Engenheiros da Natureza – Como alguns animais conseguem transformar o ambiente em que vivem

Desde os primórdios da humanidade, alteramos o solo, os rios e as paisagens que nos cercam.  Com nossa inteligência coletiva, fomos capazes de criar sistemas de drenagem de água, cidades com milhões de habitantes, estruturas que podem ser vistas do espaço e, até mesmo, monumentos que já duram milhares de anos e que, provavelmente, continuarão aqui mesmo depois que formos extintos. Entretanto, ao longo de milhões de anos de evolução, diversos grupos de animais do nosso planeta desenvolveram técnicas de construção e de manipulação ambiental extremamente complexas, superando, em alguns casos, até mesmo as construções humanas!

Peixes

Embora diversos peixes tenham a capacidade de construir ninhos e tocas complexas (com destaque para os ciclídeos), nenhum se compara à capacidade criativa do baiacu japonês chamado Torquigener albomaculosus. Por muitos anos, mergulhadores na costa do Japão observaram estranhas estruturas submersas, com mais de dois metros de diâmetro, que rapidamente ficaram conhecidas como “círculos nas plantações marinhos”, em referência a estranhos padrões observados em regiões agrícolas dos Estados Unidos e Europa e atribuídos por alguns a alienígenas.

Resultado de imagem para Torquigener albomaculosus

Felizmente para os cientistas locais, o mistério foi solucionado nos anos 90 e o criador desses padrões era um pequeno peixe, com pouco mais de 12 centímetros de comprimento. Para atrair fêmeas, os machos dessa espécia criam esses gigantescos ninhos de areia, cujo formato faz com que a areia de seu centro, onde os ovos da fêmea serão depositados, não sofra com correntes marinhas e permaneça inalterado nas próximas duas semanas, tempo em que o macho guardará seu ninho sozinho.

Resultado de imagem para Torquigener albomaculosus
Macho de Torquigener albomaculosus construindo seu ninho – Por Yoji Okata

 

Mamíferos

Desde seu surgimento, os mamíferos vêm criando uma enorme variedade de tocas subterrâneas, sendo essas as mais complexas dentre os vertebrados. Acredita-se, inclusive, que os mamíferos tenham se originado de uma linhagem de mammaliaformes cavadores no período Triássico e, em diversas linhagens, retornaram para a vida fossorial. A primeira toca de mammaliaforme conhecida pertence ao Docofossor brachydactylus, um pequeno docodonte do Jurássico que vivia grande parte da sua vida em túneis simples. 

Esquema do esqueleto e representação gráfica do Docofossor brachydactylus – Por April I. Neander

Dentre todos os grupos de mamíferos, o que mais se destaca atualmente na construção de tocas são os roedores. O rato-toupeira-pelado, por exemplo, vive em colônias de até 300 indivíduos, governadas por uma rainha e com uma hierarquia muito semelhante à das formigas, na qual operárias irão construir uma grande rede de túneis interligados com mais de quatro quilômetros de comprimento, com separações de câmaras para diferentes funções, cavados com seus incisivos. 

Resultado de imagem para naked mole rat burrow
Túnel subterrâneo de um rato-toupeira-pelado (Heterocephalus glaber)

Os cães-das-pradarias (gênero Cynomys) vivem em grandes cidades subterrâneas, em campos abertos da América do Norte. Historicamente, a maior dessas cidades, no Texas, tinha uma população de 400 milhões de indivíduos e ocupava uma área de 64.000 quilômetros quadrados. Embora as populações desses animais tenham decaído drasticamente no último século, suas técnicas de engenharia mantiveram-se as mesmas. Primeiramente, eles constroem um grande túnel com duas entradas, que servirá como uma “avenida principal” em sua cidade. De todos os lados, diversas câmaras serão feitas, para funcionar como residência para as famílias, berçários, depósitos de alimentos e banheiros comunitários.

Resultado de imagem para prairie dog
Família de cães-da-pradaria (Cynomys ludovicianus)
Imagem relacionada
Esquema de toca coletiva de cão-das-pradarias

Além disso, suas cidades contam com um sofisticado sistema de ar-condicionado natural, no qual há um fluxo constante de ar para dentro das tocas, baixando as temperaturas e renovando o oxigênio disponível para esses animais.

Resultado de imagem para prairie dog burrow air
Esquema de “ar-condicionado” dos cães-da-pradaria, construído com base em uma diferença de pressão entre as entradas da toca.

Um outro construtor extremo é o extinto Palaeocastor fossor, animal semelhante ao castor, que viveu no Mioceno e que criava estruturas perfeitamente espiraladas com até 3 metros de profundidade , cujo modelo nenhum animal foi capaz de copiar até hoje.

Imagem relacionada
Toca fossilizada de um Paleocastor, em exposição nos Estados Unidos.
Resultado de imagem para Palaeocastor
Representação de tocas de um Paleocastor – Por Julio Lacerda

Atualmente, existem outras duas espécies de castor capazes de construir estruturas tão surpreendentes quanto as tocas de seus primos extintos. O castor-americano (Castor canadensis) e o castor-europeu (Castor fiber) vivem em rios e lagos de grande parte do Hemisfério Norte (tendo sido introduzidos na Argentina) e, ao contrário do que muitas pessoas pensam, esses animais não vivem em represas. Caso encontrem um lago para morar, os castores irão derrubar árvores (roendo a base com seus dentes) e utilizarão seus galhos para construir uma toca semi-flutuante, cuja entrada se encontrará submersa, e onde irão dormir e criar seus filhotes.

Resultado de imagem para castor den
Toca semi-flutuante de um castor em um lago
Resultado de imagem para beaver den
Esquema de uma toca de castor

Caso esses animais não encontrem um lago adequado, eles irão coletar galhos para construir uma represa, criando, assim, lagoas artificiais, nas quais erguerão sua toca. Esses animais são capazes de modificar o curso de rios deliberadamente, de criar vazantes e, até mesmo, de criar micro ecossistemas inteiros. A maior represa de castores do mundo, no Canadá, possui 850 metros de comprimento,  sendo quase três vezes mais comprida que a represa de Hoover, em Nevada.

Resultado de imagem para beaver building a dam
Castor construindo uma represa
Imagem relacionada
Represa de castores na Argentina

Aves

Diversas famílias de aves adquiriram o hábito de fazer ninhos complexos de forma independente, para oferecer maior proteção e criar um microambiente com temperatura favorável para seus filhotes ou para atrair o sexo oposto. Desde ninhos feitos de barro a estruturas suspensas que pesam toneladas, esses animais conseguem construir as mais belas casas do reino animal. Apesar de extremamente elaborados, eles não possuem grande impacto em seu ambiente.

Resultado de imagem para sociable weaver bird
Ninhos comunitários do pássaro-tecelão (Philetairus socius) podem pesar várias toneladas
Resultado de imagem para bowerbird
Os pássaros-cetim da Oceania são conhecidos por criarem ninhos complexos adornados com frutas e flores coloridas para atrair parceiros
Resultado de imagem para joao de barro
João-de-barro (Furnarius rufus) ao lado de seu ninho
Resultado de imagem para Baya weaver birds
Ninho de grama trançada de um Ploceus philippinus

Artrópodes

Dentre os artrópodes, as aranhas são os mais conhecidos entre os construtores. Apesar de possuírem teias extremamente elaboradas, nesse texto elas serão apenas citadas, uma vez que suas estruturas são pequenas, com raras exceções, podendo chegar a até 25 metros de comprimento. Esses animais serão abordados em um texto futuro.

Resultado de imagem para spider web
A seda produzida pela aranha está entre as substâncias orgânicas mais resistentes do planeta

Dentre os Hymenopteros (ordem que também inclui abelhas e vespas), as formigas são os animais com maiores habilidades de construção. Além disso, algumas espécies possuem um sistema de castas extremamente complexo, com uma rainha, soldados, mega soldados e diversos tipos de operários, com uma diferença de tamanho de até 500 vezes entre eles. As colônias contínuas podem chegar a até 7 milhões de indivíduos, distribuídos entre os aposentos reais, quarteis generais, berçário, fazendas de fungos e depósito de dejetos. A maior dessas cidades contínuas foi descoberta aqui no Brasil, com uma área de 50 metros quadrados e mais de 8 metros de profundidade e sua construção moveu mais de 40 toneladas de terra.

Underground city: The network of tunnels and dens built by millions of Leaf Cutter ants in Brazil
O maior formigueiro contínuo já descoberto, com mais de 50 metros quadrados
Sophisticated: Scientists reveal concrete casts of the circular chambers and roads connecting them
Imagem mostrando as diversas câmeras que compunham o formigueiro gigante

Entretanto, um outro grupo de animais supera todos os outros de nossa lista: os cupins. Embora pequenos e sem um “plano de construção”, os cupins conseguem criar verdadeiros impérios, assim como as formigas, com uma pequena diferença: o seu tamanho. Esses insetos, com poucos milímetros de comprimento, são capazes de criar chaminés para ventilar a colônia com até 8 metros de altura, em um sistema ainda mais eficiente que o dos cães-da-pradaria.

Resultado de imagem para 8 meters termite mound
Chaminé de um cupinzeiro com 6 metros de altura na Austrália – Fotógrafo desconhecido
Resultado de imagem para termite mound air
Fluxo de ar em um cupinzeiro

Entretanto, no final de 2018, cientistas publicaram na revista Current Biology a descoberta de um cupinzeiro de 4 mil anos de idade, que abrangia a Bahia e o norte de Minas Gerais. Com uma área total de mais de 230 mil quilômetros quadrados, essa megalópole é tão grande quanto a Grã-Bretanha, sendo, portanto, a maior estrutura biológica do planeta, maior que nossas maiores cidades. Para sua construção, foram movidos mais de 10 km cúbicos de terra, o suficiente para construir quatro mil vezes as Pirâmides de Gizé .

Botanist Roy Funch carried out radioactive dating to determine the age of the giant termite mounds near Palmeiras
Uma das 200 milhões de chaminés de ventilação da maior cidade do mundo
Chaminés estão espalhadas em uma área de 230 mil quilômetros quadrados – Fotos por Roy Funch
Resultado de imagem para Syntermes dirus
Espécie responsável pela colônia gigante

 

Embora esses animais não tenham um vasto conhecimento em matemática, física ou química, eles são capazes de parar rios, derrubar árvores, criar sociedades e construir estruturas grandes o bastante para serem vistas do espaço. Além de aprendermos com suas técnicas, esses organismos são capazes de nos ensinar a ter humildade perante a natureza e de nos mostrar que a coletividade pode, literalmente, mover montanhas.

 

Referências

Baiacu

https://blog.nationalgeographic.org/2013/08/15/whats-this-mysterious-circle-on-the-seafloor

https://www.smithsonianmag.com/smart-news/pufferfish-create-underwater-crop-circles-when-they-mate-620736/

Docofossor

https://www.washingtonpost.com/news/morning-mix/wp/2015/02/13/meet-the-furry-jurassic-period-critters-that-outwitted-the-dinosaurs/?utm_term=.d65fd93eec74

Rato-toupeira-pelado

https://nationalzoo.si.edu/animals/naked-mole-rat

Cão-das-pradarias

https://www.britannica.com/animal/prairie-dog

Palaeocastor

http://www.eartharchives.org/articles/legend-of-the-devil-s-corkscrews/

Castor

https://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/northamerica/canada/7676300/Worlds-biggest-beaver-dam-can-be-seen-from-space.html

Formigas

Como é o interior de um formigueiro?

https://www.coolweirdo.com/giant-ant-hill-megalopolis-discovered-in-brazil.html

https://www.dailymail.co.uk/sciencetech/article-2095335/Underground-ant-city-Brazil-rivals-Great-Wall-China-labyrinth-highways.html

Cupim

https://www.independent.co.uk/news/science/termite-colony-brazil-bigger-britain-pyramids-university-of-salford-study-a8668136.html

https://www.cell.com/action/showPdf?pii=S0960-9822%2818%2931287-9

 

 

 

 

Cenário apocalíptico: a Terra já está cheia de nós!

O planeta terra possui 4,5 bilhões de anos, porém a existência humana é bem mais curta do que isso. Se o Big Bang tivesse ocorrido há 24 horas atrás, os seres humanos teriam aparecido no planeta nos últimos 3 segundos. Você já imaginou quanto impacto já causamos em tão pouco tempo de história planetária? Tanto impacto ao planeta em tão pouco tempo de existência. Nós nos denominamos HOMO SAPIENS, ou HOMEM INTELIGENTE em português. Não há quem questione se somos inteligentes. É muito bom sermos espertos, mas será que somos espertos o suficiente para nosso próprio bem?

Nós alcançamos coisas inimagináveis, dividimos átomos e construímos máquinas para viajar no universo. Mas os mesmos átomos que dividimos serviram para criar armas nucleares e, ao mesmo tempo que exploramos galáxias em busca de novas estadias para a humanidade, negligenciamos nossa própria casa Gaia. Então não me diga que isso possa ser sabedoria, pois isso é bem diferente. Quando a inteligência fala, a sabedoria ouve, e nós estamos convenientemente tapando nossos ouvidos para os gritos da mãe natureza e fechando os nossos olhos para todos os sinais de socorro que ela nos envia.

Devido ao ritmo cada vez mais acelerado da mudança, nunca poderemos ter bem a certeza se os adultos nos estão a transmitir sabedoria intemporal ou algum dado tendencioso e já ultrapassado – Yuval Harari

Pessoas sábias sabem que toda ação gera uma reação oposta e de mesma intensidade. Se fôssemos inteligentes, não ficaríamos chocados quando estivéssemos de frente com tempestades de intensidade nunca antes vistas, mais secas, furacões e queimadas impressionantes?  Mas estamos poluindo mais do que antes, cortando mais árvores do que nunca e, em tempo recorde, aumentamos a taxa de animais em extinção em 1000 vezes do normal. Entre os próximos 10 e 100 anos, os animais selvagens característicos mais encontrados em livros de escola serão extintos. Não encontraremos mais na natureza leões, rinocerontes, tigres, gorilas, elefantes, ursos polares, devido a três segundos. As espécies que estão aqui há mais tempo que os humanos não desaparecerão do planeta por nossa causa.

farm-1-e1510748149300

Nós, seres humanos, transformamos o ciclo da vida da Terra em um ciclo de conveniência e precisamos reconhecer que todos os seres estão conectados de uma forma que nossa ignorância não consegue compreender. A terra está cheia. Cheia de nós. Cheia de nossas coisas. Cheia de nossos resíduos. Cheia de nossas demandas. Nossa economia agora é maior do que seu hospedeiro, o nosso planeta. Isso quer dizer que nossa economia é totalmente insustentável. Quando as coisas não são sustentáveis, elas paralisam.

O crescimento econômico vai parar devido ao fim dos recursos baratos que vão acabar por causa da crescente demanda humana em todos os sistemas da Terra. Os humanos têm uma ideia louca e megalomaníaca de que podemos ter um crescimento infinito em um planeta finito. A Terra não se importa com o que precisamos. A mãe natureza não negocia. Ela apenas define regras e apresenta as consequências.

clims7_stt0009105_2400

Nós tendemos a olhar para o mundo, não como um sistema integrado, mas como uma série de questões individuais. Nós presenciamos os protestos para ocupação dos Sem Terra, as crises de endividamento em espiral, uma crescente desigualdade social e a influência do dinheiro na política. Mas enxergamos, erroneamente, cada uma dessas questões como problemas individuais que devem ser resolvidos. Na verdade, isso são apenas evidências do doloroso processo de quebra do sistema. Eu poderia te apresentar inúmeros estudos e evidências para provar isso, mas não será necessário, pois as evidências estão ao nosso redor. A crise é agora e é inevitável. A questão é como vamos reagir a tudo isso. Imagine o que acontecerá com nossa economia quando a bolha de carbono explodir. Quando os mercados financeiros reconhecerem que não há mais esperança de impedir que o clima saia do controle. As indústrias de petróleo e carvão estarão acabadas.

Imagine o Oriente Médio sem a renda do petróleo e com governos em colapso. Imagine a China, a Índia e o Paquistão entrando em guerra, pois os impactos climáticos geram conflitos sobre a comida e a disponibilidade de água. Imagine nossa indústria de alimentos altamente sintonizada para evitar desperdícios e nosso sistema agrícola falhando, enquanto as prateleiras dos supermercados estiverem esvaziando. Imagine 50% de desemprego no Brasil, já que a economia global está dominada pelo medo e pela incerteza. Imagine o que isso significa para a sua segurança pessoal, à medida que uma população civil fortemente armada fica cada vez mais irritada com o motivo pelo qual isso foi permitido.

Post_Apocalypse_-_Flickr_-_Joe_Parks.jpg

Apenas tire um momento, respire e pense: o que você sente ao ler tudo isso? Quando pensamos sobre as possibilidades que estão à nossa frente, devemos sentir um pouco de medo. Todos nós estamos em perigo. Nós evoluímos para responder ao perigo com medo, para motivar uma resposta poderosa. Conseguimos coisas notáveis ​​desde que trabalhamos para cultivar alimentos, há cerca de 10.000 anos. Para as pessoas que acreditam que os humanos podem resolver qualquer problema, saibam que essa tecnologia é limitada. Os mercados podem ser uma força para o bem, pois é histórico que é preciso uma boa crise para nos levar adiante. Quando sentimos medo e percebemos a perda, somos capazes de coisas extraordinárias.


globalwarming

Após o bombardeio de Pearl Harbor, em apenas quatro dias o governo proibiu a produção de carros civis e redirecionou a indústria automobilística. A partir daí, ocorreu um extremo racionamento de comida e energia. Isso mostra como uma empresa responde a uma ameaça de falência e como a mudança que parecia impossível acontece. Pense em como mudanças de estilo de vida, que anteriormente pareciam muito difíceis, de repente se tornam relativamente fáceis. Nós podemos transformar nossa economia. A única coisa que precisamos mudar é como pensamos e como nos sentimos.

Sei que os fundamentalistas do mercado livre dirão que mais crescimento, mais coisas e 9 bilhões de pessoas fazendo compras é o melhor que podemos fazer. Eles estão errados. Nós podemos ser mais. Nós podemos ser muito mais. Podemos escolher esse momento de crise para perguntar e responder às grandes questões da evolução da sociedade. Como e o que queremos ser quando crescermos como seres humanos? Quando deixaremos essa adolescência desajeitada, onde pensamos que não há limites e sofremos delírios de imortalidade? Bem, é hora de crescer com sabedoria. Para nos tornarmos mais maduros. Como as gerações antes de nós, estaremos crescendo em guerra. Não uma guerra entre civilizações, mas uma guerra pela sobrevivência da civilização.

Leia também :

Ainda dá tempo de salvar nossas espécies mais ameaçadas?

Referências: 
 Yuval Harari – 21 lições para o Século XXI
National Geografic – Environment Studies 

Os Mistérios dos Oceanos

Os oceanos formam os maiores biomas de nosso planeta, tendo, portanto, destaque em nossa imaginação. Desde tempos antigos, os mares moldam culturas, cidades e, até mesmo, países, influenciando a culinária, a mitologia, a arquitetura, inclusive as características físicas de determinados povos. Embora eles cubram cerca de 70% da superfície terrestre, conhecemos apenas 5% dos mares e 1% do leito oceânico, segundo dados da NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration).

Descubra alguns mistérios e curiosidades sobre esse ambiente de bilhões de anos que possui montanhas, rios, lagos, vulcões, animais brilhantes e criaturas tão grandes que um homem adulto poderia nadar em suas artérias!

Tamanho

Os oceanos cobrem uma área total de 360 milhões de quilômetros, o equivalente a 36 vezes o tamanho dos Estados Unidos ou a 42 vezes o tamanho do Brasil. Possuem um total de 1,3 bilhão de quilômetros cúbicos de água, o que significa que, se fossem colocados apenas sobre o Brasil, se entenderiam por 152,6 metros de altura, ultrapassando até mesmo nossa camada de ozônio!

Imagem relacionada
Fonte: Wikimedia Commons

Os oceanos possuem uma profundidade média de 3,8 quilômetros. Considerando que a luz é incapaz de ultrapassar profundidades maiores que 1 quilômetro, podemos concluir que a maior parte da superfície do nosso planeta nunca receberá a luz solar e que os maiores ecossistemas de nosso planeta são completamente escuros. A região mais profunda, por sua vez, possui cerca de 11,3 km de profundidade. Caso o Monte Everest fosse colocado no fundo desse abismo, denominado de Fossa das Marianas, ainda faltariam mais de dois quilômetros até a superfície.

Resultado de imagem para mariana trench everest
Profundidade da Challenger Deep, ponto mais fundo da Fossa das Marianas, em comparação com o Monte Everest – Retirado do site Venngage

Lagos oceânicos

Embora pareçam coisa de ficção científica, enormes lagos se escondem nos oceanos, a milhares de metros de profundidade. As chamadas “brine pools” são regiões de água extremamente densa, com salinidade de três a oito vezes maior do que o entorno, que não se misturam e possuem uma turbidez elevada. Possuem uma biodiversidade única, com características que possibilitam que esses animais sobrevivam a condições extremas (devido à ausência de luz nas profundidades em que esses lagos ocorrem, não existem plantas no local).

Resultado de imagem para Brine pool
Três lagos oceânicos, de aparência extremamente turva – Fonte: Lophelia II 2010 Expedition, NOAA-OER/BOEMRE National Oceanic and Atmospheric Administration

Por serem extremamente salgados, esses lagos são tóxicos para a maioria dos organismos. Milhares de animais entram anualmente nessas lagoas, sobretudo em busca de alimento, e nunca mais conseguem sair. Assista a seguir um trecho de um episódio da série Blue Planet, da BBC, que mostra os perigos desses ambientes para a vida local (imagens fortes). Felizmente, o animal em questão conseguiu escapar, mas nem todos têm a mesma sorte.

 

Animais gigantes

Devido ao grande espaço, à redução do peso na água e à enorme disponibilidade alimentar, os maiores animais do planeta se encontram na água. O maior e mais famoso desses é, sem dúvida, a baleia-azul (Balaenoptera musculus). Com até 33 metros de comprimento e pesando até 190 toneladas, essas criaturas produzem sons que podem ser ouvidos a mais de 800 quilômetros de distância! Seus pulmões suportam até 5.000 litros de ar, sua língua é tão pesada quanto um elefante adulto e sua boca é capaz de reter 90 toneladas de alimento por vez. Sua aorta possui de 23 a 38 cm de diâmetro, grande o bastante para passar um ser humano adulto.

Resultado de imagem para blue whale
Uma baleia azul -jovem . Fotógrafo desconhecido
Tamanho de uma baleia-azul em comparação com um elefante-africano e com um ser humano – Fonte: Enciclopédia Britanica
Imagem relacionada
Modelo de um coração de uma baleia-azul no Museu de Ontário, no Canadá

Um evento evolucionário frequentemente estudado pelos biólogos marinhos é o chamado “deep-sea gigantism”, ou “gigantismo abissal”, em português. Por razões ainda desconhecidas, os invertebrados que vivem em regiões fundas dos mares tendem a crescer até tamanhos descomunais. Lulas-gigantes de até 18 metros (que inspiraram lendas como a do Kraken), caranguejos maiores que os seres humanos e águas-vivas com dezenas de metros de comprimento povoam as regiões mais inóspitas de nossos oceanos, causando medo e admiração em quem os encontra.

Resultado de imagem para giant squid
Lula-gigante (Architeuthis sp.)  encontrada na costa da Nova Zelândia em Agosto de 2018 – Foto por Daniel Aplin
Japanese spider crab is listed (or ranked) 1 on the list Horrifying Examples Of Abyssal Gigantism
Caranguejo-aranha-japones (Macrocheira kaempferi) encontrado em 1920 – Foto:   Popular Science Magazine, jun. 1920
Resultado de imagem para giant isopod
Isópodes marinhos gigantes podem ser encontrados em mares de todo o mundo
Resultado de imagem para oarfish
Menos comumente, o gigantismo também ocorre em peixes, como nesse Regalecus glesne, animal que inspirou as lendas de serpentes marinhas gigantes.

Aliens submarinos

Devido a adaptações para suportar a imensa pressão nas regiões abissais e a características que possibilitam que esses organismos vivam em um local com completa ausência de luz solar, os animais das regiões abissais são, sem dúvidas, aliens aos nossos olhos. A bioluminescência (produção de luz por seres vivos) é a forma de comunicação mais comum da natureza e, mesmo assim, ainda nos surpreende até hoje. (Por serem pouco conhecidos, a maioria dos animais a seguir não possui nomes em português).

Camarão abissal translúcido – Espécie desconhecida
Barreleye, peixe abissal argentino com cabeça transparente. Note o cérebro (amarronzado) e os seus olhos verdes voltados para cima
Colourful sea creatures on black background
Diversidade abissal (Spiny King Crab, Facless Cusk, Monkey Brittle Star. Em baixo: Smooth-head Blobfish, Flesh-eating amphipod e Threadfin Dragonfish) fotografada por Robert Zugaro
Lizardfish (Peixe-lagarto em tradução literal) por Robert Zugaro
Tomopteris, um anelídeo abissal
Imagem relacionada
Lophiiformes, também conhecidos como tamboril, são peixes abissais com uma isca bioluminescente para atrair suas presas. São famosos por terem aparecido no filme Procurando Nemo, da Pixar
Resultado de imagem para salps
Salpas, tunicados coloniais bioluminescentes, fotografadas por Tyler Pockran
Imagem relacionada
O tubarão-charuto (Isistius brasiliensis) é uma espécie de tubarão bioluminescente do Brasil que possui um

Resultado de imagem para isistius brasiliensis

“The Bloop”

The bloop é o nome dado a um som misterioso registrado por oceanógrafos de vários países desde 1997, que provém de uma mesma fonte, em algum ponto do Oceano Pacífico. Esse barulho, que inicialmente se acreditava ser de origem biológica e que viaja por mais de 5.000 quilômetros, ainda não foi desvendado, mas atualmente acredita-se que tenha origem geológica ou que seja gerado por rachaduras em geleiras. Entretanto, essas teorias ainda não foram confirmadas, e o mistério continua.

 

Embora muito estudados, os oceanos ainda continuam extremamente misteriosos. A destruição e a poluição humana podem acabar com milhares de espécies nos próximos anos, antes mesmo que sejam descobertas. As nossas ações dos próximos anos podem determinar a proteção ou a ruína dos maiores e mais antigos ecossistemas do planeta.

Referências

Site https://www.marineinsight.com/environment/top-10-amazing-ocean-mysteries-and-phenomena/

Site https://listverse.com/2016/06/20/10-intriguing-mysteries-lurking-deep-under-the-ocean/

Vídeo do canal Sci Show

Texto https://www.livescience.com/14493-ocean-exploration-deep-sea-diving.html

Sobre o tamanho dos oceanos: https://www.megacurioso.com.br/numeros-malucos/37077-voce-tem-ideia-de-qual-e-o-tamanho-do-oceano-.htm

Artigo: Microbial Diversity of the Brine-Seawater Interface of the Kebrit Deep, Red Sea, Studied via 16S rRNA Gene Sequences and Cultivation Methods, de Eder et. al.

Texto https://www.wired.co.uk/article/bloop-mystery-not-solved-sort-of

A poluição pode acabar com nossa Internet nos próximos dez anos – e não há nada que você possa fazer para impedir!

A internet é uma das maiores invenções dos últimos tempos, mas ela corre sérios riscos, devido à poluição antropológica. Mas essa é a menor de nossas preocupações. Podemos estar criando uma armadilha para nós mesmos e ser aprisionados em nossa própria ignorância.

Colocar algo no espaço é incrivelmente difícil. Para isso, é preciso se locomover muito, muito rápido, primeiramente na vertical, para deixar a atmosfera, e depois de lado, para começar uma espécie de círculo ao redor da Terra, vertiginosamente. Se isso for feito com sucesso, o objeto entrará em uma baixa órbita terrestre e, a menos que consiga exercer alguma força, nunca sairá dela.

Low-Medium-and-High-Earth-orbits-Types-of-orbits-small

Grande parte da infraestrutura espacial está orbitando em volta da Terra, a algumas centenas de quilômetros sobre a superfície, antes que a resistência do ar possa diminuir sua velocidade a ponto de trazê-la de volta à Terra. 

Essa é a fonte de nossa maior armadilha: resíduos espaciais. Para entendermos o funcionamento dessa poluição espacial, temos que entender o funcionamento de foguetes. Os foguetes são cilindros de metal que armazenam grande quantidade de combustível no seu interior. Sempre que uma quantidade de combustível acaba, os tanques vazios são descartados para deixar o foguete mais leve. Algumas partes caem na Terra e outras queimam na atmosfera, mas a maior parte das peças se mantém orbitando na Terra. Após décadas de viagens espaciais, a baixa órbita terrestre tornou-se um ferro-velho de foguetes auxiliares que foram descartados, de milhões de estilhaços de explosões, além de satélites quebrados. 

abre.jpg
Atualmente, sabe-se que existem na órbita terrestre 2.600 satélites extintos, 10.000 objetos maiores que um monitor, 20.000 tão grandes quanto uma maçã, 500.000 do tamanho de uma bola de gude e pelo menos 100.000 objetos tão pequenos que não podem ser rastreados. Esses detritos estão se movendo a uma velocidade de até 30.000 km/hora, circulando a terra várias vezes por dia. Portanto, toda vez que colocamos no espaço um satélite ou um foguete, estamos lançando uma infraestrutura bilionária direto em uma zona de perigo. 

Hoje, a rede de satélites exerce funções essenciais no mundo moderno: comunicação global (Internet), GPS e navegação, dados meteorológicos, observação de asteróides, dentre outros. Se apenas um entulho espacial do tamanho de uma mísera bala atingisse um dos nossos 1.100 satélites em funcionamento, ele seria destruído instantaneamente. É dessa maneira que 3 ou 4 satélites são destruídos todos os anos. 

Como a quantidade de satélites e de lixo espacial tendem a crescer dez vezes na próxima década, estamos alcançando um ponto de inflexão. Dessa forma, um simples colapso entre duas partículas poderia gerar uma reação em cadeia, que transformaria satélites em funcionamento em mais lixo, gerando uma nuvem de mais estilhaços orbitando pela Terra. Esses detritos iriam colidir com mais e mais partículas, gerando um lento e destrutivo efeito dominó. Com mais e mais satélites sendo destruídos, o dano cresceria exponencialmente. 

atv-break-up.jpg

O pior cenário imaginável é simplesmente aterrorizante, já que, com o tempo, seria criado ao redor da Terra um campo de detritos, possivelmente, muito perigoso de atravessar. Os planos de criação de uma base lunar e de colônias em Marte poderia sofrer grandes atrasados por causa disso. E o pior. A perda de nossa infraestrutura espacial nos levaria tecnologicamente de volta à década de 70, ou seja, nada de Internet, GPS, etc. 

Entretanto, ainda não é necessário se desesperar, pois temos soluções para virar esse jogo. Enquanto a  indústria espacial vem estudando maneiras de diminuir seus resíduos, há muitas pessoas pensando em como remover detritos espaciais sem gerar mais lixo durante o processo. Algumas das soluções principais seriam a utilização de captura e retorno de lixo espacial, o emprego de força magnética por meio de imãs gigantes e, até mesmo, o uso de lasers. 

35fbcc4f0435471064ac373d3e654ed9.jpg

Qualquer que seja a tecnologia escolhida para remover o lixo espacial, os responsáveis terráqueos precisam agir rápido, antes que 100 milhões de partículas se tornem 1 trilhão e a armadilha esteja pronta. Se nada for feito, nossa aventura no espaço pode acabar antes mesmo de começar. 

Referências 

NASA – Orbital debris : https://www.orbitaldebris.jsc.nasa.gov
NASA – Missions : https://www.nasa.gov/mission_pages/station/news/orbital_debris.html
Canal Kurzgesagt in a Nutshell



Ainda dá tempo de salvar nossas espécies mais ameaçadas?

Quando pensamos em espécies ameaçadas, geralmente lembramos de pandas, tigres e elefantes. Embora estejam em risco de desaparecer completamente do planeta, sua fama ajudou a financiar diversos projetos de conservação, que trabalham dia e noite para salvar esses organismos únicos. Entretanto, pesquisas apontam que, anualmente, mais de 2000 mil espécies são extintas (alguns dados sugerem que cerca de 200 são extintas diariamente, totalizando mais de 73.000 ao ano), das quais a maioria é totalmente desconhecida para o público comum. Sendo assim, ainda dá tempo de salvar as espécies mais ameaçadas do planeta? E ainda, o que podemos aprender com nossos erros e acertos?

Resultado de imagem para jubarte
Jubarte, uma das espécies ameaçadas mais famosas do planeta

O ato de preservar uma espécie ameaçada consiste em seu monitoramento, proteção governamental, fiscalização, prevenção de caça/pesca e, em alguns casos, sua reprodução em cativeiro, bem como todo o processo de reabilitação e de devolução à natureza. Embora pareça relativamente simples, a maioria das espécies é negligenciada ou sequer é conhecida, enquanto outras lutam contra a destruição de habitat, a caça ilegal ou com a falta de investimentos do governo. Em outros casos, por outro lado, alguns animais cuja extinção era considerada inevitável voltaram à natureza de forma surpreendente, graças ao esforço de governos e até de organizações não governamentais.

Resultado de imagem para tigre da tasmânia
Tigre-da-tasmânia, uma espécie extinta em 1936 devido à negligência do governo australiano.     A primeira e única lei visando sua proteção foi aprovada 59 dias após sua extinção.

Um bom exemplo da importância dessas ações de proteção é o caso da saiga (Saiga tatarica), um antílope peculiar que possui uma tromba e que vive em grandes bandos, em estepes da Ásia. Originalmente, essa espécie vivia em toda a América do Norte, Europa e Ásia mas, devido a mudanças climáticas e, mais recentemente, à ação do homem, sua população se reduziu de forma extremamente drástica, de milhões de indivíduos para poucas centenas, por volta de 1920. Entretanto, a proibição de sua caça pela antiga União Soviética elevou sua população para mais de 2 milhões de indivíduos em 1950, mostrando a eficiência de leis para a proteção animal. Após a queda da União Soviética, os novos países que dela faziam parte não mantiveram sua proteção, fazendo com que a espécie entrasse em declínio novamente. Atualmente, apenas 50 mil desses animais vivem na natureza, o que corresponde a aproximadamente 5% do número de 15 anos atrás.

Resultado de imagem para saiga
A saiga, um dos antílopes mais raros do mundo

No momento em que você está lendo esse texto, existem animais cuja extinção é apenas uma questão de tempo, e que, provavelmente, nada mais poderá ser feito. A vaquita (Phocoena sinus), uma espécie de golfinho do México com apenas 140 cm de comprimento, é, atualmente, um dos animais documentados mais ameaçados do mundo, sobretudo devido à poluição e ao uso de redes de pesca nas áreas em que vive. Segundo dados da IUCN (International Union for Conservation of Nature), sua população era de aproximadamente 600 animais em 1997, 100 em 2014, 60 em 2015, 30 em 2016 e apenas 12 em 2018. Embora seu declínio já estivesse acentuado nas últimas décadas, apenas em 2017 grandes projetos de proteção foram iniciados pelos governos do México e dos Estados Unidos. Após tentativas falhas de criação em cativeiro, essa espécie será, provavelmente, uma das próximas vítimas conhecida da ação humana.

Imagem relacionada
Uma vaquita, o cetáceo mais raro do mundo

Entretanto, nem tudo está perdido. Com um manejo correto e com investimentos governamentais ou do setor privado, uma espécie quase extinta pode, sim, florescer novamente. Dentro de inúmeros exemplos, o que mais se destaca é o do Falco punctatus.  Após constatarem uma população de apenas 4 indivíduos em 1974, os biólogos Gerald Durrell e Carl Jones criaram um santuário na Ile aux Aigrettes, no arquipélago de Maurício, com o objetivo de salvar essa ave. Foram anos de estudo, coleta e manejo de ovos e de monitoramento dos filhotes e adultos e, em 1984, sua população ultrapassava os 50 indivíduos. Por volta de 1990, uma população autossustentável já vivia na ilha e, atualmente, mais de 400 animais em idade reprodutiva estão vivos. Embora possuam baixa diversidade genética, estudos apontam sua viabilidade no ambiente.

Resultado de imagem para Falco punctatus
Falco punctatus, uma espécie que voltou da beira da extinção

Dessa forma, podemos perceber que, caso as espécies ameaçadas sejam corretamente manejadas, elas podem, sim, ter um futuro pela frente. Pelo mundo, diversos projetos como o Tamar possuem a missão de auxiliar na preservação e na reprodução de espécies ameaçadas, criando um futuro melhor para todo o planeta. Espécies como o rinoceronte-de-java (43 indivíduos) ou o íbis-eremita (500 indivíduos) podem não estar mais entre nós nos próximos anos mas, com toda certeza, o trabalho e a dedicação de centenas de profissionais em todo o mundo garantirão que muitas outras espécies perdurem por milhares de anos.

 

Referências

https://www.iucnredlist.org/

http://wwf.panda.org/knowledge_hub/endangered_species/saiga_antelope/

https://www.bbc.com/news/magazine-17826898

http://wwf.panda.org/our_work/biodiversity/biodiversity/

http://www.ubss.org.uk/resources/proceedings/vol18/UBSS_Proc_18_1_74-80.pdf

https://www.independent.co.uk/news/world/europe/endangered-saiga-antelope-mysteriously-dying-in-vast-numbers-in-kazakhstan-10274294.html

https://www.ecowatch.com/vaquita-on-brink-of-extinction-2233479187.html

https://news.mongabay.com/2018/03/only-12-vaquita-porpoises-remain-watchdog-groups-report/

https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1055790302002543?via%3Dihub

 

 

 

 

 

O Desafio de Ser Sustentável

Com a evolução da humanidade e o crescimento populacional, estamos reduzindo problemas de miséria enquanto a natureza entra em colapso. Até onde a natureza pode ir e qual é ponto de equilíbrio para tudo isso?


A mente humana quer se preocupar. Isso não é necessariamente uma coisa ruim, afinal, se um lobo está perseguindo você, se preocupar com isso pode salvar sua vida. Embora a maioria de nós não precise perder muito sono com lobos nos dias de hoje, a vida moderna apresenta muitas outras razões para preocupação: terrorismo, mudança climática, ascensão da inteligência artificial, invasões à nossa privacidade, e, até mesmo, o aparente declínio da internacionalização.

O ponto é que a competição de hoje entre as nações “na verdade representa um surpreendente acordo global”. E esse acordo global torna mais fácil a cooperação, bem como a competição. Nossa cooperação global pode ter dado alguns passos atrás nos últimos dois anos, mas antes disso demos alguns passos adiante.

Então, por que temos a impressão de que o mundo está em declínio? Por quê a sensação estranha de que estamos rolando ladeira abaixo?  Em grande parte, porque estamos muito menos dispostos a tolerar o infortúnio e a miséria. Mesmo que a quantidade de violência no mundo tenha diminuído bastante, nós nos concentramos no número de pessoas que morrem a cada ano em guerras porque nossa indignação com a injustiça cresceu.

Apesar dos riscos significativos para a vida humana e não humana, as emissões de gases de efeito estufa (GEE) ainda estão aumentando. Algo tem que mudar e esse algo é mais significativo do que aqueles com o poder de estimular a mudança estão dispostos a admitir. A Calculadora Global do governo do Reino Unido é um bom exemplo. Esta ferramenta, recentemente lançada, nos permite modelar a compatibilidade de nossos alimentos, viagens, moradia e ambiente de trabalho com metas nacionais para limitar as mudanças climáticas. O secretário do clima, Ed Davey, afirma que a calculadora mostra que “todos no mundo podem prosperar enquanto limitam a elevação da temperatura global a dois graus, evitando os impactos mais sérios da mudança climática”. No entanto, mesmo as mudanças mais ambiciosas que a ferramenta preconiza desviam um pouco de nossos atuais padrões “normais” de comportamento Resta saber qual  seria o governo  que adotaria as mudanças “extremamente ambiciosas”. Portanto, se já se sabe qual será nosso futuro, porque tantos postergam para modificá-lo? Pelo simples motivo de que muitos de nós não estarão mais aqui quando as consequências de uma irresponsabilidade generalizada chegar a acontecer, ou seja, o típico egoísmo coletivo. 

