Guerras são conflitos armados entre dois ou mais grupos distintos, geralmente desencadeadas por uma disputa de território, imposição ideológica ou por fatores econômicos. Embora essas lutas sejam marcadas pela destruição de bens materiais, pelas péssimas condições de vida das pessoas que vivem dentro das zonas de conflito e pela morte de civis, elas têm um grande impacto nos ecossistemas locais, e seus efeitos podem ser sentidos séculos depois.
Na Síria, após sete anos de uma guerra civil brutal, que já matou mais de 470.000 civis, feriu 1,9 milhão (segundo dados de 2016 da Syrian Centre for Policy Research) e desabrigou mais da metade da população do país, Aleppo continua destruída. De 2 milhões de pessoas que residiam no local, apenas 500 mil retornaram após os intensos ataques entre 2012 e 2016.

Nesse cenário, o zoológico Aalim al-Sahar (Magic World) foi abandonado por seus funcionários após um bombardeio nessa área. Mais de 300 animais foram deixados no local por seus tratadores com muita relutância, sem comida ou água, uma vez que o transporte desses animais seria economicamente inviável e extremamente perigoso. Uma ONG retornou ao zoológico em 2017, encontrando apenas 16 animais vivos, dentre eles leões, ursos, hienas e um tigre. Esses animais foram sedados e transportados, com auxílio do exército turco, para uma uma reserva ambiental na Jordânia, onde receberam tratamento veterinário e estão vivos até hoje.

Entretanto, como esses 13 animais sobreviveram a sete anos de guerra, presos em gaiolas e sem uma fonte permanente de comida ou água? A ONG “Four Paws”, responsável pelo resgate desses animais, descobriu que, ao longo desses sete anos, mesmo com o risco de novos ataques aéreos e de desmoronamentos, a população local se locomovia semanalmente ao zoológico para fornecer água e alimento para esses indivíduos, muitas vezes retirando de seu próprio estoque. Esse pequeno gesto em um momento tão difícil mostra que a solidariedade e a humanidade persistem, mesmo em tempos de caos.

Infelizmente, isso não é o que geralmente acontece. Enquanto alguns animais conseguem ser resgatados em cativeiros, a situação no meio selvagem é ainda mais difícil em tempos de guerra. Na maioria dos casos, as perdas não são sequer mensuráveis, uma vez que faltam recursos e segurança para a realização de estudos dos impactos da guerra nos ecossistemas locais. Cerca de 80% dos conflitos armados entre 1950 e 2000 ocorreram dentro de áreas incrivelmente biodiversas e ameaçadas (Hotspots). Em 1996, por exemplo, uma guerra se iniciou na República Democrática do Congo, quando trinta e um rinocerontes-brancos-do-norte (Ceratotherium simum cottoni) viviam em uma reserva no país. Cerca de um ano depois, milícias invadiram o parque e, no período de três meses, mataram três quartos da população de hipopótamos, dois terços da população de búfalos e metade da população de elefantes. A população do rinoceronte-branco-do-norte nunca se recuperou e, atualmente, restam apenas duas fêmeas da espécie.

O parque Gorongosa, por sua vez, em Moçambique, foi utilizado como sede militar entre 1977 e 1992. Durante esse período, casas, alojamentos e instalações foram construídas para abrigar centenas de soldados que, devido à dificuldade para se alimentar, caçavam a megafauna do parque. Estima-se que, durante esse período, 95% da biodiversidade local foi perdida e, provavelmente, essas populações nunca voltarão a seus valores originais.

Uma pesquisa publicada recentemente na Nature aponta que 70% dos parques da África foram, de alguma forma, afetados diretamente por uma guerra. Esse estudo indicou, ainda, que as guerras são o fator que mais reduziu as populações de animais africanos, superando os impactos da caça e do desmatamento. Baseado nessa pesquisa, pode-se prever os impactos das guerras em outras regiões do planeta, com resultados ainda mais alarmantes.
Em diversas regiões da Ásia, sobretudo no Sudeste, animais e plantas ainda sofrem com o efeito de conflitos passados. Em Myanmar, por exemplo, elefantes-asiáticos (Elephas maximus) sofrem com minas terrestres abandonadas, que são facilmente ativadas pelo peso do animal, o que gera ferimentos extremamente graves. No Vietnã, por sua vez, as florestas ainda não restauraram sua biodiversidade original, cinquenta anos após o uso do Agente Laranja pelo exército estadunidense. Esse herbicida foi utilizado com o intuito de desfolhar as árvores do país, auxiliando no avistamento de bases militares vietnamitas, e de prejudicar a agricultura local. Os efeitos dessa prática na saúde da população e nos ecossistemas foram devastadores e ainda podem ser observados em menor escala.

A Síria não é uma exceção. A íbis-eremita (Geronticus eremita), uma ave migratória, está criticamente ameaçada, com apenas 110 exemplares vivendo livres na natureza, em Marrocos. Em 2002, a última colônia desses animais no Oriente Médio foi descoberta em Palmyra, na Síria, contendo apenas 6 indivíduos. Após a captura dessa cidade pelo Estado Islâmico, a extinção local dessas aves tornou-se iminente.

As guerras no nosso planeta, infelizmente, são mais comuns do que gostaríamos. Embora a proteção de animais e plantas pareça supérflua quando vidas humanas estão em jogo, a flora e a fauna são parte de ecossistemas importantes e, assim como monumentos e sítios arqueológicos, fazem parte do patrimônio de um povo. Enquanto existirem guerras, existirão ecossistemas em perigo. E, como disse Asaad Serhal, chefe da Sociedade de Proteção da Natureza do Líbano, “A guerra para, mas ninguém pode trazer de volta as espécies extintas”.
Referências
- https://www.pbs.org/newshour/science/in-war-torn-areas-of-africa-wildlife-is-a-major-casualty
- Artigo ” Warfare in Biodiversity Hotspots”, de Hanson T. et. al.
- http://metro.co.uk/2018/02/27/lions-rescued-war-torn-syria-iraq-given-new-lease-life-animal-sanctuary-7346908/
- http://www.bbc.com/news/world-middle-east-32872350


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