinária, o artesanato e, em muitos casos, até mesmo a religião dos povos que dependem dela. Entretanto, nos últimos anos, a pescaria industrial tornou-se uma ameaça, não só para as populações que dependem dos mares e rios como fonte de renda, como também para todos os ecossistemas oceânicos. Para fins didáticos, consideraremos pescaria o ato de matar ou capturar qualquer organismo aquático para o uso como alimento ou para a fabricação de roupas, ornamentos, joias ou outros produtos de luxo.

Navio pesqueiro industrial realizando coleta em larga escala, ilustrando o problema da sobrepesca e seus impactos nos ecossistemas oceânicos
Coleta feita por um navio pesqueiro – Fotógrafo desconhecido

Os primeiros registros da pesca entre os seres humanos datam mais de 40 mil anos atrás, durante o Paleolítico Superior. Acredita-se que, nessa época, os primeiros Homo sapiens sapiens que habitavam o leste da Ásia adquiriram o hábito de capturar peixes e moluscos de água doce utilizando técnicas rudimentares, prática que perdurou na região por milhares de anos e, progressivamente, foi sendo incorporada em diferentes populações. Em algumas regiões da Europa, os primeiros assentamentos humanos (cerca de 11.500 anos atrás) estão diretamente relacionados com a dominação da prática da pesca, uma vez que os rios eram fontes duradouras de alimento durante todo o ano para essas tribos.

Anzóis feitos de conchas com 16 mil anos de antiguidade encontrados em Timor Leste, evidenciando as origens da pesca na pré-história humana
Anzóis feitos de conchas de 16 mil anos encontrados em Timor Leste

A invenção das redes e anzóis de forma independente e em diferentes partes do mundo possibilitou que muitas comunidades utilizassem a pesca como principal fonte de carne por todo o mundo, mas somente a partir do século XVI, com o desenvolvimento das primeiras grandes embarcações pesqueiras, essa prática realmente se tornou uma ameaça para a vida marinha. A primeira vítima conhecida da pesca é a vaca-marinha-de-Steller (Hydrodamalis gigas), um peixe-boi de 9 metros de comprimento descoberto pelos europeus em 1741 e caçado até a sua extinção, em 1768.  De movimentos lentos e hábitos extremamente dóceis, esse animal era caçado para o aproveitamento do seu pelo, carne e pele, com a utilização de arpões que, posteriormente, serviriam para colocar outros grandes animais no rumo da extinção.

Representação artística da vaca-marinha-de-Steller (Hydrodamalis gigas), animal extinto em 1768 pela caça excessiva, primeiro gde mamífero marinho a ser extinto pela ação humana moderna
Representação da caça de vacas-marinhas-de-Steller

Durante o século XVII, a demanda por óleo para a iluminação pública criou uma crescente demanda pela caça de baleias, principalmente no Oceano Atlântico. Por muito tempo, acreditou-se que a caça de baleias era uma fonte inesgotável dessa substância tão procurada mas, nos dois séculos seguintes, as populações de baleias de todo o mundo caíram drasticamente, aproximando diversas espécies, como a jubarte e a cachalote, da extinção, sobretudo por volta de 1930, quando mais de 50 mil desses animais eram mortos anualmente.

Pintura do século XVIII retratando navios baleeiros holandeses no Ártico, representando o início da caça industrial de baleias que quase extinguiu diversas espécies
Quadro do século XVIII representando navios baleeiros holandeses – Artista desconhecido – Wikimedia Commons (domínio público)

Ao longo do século XX, as práticas baleeiras foram proibidas em diversas regiões do mundo, o que possibilitou a recuperação de muitas das espécies afetadas por essa prática. Entretanto, com o crescimento populacional em todo o mundo, especialmente nas áreas litorâneas, a demanda por peixes e frutos do mar tornou-se cada vez maior, o que motivou a busca por técnicas cada vez mais eficientes para a captura desses animais. Grandes navios com redes de arrasto acopladas passaram a retirar dos oceanos milhares de organismos marinhos diariamente e, no final do século, mais de 22 milhões de toneladas de sardinhas eram pescadas anualmente.

Representação esquemática de rede de arrasto de fundo, técnica de pesca que extrai organismos marinhos em massa e causa danos severos aos ecossistemas bentônicos - Monterey Bay Aquarium
Representação esquemática de uma rede de arrasto feita pelo Monterey Bay Aquarium

Mesmo com leis criadas para a proteção de áreas marinhas e de diversas espécies aquáticas, a taxa de animais pescados tornou-se insustentável, uma vez que 31% das espécies de peixes são retiradas dos oceanos mais rápido do que a natureza consegue repor, enquanto 58% das espécies são pescadas nos valores máximos antes de um desequilíbrio, o que, a longo prazo, poderá reduzir drasticamente a população de diversas espécies. O bacalhau-do-atlântico (Gadus morhua), por exemplo, é um peixe apreciado pela culinária de diversos países, sobretudo na culinária nórdica e mediterrânea. Sua intensa pesca, entretanto, fez com que a biomassa total da espécie reduzisse em mais de 95% em todo o mundo, tornando-a, atualmente, uma espécie vulnerável.