A crise ambiental é realmente uma crise de consciência. A maioria das pessoas sabe que o mundo natural está enfrentando grandes desafios e muita degradação, mas poucos sabem a verdadeira extensão das mudanças e privações que o meio ambiente enfrenta, além dos seus efeitos estendidos sobre o bem-estar humano e todas as outras formas de vida na Terra. Há uma grande lacuna entre a multiplicidade de problemas que o ambiente enfrenta em todas as frentes e o nível de conscientização que a maioria das pessoas tem sobre esses problemas. Durante este período crítico da história humana, nossa geração recebeu a tarefa urgente de reverter os danos da civilização industrial e superar talvez o maior desafio que a humanidade já enfrentou. A ideia seria haver uma união como uma força consciente e sustentável para assegurar a estabilidade de nosso futuro ambientalmente, economicamente e socialmente. Não podemos destruir o planeta, devastar a sua biodiversidade, alterar o clima e continuar a viver da riqueza das gerações futuras sem nos condenarmos e às custas da nossa civilização no processo.

O movimento ambientalista, com mais de um milhão de organizações ambientais, de justiça social e indígenas presentes, é o movimento que mais cresce na Terra. O ambientalismo se tornou uma questão humana mais ampla e unificadora, na qual todos os sistemas vivos da biosfera estão em constante e acelerado declínio. O aquecimento global, por exemplo, é real, destrutivo e seus impactos futuros desafiam a imaginação, mas nossa vontade coletiva de fazer a diferença é tão real e igualmente desafiadora diante de grandes desafios. Tudo começa com a superação da ideia de que você é pequeno demais para fazer a diferença. Além desse obstáculo, as possibilidades são infinitas e o céu é só o limite.

Os impactos da mudança climática e do dano ambiental são frequentemente observados de uma forma direta, em que o nível do mar é medido e as temperaturas são monitoradas. O aquecimento global já teve efeitos observáveis no meio ambiente, como o derretimento de geleiras, a quebra prematura de gelo em rios e lagos, o aumento das secas, a intensificação do clima extremo e a mudança de plantas e de animais. Sem uma ação efetiva para deter a queima de combustíveis fósseis e reduzir os níveis de gases de efeito estufa liberados pela atividade humana, os seres humanos e a vida selvagem no mundo enfrentarão um futuro inóspito. Haverá um aumento das perturbações para a sociedade devido às condições meteorológicas extremas, com inundações e tempestades mais frequentes, secas mais severas e ondas de calor, elevação do nível do mar e aquecimento do permafrost (tipo de solo existente na região do Ártico). Em muitas regiões, os efeitos da escassez de água e do calor extremo afetarão negativamente a agricultura. Os efeitos no mundo natural serão severos, com uma grande perda de recifes de corais gerada pelo aquecimento dos oceanos e o sumiço de florestas tropicais à medida que os incêndios se tornarem mais frequentes. Esses impactos também serão sentidos enormemente em termos econômicos.

 Yuval Harari

Em um mundo cada vez mais complexo, como qualquer um de nós pode ter informações suficientes para tomar decisões fundamentadas? É tentador recorrer a especialistas, mas como você sabe que eles não estão apenas seguindo o rebanho? O problema do pensamento grupal e da ignorância individual afeta a todos

É fundamental que cada ser vivo pensante consiga tomar consciência, praticando a atenção plena sobre o que ocorre para além de nossa pequenez. Após a tomada de consciência e a empatia com as gerações futuras é natural que, automaticamente, atitudes mais sustentáveis, minimalistas e conscientes tomem conta das nossas decisões. Mesmo que, em algum momento, essas atitudes não sejam sempre perfeitas, o sentimento de culpa dará uma nova cara às próximas ações. 

Mudanças no nosso conforto serão necessárias em prol de um bem maior, para além de algumas gerações passadas e presentes. Nosso compromisso deve ser firmado para que nosso legado não seja em vão. 

Referências 


21 Lições Para o Século 21 
The Global Calculator 

Mineração: Um risco iminente em Minas Gerais

A mineração é um dos setores básicos da economia do país e contribui de forma decisiva para o bem estar e a melhoria da qualidade de vida das presentes e futuras gerações, sendo fundamental para o desenvolvimento da sociedade, desde que seja operada com responsabilidade. Porém, a realidade é muito diferente da utopia e, muitas vezes, as atividades minerárias trazem com elas um enorme impacto ao meio ambiente, afetando, não só as florestas, como também o solo e o equilíbrio hidrológico.

mineração-carajas

Hoje em dia é impossível implantar projetos realmente importantes sem se pensar no impacto que ele pode causar ao meio ambiente. Por meio da mineração, o homem extrai recursos naturais que alimentam a economia e sem ela nenhuma atividade subsequente pode vir.

A história e as tradições de Minas Gerais estão fortemente ligadas à atividade mineradora e às suas reservas minerais. Afinal, o Estado extrai mais de 160 milhões de toneladas de minério de ferro por ano e responde por 29% de toda a produção mineral do país, por 53% da produção de minerais metálicos e por cerca de 50% de todo o ouro produzido no Brasil. Única fonte nacional de produção de zinco, Minas Gerais também é o maior produtor de ferro, ouro, fosfato, grafita, lítio e calcário, além de ser o responsável pela geração de 75% de todo o nióbio do mundo.

black coal passes above the conveyor belt
Fonte: BOSCH

Os depósitos minerais encontram-se onde as condições geológicas são favoráveis à sua formação. A este condicionante dá-se o nome de “rigidez locacional da jazida”. Alguns fatores geográficos estão relacionados à posição do jazimento, tais como: densidade da população, topografia, clima e aspectos sócio-econômicos, dentre outros, que poderão influir de forma positiva ou negativa na extração econômica destas riquezas.

A lavra de minerais industriais, frequentemente, apresenta um alto potencial impactante. Em contrapartida, poucos minerais desta classe são tóxicos e o uso de reagentes químicos no tratamento deles é limitado. Por isso, os principais problemas ambientais deste tipo de mineral são o impacto visual, o abandono das lavras, a poeira, o ruído e a vibração.

mineração-1.jpg

 

Em Minas Gerais, na cidade de Belo Horizonte, há dois parques estaduais que possuem importância estratégica para o abastecimento de água na Região Metropolitana. Localizado na confluência das serras do Curral, Três Irmãos e da Moeda, o Parque Estadual Serra do Rola-Moça é considerado essencial para o abastecimento urbano da região. Ele foi criado há 24 anos atrás justamente para a proteção das nascentes que fornecem água para os mananciais de água que abastecem a RMBH (Região Metropolitana de Belo Horizonte). O Parque Estadual da Baleia, que fica na base da Serra do Curral, é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

1216069_341627.jpg

Hoje esses principais mananciais de Belo Horizonte estão ameaçados devido ao extrativismo mineral. No caso da Serra do Curral, a ameaça vem da Mina Corumi da Empresa de Mineração Pau Branco (Embrapa), localizada no Bairro Taquaril, zona Leste de BH.

O Instituto Estadual de Florestas (IEF) também identificou que a cava feita pela mineradora provocou alterações no balanço hídrico da região, por meio da redução da vazão das nascentes.

A ameaça ambiental ainda é maior que isso: há um risco de retomada da atividade minerária, atualmente embargada, que pode desestabilizar de vez o topo do maciço da Serra do Curral.

cavacurral cópia
Cava criada pelo extrativismo da Serra do Curral

site_noticias_1315169013.jpg“Há um novo projeto da Taquaril Mineração (que pertence à Construtora Cowan) e está em fase de licenciamento. Ele prevê um potencial de exploração de 25 milhões de toneladas de minério por ano no lado novalimense da Serra do Curral. Caso seja aprovado, 150 hectares de floresta de Mata Atlântica em transição para o Cerrado serão devastados para a implantação do empreendimento.” Ecológico – Edição 99

É preciso estarmos atentos às possíveis consequências hídricas e de riqueza natural, principalmente das Serras de Minas, que podem ser perdidas juntamente com a exploração minerária. Tendo em vista o conceito cada vez mais forte de desenvolvimento sustentável, faz-se necessário um programa eficiente de disposição de resíduos gerados por parte da mineração, pois, de uma forma geral, o uso dos bens minerais no momento é inevitável. Além disso, a elaboração de Estudos de Impacto Ambientais (EIA) bem feitos e estruturados é primordial para se averiguar e mensurar qualitativamente e quantitativamente os impactos causados. Precisamos proporcionar um meio ambiente adequado para as futuras gerações, afinal de contas, a vida sempre deve estar em primeiro lugar.

 

 

 

Referências  

Aspectos e impactos ambientais de pedreira em área urbana. 

Licenciamento Ambiental e Impactos Ambientais de Atividades de Mineração. FEAM – Fundação Estadual do Meio Ambiente. Manaus, AM.

CRPM. Perspectivas do Meio Ambiente do Brasil – Uso do Subsolo. MME – Ministério de Minas e Energia, 2002. Disponível em http://www.cprm.gov.br.

Revista Ecológico número  112

Quais são as propostas do futuro presidente para o Meio Ambiente?

No dia 28 de outubro de 2018, Jair Messias Bolsonaro venceu, com 55,13% dos votos válidos, a corrida eleitoral brasileira, sendo nomeado o 38º presidente do país e assumirá o cargo em 1 de janeiro de 2019. Mas, afinal, quais são suas propostas com relação ao meio ambiente? Que medidas tomará para proteger a maior biodiversidade do planeta? E ainda, o que podemos esperar de seu governo?

Plano de Governo

Em seu plano de governo não existem mensões diretas ao tema. Indiretamente, o militar mensiona o meio ambiente ao retratar um novo modelo institucional para a agricultura, no qual o estado teria menos poder para determinar como a agropecuária no país deve ser gerida. Embora essa proposta ofereça maior autonomia ao agricultor para administrar a sua fazenda, o que pode auxiliar pequenos produtores, ela irá abrir espaço para que grandes latinfundiários expandam suas terras, sobretudo em áreas de cerrado e de florestas da Amazônia Legal. Além disso, ele propõe a união de temas relacionados à agricultura em uma só pasta, para “sair da situação atual onde instituições relacionadas ao setor estão espalhadas e loteadas em vários ministérios” (tópico que abordaremos mais a frente).

8b342f3a-1ac7-45b5-96dc-86e9008adbab

Aquecimento Global

O futuro presidente também aponta, em seu planto de governo, o “fim do monopólio da Petrobras sobre o gás natural”, o que, segundo ele, contribuiria para “reduzir as emissões de CO2 e ajudar a integrar outras fontes renováveis intermitentes.” Em contrapartida, o integrante do PSL afirmava que iria retirar o Brasil do Acordo de Paris, que tem como objetivo reduzir as emissões de carbono em escala global. Na reta final da campanha, o então canditado disse que iria manter o Brasil no acordo, apesar de criticar o documento. Após a eleição de Bolsonaro, o presidente francês Emmanuel Macron alertou o presidente da importância da cooperação internacional para a preservação do planeta, deixando claro que pretende ser um parceiro do Brasil nesse quesito.

Imagem relacionada

Ministérios

Um dos tópicos mais polêmicos, o plano de governo do Partido Social Liberal explicita que, para reduzir gastos, irá fundir os Ministérios da Agricultura e do Meio Ambiente. Após voltar atrás com essa ideia, o político afirmou, na última semana, que iria manter sua decisão. Essa proposta, embora possa, em teoria, ajudar a enxugar os gastos públicos, irá facilitar o licenciamento ambiental para grandes latifundiários, o que irá ameaçar ainda mais nossos biomas, uma vez que cerca de 128 terrenos do tamanho de campos de futebol são desmatados por hora na Amazônia. Para saber mais, leia a nota publicada hoje pelo Ministério do Meio Ambiente clicando aqui.

Resultado de imagem para desmatamento

Reservas

Bolsonaro afirma que pretende reduzir grande parte das reservas atuais. Segundo ele, “O Brasil não suporta ter mais de 50% do território demarcado como terras indígenas, áreas de proteção ambiental, parques nacionais e essas reservas todas, atrapalha o desenvolvimento. Você quer derrubar uma árvore que já morreu leva dez anos, quer fazer uma pequena central hidrelétrica é quase impossível, não podemos continuar admitindo uma fiscalização xiita por parte do ICMBio e do Ibama, prejudicando quem quer produzir” (sic). Somado a isso, ele afirma, também, que não concederá nem um centímetro de terra a mais para reservas indígenas e quilombolas.

Resultado de imagem para reserva ambiental charge
Charge de Turcios

Caça

Embora não tenha sido diretamente mencionada após a eleição de Bolsonaro, esse assunto preocupa os ambientelistas, uma vez que ele já afirmou, em vídeo, ser a favor da liberação da caça, inclusive em reservas, por esse ser um “esporte saudável”. Posteriormente, o até então candidato afirmou que se referia apenas a espécies invasoras, como o javali, o que não foi mencionado no vídeo original circulante.

Imagem relacionada
Javali no estado de São Paulo – Foto da Revista Fórum

Amazônia

Outra preocupação dos ambientalistas diz respeito à “abertura comercial da Amazônia para o mundo“, mencionada por Bolsonaro em diversas ocasiões. Segundo ele, é preciso que países como os Estados Unidos façam uso da terra para auxiliar em sua preservação. “Será que a Amazônia ainda é nossa? Em 1982, a Argentina falou que as Malvinas eram deles. Perderam. Hoje em dia, ouso dizer que dificilmente a Amazônia é nossa”, afirmou.

Resultado de imagem para amazonia
A Amazônia, a maior floresta tropical do mundo, pode ser aberta à exploração estrangeira nos próximos anos – Imagem da Revista Exame

Emenda Constitucional 95/2016

Apesar de Bolsonaro ter votado a favor da Emenda Constitucional n.º 95, de 2016, que limita o teto dos gastos públicos pelos vinte anos seguintes, a acessoria do presidente afirmou que não descarta eventuais manutenções em propostas de governos anteriores, podendo inclusive revogá-las. Isso seria um grande avanço para o país, uma vez que sua revogação permitiria o aumento de recursos para pesquisas, que poderá auxiliar na preservação da biodiversidade.

Resultado de imagem para biologos
A revogação da PEC dos gastos pode auxiliar na preservação de nossa biodiversidade

Conclusão

Após esse panorama em relação às ações que podemos esperar do Governo Bolsonaro para o Meio Ambiente, devemos nos preocupar? A resposta é sim e não. Primeiramente, é importante ressaltar que um presidente não governa sozinho. Suas decisões deverão ser aprovadas pelo Congresso Nacional e, ainda que aprovadas, poderão ser alteradas futuramente. Além disso, suas escolhas serão avaliadas com mais atenção no futuro, podendo gerar bons frutos para o país. Nesse momento, é nosso dever observar o que ocorre na Câmara dos Deputados e no Senado para que possamos cobrar do novo governo mudanças que auxiliarão o planeta. Afinal, um mandato dura apenas 4 anos, mas suas ações podem gerar consequências que permanecerão para sempre.

 

 

Referências

Seu plano de governo : https://abrilveja.files.wordpress.com/2018/10/plano-de-governo-jair-bolsonaro.pdf

https://oglobo.globo.com/brasil/ensino-superior-vai-para-ciencia-tecnologia-saiba-quais-sao-os-15-ministerios-definidos-por-bolsonaro-23201813?utm_source=Facebook&utm_medium=Social&utm_campaign=compartilhar&fbclid=IwAR1xm9zK-1P0t55mPyhmxieR4HYaEPoINhWM8U-qFV34Mab7xEoNQbi2eI0

http://www.impactounesp.com.br/2018/09/as-propostas-ambientais-do-candidato.html

https://www.opovo.com.br/noticias/politica/2018/10/as-acoes-de-bolsonaro-e-haddad-para-o-meio-ambiente.html

https://congressoemfoco.uol.com.br/eleicoes/conheca-as-propostas-de-bolsonaro-e-haddad-para-o-meio-ambiente/

https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/10/lideres-da-direita-na-europa-desejam-boa-sorte-a-bolsonaro-macron-fala-em-tragedia-eleitoral.shtml

https://oglobo.globo.com/brasil/bolsonaro-diz-que-nao-vai-tirar-brasil-do-acordo-de-paris-23185397

https://extra.globo.com/noticias/brasil/bolsonaro-diz-que-pode-retirar-brasil-do-acordo-de-paris-se-eleito-23034957.html

https://brasil.elpais.com/brasil/2018/05/18/politica/1526612140_988427.html

http://g1.globo.com/politica/noticia/2016/10/saiba-como-cada-deputado-votou-em-relacao-pec-do-teto-de-gastos.html

 

 

 

 

 

Amazonas: O rio brasileiro que surgiu na África

O Rio Amazonas é considerado por muitos o maior rio do planeta. Com quase 7 mil quilômetros de comprimento, uma bacia que ocupa cerca de 40% de toda a América do Sul e uma vazão de 209.000 m³/s (o equivalente à vazão combinada dos sete outros maiores rios do planeta), esse corpo d’água é responsável por 20% de toda água doce despejada nos oceanos diariamente. Mas afinal, de onde vem toda a sua água? Como é possível que ele exista? E ainda, como ele surgiu?

Resultado de imagem para amazon river
Encontro do Rio Negro e do Rio Solimões, afluentes do Amazonas

As origens do Rio Amazonas remontam à Gondwana, um supercontinente formado pela junção da América do Sul, África, Antártida, Austrália e do sub-continente indiano. Na metade do período Cretáceo, há cerca de 100 milhões de anos, uma grande bacia, apelidada de  “proto-Amazon-Congo river system” existia desde a porção central do continente africano até o Oceano Pacífico. Um grande rio que cruzava os dois continentes no sentindo leste-oeste, oposto ao Amazonas atual, foi, provavelmente, um dos maiores que já existiram na história do nosso planeta, mas foi parcialmente destruído com o surgimento do Oceano Atlântico. A nova bacia exclusivamente africana formou o molde para o que se tornaria o Rio Congo milhões de anos depois.

Representação gráfica da bacia de vários rios atuais em comparação com a geografia durante a quebra da Gondwana

Durante a separação dos dois continentes, o fluxo de água na porção sul-americana foi cortado, e, posteriormente, sua bacia foi invadida pelos oceanos circundantes, criando uma área de mares rasos e recifes. Posteriormente, a porção Atlântica foi fechada com o surgimento de uma cadeia de montanhas na região, deixando aberta apenas a conexão com o Oceano Pacífico e, posteriormente, criando rios que desaguariam no mar interior do continente.

Amazon 4
Modelo paleogeográfico representando os possíveis mares rasos na América do Sul durante a fragmentação da Gondwana, 122 milhões de anos atrás  (ARAI, 2005, 2007, 2011) – Retirado da apresentação “Reconstrução paleogeográfica com base em paleontologia: Estudo de caso do Atlântico Sul Aptiano”, feita por Mitsuru Arai com apoio da Petrobrás

Amazon 1
O surgimento de uma cadeia de montanhas na porção leste da América do Sul  fechou a ligação da bacia proto-amazônica com o Oceano Atlântico – Diagrama feito pela UNC (EUA).

A quebra da Gondwana foi causada pela movimentação no sentido leste-oeste da Placa Sul-Americana, que colidiu com a Placa de Nazca, que, por sua vez, se movia no sentido oeste-leste.  Esse choque ocasionou a subducção de Nazca e, consequentemente, o fechamento do braço do pacífico para dentro da América do Sul, na região que se tornaria os Andes. Esse processo gerou um mar interior com espécies, sobretudo do pacífico, que deixaram linhagens que evoluíram em condições salobras e, posteriormente, na água doce, uma vez que o constante fluxo de rios para o mar interior e a deposição de sais foi progressivamente reduzindo a salinidade da água. Atualmente, mais de 20 espécies de raias de água-doce, filogeneticamente próximas a raias de água-salgada do Pacífico, vivem no Amazonas.

Resultado de imagem para nazca plate  andes
A colisão entre as Placas de Nazca e a Placa Sul-Americana criou a porção norte da Cordilheira dos Andes – Imagem retirada do site mapsofworld.com

Imagem relacionada
O fechamento do braço do Pacífico no interior da América do Sul criou um grande lago de água doce, com espécies únicas descendentes de animais do Pacífico –  (Acima)                                                       Comparação entre espécies de raias do Pacífico e da Bacia do Amazonas (Abaixo)

Imagem relacionadaResultado de imagem para Potamotrygonidae

 

 

 

 

 

Nos milhões de anos seguintes, o surgimento de uma cordilheira na porção central do continente, além do aparecimento da floresta amazônica 15 milhões de anos atrás, criou uma rede de afluentes que desaguavam no grande lago amazônico, que transbordou e criou um novo rio em direção ao Pacífico. (Para entender como as florestas podem alterar o regime de chuvas e criar rios, clique aqui). Há cerca de 9 milhões de anos, golfinhos do Pacífico colonizaram o continente, dando origem aos botos dulcícolas. Entretanto, o crescimento acelerado dos Andes durante o Mioceno, entre 8 e 6 milhões de anos atrás, cortou a sua drenagem, criando uma rede de planícies alagadas entre as duas cordilheiras, além de um rio que seguia na direção do Atlântico na porção leste dos Arcos Purus. Essa bacia endorreica foi o que originou a Bacia do Solimões, que existe até hoje na área e possui uma fauna exclusiva.

Resultado de imagem para Isthminia
Isthminia, golfinho extinto do Pacífico ancestral dos botos – Artista desconhecido

Imagem relacionada
Boto-cor-de-rosa (Inia geoffrensis), uma das três espécies atuais de botos continentais sul-americanos – Foto por Martina Kiselová

Amazon 2
O surgimento dos Arcos Purus e, posteriormente, dos Andes, criou uma bacia endorreica na região Amzônica

Resultado de imagem para julio lacerda paleoart miocene
Fauna amazônica durante o Mioceno contava com roedores de 700 quilos (Phoberomys) e com jacarés de 10 metros (Purussaurus) – Arte por Julio Lacerda

Pouco tempo depois, essa bacia cavou seu caminho pelos Arcos Purus e originou um rio que unia as porções leste e oeste dessa cordilheira, criando, finalmente, o Rio Amazonas. O ciclo de glaciações ocorrido nesse período colaborou para a drenagem do grande lago para dentro do rio, além de favorecer que milhares de litros de água, vindos dos Andes, entrassem na bacia, o que aumentou ainda mais o seu fluxo. Cerca de 4 milhões de anos atrás, surgiu uma corrente de ar, que partia da África e chegava na Amazônia, carregando toneladas de nutrientes do recém formado Saara para a floresta, o que colaborou para a sua expansão. O crescimento da floresta corroborou para a manutenção do rio e para o surgimento de inúmeras outras bacias da América do Sul, através dos rios voadores. Cerca de 3 milhões de anos atrás, uma nova leva de animais vindos do Atlântico colonizou sua foz e alguns se adaptaram à água-doce, como o peixe-boi-da-amazônia (Trichechus inunguis), que vive exclusivamente no rio, e o tubarão-cabeça-chata (Carcharhinus leucas), espécie marinha que pode ser eventualmente encontrada a mais de 4.000 quilômetros de seu delta.  A quantidade de sedimentos transportados pelo rio era tanta que essa característica moldou o leito oceano perto de sua foz e possibilitou a fixação de corais, que são nutridos pelos sedimentos da bacia. Um recife com mais de 9,500 km² existe no local até hoje, com uma fauna conhecida de 40 espécies de coral, 60 espécies de esponja (sendo 29 ainda não descritas pela ciência) e 73 espécies de peixes.

Amazon 3
Configuração simplificada atual da bacia amazônica

Imagem relacionada
Peixe-boi-da-amazonia (Trichechus inunguis) – Por Doug Perrine

Resultado de imagem para Carcharhinus leucas river
Tubarão-de-cabeça-chata (Carcharhinus leucas) – Por mark Colin – acima-  pode ser encontrado a mais de 4.000 quilômetros da foz do rio – abaixo

 Amazon River Map

Imagem relacionada
Recife de coral próximo da foz do Amazonas

A configuração e os ciclos atuais do Rio Amazonas são, relativamente, muito recentes, tendo sido firmadas há pouco mais de 400 mil anos. Entretanto, a porção central da bacia manteve uma configuração similar nos últimos milhões de anos, sobretudo nas regiões de planícies alagadas. O lento fluxo de água nessas áreas gerou meandros extremamente longos, que caracterizam a área. Durante a época das cheias, a região se torna uma grande planície alagada, com uma diferença de até 7 metros no nível da água em algumas regiões.

Resultado de imagem para amazon river
Meandros do Rio Amazonas – Foto por SK Films

 Amazon River in Brazil
Planícies alagadas do Amazonas – acima – e foto de árvores submersas – abaixo – Por Cristian Dimitrius

Imagem relacionada

Atualmente, no seu ponto mais largo, o Rio Amazonas pode alcançar 11 quilômetros entre uma margem e outra e até 100 metros de profundidade em sua região mais profunda. Possui mais de 2.500 espécies de peixes, além de centenas de espécies de plantas endêmicas. Ele desloca tanta massa diariamente que é capaz de criar uma anomalia no campo eletromagnético da Terra sobre a América do Sul.  Ele é essencial para a manutenção da floresta e de inúmeras comunidades locais. Sua relevância mundial se deve, principalmente, a seu valor sócio-ambiental e a sua história, que nos mostra a mutabilidade do planeta e, ao mesmo tempo, nos ensina a importância da preservação de nossa natureza.

Resultado de imagem para amazon river
Tartaruga-da-Amazônia (Podocnemis expansa), uma das milhares de espécies de animais que dependem da manutenção do rio para sua sobrevivência – Foto retirada do site ietravel.com

Referências

Sobre o Amazonas

Texto “Amazon River”, publicado no site geologypage.com

Origem Gondwanica do Amazonas

Artigo “Modification of the Western Gondwana craton by plume–lithosphere interaction”, por Hu et al.

Texto “The Amazon-Congo River

Origem dos Andes e Inversão do Fluxo do Amazonas

Texto “Age of the Amazon River estimated at 11 million years”, publicado no site  Mongabay.com

Artigo “Amazonia Through Time: Andean Uplift, Climate Change, Landscape Evolution, and Biodiversity”, por Hoorn et al.

Artigo “Eustatic and tectonic change effects in the reversion of the transcontinental Amazon River drainage system”, por Caputo e Soares

Artigo “Late Miocene onset of the Amazon River and the Amazon deep-sea fan: Evidence from the Foz do Amazonas Basin”, por Figueiredo et al.

Cetáceos Sul-Americanos

Artigo “Isthminia panamensis, a new fossil inioid (Mammalia, Cetacea) from the Chagres Formation of Panama and the evolution of ‘river dolphins’ in the Americas”, por Pyenson et. al

Tubarão-cabeça-chata no Amazonas

Texto “Sharks In The Amazon River?”, publicado no site rainforestcruises.com

Recife Amazônico

Artigo “An extensive reef system at the Amazon River mouth”, por Moura et al.

 

 

 

 

 

Ilhas de Calor: um problema urbano

Se você não aguenta o calor, saia do centro urbano em que você vive. Ative o boletim meteorológico local e você provavelmente notará uma tendência estranha. As temperaturas são, muitas vezes, mais altas nas cidades do que nas áreas rurais vizinhas. Essa discrepância de temperatura é o resultado de um fenômeno bizarro conhecido como o efeito da ilha de calor.

Resultado de imagem para ilha de calor

Como o nome indica, esse efeito faz das cidades ilhas de calor. De acordo com a Agência de Proteção Ambiental dos EUA, as temperaturas nas cidades dos Estados Unidos podem ficar até 10 graus Fahrenheit mais altas do que nas áreas vizinhas. Normalmente, a disparidade de temperatura não é tão grande, mas mesmo alguns graus podem fazer uma enorme diferença. A demanda por ar condicionado no verão leva a contas de energia mais altas. E muitos argumentam que isso também aumenta as emissões de gases de efeito estufa pelas usinas de energia que fornecem energia extra.

Talvez o pior resultado do efeito ilha de calor seja o número de mortes relacionadas ao aumento de temperatura. Embora as tempestades causadoras de danos recebam a maior atenção da mídia, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica relata que o calor geralmente é mais mortal. Nos EUA, o calor normalmente mata mais pessoas a cada ano do que o conjunto de furacões, inundações e raios [1].

Resultado de imagem para heat wave
Pessoas se refrescando em rio durante onda de calor no Paquistão em 2017, em que as temperaturas chegaram a 53.5°

Belo Horizonte não foge a esse padrão. De 1910 a 2000 a temperatura média anual da cidade era de 21° C. Entretanto, considerando-se o período mais recente, ou seja, de 1980 a 2000, a temperatura média anual cresceu para 21,5° C. Por meio de uma tabela é possível verificar que, de uma lista de dez temperaturas médias anuais mais elevadas dos últimos 100 anos, seis foram registradas a partir de 1990.

Resultado de imagem para temperaturas medias anuais belo horizonte

Moraes (2002) propõe o valor de 4,7° C para o aumento de temperatura do centro da cidade em relação ao seu entorno rural, conforme constatado em medições realizadas entre 16 e 18 horas do dia 23 de agosto de 1999. A ilha de calor de Belo Horizonte, além de criar impacto ambiental de natureza térmica na área urbana, gera também uma pluma de contaminação térmica que se estende preferencialmente de acordo com o sentido predominante dos ventos na região metropolitana, na direção dos municípios de Contagem e Betim. Dessa forma, o autor resume a natureza da ilha de calor de Belo Horizonte e sua forma de ação.

Então, o que cria o efeito de ilha de calor urbana e como os planejadores urbanos podem reduzi-lo?

Os telhados das construções e o asfalto da cidade costumam ser de cor escura, o que ajuda a impulsionar o efeito da ilha de calor urbana.

Para entender o efeito da ilha de calor urbana, primeiro precisamos entender algumas regras simples da física. Além disso, devemos entender que os objetos podem absorver e refletir a luz. Na verdade, a cor de um objeto depende do tipo de luz que ele reflete. Por exemplo, um objeto verde reflete a luz verde e absorve todas as outras cores visíveis da luz. Quando vemos um objeto verde, percebemos que ele é verde porque reflete o comprimento de onda verde de volta aos nossos olhos. Objetos de cores escuras são excelentes absorvedores de luz. De fato, as superfícies pretas absorvem quase toda a luz. Por outro lado, superfícies coloridas, mais claras, não absorvem muita luz. Ao contrário, elas refletem quase tudo.

Resultado de imagem para cores refletir

Então, o que a absorção da luz tem a ver com o calor? Quando um objeto absorve a luz, ele converte a luz em energia térmica e a emite de volta como calor. Como os objetos negros absorvem mais luz, eles também emitem mais calor. É por isso que usar uma camisa preta em um dia quente e ensolarado só vai deixar você mais sexy. A camisa preta absorve a luz e a emite como calor em sua pele. Por outro lado, vestir uma camisa branca o ajudará a refletir a luz do sol e a mantê-lo mais fresco.

Telhados verdes, como este localizado no topo da Prefeitura de Chicago, ajudam a compensar o efeito da ilha de calor urbana.

Resultado de imagem para Prefeitura de Chicago
Terraço da Prefeitura de Chicago

Felizmente, ao conhecermos a causa do efeito de ilha de calor urbana, podemos controlá-lo de forma significativa. Certas técnicas reduzem a demanda por ar condicionado e, consequentemente, reduzem as contas de energia.

Como as superfícies escuras e a baixa capacidade de reflexão da radiação solar das estruturas urbanas aquecem a área, a solução lógica seria reverter essa tendência. Os planejadores urbanos podem fazer isso pintando as estruturas de branco ou de outras cores claras. Essa técnica básica ajuda muito a minimizar o efeito da ilha de calor urbana.

Imagem relacionada
A manutenção de estruturas urbanas escuras favorecem o surgimento de ilhas de calor

No entanto, algumas pessoas não gostam da ideia de uma cidade toda branca e gritante. Nesse caso, a utilização de revestimentos de baixa refletividade, com cores diferentes do branco, seria uma alternativa. Esses tipos de revestimento refletem radiação invisível sem refletir toda a luz [2]. Ou seja, eles mantêm um objeto relativamente frio sem sacrificar a sua cor.

Certos revestimentos de alta refletividade também podem ser aplicados no asfalto. As vedações de cavacos de asfalto e as camadas de vedação de emulsão são dois exemplos desse tipo de revestimento, que tratam o asfalto para tornar a sua superfície mais refletiva [3]. Os processos reduzem o fator albedo do asfalto, que é um dos principais contribuintes para o efeito de ilha de calor urbana.

Resultado de imagem para asfalto refletivo calor
Pavimentação branca foi adotada em Los Angeles para reduzir a temperatura das cidades

Uma tendência que vem ganhando popularidade é a instalação de telhados verdes em cima de edifícios da cidade. Essa solução não tem nada a ver com cor. Um “telhado verde” é simplesmente um telhado que inclui plantas e vegetação. Os telhados verdes conferem ao ambiente o mesmo efeito de resfriamento evaporativo que as cidades perdem quando cortam a vegetação. Assim, um telhado verde não só impede que o telhado do edifício absorva calor, como também resfria o ar em torno dele, compensando o efeito de ilha de calor urbana até certo ponto. Ademais, muitos edifícios sustentáveis ​​usam telhados verdes para reduzir sua dependência do consumo de energia.

Resultado de imagem para rooftop garden

Outras soluções que vêm sendo utilizadas também ajudam a reduzir o efeito de ilha de calor urbana, como por exemplo, a aspersão do telhado, método de resfriamento evaporativo. Os sprinklers molham a superfície do telhado para que o ar ao redor resfrie com a evaporação [4]. Planejadores urbanos também estão montando estacionamentos tradicionais ao longo de lotes onde existem árvores e vegetação. As árvores altas não apenas contribuem para o resfriamento evaporativo, mas também fornecem sombra muito necessária.

Resultado de imagem para aspersão do telhado
Aspersão do telhado com água reutilizada oferece uma solução ecológica e prática para o resfriamento do edifício

A melhor maneira de minimizar as ilhas de calor nas cidades é por meio do planejamento urbano adequado, de modo a promover a fiscalização da emissão de poluentes na atmosfera, o plantio de árvores e a preservação das áreas verdes existentes.

 

Referências

  1. NOAA (em inglês)
  2. Synneffa
  3. EPA (em inglês)
  4. Asimakopoulos

Para saber mais:

ILHA DE CALOR URBANA, METODOLOGIA PARA MENSURAÇÃO:
Belo Horizonte, uma análise exploratória

O Campo de Força Terrestre – Como nosso campo eletromagnético nos protege e pode um dia destruir a nossa sociedade

 

A Terra é o quinto maior planeta do sistema solar e o mais denso de todos. Com um manto formado sobretudo de ferro derretido, a constante movimentação e atrito do magma em seu interior gera correntes elétricas que, consequentemente, criam campos magnéticos, que, por conseguinte, geram correntes elétricas e assim sucessivamente. Essa característica de nosso planeta possibilitou a formação de campos eletromagnéticos,  que atuam como um grande imã por toda a superfície.

Resultado de imagem para campo eletromagnético terrestre
Representação do Campo Eletromagnético Terrestre e de suas influências – Por Tila Barrionuevo

Os chamados Polos Magnéticos são duas regiões específicas de nossa crosta onde esse campo eletromagnético se torna mais forte. Localizados próximo aos Polos Geográficos da Terra, esses pontos direcionam as faces opostas de imãs do mundo todo, ou seja, a face norte de um imã sempre apontará para o sul geográfico e vice-versa. Dessa forma, o Polo Norte Magnético encontra-se no Polo Sul Geográfico (na Antártida), enquanto o Polo Sul Magnético, que direciona a face norte das bússolas convencionais, está localizado no Polo Norte Geográfico, em uma área próxima à Groenlândia.

Resultado de imagem para campo eletromagnético terrestre

Desde 206 AC, com a invenção da bússola, utilizamos os campos eletromagnéticos terrestres para nossa orientação espacial, tomando como referência o polo norte geográfico. Entretanto, embora essa técnica milenar pareça infalível, os polos terrestres não são imutáveis, deslocando-se lentamente em direções variadas com o passar do tempo. Embora pequenas mudanças nos campos magnéticos terrestres sejam comuns, uma inversão completa dos polos magnéticos terrestres ocorre mais ou menos a cada 200 mil anos, o que pode causar grandes impactos em todo o planeta. No passado, esse processo já ocorreu em um período de milhares de anos e, até mesmo, em poucos dias, o que torna seus efeitos nos dias de hoje imprevisíveis.

Resultado de imagem para magnetic field reversal
A Inversão dos Polos Magnéticos iria colocar os polos geográficos e magnéticos na mesma posição, fazendo com que as bússolas apontassem para o Sul

Resultado de imagem para Geomagnetic reversal
Representação de épocas de reversão dos polos magnéticos terrestres desde o Jurássico

O campo magnético terrestre atua como um campo de força, protegendo a crosta de ventos solares, ou seja, emissões de partículas altamente energéticas pelo sol com alto poder mutagênico. Uma inversão repentina dos polos magnéticos poderia, durante poucas horas, enfraquecer essa proteção, expondo nosso planeta a tempestades solares. Caso isso ocorra, um pulso eletromagnético vindo dessa estrela poderia danificar todos os equipamentos eletrônicos da Terra, parando carros, derrubando aviões, desligando computadores, sistemas de distribuição de água e toda a rede elétrica mundial, provocando o fim da sociedade como conhecemos.

Imagem relacionada

Outro impacto significativo da inversão de polos seria em nossa fauna. Milhares de espécies, incluindo lagostas, salmões, nematódeos, aves, tubarões e tartarugas, se orientam através do campo magnético terrestre, utilizando um sentido conhecido como magnetocepção. Uma mudança eletromagnética brusca iria desorientar esses animais significativamente, alterando padrões de migração e causando enormes revoadas de pombos nas cidades e no campo.

Imagem relacionada
Cena do filme The Core demonstrando a ação do campo eletromagnético nas aves

Por fim, um efeito que seria percebido em diversas áreas do mundo seria a alteração nos padrões de auroras boreais e austrais. Esses fenômenos são formados pela interação de partículas solares com o campo eletromagnético terrestre, o que seria exacerbado caso esses campos fossem enfraquecidos. Durante a inversão, essas luzes poderiam ser observadas inclusive em regiões tropicais do mundo, criando verdadeiros espetáculos de luzes e de cores.

Resultado de imagem para northern lights

Atualmente, os polos magnéticos terrestres estão se movendo cerca de 60 quilômetros por ano e o campo eletromagnético de nosso planeta está aproximadamente 10% mais fraco do que quando foram realizadas as primeiras medições, o que pode indicar a aproximação dessa inversão. Sendo assim, devemos nos preocupar? A resposta é não. Embora os efeitos desse fenômeno sejam imprevisíveis, ele provavelmente demorará milhares de anos para ser completado, o que não enfraqueceria o campo de força terrestre a ponto de destruir as nossas tecnologias.

Portanto, enquanto a inversão dos polos não acontece, confie na sua bússola e agradeça a existência dessa proteção gerada pelo interior de nosso planeta, que permitiu a formação da vida que conhecemos e a manutenção de toda a nossa tecnologia.

 

Referências

 

http://www.saense.com.br/2016/03/a-importancia-do-campo-magnetico-terrestre-para-o-surgimento-da-vida-na-terra/

https://news.nationalgeographic.com/2018/01/earth-magnetic-field-flip-north-south-poles-science/

https://www.livescience.com/61958-africa-blob-earth-magnetic-flip.html

 

10 atitudes que você deve evitar para ajudá-lo a ser mais SUSTENTÁVEL

Esta lista contém atitudes diárias que podem ser modificadas para contribuir com a preservação da natureza. Elas dizem respeito a hábitos de compras, hábitos alimentares e até mesmo à utilização de materiais que podem ser ruins para o meio ambiente e você ainda não sabe.

1 – Enviar materiais biodegradáveis para os Aterros Sanitários:

Aterro_Sanitario

Esta opção não é tão ruim para o meio ambiente como as outras, porém é uma oportunidade desperdiçada. Muitos resíduos orgânicos que jogamos fora poderiam servir para compostagem, incluindo frutas, hortaliças, casca de ovo, borra de café, alguns tipos de sachês de chá e até mesmo guardanapos e papeis toalha. A compostagem feita em casa é bem mais fácil do que muitas pessoas acreditam. Ela deve ser realizada em um local apropriado, com terra, e após colocar o resíduo orgânico ele deve ser coberto com matéria seca. Você ficaria impressionado com a quantidade de lixo que seria reduzida através da compostagem de matéria orgânica. Além disso, você vai adorar a qualidade do composto orgânico para o solo que vai ser produzido em sua composteira.

