Quando ouvimos falar que um animal se encontra ameaçado de extinção, logo imaginamos ações governamentais para a sua proteção, como a criação de parques, planos de manejo e leis para garantir o futuro da espécie e impedir a caça ou pesca desenfreada. Entretanto, historicamente, governos não só ignoraram fatores que punham animais em risco, como também estimularam ou financiaram o extermínio de espécies devido a interesses econômicos. Conheça a história de quatro espécies extintas nos últimos 200 anos devido à negligência ou ganância humana.
Atenção: Este texto pode conter informações chocantes para algumas pessoas.
1- Arau-gigante (Pinguinus impennis) – Último avistamento em 1852
O Arau-gigante, apelidado de “pinguim original”, era uma grande ave preta e branca não-voadora que habitava as regiões polares da América do Norte. Diferente do que imaginamos a princípio, foi o pinguim que ganhou seu nome por causa dessa ave, e não o contrário. Antes da ocupação humana na Europa, o arau se espalhava pelo Mediterrâneo, Escandinávia, Islândia, Groenlândia e toda a costa leste dos Estados Unidos, chegando até a Flórida. Séculos de caça reduziram drasticamente a população desse animal, mas foi somente a partir do século XVI que seu futuro estaria selado.


No Reino Unido, a caça do arau foi banida em 1553, o que não bastou para evitar sua extinção local. Nos séculos seguintes, com a expansão do mercado da pesca de bacalhau, marinheiros descobriram ilhas entre o Canadá e a Islândia tão cheias de arau que eles não podiam se mexer. Esse animal era extremamente dócil devido à falta de predadores terrestres na região, de forma que sua captura era muito fácil. Relatos de 1622 apontam que centenas de araus eram levados por vez para dentro dos navios e serviam de alimento para a tripulação pelos meses seguintes. Para o azar da espécie, alimentação não foi a única utilidade que os europeus encontraram para ela. Suas penas eram extremamente numerosas e macias, sendo arrancadas aos montes para a confecção de travesseiros, muitas vezes sem que as aves tivessem antes sido mortas. Devido à quantidade de gordura presente nos araus, eles serviam como uma ótima fonte de combustível para fogueiras, que eram acesas mesmo com os animais vivos. Quando os marinheiros enjoavam de carne de arau, amarravam suas pernas e os atiravam vivos ao mar, como isca para outros animais. Em 1775, o governo britânico proibiu a captura de araus para a obtenção de penas, mas as outras atividades ainda eram permitidas. Quando os europeus as encontraram pela primeira vez, centenas de milhares de aves viviam em ilhas, mas, dois séculos depois, a espécie já era extremamente rara. O último exemplar foi visto em 1852, e, desde então, a espécie é considerada extinta, sem nunca ter recebido proteção integral nos países em que vivia.

2- Gafanhoto-das-montanhas-rochosas (Melanoplus spretus) – Último avistamento em 1902
Ao contrário do que houve com o primeiro animal de nossa lista, a extinção do gafanhoto-das-montanhas-rochosas não só foi auxiliada como foi diretamente incentivada pelo governo estadunidense. Nativo do Oeste dos Estados Unidos e do Canadá, esse inseto era um dos mais comuns do planeta. A expansão da agricultura no oeste norte-americano, sobretudo a partir do século XVII, fez com que a população desses animais aumentasse drasticamente. Grandes enxames varreram os EUA entre 1750 e 1780, desencadeando diversas ondas de fome pelo país. A cada década, novos enxames surgiam, devorando plantações, lã de ovelhas e madeira, gerando prejuízos de centenas de milhões de dólares. Fazendeiros tentavam, sem sucesso, conter as hordas de gafanhotos com foices, espingardas e armas de fogo, mas seus números só aumentavam.

O maior enxame da história do planeta aconteceu em 1875, nos Estados Unidos. Batizado de Enxame de Albert, foi a maior concentração de animais conhecida, com estimativas que giram em torno de 3,5 a 12,5 trilhões de gafanhotos voando juntos. O médico Albert Child calculou que o enxame cobria uma área de 510.000 km2 , quase um terço do tamanho do estado do Alasca. Depois desse evento, os governos de Nebraska e dos estados vizinhos criaram leis que obrigavam fazendeiros a trabalhar a cada dois dias matando ovos de gafanhotos enterrados no solo. No Missouri, os fazendeiros ganhavam recompensas baseadas na quantidade de gafanhotos mortos que levavam para o governo. Após a adoção dessas políticas públicas, o último enxame emergiu em 1889 e nenhum exemplar foi avistado após 1902.

