Nos últimos dias o país tem sofrido com eventos de chuva extrema localizada. Cidades como Belo Horizonte, São Paulo e regiões da zona da mata estão sofrendo com alagamentos e deslizamentos sem precedentes. Mas porquê a intensidade das chuvas aumentaram? Seria esse nosso novo normal?

Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e coletados pelo Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC), com base em informações dos satélites e de pluviômetros, afirmam que somente no Sudeste do Brasil houveram 1373 registros de chuva extrema desde 2015 demonstrando uma mudança significativa no padrão.

Esses alagamentos e chuvas intensas infelizmente não estão ocorrendo apenas no Brasil. A Germanwatch publicou no seu Índice de Risco Climático Global mais de 526.000 pessoas morreram em um ano no planeta devido à devastação em 11.500 eventos climáticos, com perdas econômicas totalizando US$ 3,47 trilhões. Alguns dos países mais pobres do mundo estão entre os países mais devastados pelo clima extremo.
O que sabemos sobre a mudança na temperatura terrestre?

Desde o período pré-industrial, estima-se que as atividades humanas aumentaram a temperatura média global da Terra em cerca de 1 grau Celsius (1,8 graus Fahrenheit), um número que atualmente está aumentando em 0,2 graus Celsius (0,36 graus Fahrenheit) por década. A maior parte da atual tendência de aquecimento é extremamente provável (maior que 95% de probabilidade) resultado da atividade humana desde a década de 1950 e está ocorrendo a uma taxa sem precedentes ao longo de décadas a milênios. (Para saber mais sobre como o ser humano mudou o equilíbrio terrestre, clique aqui.)
Porque o aumento na temperatura terrestre aumenta a intensidade de chuvas?
Parte da resposta a essa pergunta requer saber como o tempo vai mudar à medida que a Terra se aquece. Existem alguns processos físicos básicos que informam as expectativas dos cientistas de como a precipitação reagirá em um mundo em aquecimento. Com temperaturas mais altas, ocorre maior evaporação e secagem da superfície, contribuindo potencialmente para a maior intensidade de chuvas e duração da seca. É um princípio científico bem conhecido de que o ar mais quente retém mais vapor de água. De fato, a quantidade de umidade que pode ser mantida no ar cresce muito rapidamente à medida que as temperaturas aumentam. Isso pode causar chuvas mais intensas aumentando riscos de inundação.

De acordo com a equação de Clausius-Clapeyron, o ar geralmente pode reter cerca de 7% a mais de umidade a cada 1°C de aumento de temperatura. Como tal, um mundo cerca de 4 °C mais quente que a era pré-industrial teria cerca de 28% mais vapor de água na atmosfera.
Um ar mais quente também pode evaporar mais rapidamente a água das superfícies. Isso significa que as áreas onde não há ocorrência de chuva secam mais rapidamente. A tendência é que os períodos de seca serão mais longos e com evaporação mais rápida, causando seca no solo e déficit de água nos lençóis freáticos na estiagem. Mas, quando as chuvas caem, ocorrem fortes chuvas, que encharcam o solo não dando tempo suficiente para a água infiltrar e aumentando o escoamento superficial.

Deve-se ressaltar que quando as temperaturas ficam altas demais, ultrapassando certo limite, fortes eventos de precipitação diminuem. Existem algumas razões claras para isso, mas, independentemente de onde as medições são feitas na Terra, parece haver um aumento da precipitação com a temperatura até um pico e, posteriormente, aquecimento maior coincide com a diminuição das precipitações. Um novo estudo inteligente da Dra. Guiling Wang, da Universidade de Connecticut e seus colegas, analisaram isso. O trabalho deles foi publicado na Nature Climate Change. Eles relatam que a temperatura de pico (a temperatura em que ocorre a precipitação máxima) não é fixa no espaço ou no tempo. Ou seja, no futuro é provável que, com o aquecimento no planeta a precipitação mais intensa ocorra a temperaturas ainda mais altas.
Diferente do que muitos pensam, o aumento de umidade não irá chover uniformemente em todo o planeta. Algumas áreas terão aumento da precipitação, enquanto outras áreas deverão ter menos, devido à mudança dos padrões climáticos e outros fatores.
A figura abaixo mostra a mudança percentual projetada na precipitação entre o clima atual (representado pela média 1981-2000) e o final do século (2081-2100) na média de todos os modelos climáticos apresentados no mais recente Painel Intergovernamental sobre Relatório de Mudanças Climáticas (IPCC) (CMIP5), usando o cenário de aquecimento avançado (RCP8.5).
As cores púrpura mostram áreas onde a precipitação aumentará, enquanto as áreas alaranjadas indicam menos chuva e neve no futuro.

Há solução?
Limitar as emissões de gases de efeito estufa da humanidade limitaria o aumento de chuvas. O Relatório Especial de Ciência Climática do governo dos EUA fornece um exemplo claro. Se as emissões de efeito estufa continuarem sem controle, a frequência de um evento de chuva de uma vez em cinco anos poderá aumentar de duas a três vezes no final do século. Mas se o mundo fizer cortes significativos nas emissões, praticamente em linha com as promessas do Acordo de Paris, o aumento na frequência poderá ser reduzido pela metade. Para muitas cidades e comunidades, essa diferença seria crítica.
Projetos de renaturalização de cursos d’água, drenagem urbana eficiente e redução da impermeabilização do solo serão necessários para adaptar a mudança, mas muito se engana quem acha que é a solução. A natureza não vê fronteiras e chuva que fará falta na seca, é a mesma que irá causar a destruição no verão.
Leia também:
O Impacto Por Trás das Manchetes: Como as mudanças climáticas já estão afetando a vida no planeta
Guerra à Ciência – Parte III – Aquecimento Global e seus opositores
Como os seres humanos quebraram o ciclo essencial à vida?
Referências
Nature Climate Change
Inpe
NASA
Climate Modeling – Carbon Brief
POURING IT ON: How Climate Change Intensi!es Heavy Rain Events – Climate Central
Artigos:
“ATMOSPHERIC MOISTURE RESIDENCE TIMES AND CYCLING: IMPLICATIONS FOR RAINFALL RATES AND CLIMATE CHANGE” – KEVIN E. TRENBERTH


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