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Iraque: Tigre e Eufrates estão morrendo

Os antigos rios e recursos hídricos do Iraque foram seriamente danificados por guerras, sanções econômicas, construção de barragens a montante, poluição e queda dos níveis de água.

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Tigre e Eufrates encontram-se na província de Basra, no sul do Iraque, onde formam a hidrovia Shatt al-Arab. Por milhares de anos, esses rios fizeram do Iraque uma das regiões mais férteis do Oriente Médio, a antiga Mesopotâmia. Muitas vezes chamada de “berço da civilização”, os primeiros colonos urbanos cresceram nas terras entre os dois antigos canais. Mas atualmente a situação está dramaticamente diferente, tanto para os rios, quanto para as pessoas que dependem deles.

Crise hídrica em Basra: moradores do Iraque sem água potável em região com vastos recursos petrolíferos
Fonte: UNICEF

Além da cidade de Basra conter os campos de petróleo e o único porto de águas profundas do país, ela também é o centro econômico do Iraque, já que aproximadamente 80% da receita do país vem dela. Os rios Tigre e Eufrates já foram, um dia, considerados os mais importantes do Oriente Médio. A hidrovia Shatt al-Arab fez de Basra um símbolo de prosperidade e de crescimento. Hoje, a cidade é a segunda maior do país com uma população de mais de 4 milhões de pessoas.

No verão de 2018, os rios foram estrangulados com detritos, esgoto bruto e lixo urbano que estavam envenenando os moradores da cidade. Aproximadamente cem mil pessoas foram hospitalizadas devido à doenças de veiculação hídrica. Em setembro de 2018, o Ministério de Recursos Hídricos do Iraque afirmou que os níveis em rios como o Tigre, em Bagdá, caíram para 40% nos últimos 20 anos.

Vista aérea da cidade de Basra, no sul do Iraque, segunda maior cidade do país às margens do Shatt al-Arab
Cidade de Basra

Mas o que causou a redução da água desses rios tão importantes? Isso ocorreu devido ao Iraque não conseguir controlar a vazão de seus rios e à falta de infraestrutura para limpá-los, o que vem atrapalhando a recuperação do país. Quase toda a água da região vem desses dois rios tão essenciais, que depois de convergirem no chamado Shatt al-Arab, finalmente desaguam no Golfo Pérsico.

Mapa da bacia hidrográfica do Tigre e Eufrates evidenciando barragens turcas que reduzem o fluxo de água ao Iraque
Fonte: VOX

Em todo o caminho, esses rios funcionam como mananciais de água potável e irrigação para as fazendas, enquanto o resto do país permanece um deserto. Uma grande parte da infraestrutura é usada para geração de energia elétrica, distribuição de água e tratamento. Isso representa um grande número de represamentos e de desvios ao longo de toda calha dos rios, tornando o sistema muito delicado. O Tigre e o Eufrates nascem na Turquia e quase 71% da água que chega no Iraque vem desse país, enquanto Síria e Irã detêm os outros 10%. Desde os anos 70, a Turquia construiu pelo menos vinte barragens no Eufrates e seus afluentes e isso inclui a represa de Ataturk, a quinta maior do mundo em geração de energia elétrica. Além disso, há represas no Tigres que incluem a Barragem Ilisu, que, devido à retenção de tanta água, os residentes de Baghdad podem até atravessar o rio à pé.  A Síria também construiu algumas represas no Eufrates e, hoje, os três países estão mantendo os rios como reféns em seus países.

Barragem Ataturk na Turquia, quinta maior do mundo em geração elétrica, retém água do Eufrates agravando crise no Iraque
Barragem Ataturk – Turquia

Com a redução da vazão natural dos rios, há uma maior concentração de poluentes e, com o fluxo escasso, a água salobra do Golfo Pérsico consegue mover rio acima, o que causa mortandade de peixes e muda a microbiota do rio. Tudo isso aumenta a pressão da população em querer receber água limpa de qualidade, porém, grande parte da infraestrutura de dessalinização e distribuição de água pré-existente foi destruída com três grandes guerras devastadoras nas últimas três décadas.

Imagem de satélite da NASA mostrando o Oriente Médio com os rios Tigre e Eufrates vistos do espaço
Fonte: NASA

Guerras no Iraque – últimas três décadas

  • 1990 – Guerra do Golfo: Saddam Hussein invadiu o Kuwait, aliado dos EUA. Os Estados Unidos enviaram mísseis e destruíram grande parte da infraestrutura do país, incluindo quatro usinas hidrelétricas e estações de tratamento de água.
  • 2003 – Invasão Americana: Fim do regime de Saddam Hussein e instalação de um governo iraquiano. Após a invasão constatou-se que 40% dos cidadãos iraquianos não tinham acesso à água potável e 70% das estações de tratamento necessitavam ser reparadas. Mesmo com os programas de reconstrução dos sistemas de tratamento, apenas um terço foi realmente entregue.
  • 2014 – Grupo ISIS toma conta do Iraque: O grupo tomou conta dos pontos de encontro dos dois rios, apoderando-se do controle de fornecimento de água do país, as hidrelétricas, e transformando-as em uma arma. Eles fechavam o fornecimento de água para a cidade ou, até mesmo, envenenavam a água com hidrocarbonetos.
Barragem de Mosul no Iraque, controlada pelo ISIS em 2014 e usada como arma para cortar o fornecimento de água
Barragem Mosul – Iraque

Em 2018, a população começou a ir para as ruas exigindo água de qualidade. Mesmo sendo o centro econômico do Iraque, Basra foi ignorada e deixada à deterioração. A Comissão de Integridade do Iraque (COI), que investigava corrupção no país, descobriu que as 13 plantas de dessalinização que haviam sido doadas à Basra em 2006 nunca funcionaram. Aproximadamente 600 milhões de dólares foram destinados a projetos de saneamento que nunca foram executados.

Moradores de Basra protestam nas ruas exigindo água potável durante a crise hídrica no Iraque em 2018

Ano após ano, a crise hídrica tem se agravado no antigo berço da Mesopotâmia e a cidade de Basra, que um dia já foi símbolo de prosperidade, representa hoje um futuro incerto e nos mostra que a maior riqueza do planeta não é o petróleo, e sim, a água.

 

Referências

Basra is Thirsty : https://www.hrw.org/report/2019/07/22/basra-thirsty/iraqs-failure-manage-water-crisis

Iraq: Water Crisis in Basra: https://www.hrw.org/news/2019/07/22/iraq-water-crisis-basra

Canal YouTube: Vox


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