2 – Comer soja

SOJA

Comer soja pode não ter o grande e massivo impacto causado pela carne, porém consumir produtos à base desse grão também pode ser ambientalmente ruim. Muitos dos produtos de soja, que são consumidos na cadeia produtiva, são geneticamente modificados, o que já seria uma questão controversa por si só. Muitas vezes, o mercado da soja não é apropriadamente licenciado e, em muitos lugares do mundo, utiliza pesticidas não regulamentados . Além disso, muitas áreas são desmatadas para o plantio dessa commodity. Como uma alternativa, tente utilizar soja não geneticamente modificada, orgânica, ou até mesmo outros grãos ricos em proteínas.

3 – Utilizar sabonetes e shampoos com sulfatos

7470424_ml1

Um agente formador de espuma e muito barato, denominado Lauriléter Sulfato de Sódio (SLES / LSS), é um detergente e surfactante que faz parte de muitos produtos de higiene pessoal. Esse composto pode fazer você se sentir mais limpo e hidratado, porém o que beneficia o seu corpo pode não fazer bem à Mãe Natureza. O LSS não é biodegradável e pode permanecer no meio ambiente por um longo período de tempo. Ele também pode estar contaminado com o 1,4-dioxano, que é uma sustância já caracterizada pela Agência de Proteção Ambiental (EPA, na sigla em inglês) como provável agente cancerígeno. Então, comprador, evite utilizar sabonetes e shampoos com sulfato, não somente pelo meio ambiente, como também para a sua saúde.

4 – Esfoliar seu rosto com microesferas.

plastic-beads

Usualmente utilizados para renovar a pele do rosto, as microesferas esfoliantes são terríveis para o meio ambiente. Essas pequeninas e arredondadas esferas de plástico são encontradas em muitos produtos de beleza para esfoliação, em pastas de dente, entre outros. Porém, esses pedaços minúsculos de plástico passam até mesmo através de filtros e vão parar em rios e lagos, até chegarem aos oceanos. Ao chegarem nessas águas, esse material é consumido por peixes, que poderão voltar à nossa casa em forma de alimento. Hoje a venda desse produto já é proibida em países como os Estados Unidos, porém, no Brasil, até o momento, somente o estado do Rio de Janeiro proibiu a produção, fabricação, distribuição, comercialização, venda, estocagem e armazenagem desse material, por meio da Lei 8.90/2018, publicada no Diário Oficial do dia 31/08/2018.

5 – Jogar fora os cartuchos de impressora e baterias

maxresdefault

Os biodegradáveis não são os únicos materiais que vão parar em aterros sanitários. As pilhas e baterias, que contêm uma pequena quantidade de ácido de mercúrio, chumbo, níquel, lítio e/ou cádmio, também são descartadas nesses locais. Quando uma pilha ou bateria é jogada fora ao invés de ser reciclada, estas substâncias químicas vão vagarosamente desintegrar as suas cápsulas e vazar para o meio ambiente, levando à contaminação do solo, água, peixes e pássaros. Da mesma forma, a tinta de impressoras contamina o solo e pode causar problemas a longo prazo. Sem contar o fato de que, para se fabricar apenas um cartucho de tinta, são utilizados mais de 70 ml de óleo. Portanto, imprima menos e recicle mais.

6 – Negligenciar o uso de embalagens plásticas

A worker sorts plastic bottles at a recycling centre in Hefei

Os materiais que utilizamos para embalar nossos alimentos têm um enorme impacto no meio ambiente. Pense nos alimentos que você consome todos os dias: algum deles é embalado em plástico descartável? Até mesmo os vegetais têm sido embalados em plástico. Esse assunto já foi tema nesse texto. Muitas dessas embalagens plásticas vão parar em aterros e até mesmo no oceano. Para diminuir esse impacto e começar uma mudança de fato é necessário que diminuamos o consumo de industrializados e que passemos a levar as nossas próprias sacolas, de pano ou retornáveis, para o supermercado.

7 – Comer carne em excesso

2015_831366972-2015070865691.jpg_20150708

Como muitos já sabem, a industria da carne é bem cruel com o meio ambiente. Além dos gases de efeito estufa, emitidos diariamente em decorrência da indústria pecuária, grandes áreas são desmatadas todos os dias no Brasil e no mundo para a criação de animais ou para as plantações destinadas à alimentação dessa cadeia produtiva. Não bastasse isso, para suprir toda a linha de produção, desde o crescimento do animal até a sua chegada à mesa do consumidor, uma quantidade alarmante de água é utilizada. Para a comercialização de um quilograma de carne bovina são necessários pelo menos 13.000 litros de água. A superprodução de carne tem levado à depreciação da qualidade dos solos e ao aumento da poluição climática e do gasto exacerbado de água. Até que seja possível a criação de carne em larga escala nos laboratórios, para diminuir esse impacto devemos reduzir o consumo de carne. Para saber mais sobre esse assunto, clique aqui.

8 – Consumir Óleo de Palma

orangutan_hero

O óleo de palma está presente em muitos produtos que compramos e consumimos diariamente, como itens de beleza e alimentação. Apesar de ser muito bom e útil, a quantidade de recursos para produzir esse insumo é muito limitada, sendo impossível acompanhar o crescimento massivo da demanda. Isso tem levado a práticas insustentáveis de crescimento da planta e muitas áreas estão sendo desmatadas para a sua produção, o que tem gerado riscos de extinção para várias espécies, como os orangotangos. Esse tema também já foi abordado anteriormente. Para ler, basta clicar aqui.

9 – Ferver água

img_o_que_fazer_se_me_queimar_com_agua_fervendo_12985_orig

Muitos de nós adora tomar um café ou um chá quentinho, mas muitas vezes não pensamos no impacto que esse ato e muitos outros podem causar. Na verdade, essa atitude vai muito além de uma água quente.  Para se ferver uma pequena quantidade de água, uma enorme quantidade de energia é utilizada. Essa energia poderia iluminar uma casa inteira. Se estamos fervendo uma quantidade maior do que necessitamos ou se não prestamos atenção depois que a água já atingiu a temperatura que desejamos, estamos jogando fora uma enorme quantidade de energia a troco de nada. Isso não é válido somente para o ato de se ferver uma água, mas para desperdícios de energia de um modo geral.

10 – Comprar calça jeans

pexels-photo-296881

Roupas jeans são a escolha de muitas pessoas na hora de se vestirem, devido ao seu conforto e praticidade. Você já parou para pensar a quantidade de recursos utilizados para a fabricação de cada calça jeans? De acordo com a marca Levis, mais de 3700 litros de água são utilizados na vida útil de apenas uma peça de jeans. Algumas pessoas estimam até mais de 6000 litros de água somente no algodão de uma única calça. Se seu produto não for suficientemente durável, você estará gastando uma quantidade enorme de água virtual em algo que será rapidamente descartado. Isso é válido para todo produto de consumo. Sendo assim, otimize suas compras priorizando a qualidade ao invés da quantidade.

 

Essas são apenas algumas atitudes que podemos tomar no nosso dia a dia. Portanto, usufrua daquilo que você gosta e que lhe faz bem, porém tendo consciência e escolhendo melhor o que consumir, com vistas à uma vida mais leve e sustentável.

 

Planeta de Fogo: Como os vulcões podem ameaçar nossa existência

Os vulcões são estruturas geológicas que consistem em uma abertura da crosta terrestre que permite o escapamento de gases e magma (rochas derretidas no interior do manto terrestre) para a superfície (tornando-se, assim, lava), nos limites de placas tectônicas. Embora existam mais de 1500 vulcões ativos ao redor do mundo e pelo menos um entre em erupção por semana, poucos possuem o poder de gerar grandes estragos. Entretanto, os vulcões no passado alteraram o clima, geraram tempestades elétricas que duraram meses, criaram anos de frio intenso e, ainda, quase extinguiram completamente a vida no planeta. Mas, afinal, quais são seus verdadeiros riscos?

Resultado de imagem para hawaii volcano
Fluxo de lava no Havaí após erupções de 2018 – Fonte: abc.net.au

Em 26 de agosto de 1883, um evento geológico iniciou-se de forma repentina em um pequeno arquipélago entre as ilhas de Java e Sumatra, na Indonésia. Uma erupção vulcânica colossal, com uma energia equivalente a 200 megatons (cerca de 6200 vezes mais forte do que a energia das bombas de Hiroshima e Nagasaki combinadas) destruiu mais de 70% da ilha e do arquipélago a seu redor, lançando cinzas a mais de 80 quilômetros de altura e enviando uma onde de choque que circulou o planeta quatro vezes. Além disso, criou também o barulho mais alto já registrado na história, rompendo o tímpano de pessoas em um raio de 60 quilômetros, que pôde ser ouvido claramente a mais de 5 mil quilômetros de distância.

Imagem relacionada
Desenho do vulcão de Krakatoa antes de sua erupção em 1883 – Kean Collection

Resultado de imagem para krakatoa volcano 1883
Representação do vulcão durante sua erupção de 1883, que eliminou cerca de 70% da área original da ilha – London, Trubner & Co., 1888

Resultado de imagem para krakatoa map before and after
Mapa da região mostra a área da ilha perdida após a erupção (área pontilhada)

Esse desastre matou diretamente 36 mil pessoas, cujos corpos foram encontrados em diversas regiões do Oceano Índico, incluindo a África do Sul, em decorrência de tsunamis de mais de 40 metros de altura. No ano seguinte após a tragédia, a temperatura global caiu em mais de 1.2 °C, o que modificou as correntes marinhas e o regime de chuva por vários anos. Esse fenômeno, conhecido como inverno vulcânico, é gerado quando uma enorme quantidade de cinzas e partículas de ácido sulfúrico e água reduz a chegada de luz ao solo, o que pode gerar secas, nevascas e ondas de frio por diversos anos.

Imagem relacionada
A enorme quantidade de cinzas liberadas durante uma erupção pode reduzir a taxa de radiação que chega ao solo, resfriando o planeta

A enorme quantidade de cinzas na atmosfera de todo o mundo fez com que os dias se tornassem mais escuros e que, durante o por do sol, o céu adquirisse diversas tonalidades de vermelho vivo e roxo. O fenômeno durou vários anos e foi tão evidente, que diversos historiadores o apontam como a inspiração do quadro O Grito (Skrik), pintado em 1893 por Edvard Munch.

Cores do quadro “O Grito”, de Edvard Munch, podem ter sido inspiradas nos eventos visuais ocorridos em todo mundo após a erupção do Krakatoa.

Embora uma erupção vulcânica possa ter efeitos devastadores, ela é apenas uma fração do verdadeiro poder do manto de nosso planeta. Quando um depósito de magma fica retido próximo à superfície, ele progressivamente irá crescer e acumular gases, criando uma elevação nas camadas de solo acima em uma taxa de até 1,9 metros por ano. Em determinado momento, a pressão torna-se tão grande que uma enorme erupção é gerada, enviando pelo menos 1000 quilômetros cúbicos de tefra (fragmentos de rocha sólida e de cinzas) para a atmosfera, cerca de 100 vezes mais que o expelido pelo Krakatoa. Após sua explosão, ele irá desmoronar e formará uma caldeira, que geralmente será preenchida por água.

Imagem relacionada
Magma acumula-se abaixo da superfície e, ao longo de milhares de anos, pode gerar pressão suficiente para uma explosão de grande porte 

Atualmente, o mundo conta com 20 supervulcões ativos, sendo o mais famoso o localizado no Parque Nacional de Yellowstone, no estado de Wyoming, nos Estados Unidos. Sua caldeira foi criada após uma explosão catastrófica, cerca de 2,1 milhões de anos atrás, mas sua câmara de magma é muito mais antiga, com cerca de 18 milhões de anos. No passado, essa câmara resultou em erupções que cobriram partes da América do Norte em mais de dois quilômetros de cinzas, sendo o supervulcão mais potencialmente perigoso das Américas.

Resultado de imagem para supervolcano
Localização dos supervulcões ativos pelo mundo – Por Maphobbyist

Resultado de imagem para ashfall fossil beds
Representação da enorme quantidade de cinzas vulcânicas expelidas pela caldeira do Yellowstone e dos efeitos da chuva ácida resultante , durante o período Mioceno – Arte por Adrienne Stroup

Imagem relacionada
Centenas de fósseis encontrados na região indicam que mais de dois quilômetros de cinzas cobriram pradarias no centro da América do Norte

Imagem relacionada
As fontes termais coloridas do Parque Nacional de Yellowstone são um lembrete da caldeira de magma subterrânea do local 

Uma erupção do supervulcão de Yellowstone poderia destruir diretamente parte dos Estados Unidos, além de gerar tempestades elétricas que se estenderiam por centenas de quilômetros. A enorme quantidade de ácido sulfúrico lançada na atmosfera geraria intensas chuvas ácidas, que aumentaria a acidez de partes dos oceanos Pacífico e Atlântico e prejudicaria o regime de chuvas no mundo todo. Somado a isso, o frio intenso, juntamente com a chuva ácida, poderiam gerar ondas de fome, o que prejudicaria nossa sociedade por dezenas de anos. Felizmente, estima-se que a probabilidade do supervulcão de Yellowstone explodir nos próximos anos seja de uma em 730.000, mas o mesmo não pode ser dito de outros locais do mundo.

Resultado de imagem para yellowstone supervolcano map
Toda área destacada no mapa representa a região que seria atingida por uma grande quantidade de cinzas, que cobriria completamente a região em vermelho  

Atualmente, o supervulcão mais perigoso do planeta está localizado na região de Campi Flegrei, na Itália. Essa área possui um total de 24 caldeiras, com a maioria delas estando debaixo do mar, que se conectam internamente, formando uma câmara de magma gigante. Acredita-se que a área, que se eleva cerca de 2 metros a cada 1,5 ano, está acumulando pressão há milhares de anos e atividades recentes, como o terremoto de 21 de agosto de 2017, podem indicar que sua erupção está mais próxima do que nunca.

Resultado de imagem para campi Flegrei
Mapa mostrando algumas das caldeiras que compõe a região de Campi Flegrei, na Itália

Para mensurarmos o poder dos vulcões, voltaremos no tempo cerca de 252 milhões de anos, no final do período Permiano. Uma enorme câmara de magma, em uma área que hoje corresponde à Sibéria, acumulou tanto calor que, em vez de explodir em uma grande erupção, fundiu toda a terra acima, criando rios de lava que jorraram por mais de 200 mil anos em uma área de 7 milhões de km², o equivalente ao tamanho do Brasil. A quantidade de gases liberada foi tão grande que ativou uma reação em cadeia, provocando a extinção de aproximadamente 96% das espécies terrestres.

Resultado de imagem para permian lava flow
Derramamentos de lava na Sibéria durante o Permiano cobriram uma área maior que o Brasil, resultando em mudanças no planeta que extinguiriam cerca de 96% da vida na Terra – Arte por José-Luis Olivares

Resultado de imagem para permian extinction paleoart
Arte por Julio Lacerda

Os vulcões são a maior força moduladora de nosso planeta e, ao longo da história, foram responsáveis por diversos eventos que, inclusive, possibilitaram o surgimento da vida (que trataremos posteriormente em um texto). Eles nos mostram a força e o poder da natureza, além de seus perigos, e nos ensinam o quão pequenos somos perante o nosso planeta. Eles são a maior e a mais ameaçadora lembrança do passado do nosso planeta e, provavelmente, continuarão a ser um enorme desafio para a vida no futuro.

Resultado de imagem para jurassic world volcano
Vulcão da fictícia Isla Nublar, da franquia Jurassic World

Referências

Vídeos

 

Artigos

“The 1883 eruption of Krakatau” – Por SELF, Stephen et al.

“Volcanic eruptions and climate”- Por Robock, Alan

Textos

https://www.economist.com/briefing/2015/04/11/after-tambora

https://www.scientificamerican.com/article/what-causes-a-volcano-to-erupt-and-how-do-scientists-predict-eruptions/

https://www.aps.org/publications/apsnews/200405/backpage.cfm

https://www.earthmagazine.org/article/benchmarks-june-1977-first-excavations-nebraskas-ashfall-fossil-beds

 

Até onde a humanidade pode ir?

A humanidade sempre está inovando e descobrindo novas tecnologias a cada dia. Porém, para tudo há um limite estabelecido e chegará um momento em que não poderemos ultrapassar esse limite, não importando o quanto estejamos dispostos a tentar.

Nós vivemos em um braço silencioso da Via Láctea, uma galáxia em espiral de um tamanho mediano, e com mais de 100.000 anos luz de diâmetro. Ela é formada por bilhões de estrelas, nuvens gasosas, matéria escura, buracos negros, estrelas de nêutrons e planetas, além de um enorme e massivo buraco negro no centro. De longe nossa galáxia parece bem densa, mas, na realidade, ela consiste, em sua maioria, em espaços vazios. Com nossa atual tecnologia, enviar um ser humano para a estrela mais próxima levaria centenas de anos, o que nos demonstra o quão vasta é nossa galáxia.

Como muitos já sabem, não estamos sozinhos no universo. Pertencemos a um grupo composto também pela galáxia Andrômeda e mais de 50 galáxias anãs, chamado de “Grupo Local”, que consiste em uma região do espaço e que possui mais de 10 milhões de anos luz em diâmetro. O Grupo Local é um dos milhares de grupos de galáxias pertencentes ao “Super aglomerado de Virgem”, que atualmente foi renomeado para “Superaglomerado Laniakea”.

Captura de Tela 2018-09-19 às 19.24.02.png

O Superaglomerado Laniakea, por sua vez, é apenas um dos milhões de superaglomerados que compõem o universo observável.

Suponhamos, por apenas um instante, que tenhamos um futuro glorioso e que a humanidade tenha se tornado uma civilização do tipo 3, que não seja aniquilada por alienígenas e consiga desenvolver as habilidades de realizar viagens interestelares baseadas no nosso atual entendimento de física. No melhor dos cenários, até qual distância conseguiríamos ir? Sinto dizer, mas conseguiríamos viajar apenas dentro do nosso Grupo Local.

Mesmo possuindo grande magnitude, o grupo local pertence a apenas 0,00000000001% do universo observável. Só de imaginar o quão ínfimo e limitado é a nossa ciência já é motivo para questionar o motivo de não podermos ir além. Tudo isso refere-se à “Natureza do Nada”. O nada, ou o lugar nenhum, como queira chamar, não é vazio, pois possui uma energia interna chamada pelos físicos de “flutuação quântica”. Em uma pequena escala  há uma ação constante de partículas e anti-partículas aparecendo e se anulando. É possível e mais fácil imaginar esse espaço vazio contendo regiões mais densas e menos densas.

ActionAPE5LQanimXs30small
Flutuação Quântica

Há 13,8 bilhões de anos atrás, o Universo que conhecemos hoje consistia no “nada”. Logo depois do Big Bang, em um evento chamado de inflação cósmica, o universo observável expandiu de um tamanho de uma bolinha de gude para trilhões de quilômetros, em frações de segundos. Essa expansão do espaço foi tão rápida e extrema que todas as flutuações quânticas também se ampliaram e as distâncias subatômicas se tornaram distâncias galácticas com regiões mais e menos densas.

Depois da expansão, a gravidade começou a puxar toda matéria para perto novamente e, com o passar do tempo, as regiões mais densas, ou bolsões do universo, cresceram como grupos de galáxias semelhantes à que vivemos atualmente. Apenas aquilo que pertence ao nosso Grupo Local é vinculado a nós gravitacionalmente.

howfastisthe.jpg
Site Phys.com

Então, qual seria o principal problema para viajarmos do nosso Grupo Local para outro bolsão? A matéria escura torna tudo bem mais complicado. Aproximadamente 6 bilhões de anos atrás, a matéria escura tomou conta do Universo. Ela é basicamente uma força ou efeito invisível que gera e aumenta a velocidade da expansão do Universo. Dessa forma, com o passar do tempo, estamos ficando mais e mais distantes dos outros grupos já que não estamos ligados a eles gravitacionalmente. Portanto, quanto mais o universo se expande, maior será a distância a ser percorrida entre grupos e a matéria escura empurrará o resto do universo para mais e mais longe de onde estamos.

Hoje, o grupo de galáxias mais próximo se encontra a uma distância de milhões de anos luz de nós e está se movendo para uma distância ainda mais longe a uma velocidade que nunca conseguiríamos alcançar. Seria até possível sairmos do nosso grupo local, porém sem nunca chegar a lugar nenhum.

dims.jpeg

Enquanto nosso grupo se torna cada vez mais isolado, dentro do grupo nos tornamos cada vez mais próximos devido ao efeito gravitacional, de forma que um dia nos tornaremos, juntos, uma enorme e elíptica galáxia com o nome não convencional de “Milkdromeda”.

Chegará o momento em que não conseguiremos informações de nenhum outro grupo e tudo que restará será um grande e enorme vazio escuro sem a menor interação com outros bolsões. Aqueles que nascerem nessa nova galáxia nunca saberão da existência dos outros grupos e como são as radiações cósmicas, não entenderão como foi formado o Big Bang e pensarão que o universo é estático e eterno.

shutterstock_140731432_sized.0.jpg

Por enquanto ainda tentamos desvendar uma maneira de ultrapassar nosso sistema solar, mas ainda temos bilhões de anos para explorar a nossa galáxia. Somos muito sortudos em poder desfrutar, não somente o planeta em que vivemos e o nosso futuro, como também olhar para o céu e enxergar um passado distante que um dia não teremos mais.

 

 

 

 

REFERÊNCIAS

Blog “Starts with a Bang”.

Site Phys.com

Canal do Youtube “Kurzgesagt – in a nutshell”

 

 

Breve Histórico do Pensamento Evolutivo

Desde que nascemos, queremos compreender o mundo à nossa volta, suas origens e seu futuro, e alguns de nós continuamos em busca desse entendimento, mesmo quando crescemos – o caso, por exemplo, de filósofos e cientistas ao longo dos milênios. Um fenômeno que causa bastante espanto é a vida: de onde surgiram os seres vivos? Como surgiu essa diversidade incrível de formas e tamanhos corporais, de organismos “simples” como bactérias até organismos muito complexos e enormes, como sequoias e coelhos?

Imagem relacionada
                  Sequoiadendron giganteum, um dos maiores organismos viventes do planeta                                  Fotógrafo desconhecido

Diversos pensadores buscaram solucionar essa questão. Aristóteles, por exemplo, sustentava que o mundo era eterno, isto é, sempre existiu e sempre existirá. Para isso, as formas deveriam ser imutáveis e, consequentemente, os seres vivos não poderiam mudar ao longo do tempo e teriam existido desde sempre. Outras maneiras de explicar a vida eram as mitologias e seus respectivos criacionismos: criacionismo cristão, criacionismo greco-romano, criacionismo hindu, entre outros. Nenhuma dessas hipóteses tinha um embasamento sólido que resistisse a algumas observações contrárias, e por isso acabaram por ser abandonadas na busca dessa resposta.

Resultado de imagem para a criação de adão
A Criação de Adão (Creazione di Adamo), pintada por Michelangelo entre 1508 e 1512

De qualquer forma, a visão mais aceita à época sobre a origem dos seres vivos era fixista e criacionista: Deus criou os seres vivos e, desde então, eles são os mesmos, fixos e estáveis. Apesar disso, havia quem questionasse essas ideias. Diderot e outros enciclopedistas, por exemplo, eram contrários ao fixismo, afirmando que as linhagens de seres vivos acumulavam variações ao longo do tempo. Erasmus Darwin, o avô de Darwin, também acreditava que havia mudanças nos seres vivos. Apesar disso, nenhum deles nunca apresentou nenhuma hipótese sobre os processos que levavam a essas mudanças.

As ideias fixistas pregavam que Deus criou os seres vivos e desde então eles permaneceram imutáveis – Quadro “Adam and Eve in the Garden of Eden” pintado no século XIX por Wenzel Peter

Uma figura importante que defendia o fixismo era Georges Cuvier. Naturalista francês, ele trabalhava no Museu de História Natural de Paris, estudando vertebrados, e defendia uma hipótese chamada catastrofismo: de tempos em tempos, ocorria um evento de extinção em massa, do qual sobreviviam poucos ou nenhum ser vivo. Essas extinções seriam seguidas de um surgimento repentino de novas formas de vida, que se manteriam estáveis e inalteradas até o próximo evento de catástrofe. Isso explicaria diferenças entre a fauna do passado e a fauna atual. Ironicamente, Cuvier é um dos fundadores da Anatomia Comparada, disciplina que hoje em dia é usada como evidência e ao mesmo tempo ferramenta de estudo da evolução darwinista.

Resultado de imagem para george cuvier
Georges Cuvier (1769 – 1832)

Resultado de imagem para cuvier drawings
Desenho de crânio de um Mosassauro feito por Georges Cuvier – Esse cientista era adepto ao catastrofismo, que pregava que, de tempos em tempos, uma grande catástrofe extinguia toda a vida na Terra, que seria posteriormente substituída

Outro personagem importante nessa história é Jean-Baptiste Lamarck. Ele foi o primeiro a, ao mesmo tempo, afirmar que as espécies mudavam ao longo do tempo e sugerir um mecanismo que levasse a essas mudanças. Evidência disso era a existência de seres fósseis que não existem mais, como por exemplo alguns moluscos – grupo com o qual ele trabalhava. Para Lamarck, dois princípios norteavam as mudanças das espécies ao longo do tempo: uma tendência natural pelo aperfeiçoamento das espécies e a famosa “Lei do Uso e Desuso”. A primeira agiria sempre aumentando o grau de complexidade e perfeição dos organismos, sendo assim responsável por mudanças em planos corpóreos. A segunda é uma mudança mais sutil de pais para filhos e leva à mudanças menos gritantes; essa era guiada por interações entre os organismos e seu nicho, e Lamarck defendia que caracteres adquiridos pelos pais são transmitidos para a prole.

Jean-Baptiste de Lamarck (1744 -1829), o criador das primeiras teorias da evolução

Resultado de imagem para lamarck
Um exemplo comumente associado às ideias lamarckistas é o do pescoço das girafas: Segundo sua teoria, os animais iriam adaptar-se de acordo com o ambiente, modificando seu corpo ao longo de gerações em resposta à mudanças do meio

Duas críticas fortes podem ser feitas ao pensamento de Lamarck. Uma delas é contra a sua ideia de geração espontânea de seres: para explicar a existência de seres simples em uma hipótese em que os seres vivos sempre estão aumentando de complexidade, era necessário que esses seres surgissem constantemente. A outra é a aparente teleologia  do sistema Lamarckiano. Em outras palavras, a evolução, como proposta por Lamarck, tem um objetivo final pré-determinado (teleologia), ou seja, a perfeição dos seres vivos. Existem diversas correntes filosóficas e científicas que são a favor e contrárias à teleologia – inclusive à do próprio Darwin, mas o foco do presente texto não é esse debate.

Resultado de imagem para evolução
A teleologia, somada ao humanismo europeu do século XIX, criaram a ideia de que o ser humano é um organismo quase perfeito, sendo mais evoluído que seus antepassados extintos e que os outros organismos contemporâneos.

Mais uma figura que chegou para quebrar com o que se pensava até então foi Charles Darwin. Uma de suas influências era Malthus, economista que dizia que as populações humanas crescem numa taxa cada vez maior, enquanto que a capacidade de produção de alimentos aumenta linearmente, e que, por isso, há um limite de seres humanos que uma economia pode sustentar. De Malthus, Darwin tirou o conceito de “luta pela sobrevivência”: um ambiente pode apenas suportar uma quantidade determinada de indivíduos em um nicho (por exemplo, um número X de grandes herbívoros), e, por isso, esses indivíduos devem competir por acesso a esses nichos – entre espécies e dentro de uma mesma espécie. Os vencedores dessa competição conseguem gerar prole, processo chamado de “reprodução diferencial”.

Resultado de imagem para charles darwin
Fotografia de Charles Darwin (1809 – 1882)

Também influenciou o pensamento de Darwin o geólogo Charles Lyell, da teoria uniformitarista. De acordo com ele, os processos geológicos que vemos hoje em dia (erosão pelo vento, pelo movimento de água, etc.) seriam responsáveis pelos fenômenos que observamos em rochas e formações geológicas atuais. Isso se traduz na teoria da evolução através do conceito de reprodução diferencial aplicado ao longo de inúmeras gerações de seres vivos: mudanças hereditárias se acumulam de pai para filho e de filho para neto, de tal maneira que, após várias décadas ou séculos, é possível notar diferenças gritantes entre os membros de uma mesma linhagem.

Resultado de imagem para evolution of whales
Mudanças graduais em gerações de organismos, ao longo de milhões de anos, geram as mudanças morfológicas entre diferentes espécies – Evolução das baleias modernas

Tendo como base essas e outras influências, e sua viagem em torno do mundo com o navio HMS Beagle – em especial os trechos em que o navio parou em arquipélagos -, Darwin foi capaz de formular a teoria da seleção natural: o meio seleciona organismos que, por um motivo ou por outro, se apresentam mais hábeis à sobrevivência, e esses organismos passam para a sua prole as características que a garantiram. O principal, para a teoria de Darwin, não é em si a sobrevivência do indivíduo, mas sim sua capacidade de reproduzir (e gerar prole que consiga reproduzir também). Como algumas evidências de que a seleção natural existe, ele propôs aves e tartarugas de Galápagos, interações ecológicas altamente específicas, e a seleção artificial que o ser humano fez com outras espécies, por exemplo de plantas e animais domésticos.

Imagem relacionada
Os tentilhões de Galápagos foram essenciais para a descoberta da seleção natural por Charles Darwin, após sua visita à esse arquipélago em 1835 –  Imagem por NGS Art Department

A teoria da evolução de Darwin foi duramente criticada. Alguns críticos apontaram que, como havia sido proposta, a teoria não apresenta nenhuma explicação da maneira como as características são transmitidas entre gerações. E de fato, a ideia de Darwin não respondia a essa questão. Outro desconforto com as ideias dele vem do fato de que, nesse sistema, o ser humano era apenas mais um animal, como outro qualquer, e não tinha nenhum lugar especial. Como pessoas mais inteligentes já disseram, este foi um dos atentados contra o amor-próprio da humanidade.

Ficheiro:Editorial cartoon depicting Charles Darwin as an ape (1871).jpg
Charge de 1871 representando Charles Darwin e seu “parentesco com os macacos”

Imagem relacionada
Após o surgimento da teoria da Evolução de Charles Darwin, o ser humano deixou de ser visto como um organismo superior e passou a ser considerado apenas uma dentre milhões de outras espécies

Mais recentemente, novas descobertas vêm transformando a maneira como se vê a evolução. A primeira grande reviravolta na teoria evolutiva foi a Síntese moderna, que busca unir o que já se sabia sobre hereditariedade, desde o proposto por Gregor Mendel, até descobertas mais recentes no campo da genética, e o que se sabia sobre mecanismos de evolução. O nosso conhecimento sobre a maneira como ocorre a evolução por processos alheios à seleção natural também se expandiu significativamente. Hoje sabemos que existem outras forças que podem levar uma população a se modificar ao longo das gerações – como efeito fundador, efeito gargalo, dispersão e vicariância, deriva genética, etc. – mas isso são temas para outros textos.

Resultado de imagem para gregor mendel pea
Gregor Johann Mendel (1822 – 1884), conhecido como o pai da teoria da hereditariedade

Hoje em dia, alguns conceitos antigos também têm voltado a entrar em interesse de estudos. É o caso, por exemplo, de alguns caracteres adquiridos durante o desenvolvimento de alguns animais, que podem ser transmitidos à prole. Também foram criadas novas maneiras de se interpretar a evolução – Richard Dawkins expõe uma delas brilhantemente em seu livro O Gene Egoísta. Além do mais, o sistema de classificação dos seres vivos hoje usado na ciência (chamado sistema filogenético) busca inserir dados evolutivos nas classificações.

Resultado de imagem para evolution tree
Cladograma dos principais grupos de organismos viventes

Em suma, o pensamento evolutivo nunca parou de se renovar ao longo de toda a sua história e continua se transformando até os dias de hoje. Quais serão as próximas descobertas que revolucionarão nossa maneira de encarar a evolução dos seres vivos, apenas o futuro poderá dizer com certeza. Por enquanto, vale a pena procurar saber mais sobre o que já sabemos, bem como o que ainda não sabemos também.

__________________________________________________________________________________________

A imagem pode conter: Vítor Emídio de Mendonça, óculos, barba e close-up

Texto escrito por Vítor Emídio de Mendonça, graduando em Ciências Biológicas na Universidade Federal de Minas Gerais e IC pelo Laboratório de  Mastozoologia

O que perdemos no fogo – Uma análise da importância do Museu Nacional para a ciência do mundo

O Museu Nacional, fundado por Dom João VI em 1818 com o nome de Museu Real, foi a maior instituição científica e maior museu do país, e um dos maiores da América Latina, o que lhe conferiu fama mundial. Instalado no Palácio Imperial, que abrigou a família real portuguesa e a família imperial brasileira entre 1809 e 1889, o museu foi criado com o objetivo de impulsionar os conhecimentos científicos no país, incluindo, inicialmente, rochas e animais empalhados. Ao longo dos anos, itens culturais do mundo todo, minerais, meteoritos, fósseis, ossadas e plantas foram adquiridos para o museu, que passou a ser o mais influente da América do Sul na época.

Em 1946 o museu passou a fazer parte da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), que ficou responsável por sua manutenção até os dias de hoje. Em seu entorno, novos prédios e laboratórios foram erguidos, e passaram a compor o Horto Botânico, na Quinta da Boa Vista. Esses prédios serviram como base para inúmeras pesquisas realizadas no museu que, até o início de setembro, possuía mais de 20 milhões de peças em seu acervo. Nos últimos anos, entretanto, o descaso de políticas públicas com a cultura e a educação, somado a cortes de verbas, impediram a boa conservação do espaço e a manutenção periódica de suas dependências, o que ocasionou o acidente da última semana.

No dia 2 de setembro de 2018, um incêndio de grandes proporções queimou os três andares do Palácio Imperial, destruindo mais de 200 anos de coleta de materiais históricos e científicos. Estima-se que mais de 90% dos 20 milhões de itens pertencentes ao museu tenham sido incinerados, extinguindo anos de pesquisa, inúmeros materiais biológicos, uma parcela significativa da nossa história e de culturas inteiras. Afinal, o que perdemos no Museu Nacional?

Geologia

O depósito mineral do Museu foi, sem dúvidas, o menos afetado pelas chamas. Embora as elevadas temperaturas possam deteriorar concreções e aglomerados de minerais específicos, o fogo não é capaz de destruir todo o material. Entretanto, os inúmeros desabamentos no interior do edifício não só podem ter quebrado muitas dessas rochas, como também sua identificação no meio dos escombros é extremamente improvável. As maiores perdas nesse campo de estudo provavelmente foram as concreções carbonáticas em arenito fino do Cretáceo, oriundas da Antártida, diversas pedras preciosas e um frasco contendo petróleo do Poço de Lobato, a primeira reserva dessa substância encontrada no Brasil.

Resultado de imagem para Poço de Lobato frasco
Amostra de petróleo do Poço de Lobato

Imagem - Concreção carbonática da Antártica
Concreção carbonática da Antártida

Mesmo com as elevadas temperaturas do incêndio, parte dos meteoritos depositados no museu permaneceram praticamente intactos. Entretanto, peças menores poderão ser perdidas nos próximos dias com a remoção de escombros, devido à sua similaridade com pedaços de concreto.

Imagem - Bendegó
Meteorito Bendegó, maior meteorito brasileiro pesando 5 toneladas

Resultado de imagem para bendegó
O meteorito foi um dos poucos sobreviventes do incêndio

 

Paleontologia

A paleontologia no Brasil se consolidou significativamente nos últimos 200 anos, sobretudo devido às descobertas em Lagoa Santa, Uberaba e na Bacia do Araripe, no Ceará. Grande parte dos fósseis encontrados no território nacional eram armazenados no Museu Nacional, que continha mais de 56 mil exemplares. Além dos mais de 4000 exemplares de plantas fósseis catalogadas, o museu continha um enorme acervo de braquiópodes, bivalves, insetos, quelônios e uma das maiores coleções de pterossauros do mundo, com exemplares de espécies únicas como o Tropeognathus mesembrinusCearadactylus atrox, Anhanguera santanae e do Tupandactylus imperator.

Imagem relacionada
Esqueleto de Tupandactylus imperator em exposição no Museu Nacional

 

Resultado de imagem para Tupandactylus imperator
Reconstrução de Tupandactylus imperator por John Conway

Imagem - Fóssil de lagarto aquático
Fóssil de um Stereosternum de 280 milhões de anos perdido no Museu

A coleção de dinossauros presente no Museu era uma das mais diversas do país, contando com espécies exclusivas. Exemplares de Oxalaia quilombensisIrritator challengeriAngaturama limai e de uma possível nova espécie de Spinossaurídeo eram a prova da paleobiologia do Mesozoico em nosso país e auxiliavam a compreender a evolução desse grupo de animais semi-aquáticos do mundo todo.

Imagem relacionada
Representação de um Spinossaurídeo brasileiro – por Julio Lacerda

O primeiro grande dinossauro brasileiro a ser completamente montado também fazia parte do acervo do Museu. O Maxakalisaurus topai era um titanossauro do Cretáceo, de 13 metros de comprimento, cujos ossos foram encontrados no Triângulo Mineiro. Sua réplica se encontrava exposta no Museu, enquanto seus fósseis estavam guardados, mas ambos não resistiram ao incêndio.

Imagem - Titanossauro (réplica)
Maxakalisaurus topai, o maior grande dinossauro montado no brasil

Zoologia

A coleção zoológica do Museu era composta por mais de 5 milhões de insetos, sendo um dos maiores centros de pesquisa entomológica da América do Sul. Acredita-se que todo esse acervo tenha sido perdido, juntamente com inúmeros aracnídeos, crustáceos e moluscos. A coleção de vertebrados, por sua vez, ficava em outro prédio e não foi atingida, com exceção de mais de 80 espécies de aves e mamíferos empalhados e de um esqueleto de jubarte, que ficavam expostos no museu.

Imagem - Ordem Coleoptera (BESOUROS) [Parte 6]

Imagem - Ordem Orthoptera, subordem Ensifera (ESPERANÇAS E GRILOS)

Imagem - Besouros

Imagem - Duas belas borboletas
Parte dos 5 milhões de insetos destruídos no incêndio

Antropologia Biológica

Dentre diversas réplicas de crânios de hominídios, cabeças mumificadas, restos de tambaquis e objetos, o Museu contava com ossos de mais de 80 indivíduos do Paleolítico, com destaque para o crânio de Luzia, o ser humano mais antigo do Brasil. Encontrada no início dos anos 70, sua descoberta reescreveu a história dos humanos na América, uma vez que mostrou que diversas levas de migração chegaram à América, ao contrário do que se pensava anteriormente.

Resultado de imagem para luzia homo sapiens
Representação do rosto de Luzia ao lado de seu crânio

Imagem - Cabeça mumificada
Cabeça mumificada produzida pelo povo Jivaro

Dois dias depois do incêndio, um crânio, que poderia ser o de Luzia, foi encontrado em um cofre em meio aos escombros do Museu, mas ainda não houve confirmação do fato.

Arqueologia

O acervo do Museu contava com peças do Brasil pré-colombiano, como vasos, cestas e esculturas das culturas Marajoara, Maracá e Konduri, além de objetos de povos dos Andes e múmias andinas. Objetos doados ou comprados da África e do Mediterrâneo compunham salões do museu com vasos e estátuas da Grécia Antiga e de povos egípcios, incluindo sarcófagos, animais mumificados e uma das nove únicas múmias egípcias preparadas com linho colorido já encontradas no mundo.

Imagem - Tampa do caixão de Harsiese
Sarcófago egípcio

Imagem - Gato mumificado
Gato mumificado

Imagem - Escultura feminina sem cabeça
Estatua encontrada na Itália em 1853

Imagem - Múmia pré-histórica de indivíduo do sexo masculino
Múmia do Atacama

Imagem - Ponta de Projétil
Pontas de projéteis da pré-história brasileira

 

Etnologia

A sessão de Etologia do museu abrigava mais de 40 mil itens de culturas do mundo todo, sobretudo de povos indígenas e africanos. Máscaras de guerra, armas, marfins adornados, vestimentas, instrumentos musicais e até um trono de um rei africano foram perdidos no incêndio, juntamente com inúmeros objetos ritualísticos. Diversas peças presentes no museu eram de culturas extintas, que agora foram completamente apagadas de nossa história.