3- Pombo-passageiro (Ectopistes migratorius) – Último avistamento em 1914
O pombo-passageiro era uma ave nativa da América-do-Norte, e, assim como o gafanhoto Melanoplus, foi amplamente beneficiada pela expansão da agricultura para o interior americano. Tal qual diversas aves dos Estados Unidos, esses pombos tinham o hábito de migrar para regiões com clima mais ameno durante o inverno, retornando para sua distribuição original durante a primavera. Nesse trajeto, devoravam imensas plantações, o que contribuiu para seu extermínio no futuro crescimento populacional explosivo.

Por volta de 1813, o artista John James Audubon tentou, sem sucesso, contar quantos bandos de pombos-passageiros sobrevoariam sua propriedade. Ele desistiu em apenas 21 minutos, após o 163º bando sobrevoar sua casa. Em 1866, um bando em específico sobrevoou o estado de Ontário e escureceu completamente o céu. Com mais de 1,5 km de largura e 500 km de comprimento, o aglomerado continha mais de 3,5 bilhões de aves e levou mais de 14 horas para desaparecer dos céus do estado. Realizando um cálculo matemático simplificado, o escritor americano Christopher Cokinos apontou que, se fossem colocados diretamente um atrás do outro, esses pombos dariam 22 voltas completas no planeta.

Por muito tempo, o pombo-passageiro foi caçado como uma importante fonte de comida para o povo dos Estados Unidos. Ainda em 1565, relatos históricos mostram que o explorador francês René Laudonnière matou, em apenas uma semana, mais de 10.000 exemplares. Após sua explosão populacional, o pombo se tornou uma das principais fontes de carne para o país, sobretudo devido à facilidade em matar esses animais. Eles voavam em números tão grandes que um único tiro para cima de uma espingarda de cano duplo poderia abater 61 animais em voo. Eles passaram a ser capturados por todo o país com grandes redes, que pegavam mais de 3 mil indivíduos por vez, ou mortos aos milhares por fileiras de caçadores atirando incessantemente para cima enquanto os bandos passavam. Além da alimentação humana, passaram a ser moídos e utilizados como alimento de porcos e até mesmo como fertilizante. A partir de 1870, o governo estadunidense criou diversas competições esportivas para caçar esses animais, tendo prêmio mínimo para quem abatesse 30 mil indivíduos. Um dos métodos de caça utilizados nesses torneios era queimar enxofre em áreas de nidificação, sufocando centenas de filhotes por vez. Com tantos pombos mortos, seu valor no mercado caiu significativamente, com o barril cheio dessas aves custando menos de 50 centavos de dólar. As exportações levavam milhões de aves de cada vez, e alguns comerciantes atiravam centenas de barris ao mar para tentar reduzir a oferta desse produto.

Com o ápice da caça em 1878, alguns estudiosos demonstraram preocupação com o futuro da espécie. Como bilhões de pombos haviam sido avistados nos anos anteriores, poucas pessoas acreditaram nessas previsões. Entretanto, em 1880, suas áreas de nidificação estavam praticamente vazias. Caçadores varreram o país em busca desses animais, com poucos casos de sucesso, o que levou os Estados Unidos a declararem o Ectopistes migratorius uma espécie protegida, e a tornarem certas práticas ilegais (como o uso de redes de mais de 3 km de comprimento). Essas medidas vieram tarde; o último exemplar macho da natureza foi avistado e morto em 1896, no meio de um bando de outros pombos nativos. Em 1910, a American Ornithologists’ Union ofereceu uma recompensa equivalente a 77 mil dólares caso um ninho fosse encontrado, mas o prêmio nunca foi recolhido. Martha, o último exemplar em cativeiro, morreu em 1914, e com ela a sua espécie.

4- Tilacino, o “tigre-da-tasmânia” (Thylacinus cynocephalus) – Último avistamento em 1936
A história do tilacino é, provavelmente, o melhor exemplo do poder de um governo no desaparecimento de uma espécie. Ao contrário dos outros animais da nossa lista, este foi caçado até a extinção a mando do governo, que sempre quisera exterminá-lo. É uma das histórias mais tristes de nossa relação destrutiva com outras espécies do planeta.

Quando o ser humano chegou à Austrália, há aproximadamente 60 mil anos, diversas espécies de grandes animais desapareceram completamente. Essa onda de extinções fez parte das chamadas extinções do Holoceno, nas quais perdemos a maior parte dos grandes animais do nosso planeta, em parte devido à caça desenfreada. Os tilacinos, ou tigres-da-tasmânia, foram uma das vítimas, provavelmente devido à introdução de cães no continente. Apelidados de dingos, esses cães viviam em matilhas e tinham hábitos similares aos dos tigres-da-tasmânia, que foram extirpados.