Pesca do bacalhau-do-atlântico (Gadus morhua), espécie cuja biomassa total reduziu mais de 95% em todo o mundo devido à sobrepesca intensiva - Foto por Jeffrey L. Rotman
Pescaria do bacalhau-do-atlântico – Foto por Jeffrey L. Rotman/Corbis

A falta de sustentabilidade da indústria pesqueira é tão grande que muitas espécies são pescadas apenas por partes específicas do seu corpo, arrancadas com o animal ainda vivo, sendo posteriormente devolvido para morrer nos oceanos. Os tubarões são, atualmente, as maiores vítimas, uma vez que milhões desses animais são mortos para a retirada de suas barbatanas e, em seguida, são descartados no mar.

Venda de nadadeiras de tubarão em mercado de Taiwan, comércio que impulsiona a prática cruel do finning, responsável pela morte de milhões de tubarões anualmente
Venda de nadadeiras de tubarão em Taiwan
Tubarões com as nadadeiras removidas devolvidos vivos ao mar, onde morrerão por falta de oxigênio ou pelos ferimentos, ilustrando a cruel prática do finning
Após terem as nadadeiras arrancadas, os tubarões são devolvidos ainda vivos para o mar, onde morrerão for falta de oxigênio ou devido a seus ferimentos.

Um outro grande problema é a redução do tamanho dos organismos oceânicos. Historicamente, peixes grandes possuem um enorme valor comercial, com indivíduos vendidos por mais de 2 milhões de dólares para a indústria culinária. Isso fez com que a população média dos peixes diminuísse em todo o mundo, uma vez que os peixes grandes e geralmente mais velhos eram retirados dos mares, enquanto os peixes menores e que atingiam a maturidade sexual mais cedo sobreviviam, o que alterou de forma significativa a dinâmica reprodutiva desses organismos.

Atum-de-barbatana-azul de grande porte capturado, espécie atualmente ameaçada pela sobrepesca e seleção por tamanho, com biomassa em colapso em todo o mundo
O Atum é, atualmente, uma das maiores vítimas da seleção por tamanho no mundo

Além disso, milhares de animais são mortos diariamente por acidente, devido à pouca especificidade das técnicas de captura. Esses organismos, conhecidos como “fauna acompanhante” ou “bycatch”, geralmente se prendem às redes e morrem de exaustão ou afogados. Pescas de organismos de águas profundas, principalmente de camarões, possuem taxa de erro de captura que podem chegar a até 20:1, o que significa que, para cada camarão capturado, 19 animais são descartados de volta no mar. As principais vítimas são albatrozes, tartarugas, tubarões, peixes grandes e cetáceos.  Dados da WWF apontam que mais de 300 mil baleias e golfinhos morrem todos os anos, presos em redes de pesca, que é a maior ameaça para esses animais na atualidade. O menor cetáceo do mundo, conhecido como Vaquita (Phocoena sinus), provavelmente será o primeiro organismo a ser extinto pela pesca acidental, uma vez que seus números se reduziram drasticamente nos últimos anos e, atualmente, acredita-se que apenas 12 indivíduos estejam vivos no mundo.

Tartaruga-de-couro presa em rede de pesca como fauna acompanhante (bycatch), um dos maiores problemas da indústria pesqueira industrial, que afeta espécies protegidas
Tartaruga-de-couro presa em uma rede de pesca
Golfinhos e pequenos cetáceos mortos como fauna acompanhante em redes de pesca, estimados em mais de 300 mil vítimas por ano segundo dados da WWF
Pequenos cetáceos frequentemente morrem afogados em redes de pesca
Vaquita (Phocoena sinus), o menor e mais ameaçado cetáceo do mundo, com apenas cerca de 12 indivíduos restantes nas águas do Golfo da Califórnia
Menor cetáceo do mundo, menos de 12 vaquitas ainda vivem nas águas do Golfo da Califórinia

Por fim, a pescaria é, atualmente, a maior fonte individual de plástico para os oceanos. Enquanto os canudos compõem cerca de 0.03% do plástico dos oceanos por massa e cerca de 4% por volume, pesquisas recentes no Grande Depósito de Lixo do Pacífico apontam que mais de 46% de todo o plástico oceânico provém de redes e linhas de pesca. Indiretamente, a coleta de organismos marinhos e de rios prejudica não só a espécie afetada, mas todos os ecossistemas aquáticos do planeta.

Rede de pesca fantasma (ghost net) aprisionada em recife de coral, representando como o lixo plástico da pesca constitui mais de 46% do plástico oceânico
Toneladas de redes de pesca abandonadas (Ghost nets) ou rompidas compõe mais de 46% do plástico do oceano

Portanto, devemos banir a pesca? Embora essa prática seja incrivelmente prejudicial, deve-se entender que ela é parte integrante de diversas culturas e fonte de renda para milhões de pessoas em todo o mundo. Dessa forma, devemos ter consciência daquilo que consumimos e de seus verdadeiros impactos. Sempre que possível, opte por opções mais sustentáveis de proteína, por peixes provenientes de criatórios ou cuja procedência seja ecologicamente correta. Evite espécies cujas populações estão em colapso ou cuja pesca produza um grande impacto negativo, como atum, pirarucu, linguado, siris de mangues e camarões. Por fim, sensibilize as pessoas à sua volta dos impactos que sua alimentação pode causar no mundo. Afinal, caso não mudemos os nossos hábitos, o mar não estará mais para peixe.

Vitrine da campanha Project Ocean da loja Selfridges alertando para o colapso das populações de peixes caso práticas pesqueiras insustentáveis continuem

Referências

Sobre a história da pescaria

Sobre a Fauna acompanhante:

Sobre o plástico nos oceanos

Sobre a vaca-marinha-de-Stellar e Vaquita


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