Imagem - Coifa de penas com manto
Coifa indígena de penas com manto

Imagem - Boneca
Boneca Karajá

Imagem - Baioneta
Baioneta africana do século XIX

Imagem - Zinkpo
Cópia do trono do  rei Kpengla feita no século XIX

Parte do acervo audiovisual foi mantido devido à sua digitalização prévia. Mesmo assim, inúmeras gravações de músicas e de línguas indígenas sem falantes vivos foram perdidas sem nenhum reparo possível.

Família Real

O Palácio Imperial teve sua estrutura pouco alterada desde a sua criação, preservando suas características arquitetônicas originais, que foram perdidas com o incêndio, com exceção da fachada original do edifício. O Museu possuía, também, peças originais utilizadas pela corte portuguesa no Brasil e pela família imperial.

Resultado de imagem para museu nacional fachada
Museu Nacional

 

Esse acontecimento só veio comprovar o descaso dos governos federal e estadual com a ciência, história e cultura do Brasil, uma vez que, anualmente, o museu custava aos cofres públicos menos do que se gasta com apenas um dos 18 mil juízes do país. Assim como o Museu Nacional, milhares de outros museus do país ainda dependem de verbas públicas que, muitas vezes, são mal direcionadas. O Museu do Amanhã, por exemplo, não realiza pesquisas e, mesmo assim, recebe anualmente 24 vezes mais do que o Museu Nacional necessitava para a sua manutenção.

Os museus são importantes para a preservação da memória científica e cultural de toda uma sociedade, a partir dos seus conceitos e características, bem como dos materiais coletados durante a sua trajetória. Eles não são apenas construídos pelo passado. Eles também representam o presente e o futuro de um país, por produzir conhecimento e gerar frutos que poderão ser colhidos pelas próximas gerações.

 

Nenhum texto alternativo automático disponível.
“Humanos, quando terminarem de destruir tudo – a sua e a nossa memória – não esqueçam de apagar as luzes e fechar bem a porta… Nós que aqui estamos por vós esperamos.”
Arte de Márcio Castro

 

 

Referências

Notícias

https://noticias.uol.com.br/ciencia/ultimas-noticias/redacao/2018/09/04/museu-do-amanha-recebe-24-vezes-mais-verba-publica-do-que-museu-

http://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2018-09/ufrj-e-governo-federal-divergem-sobre-verba-enviada-ao-museu-nacional

https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2018/09/03/museu-nacional-teve-90-de-seu-acervo-perdido-em-seis-horas-de-incendio.ghtml

https://noticias.uol.com.br/ciencia/ultimas-noticias/redacao/2018/09/03/luzia-e-ossos-de-dinossauro-estavam-em-cofres-e-podem-ter-resistido-ao-fogo.htm

https://noticias.uol.com.br/ciencia/ultimas-noticias/redacao/2018/09/03/luzia-e-ossos-de-dinossauro-estavam-em-cofres-e-podem-ter-resistido-ao-fogo.htm

https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2018/09/descentralizada-digitalizacao-salva-parte-de-acervo-indigena-do-museu-nacional.shtml

Artigos

MARTILL, D. M. et al (1996) A new crested maniraptoran dinosaur from the Santana Formation (Lower Cretaceous) of Brazil

AURELLIANO, T. et al (2018) SEMI-AQUATIC ADAPTATIONS IN A SPINOSAUR FROM THE LOWER CRETACEOUS OF BRAZIL

Vídeo

 

Imagens

http://www.museunacional.ufrj.br/index.html

5 cidades sustentáveis e o que podemos aprender com elas.

Cidades em todo o mundo estão vivendo em extremos e exibem desempenhos polarizados nos três pilares da sustentabilidade.  O Índice Arcadis de Sustentabilidade é baseado em três categorias: “Pessoas”, “Planeta” e “Lucro”. A categoria Pessoas inspeciona saúde, educação, igualdade de renda, equilíbrio entre trabalho e vida privada, crime e moradia e custo de vida – esses indicadores podem ser amplamente considerados como a chamada “qualidade de vida”. A segunda categoria, Planeta, inspeciona os “fatores ambientais” de uma cidade, como o uso de energia renovável, consumo de energia, espaços verdes dentro da cidade, emissões de gases de efeito estufa, água potável e muito mais. Já a categoria Lucro classifica as cidades de acordo com sua infraestrutura, turismo, PIB per capita, importância da cidade em redes econômicas globais e taxas de emprego.

Captura de Tela 2018-08-30 às 09.58.24
3 pilares da sustentabilidade: Pessoas – social / Planeta – meio ambiente / Lucro – econômico.

A Arcadis fez uma parceria com o Centro de Pesquisas Econômicas e Empresariais (Cebr) para explorar como as cidades estão indo nessas três áreas. O Cebr avaliou 100 das principais cidades do mundo, usando 32 indicadores diferentes, para desenvolver uma classificação indicativa da sustentabilidade de cada um. Uma cidade recebe uma pontuação em cada um dos três pilares da sustentabilidade e a pontuação geral da cidade é igual à média dos três subíndices.

O Índice Arcadis de Cidades Sustentáveis 2016 classificou 100 cidades globais em três dimensões ou pilares de sustentabilidade: Pessoas, Planeta e Lucro, representando sustentabilidade social, ambiental e econômica, para oferecer uma imagem indicativa da saúde e riqueza das cidades para o presente e o futuro.

Uma clara ligação entre desenvolvimento econômico e sustentabilidade ambiental é aparente. Portanto, as cidades nas economias avançadas estão em grande parte no topo, enquanto as economias emergentes e em desenvolvimento tendem a se agrupar em direção ao fundo.

A maior tensão inerente a uma economia sustentável, seja ela referente a uma cidade ou a um país, é a análise para descobrir se o bem-estar das gerações futuras é comprometido pelo estilo de vida das gerações atuais. Atualmente, todas as economias avançadas colocam em risco os padrões de vida futuros por meio de altas emissões de gases de efeito estufa, por não reciclarem suficientemente os recursos finitos que utilizam e por esgotar suas fontes de energia não renováveis. Alguns exibem os efeitos adversos dessas atividades melhor do que outros.

Como tal, o Índice de Cidades Sustentáveis ​​não é uma classificação típica de desenvolvimento. Algumas economias emergentes são inesperadamente altas em relação a um ranking de desenvolvimento “padrão”, enquanto algumas economias desenvolvidas caem em suas obrigações para o futuro. Podemos olhar para os três subíndices para ver em quais dimensões as cidades de sustentabilidade estão tendo bom desempenho e nas quais elas têm oportunidades para novos investimentos e melhorias.

1 – Zurique – Suíça

image.imageformat.carousel.1353565736
SusTec – empresa de tecnologia em Zurique

Zurique, a cidade número um do Índice de Cidades Sustentáveis, tem uma forte reputação como uma cidade contemporânea e habitável, conhecida por seu forte foco no ambientalismo, bem como em instituições financeiras de renome mundial. Apesar de liderar tanto o ranking geral, como o sub-índice do planeta, e ocupando o 5º lugar no lucro, Zurique aparece em 27º lugar no sub-índice de pessoas devido à acessibilidade, trabalho   e qualidade de vida, sendo as principais causas dessa disparidade.

A sociedade de 2.000 watts é a abordagem de Zurique para combater a mudança climática e a escassez de recursos: uma meta para as pessoas usarem 2000 watts de energia per capita (a quantidade global estabelecida como uso de energia “sustentável”).

Os compromissos incluem investimentos e foco em eficiência energética e em energias renováveis, construções sustentáveis, mobilidade para o futuro e um esforço para aumentar a conscientização pública, incluindo eventos como dias anuais do  meio ambiente.

O transporte público na cidade é considerado como um modelo altamente sustentável para outras cidades. Eléctricos, comboios, autocarros, metrôs e muito mais são altamente coordenados, tornando a mobilidade simples, rápida e acessível.

Como um centro econômico global, a cidade não só é capaz de atrair negócios, mas também pessoas, com uma boa qualidade de vida, oportunidades educacionais e de emprego atraentes, bem como um ranking de saúde líder no Índice. Várias empresas e indústrias inovadoras, pequenas e grandes, formam uma base importante da economia de Zurique. Além disso, altos níveis de produtividade e baixos custos de mão-de-obra não salarial reduzem os custos de produção em relação às economias concorrentes em todo o mundo. Tudo somado, isso faz de Zurique um lugar atraente para investir, viver e trabalhar.

2 – Singapura

gardens-by-the-bay-singapore.jpg
Jardins da Baía -Singapura

Uma série de iniciativas de sustentabilidade está em andamento e ajudará Singapura a evoluir e a permanecer competitiva. Mesmo sendo a melhor cidade classificada na Ásia e a segunda no mundo, a cidade continua sendo proativa. Por exemplo, com uma população prevista para crescer para mais de seis milhões de pessoas até 2030, o governo comprometeu-se a realizar investimentos significativos na próxima década para melhorar a mobilidade e a conectividade dentro da cidade. Este investimento inclui duas novas linhas subterrâneas, extensões para quatro linhas de MRT existentes, um novo terminal e pista no Aeroporto de Changi, uma ligação ferroviária de alta velocidade entre Singapura e Malásia e a realocação dos portos de containers.

A cidade também enfrenta o envelhecimento da população e a necessidade de maiores investimentos em infra-estrutura social. Isso, juntamente com longas horas de trabalho, desigualdades de renda e acessibilidade, impactam a classificação do sub-índice de pessoas de Singapura.

Singapura também estabeleceu uma meta ambiciosa de tornar, pelo menos, 80% de todos os edifícios “verdes” até 2030 como parte de um esforço conjunto para criar um ambiente vivo vibrante e de alta qualidade, que seja resiliente e apoie a agenda mais ampla da mudança climática. Investimentos adicionais em resiliência estão em andamento em Singapura, incluindo sua estratégia de “fechar o ciclo” da água.

Classificada em primeiro lugar no lucro, Singapura está no top 10 de todos os seis indicadores no sub-índice de lucro, liderando o mundo na facilidade de fazer negócios e empatando com Macau no primeiro lugar de turismo.

3 – Estocolmo – Suécia

Östermalm-Market-Hall-by-Tengbom-8.jpg

Estocolmo, cidade com mais de 880 mil habitantes espalhados pelos 6.519 km² de extensão territorial, investiu em planos de sustentabilidade que transformaram os rios da capital da Suécia que estavam poluídos em lugares adequados para pesca e implantaram lixeiras a vácuo que dispensam a coleta por caminhões. Além disso, ainda pretendem reduzir o uso de combustíveis fósseis nos próximos 37 anos.

O ano de 1972 foi importante para Estocolmo, pois a cidade foi sede da “Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano” da ONU. O evento destacou a cidade em âmbito mundial pelo exemplo da combinação da gestão administrativa com o planejamento urbano, que ligado a tecnologias avançadas de gestão ambiental, trouxe inúmeros benefícios à população.

Os projetos para impulsionar os índices de qualidade de vida da população sueca estavam há décadas atrelados à melhoria do tratamento de esgotos, gerenciamento de resíduos sólidos, eficiência energética e qualidade do ar.

Desde a década de 70 são realizadas novas intervenções na estrutura da cidade. O serviço de tratamento das águas dos rios foi acionado e melhorou a sua qualidade, deixando-as apropriadas para a pesca e o lazer. Nem a água da chuva escapa das medidas sustentáveis. O planejamento de habitação da cidade investiu em sistemas que direcionam a demanda pluvial para unidades de tratamento específicas.

A prefeitura, através de parcerias com empresas de tecnologia da informação, reciclagem e eficiência energética, modificou o sistema de aquecimento da cidade, passando a utilizar energias renováveis, dentre elas a solar, responsável por 80% do aquecimento das empresas e residências.

4 – Viena – Áustria

citybike-19to1.jpeg

Viena é uma cidade inovadora. Em 2011 o seu prefeito, Dr. Michael Häupl, propôs a iniciativa para que Viena se tornasse uma cidade inteligente (smart city). Porém a aprovação só ocorreu em 25 de junho de 2014, quando começou a ser implementada.

Para isso, foi desenvolvido um planejamento de ações, planos e programas que constituem o documento chamado “The Smart City Wien Framework Strategy”. Essa iniciativa de longo prazo visa melhorar o desenho, o desenvolvimento e a percepção da cidade. Tem como objetivo principal integrar as atividades de trabalho e lazer vislumbrando que os cidadãos tenham uma vida equilibrada. Para isso, foram propostas ações para melhoria da infraestrutura, energia e mobilidade urbanas.

O pano de fundo para essas ações foram as Diretrizes da Comunidade Europeia para Energia e Mudança Climática, cujas metas são reduzir, até 2030, as emissões de CO2 em 40% em relação aos níveis de 1990 e, ao mesmo tempo, aumentar em 27% as fontes de energias renováveis e, até 2050, reduzir as emissões de gases de efeito estufa em 80 a 95% em comparação a 1990.

5 – Londres – Inglaterra

London stock exchange sustainability.jpg

Londres é uma das maiores potências econômicas do mundo, ocupando o terceiro lugar no sub-índice de lucro. Situada no centro das finanças globais, a posição de peso-pesado de Londres, combinada com uma longa história de evolução cultural e econômica, mostra que a cidade está bem equipada para colher os benefícios, a longo prazo, de seu status como uma verdadeira cidade mundial. No entanto, para que o capital mantenha a competitividade a longo prazo, há uma série de questões que ainda precisam ser abordadas.

Com um ranking ambiental de 9, há o compromisso de melhorar o desempenho ambiental da cidade por meio, por exemplo, de ônibus de baixa emissão, programas de limpeza ambiental, infra-estrutura como o Thames Tideway Tunnel e ações voluntárias de seus cidadãos.

Classificando-se apenas em 37 no sub-índice de pessoas, as necessidades de mobilidade e moradia, associadas a uma metrópole crescente e densamente povoada, estão na vanguarda dos desafios da cidade. Com a população de Londres projetada para chegar a 10 milhões de pessoas até 2030, melhorar a capacidade de infraestrutura e fornecer o número e o tipo de casas certos, que permitam que todas as pessoas vivam e trabalhem, é fundamental.

Captura de Tela 2018-08-30 às 11.36.22

Azul -Sub-Índice “Pessoas”        Verde – Sub-índice “Planeta”        Vermelho – Sub-índice “Lucro

 

Referências:

BASEADO NO ÍNDICE Arcadis – Faça o Download :  Sustainable Cities Index 2016 Global Web

Site Pensamento Verde

O mar não está para peixe – Como a pescaria está matando nossos oceanos

A pescaria é uma prática extremamente difundida em diversas culturas humanas. Desde o seu surgimento, ela tornou-se parte integrante de várias tradições, compondo a culinária, o artesanato e, em muitos casos, até mesmo a religião dos povos que dependem dela. Entretanto, nos últimos anos, a pescaria industrial tornou-se uma ameaça, não só para as populações que dependem dos mares e rios como fonte de renda, como também para todos os ecossistemas oceânicos. Para fins didáticos, consideraremos pescaria o ato de matar ou capturar qualquer organismo aquático para o uso como alimento ou para a fabricação de roupas, ornamentos, joias ou outros produtos de luxo.

Resultado de imagem para overfishing
Coleta feita por um navio pesqueiro – Fotógrafo desconhecido

Os primeiros registros da pesca entre os seres humanos datam mais de 40 mil anos atrás, durante o Paleolítico Superior. Acredita-se que, nessa época, os primeiros Homo sapiens sapiens que habitavam o leste da Ásia adquiriram o hábito de capturar peixes e moluscos de água doce utilizando técnicas rudimentares, prática que perdurou na região por milhares de anos e, progressivamente, foi sendo incorporada em diferentes populações. Em algumas regiões da Europa, os primeiros assentamentos humanos (cerca de 11.500 anos atrás) estão diretamente relacionados com a dominação da prática da pesca, uma vez que os rios eram fontes duradouras de alimento durante todo o ano para essas tribos.

Resultado de imagem para paleolithic fishing
Anzóis feitos de conchas de 16 mil anos encontrados em Timor Leste 

A invenção das redes e anzóis de forma independente e em diferentes partes do mundo possibilitou que muitas comunidades utilizassem a pesca como principal fonte de carne por todo o mundo, mas somente a partir do século XVI, com o desenvolvimento das primeiras grandes embarcações pesqueiras, essa prática realmente se tornou uma ameaça para a vida marinha. A primeira vítima conhecida da pesca é a vaca-marinha-de-Steller (Hydrodamalis gigas), um peixe-boi de 9 metros de comprimento descoberto pelos europeus em 1741 e caçado até a sua extinção, em 1768.  De movimentos lentos e hábitos extremamente dóceis, esse animal era caçado para o aproveitamento do seu pelo, carne e pele, com a utilização de arpões que, posteriormente, serviriam para colocar outros grandes animais no rumo da extinção.

Imagem relacionada
Representação da caça de vacas-marinhas-de-Steller

Durante o século XVII, a demanda por óleo para a iluminação pública criou uma crescente demanda pela caça de baleias, principalmente no Oceano Atlântico. Por muito tempo, acreditou-se que a caça de baleias era uma fonte inesgotável dessa substância tão procurada mas, nos dois séculos seguintes, as populações de baleias de todo o mundo caíram drasticamente, aproximando diversas espécies, como a jubarte e a cachalote, da extinção, sobretudo por volta de 1930, quando mais de 50 mil desses animais eram mortos anualmente.

File:18th century arctic whaling.jpg
Quadro do século XVIII representando navios baleeiros holandeses – Artista desconhecido

Ao longo do século XX, as práticas baleeiras foram proibidas em diversas regiões do mundo, o que possibilitou a recuperação de muitas das espécies afetadas por essa prática. Entretanto, com o crescimento populacional em todo o mundo, especialmente nas áreas litorâneas, a demanda por peixes e frutos do mar tornou-se cada vez maior, o que motivou a busca por técnicas cada vez mais eficientes para a captura desses animais. Grandes navios com redes de arrasto acopladas passaram a retirar dos oceanos milhares de organismos marinhos diariamente e, no final do século, mais de 22 milhões de toneladas de sardinhas eram pescadas anualmente.

Resultado de imagem para trawling
Representação esquemática de uma rede de arrasto feita pelo Monterey Bay Aquarium

Mesmo com leis criadas para a proteção de áreas marinhas e de diversas espécies aquáticas, a taxa de animais pescados tornou-se insustentável, uma vez que 31% das espécies de peixes são retiradas dos oceanos mais rápido do que a natureza consegue repor, enquanto 58% das espécies são pescadas nos valores máximos antes de um desequilíbrio, o que, a longo prazo, poderá reduzir drasticamente a população de diversas espécies. O bacalhau-do-atlântico (Gadus morhua), por exemplo, é um peixe apreciado pela culinária de diversos países, sobretudo na culinária nórdica e mediterrânea. Sua intensa pesca, entretanto, fez com que a biomassa total da espécie reduzisse em mais de 95% em todo o mundo, tornando-a, atualmente, uma espécie vulnerável.

Resultado de imagem para atlantic cod fishing
Pescaria do bacalhau-do-atlântico – Foto por Jeffrey L. Rotman/Corbis

A falta de sustentabilidade da indústria pesqueira é tão grande que muitas espécies são pescadas apenas por partes específicas do seu corpo, arrancadas com o animal ainda vivo, sendo posteriormente devolvido para morrer nos oceanos. Os tubarões são, atualmente, as maiores vítimas, uma vez que milhões desses animais são mortos para a retirada de suas barbatanas e, em seguida, são descartados no mar.

Resultado de imagem para shark fishing fin
Venda de nadadeiras de tubarão em Taiwan

Resultado de imagem para shark fishing fin
Após terem as nadadeiras arrancadas, os tubarões são devolvidos ainda vivos para o mar, onde morrerão for falta de oxigênio ou devido a seus ferimentos.

Um outro grande problema é a redução do tamanho dos organismos oceânicos. Historicamente, peixes grandes possuem um enorme valor comercial, com indivíduos vendidos por mais de 2 milhões de dólares para a indústria culinária. Isso fez com que a população média dos peixes diminuísse em todo o mundo, uma vez que os peixes grandes e geralmente mais velhos eram retirados dos mares, enquanto os peixes menores e que atingiam a maturidade sexual mais cedo sobreviviam, o que alterou de forma significativa a dinâmica reprodutiva desses organismos.

Resultado de imagem para largest  tuna
O Atum é, atualmente, uma das maiores vítimas da seleção por tamanho no mundo

 

Além disso, milhares de animais são mortos diariamente por acidente, devido à pouca especificidade das técnicas de captura. Esses organismos, conhecidos como “fauna acompanhante” ou “bycatch”, geralmente se prendem às redes e morrem de exaustão ou afogados. Pescas de organismos de águas profundas, principalmente de camarões, possuem taxa de erro de captura que podem chegar a até 20:1, o que significa que, para cada camarão capturado, 19 animais são descartados de volta no mar. As principais vítimas são albatrozes, tartarugas, tubarões, peixes grandes e cetáceos.  Dados da WWF apontam que mais de 300 mil baleias e golfinhos morrem todos os anos, presos em redes de pesca, que é a maior ameaça para esses animais na atualidade. O menor cetáceo do mundo, conhecido como Vaquita (Phocoena sinus), provavelmente será o primeiro organismo a ser extinto pela pesca acidental, uma vez que seus números se reduziram drasticamente nos últimos anos e, atualmente, acredita-se que apenas 12 indivíduos estejam vivos no mundo.

Resultado de imagem para bycatch turtle
Tartaruga-de-couro presa em uma rede de pesca

Resultado de imagem para bycatch dolphin
Pequenos cetáceos frequentemente morrem afogados em redes de pesca

Resultado de imagem para vaquita size
Menor cetáceo do mundo, menos de 12 vaquitas ainda vivem nas águas do Golfo da Califórinia

Por fim, a pescaria é, atualmente, a maior fonte individual de plástico para os oceanos. Enquanto os canudos compõem cerca de 0.03% do plástico dos oceanos por massa e cerca de 4% por volume, pesquisas recentes no Grande Depósito de Lixo do Pacífico apontam que mais de 46% de todo o plástico oceânico provém de redes e linhas de pesca. Indiretamente, a coleta de organismos marinhos e de rios prejudica não só a espécie afetada, mas todos os ecossistemas aquáticos do planeta.

Imagem relacionada
Toneladas de redes de pesca abandonadas (Ghost nets) ou rompidas compõe mais de 46% do plástico do oceano

Portanto, devemos banir a pesca? Embora essa prática seja incrivelmente prejudicial, deve-se entender que ela é parte integrante de diversas culturas e fonte de renda para milhões de pessoas em todo o mundo. Dessa forma, devemos ter consciência daquilo que consumimos e de seus verdadeiros impactos. Sempre que possível, opte por opções mais sustentáveis de proteína, por peixes provenientes de criatórios ou cuja procedência seja ecologicamente correta. Evite espécies cujas populações estão em colapso ou cuja pesca produza um grande impacto negativo, como atum, pirarucu, linguado, siris de mangues e camarões. Por fim, sensibilize as pessoas à sua volta dos impactos que sua alimentação pode causar no mundo. Afinal, caso não mudemos os nossos hábitos, o mar não estará mais para peixe.

Resultado de imagem para no fish in the sea

Referências

Ted “Will the ocean ever run out of fish?” por Ayana Elizabeth Johnson e Jennifer Jacquet

Hampton, J.; Sibert, J. R.; Kleiber, P.; Maunder, M. N.; Harley, S. J. (2005). “Changes in abundance of large pelagic predators in the Pacific Ocean”. Nature. 434: E2–E3.

https://www.nature.com/news/ocean-conservation-a-big-fight-over-little-fish-1.12325

https://oceanconservancy.org/

Sobre a história da pescaria

Sahrhage, Dietrich and Lundbeck, Johannes (1992) A History of Fishing. Springer

http://www.historyofinformation.com/expanded.php?id=3901

Sobre a Fauna acompanhante:

https://www.worldwildlife.org/threats/bycatch

https://brasil.oceana.org/pt-br/blog/o-que-e-bycatch

Sobre o plástico nos oceanos

https://news.nationalgeographic.com/2018/03/great-pacific-garbage-patch-plastics-environment/

https://mercyforanimals.org.br/canudinho-redes-pesca

https://phys.org/news/2018-04-science-amount-straws-plastic-pollution.html

Sobre a vaca-marinha-de-Stellar e Vaquita

http://www.iucnredlist.org/details/17028/0

https://en.wikipedia.org/wiki/Steller%27s_sea_cow

View story at Medium.com

 

 

 

 

 

 

 

 

Hormônios e afins: o que você pode estar bebendo sem saber?

Já faz algum tempo que cientistas sabem que nem todas as substâncias que chegam em nossa água encanada são componentes naturais. Isso foi detectado através de testes na própria água da torneira e da observação de diversos efeitos peculiares para a saúde dos peixes que residem em nossos mananciais. Muitos peixes foram encontrados com órgãos sexuais masculinos e femininos e foi constatado que a fertilidade de peixes machos diminuiu a tal ponto que algumas espécies de peixes de água doce foram extintas.

A água usada para abastecimento público passa por um processo de tratamento e desinfecção mecânico e químico, que elimina toda a poluição microbiológica (coliformes totais – grupos de bactérias associadas à decomposição da matéria orgânica – e Escherichia coli).

“A água da torneira é controlada várias vezes por dia, para se ter certeza de que está sempre dentro dos padrões de qualidade”, afirma Jorge Briard, diretor de produção de água da Cedae, no Rio.

Em 2017, uma pesquisa encomendada a laboratórios independentes pelas ONGs “60 Milhões de Consumidores” e “Fundação Danielle Mitterrand-France Libertés”, na França, encontrou tanto agrotóxicos como medicamentos na água engarrafada. “Foi uma surpresa, porque mostra que até a água mineral está poluída. Achamos um agrotóxico, a atrazina, usado no cultivo do milho, que está proibido no país há mais de dez anos. Essa substância tem a propriedade de ser muito persistente no meio ambiente. O que significa que, em dez anos, chega ao subsolo”, explica Thomas Laurenceau, da 60 Milhões de Consumidores.

Em 2012, os pesquisadores concluíram que custaria à Grã-Bretanha £ 30 bilhões para livrar sua água de estradiol. O estradiol é um dos principais tipos de estrogênio que as mais de 2,5 milhões de mulheres britânicas tomam todos os dias na pílula anticoncepcional e descarregam em seus banheiros e no futuro suprimento de água. Os pesquisadores descobriram que esse hormônio potente está presente em 80% da água analisada na pesquisa e em 50 locais testados.

Não é de surpreender que nem o governo, nem os fornecedores de água e tampouco os que pagam as contas de água das suas casas estejam interessados ​​nesse esforço em descobrir todos os contaminantes que ela possui. A indústria farmacêutica está ativamente fazendo lobby contra o medo de ter que contribuir de alguma forma com as reais consequências desse tipo de poluição.

Estudos na Europa e nos Estados Unidos, que provavelmente se aplicam igualmente no Brasil, testaram positivamente a água potável para uma lista surpreendente de produtos farmacêuticos, como medicamentos para o coração, antibióticos, antidepressivos, betabloqueadores, anticoagulantes, canais de cálcio, carbamazepina (droga anticonvulsivante), digoxina, medicamentos para colesterol, naproxeno (um anti-inflamatório), analgésicos como paracetamol e codeína e tranquilizantes.

Grandes quantidades de antidepressivos também foram encontradas nos cérebros de alguns peixes de água doce, o que ilustra que nossa busca pela saúde sintética tem um preço alto.

analysis-of-endocrine-disruptors-in-water.jpg

Hormônios e Farmacêuticos

Nesse estágio, os especialistas se preocuparam mais com os hormônios do que com os medicamentos em geral, pois, embora sejam necessários altos níveis de concentração de medicamentos antes de nossos corpos serem afetados, pequenas quantidades de hormônios podem ter um impacto maior.

No entanto, muitos cientistas alertaram que isso não é necessariamente certo. Na verdade, os hormônios podem afetar o corpo em níveis muito mais baixos do que os farmacêuticos, mas o impacto do consumo de pequenas quantidades de produtos farmacêuticos encontrados em nossa água potável, em um período de décadas, ainda pode ser prejudicial.May4-2.jpg

Se você beber três litros de água da torneira por dia, sendo que cada litro contenha apenas nanogramas de cada droga, é improvável que você consuma a mesma quantidade que uma dose prescrita durante toda a sua vida. Enquanto os pesquisadores e médicos sabem os efeitos de uma dose única, eles ainda não entendem os efeitos da presença permanente das drogas em nossa corrente sanguínea. Além disso, o consumo de medicamentos sintéticos tem aumentado a cada geração, sugerindo que a quantidade de medicamentos em nossa água continuará a crescer.

Sendo assim, é preocupante que os especialistas considerem que o risco seja insignificante, já que isso os impede de realizar estudos para provar que o consumo dessa água é realmente inofensivo. Portanto, no momento não podemos concluir enfaticamente que o consumo crônico de produtos farmacêuticos em nossa água potável é seguro.

Nova ideia

Nossa água pode estar contaminada por diferentes fontes e produtos químicos. Mas como saber se a água que chega até nós já passou por algum tipo de tratamento em Estações de Tratamento de Água ou Esgoto?

A sucralose pode desempenhar um papel na manutenção da contaminação da água, ajudando os pesquisadores e gerentes de recursos hídricos a identificar os pontos de concentração de poluentes, a fim de melhor gerenciá-los.

Esse adoçante vem sendo, cada vez mais, usado como “traçador” – uma substância que pode ajudar a identificar de onde vem a contaminação. Essa capacidade é importante para manter a qualidade da água, tanto em águas superficiais, quanto no abastecimento de água potável.

sucralose_0.jpg

O conceito de traçador não é novo: outras substâncias, principalmente a cafeína e alguns dos farmacêuticos, já foram usadas ​​para identificar qual a água que já fez sua caminhada pelo ralo. Então porque a sucralose, encontrada em uma variedade de produtos, está sendo considerada melhor do que todos os outros?  Porque ela é muito estável! Pesquisadores preferem usá-la porque ela não se degrada facilmente, seja no meio ambiente ou em uma estação de tratamento de água.

“O propósito de ter um adoçante artificial é que o corpo não o reconhece como combustível, então você não o usa para energia”, diz Piero Gardinali, professor associado da Universidade Internacional da Flórida. “Temos visto que, se você colocá-lo em uma estação de tratamento de águas residuais, nada acontece porque os microrganismos também não o reconhecem como alimento”.

É praticamente impossível testar cada contaminante existente em águas residuais, mas se os gerentes da qualidade da água detectarem a sucralose em um rio, por exemplo, ela pode ser usada como um sinal de alerta, indicando que alguma quantidade de água residual está presente. A partir dessa descoberta é possível, então, aprofundar a análise para saber se outros contaminantes também estão presentes e se estão colocando em risco a saúde do rio.

No entanto, muito mais importante do que qualquer teste para saber a qualidade da água que consumimos é entender que, para preservarmos a nossa saúde e a natureza, temos que nos precaver e repensar as nossas formas de descarte, bem como o impacto que causamos à nossa volta.

 

 

 

 

Referências

 Estudo realizado pela EPA

Artigo “What to do about the antibiotics and other drugs in our water?” de Elizabeth Grossman 

Artigo “Novel mechanisms for neuroendocrine regulation of aggression” de Kiran K.Soma e outros

Artigo “SYNTHETIC POLYMER CONTAMINATION IN BOTTLED WATER” de Sherri A. Mason, Victoria Welch, Joseph Neratko

https://gizmodo.uol.com.br/quimica-agua-analise/

Energia Nuclear – Parte III – Um risco necessário?

Nos textos anteriores, analisamos o desastre de Chernobyl do ponto de vista ambiental e vimos os lados positivos da Energia Nuclear. Embora seja considerada por muitos uma forma limpa de energia, quais são seus lados negativos? Devemos apostar nossa produção energética em uma tecnologia tão perigosa?

Nesse texto, abordaremos os 3 principais motivos de alguns cientistas e ambientalistas condenarem essa forma de energia:

1 – Acidentes nucleares

Desde o surgimento da Energia Nuclear e sua adoção pelo setor público de vários países, a partir de 1945, sete grandes acidentes envolvendo reatores nucleares ocorreram em todo o mundo. Embora os vazamentos radioativos tenham sido rapidamente contidos em três desses casos, os efeitos da radiação espalharam-se no ambiente e causaram grandes danos à biodiversidade e à população local, com destaque para Chernobyl e para Fukushima. Esse último, por exemplo, ocorreu em 11 de março de 2011, após um tsunami atingir o local. Embora nenhuma morte tenha sido diretamente vinculada ao acidente, mais de 1600 pessoas morreram durante o processo de evacuação, que retirou 300 mil indivíduos de suas casas. Esse acidente, ainda, lançou enormes quantidades de poluentes radioativos, não só na atmosfera, mas também nos oceanos, com impactos observados ainda hoje.

Imagem relacionada
Explosão de um dos reatores da Usina de Fukushima – Fotógrafo desconhecido

Não obstante os acidentes nucleares sejam, na maioria das vezes, causados por falhas humanas e desastres naturais, e não pela tecnologia em si, os riscos devem ser levados em conta. Caso, em um futuro próximo, a energia nuclear corresponda a 10% da produção energética mundial, estima-se que um acidente ocorrerá a cada 30 anos. Na hipótese desse número chegar a 30%, há chance desses desastres ambientais e sociais ocorrerem a cada 10 anos. Então, vale a pena arriscar a vida de milhares de pessoas por uma forma de energia teoricamente limpa?

Resultado de imagem para chernobyl disaster
Pertences pessoais abandonados em Chernobyl após o desaste – Foto de Gerd Ludwig

2 – Uso bélico

A história da Energia Nuclear está intimamente ligada à criação de bombas atômicas, devido a suas similaridades técnicas. Durante a Guerra Fria, devido à crescente ameaça nuclear, foi assinado, em 1968, o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP), que tem como objetivo evitar a disseminação de armas nucleares, bem como limitar o armamento dos cinco países que, na época, eram detedores dessa tecnologia (Estados Unidos, Rússia, Reino Unido, França e China). Em teoria, todos os 189 países signatários, que ratificaram o acordo, se comprometeram a utilizar elementos radioativos apenas na produção energética e a não auxiliar outros Estados na obtenção dessas armas, o que nem sempre foi cumprido.

Em vermelho: Países não signatários do TNP

Nos últimos 40 anos, diversos países adquiriram armas nucleares, com auxilio direto ou indireto de tecnologias voltadas para a energia nuclear. Países como a Índia, Israel, Coreia do Norte e Paquistão desenvolveram mísseis nucleares, aproveitando-se de suas usinas de geração de energia, que serviam como uma forma de esconder os reais propósitos para a compra de compostos como o plutônio e o urânio. Outros países, como a África do Sul, Bielorrússia, Cazaquistão e Ucrânia, compraram armas nucleares de outros países no passado, o que também foi justificado como sendo parte de pesquisas energéticas.

Resultado de imagem para crossroads baker
Teste nuclear realizado pelos Estados Unidos em 1946 nas Ilhas Marshall

A manutenção da energia nuclear pode, portanto, contribuir para a militarização radioativa em larga escala, o que pode por em risco países inteiros. Isso não só ameaça toda a nossa civilização, como também grande parte da vida no planeta, uma vez que uma guerra nuclear global poderia desencadear a extinção de milhares de ecossistemas.

3 – Resíduos radioativos

Esse tópico é, provavelmente, o mais polêmico dos abordados até agora. Se, por um lado, a energia nuclear não libera gases estufa na atmosfera, milhares de litros de água são usados no mundo todo, diariamente, para o resfriamento dos geradores das usinas, o que, por si só, não gera impactos ao ambiente. Entretanto, essa água  fervente é, geralmente, despejada em corpos d’água de forma irresponsável, o que pode aumentar significativamente a temperatura da água local e ameaçar os ecossistemas aquáticos da região.

Leitura termal aponta temperaturas muito elevadas próximo das saídas de Usinas Nucleares – Imagem pela Eurosense

Além disso, a tecnologia nuclear gera resíduos radioativos e extremamente tóxicos, cujo vazamento no ambiente poderia ocasionar impactos inestimáveis. Nos últimos anos, as usinas nucleares vêm estocando seu lixo em depósitos subterrâneos que, posteriormente, é selado com toneladas de concreto. Essa prática é, em teoria, extremamente segura, uma vez que o lixo gerado pela usina ficaria isolado dos ecossistemas e das pessoas a seu redor. No entanto, duas coisas devem ser levadas em consideração.

Primeiramente, a energia nuclear não é renovável. Embora seus resíduos possam, algumas vezes, serem aproveitados para a produção de mais energia, o seu acúmulo é inevitável a longo prazo. Em adição, o plutônio, o urânio e o tório são recursos esgotáveis, o que pode gerar uma crise energética futura.

Resultado de imagem para uranium mine
Área de mineração de urânio

Em segundo lugar, vale ressaltar que, embora o Tório seja promissor para as tecnologias futuras de reatores nucleares (como comentamos na segunda parte dessa série), essa tecnologia é muito recente e, portanto, ainda mais cara, o que a torna preterida pelas empresas de energia. Dessa forma, por muitos anos, a opção mais utilizada ainda será o urânio, elemento que possui  isótopos, cuja meia vida pode ultrapassar os 100 mil anos, tempo necessário para que a quantidade de átomos radioativos chegue à metade da quantidade inicial. Sendo assim, mesmo com a capacidade de nos proteger dos rejeitos nucleares, devemos colocar em risco populações futuras enterrando um material tão perigoso? Outro fator a ser considerado é que a nossa espécie, assim como todas as outras, não é eterna. Logo, seria ético nós nos beneficiarmos e colocarmos em risco espécies que estarão em nosso planeta muito depois de nossa extinção?

Resultado de imagem para radioactive waste

Podemos concluir que a energia nuclear se revela como um possível aliado ao ser humano na produção energética, mas também como um grande risco. A história nos mostrou que, muitas vezes, boas ideias tiveram terríveis resultados quando empregadas de maneira incorreta. Sendo assim, caso essa forma de produção energética seja utilizada, ela deve ser empregada com extrema responsabilidade. Mais uma vez, percebe-se que nós humanos somos capazes de ajudar ou de prejudicar o nosso planeta. Entretanto, para não prejudicar, basta fazermos as escolhas certas.

 

Referências

Canal do Youtube Kurzgesagt – In a Nutshell

Desvantagens da energia nuclear

Artigo “A Comparative Analysis of Accident Risks in Fossil, Hydro, and Nuclear Energy Chains”, por BURGHERR, Peter et. al.

 

 

Energia Nuclear – Parte II – Tudo tem seu lado positivo!

Começamos nossa série de textos sobre energia nuclear mostrando como foi uma das piores catástrofes da história (Energia Nuclear – Parte I – Chernobyl: A recuperação de uma das áreas mais degradadas do planeta). Mas o que leva as pessoas a utilizarem uma forma de energia como essa? É o que mostraremos nesta segunda parte da série sobre energia nuclear.

Tudo ao nosso redor é composto de pequenos objetos chamados átomos. A maior parte da massa de cada átomo está concentrada no centro (que é chamado de núcleo) e o restante da massa encontra-se na nuvem de elétrons ao redor do núcleo. Prótons e nêutrons são partículas subatômicas que compõem o núcleo.

Untitled-1_0005_nuclear.jpg

Sob certas circunstâncias, o núcleo de um átomo muito grande pode se dividir em dois. Nesse processo, uma certa quantidade da massa do átomo grande é convertida em energia pura seguindo a famosa fórmula de Einstein, E = MC2 , onde M é a pequena quantidade de massa e C é a velocidade da luz (um número muito grande). Nas décadas de 1930 e 1940, os humanos descobriram essa energia e reconheceram o seu potencial como arma. A tecnologia desenvolvida no Projeto Manhattan usou com sucesso essa energia em uma reação em cadeia para criar bombas nucleares. Logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, a nova fonte de energia encontrou uma casa na propulsão da marinha nuclear, fornecendo, aos submarinos, motores que poderiam funcionar por mais de um ano sem reabastecimento. Essa tecnologia foi rapidamente transferida para o setor público, onde usinas comerciais foram desenvolvidas e implantadas para produzir eletricidade.