Quando chegaram à Tasmânia, em 1802, colonizadores britânicos se depararam com um estranho animal noturno, muito semelhante a um lobo, mas que tinha listras como as de um tigre. Na realidade, o tilacino era um grande carnívoro marsupial, parente de coalas e cangurus, que tinha uma bolsa em que seus filhotes de desenvolviam. Após a introdução de ovelhas e cabras na ilha, esse marsupial passou a ser descrito por alguns colonizadores como uma monstruosa hiena, que surgia silenciosamente à noite para matar e mutilar rebanhos inteiros e deixava para trás um rastro de morte. Embora esse animal tímido geralmente fosse pequeno demais para matar ovelhas, a abundância de alimento proporcionada pela presença de grandes rebanhos e pela introdução de galinhas na ilha aumentou sua população em número e em tamanho. Consequentemente, o número de ovelhas mortas cresceu, o que levou o governo australiano a declarar guerra ao animal em 1830.

Além das leis de incentivo à caça de tilacinos, recompensas foram distribuídas para fazendeiros que eliminassem esses animais entre 1888 e 1909. O governo pagava o equivalente a 100 libras por lobo adulto morto e 10 libras por filhote, o que fez diversas pessoas utilizarem a caça de tilacino como fonte de renda. Centenas de animais eram mortos por dia e pilhas de ossos se acumulavam em pátios, mesmo após o animal começar a se tornar cada vez mais raro.

O último tilacino morto na natureza foi caçado em 1928, e, mesmo com instituições afirmando que a espécie deveria ser protegida, o governo premiou o caçador. Para proteger a espécie, equipes de cientistas criaram expedições para capturar o animal, mas poucos indivíduos foram encontrados e a reprodução em cativeiro não ocorreu. Em 1933, Benjamin, o último exemplar conhecido, foi capturado e transportado para um zoológico da Tasmânia. O animal morreu dia 7 de setembro de 1936 devido à negligência dos tratadores, que o trancaram para fora de seu abrigo, causando nele uma séria hipotermia. Uma lei para a proteção da espécie foi criada em 10 de julho de 1936, após o animal já estar extinto na natureza. Embora avistamentos não confirmados tenham ocorrido desde então, a recompensa oferecida pelo governo caso se consiga comprovar sua existência não foi obtida por ninguém até os dias de hoje.

Esses são apenas alguns exemplos do poder de ações governamentais na dizimação de uma espécie. Seja por descaso ou por incentivo propriamente dito, muitas espécies deixaram de existir devido a políticas governamentais. Por outro lado, a criação de leis de proteção já foi capaz de salvar ecossistemas inteiros, o que demonstra a importância de políticas públicas na conservação.
Leia também
- Florestas Vazias – Descubra por que a vida está desaparecendo em nossas matas
- A volta das baleias – Como a proibição mundial da caça conseguiu salvar dezenas de espécies da extinção
- Os melhores amigos do homem? – Como cães e gatos podem prejudicar nossos ecossistemas
- O Fim dos Gigantes – Conheça o papel do ser humano na extinção dos animais pré-históricos
- Fogo na Amazônia: Como as queimadas podem acabar com nossa floresta
Referências
Arte de capa por Damir G. Martin
Livros
Imperialismo Ecológico – Por Alfred W. Crosby
A Sexta Extinção – Por Elizabeth Kolbert
Arau-gigante
https://www.iucnredlist.org/species/22694856/93472944
https://archive.org/details/cihm_06624/page/n7
https://birdsna.org/Species-Account/bna/species/260/articles/introduction
Gafanhoto-das-montanhas-rochosas
https://www.historynet.com/1874-the-year-of-the-locust.htm
Lockwood, Jeffrey A. (2004). Locust: the Devastating Rise and Mysterious Disappearance of the Insect that Shaped the American Frontier (1st ed.). New York: Basic Books
https://www.iucnredlist.org/species/51269349/111451167
Pombo-passageiro
Reeve, S. (March 2001). “Going Down in History”. Geographical. 73 (3): 60–64. ISSN 0016-741X
https://web.archive.org/web/20120313223001/http://www.si.edu/encyclopedia_Si/nmnh/passpig.htm
Schorger, A. W. (1955). The Passenger Pigeon: Its Natural History and Extinction. Madison, WI: University of Wisconsin Press. ISBN 978-1-930665-96-5.
Fuller, E. (2014). The Passenger Pigeon. Princeton and Oxford: Princeton University Press. ISBN 978-0-691-16295-9.
https://www.biodiversitylibrary.org/page/15937222#page/87/mode/1up
https://www.press.uchicago.edu/Misc/Chicago/779939pass.html
https://animals.howstuffworks.com/extinct-animals/did-passenger-pigeons-become-extinct.htm
Tilacino
The Thylacine Museum – http://www.naturalworlds.org/thylacine/index.htm
https://www.newyorker.com/magazine/2018/07/02/the-obsessive-search-for-the-tasmanian-tiger


Deixe seu comentário