A extinção é um processo natural do nosso planeta mas, em muitos casos, pode ser acelerada ou até mesmo ocasionada pelas ações humanas. Embora muito se diga a respeito de como salvar espécies da extinção, para muitas já é tarde demais. Comumente negligenciadas, as espécies extintas no Brasil são desconhecidas para a maior parte do público, que muitas vezes sabe apenas de extinções recentes que ocorreram nos Estados Unidos ou na Europa.
Como determinar se uma espécie está extinta
Como mencionamos em nosso texto O que é uma espécie ameaçada? – Os graus de ameaça da Lista Vermelha da IUCN, no dia 5 de outubro de 1948 foi criada a União Internacional para Conservação da Natureza, a IUCN (International Union for Conservation of Nature). Atualmente composta por 1.250 organizações, dentre elas 84 governos, 112 agências de governo e um grande número de organizações não-governamentais (ONG’s) nacionais e internacionais e mais de dez mil membros individuais, a IUCN tem a função de incentivar o uso sustentável de recursos, promover a saúde única e assistir na proteção de espécies em todo o planeta.

Em 1964 a organização criou sua primeira Lista Vermelha de espécies ameaçadas, um inventário para detalhar diferentes graus de ameaça para diversas espécies do planeta. Além da IUCN, entidades brasileiras como o ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) atuam na criação de inventários de riscos em nível nacional, enquanto listas estaduais são, ocasionalmente, também desenvolvidas pelos órgãos competentes.
Para determinar a extinção de uma espécie, pesquisas de campo não podem ter encontrado a espécie recentemente e, após buscas específicas na natureza, em criatórios e na literatura, o organismo pode ser considerado extinto após a avaliação de vários especialistas. Devido a falhas em nossas metodologias, espécies extintas podem “voltar à vida”, um tema que já abordamos em nosso texto A Volta dos que não foram.
Conheça a seguir 5 espécies brasileiras que foram extintas nos últimos 500 anos.
Phrynomedusa fimbriata
Último avistamento: 1923
Descoberta em 1923 em Santo André (SP), essa perereca da família Phyllomedusidae não é vista desde então. Estudos apontam que esse animal vivia em altitudes superiores a mil metros na Mata Atlântica dos estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná e Santa Catarina.

Considerada extinta pela IUCN, o achado recente de outra espécie do gênero em 2022, Phrynomedusa appendiculata, perdida desde 1970, reacendeu a esperança de herpetólogos de encontrarem também indivíduos da espécie Phrynomedusa fimbriata, em uma área extremamente degradada pelo desmatamento.

Rato-de-Noronha – Noronhomys vespuccii
Último avistamento: 1503
O rato-de-noronha foi um grande roedor (de até 200 g) endêmico do arquipélago de Fernando de Noronha. Em sua quarta viagem, o explorador italiano Américo Vespúcio parou em uma ilha próxima ao Brasil e bem perto da linha do equador, em 1503. Em Lettera di Amerigo Vespucci delle Isole Nuovamente in Quattro Suoi Viaggi, descreveu que a ilha contava com grandes ratos, além de lagartos e cobras, atualmente identificados como Trachylepis atlantica e Amphisbaena ridleyi, sendo que esse último é na verdade uma anfisbena, e não uma cobra.



Fotografia tirada em Fernando de Noronha por Ivan Sazima.
Escavações em Noronha que ocorreram em 1973 encontraram ossos antigos de roedores, que confirmaram a presença de ratos nativosna ilha. Atualmente, acredita-se que o Noronhomys vespuccii (cujo nome significa rato-de-noronha de Vespúcio) foi extinto após a chegada dos europeus no local, que acidentalmente introduziram ratos-marrons na ilha.

Rato Candango – Juscelinomys candango
Último avistamento: 1960
Desde pelo menos 1761 já se discutia a transferência da capital do Rio de Janeiro para o interior do país. Em 1823, sugeriu-se o nome Brasília para uma possível nova capital e a primeira constituição republicana do Brasil, de 1891, previa a mudança da capital para o interior. Após muitos anos de discussão e a delimitação do chamado Distrito Federal, o recém eleito Juscelino Kubitschek, que assumiu o governo em 1956, confirmou seu plano de implementar a migração da capital até 1960, em uma nova cidade chamada Brasília.
A Capital realmente foi terminada no prazo desejado, com alguns atrasos como a chegada do asfalto, e foi considerada um sucesso, sobretudo devido ao trabalho dos “candangos”, apelido dos trabalhadores e primeiros habitantes de Brasília.