Mas, como em tudo na vida, há o lado negativo e o lado positivo. Nesse texto abordaremos os 3 principais benefícios da energia nuclear:

1 – Energia Nuclear salva vidas

Em 2013 um estudo realizado pela NASA descobriu que, entre 1976 e 2009, a energia nuclear preveniu por volta de 1,8 mortes, mesmo se forem incluídas as mortes causadas por Chernobyl e Fukushima. Esse tipo de energia fica em último lugar no ranking de mortes por unidades de energia produzidas, já que o resíduo, mesmo sendo extremamente tóxico, geralmente é armazenado em algum lugar seguro, diferente dos resíduos de combustíveis fósseis, que são bombeados para o ar que respiramos todos os dias. Então, apenas reduzindo a quantidade de combustíveis fósseis, inúmeros casos de câncer, de problemas no pulmão e de acidentes em minas de carvão já foram evitados.

nuclear-energy-truth.jpg

Se pudéssemos escolher entre colocar uma quantidade enorme de substâncias perigosas em um buraco profundo ou jogá-la na atmosfera, qual alternativa pareceria mais lógica? Embora a energia nuclear pareça bem mais perigosa, apenas alguns eventos catastróficos nos vêm à memória, enquanto que o carvão e o petróleo matam vidas de forma silenciosa. A analogia mais próxima a isso seria a comparação entre se andar de avião ou de carro, pois, apesar de andar de carro seja muito mais perigoso, muito mais pessoas têm medo de andar de avião. Mesmo nos melhores casos, levaria pelo menos 40 anos para tudo ser totalmente adaptado para energia renovável. Portanto, enquanto ainda continuarmos utilizando combustíveis fósseis, a energia nuclear salvará muito mais vidas do que destruirá.

Além disso, com a energia nuclear, muitos países podem se aproximar da independência energética. Ser “viciado em petróleo” é uma grande preocupação de segurança nacional e global por várias razões. Se utilizássemos veículos elétricos, híbridos ou plug-in (PHEVs) alimentados por reatores nucleares, poderíamos reduzir nossas demandas de petróleo em ordens de grandeza. Além disso, muitos projetos de reatores nucleares podem fornecer calor de processo de alta qualidade, além da eletricidade, que pode, por sua vez, ser usada para dessalinizar água, preparar hidrogênio para células a combustível ou aquecer bairros, entre muitos outros processos industriais.

2 – Energia Nuclear reduz emissões de gases de efeito estufa

A energia nuclear é bem menos nociva ao meio ambiente do que outros tipos de energia. Desde 1976, mais de 64 gigatoneladas de gases de efeito estufa deixaram de ser enviados à atmosfera por causa da utilização de energia nuclear e, nos meados do século 21, a esse número poderão ser adicionados entre 80 e 240 gigatoneladas, que irão deixar de chegar ao ambiente.

torresoweto_gcom-15_62
Pinturas nas torres de Orlando formam o maior mural da África do Sul

A taxa de consumo de energia dos seres humanos está subindo constantemente. Somente a China irá adicionar o equivalente a 600 MW em usinas de carvão a cada 10 dias para os próximos 10 anos. O país já queima 4 bilhões de toneladas de carvão por ano, já que esse combustível é barato, relativamente abundante e facilmente produzido. É de se imaginar que a humanidade não vai parar de utilizá-lo com tanta facilidade, mas a energia nuclear pode ser uma das poucas maneiras de amortecimento dos efeitos das mudanças climáticas, podendo prevenir uma catástrofe antropológica sem precedentes. Comparada a muitas coisas que fazemos, a energia nuclear é relativamente limpa. Então, mesmo que seja uma boa ideia pararmos de utilizar esse tipo de energia a longo prazo, ela pode ser uma solução para os próximos 100 anos se compararmos com as alternativas atuais.

3 – Novas tecnologias

Talvez as novas tecnologias que estão por vir possam solucionar os possíveis problemas gerados pelo resíduo nuclear e o perigo das usinas. Os reatores nucleares utilizados até hoje são, em sua maioria, tecnologia já ultrapassada, pois a inovação nessa área foi pausada em 1970. Há modelos como o Reator de Tório que poderiam resolver o problema como um todo. O Tório (Th) é abundante e, dificilmente, poderá se tornar uma arma nuclear. Por outro lado, ele gera quase duas ordens de magnitude de energia e menos rejeitos do que os reatores nucleares atuais. Além disso, o rejeito do seu material radioativo seria perigoso por um pouco mais de 100 anos em contraste aos quase 1000 anos do urânio.

Captura de Tela 2018-08-02 às 14.09.43
Comparativo do potencial energetico do Tório, Urânio e Carvão

Como método comparativo já se estima que 1T de Tório pode fornecer a mesma quantidade de energia que 200T de Urânio ou 3,5 milhões de toneladas de carvão. Portanto, enquanto não sabemos ao certo se as novas alternativas tecnológicas cumprirão sua expectativa, não deveríamos, ao menos, investir em mais pesquisas antes de renunciarmos à oportunidade de resolução de diversos problemas da humanidade?

Sendo assim, devemos ou não utilizar energia nuclear? O que sabemos é que em toda tentativa humana há riscos e que devemos tomar decisões baseadas em fatos e não em intuições.

Se quiserem saber o outro lado da história, aguarde o terceiro texto da série na próxima semana.

 

 

Referências

Kurzgesagt – In a Nutshell

El-Hinnawi, Essam. “Review of the Environmental Impact of Nuclear Energy.”

“Environmental Effects of Nuclear Power.” Nuclear Tourist.

“Nuclear Energy.” U.S. Environmental Protection Agency. U.S. EPA

“Nuclear Fission and Fusion.” IEA. International Energy Agency,

 “Radioactive Waste.” US Nuclear Regulatory Commission

 

 

 

 

Energia Nuclear – Parte I – Chernobyl: A recuperação de uma das áreas mais degradadas do planeta

Em 26 de abril de 1986, uma explosão na usina nuclear de Chernobyl, na região que atualmente pertence à Ucrânia, lançou vapores radioativos a quilômetros de distância e matou dezenas de pessoas. Apesar da área ainda se encontrar em isolamento devido ao elevado nível de radioatividade, mais de 30 anos depois do acidente, cientistas constatam que a chamada Zona de Exclusão tornou-se um refúgio para a vida selvagem da região. Como a vida selvagem pôde se recuperar de um dos maiores desastres ambientais da história? E ainda, o que podemos aprender com isso?

Imagem relacionada
Fotografia de Pripyat tirada com uma câmera infravermelha – Por Vladimir Migutin

Era um dia qualquer em Pripyat, cidade com cerca de 50 mil habitantes, fundada pela União Soviética com o intuito de oferecer moradia para todos os trabalhadores da usina de Chernobyl e para suas famílias, contendo toda infraestrutura necessária para uma vida tranquila. Repentinamente, diversas pessoas da cidade se dirigiram aos hospitais da cidade, apresentando sintomas como dores de cabeça, gostos metálicos na boca, tosse e vômito. Nas próximas horas, duas pessoas morreram e mais de 52 foram hospitalizadas, sem mesmo saber o motivo de sua enfermidade. Somente às 14 horas do dia 27 de abril, mais de 24 horas após o acidente, a população começou a ser evacuada e soube do ocorrido: durante um teste de segurança do Reator 4 da usina, falhas humanas permitiram que toda a água de resfriamento do reator fervesse, o que causou um superaquecimento e uma grande explosão, lançando toneladas de material radioativo na atmosfera, cerca de 20 vezes mais que as bombas de Nagasaki e Hiroshima em conjunto.

Imagem relacionada
Foto de 1986 da usina destruída

Nos próximos dias, milhares de pessoas foram evacuadas de uma área de 30 quilômetros em todas as direções ao redor do reator, que ficou conhecida como Zona de Exclusão. Embora o reator tenha sido tampado com toneladas de concreto por cerca de 15 mil trabalhadores, os efeitos da radiação ainda podem ser percebidos no local e por várias partes da Europa. Por todo continente, centenas de casos de deformidades congênitas e de cânceres foram associados a uma possível contaminação pelo acidente de Chernobyl, além de diversos episódios de alimentos com índices de radiação superiores aos esperados.

Resultado de imagem para pripyat
Centro abandonado da cidade de Pripyat

Resultado de imagem para pripyat

Resultado de imagem para pripyat dolls
Devido à gravidade do acidente, moradores precisaram abandonar todos seus pertences pessoais durante os procedimentos de evacuação

Se mesmo fora da área de risco os impactos ainda podem ser sentidos, o que aconteceu dentro da Zona de Exclusão com a biodiversidade local? Os primeiros meses após o desastre foram marcados pelo aparecimento de uma enorme quantidade de animais e plantas mortos na região, em decorrência da exposição direta aos elevados níveis de radiação. Uma floresta local ficou conhecida como “red forest” (floresta vermelha), devido à coloração que suas árvores adquiriram após absorver substâncias radioativas, o que ocasionou a sua morte ao longo das semanas seguintes.

Imagem relacionada
Árvores mortas próximo da Usina abandonada

Todos os cavalos domésticos e a maioria dos cães que permaneceram no local morreram de câncer de tireoide e grande parte das aves nativas tornaram-se inférteis. Os impactos negativos ainda podem ser observados nas populações de aves atuais, que apresentam uma elevada taxa de tumores, deformidades nos bicos e mutações em sua coloração. Estima-se que cerca de 50% da biodiversidade local foi perdida logo após o impacto, mas, recentemente, Pripyat tornou-se uma nova esperança para a conservação.

Resultado de imagem para chernobyl birds
As aves da região apresentam inúmeras mutações como manchas, tumores e deformações físicas

Nos últimos 30 anos, a paisagem de Pripyat foi retomada por árvores, flores e arbustos, que crescem em meio a uma cidade abandonada às pressas. Pesquisas recentes apontam que, apesar da baixa biodiversidade e da redução da fertilidade dos animais locais, as espécies sobreviventes estão tendo um grande crescimento populacional, sobretudo grandes mamíferos como cervos, javalis, ursos, linces, lobos e o raro bisão-europeu. O isolamento mandatório do local impossibilitou a caça de grandes mamíferos que, consequentemente, se multiplicaram na Zona de Exclusão, tornando-se um “Parque Involuntário” (Zona de proteção criada sem intenção direta devido ao abandono de uma área previamente utilizada pelo ser humano).

Resultado de imagem para pripyat
Atualmente, florestas crescem no meio de prédios em Pripyat

Resultado de imagem para pripyat deer
Cervo fotografado em Pripyat pelas armadilhas fotográficas de TREE/RATE

Em 1998, após a constatação de que o local possuía populações viáveis de grandes mamíferos, equipes de conservação internacional soltaram 30 cavalos-selvagens-de-Przewalski (Equus ferus przewalskii) na região. Essa espécie, que se extinguiu na natureza por volta de 1969, conta hoje com diversos programas de reintrodução pelo mundo, sendo o de Chernobyl um dos que apresenta maior sucesso, com uma população ainda crescente.

Imagem relacionada

Resultado de imagem para chernobyl animal tumors
Cavalos-selvagens-de-Przewalski vivem hoje nos arredores de Pripyat

Chernobyl foi, por muitos anos, um sinônimo de destruição ocasionada pelo ser humano. Sua história será lembrada por centenas de anos como um símbolo da destruição e dos efeitos catastróficos da radiação na natureza. Entretanto, Pripyat é, hoje, uma lembrança do poder de recuperação e de regeneração da natureza. Mesmo com níveis elevados de radiação no local ainda hoje, a ausência humana possibilita o florescimento da vida, até mesmo de formas que nunca imaginamos.

Resultado de imagem para chernobyl fox

Essa experiência nos leva a crer que, muitas vezes, a capacidade de recuperação da natureza é maior do que o nosso poder de destruição. Por outro lado, quando o ser humano se propõe a ajudá-la, ela renasce e mostra todo o seu poder de regeneração.

Esse é o primeiro texto da série Energia Nuclear, que tratará os mistérios e desafios dessa nova forma de produção energética. Afinal, devemos optar pela produção de energia limpa se ela pode ser tão perigosa? Descubra nas próximas semanas!

Referências

Sobre os impactos do desastre de Chernobyl e Fukushima

Sobre os impactos na fauna

Sobre a abundância da fauna da Zona de Exclusão de Chernobyl

Vídeo sobre os animais de Chernobyl

Artigo sobre mutações na fauna: Landscape portrait: A lookat the impacts of radioactive contaminants on Chernobyl’s wildlife – Por Timothy A. Mousseau e Anders P. Møller

 

Os 7 principais tipos de PLÁSTICO e o que eles podem fazer com sua SAÚDE!

Os plásticos revolucionaram muitas indústrias por uma série de razões diferentes. Uma das principais inovações do século passado foi a introdução e ampla adoção de plásticos para muitas aplicações diárias, que anteriormente dependiam de materiais tradicionais como metal, vidro ou algodão.  Eles são materiais que resistem à degradação ambiental ao longo do tempo, são econômicos e amplamente disponíveis e são produzidos com uma abundante variedade de propriedades que permitem a sua adaptação a muitas aplicações diferentes.

Usado na fabricação de alguns tipos de embalagens plásticas de alimentos e no revestimento interno de latas, o bisfenol A (BPA, na abreviatura em inglês) já foi proibido, sobretudo em mamadeiras e copos descartáveis, em países como Canadá e Dinamarca, na União Europeia e em 11 estados norte-americanos. O Brasil optou por proibir a importação e fabricação de mamadeiras que contenham Bisfenol A, considerando a maior exposição e susceptibilidade dos usuários deste produto. Esta proibição está vigente desde janeiro de 2012 e foi feita por meio da Resolução RDC n. 41/2011. Segundo os cientistas, o BPA é instável e pode migrar da embalagem para os alimentos. Pesquisas sugerem que o composto é potencialmente cancerígeno e estaria associado a diabetes, infertilidade e problemas cardíacos, entre outros. Ao imitar a ação de hormônios como o estrogênio, o bisfenol funcionaria como um desregulador endócrino.

img_268
Procure pelo selo que demonstra que aquele material não possui Bisfenol A  (BPA)

Hoje, os vários tipos de plásticos utilizados em muitos dos materiais descartáveis, por serem extremamente resistentes, se mantêm por muitos anos no meio ambiente. (Leia nosso texto sobre a poluição plástica.)   Além disso, deve-se saber ao certo quais são nocivos à nossa saúde. Em seguida, encontra-se a lista dos 7 principais materiais plásticos que você deve conhecer:

1. Polietileno tereftalato  (PETE ou PET):

Captura de Tela 2018-07-18 às 19.52.17.png

O PET é o plástico mais produzido no mundo. É usado predominantemente como uma fibra (conhecida pelo nome comercial de “poliéster”) e para engarrafamento ou embalagem, como por exemplo, para água engarrafada, garrafas de refrigerante, embalagens de alimentos para microondas e de detergentes.

Ele é relativamente seguro e é projetado para que as embalagens sejam utilizadas apenas uma única vez.

pet.jpg

Se pudéssemos resumir em três características para descrever os principais benefícios do polietileno em relação a outros plásticos e materiais, seriam:

  • Amplas aplicações como fibra (“poliéster”)
  • Barreira de umidade extremamente eficaz
  • Inquebrável ( Permanece por muitos anos na natureza)

Reciclagem: Amplamente reciclado.

2. Polietileno de alta densidade (PE – HD):Captura de Tela 2018-07-18 às 19.57.55.png

Existem várias variantes diferentes de polietileno. Polietilenos de baixa e alta densidade (LDPE e HDPE, respectivamente) são os dois mais comuns e as propriedades desses materiais variam entre as diferentes variantes.

No caso dos polietilenos de alta densidade, eles podem estar presentes em garrafas de 5 litros ou mais de produtos como leite, suco e água, em embalagens de xampu, em sacolas plásticas, entre outros.

pead-colorido1.jpg

Este plástico é relativamente seguro à saúde.

Reciclagem: Pode ser reciclado.

3. Polivinil Clorado (PVC):Captura de Tela 2018-07-18 às 19.59.30.png

O Cloreto de Polivinila  ou Polivinil Clorado é talvez o mais conhecido, devido ao seu uso em aplicações de construção residencial e comercial. Diferentes tipos de PVC são usados ​​para encanamento, isolamento de fios elétricos, garrafas de água, antissépticos bucais, embalagens de delivery, etc.

O PVC pode conter bisfenol A, chumbo, ftalatos, dioxinas, mercúrio e cádmio. Ele é associado a carcinógenos e disruptores hormonais.

628578495524493.jpg

Se pudéssemos resumir as características do PVC em três tópicos, seriam:

  • Prejudicial à saúde;
  • Rígido (embora diferentes variantes de PVC sejam realmente projetadas para serem muito flexíveis);
  • Durável

Reciclagem: Limitada.

4. Polietileno de baixa densidade (PEBD):Captura de Tela 2018-07-18 às 19.58.08.png

O PEBD é inerte à temperatura ambiente, exceto na presença de fortes agentes de oxidação, havendo também alguns solventes que causem dilatação. Pode suportar de forma contínua temperaturas de até 80 °C e, por curtos períodos de tempo, de no máximo de 95 °C.

Pode-se encontrar esse tipo de material em sacolas plásticas, tampas, papel filme, sacos de lixo, embalagens para alimentos e copos plásticos.

teckflex-embalagens-filme-stretch-filme-stretch-manual-788830-FGR.jpg

Duas expressões para descrever os principais benefícios do polietileno de baixa densidade em relação a outros plásticos e materiais:

  • Flexível e resistente;
  • Relativamente seguro.

Reciclagem: Programas de reciclagem não aceitam  frequentemente itens feitos de PEBD.

5. Polipropileno (PP):Captura de Tela 2018-07-18 às 19.58.22.png

O polipropileno é usado em uma variedade de aplicações, entre elas, embalagens para produtos de consumo, peças plásticas para a indústria automotiva, dispositivos especiais como dobradiças vivas e têxteis. É semitransparente, tem uma superfície de baixo atrito, não reage bem com líquidos, é facilmente reparado contra danos e tem boa resistência elétrica (ou seja, é um bom isolante elétrico). Talvez sua característica mais importante seja que o polipropileno é adaptável a uma variedade de técnicas de fabricação, o que o torna um dos plásticos mais comumente produzidos e altamente exigidos no mercado.

Você pode encontrá-lo em embalagens de margarina, remédios, iogurtes e delivery, além de canudinhos e tampas.

VASOSPOLIPROPILENO.jpg

Duas características para descrever os principais benefícios do Polipropileno em relação a outros plásticos e materiais:

  • Relativamente seguro;
  • Simples de fabricar. 

Reciclagem: A reciclagem de itens de PP tem aumentado nos últimos anos.

6. Poliestireno (PS):Captura de Tela 2018-07-18 às 19.59.44.png

O poliestireno é amplamente utilizado em embalagens sob o nome comercial de “isopor”. Ele também está disponível como um sólido naturalmente transparente, comumente usado para produtos de consumo, como tampas de refrigerantes, copos, pratos, bandeja de ovos,  ou dispositivos médicos, como tubos de ensaio ou placas de Petri.

Muito CUIDADO! O estireno, principal matéria-prima utilizada na produção do isopor, é um composto químico que foi objeto de dezenas de estudos desde que os plásticos foram desenvolvidos. A Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) encara essa substância com algumas suspeitas.

De acordo com a EPA, “vários estudos epidemiológicos sugerem vínculo entre a exposição ao estireno e um aumento no risco de leucemia e linfoma. Entretanto, as evidências não são conclusivas devido à exposição a múltiplas substâncias químicas e a informação insuficiente sobre os níveis e a duração da exposição”.

Após análise de profissionais que têm contato diário com esse produto, a agência percebeu que as pessoas expostas ao poliestireno passaram a sofrer de problemas de saúde como dores de cabeça, depressão, perda auditiva e, até mesmo, problemas neurológicos.

PS.png

Reciclagem: Oportunidades limitadas para reciclagem do Poliestireno.

7. Outros

Captura de Tela 2018-07-18 às 20.00.06.pngOs plásticos que recebem o número 7 se referem a todos os plásticos criados após 1987. Este grupo inclui policarbonato (PC) e o polilactídeo (PLA), que são usados na fabricação de recipientes para alimentos, mamadeiras, copos infantis e garrafas de água reutilizáveis. Plásticos PC contêm bisfenol-A, o que também o torna perigoso. Além disso, a reciclagem para esses plásticos ainda não está disponível.

76549374-56a2acdf3df78cf77278b2eb.jpg

Reciclagem: Plásticos de PLA são feitos a partir de fontes renováveis ​​de plantas, não podendo ser reciclados,  porém, podendo ser compostados.

Como saber qual o tipo de plástico você está utilizando?

Se você quiser descobrir que tipo de plástico está utilizando, basta olhar na embalagem o seu número de referência. Caso você não encontre o triângulo com o número interno, isso significa que o fabricante não se preocupou com esse tipo de informação. Sendo assim, já dá pra imaginar qual foi a preocupação dele com relação à qualidade do produto e de seus possíveis malefícios. Uma boa prática para preservar o meio ambiente e a nossa saúde é, ao comprar produtos plásticos, observar na embalagem que tipo de plástico foi utilizado na sua fabricação. A natureza agradece!

 

 

Referências:

ISO 1043 – 1 ; 2011

Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA)

ANVISA

Blog “Creative Mechanism”

Blog “Vida sustentável”

 

 

Organismos Geneticamente Modificados: Uma ameaça ou uma solução?

Após a descoberta do DNA como sendo uma molécula universal, presente em todos os seres vivos e em sua estrutura, em 7 de Março de 1953, cientistas do mundo todo puderam conhecer e, posteriormente, alterar o material genético dos organismos que conhecemos, para nosso uso, a partir de 1973. Os Organismos Geneticamente Modificados (GMO ou OGM, como são conhecidos), passaram a fazer parte de nossa rotina e alteraram nosso planeta de maneira inimaginável. Mas afinal, até que ponto podemos mudar a natureza? E quais são os riscos do progresso científico?

Imagem relacionada
Roedores geneticamente modificados com capacidade de brilhar no escuro

Os primeiros organismos geneticamente modificados surgiram cerca de 12 mil anos atrás, não no interior de um laboratório, mas sim, em nossas plantações. Quando o Homo sapiens sapiens domesticou as primeiras plantas, ele selecionou aquelas que possuíam características que mais o interessavam. Ele percebeu que, se uma determinada fruta era mais doce que as demais e que, ao plantar apenas suas sementes, as gerações seguintes passariam a possuir frutas mais doces, por exemplo. Plantas como melancia, banana, trigo, milho, couve e tomate não são encontradas no ambiente natural da forma que conhecemos, sendo, muitas vezes, irreconhecíveis.

Resultado de imagem para natural corn
Diferenças de tamanho e aparência do milho natural (Zea luxurians) para o milho moderno (Zea mays) – Imagem por rrunrrun.blogspot.com

Resultado de imagem para artificial selection
Seleção artificial de diferentes partes da mesma planta (Brassica sylvestris) originou várias verduras modernas como o repolho, couve-de-bruxelas, rabanete, couve, brócolis, couve-flor, mostarda, etc. – Imagem do Santa Fe Farmers’ Market Institute

Resultado de imagem para wild banana
Variedades natural e artificial da banana

Resultado de imagem para wild watermelon
Pintura de Giovanni Stanchi do século XVII mostra como a melancia mudou com o passar do tempo

Além disso, ao criar animais e incentivar a reprodução dos mais dóceis, que produzem mais leite ou são mais eficientes, pôde-se gerar animais com inúmeras características tão diferentes de seus ancestrais, que impossibilitava, até mesmo, sua reprodução, surgindo novas espécies. Esse processo, conhecido como seleção artificial, possibilitou que nossos ancestrais, mesmo sem entender as normas por trás da genética e da hereditariedade, pudessem originar animais como lhamas, alpacas, cães, porcos, bois e cavalos.

Resultado de imagem para wolf pug
Diferenças morfológicas entre as subespécies doméstica (cão) e selvagem (lobo) de Canis lupus acima e de carneiros ( gênero Ovis) abaixo

Resultado de imagem para ovis orientalis orientalisResultado de imagem para Welsh Mountain sheep male

Com o surgimento das primeiras plantas geneticamente modificadas no mercado, em 1983, e dos primeiros animais, em 1985, grande parte da população acusou esses produtos de serem extremamente artificiais e, portanto, de não serem apropriados para o consumo humano. Entretanto, os homens vêm alterando animais e plantas para seu próprio benefício há milhares de anos, o que torna praticamente todos os nossos organismos domésticos artificiais. Então, quais são os verdadeiros problemas?

Resultado de imagem para transgenicos
Símbolo de Alimento Transgênico, encontrado em diversas embalagens

Primeiramente, vale ressaltar que, em muitos casos,  apenas grandes agricultores têm acesso a essa tecnologia, devido ao seu alto preço de mercado. Nos últimos anos, avanços na tecnologia genética puderam reduzir drasticamente o preço de mercado de plantas transgênicas, mas empresas como a Monsanto apostam em organismos estéreis (Genetic use restriction technology), com os quais o agricultor irá realizar apenas uma colheita e não conseguirá germinar uma segunda geração. Em teoria, esse mecanismo foi criado para impedir que plantas geneticamente modificadas se espalhassem pelo meio natural, mas essa técnica mostrou-se falha.

Resultado de imagem para terminator seeds
As chamadas “Terminator Seeds” feitas à partir do Genetic use restriction technology impedem o plantio de novas gerações à partir das sementes plantadas, o que obriga o consumidor a comprar mais sementes das empresas distribuidoras

Outro forte argumento contra os OGM’s é seu risco à saúde humana. Muitas pessoas alegam que seu consumo pode trazer graves consequências, como câncer e alergias severas. Entretanto, após mais de 30 anos de uso e dezenas de pesquisas, constatou-se que, no geral, plantas geneticamente modificadas tendem a ser tão seguras quanto plantas “naturais”. Historicamente, foram constatados casos de alergias a plantas transgênicas em pessoas do mundo todo. Na verdade a alergia era ao organismo que forneceu genes responsáveis pela formulação de uma proteína específica da planta, mas esses  produtos foram rapidamente removidos do mercado.

Resultado de imagem para transgenic allergies

Entretanto, existe um perigo real com relação aos GMO’s : os pesticidas. Em teoria, podemos criar plantas resistentes a pragas ou a doenças específicas manipulando-as geneticamente, o que reduziria drasticamente a demanda por agrotóxicos em todo mundo. Empresas de menor porte rapidamente começaram a vender esses produtos, enquanto a Monsanto, líder de venda do mercado de sementes e defensores agrícolas, criou plantas que, ao invés de serem resistentes às pragas, são mais resistentes aos agrotóxicos. Hoje, cerca de 90% das grandes plantações dos Estados Unidos utilizam plantas resistentes a herbicidas e, consequentemente, seu uso e absorção pela planta são elevados, o que oferece risco à saúde da população e, mais ainda, ao meio ambiente, impactando campos, florestas, cursos d’água e populações de polinizadores.

Resultado de imagem para agrotoxicos
Agrotóxicos oferecem inúmeros riscos ambientais e à saúde da população, especialmente aos trabalhadores de lavouras – Imagem do jornal O Globo

Então, o que podemos ganhar com os organismos geneticamente modificados? Enquanto grandes empresas tentam monopolizar o mercado e forçar agricultores a utilizarem seus produtos, alguns pesquisadores criaram plantas que podem ser a solução para diversos problemas. O arroz-dourado, por exemplo, foi geneticamente criado para ser mais nutritivo e saudável, sobretudo para as populações mais pobres. Ao adicionar genes precursores de betacaroteno nessa planta, seus grãos tornaram-se fontes de vitamina A, essencial para o crescimento e desenvolvimento de crianças. O tomate-roxo, por outro lado, foi criado com pigmentos antioxidantes presentes em mirtilos, o que confere uma cor característica e diversos benefícios para a saúde de seus consumidores.

Resultado de imagem para golden riceResultado de imagem para tomate roxo

Além disso, esses organismos podem ser utilizados para solucionar problemas ainda maiores. Recentemente, plantas resistentes à seca vêm sendo produzidas em diversas partes do mundo, o que aumenta a produtividade de pequenos agricultores e evita o desperdício. A produção de árvores resistentes a pragas está sendo, nos últimos anos, a solução para conservação de florestas em algumas regiões dos Estados Unidos e da Ásia, o que mostra um enorme potencial na conservação de espécies ameaçadas do mundo todo.

Resultado de imagem para gmo chestnut e
Centenas de castanheiras-americanas (Castanea dentata) geneticamente modificadas serão introduzidas na natureza para contenção de pragas fúngicas

Por fim, a manipulação genética pode, inclusive, ser utilizada para a erradicação de vetores como o Anopheles, espécie de díptero responsável por transmitir a malária ao ser humano. Ao criar mosquitos imunes à doença por um gene dominante, espera-se que esse gene seja, ao longo do tempo, encontrado na maior parte da população de mosquitos, erradicando a doença nos próximos anos. A soltura desses mosquitos em larga escala ainda não foi aprovada devido a seus riscos, mas espera-se que essa seja uma solução para essa doença que mata milhões de pessoas anualmente.

Resultado de imagem para gmo mosquitoes anopheles
Anopheles, mosquito responsável pela transmissão da malária

Existe hoje no mercado uma substância utilizado por milhares de pessoas diariamente feita à base de um organismo transgênico: a insulina humana. No passado, pacientes portadores de diabetes tipo 1 utilizavam insulina retirada diretamente de porcos, o que gerava alguns efeitos colaterais no ser humano. Na década de 70, pesquisadores criaram bactérias Escherichia coli com genes humanos responsáveis pela produção desse hormônio e ainda são utilizadas no mundo todo para produzir a insulina comercial, salvando milhares de vidas anualmente. Mais de 400 produtos médicos são gerados hoje à partir de organismos transgênicos, dentre eles a vitamina C e medicamentos contra a AIDS.

Resultado de imagem para insulina

As possibilidades com a manipulação genética são infinitas, mas assim também são seus riscos. Essas tecnologias podem ser utilizadas para beneficiar, não somente a nossa sociedade, mas nossa biosfera como um todo. Infelizmente, os OGM’s ainda não estão sendo bem empregados mas, através do conhecimento e da mudança de hábitos, poderemos criar um mundo mais saudável, mais seguro e cada vez mais natural.

Referências

História dos OGM’s:

From Corgis to Corn: A Brief Look at the Long History of GMO Technology

Sobre a segurança dos OGM’s :

An overview of the last 10 years of genetically engineered crop safety research

Consumer Info About Food from Genetically Engineered Plants

Challenging Evolution: How GMOs Can Influence Genetic Diversity

Frequently asked questions on genetically modified foods – Organização Mundial da Saúde

How the Federal Government Regulates Biotech Plants 

Celebrating a Milestone: FDA’s Approval of First Genetically-Engineered Product

Sobre os OGM’s:

Genetically Engineered Crops – Experiences and Prospects

These vitamin-fortified bananas might get you thinking differently about GMOs

Genetically-modified purple tomatoes heading for shops

New genetically engineered American chestnut will help restore the decimated, iconic tree

Visiting Tanzania’s first-ever GMO crop trial

Insulina: “um dos primeiros trangênicos do mundo”

 

 

 

 

 

 

 

Buraco na Camada de Ozônio: foi apenas uma modinha?

Há um tempo não se fala mais sobre o buraco na camada de ozônio e os riscos que ele pode oferecer. Já imaginou um mundo no qual você não conseguiria sair na rua sem adquirir uma queimadura na pele ou mesmo correr sérios riscos de ter um câncer de pele futuramente?

No início do século XX, a General Motors criou uma substância chamada de clorofluorcarboneto, ou CFCs, que era praticamente um milagre, já que não era tóxica ou inflamável, era barata e muito utilizada para vários propósitos, como spray de cabelo, geladeiras, extintores, agente resfriador de ar condicionado, etc. Os gases CFCs começaram a ser empregados em muitas coisas, sem a preocupação de qual seriam as possíveis consequências desse uso exacerbado.

Captura de Tela 2018-07-04 às 21.31.25
Cloro se ligando ao átomo de oxigênio.

Somente em 1974 percebemos que esse composto estava se acumulando na estratosfera, transformando-se, por reações químicas, em cloro e, para isso, consumindo o ozônio.

Produção Global de CFC
Produção Global de CFC

O ozônio tem funções diferentes na atmosfera, de acordo com a altitude em que se encontra. Na estratosfera, o ozônio é criado quando a radiação ultravioleta, de origem solar, interage com a molécula de oxigênio, quebrando-a em dois átomos de oxigênio (O). O átomo de oxigênio liberado une-se a uma molécula de oxigênio (O2), formando, assim, ozônio (O3). Na região estratosférica, 90% da radiação ultravioleta do tipo B é absorvida pelo ozônio.

Portanto, uma das alternativas para que esse ozônio parasse de ser consumido seria conter a utilização dos CFCs que o consumiam. E como uma surpreendente reviravolta para a humanidade, nós fizemos a coisa certa.

aerosols-depositphotos-carousel-1580x530.jpg

Nesse mesmo ano de 1974, Mario Molina e Sherwood Rowland, dois químicos da Universidade da Califórnia, em Irvine, publicaram um artigo na Nature detalhando as ameaças dos gases clorofluorcarbonos (CFC) à camada de ozônio . Depois disso, uma grande empresa estadunidense chamada SC Johnson, voluntariamente e muito espertamente, removeu os CFCs de seus produtos aerossóis, com a alegação de ser uma empresa ecologicamente correta e utilizando essa atitude a seu favor. Poucos anos depois  e após muito debate, a Agência de Proteção do EUA proibiu todos os tipos de aerossóis.

Sendo assim, muitas empresas, incluindo a SC Johnson, de maneira astuciosa, viram um novo mercado surgir e, a partir de então, começaram a vender produtos alternativos ao CFC para outros países que ainda não o haviam proibido. Nesse meio tempo, em 1984, foi identificado um enorme buraco na camada de ozônio e o mundo começou a pressionar  as autoridades para que um acordo global fosse traçado.

Finalmente, em 1987, foi firmado o Protocolo de Montreal, sendo o primeiro tratado internacional traçado em decorrência de uma ameaça mundial e o único acordo ambiental multilateral, cuja adoção é universal: 197 estados assumiram o compromisso de proteger a camada de ozônio. O tratado entrou em vigor em 01 de janeiro de 1989 e os países signatários se comprometeram a reduzir progressivamente a produção e consumo das Substâncias que Destroem a Camada de Ozônio (SDOs), até sua total eliminação.

the-ozone-layer-diagram-explained-map-helper
Camada de Ozônio

No Brasil o consumo de CFC como propelente em aerossóis sanitários, perfumes, inseticidas e outras aplicações foi banido por meio da Portaria ANVISA nº. 534, de 19 de setembro de 1988, antes mesmo de o Brasil ter ratificado o Protocolo de Montreal.

Em virtude da Resolução CONAMA nº. 267, de 14 de setembro de 2000, foi proibida a importação de CFCs a partir de janeiro de 2001, com exceção do CFC-12, utilizado para a manutenção de equipamentos, que somente em 2007 foi proibido.

O gráfico a seguir apresenta a tendência de recuperação da camada de ozônio esperada nos próximos anos:

Captura de Tela 2018-07-04 às 21.16.23
Tendência da recuperação da Camada de Ozônio

Somente com a proibição da substância que estava trazendo malefícios ao nosso planeta, já estamos conseguindo enormes avanços.

“O buraco da camada de Ozônio está aumentando mais tardiamente. Todas as medidas são independentes e, quando todas apontam para essa cura, é difícil imaginar qualquer outra explicação ”.  Susan Solomon

 

news-2016-06-30-01-ozone-antarctica.jpg

Após três décadas de observação, os cientistas finalmente encontraram as primeiras impressões digitais de cura no notório buraco de ozônio localizado no hemisfério sul.

Essa descoberta sugere que a cura do ozônio está evoluindo de acordo com o cronograma esperado. A produção de CFCs cessou na década de 1990, mas essa substância tem uma vida útil de 50 a cem anos, de modo que as moléculas de cloro produzidas nos anos 70 e 80 ainda estão pairando na atmosfera. Ainda assim, essa ótima notícia é resultado de décadas de trabalho de cientistas, engenheiros e diplomatas em todo o mundo.

 “Tem sido uma história bastante notável. Isso nos dá esperança de que não devemos ter medo de enfrentar grandes problemas ambientais.”  Salomon

O que podemos aprender  com tal experiência? Que a união de vários países pode ser utilizada como forma de minimizar as mudanças climáticas e reduzir o plástico que estamos gerando diariamente e que tem chegado aos oceanos.

As mudanças significativas que foram feitas até aqui em relação à camada de ozônio estão evitando um futuro terrível. Isso mostra que a conscientização das pessoas e a união de todos os povos podem, sim, mudar o final da história. Vamos começar agora?

 

 

 

Para saber mais sobre o assunto leia nossos outros textos listados abaixo:

NÃO queremos salvar o Planeta!

É possível utilizar somente ENERGIA RENOVÁVEL no planeta?

O planeta está aquecendo ou resfriando?

 

 

 

 

 

 

Referências :

RESOLUÇÃO CONAMA no 267, de 14 de setembro de 2000

 

Site GRID – Arendal 

Site do Ministério do Meio Ambiente – Brasil

Axelrod, Regina S., and Stacy D. VanDeveer. The Global Environment: Institutions, Law, and Policy. Fourth ed., SAGE Publ., 2015.

Chasek, Pamela S., et al. Global Environmental Politics: Dilemmas in World Politics. Seventh ed., Westview Press, 2017.

Protocolo de Montreal: https://treaties.un.org/doc/Publication/UNTS/Volume%201522/volume-1522-I-26369-English.pdf

Informações NOAA CFCs: https://www.esrl.noaa.gov/gmd/hats/publictn/elkins/cfcs.html

Zoológicos devem ser proibidos?

Zoológicos são locais específicos para se manter animais selvagens que podem ser exibidos ao público. Por muito tempo, foram marcados por abusos e maus tratos e, ainda hoje, são frequentemente denunciados pelo mesmo motivo. Porém, devemos proibi-los?

As primeiras coleções de animais do mundo foram criados em 3500 A.C., em uma área correspondente ao atual Egito. Inicialmente, esses locais eram construídos para proteger animais considerados sagrados e para demonstrar poder, uma vez que apenas a nobreza poderia manter esses recintos. Essa prática tornou-se comum em diversas civilizações antigas, com destaque para a China, Índia, Mesopotâmia, Pérsia e, posteriormente, a Roma Antiga, onde os animais eram guardados principalmente para serem apresentados em lutas que aconteciam nas arenas e no Coliseu.

Imagem relacionadaImagem relacionada

Durante a Idade Média (entre os séculos V e XV), essa tradição se manteve em diversas regiões da Ásia, África e, sobretudo, na Europa, onde esses locais receberam o nome de Menagerie. Esses espaços privados, geralmente, estavam associados a famílias reais, que construíam exposições privadas de espécies exóticas, geralmente relacionadas a seus castelos, com destaque para a Torre de Londres no século XIII e para o Palácio de Versalhes, no século XVII. Nesses ambientes, os animais viviam confinados em pequenos espaços e eram submetidos a diversos tipos de abuso, principalmente os grandes predadores, como ursos e leões.

Representação do Menagerie da Torre de Londres

O conceito atual de zoológico surgiu em 1752, em Viena, no Tiergarten Schönbrunn (zoológico que ainda se encontra aberto nos dias de hoje), após a abertura do local para a visitação de toda a população, e não mais apenas da aristocracia. Rapidamente, os zoológicos tornaram-se um símbolo de ostentação e poder, não só para a nobreza, mas também para a burguesia da época. Até o século XX, donos de zoológicos pagavam caçadores profissionais para perseguir e capturar animais selvagens de diversas regiões do mundo, visando aumentar suas coleções e, mais recentemente, para proteger espécies raras, apesar do seu pouco tempo de vida em cativeiro, devido às suas péssimas condições de vida. Em diversas partes do mundo, animais extintos na natureza ainda viveram em zoológicos por muitos anos, o que moldaria esses ambientes no próximo século.

Resultado de imagem para last thylacine
Último tigre-da-tasmânia conhecido morreu em 7 de setembro 1936 em um zoológico da Alemanha

A partir de 1970, muitos zoológicos do mundo criaram programas de conservação visando, além da preservação de exemplares vivos, à reprodução de espécies em cativeiro, com programas de intercâmbio de animais entre essas instituições. A captura de espécies exclusivamente para expandir as coleções de zoológicos cessou e os recintos passaram a ser ampliados para garantir melhores condições de vida para os animais. Mesmo assim, centenas de casos de maus tratos a animais em zoológicos vão parar na mídia todos os anos, com destaque para zoológicos do leste europeu e do sudeste asiático, o que levanta a seguinte dúvida: zoológicos valem a pena?

Primeiramente, vale ressaltar que não existe algo como “zoológicos bons” e “zoológicos ruins”. Embora algumas dessas instalações tenham fama internacional devido aos esforços de conservação e outras sejam processadas constantemente por abusos, a diferença entre elas costuma ser bem mais tênue. Diversos zoológicos foram abandonados nos últimos anos devido às guerras e conflitos armados, deixando seus animais morrerem de fome e de sede, enquanto em outros, os animais apanham ou são torturados caso o seu comportamento não seja adequado conforme julgam os tratadores ou durante as exibições para os visitantes. Casos recentes, como o do gorila morto a tiros no zoológico de Cincinnati, nos Estados Unidos, além de denúncias contra o SeaWorld e contra o San Diego Zoo levantaram diversos debates sobre a ética por trás de animais mantidos em cativeiro.

Resultado de imagem para giraffe killed zoo
Corpo de girafa morta em zoológico da Dinamarca por tratadores para evitar cruzamento consanguíneo foi jogado aos leões, o que despertou grande revolta na população local.

Por outro lado, esforços de conservação devem também ser levados em conta. Atualmente, mais de 90% dos animais mantidos em zoológicos na Europa nasceram em cativeiro, embora apenas 10% represente espécies ameaçadas. Nos últimos anos, 33 espécies já extintas na natureza mantiveram populações relativamente estáveis em cativeiro, devido a programas de conservação realizados por zoológicos. O órix-cimitarra (Oryx dammah), por exemplo, desapareceu da natureza no ano 2000, mas cerca de 15 mil animais ainda vivem em coleções privadas e em zoológicos e, futuramente, poderão ser reintroduzidos em seu ambiente natural. Esforços dessas instituições conseguiram, também, preservar até o ano de 2018 os últimos rinocerontes-brancos-do-norte existentes. Infelizmente o último macho dessa espécie morreu esse ano, mas seu legado será eternamente lembrado na história da preservação de espécies em extinção.

Resultado de imagem para órix cimitarra
Órix-cimitarra, espécie extinta na natureza – Foto pela Exotic Wildlife Association

Uma das maiores ameaças para a fauna, atualmente, é o tráfico internacional. Somente no Brasil, entre 12 e 38 milhões de animais são retirados da natureza por ano para serem vendidos no mercado ilegal. Diversos bichos apreendidos vão parar em zoológicos, onde viverão o resto de suas vidas, uma vez que sua devolução para o ambiente natural é um processo delicado e que demanda muitos recursos. A proibição de zoológicos poderia, portanto, condenar milhares de animais à morte anualmente.

DSC_7383.JPG
Mico-leão-dourado, espécie frequentemente vítima do tráfico – Foto por Pedro Henrique Tunes tirada no Zoológico de Belo Horizonte

Por fim, zoológicos são essenciais para a conscientização ambiental. Ao conhecer uma determinada espécie, a população tende a ter mais empatia com programas de conservação destinadas a ela e a condenarem atividades que coloquem a sua vida em risco. Após a abertura do  Centro de Pesquisa e Reprodução de Pandas-gigantes de Chengdu, na China, as doações para o local aumentaram exponencialmente nos anos seguintes, o que forneceu mais recursos para as instalações, possibilitando que esse animal saísse da lista de espécies ameaçadas.

Resultado de imagem para Chengdu pandas
Pandas-gigantes no Centro de Pesquisa e Reprodução de Pandas-gigantes de Chengdu – Por China Discovery

Então, devemos condenar diversos animais a uma vida em cativeiro para o bem estar de sua espécie? Temos o direito de permitir que alguns animais sejam torturados pelo bem de outros? E ainda, temos o direito de intervir nos zoológicos, uma vez que a sua existência é um aspecto cultural de diversos países? Não pretendemos, com esse texto, dar essas respostas, mas deixar uma reflexão baseada em experiências pessoais:

Na semana passada, tive a oportunidade de conhecer o Zoológico Nacional de Chile, em Santiago. Localizado no Parque Metropolitano e inaugurado em 1925, o parque conta com mais de 1000 animais, de 158 espécies diferentes. À primeira vista, o local parece um verdadeiro paraíso para seus moradores,  distribuídos em recintos interativos e com diversos enriquecimentos ambientais. Apesar dos cenários espetaculares, foi outra coisa que me chamou a atenção.

DSC_7766.jpg
Lêmures-de-cauda-anelada no Zoológico Nacional do Chile – Foto por Pedro Henrique Tunes

Além da enorme diversidade de animais pouco comum em zoológicos brasileiros, como bongos, suricatos, ursos e porcos-espinho, ele não só possui uma enorme diversidade de animais chilenos, como também diversos programas de reprodução e de reintrodução desses animais, com destaque para o condor-dos-andes, para a rã-de-Darwin (Rhinoderma darwinii) e para o pinguim-de-Humboldt (Spheniscus humboldti), sua principal atração. Seus esforços têm ajudado a recuperar as populações dessas três espécies, que, infelizmente, ainda enfrentam ameaças externas.

DSC_7800.jpg
Pinguim-de-Humboldt, espécie protegida pelo Zoológico Nacional do Chile – Foto por Pedro Henrique Tunes

Portanto, creio que zoológicos podem, sim, ter suas vantagens, caso seus recursos sejam bem empregados e seu trabalho de conscientização ambiental seja realizado, juntamente com os cuidados para o bem estar animal. O zoológico de Belo Horizonte, por exemplo, possui vários programas de reprodução de animais nativos, que, lamentavelmente, vêm sofrendo com cortes de verbas governamentais.

O fato é que os zoológicos devem existir para garantir a preservação, conscientização e o bem estar animal, devendo ser utilizados como aliados, e não como vilões, para a conservação de nossa fauna.

 

 

Referências

Texto “Are zoos good or bad” do How Stuff Works

Texto “HISTORY OF ZOOS” do canal CBD

Livro “Imperialismo Ecológico”, de Alfred W. Crosby

Documentário “Blackfish” sobre a captura de orcas e os maus tratos no SeaWorld

Notícias:

Gorila morto a tiros em zoológico :https://www.bbc.com/news/world-us-canada-36407643

Girafa morta em zoológico: https://www.bbc.co.uk/news/science-environment-26118748

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Que medidas o Poder Público vem adotando em relação à sustentabilidade?

Já não é novidade pra ninguém que a preservação do meio ambiente é responsabilidade de todos, incluindo pessoas físicas, empresas, órgãos públicos, sociedades civis, entre outros. De acordo com o site do Ministério do Meio Ambiente (MMA) do Governo Federal, a responsabilidade socioambiental está ligada a ações que respeitam o meio ambiente e a políticas que tenham como um dos principais objetivos a sustentabilidade.

Cada vez mais, a preocupação com o meio ambiente vem se tornando tema frequente nas ações governamentais. Nesse sentido, o poder público exerce um papel fundamental na regulamentação e na fiscalização das empresas do setor privado, com vistas a minimizar os impactos provocados pelas atividades desenvolvidas pelas mesmas no meio ambiente. Mas o que as organizações públicas estão fazendo para diminuir os impactos ambientais dentro de sua própria estrutura?

Todos sabem que a Administração Pública age conforme uma grande empresa geradora de empregos e provedora de serviços públicos. Mas ao exercer suas atribuições, o poder estatal impõe aos seus usuários procedimentos burocráticos, como a abertura de processos, apresentação de formulários, alvarás, atestados, contratos, certidões, guias, notas fiscais e uma gama de documentos relacionados com as diversas atividades do setor público.

Burocracia II

Além disso, para implementar seus programas governamentais a máquina pública demanda gastos expressivos com energia elétrica, água, combustível, material de consumo, telefonia, etc. Mas, além dos gastos necessários, o desperdício ainda é um problema nesse setor. Quantas vezes não saímos à noite em nossa cidade e nos deparamos com prédios públicos totalmente iluminados, mesmo sabendo que nesse período não há ninguém trabalhando nesses locais?

Cidade_Administrativa_MG
Cidade Administrativa Presidente Tancredo Neves – Sede Oficial do Governo de Minas Gerais

Em primeiro lugar, é necessário que o poder público se volte para as questões ambientais e chame para si a responsabilidade de planejar suas ações com esse foco, bem como de conscientizar seus servidores com vistas a combater o desperdício.

reinaldo_panfleo_frente-1-288x399

Outro mecanismo recomendável para minimizar os impactos ambientais no setor público diz respeito à gestão de documentos, conjunto de procedimentos técnicos e operacionais referentes às atividades de produção, tramitação, classificação, avaliação e arquivamento dos documentos nas fases corrente e intermediária, visando sua eliminação ou recolhimento à guarda permanente. O apropriado gerenciamento de documentos nos órgãos públicos pode levar à substituição dos procedimentos burocráticos, realizados de maneira presencial, pelo processamento on-line, mais ágil e econômico.

banner_portalpbh (1) - Cópia

Além disso, com a produção e captação de documentos diversos, gerenciar tantos papéis é um grande desafio para a Administração Pública. A implantação de um sistema que permita a utilização de documentos eletrônicos pode ser empregada, com a devida validação, tendo em vista que a documentação oficial tem algumas restrições referentes às características necessárias para o caráter oficial dos documentos. Esse recurso também diminui, de forma substancial, o volume de papel utilizado.

Uma boa prática nesse sentido ocorreu no Poder Judiciário, com a criação do Processo Judicial eletrônico (PJe), sistema de informação desenvolvido pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) em parceria com os tribunais de justiça, permitindo a instauração e o acompanhamento do ato processual em meio eletrônico. Uma estudo realizado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), encomendado pelo CNJ, constatou que as Ações na Justiça por meio do PJe tiveram tramitação mais rápida e de menor duração em comparação aos processos físicos, indicando um ganho de eficiência considerável. Mas, na minha opinião, o maior ganho se deu em relação à significativa redução na quantidade de papel utilizada, ao contrário da que os processos físicos demandavam.

images

Outra experiência interessante ocorreu na Prefeitura Municipal de Belo Horizonte (PBH) com a edição da Portaria Nº 6.701/2015, que adotou como padrão, no âmbito da Administração Municipal, a impressão “frente e verso” dos documentos e expedientes emitidos pelos setores que possuem impressoras com a referida função. Essa atitude pode gerar uma economia de até 50% no gasto com papel.

Mais uma forma sustentável a ser adotada pela Administração Pública diz respeito à utilização de papéis recicláveis. Você sabe qual a quantidade de árvore é necessária para a produção de papel comum? Considerando que uma árvore da espécie eucalipto, que é a mais utilizada no Brasil para a fabricação de papel, é capaz de produzir 20 resmas de papel do tamanho A4 com gramatura de 75 g/m² e que cada resma possui 500 folhas de papel, então 20 resmas possuem 10 mil folhas. Sendo assim, se uma árvore é capaz de produzir 10 mil folhas, isso significa que para produzir uma folha de papel é necessário 1/10.000 de árvore. Esse valor pode parecer insignificante mas, em longa escala, a fabricação de papel representa o corte de milhares de árvores, ainda que provenientes de reflorestamento. Já para a fabricação do papel reciclado não é necessário novo plantio ou derrubada de árvores, ou seja, a utilização desse tipo de papel diminui o desmatamento e ajuda a proteger o meio ambiente.

reciclagem1

Outro exemplo positivo refere-se ao Termo de Cooperação Técnica assinado entre o Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais (TRE-MG), Tribunal Regional do Trabalho (TRT – 3ª Região), Justiça Federal – Seção Judiciária de Minas Gerais, Tribunal de Justiça Militar de Minas Gerais (TJMMG), Tribunal de Contas de Minas Gerais (TCE-MG), Ministério Público de Minas (MPMG), Defensoria Pública de Minas Gerais (DPMG), Defensoria Pública da União (DPU) e Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) para a criação da Rede Sustenta Minas. Esse termo de cooperação tem como objetivo a instituição de um comitê de trabalho interinstitucional, com vistas ao estabelecimento de colaboração entre os órgãos e instituições participantes, visando ao intercâmbio de experiências e informações para a implementação de programas e ações de responsabilidade socioambiental. Ao compor a rede, os integrantes se comprometeram a criar grupos de cooperação nas áreas de racionalização e redução de custos, construções sustentáveis, capacitação e produção científica, destinação adequada de resíduos, compras sustentáveis e compartilhadas e qualidade de vida. No dia 05 de junho de 2018 foi realizado o I Seminário Rede Sustenta Minas, com o objetivo, dentre outros, de apresentar e divulgar boas práticas desenvolvidas pelos órgãos que compõem a Rede.

BANNER_Seminário-Rede-Sustenta-Minas-01

Finalmente e não menos importante temos as compras públicas sustentáveis, previstas no artigo 3º da Lei nº 8.666/1993 (Lei de Licitações), alterado pela Lei nº 12.349/2010. De acordo com o referido artigo, a licitação destina-se a garantir a observância do princípio constitucional da isonomia, a seleção da proposta mais vantajosa para a administração e a promoção do desenvolvimento nacional sustentável. Conforme a Cartilha do Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES), licitações sustentáveis são licitações realizadas pela Administração Pública segundo critérios que visam minimizar impactos sobre o meio ambiente e a saúde humana.

As contratações públicas sustentáveis abrangem áreas como a aquisição de computadores verdes, equipamentos de escritório feitos de madeira certificada, papel reciclável, transporte movido à energia mais limpa, alimentos orgânicos, eletricidade produzida por fontes de energia renováveis, sistemas de ar condicionado de acordo com as soluções ambientais ecologicamente mais evoluídas, bem como a contratação de edifícios energeticamente eficientes.

Nesse contexto, pode-se destacar o próprio Banco Nacional do Desenvolvimento que implantou, desde 2011, a Política de Compras Sustentáveis do BNDES, tendo sido adotadas as seguintes medidas a partir de então: separação de resíduos recicláveis, adoção de medidas para o consumo de energia e de água, aquisição de canecas para reduzir o consumo de copos plásticos, adoção de critérios de sustentabilidade em procedimentos licitatórios, dentre outros.

Como se pode ver, a questão ambiental não se restringe mais ao campo ideológico, passando a se apresentar como obrigatória perante a sociedade e também perante o poder público. Cada vez mais se torna imprescindível reconhecer que a adoção de práticas sustentáveis beneficia toda a coletividade e que a Administração Pública tem função primordial, seja no âmbito da regulamentação, da fiscalização, das aquisições governamentais e da disseminação dos conceitos e ações de sustentabilidade na sociedade.

Referências:

Site http://www.mma.gov.br

Site http://www.pensamentoverde.com.br

Site portal6.pbh.gov.br/dom

Site www.tjmg.jus.br

Site http://www.bndes.gov.br

Site http://www.planalto.gov.b

 

Sobre a autora:

Cássia Tunes é graduada em Ciências Contábeis pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Especialista em Administração Pública pela Faculdade Senac Minas Gerais e Pós-graduanda em Direito Público pelo Centro de Atualização em Direito – CAD em parceria com a Universidade FUMEC.

Plástico: Uma Triste Realidade!

 

Já imaginou quanto plástico tem no oceano? Muitas vezes em nossas vidas ouvimos dizer que o oceano é uma grande imensidão e que não sabemos o que está escondido em suas profundezas. Porém essa vastidão é finita e não fazemos ideia da quantidade de lixo que produzimos diariamente. Nos últimos 10 anos, fabricamos e consumimos mais plástico que no último século. Metade do que foi fabricado é considerado descartável, mas seria inteligente fabricar algo descartável de um material quase indestrutível?

Sacola plástica no oceano - Poluição plástica

Os plásticos estão em toda parte. Enquanto você está lendo este artigo, provavelmente vários itens de plástico estão ao seu alcance (seu computador, sua caneta, seu telefone). Um plástico é qualquer material que pode ser adaptado ou moldado em qualquer forma.

A principal matéria-prima dos plásticos é o petróleo, elemento rico em carbono. Os plásticos são polímeros constituídos de unidades repetitivas de compostos menores contendo carbono, chamados monômeros. Com a combinação de vários tipos de monômeros em diferentes arranjos é possível fazer uma variedade quase infinita de plásticos. A maioria deles é inerte: você pode armazenar álcool, sabão, água, ácido ou gasolina em um recipiente de plástico sem dissolver o próprio recipiente. Esse material revolucionou o mundo.

petralon_hero2.jpg

Cerca de 240 bilhões de litros de petróleo são usados diariamente apenas para atender à demanda para a fabricação de garrafas plásticas de água para os Estados Unidos, mas 90% delas são usadas apenas uma única vez. Isso corresponde a 2 milhões de toneladas de plástico indo para aterros no país ou caindo nos rios e no mar.8687410631_1d611b2b64_z.jpg

Somente neste ano, todo homem, mulher e criança irá descartar cerca de 136 quilos de plástico. Esse material pode ser considerado maravilhoso do ponto de vista da durabilidade. Por outro lado, também pode ser encarado como terrível, pois quase todo plástico que foi fabricado até hoje ainda está presente no Planeta, sem se decompor. A previsão menos pessimista é que em 2050, quando a população mundial chegar a 10 bilhões de pessoas, espera-se que a produção de plástico tenha triplicado e que a quantidade desse material e de peixes nos oceanos seja a mesma. O grande problema é que, hoje, apenas uma fração do plástico que usamos é reciclada e o resto chega até o meio ambiente.

Mais de 80% do plástico encontrado nos mares vem da terra. Ainda que você não viva próximo ao oceano, o mais provável é que o seu lixo plástico já tenha, de alguma maneira, chegado ao mar. É simples pensar que em todo esgoto não tratado há lixo e que dentro do lixo há muito plástico. O lixo que não continua nas ruas ou que afunda nos sedimentos dos rios flutua pelos canais fluviais através do leito principal da bacia hidrográfica até o oceano Atlântico. Hoje, já foi descoberto que no Mar Mediterrâneo há uma proporção de 1 para 2 plásticos por plâncton, conjunto de organismos de extrema importância para o ecossistema aquático.

Ocean-Plastic-Yuck.jpg

Nossos oceanos são guiados por cinco grandes correntes oceânicas, resultantes da rotação da Terra e dos ventos predominantes. Elas coletam o lixo que vem da foz dos rios, que chega ao mar, e eventualmente tudo que está no sistema acabará chegando nelas. Essas correntes formam espirais que acumulam tudo aquilo que vem com elas em um enorme redemoinho acumulador de lixo. Descobridor do aterro marinho gigante, também chamado de “vórtice de lixo”, o oceanógrafo norte-americano Charles Moore acreditava que estaria reunida naquelas águas cerca de 100 milhões de toneladas de detritos – que vão desde blocos de brinquedos Lego até bolas de futebol e caiaques. “A ideia original que as pessoas tiveram foi que era uma ilha de lixo plástico sobre a qual você quase poderia andar”, observa Marcus Eriksen, diretor de pesquisas da Algalita Marine Research Foundation, organização norte-americana criada por Moore. “Não é nada disso. É quase uma sopa plástica.”.

spd0816_garbagepatch_1_0
Cinco principais áreas de acúmulo de lixo nos oceanos.

Os plásticos de alta densidade, usados para a fabricação de produtos para consumo, são quebrados pelo sol, pela água salgada e por pequenos animais em pequenas partículas chamadas de microplásticos, que podem ser consumidos por microorganismos que não conseguem quebrá-las, como os plânctons. Os microplásticos possuem superfície irregular e absorvem substâncias tóxicas que vêm juntamente com os resíduos. As partículas plásticas são consumidas pelos plânctons, que servem de alimentos para camarões que, por sua vez, são comidos por peixes, até pararem em nossa mesa. Além disso, muitos microplásticos são confundidos com os próprios plânctons e, dessa forma, podem se bioacumular em toda a cadeia alimentar.

Em um estudo da Scientifics Reports, pesquisadores examinaram 76 peixes para consumo humano na Indonésia e 64 na Califórnia. Foram encontrados plásticos em ambos. Quase um quarto apresentava detritos antropogênicos, tendo sido encontrado plástico em uma amostra da população da Indonésia, bem como plástico e fibras têxteis na população americana. Ao coletar amostras de mexilhões na costa da França, Bélgica e Holanda, foi detectado que os microplásticos estavam presentes em todos os organismos examinados.

shanghaitrash-compressor
Caminho do plástico que sai da Ásia criando a Grande Porção de Lixo do Pacífico.

Enquanto isso, estima-se que o plástico dos oceanos mate milhões de animais marinhos todos os anos. Quase 700 espécies, incluindo as ameaçadas, foram afetadas por esse material. Alguns animais são prejudicados visivelmente – estrangulados por redes de pesca abandonadas ou por anéis plásticos. Provavelmente, muitos mais são prejudicados de forma invisível. Espécies marinhas de todos os tamanhos, do zooplâncton às baleias, comem microplásticos, pedaços menores que um quinto de uma polegada de diâmetro.

Turtle.jpg

Para resolver o problema é imprescindível que seja firmado um acordo internacional para reduzir o despejo de lixo plástico nos mares e oceanos e promover a limpeza das águas. Além disso, a WWF recomenda que todos os países do Mediterrâneo aumentem a reciclagem, proíbam os plásticos descartáveis, como sacolas e garrafas, e diminuam a utilização de microplásticos em detergentes ou cosméticos até 2025.

“A própria indústria de plásticos deve desenvolver produtos recicláveis e compostáveis feitos a partir de matérias-primas renováveis, e não produtos químicos derivados do petróleo”, indica a WWF.

Captura de Tela 2018-06-13 às 19.35.15.png

Além disso, é fundamental que haja uma mudança cultural em toda a população. Adotar atitudes que gerem menos lixo é um bom começo. Dessa forma, haverá maior pressão nas indústrias e maior demanda de um mercado que hoje é reduzido.

O nosso planeta enfrenta problemas causados por ações antrópicas e as mudanças devem ser imediatas. As espécies atuais precisam de nossa ajuda para não serem extintas. A hora é agora! Comece a reduzir seus resíduos hoje, plásticos ou não, para que amanhã não seja tarde demais.

Nota da autora: 

Produzir um texto como esse foi um grande desafio. Mesmo convivendo no dia-a-dia com resíduos plásticos, não imaginei como seria constatar, através de tantos documentários e imagens, como está a situação global. Dói muito perceber como estamos sendo negligentes e isso me faz questionar qual será o mundo que estamos deixando para as futuras gerações. Será que nossos descendentes um dia poderão nadar em cachoeiras e se banhar nas águas do mar? Que esse texto sirva de reflexão para todos e que desperte a mudança em cada um de nós. 

Leia mais sobre o assunto em:

https://www.nationalgeographic.com/magazine/2018/06/the-journey-of-plastic-around-the-globe/

Leia também: Texto “Não Queremos Salvar o Planeta.”

Referências:

WWF

Documentário “Plastic Oceans”

Sea Shepherd: http://www.seashepherd.org/

Projeto Vortex: http://www.projectvortex.org/

How Stuff Works: Plastic

ABM Yacht Support: Are we doing all that we can to clean oceans?

Artigos da Algalita Marine Research Foundation

A Teoria de Tudo que está Vivo – Parte III – O Reinado dos Mamíferos

Vimos o surgimento da vida complexa, a sua quase destruição e o aparecimento dos maiores animais terrestres de todos os tempos. O último capítulo de nossa história terminou com a queda de um enorme meteoro em nosso planeta, o que gerou uma escuridão quase completa por dois anos, que matou a maior parte das plantas, algas e animais. Dentre os grupos perdidos, encontram-se os pliossauros, plesiossauros, mosassauros, amonitas, pterossauros e a maior parte dos dinossauros. Os poucos sobreviventes desse desastre diversificaram-se e se espalharam pelos continentes durante o Cenozoico, que veremos a seguir.

Para facilitar o entendimento da cronologia dessa era geológica, dividiremos os dois períodos do Cenozoico (Paleogeno e Neoceno) em suas respectivas subdivisões, denominadas “épocas”. Além disso, devido à maior proximidade temporal desse capítulo de nossa história, um número superior de espécies e de evidências de evolução será apresentado. Focarei, portanto, em grupos de animais e de plantas com representantes vivos atualmente, sobretudo mamíferos,  e darei um enfoque maior ao que acontecia na América do Sul, que permaneceu isolada dos outros continentes por milhões de anos.

Paleogeno – 65 milhões a 23 milhões de anos atrás

Paleoceno – 65 milhões a 56 milhões de anos atrás

Os primeiros 10 milhões de anos do Cenozoico foram marcados por uma diversidade baixa de plantas, em um mundo que ainda se recuperava da queda de um asteroide gigante. A extinção de animais grandes, entretanto, abriu espaço para um processo de diversificação intenso, uma vez que vários nichos ecológicos tinham sido esvaziados durante o fim do  Cretáceo.

A maioria dos continentes já se encontrava em suas posições atuais durante o Paleoceno. Entretanto, o clima quente do planeta fez com que florestas tropicais se espalhassem por todos continentes, inclusive nos polos. Isso fez com que continentes isolados, como a America do Sul, Índia e Austrália (os dois últimos são considerados continentes pelas definições atuais) adquirissem uma fauna completamente única.

Resultado de imagem para paleocene
Mapa do planeta pouco antes do fim do Período Cretáceo

Antes do fim do Cretáceo, surgiu um  grupo de mamíferos placentários (animais que possuem uma placenta que, dentre diversas funções, serve como fonte de nutrientes e oxigênio para o feto em desenvolvimento), conhecido como Condylarthra, que se espalhou por grande parte dos continentes. No Paleoceno, esses animais, com unhas transformadas em cascos, modificaram-se em grandes predadores, semelhantes a cães, e em animais herbívoros, tornando-se assim o primeiro grupo de mamíferos a se alimentar de plantas.

Resultado de imagem para Phenacodus
Phenacodus, ungulado primitivo do Paleoceno

Na África, surgiram os primeiros ancestrais dos elefantes, que se tornariam os maiores animais terrestres atuais, milhões de anos depois. Esses animais semi-aquáticos possuíam pequenas trombas e presas que provavelmente eram mantidas dentro da boca.

Resultado de imagem para Phosphatherium
Phosphatherium escuillei, um dos primeiros elefantes conhecidos – Imagem por Roman Uchytel

Já na Ásia, surgiram os primeiros roedores verdadeiros (Rodentia) e coelhos e lebres (Lagomorpha), que não iriam se diversificar muito até a diversificação da grama, na próxima época que veremos. Os roedores eram, majoritariamente, arborícolas, enquanto os lagomorphos eram pequenos animais semelhantes aos  Ochotonideos atuais, que viviam em tocas subterrâneas.

Illustration of Paramy on tree : Stock Illustration
Paramys, um dos primeiros roedores conhecidos – Arte por S. Roberts

Plateau pika close up
Pika-chines (Ochotona curzoniae) é um lagomorpho atual muito semelhante a seus ancestrais do Paleoceno – Foto por Lee Anne Shaffer

Os primeiros protoprimatas surgiram no final do Cretáceo como pequenos animais arborícolas e, possivelmente, nectarívoros e insetívoros. Já no Paleoceno, tomaram forma mais semelhante aos dos lêmures atuais.

Purgatorius BW.jpg
Purgatorius, protoprimata mais antigo conhecido que surgiu no fim do Cretáceo e sobreviveu à extinção K-T. – Desenho por Nobu Tamura

Imagem relacionada
Carpolestes, protoprimata da América do Norte – Reconstrução por Doug M. Boyer

Enquanto isso, na América do Sul, Austrália e Antártida (que ainda era coberta por densas florestas), os marsupiais ocupavam nichos semelhantes aos dos gambás e cuícas atuais. Ao mesmo tempo, também na América do Sul, apareceram os primeiros Xenarthras, grupo de animais que incluem os tatus (Cingulata) e as preguiças e tamanduás (Pilosa), que se tornariam os protagonistas de nosso continente até o Pleistoceno.

Resultado de imagem para Riostegotherium yanei
Riostegotherium, tatu primitivo do Paleoceno

Nesse continente, dinossauros sobreviventes da extinção do Cretáceo iram se tornar os maiores predadores da América do Sul nos próximos milhões de anos. Durante o Paleoceno, essas aves da ordem Cariamiformes especializaram-se em caçar os pequenos marsupiais sul-americanos e alguns pequenos ungulados primitivos da região.

Resultado de imagem para Paleopsilopterus
Paleopsilopterus itaboraiensis, uma das primeiras “aves-do-terror” conhecidas –  Por Geraldo França Jr.

Em diversas regiões do mundo, as aves tomavam formas muito similares aos das atuais, com o surgimento de corujas e flamingos (Phoenicopteridae). A extinção de aves marinhas do Cretáceo, como o Hesperornis, possibilitou que um grupo de aves perdessem a sua capacidade de voo e se tornassem adaptadas para o meio aquático, dando origem aos primeiros pinguins no continente chamado Zelândia.

Resultado de imagem para waimanu
Waimanu manneringi, o primeiro pinguim verdadeiro – Arte por Roman Uchytel

Os répteis Sul-Americanos eram, sem dúvida, os maiores predadores do planeta durante o Paleoceno. O continente contava com crocodilos corredores, quelônios carnívoros, de até 3 metros de comprimento, e com cobras como a Titanoboa, uma serpente semi-aquática que ultrapassava os 13 metros e pesava mais de uma tonelada.

Resultado de imagem para Sebecus
Sebecus, crocodilo terrestre Sul-Americano – Imagem por Marcus Burkhardt

Titanoboa
Titanoboa alimentando-se de jacaré – Por Ícaro Yuji

Resultado de imagem para Carbonemys paleoart
Quelônio carnívoro da América do Sul – Por Maija Karala

Durante o fim do Paleoceno, o planeta sofreu um aquecimento de 3ºC em apenas 20 mil anos, o que alterou a química dos oceanos e a umidade em todos os continentes e, consequentemente, moldou a evolução dos próximos milhões de anos. Esse aquecimento repentino, conhecido como Máximo térmico do Paleoceno-Eoceno, é o que marca o começo da nossa próxima época geológica.

Resultado de imagem para Paleocene–Eocene Thermal Maximum
Temperatura média do ar em diferentes períodos geológicos –  Fonte :  NCAR

Eoceno – 55 milhões a 36 milhões de anos atrás

As altas temperaturas do planeta possibilitaram que os répteis do Paleoceno sobrevivessem por milhões de anos, até o meio do Eoceno. Embora poucos fósseis tenham sido encontrados no local, evidências mostram que a diversidade de plantas, répteis e mamíferos da Antártida durante esse período era enorme, uma vez que o continente ainda era coberto por uma densa floresta tropical. Lentamente, esse continente foi migrando para o sul através de movimentações tectônicas, desgrudando-se da América do Sul e da Austrália. Nessa mesma época, os primeiros pinguins atingiram o continente, vivendo na costa de um paraíso tropical.

Sem título
Imagem presente no artigo “Antarctic Peninsula and South America (Patagonia) Paleogene terrestrial faunas and environments:
biogeographic relationships” representando a fauna e flora hipotética da Antártida durante o Eoceno.

Entretanto, ao atingir sua posição atual, a Antártida criou uma corrente oceânica gelada denominada Corrente Circumpolar Antártica, que circulava em volta do continente e, lentamente, roubava seu calor e umidade. Entre 49 e 40 milhões de anos atrás, o continente congelou completamente, perdendo quase totalmente sua vegetação e extinguindo todos os seus vertebrados terrestres nativos, com exceção dos pinguins.

Resultado de imagem para Antarctic Circumpolar Current eocene
Surgimento da  Corrente Circumpolar Antártica resfriou o continente até o meio do Oligoceno

Essa corrente gerou uma diminuição da umidade média de todo planeta, o que reduziu ampla parte das florestas e abriu espaço para vastas concentrações de animais em áreas abertas, que dariam origem aos primeiros perissodáctilos. Grandes animais, como os Brontotheriideos e os Dinocerata, tornariam-se os maiores mamíferos herbívoros da Terra até esse momento. Os Creodonta (animais carnívoros do Eoceno), assim como os primeiros cavalos, rinocerontes, ratos e morcegos dividiam seu território com aves gigantes conhecidas como Gastornis, que se alimentavam de pequenos mamíferos na América do Norte. Nessa época também surgiram as primeiras águias, condores e passarinhos (passeriformes). Cactos e palmeiras espalhavam-se pelos continentes, assim como árvores frutíferas, o que possibilitava alimento para diversos novos grupos de aves e répteis herbívoros. Embora as Poaceas tenham surgido no Cretáceo, foi somente  durante o Eoceno que elas começaram a se espalhar, sobretudo na forma de bambus e de gramas de crescimento sazonal.

Imagem relacionada
Fauna do Eoceno – Por Stephen Somers

Resultado de imagem para gastornis horse
Gastornis alimentando-se de um cavalo primitivo

Eocene by Rolandi
Eoceno da América do Sul – Por Rolandi

Na África e na Ásia, dois grupos de animais migravam, progressivamente, para o mar. O primeiro deles, o dos peixes-boi (Sirenia), surgiu a partir de um grupo de herbívoros terrestres e, rapidamente, migrou para o outro lado do Oceano Atlântico, colonizando a América do Sul. O segundo grupo (Cetacea) surgiu a partir de um grupo de artiodáctilos onívoros que viviam próximos a rios e, posteriormente, migrou para o mar.

Resultado de imagem para Prorastomus
Prorastomus sirenoides, um peixe-boi terrestre basal

Resultado de imagem para indohyus
Indohyus sp., ancestral de todos os cetáceos atuais – Arte por Lucas Lima

Por fim, os primeiros primatas verdadeiros surgiram na Ásia. Esses animais noturnos e arborícolas rapidamente colonizaram a África e, posteriormente, atingiram a América do Sul através do fenômeno de balsas flutuantes (Fenômeno explicado no meu texto sobre espécies invasoras)

 Darwinius masillae, o primata fóssil mais bem preservado que se tem notícia – Por Esther van Hulsen

Oligoceno – 36 a 23 milhões de anos atrás

No Oligoceno surgiram os primeiros macacos-do-velho-mundo, que rapidamente extinguiram os primatas lemuriformes de todo o planeta, com exceção de Madagascar. Esses animais obtiveram grande sucesso na África, uma vez que o continente ainda possuía regiões quentes e úmidas, que possibilitava grandes florestas tropicais.

Resultado de imagem para aegyptopithecus
Aegyptopithecus, por Roman Yevseyev

Os perissodáctilos eram, sem dúvida, os animais mais bem sucedidos desse período, adquirindo formas únicas na história do planeta e se espalhando pela Europa, Ásia, África e América do Norte. Os cavalos e antas adquiriram formas bem semelhantes a dos atuais, enquanto os rinocerontes cresceram e dominaram diversos nichos que hoje pertencem a outros animais.

Mesohippus, um cavalo Norte-Americano do Oligoceno – Por Mehdi Nikbakhsh

A imagem pode conter: texto
Evolução de diversos tipos de cavalos até o Plioceno – Por Julio Lacerda

Resultado de imagem para chalicotherium 252mya
Chalicotherium, um rinoceronte do Oligoceno – Por Julio Lacerda

Resultado de imagem para насекомые в янтаре
Com 5 metros de altura e 8 metros de comprimento, o Paraceratherium bugtiense era um rinoceronte sem chifre que ocupava um nicho semelhante ao das girafas. Foi o maior mamífero terrestre conhecido.

Com a redução das temperaturas e da umidade ao longo do Oligoceno, um novo tipo de habitat surgiu no planeta, que mudaria sua história para sempre: as savanas. O clima seco possibilitou a redução de florestas na maioria dos continentes, o que abriu espaço para que a grama se tornasse a forma de vida vegetal dominante. Ao contrário da maior parte das plantas rasteiras da época, a grama contém poucos nutrientes e possui compostos de sílica, denominados fitólitos, em sua estrutura. Essa característica torna sua digestão difícil, além de contribuir para o desgaste dos dentes dos herbívoros. Nesse contexto, surgiram os Artiodáctilos, grupo de animais que incluem os boi, camelos, cervos, cabras, porcos e antílopes atuais, que possuem dentes resistentes e de crescimento contínuo e um sistema digestivo complexo, com regiões fermentadoras capazes de digerir a grama. Esses animais rapidamente se espalharam pelo Hemisfério Norte e África onde ocuparam nichos de predadores e presas.

Resultado de imagem para archaeotherium 252mya
Archaeotherium, um porco gigante carnívoro do Oligoceno – Por Julio Lacerda

Neogeno – 23 milhões de anos atrás até hoje

A transição do Paleogeno para o Neogeno é sutil no registro fóssil, e é demarcada pela extinção de alguns grupos de protozoários marinhos. Entretanto, o inicio desse período é marcado pelo surgimento do Himalaia, uma vez que a Índia, que havia permanecido isolada por milhões de anos, chocara-se com a Ásia e continuava migrando para o Norte.

Resultado de imagem para neogene world map
Mapa do planeta durante o Mioceno

Mioceno – 23 a 5.3 milhões de anos atrás

Durante o mioceno, as savanas cobriam a maior parte do planeta, com exceção da Antártida,  e substituíram também as grandes florestas da África. Isso fez com que a maior parte dos macacos, que até então eram majoritariamente arborícolas, começassem a viver em campos abertos. Cerca de 18 milhões de anos atrás, surgiram os primeiros ancestrais dos hominídeos, que dariam origem a todos os gibões, orangotango, gorilas, chimpanzés e humanos.

Resultado de imagem para Proconsul
Proconsul, o ancestral de todos os hominídeos atuais

Ao longo dos últimos milhões de anos, os ancestrais dos cetáceos foram, gradativamente, adquirindo adaptações para a vida aquática e aumentando de tamanho, com espécies de até 12 metros de comprimento. Enquanto isso, surgiram as primeiras lontras-marinhas do planeta, que passaram a viver nas primeiras florestas de Kelpie do mundo.

Resultado de imagem para whale evolution
Evolução dos ancestrais das baleias do Mioceno

A extinção dos répteis gigantes marinhos do Mesozoico possibilitou que os tubarões se tornassem os predadores dominantes do Cenozoico. Durante o Mioceno, esses animais adquiriram tamanhos descomunais, uma vez que o surgimento de grandes baleias possibilitou uma fonte de alimento rica em gordura.

Resultado de imagem para megalodon whale
O Carcharodon megalodon podia atingir até 20 metros de comprimento – Fonte: Sciente Photo Library

Se fôssemos transportados ao fim do Oligoceno, provavelmente reconheceríamos a maior parte dos mamíferos do planeta. Elefantes dividiam as savanas da Europa, Ásia, África e América do Norte com cavalos, camelos, leões, ursos, hienas, lobos e antílopes. Nas florestas da Ásia, tigres caçavam orangotangos e girafas comiam folhas de bambus.

Resultado de imagem para miocene landscape
Fauna africana do Mioceno – Por Mauricio Anton

Na América do Sul, crocodilos gigantes e aves-do-terror ainda eram os maiores predadores. Tatus e preguiças gigantes dividiam o habitat com ungulados muito diferentes dos existentes atualmente, que eram caçados por grandes marsupiais dentes-de-sabre carnívoros e por condores de mais de 7 metros de envergadura.

Resultado de imagem para argentavis hunting paleoart
Argentavis roubando a presa de um marsupial gigante – Por Thylacosmilus atrox by Velizar

Resultado de imagem para Purussaurus 252mya
Purussauros, jacaré de 13 metros do Mioceno caçando Phoberomys, um roedor gigante da América do Sul – Por Julio Lacerda

Resultado de imagem para miocene south america
Thalassocnus natans, preguiça gigante aquática – Por Roman Yevseyev

Plioceno – 5,3 até 2,6 milhões de anos atrás

No início do Plioceno, na região da Etiópia, surgiu uma espécie denominada Australopithecus, o primeiro ancestral direto dos seres humanos conhecido. Esses pequenos animais bípedes provavelmente viviam em florestas de galeria e faziam excursões para as savanas, onde se alimentavam de frutas e de tubérculos.

Australopithecus, por John Gurche

Nessa época, a migração da América do Sul para o Norte fez com que os dois continentes finalmente se encontrassem, na região em que hoje é o Panamá. Esse contato fez com que os camelos, ursos, onças, veados, elefantes e antas Norte Americanos finalmente chegassem ao nosso continente, enquanto preguiças gigantes e aves-do-terror migraram para o norte. Essa foi, provavelmente, a maior troca faunística da história, em um evento que ficou conhecido como o “Grande Intercâmbio Americano”.