Em 1960, durante a construção da Fundação Zoobotânica do Distrito Federal (cujas obras foram paralisadas entre 1961 e 1967 e encerradas apenas em 1969), oito roedores subterrâneos foram encontrados e, após análises detalhadas, descobriram se tratar não só de uma nova espécie, mas de um novo gênero! Os animais foram descritos em 1965 e receberam o nome Juscelinomys candango (Juscelinomys em homenagem ao presidente e candango em homenagem aos trabalhadores locais).

Surpreendentemente, milhares de pesquisas científicas foram feitas em Brasília e em todo DF desde então, algumas inclusive com o objetivo de encontrar mais exemplares desse roedor. Até hoje, apenas os oito indivíduos iniciais foram achados em 1960. Desse modo, J. candango permanece perdido para a ciência, sendo classificado como extinto pela IUCN.
Gritador-do-nordeste – Cichlocolaptes mazarbarnetti
Último avistamento: 1980s
Essa ave descoberta nos anos 80 era endêmica do chamado Centro de Endemismo Pernambuco, uma área extremamente biodiversa ao norte do Rio São Francisco. É conhecida em apenas dois locais, nos municípios de Murici/AL e Jaqueira/PE.

Descrita em 2014 com base em animais coletados em 1980, já era considerada Criticamente Ameaçada em sua descoberta. Devido ao extremo desmatamento na região onde vive e à falta de avistamentos nos últimos 40 anos, acredita-se que a ave realmente esteja extinta.

Trombeta-de-anjo – Brugmansia insignis
Último avistamento: 2022 (?)
Um caso peculiar em nossa lista, a Brugmansia insignis, é uma planta comum em todo o planeta até hoje. Entretanto, assim como outros exemplares de seu gênero, essa planta nunca foi vista na natureza pela ciência moderna!

Utilizada como enteógeno, alucinógeno e como planta medicinal pelos povos nativos das Américas nos últimos milhares de anos, essa bela flor ganhou o mundo como uma planta ornamental nos dias de hoje. Sua domesticação gerou diversos híbridos e, atualmente, ela é considerada Extinta na Natureza pela IUCN.

Referências
https://www.iucnredlist.org/species/10946/160756258
Musser, G.G. and Carleton, M.D. 2005. Superfamily Muroidea. In: D.E. Wilson and D.A. Reeder (eds), Mammal Species of the World: a geographic and taxonomic reference, pp. 894-1531. The John Hopkins University Press, Baltimore, USA.
Barnett, J. M. & Buzzetti, D. R. C. 2014. A new species of Cichlocolaptes Reichenbach 1853 (Furnariidae), the ‘gritador-do-nordeste’, an undescribed trace of the fading bird life of northeastern Brazil. Revista Brasileira de Ornitologia, 22(2), 75‑94.
https://www.iucnredlist.org/species/17078/6797217
Carleton, M. D.; Olson, S. L. (1999). “Amerigo Vespucci and the rat of Fernando de Noronha: a new genus and species of Rodentia (Muridae, Sigmodontinae) from a volcanic island off Brazil’s continental shelf”. American Museum Novitates. 3256: 1–59. hdl:2246/3097.
https://mapress.com/zt/article/view/zootaxa.5087.4.2
Moraes, Leandro & Baêta, Délio & Amaro, Renata & Martensen, Alexandre & Pavan, Dante. (2022). Rediscovery of the rare Phrynomedusa appendiculata (Lutz, 1925) (Anura: Phyllomedusidae) from the Atlantic Forest of southeastern Brazil. Zootaxa. 5087. 522-540. 10.11646/zootaxa.5087.4.2.
Barnett, J. M., & Buzzetti, D. R. C. (2014). A new species of Cichlocolaptes Reichenbach 1853 (Furnariidae), the ‘gritador-do-nordeste’, an undescribed trace of the fading bird life of northeastern Brazil. Revista Brasileira de Ornitologia-Brazilian Journal of Ornithology, 22(2), 20.


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