Resultado de imagem para the great american interchange
Troca faunística ocorrida durante o Grande Intercâmbio Americano – Por Smithsonian Tropical Research Institute

Imagem relacionada
Um Titanis protege seus ovos de um pequeno felino

Resultado de imagem para megatherium and glyptodon paleoart
Fauna brasileira após o Intercâmbio. Nessa imagem podem ser vistos animais tradicionalmente neotropicais (Como as Macrauchenias à frente e tatus e preguiças gigantes ao fundo) e espécies originalmente norte-americanas como tigres, cavalos e elefantes – Por Mauricio Antón

Pleistoceno – 2,6 milhões a 12 mil anos atrás

O Pleistoceno é conhecido por muitos como a “Era do Gelo”, uma vez que uma série de eventos de glaciação moldaram o planeta e extinguiram localmente grande parte das espécies cosmopolitas da época. Espécies icônicas, como os mamutes, rinocerontes lanudos e leões-das-cavernas eram comuns no hemisfério Norte, enquanto o hemisfério Sul tornava-se cada vez mais seco e, portanto, com um baixo número de florestas.

Fig 4_Mauricio_Antón
Fauna europeia durante o Pleistoceno – Por Mauricio Antón

Devido à menor umidade do planeta, a competição entre os carnívoros aumentou significativamente nas Américas, o que extinguiu a maior parte das aves-do-terror durante o Pleistoceno, com exceção da família Cariamidae, que ainda possui dois representantes atuais (seriemas).

Resultado de imagem para titanis 252mya
Titanis, maior ave-do-terror da história, lutando contra um Smilodon – Por Julio Lacerda

27072017-DSC_0394-2.jpg
Seriema (Cariama cristata), representante vivente das aves-do-terror – Foto por Pedro Henrique Tunes

O resfriamento do planeta criou enormes quantidades de zooplâncton próximas dos polos, tornando-se fonte de alimento para os maiores animais que já estiveram em nosso planeta. A baleia-azul (Balaenoptera musculus) surgiu há cerca de 2 milhões de anos e, ainda hoje, patrulha os mares de todo mundo. Com até 33 metros de comprimento e pesando até 173 toneladas, esse animal possui um coração mais pesado do que um carro e artérias largas o bastante para caber um ser humano.

Resultado de imagem para blue whale size comparison
Comparação do tamanho de uma baleia-azul com uma baleia primitiva (topo) e com um ônibus de dois andares

Na África, surgiram os primeiros representantes do gênero Homo, cerca de 400 mil anos atrás, que rapidamente se espalharam por todo o continente e, posteriormente, atingiram a Ásia, onde se diversificaram em diversas novas espécies. Cerca de 200 mil anos atrás surgiram as duas subespécies conhecidas de Homo sapiens, que rapidamente atingiram a Europa e a Ásia.

Algumas das várias espécies de Hominídeos encontradas na África – Fonte:  G. Grullón

Uma pequena espécie de Hominídeo surgiu na Indonésia, conhecida como Homo florensis. Com apenas 1,2 metros de altura, viveram na ilha de Flores, onde conviveram com elefantes anões e com os dragões-de-komodo (Varanus komodensis), lagartos de 3 metros de comprimento que existem ainda hoje.

hobbits-and-stegodon-low-res

dragon-scene-low-res
Homo florensis por Maurício Antón

A incrível capacidade cognitiva do gênero Homo, sobretudo da nossa espécie, está relacionada com a necessidade de se adaptar a um mundo em constantes mudanças. Isso possibilitou que o Homo sapiens desenvolvesse estratégias complexas de caça, roupas, ferramentas e armas, tornando-o o predador mais perigoso durante o Pleistoceno.

pleistocene-glaciation_julio-lacerda_wallpaper
Homo sapiens caçando um rinoceronte-lanudo – Por Julio Lacerda

Suas estratégias de caça permitiam que eles abatessem até as maiores presas que, devido à sua lenta taxa de reprodução, foram gradualmente entrando em extinção, uma vez que suas populações já estavam baixas devido às bruscas mudanças climáticas. Ao chegar na Austrália, cerca de 60 mil anos atrás, os Homo sapiens extinguiram toda a megafauna local. Nas Américas, o declínio das populações da megafauna também coincide com a chegada humana.

Fig 5 Peter Trusler
A maior parte da megafauna australiana foi extinta há 60 mil anos, justamente com a chegada dos primeiros humanos. – Por  Peter Trusler

Resultado de imagem para madagascar megafauna
Lêmures de 150 quilos conviviam com aves de 3 metros de altura em Madagascar até a chegada dos primeiros hominídeos na ilha

Holoceno – 12 mil anos até hoje

O Holoceno foi a época em que criamos a agricultura e pecuária, construímos cidades e impérios e, deliberadamente, moldamos o mundo a nossa volta. Mamutes nos acompanharam em nossa jornada até cerca de 3 mil anos atrás, quando as pirâmides do Egito já estavam erguidas. Os dodôs nos deixaram há pouco mais de 400 anos, os tigres-da-tasmânia sobreviveram para ver a Primeira Guerra Mundial e o Baiji nos acompanhou até o século XXI. A complexidade do ser humano e de suas relações com o planeta serão abordadas em um texto futuro, mas agora, pela primeira vez na história, um animal está conscientemente extinguindo milhares de espécies por ano e aquecendo a Terra de forma acelerada. Os testes nucleares e a ação dos plásticos nos oceanos possuem um potencial tão grande de alterar o nosso planeta que alguns cientistas propuseram a criação de uma nova era geológica, denominada de Antropoceno: A Era dos Humanos.

Epílogo

Vimos a vida complexa surgir e quase desaparecer, observamos um grupo de animais crescer até atingir tamanhos descomunais e aprender a voar e, após a queda de uma rocha espacial gigante, presenciamos o surgimento de protagonistas improváveis. Pequenos animais noturnos do Jurássico tornaram-se dos maiores animais que já estiveram em nosso planeta aos que mais modificaram seus ecossistemas. Os próximos capítulos de nossa história ainda são incertos, mas nossas atitudes poderão moldar o futuro de nossa biosfera. “A vida encontra um caminho”. Resta a nós permitir que esse caminho não seja destruído.

 

Referências

Canais do youtube Eons e SciShow

Site EarthArchives

Postagem da NatGeo sobre o primeiro primata 

Artigo “Antarctic Peninsula and South America (Patagonia) Paleogene terrestrial faunas and environments: biogeographic relationships” – REGUERO, M. A. et. al.

 

 

A Teoria de Tudo que está Vivo – Parte II – A Era dos Répteis

No último capítulo de nossa jornada, vimos a diversificação da vida, sua colonização de diversos novos ambientes e, no final do Paleozoico, nos deparamos com a maior extinção em massa que o planeta já viu, que quase destruiu a vida por completo. O desaparecimento de diversos grupos de organismos foi o que permitiu que os protagonistas da próxima era geológica se multiplicassem, aprendessem a voar e crescessem como nenhuma outra criatura terrestre do planeta cresceu antes.

Embarque na Era Mesozoica, marcada por grandes inovações evolutivas, pelo surgimento de mamíferos e aves e dominada pelos répteis.

Triássico – 250 a 200 milhões de anos atrás

Como visto no último capítulo de nossa história, o fim do Permiano foi marcado por acontecimentos que desencadearam a extinção de 95% de toda a vida nos oceanos e de 73% dos animais e plantas terrestres, em um evento conhecido como “The Great Dying”. Os primeiros milhões de anos que sucederam esse desastre foram marcados por uma recuperação lenta, no qual poucas espécies de plantas se espalharam por toda Pangeia, o único supercontinente que formava o planeta. As grandes concentrações de  COna atmosfera em decorrência da intensa atividade vulcânica do período anterior fizeram com que as temperaturas terrestres fossem cerca de 3ºC maiores do que a média mundial atual, o que possibilitou a formação de densas florestas por todo o globo.

Imagem relacionada
Representação das primeiras florestas após o fim do Permiano – Créditos Digital Journal

Por sua vez, os animais terrestres sobreviventes do Permiano se espalharam pelo globo e rapidamente se diversificaram em vários novos planos corporais. Os terapsídeos, ancestrais diretos dos mamíferos que atuavam como principais predadores durante o Permiano, diversificaram-se, sobretudo, em pequenos carnívoros e grandes herbívoros, com destaque para animais como os dicinodontes, que se espalharam por todo o globo.

Resultado de imagem para Lystrosaurus
Lystrosaurus curvatus, pequeno Therapsideo herbívoro do início do Triássico – Arte pelo artista Theropsida do Deviantart

Os Temnospondyli, grupo extinto de anfíbios que surgiu no Carbonífero, dominaram os ambientes aquáticos dulcícolas, ocupando nichos ecológicos similares aos das salamandras e crocodilos atuais.

Resultado de imagem para Trematosaurus
Trematosaurus, um anfíbio Temnospondyli com 3 metros de comprimento da época –                 Por Vladislav Egorov

Nessa mesma época, surgiu também um grupo de anfíbios que iria futuramente se diversificar em diversos nichos e tamanhos, tornando-se atualmente o grupo mais diverso de animais terrestres. Esse clado, conhecido como Salientia, daria origem a todos os  anuros (sapos, rãs e pererecas), e rapidamente se tornou uma parte essencial de cadeias alimentares em todo o mundo.

Resultado de imagem para triadobatrachus
Triadobatrachus, ancestral de todos anuros modernos – Por Javier Valdez

Embora os répteis tenham sido coadjuvantes durante o Permiano, esses animais foram, sem dúvida, os protagonistas do Triássico e dos outros períodos do Mesozoico. A grande variedade de nichos que foram desocupados durante o fim do Permiano possibilitou uma intensa diversificação em formas nunca vistas antes na história do planeta. O primeiro grupo que se tem destaque são os Lepidossauros, animais com escamas queratinizadas dérmicas, capazes de trocar de pele e com padrões cranianos que lhes conferem grande força e mobilidade em sua mordida. Dividiram-se, durante o meio do Triássico, em três grandes grupos: Os Squamata (grupo que inclui todos os lagartos, cobras e amphisbaenas atuais), os Rhynchocephalia (tuataras e seus ancestrais extintos) e os Kuehneosaurus (primeiros vertebrados terrestres planadores conhecidos).

DSC_6123-1
Enyalius perditus, lagarto brasileiro estruturalmente similar aos primeiros Squamata – Foto por Pedro Henrique Tunes

Resultado de imagem para sphenodon
Tuatara, um Rhynchocephalo atual – Foto por Kristine Grayson

Resultado de imagem para Kuehneosauridae
Icarosaurus siefkeriKuehneosauro planador do Triássico

Apesar de sua enorme variedade e adaptabilidade, foi um outro grupo que dominou o planeta no Triássico: Os Archosauromorphos. Esses animais, com coração tetracavitário e cuidado parental desenvolvido nos grupos atuais, adquiriram adaptações que seriam cruciais para seu sucesso, incluindo planos corporais exclusivos na história do planeta.

Imagem relacionada
Euparkeria africana, o primeiro Archossauromorpho por Tobie Beale

Resultado de imagem para longisquama 252 mya
Longisquama insignis por Julio Lacerda

Resultado de imagem para Sharovipteryx
Sharovipteryx mirabilis – Archosauro do Triássico que utilizava as patas de trás para planar – Por Gabriel Ugeto

Resultado de imagem para drepanosaurus
Drepanosaurus unguicaudatus por Gabriel Ugeto

Os Avemetatarsalia são um grupo de Archosauromorphos que se diversificaram no meio do Triássico em dois principais grupos. Os Pterossauros foram, provavelmente, os mais diversos na época, adquirindo adaptações para o voo, tornando-se, assim, os primeiros vertebrados a realizarem o voo verdadeiro.

Imagem relacionada
Evolução especulativa dos pterossauros por Maija Karala

Os dinossauros, por sua vez, adquiriram, sobretudo, características que possibilitavam uma movimentação mais rápida e uma maior eficiência respiratória. Entretanto, demorariam milhões de anos para que esses animais se tornassem o grupo dominante da terra.

Resultado de imagem para herrerasaurus gabriel ugueto
Lagerpeton chanarensis, dinossauro basal do Triássico por Gabriel Ugeto

Resultado de imagem para plateosaurus
Desenho especulativo de Plateosaurus com protopenas – Por PaleoGuynda

Os Pseudosuchians, por sua vez, eram os verdadeiros donos do planeta. Medindo de poucos centímetros até 9 metros de comprimento, esses ancestrais dos crocodilos atuais podiam ser encontrados em inúmeros nichos ecológicos, de pequenos herbívoros cavadores encouraçados a grandes carnívoros bípedes, semelhantes à ideia que temos de um dinossauro.

Resultado de imagem para ornithosuchidae
Ancestral bípede dos crocodilianos – Poposaurus gracilis – Artista Smokeybjb

Resultado de imagem para aetosaur
Gorgetosuchus pekinensis, pseudosuchio herbívoro recém descoberto pela ciência – Imagem em artigo referenciado no final do texto

Resultado de imagem para triassic paleoart landscape
Luta entre dois pseudosuchios do Triássico – Por Julius Csotonyi

Os mares, por sua vez, se tornaram o lar dos primeiros ancestrais dos Ichtyossauros, um grupo de répteis que viveria no planeta até o meio do Cretáceo, ocupando nichos semelhantes aos de baleias e golfinhos.

Resultado de imagem para Cartorhynchus
Cartorhynchus, ichtyossauro basal do Triássico – Por Julio Lacerda

Resultado de imagem para triassic ichthyosaurs
Shonisaurus, ichtyossauro de até 21 metros de comprimento

O Triássico foi, durante sua maior parte, um período seco e com uma enorme concentração de animais carnívoros. Essas duas características podem parecer simples, mas, provavelmente, foram o que desencadearam a quarta extinção em massa de nosso planeta, que dizimou cerca de 75% das espécies da Terra. Nessa época, o grande número de florestas, juntamente com a separação da Pangeia em dois novos continentes, criou uma enorme quantidade de vapor d’água na atmosfera, o que gerou um regime de chuvas como nunca visto em nosso Planeta. Estima-se que esse evento ocasionou um regime de chuvas semelhante ao de uma floresta tropical em todo o globo, durante mais de dois milhões de anos. Isso ocasionou enchentes em todo planeta e modificou a estrutura das florestas, o que possibilitou uma maior diversificação de plantas terrestres e, consequentemente, uma enorme variedade de dinossauros herbívoros durante o próximo período de nossa história. Além disso, acredita-se que a grande quantidade de animais carnívoros gerou um decaimento de todos os ecossistemas, que gradualmente foram perdendo sua diversidade ao longo de milhões de anos. Por fim, enormes emissões de gás carbônico nos oceanos reduziram drasticamente os seus níveis de oxigênio, o que contribuiu para o fim de muitos grupos marinhos. Dentre os animais extintos, destacam-se os crocodilianos bípedes, juntamente com a maior parte dos herbívoros e dos grandes anfíbios. Dentre os terapsídeos, os únicos sobreviventes são os cinodontes, pequenos animais noturnos que, futuramente, dariam origem aos mamíferos.

Resultado de imagem para triassic jurassic mass extinction
A extinção dos grandes Pseudosuchos no fim do Triássico abriu espaço para a diversificação dos dinossauros

Jurássico – 200 milhões até 145 milhões de anos atrás

Durante o período Jurássico, duas novas adaptações conferiram aos dinossauros características exclusivas, que permitiram que eles se tornassem o grupo dominante do planeta. Primeiramente, em algum ponto do Triássico, um grupo de dinossauros desenvolveu uma característica única, que alteraria sua história evolutiva para sempre: as penas! Ao pensarmos nessa adaptação, logo pensamos em uma estrutura complexa e bipartida, que auxiliava no voo das aves, mas nem sempre foi assim. As  chamadas protopenas surgiram como estruturas simples e rígidas, provavelmente utilizadas como adorno corporal e, posteriormente, evoluíram em mais de 16 tipos diferentes, usadas para diversas funções. Não se sabe em que momento ou em que linhagem de dinossauros essas estruturas surgiram, mas no jurássico elas se diversificaram em diversas formas e tamanhos, tendo sido perdidas posteriormente em alguns grupos. Dentro dos ‎Saurischia (grupo mais basal de dinossauros que incluem os carnívoros e os sauropodes), os da subordem Theropoda são os que inegavelmente possuíam penas. Os terópodes do início do jurássico, que tiveram sua pele fossilizada, apresentavam escamas rígidas e, em poucos casos, protopenas chamadas “quills” (estágio 1 da figura abaixo), mas a variedade e a complexidade das penas foi aumentando ao longo da evolução desse grupo.

Imagem relacionada
Evolução dos diferentes tipos de penas básicos de dinossauros por Emily Willoughby

Resultado de imagem para jurassic theropoda
Acima: Protopenas em terópode basal por Bob Nicholls                           Abaixo: Evidências de penas complexas e asas não funcionais em fóssil de Serikornis, terópode do fim do Jurássico por Emily Willughby

Resultado de imagem para serikornisImagem relacionada

Um novo grupo de dinossauros também surgiu nesse período, denominado Ornithischia, que possuíam modificações estruturais em seus ossos da púbis, possibilitando um maior espaço para seu sistema digestivo. Isso possibilitou o surgimento de animais herbívoros com longos intestinos e sistemas de fermentação complexos, que se diversificaram em diversas formas corporais, além das mais conhecidas pelo público geral, como os Estegossauros, Ankylossauros e, ao final do Jurássico, os primeiros Ceratopsianos. Dentre esses novos herbívoros, alguns grupos também possuíam protopenas, mas essas estruturas podem ou não ter evoluído de forma independente nos dois grupos.

Resultado de imagem para arvore genealogica dinossauria
Cladograma tradicional da evolução dos dinossauros

Imagem relacionada
Representação de Kulindadromeus zabaikalicus, ornitópode basal que possuia penas

Resultado de imagem para Mymoorapelta
Mymoorapelta mays, anquilossauro do Jurássico por Jack Wood

Resultado de imagem para stegosaurus allosaurus
Representação de um Stegosaurus lutando contra um Allosaurus pelo estúdio 252mya

Ainda durante o Jurássico, os Saurischia cresceram de forma considerável em comparação ao Triássico. Os saurópodes adquiriram tamanhos de até 20 metros de comprimento, enquanto os grandes terópodes da época atingiam até 10 metros de comprimento.

Resultado de imagem para diplodocus paleoart
Terópodes perseguindo grande Saurópode – Artista: Douglas Henderson

Na sombra desses gigantes surgiriam dois grupos que mudariam o planeta completamente durante o Cenozoico. Primeiramente, ancestrais terapsídeos originaram um grupo de pequenos animais noturnos com cuidado parental desenvolvido e capazes de produzir leite, que são popularmente conhecidos como mamíferos. Nos próximos milhões de anos, eles adquiriram adaptações para nadar, escalar ou planar, mas sempre mantendo seu tamanho reduzido.

A typical Jurassic ecosystem with docodonts, a group of now-extinct early mammals. Image Credit: April Neander
Diversidade de mamíferos primitivos do Jurássico por April Neander

Indo contra a tendência de seus parentes próximos, um grupo de terópodes foi gradualmente diminuindo de tamanho ao longo do Jurássico. Um grupo conhecido como Cuelurosauria, que futuramente também daria origem aos Tiranossauros e aos Dromaeossauros, diversificou-se em um grupo de pequenos dinossauros bípedes com penas complexas e que viviam em densas florestas. Ao longo de milhões de anos, esses animais adquiriram a capacidade de voo, originando, assim, as primeiras aves, que dividiam o céu com uma enorme variedade de pterossauros.

Imagem relacionada
Fóssil do Archeopteryx (acima) e representação gráfica (abaixo) por Emily Willoughby

Resultado de imagem para archaeopteryx

Resultado de imagem para microraptor fossil
Fossilização de um Microraptor, espécie de dinossauro ancestral das aves que possuía quatro asas e era capaz de voar ativamente – David Silvas

Os mares, por sua vez, eram ainda dominados pelos Ichtyossauros, que agora compartilhavam seu território com Pliossauros e, posteriormente, também com os Plesiossauros, grandes répteis marinhos carnívoros. Além disso, um grupo de moluscos, denominados Amonitas, diversificou-se significativamente, se espalhando por todos os oceanos.

Imagem relacionada
Ichtyossauros, Plesiossauros e Amonitas dividiram o mar aberto por milhões de anos. Imagem por Dustdevil

Imagem relacionada
Pliossauros viviam próximos de ambientes costeiros e surgiram na mesma época que as primeiras grandes florestas de Kelpie  – Imagem por Nikolay Zverkov

Cretáceo – 145 até 65 milhões de anos atrás

 O período Cretáceo foi marcado por inúmeras mudanças na superfície de nosso planeta. Enquanto no Jurássico o planeta estava dividido em dois grandes continentes (Laurásia ao norte e Gondwana ao Sul), ao longo do Cretáceo os continentes adquiriram formas e posições similares ao que estão hoje. Isso ocasionou grandes alterações na biodiversidade do planeta, com episódios de especiação em locais isolados.

Resultado de imagem para jurassic earth map
Mapa da Terra durante o Jurássico – Por C. R. Scotese

Resultado de imagem para cretaceous earth map
Mapa da Terra no Período Cretáceo – Fonte desconhecida

Os ancestrais dos ceratopsianos, assim como os animais do clado Pachycephalosauria,  surgiram na Laurásia e, por isso, estavam presentes apenas no Hemisfério Norte durante o Cretáceo, adquirindo uma grande variedade de formas e tamanhos durante esse período.

A imagem pode conter: texto
Diferentes espécies de Ceratopsianos – Por Julio Lacerda

Nos mares, os Ichtyossauros foram extintos no início do período, o que abriu espaço para que um grupo de lagartos, parentes dos monitores e do dragão-de-komodo, migrassem para a água. Esses animais, conhecidos como Mosassauros, cresceram, adquiriram muitas adaptações para a vida na água e se tornaram os maiores predadores da época. Sua origem extinguiu uma enorme variedade de crocodilos exclusivamente marinhos, como os Metriorhynchus, o que possibilitou que as tartarugas, que haviam surgido no Triássico, pudessem se diversificar nos oceanos.

A imagem pode conter: texto
Evolução dos Mosassauros por Julio Lacerda

Imagem relacionada
Mosassaurus sp. caçando um pliossauro – Por Henry Sharpe

Dentre os terópodes, os Dromaeossauros eram os mais bem sucedidos, espalhando-se por todo o mundo e atuando como carniceiros e predadores de topo em algumas regiões. A presença de penas nesses animais demonstra uma enorme interação intra-específica, o que indica a inteligência desses animais. Grupos como os Tiranossauros e Spinossaurideos também surgiram na época no hemisfério Norte e Sul, respectivamente, tornando-se os maiores carnívoros terrestres desses locais.

Imagem relacionada
O Velociraptor mongoliensis, uma das estrelas da franquia Jurassic Park, era um animal pequeno e emplumado – Imagem por Chris Masna

Imagem relacionada
Dakotaraptor por Fred the Dinosaurman

Resultado de imagem para tyrannosaurus kana hebi
Ancestrais do Tyrannosaurus rex eram completamente cobertos de penas, o que indica que provavelmente esses animais possuíam algum tipo de adorno de penas em seu corpo – Por Gabriel Ugeto

Resultado de imagem para Brazilian sail-backed dinosaur
Reconstrução de um Spinossaurídeo da Bacia do Araripe (Brasil) por Julio Lacerda

Os saurópodes atingiram tamanhos descomunais nesse período, sobretudo na América do Sul, tornando-se os maiores animais que já caminharam no planeta. Algumas espécies, como o recém nomeado Patagotitan, atingiam até 33 metros de comprimento (40 metros em algumas estimativas).

Resultado de imagem para patagotitan
Escala de tamanho do Patagotitan feita para o  American Museum of Natural History

Resultado de imagem para patagotitan paleoart
Maior animal terrestre da história – Patagotitan mayorum por Román Garcia Mora

Nesse período, as aves se diversificaram em vários grupos voadores e aquáticos, mas os pterossauros eram o grupo mais diverso, com animais de poucos centímetros até o enorme Quetzalcoatlus, com 5 metros de altura e uma envergadura de 11 metros de comprimento.

Resultado de imagem para pterosaur diversity
Diversidade de Pterossauros em artigo de Longrich et. al. (acima) e por Julio Lacerda (abaixo)

Resultado de imagem para pterosaur diversityImagem relacionada

Um pequeno grupo de lagartos da época foi, progressivamente, perdendo suas pernas e adquirindo características que facilitavam a vida em um ambiente subterrâneo, originando, futuramente, as primeiras serpentes.

Resultado de imagem para najash
Najash rionegrina, cobra com pernas do Cretáceo por Franz Anthony

Por fim, um grupo de plantas espermatófitas adquiriram características únicas nesse período, que moldariam a evolução de inúmeras espécies de animais e alterariam todos os ecossistemas da Terra. Surgiram, assim, as primeiras angiospermas, plantas com flores que atraíam animais para auxiliar em sua polinização através de estruturas coloridas ou de um néctar açucarado. As primeiras flores eram estruturas simples, muito diferentes das que conhecemos hoje, mas, no fim do Cretáceo, árvores com flores e uma enorme variedade de insetos polinizadores, como abelhas e borboletas, haviam surgido.

Imagem relacionadaResultado de imagem para archaefructus

Resultado de imagem para cretaceous 252mya
Pachycephalosaurus e árvore florida – Por Julio Lacerda

No fim do Cretáceo, as três principais linhagens de mamíferos atuais (Monotremados, Marsupiais e Placentários) já existiam, mas seu papel será contado no próximo capítulo de nossa história.

Embora os dinossauros tenham sido um dos animais terrestres mais abundantes do Cretáceo, sua diversidade diminuiu de forma significativa até o final do período. As mudanças tectônicas ocorridas na época ocasionaram grandes emissões de gases vulcânicos na atmosfera que, aliados a um aquecimento global, extinguiram um grande número de espécies. Entretanto, um meteoro com mais de 10 quilômetros de diâmetro se chocou com o planeta, 65 milhões de anos atrás. Esse desastre fez com que todos os animais em um raio de milhares de quilômetros morressem e que uma nuvem de poeira cobrisse todo o planeta por cerca de dois anos. Essa escuridão fez com que a maior parte das plantas e algas não conseguissem realizar fotossíntese e morressem, o que destruiu todas as cadeias alimentares dos oceanos e da terra firme, matando os animais grandes do planeta em sua totalidade.

Resultado de imagem para kt event
Impacto do meteoro no chamado Evento K-T – Por Julius Csotonyi

Resultado de imagem para cretaceous mass extinction dust cloud
Nuvem de poeira impediu que a luz solar chegasse às plantas por cerca de dois anos

Todos os pterossauros, mosassauros, amonitas e plesiossauros morreram, deixando o planeta apenas para os pequenos animais. Os mamíferos herdaram um planeta muito diferente daquele em que evoluíram, e puderam ocupar novos nichos e crescer de tamanho como nunca antes. Quanto aos dinossauros, uma linhagem sobreviveu, e se tornou o pior inimigo dos mamíferos nos milhões de anos seguintes, mas essa é uma história para o nosso próximo capítulo. Novamente, a vida sobreviveu e evoluiu até formas que possibilitariam uma nova espécie que mudaria toda a biosfera: O Ser Humano.

 

 

Referências

Canais do youtube Eons e SciShow

Documentário Walking With Dinosaurs da BBC

Site Earth Archives

Artigos:

Late Maastrichtian pterosaurs from North Africa and mass extinction of Pterosauria at the Cretaceous-Paleogene boundary por Longrich N. R. et. al.

A New Aetosaur (Archosauria, Suchia) from the Upper Triassic Pekin Formation, Deep River Basin, North Carolina, U.S.A., and Its Implications for Early Aetosaur Evolution por Heckert A. B. et. al.

 

A Teoria de Tudo que está Vivo – Parte I – Do gênesis ao apocalipse

Prólogo

A Terra é um planeta com cerca de 4,6 bilhões de anos de idade, que passou 560 milhões de anos como qualquer outro planeta do novo do Sistema Solar, com uma superfície quente e escaldante e sem uma atmosfera complexa. Com o passar do tempo, sua superfície resfriou e a crosta terrestre foi formada, mantendo o magma em seu interior. A atmosfera era composta, principalmente, por metano, dióxido de carbono, amônia, hidrogênio e vapor d’água que, posteriormente, formaria os mares e oceanos. Esse planeta sem oxigênio e sem uma camada de ozônio seria, muito em breve, alterado por um componente único, que mudaria sua atmosfera, clima, geologia e sua história: a vida. Sua origem, juntamente com os primeiros 4 bilhões de anos de sua história, foram marcados por mudanças extremas em nosso planeta, com eventos de glaciação globais, movimentos tectônicos e extinções em massa, com a biota formada apenas por organismos unicelulares (devido à sua complexidade, esse tema será tratado em uma postagem futura). O surgimento de organismos pluricelulares será o marco que dará  início a essa série de textos, focados na história da vida complexa do nosso planeta, e que nos mostrará como e por que estamos aqui.

Na primeira parte dessa jornada, embarque para o Paleozoico, a era que se inicia com uma explosão de vida e termina com quase sua extinção.

Nota do autor: Embora para facilitar o entendimento do texto sejam utilizados termos como “aparecem”, “surgem” ou “evoluem por causa disso”, a evolução é um processo complexo que demora milhões de anos para acontecer. Um organismo não surge a partir de outro para realizar determinada tarefa ou porque as condições não estavam adequadas e ele teve que se modificar. A evolução é um processo complexo e, muitas vezes, surpreendentemente aleatório, no qual uma pequena mutação genética pode ocasionar em uma mudança fenotípica do organismo, o que pode ou não conferir uma vantagem. Os organismos mais adaptados ao ambiente, após milhões de anos de acúmulo de pequenas mutações, irão sobreviver, enquanto aqueles que não conseguirem lidar  com as mudanças ambientais serão extintos. 

Pré-Cambriano – 4,6 bilhões a 542 milhões de anos atrás

Pré-Cambriano é o nome genérico para toda a escala de tempo no planeta anterior ao período Cambriano. Durante essas eras geológicas, pouco mudou do ponto de vista da complexidade dos organismos. Grandes avanços como o surgimento da fotossíntese e da célula eucariótica possibilitaram booms de diversidade, mas as evidências de organismos multicelulares desse período são escassas. No final do Pré-Cambriano, após milhões de anos de ciclos de glaciação que congelaram nosso planeta completamente, iniciou-se o Período Ediacariano (de 635 a 542 milhões de anos atrás), época em que poderiam ser encontrados organismos como esponjas e cnidários, assim como diversos tipos de algas. Animais pertencentes à chamada “Biota de Ediacara”, seres tubulares, bentônicos (vivendo no solo marinho) e majoritariamente sésseis (imóveis), apareceram nesse período e ocuparam diversas regiões oceânicas.

Resultado de imagem para ediacaran biota 252myaApesar de possuírem algumas características que indicam seu parentesco com os organismos bilaterais, que veremos mais a frente, esses organismos são diferentes de tudo aquilo que conhecemos,  por possuírem um crescimento fractal complexo em algumas espécies e simetria trilateral em outras. Alimentavam-se, assim como esponjas e águas-vivas primitivas, filtrando a água a seu redor, não precisando sair do lugar.

Pteridinium (esquerda) e Tribrachidium (direita), por Franz Anthony

Ainda pouco se sabe sobre esses animais, mas esses organismos apareceram repentinamente no registro fóssil, e assim também sumiram. Acredita-se que seu desaparecimento está relacionado com o surgimento de organismos de movimentação rápida e capazes de realizar predação ativa, no início da era Paleozoica. A partir da origem da predação, a vida nunca mais seria a mesma.

Cambriano – 542 milhões a  488 milhões de anos atrás

Poucos milhões de anos antes do Cambriano, grandes florações de algas nos oceanos elevaram o oxigênio na atmosfera de 8% para 12,5% (63% do nível atual). Isso fez com que esse gás, essencial para metabolismos elevados, se dissolvesse no oceano, o que permitiu o aparecimento da predação ativa. O surgimento dessa nova técnica alimentar permitiu que organismos se movessem em busca de presas que, consequentemente, se  tornaram mais rápidas.

Resultado de imagem para anomalocaris 252mya

Imagem relacionada
Anomalocaris (Dinocaridida), maior predador do Cambriano. Embora não fosse muito grande para padrões atuais, era bem maior que outros animais contemporâneos.

Mudanças repentinas na química dos oceanos, como o aumento de carbonato de cálcio, causadas pela erosão, possibilitaram que esses organismos desenvolvessem novas proteções feitas de materiais inorgânicos, como conchas e, posteriormente, carapaças.

Resultado de imagem para 252 mya art  cambrian
Predadores e presas interagiam nos primeiros ecossistemas complexos da Terra

Essa corrida armamentista, que durou cerca de 80 milhões de anos, deu origem a animais das mais variadas formas e tamanhos e, como resultado, criou ecossistemas complexos e ativos.

Imagem relacionada
Reprodução da biota do Cambriano ( Créditos BBC)

O registro fóssil aponta que, apesar de serem bem diferentes do que estamos acostumados, nessa época surgiu a maioria dos principais filos animais que conhecemos hoje, como os moluscos, artrópodes, cordados e anelídeos.

Resultado de imagem para pikaia
Pikaia, o ancestral de todos os cordados viventes, incluindo os vertebrados

Dentre os animais desse período, destacam-se os trilobitas, artrópodes com uma carapaça trilobada. Esses organismos foram, sem dúvida, uma das formas animais mais bem sucedidas da história, que permaneceriam no mundo por milhões e milhões de anos.

Resultado de imagem para trilobite diversity
Diversidade de trilobitas durante o Paleozoico

Nesse período surgiram também as primeiras plantas macroscópicas marinhas, embora apenas formas de algas e biofilmes bacterianos cobrissem a terra firme em regiões úmidas.

Ordoviciano – 488 a 443 milhões de anos atrás

O final do Carbonífero e início do Ordoviciano foram marcados por uma queda nas temperaturas globais, seguida por uma redução dos níveis de oxigênio do planeta. Isso ocasionou a extinção dos maiores predadores da época, do táxon Dinocaridida (ver representação do Anomalocaris acima). Esse nicho ecológico foi rapidamente sendo substituído pelos euriptéridos (escorpiões-marinhos), um grupo de artrópodes carnívoros extremamente ágeis, que seriam a chave para a diversificação do próximo período geológico.

Resultado de imagem para ordovician Eurypterida
Representação do Megalograptus, um escorpião-marinho do Ordoviciano

Uma grande diversidade de alimentos permitiu o surgimento de novos grupos de moluscos, como filtradores (bivalves), que permaneceriam imóveis no chão, e os caçadores ativos (cefalópodes), que utilizariam suas enormes conchas como forma de flutuação. Esses organismos se tornariam os maiores predadores do oceano, com alguns chegando a 7 metros de comprimento.

Resultado de imagem para cameroceras
Moluscos gigantes da época – Artista desconhecido

Nessa época surgiram também os primeiros peixes (denominados Ostracodermos), a partir de cordados basais. Esses animais ainda não apresentavam uma mandíbula e possuíam diversos ossos dérmicos, que serviriam como uma proteção contra os predadores.

Resultado de imagem para Thelodonti
Diversidade de peixes do Devoniano

Por fim, surgiram as primeiras plantas terrestres, na forma de briófitas, plantas simples não-vasculares. Esses organismos se adaptaram tão bem ao ambiente terrestre que, em poucos milhões de anos, se espalharam por todo o planeta

 

Resultado de imagem para ordovician plants
Representação de plantas do Ordoviciano – Por Sebastian Meyer

Seu sucesso foi tão grande que, durante o fim do Ordoviciano essas plantas haviam tirado a maior parte do CO2, um gás estufa, da atmosfera, o que fez com que as temperaturas caíssem drasticamente e a primeira grande extinção em massa da Terra ocorresse. Cerca de 86% de todas as espécies do planeta se extinguiram, o que abriu novos nichos ecológicos para uma nova diversidade de organismos.

Siluriano – 443 até 419 milhões de anos atrás

Após a última extinção em massa, os níveis de CO2 cresceram novamente e o planeta gradualmente se aqueceu (até 3°C acima da temperatura média atual). Nessas altas temperaturas, os peixes rapidamente se diversificaram e adquiriram diversas formas de proteção, como espinhos e placas ósseas maiores.

Imagem relacionada
Ostracodermos do Siluriano

Os escorpiões-marinhos também se diversificaram nesse período, o que gerou uma pressão seletiva extrema nos peixes maiores da época, uma vez que esses artrópodes eram seus predadores e, ao mesmo tempo, competiam com eles por alimentos menores.

Resultado de imagem para Jaekelopterus

No fim do Siluriano, surgiram os chamados “peixes com mandíbula”, ancestral de todos os peixes ósseos, tubarões e vertebrados terrestres atuais. A presença de uma mandíbula permitia que esses animais mordessem suas presas e manipulassem o seu alimento, incluindo pequenos escorpiões-marinhos.

Resultado de imagem para entelognathus
Entelognathus, o primeiro peixe mandibulado

O Siluriano também foi marcado pelo aparecimento das primeiras plantas vasculares, o que criou novos ecossistemas na terra e, milhões de anos depois, possibilitou a colonização terrestre por milípedes e anelídeos. Surgiram também nessa época os Prototaxitesfungos de até 8 metros de altura que viviam nesses ambientes antes intocados.

Resultado de imagem para Prototaxites

Devoniano – 419 até 359 milhões de anos atrás

Durante o Devoniano, um enorme processo de diversificação ocorreu, tanto em terra quanto na água. Nesse período, surgiram os primeiros tubarões e os primeiros Placodermos verdadeiros, um grupo de peixes com placas ósseas que cobriam sua pele. Esses animais se tornaram os maiores predadores dos oceanos, uma vez que seus dentes ósseos e sua mandíbula articulada poderiam matar até mesmo os maiores escorpiões-marinhos da época.

dunkleosteus.jpg
Dunkleosteus, o maior placodermo carnívoro da história, com até 10 metros

Na terra, surgiram as primeiras pteridófitas, grupo que inclui as samambaias e, posteriormente, as primeiras plantas capazes de produzir lignina, uma substância química que será de extrema importância para o próximo período geológico. Essas eram, portanto, as primeiras árvores verdadeiras, que possuíam um tronco composto de madeira que, até aquele momento, nenhum organismo era capaz de deteriorar. Essas árvores, denominadas de Lepidodendron, espalharam-se pela terra e formaram as primeiras grandes florestas. Esses ambientes possibilitaram o surgimento de novos organismos terrestres, como os primeiros insetos, e a migração de artrópodes aquáticos para a terra, como os aracnídeos.

Resultado de imagem para devonian forest
Pintura representando as primeiras florestas do Devoniano

Um novo grupo de peixes surgiu durante o Devoniano, conhecidos popularmente como “peixes-de-nadadeiras-lobadas”. Esses animais viviam em águas rasas, longe dos territórios de caça dos placodermi. Cerca de 380 milhões de anos atrás, um grupo desses peixes se diversificou em organismos que conseguiam respirar fora da água por longos períodos de tempo, surgindo, assim, os primeiros ancestrais diretos dos anfíbios, como o Tiktaalik e o Acanthostega. Essa transição possibilitou o surgimento de diversos novos tipos de interações ecológicas e de novas formas de vida, o que moldaria nosso planeta para sempre.

Resultado de imagem para tiktaalik paleoart

Resultado de imagem para acanthostega
Tiktaalik (topo) e Acanthostega, os “elos perdidos” entre peixes e anfíbios – Segunda arte por  Hakon Lystad

Entretanto, durante o fim do Devoniano, ocorreu a terceira grande extinção em massa do nosso planeta, ocasionada pela queda da concentração de oxigênio e por mudanças no nível dos oceanos. Aproximadamente 70% das espécies viventes foram extintas, incluindo todos os Placodermi e diversos grupos de trilobitas.

Resultado de imagem para sea
Os Placodermi foram um dos grupos extintos durante o fim do Devoniano – Arte por Konstantin Korobov

Carbonífero – 359 até 299 milhões de anos atrás

O carbonífero é, sem dúvida, um período único na história do nosso planeta, diferente de tudo aquilo que conhecemos. A grande quantidade de florestas proporcionou uma enorme umidade ao planeta, juntamente com uma concentração de oxigênio na atmosfera de 32.5%, ou seja, 163% da quantidade atual, o que favoreceu significativamente os tetrapodas basais da época. Esses anfíbios primitivos se dividiram em duas grandes linhagens, conhecidas como Batracomorpha, mais dependentes da água, que dariam origem aos anfíbios atuais, e os Reptiliomorpha, que comentaremos a seguir.

Resultado de imagem para carboniferous amphibians
Eryops, anfíbio gigante do Carbonífero

As grandes taxas de oxigênio permitiram que os artrópodes, que necessitam que esse gás entre ativamente em seu corpo para oxigenar seus tecidos, crescessem muito. Pela primeira vez desde o  ordoviciano,  eles se tornaram os maiores animais da terra. Libélulas com 75 cm de envergadura e centopeias com 3 metros de comprimento dominavam o ambiente terrestre e atuavam como importantes agentes na cadeia alimentar e como grandes herbívoros, respectivamente.

Imagem relacionada
Meganeura, maior inseto da história, com 75 cm de envergadura

Imagem relacionada
Arthropleura, milípede gigante do Carbonífero – Representação feita pela BBC

Ao longo do Carbonífero, os Reptiliomorpha adquiriam algumas adaptações que permitiam que eles vivessem mais longe da água, como uma pele queratinizada e crânios complexos. Surgiram então os primeiros tetrápodes herbívoros e, pouco tempo depois, os amniotas. Esses novos animais conseguiam botar ovos com casca, o que possibilitou a conquista de novos ambientes e uma dependência ainda menor da água. Os amniotas se dividiriam em duas grandes linhagens, os répteis e os sinaptídeos, dois protagonistas de nossa próxima era geológica.

Resultado de imagem para Hylonomus paleoart
Hylonomus, o primeiro amniota da história – Arte por Nobu Tamura

Como dito anteriormente, as árvores conhecidas como Lepidodendron possuíam lignina em seu tronco, um composto extremamente resistente. Ao longo de milhões de anos, florestas inteiras surgiam e desapareciam por todo mundo, mas nenhum organismo era capaz de decompor as toneladas de madeira que se acumulavam no solo por todo o mundo. Isso fez com que, anualmente, toneladas de gás carbônico fossem retiradas da atmosfera e não retornassem, acumulando-se no solo e gerando uma era glacial a longo prazo. A maior parte do carvão vegetal do mundo vem de depósitos de 350 milhões de anos de idade, compostos, sobretudo, por toneladas de árvores mortas que se acumularam por milênios no solo. Fungos capazes de decompor madeira só surgiriam no final do Carbonífero, que auxiliariam na limpeza do planeta.

Resultado de imagem para lepidodendronImagem relacionada

Essa era do gelo, combinada com movimentos tectônicos que criaram um novo supercontinente, denominado Pangeia, impediam que, ao final do Carbonífero, a umidade dos oceanos chegassem ao centro do continente Isso gerou um colapso global das florestas e criou um enorme deserto, que seria o palco para a diversificação dos Aminiotas, no próximo período.

Permiano – 299 a 250 milhões de anos atrás

O Permiano será, por hora, a última etapa de nossa aventura. A Pangeia era, agora, o único continente de nosso planeta, que se estendia por milhares de quilômetros e era coberta por um grande deserto em sua maior parte. Nesse ambiente, répteis, sinapsídeos e anfíbios adquiriram novas formas e adaptações, variando de poucos centímetros até muitos metros de comprimento. Os répteis eram os coadjuvantes desse período, vivendo majoritariamente em tocas subterrâneas e no topo de árvores e se alimentando de pequenos insetos, que lentamente diminuíam devido à queda do oxigênio atmosférico. Os anfíbios, por sua vez, eram os maiores predadores de rios e lagos, enquanto tubarões e peixes-de-nadadeiras-lobadas circulavam nos oceanos da época.

Resultado de imagem para prionosuchus paleoart
Com até 9 metros, o Prionosuchus plummeri foi o maior anfíbio da história e viveu no Nordeste do Brasil, 270 milhões de anos atrás

Em terra, os synapsidas eram os animais dominantes, com representantes herbívoros que viajavam em grandes manadas e carnívoros, como o famoso Dimetrodon.

Resultado de imagem para dimetrodon
Dimetrodon, mais famoso synapsida pré-histórico – Arte por Gabriel Uguetto

Os sinapsídeos tornaram-se os maiores caçadores da época, sobretudo os de um táxon denominado Therapsida, que possuía representantes carnívoros e herbívoros, os ancestrais diretos dos mamíferos.

Resultado de imagem para herbivorous synapsids
Inostrancevia caçando Scutosaurus, grande pararéptil da época

A enorme diversidade de animais na metade final do Permiano era surpreendente, mas não durou muito. No fim desse período, um enorme ciclo de vulcanismo ocorreu na região que hoje corresponderia à Sibéria. Estima-se que uma erupção vulcânica que durou milhares, senão milhões de anos, ocorreu na região, derretendo uma área da crosta terrestre o equivalente a 2/3 do tamanho dos Estados Unidos. Esse evento bombeou toneladas de gases tóxicos na atmosfera e alterou, de forma significativa, o clima em todo planeta, com ciclos de glaciação e aumentos extremos de temperatura , separados apenas por poucos milhões de anos. Além disso, surgiram também bactérias produtoras de metano, que alteraram a composição do ar e dos oceanos da Terra. Chuvas ácidas varreram as plantas terrestres e a temperatura dos oceanos chegou a 40ºC em alguns pontos. Isso gerou um decaimento de todos os ecossistemas do planeta, em uma escala nunca vista antes, que extinguiu 95% de toda a vida nos oceanos, incluindo todos os trilobitas, e 73% da vida em terra firme, matando, sobretudo, diversos grupos de plantas e os grandes terapsídeos. Esse evento, conhecido como “The Great Dying“, foi o mais perto que nosso planeta esteve de um colapso total, e, ainda hoje, não é possível compreender todas as suas causas.

Resultado de imagem para permian extinction 252mya

Resultado de imagem para permian extinction 252mya
Representações da extinção do Permiano, que quase extinguiu a vida no planeta – Arte pela incrível equipe do 252MYA.COM

Até aqui, pudemos ver nossas origens, nossa diversificação e, até mesmo, nossa destruição. No fim do Permiano, a biosfera enfrentou o seu maior desafio até hoje, mas ela perdurou e, durante o Mesozoico, ressurgiu em formas mais espetaculares do que nunca. No próximo capítulo de nossa jornada, veremos a criação do voo pelos vertebrados, o surgimento dos mamíferos e o aparecimento dos animais que, acreditem ou não, ainda vivem entre nós: os dinossauros!

 “If there is one thing the history of evolution has taught us it’s that life will not be contained. Life finds a way” – Ian Malcolm, Jurassic Park

“A natureza nos ensinou que a vida não pode ser contida, ela evolui. A vida encontra um meio.”

Referências 

Canais do YouTube – EONS e SCISHOW

Inspirado pelas incríveis artes de Gabriel Ugueto  e da equipe do estúdio 252mya

 

7 consequências da paralisação no transporte

 

Muitas pessoas não imaginam como o transporte influencia na economia do país e do mundo. O que pode acontecer se os caminhões param de rodar?

1 –  Lojas de mantimentos

As feiras, mercados e supermercados ficarão sem alimentos perecíveis em até quatro dias.

como-economizar-na-feira-doze-dicas-infaliveis-2.jpg

2 – Bancos

Os caixas eletrônicos do país ficarão sem dinheiro vivo para saque em apenas dois dias.

1.jpg

3 – Hospitais

Hospitais e farmácias ficarão sem remédios e suprimentos, como o oxigênio, em apenas  três dias.

Corredor-de-hospital.jpg

4 – Lixo

Os resíduos sólidos diários se tornarão um problema de saúde pública em menos de duas semanas.

Morro-do-SãoBento.jpg

5 – Água

Sem a entrega dos suprimentos vitais para limpeza da água, necessários para o funcionamento de uma Estação de Tratamento de água e purificação, logo a distribuição de água potável e a obtenção de água limpa da torneira serão prejudicadas.

torneiracomgua.jpg

6 – Combustíveis

A maioria dos postos de gasolina estará sem combustível  em apenas uma semana após o término do fornecimento e muitos acabarão com seu estoque em apenas um dia.

Investir-em-Posto-de-Gasolina-InvestBrasilUSA.jpg

7 – Compras

Se você estava pensando em adquirir algo pela internet ou fazer compras no shopping pode esquecer. Você não conseguirá comprar roupas, sapatos ou eletrônicos em até três meses após o fim dos transportes rodoviários.

22A82271.png

Nas primeiras 24 horas …

  • A entrega de suprimentos médicos para a área afetada cessará.
  • Os hospitais ficarão sem suprimentos necessários.
  • As estações de serviço começarão a ficar sem combustível.
  • Os fabricantes que utilizam manufatura just-in-time desenvolverão escassez de componentes.
  • Os correios e outros meios de entrega serão suspensos.
  • A disponibilidade e a entrega de combustíveis para automóveis diminuirão, levando a preços exorbitantes e longas filas nas bombas de gasolina.

 

De 2 a 3 dias …

  • A escassez de alimentos aumentará, especialmente em face do desespero de consumidores e do pânico.
  • Suprimentos essenciais como água engarrafada, leite em pó e carne enlatada que são comercializadas nos principais varejistas começarão a desaparecer.
  • Os caixas eletrônicos ficarão sem dinheiro e os bancos não poderão processar as transações.
  • Estações de serviço ficarão completamente sem combustível.
  • O lixo vai começar a se acumular nas áreas urbanas e suburbanas.
  • Navios porta-contêineres ficarão inativos nos portos e o transporte ferroviário será interrompido, eventualmente chegando a um impasse.

 

Em uma semana …

  • O transporte individual de automóveis cessará devido à falta de combustível.
  • Os hospitais começarão a esgotar o suprimento de oxigênio.

 

Em duas semanas…

  • O fornecimento de água limpa começará a entrar em colapso.

 

Em um mês …

  • O abastecimento de água limpa do país estará esgotado.  

 

b9f05244-7be9-4697-90e9-ff382ea882dd.jpg

Como se pode ver, se a paralisação dos caminhões continuar, haverá um efeito dominó severo. Caminhões são a força vital de muitas indústrias, entregando os bens e suprimentos que precisamos para sobreviver. A gigante do petróleo, a Petrobras, perdeu 5,8% de seu valor nas primeiras negociações de ações da empresa no momento em que o país entra no quarto dia de uma série de greves que está causando um grande impacto na economia.

Os motoristas de caminhões estão tentando combater os altos preços do diesel, causados ​​pelo recente aumento nos mercados globais e pela desvalorização da moeda brasileira. Há interrupções nos serviços de ônibus nas principais cidades do país – como o Rio de Janeiro e São Paulo – e alguns lugares já estão enfrentando escassez de alimentos e de combustíveis. Os aeroportos receberam combustível de aviação durante a noite, mas os estoques devem acabar hoje se essa paralisações continuarem.

caminhao1.jpg

A Petrobras e o governo estão no coração da crise, pois são eles que determinam o preço do combustível no Brasil. Foi proposto um corte temporário de 10% nos preços do diesel, mas a oferta não conseguiu pôr fim aos protestos. Analistas dizem que os investidores vêem a oferta da Petrobras como uma intervenção do mercado nos preços, o que causou grandes prejuízos à empresa no passado recente.

 Os caminhoneiros estão exigindo uma nova política de preços que reduzirá o custo do diesel. Eles estão bloqueando estradas na maioria dos estados do Brasil, impedindo que mercadorias e suprimentos cheguem ao seu destino. Os caminhões respondem por mais de 60% das mercadorias transportadas no Brasil.

5f97a706-a21a-4da6-84f7-9db0643d4ab7.jpg

Até quando o governo vai esperar para que toda a nação entre em colapso? Temos que ser solidários à causa e mostrar aos nossos representantes que é o povo brasileiro que move o Brasil.

Fonte:

Artigos

  • “Truck Transportation & the World Economy” do RL Carrier Sinc; 
  • “Transportation Data Source” da empresa TDS. 

Rios Voadores e Tempestades de Areia

Muitos dizem que a Amazônia é o pulmão do mundo, mas essa informação pode não estar tão correta quanto você imagina. Porém, mesmo desmitificando algumas ideias, esse texto se propõe a mostrar a harmonia extraordinária que existe na natureza.

Ciclo_Hidrologico
Ciclo Hidrológico

Fazendo uma analogia com o corpo humano, a água é para a natureza como um sangue que leva nutrientes essenciais ao resto dos órgãos, trazendo de volta um fluido já utilizado para ser renovado. Na Amazônia ocorrem coisas muito semelhantes e é conveniente ressaltar o poder desses processos para a vida. A evapotranspiração na Amazônia é de extrema importância para o clima global, já que muitas das correntes de umidade começam ali.

À primeira vista, alguns fenômenos da natureza não nos parecem muito lógicos porque não conseguimos vê-los. É o caso dos Rios Voadores que, apesar de não conseguirmos vê-los ou tocá-los, eles estão lá. Não é mágica. É apenas a natureza cumprindo o seu trabalho. As árvores presentes na Amazônia transferem tanta água do solo para a atmosfera que esse evento é visto até mesmo do espaço. Há aproximadamente 600 bilhões de árvores na região, que utilizam a luz do sol para fazer tal transferência de forma singela e delicada. Uma só árvore de grande porte consegue jogar para a atmosfera 1000 litros de água por dia somente a partir de sua transpiração. Se fizermos o cálculo correto e somarmos toda a área da Amazônia multiplicado pela quantidade de água que é transmitida ao ar pela vegetação, o suor da floresta, chegaríamos ao número extraordinário de 20 bilhões de toneladas de água em um único dia.

evapotranspiration

Os Rios Voadores são o fluxo concentrado de vapor d’água em uma determinada região, que realiza exatamente o mesmo papel de um rio convencional de transportar água de um lugar para outro, contribuindo no processo de fertilização hidrológica, ou seja, eles levam matéria prima para a formação de nuvens e de chuva.

COMO FUNCIONA? O vapor que vem do Oceano Atlântico em forma de nuvens vira chuva sobre a mata. Com o calor, essa água evapora e volta a formar gotículas d’água acima das copas das árvores da floresta. Então, essa água é levada por correntes de ar que são desviadas próximo ao estado do Acre por causa das Cordilheiras dos Andes. Esse Rio Voador segue até o Centro e o Sudeste do Brasil onde se transforma, por causa do calor, outra vez em chuva.

ch1t1
Rios Voadores e sua direção

A título de comparação, o Rio Amazonas, maior rio da Terra que possui 1/5 de toda a água doce proveniente de todos os continentes do mundo e que chega aos oceanos, despeja 17 bilhões de toneladas de água por dia no Oceano Atlântico. Apesar de não conseguirmos dimensionar a quantidade de água transportada pelo rio de vapor, sabe-se que é maior que a do Rio Amazonas.

Existe uma interação curiosa que ocorre no mundo, chamada de Paradoxo da Sorte. Olhando o mapa abaixo, facilmente percebemos que na Zona Equatorial estão presentes as florestas e que os desertos estão organizados de forma alinhada a 30º de latitude Norte e a 30º de latitude Sul. No Hemisfério Sul temos o deserto do Atacama, Namib e Kalahari e o Grande Deserto da Austrália, enquanto que no Hemisfério Norte temos o Sahara, Sonoran, etc. Há, porém, uma exceção: o quadrilátero que vai de Cuiabá a Buenos Aires e de São Paulo aos Andes, que, apesar de estar na linha de desertos do mundo, não apresenta clima de deserto.

Captura de Tela 2018-05-16 às 20.44.03
Ilustração do Paradoxo da Sorte

Porque essa região seria uma exceção? Voltando à analogia com a fisiologia humana, se os rios funcionam como veias nutrindo a terra em toda sua extensão, os Rios Voadores invisíveis funcionam como artérias que trazem de volta ao continente a água que uma vez foi levada ao mar. Dessa forma, a Amazônia seria o coração de todo esse processo e não os pulmões.

O motivo pelo qual essa quantidade enorme de vapor se formar em cima do continente Sul-Americano e não do oceano é que a floresta recebe e emite partículas que funcionam como núcleos de condensação (Saiba mais sobre nuvens clicando aqui), formando gotas pesadas na atmosfera que provocam chuvas torrenciais. E esses núcleos, muitas vezes, vêm de lugares bem distantes dali.

iodnesdis
Tempestades de Areia

“A floresta não é simples consequência do clima, mas o atual equilíbrio do clima é modelado pela floresta.”
Prof. Enéas Salati.

Agora você pode estar se perguntando onde estaria a relação entre os desertos e a floresta. Pois bem, pouco mais de 5,3 mil km e o Oceano Atlântico separam as cidades de Manaus (AM) e Nouakchott, a capital da Mauritânia, no deserto do Saara. Apesar da distância, o deserto do norte da África e a floresta amazônica têm uma relação mais estreita do que o senso comum nos leva a acreditar. Tão inesperado quanto esta ligação é o fato de ser o deserto que beneficia a mata, e não o contrário, sendo responsável pela maior parte das chuvas torrenciais que caem sobre a região, mantendo sua exuberância e biodiversidade, além de enviar toneladas de nutrientes para a sua vegetação. No caso da floresta amazônica, uma parcela desses aerossóis, que funcionam como núcleo de condensação, é proveniente do Saara.

Isso ocorre de fevereiro a maio, pois, nesta época, a chamada Zona de Convergência Intertropical (ITCZ, na sigla em inglês), fica ao sul de Manaus, favorecendo o transporte de massas de ar do hemisfério Norte para a Amazônia Central”, explica Artaxo.

sahara-dust-to-amazon_animation

Entretanto, não são apenas simples grãos de poeira que o Saara manda para a Amazônia.

Em 2015, a Nasa, agência espacial americana, divulgou um estudo segundo o qual todos os anos o deserto envia, junto com a poeira,  22 mil toneladas de fósforo, nutriente encontrado em fertilizantes comerciais e essencial para o crescimento da floresta. Esse montante é quase a mesma quantidade que a mata produz com a decomposição das árvores caídas, que se perde com as chuvas e inundações.

Segundo o levantamento da Nasa, todos os anos, 182 milhões de toneladas de poeira – mais ou menos o equivalente a 690 mil de caminhões de areia – saem do Saara para as Américas do Sul e Central. Desse total, cerca de 28 milhões de toneladas de poeira – ou 105 mil caminhões – caem na Bacia Amazônica, e, junto com elas, o fósforo.

sahara-dust-to-amazon_curtains

Devido a sua geolocalização, o lugar é atingido por constantes e gigantescas tempestades, que levantam a areia, que depois é transportada para o outro lado do Oceano Atlântico. A descoberta é parte de uma pesquisa maior para compreender o papel da poeira e dos aerossóis no meio ambiente, no clima local e global e, consequentemente, na formação e no volume de chuva na região da floresta brasileira.

chuva-floresta

A maior parte do oxigênio produzido pela Amazônia é consumido por ela própria. Por outro lado, são os Rios Voadores formados na Amazônia que trazem de volta ao continente a água levada ao oceano. Isso nos leva a concluir que a Floresta Amazônica não é o pulmão do mundo e sim, o coração do Planeta Terra. E fica aí uma pergunta: o nosso mundo é ou não é um ser vivo?

Fonte:

Sites:

http://www.ccst.inpe.br

https://www.nasa.gov/content/goddard/nasa-satellite-reveals-how-much-saharan-dust-feeds-amazon-s-plants

Artigos:

“Partículas de Aerossóis na Amazônia: Composição, Papel no Balanço de Radiação, Formação de Nuvem e Ciclos de Nutrientes” de Paulo Artaxo e outros;

“NASA Satellite Reveals How Much Saharan Dust Feeds Amazon’s Plants” de Rob Garner

6 coisas que você NÃO queria saber sobre sua comida

Os alimentos são uma das alavancas que impulsionam a sociedade atual. Os insumos, a produção, a distribuição, o armazenamento e o comércio que circundam a nossa comida diária fazem parte de uma grande indústria que é muito mais complexa do que imaginamos. No meio de ingredientes selecionados e produtos industrializados, existem alguns segredos que a indústria alimentícia não quer que você saiba.

1 – Corante Carmim

Resultado de imagem para carmineImagem relacionada

Provavelmente o produto mais conhecido dessa lista, o corante carmim é um corante natural de fórmula química C14H7NaO7S e comercialmente conhecido como “corante natural carmim de cochonilha”, “corante natural carmim”, “corante cochonilha”,  “C.I. 75470” e “E120”. Essa substância vermelha, amplamente utilizada como corante de balas, chicletes, iogurtes, sucos, molhos industrializados e maquiagens, é produzida através da moagem de insetos popularmente conhecidos como “cochonilha-do-carmim” (Dactylopius coccus e Porphyrophora spp.). Sua utilização é frequentemente criticada, uma vez que mais de 70.000 insetos precisam  ser esmagados para a produção de apenas 450 gramas desse  corante e por ser dispensável para a qualidade, gosto e durabilidade do produto.

2 – L-Cystein

Resultado de imagem para l cysteine in food

A cisteína é um aminoácido essencial para diversos processos biológicos, entre eles a regulação de proteínas (através das ubiquitina ligases), a produção do antioxidante glutationa e a morte celular programada, também conhecida como apoptose. A L-cisteína, comercialmente conhecida como L-Cystein, é frequentemente utilizada em pães, pizzas, biscoitos e tortas para amaciar e texturizar a massa. Embora esse produto possa ser sintetizado em laboratório, a forma mais barata para sua produção é por meio da moagem e refinamento de alguns produtos animais, como penas de pato, chifres de boi ou, até mesmo, de cabelo humano. Enquanto a produção desse ingrediente através de cabelo é proibida em diversos países, na China, maior produtor e exportador desse produto, mais da metade das indústrias recolhem cabelo humano de salões de beleza ou de revendedores de cabelo.

3 – Castoreum

Imagem relacionadaResultado de imagem para vanilla

A baunilha é uma especiaria proveniente de uma orquídea (Vanilla spp.) nativa do México. Esse aromatizante era amplamente utilizado pelos povos pré-colombianos e, juntamente com o chocolate, foi levado para a Europa por volta de 1520. (Para saber mais sobre a história do chocolate, leia o texto Porque o KitKat pode estar matando os Orangotangos). Ainda hoje, é a segunda especiaria mais cara do mundo, sendo produzida, principalmente, em Madagascar e na Indonésia. Devido a seu valor elevado, diversos substitutos para a baunilha foram testados em todo o mundo, com destaque para um bem estranho: o castóreo. Comercialmente chamado de castoreum ou de “aroma natural de baunilha”, essa substância, amplamente utilizada no século XX, é produzida naturalmente por glândulas localizadas na região anal de castores (Castor canadensis Castor fiber) para marcar seu território e para sua comunicação intraespecífica. Na indústria, é utilizado como fixador de perfume e, eventualmente, ainda pode ser utilizado para a produção de sorvetes, balas, chicletes e bolos. Embora atualmente substitutos mais baratos existam no mercado, sua eficiência e sabor não são tão parecidos com a baunilha quanto o castoreum, que ainda pode ser encontrado em alguns poucos produtos brasileiros.

4 – Isinglass

Resultado de imagem para beer

Também conhecida como “cola de peixe”, essa substância é uma forma de colágeno obtida  no interior da bexiga natatória de diversos tipos de peixes, utilizada para a clarificação e como estabilizante na produção de diversos vinhos e cervejas. Embora seja pouco utilizado pela  indústria de bebidas brasileiras, diversas marcas estrangeiras de cervejas amplamente comercializadas no Brasil ainda usam esse produto.

5 – Polydimethylsiloxane (PDMS)

Resultado de imagem para silicon oil

Esse tipo de silicone, utilizado industrialmente como cola, como sulfactante e na produção de alguns tipos de circuitos elétricos ganhou destaque na indústria alimentícia nos últimos anos. Após testes em laboratório afirmarem que seu consumo era seguro para o ser humano, essa substância passou a ser empregada em diversos alimentos congelados e em óleos vegetais, uma vez que essa substância mantém a temperatura do alimento mais uniforme e facilita o processo de fritura de batatas e nuggets. Grandes redes de Fast Food famosas no Brasil utilizam essa substância na maioria de seus produtos.

6 – Ambergris

Resultado de imagem para Ambergris Resultado de imagem para sperm whale

Pouco utilizada atualmente, essa substância conhecida como “ambar cinza” começou a ser utilizada após 1660 na confecção de doces, bebidas, sorvetes e perfumes. Encontrada flutuando no mar, essa substância doce e de odor característico é, sem dúvida, a mais estranha dessa lista. Até o século XX, acreditava-se que esse material era seiva de árvores petrificada ou algum tipo de cogumelo marinho, porém análises mais detalhadas revelaram uma origem muito mais complexa: Cachalotes (Physeter macrocephalus)! Esses animais, que podem atingir mais de 20 metros de comprimento, alimentam-se, sobretudo, de lulas, que possuem um bico duro constituído de queratina. Eventualmente, esses bicos podem se agregar no interior das cachalotes e formar uma massa fecal dura, que se prende na porção final de seu intestino. Caso seu organismo não seja capaz de se livrar dessa estrutura, ela pode crescer até 5 vezes seu tamanho original e obstruir seu reto, o que acarretará a sua morte. Durante sua decomposição, o ambergris é liberado e fica flutuando na água. Após alguns meses, ele adquire seu gosto e odor característico. Outra forma de sua produção é através do vômito desses mesmos animais. Após a queda das populações de cachalotes durante o século XIX, o uso alimentício do âmbar cinza caiu de forma considerável, mas essa substância ainda é utilizada como fixador de perfume por diversas marcas famosas. Atualmente, 500 gramas de ambergris podem valer até 63 mil dólares, dependendo de sua qualidade.


Embora esses ingredientes possam parecer nojentos para o público comum, muitos deles fazem parte do nosso dia-a-dia e são essenciais para a produção de alguns alimentos que conhecemos. Muitas vezes, preferimos não saber algumas verdades sobre o que ingerimos e utilizamos, mas o conhecimento é o primeiro passo para o fim do preconceito. Existem diversos alimentos exóticos que não provaríamos por medo ou nojo, mas abrir a cabeça para novas experiências pode ser surpreendente. Afinal, um pouco de inseto e de cabelo humano não faz mal a ninguém!

Referências

Site www.atlasobscura.com

Canal do Youtube Minute Earth

Site http://www.health.com

Fotos de Stock Image

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O que aconteceria com o mundo se os seres humanos desaparecessem de repente?

Você já esqueceu suas plantas de lado por um tempo e percebeu que as coisas fugiram um pouco de controle? Agora imagine se todos os seres humanos desaparecessem do planeta de um dia para o outro, o que poderia acontecer?

Primeiramente levaria algum tempo para que tudo se desligasse. Todas as usinas elétricas e as outras formas em que conseguimos energia continuariam funcionando, com exceção dos objetos movidos por inteligência artificial, que já seriam desligados automaticamente. Mesmo que não seja automatizado, algum ponto no processo eventualmente iria falhar e as luzes em todo o Globo Terrestre seriam apagadas. Os empreendimentos movidos a energia solar seriam os últimos a serem desligados, mas é mais que plausível dizer que não haveria mais nada em, no máximo, duas décadas.

wallpaper-425695.jpg

Antes que isso aconteça, a maioria dos animais de estimação morreria, pois eles não conseguiriam sair das casas sozinhos e aqueles que conseguissem não se adaptariam à vida selvagem e se tornariam ferozes, assim como matilhas de lobos. Esse retorno dos animais à natureza geraria uma grande seleção natural até que eles aprendessem novamente o instinto da caça. Alguns animais de zoológico poderiam até escapar, porém muitos morreriam nas baias antes de conseguirem qualquer feito. Os que conseguissem escapar provavelmente fariam das grandes cidades sua nova casa pela facilidade de se encontrar alimento, porém teriam dificuldade de encontrar um parceiro sexual para procriar a espécie. Já os animais de fazendas conseguiriam escapar mais facilmente, tendo em vista que as cercas elétricas não estariam mais funcionando, porém grande parte desses bichos iria morrer e a Terra passaria por um período que os cientistas chamam de O Grande Apodrecimento. Além disso, muitos animais selvagens passariam a morar nos antigos habitats humanos à procura de alimentos deixados para trás.

Em uma refinaria de petróleo, a pressão nos tanques de destilação de óleo, que é monitorada por um operador humano, seria liberada na atmosfera por válvulas de emergência em uma nuvem de gás inflamável. Uma faísca inflamaria a nuvem e toda a refinaria iria explodir. Os tanques de combustível pegariam fogo e queimariam por dias. As usinas nucleares iriam derreter em um ou dois meses e isso iria expor a Terra a muita radiação. Muitas estações de metrô iriam inundar, já que as máquinas que bombeiam milhões de litros de água para fora da galerias todos os dias não estariam funcionando, e então todos esses túneis subterrâneos se encheriam de água em cerca de 36 horas. Times Square finalmente ficaria escura e sem um único visor iluminado para contar história. Analisando os outros extremos, qualquer cidade que esteja localizada em desertos rapidamente se cobriria de areia nos primeiros meses do sumiço humano.

desktop-1465227995.jpg

A maioria das usinas de combustível fóssil seria desativada, provocando o colapso do fornecimento de energia em todo o mundo quando o combustível acabasse. Em Valdez, no Alasca, sem os seres humanos para interromper o fluxo de óleo, os tanques de armazenamento continuariam a alimentar os petroleiros, fazendo com que os tanques dos navios derramassem despejando milhões de galões de óleo na água.

nature-reclaiming-abandoned-places-18.jpgTurbinas movidas a vento poderiam continuar a fornecer energia, mas sem a devida manutenção, seus motores se amontoariam ao longo do tempo. Quando os museus começassem a perder energia, as condições ideais para a preservação das múmias egípcias acaba ria e elas começariam a se deteriorar naturalmente. Do espaço, o brilho de Las Vegas poderia ser o único ponto de luz visível na superfície de um planeta negro. À medida que a energia se esgotasse, bactérias, mofo, insetos e roedores começariam a comer e a decompor os produtos deixados nas prateleiras das mercearias.

No Rio de Janeiro, a estátua do Cristo Redentor desapareceria à noite, quando as luzes se apagassem. No Oceano Atlântico, os ratos começariam a tomar conta de um navio de carga abandonado cheio de trigo. Sem mais aviões no céu para criar condensação com seus rastros, a temperatura da Terra agora seria mais quente durante o dia e mais fria à noite.

Com o passar dos meses, plantas invasoras já teriam tomado conta das cidades e o verde se espalharia. Dentro dos prédios, rachaduras já poderiam ser notadas e pequenos e médios animais poderiam ser encontrados nesses locais utilizando-os como moradia. As florestas, que um dia foram cortadas, começariam a se reerguer, ajudando a destruir ainda mais a estrutura das grandes metrópoles.

146515.259065-Extincao-humanidade.jpg

Em apenas três anos as edificações começariam a erodir e desmoronar, satélites cairiam na Terra e as últimas baterias descarregariam, enquanto animais se assustariam ao ouvir o soar do último “tique” do relógio. Após vinte anos, 75% das cidades do mundo estariam tomadas de vegetação, os prédios estariam caindo e a vida dos animais que sobreviveram estaria mais vasta. Podemos imaginar pontes e carros enferrujados, envolvidos por parreiras, enquanto ainda seria possível ver garrafas plásticas espalhadas por todos os lugares, praticamente intactas com o passar dos anos.

447c3ef1ede69974d5009a77767dafe5.jpg

Em 50 anos, alguns papagaios domésticos seriam os únicos resquícios que lembrariam a fala humana. Sem manutenção vigilante, os cabos de aço da Ponte do Brooklyn, em Nova York, e da Ponte Golden Gate, em San Francisco, estariam enfraquecidos pela corrosão e as estruturas ameaçariam entrar em colapso. Os terremotos também derrubariam várias estruturas ao redor do mundo e as letras de metal do letreiro de Hollywood seriam finalmente derrubadas.
No Golfo do México, apenas uma plataforma de petróleo, que se mantivera intacta após 50 anos de furacões, seria derrubada por um grande tsunami. Em órbita, os satélites artificiais, sem controle, começariam a colidir uns nos outros. Os tanques de cloro, enfraquecidos por cinquenta anos de corrosão, falhariam e enviariam seus gases para o meio ambiente. Muitos animais morreriam sufocados. Parte do cloro também penetraria nos lagos, transformando-os em ambientes ácidos mortais.
Depois de 1.000 anos, quase todos os vestígios da cultura humana estariam enterrados sob vegetação e areia. A maioria das cidades modernas entraria em colapso, tornando-se fragmentos quase irreconhecíveis, cobertos por uma selva de árvores, flores e vegetação. A própria Terra teria enterrado todas as cidades do homem. A natureza se restabeleceria e quase todas as evidências da civilização moderna iriam desaparecer. Enquanto isso, na Lua, os três veículos Lunar Rovers, deixados pelas missões Apollo 15 a Apollo 17, permaneceriam em condições quase perfeitas, impedindo a degradação ou destruição dos impactos de meteoros.
z1jCYc8.jpg

Após 10.000 anos, quase todos os traços da civilização humana já teriam desaparecido. Mesmo os sinais de rádio e de televisão que foram transmitidos para o espaço, que se pensava atravessar por centenas de anos-luz, teriam se tornado radiação estática quase irreconhecível e nem atingiriam o nosso vizinho estelar mais próximo, Alpha Centauri. A Grande Muralha da China, em Pequim, teria envelhecido como uma montanha, e decairia muito lentamente ao longo dos séculos.

Depois de 25.000 anos, ao invés do aquecimento global, a Terra enfrentaria outra Era do Gelo. Desta vez, esta não causaria um impacto tão dramático nas espécies animais e a maioria delas, provavelmente, se adaptaria às novas condições. Vestígios humanos só seriam encontrados enterrados no solo, nunca totalmente degradados. Prova da existência de uma espécie que um dia fora dominante e imponente. Imaginar todas essas consequências nos leva a ter uma certeza: o Planeta sobrevive sem os seres humanos, mas nós nunca existiríamos sem ele. (Leia também Não queremos salvar o planeta)

 

Veja mais no vídeo abaixo publicado pela National Geographic:

 

 

Fontes 

Artigo: “When humans go extinct: How life will evolve after we’re gone?” Lindsay Abrams

Sites: 

https://worldbuilding.stackexchange.com/questions/41587/how-long-can-a-power-plant-continue-to-generate-electricity-without-maintenance

http://lifeafterpeople.wikia.com/wiki/Timeline

 

 

As Guerras e a natureza: Não é somente o ser humano que sofre as consequências!

Guerras são conflitos armados entre dois ou mais grupos distintos, geralmente desencadeadas por uma disputa de território, imposição ideológica ou por fatores econômicos. Embora essas lutas sejam marcadas pela destruição de bens materiais, pelas péssimas condições de vida das pessoas que vivem dentro das zonas de conflito e pela morte de civis, elas têm um grande impacto nos ecossistemas locais, e seus efeitos podem ser sentidos séculos depois.

Na Síria, após sete anos de uma guerra civil brutal, que já matou mais de 470.000 civis, feriu 1,9 milhão (segundo dados de 2016 da Syrian Centre for Policy Research) e desabrigou mais da metade da população do país, Aleppo continua destruída. De 2 milhões de pessoas que residiam no local, apenas 500 mil retornaram após os intensos ataques entre 2012 e 2016.

Resultado de imagem para aleppo
Aleppo, Syria.

Nesse cenário, o zoológico Aalim al-Sahar (Magic World) foi abandonado por seus funcionários após um bombardeio nessa área. Mais de 300 animais foram deixados no local por seus tratadores com muita relutância, sem comida ou água, uma vez que o transporte desses animais seria economicamente inviável e extremamente perigoso. Uma ONG retornou ao zoológico em 2017, encontrando apenas 16 animais vivos, dentre eles leões, ursos, hienas e um tigre. Esses animais foram sedados e transportados, com auxílio do exército turco, para uma uma reserva ambiental na Jordânia, onde receberam tratamento veterinário e estão vivos até hoje.

Lions rescued from war-torn Syria and Iraq given new lease of life at animal sanctuary
O leão Saeed é um dos treze animais resgatados do Zoológico Aalim al-Sahar.                              Foto da European Pressphoto Agency

Entretanto, como esses 13 animais sobreviveram a sete anos de guerra, presos em gaiolas e sem uma fonte permanente de comida ou água? A ONG “Four Paws”, responsável pelo resgate desses animais,  descobriu que, ao longo desses sete anos, mesmo com o risco de novos ataques aéreos e de desmoronamentos, a população local se locomovia semanalmente ao zoológico para fornecer água e alimento para esses indivíduos, muitas vezes retirando de seu próprio estoque. Esse pequeno gesto em um momento tão difícil mostra que a solidariedade e a humanidade persistem, mesmo em tempos de caos.

Resultado de imagem para syrian animals zoo
Os animais resgatados foram transportados para uma reserva na Jordânia, onde vivem até hoje

Infelizmente, isso não é o que geralmente acontece. Enquanto alguns animais conseguem ser resgatados em cativeiros, a situação no meio selvagem é ainda mais difícil em tempos de guerra. Na maioria dos casos, as perdas não são sequer mensuráveis, uma vez que faltam recursos e segurança para a realização de estudos dos impactos da guerra nos ecossistemas locais. Cerca de 80% dos conflitos armados entre 1950 e 2000 ocorreram dentro de áreas incrivelmente biodiversas e ameaçadas (Hotspots). Em 1996, por exemplo, uma guerra se iniciou na República Democrática do Congo, quando trinta e um rinocerontes-brancos-do-norte (Ceratotherium simum cottoni) viviam em uma reserva no país. Cerca de um ano depois, milícias invadiram o parque e, no período de três meses, mataram três quartos da população de hipopótamos, dois terços da população de búfalos e metade da população de elefantes. A população do rinoceronte-branco-do-norte nunca se recuperou e, atualmente, restam apenas duas fêmeas da espécie.

Imagem relacionada
As duas últimas representantes de Ceratotherium simum cottoni  do mundo

O parque Gorongosa, por sua vez, em Moçambique, foi utilizado como sede militar entre 1977 e 1992. Durante esse período, casas, alojamentos e instalações foram construídas para abrigar centenas de soldados que, devido à dificuldade para se alimentar, caçavam a megafauna do parque. Estima-se que, durante esse período, 95% da biodiversidade local foi perdida e, provavelmente, essas populações nunca voltarão a seus valores originais.

Resultado de imagem para Gorongosa
O Parque Gorongosa, em Moçambique, conta com apenas 5% da sua biodiversidade original

Uma pesquisa publicada recentemente na Nature aponta que 70% dos parques da África foram, de alguma forma, afetados diretamente por uma guerra. Esse estudo indicou, ainda, que as guerras são o fator que mais reduziu as populações de animais africanos, superando os impactos da caça e do desmatamento. Baseado nessa pesquisa, pode-se prever os impactos das guerras em outras regiões do planeta, com resultados ainda mais alarmantes.

Em diversas regiões da Ásia, sobretudo no Sudeste, animais e plantas ainda sofrem com o efeito de conflitos passados. Em Myanmar, por exemplo, elefantes-asiáticos (Elephas maximus) sofrem com minas terrestres abandonadas, que são facilmente ativadas pelo peso do animal, o que gera ferimentos extremamente graves. No Vietnã, por sua vez, as florestas ainda não restauraram sua biodiversidade original, cinquenta anos após o uso do Agente Laranja pelo exército estadunidense. Esse herbicida foi utilizado com o intuito de desfolhar as árvores do país, auxiliando no avistamento de bases militares vietnamitas, e de prejudicar a agricultura local. Os efeitos dessa prática na saúde da população e nos ecossistemas foram devastadores e ainda podem ser observados em menor escala.

Imagem relacionada
O Agente Laranja, utilizado no Vietnã, causou desequilíbrios ecológicos e inúmeras fatalidades

A Síria não é uma exceção. A íbis-eremita (Geronticus eremita), uma ave migratória, está  criticamente ameaçada, com apenas 110 exemplares vivendo livres na natureza, em Marrocos. Em 2002, a última colônia desses animais no Oriente Médio foi descoberta em Palmyra, na Síria, contendo apenas 6 indivíduos. Após a captura dessa cidade pelo Estado Islâmico,  a extinção local dessas aves tornou-se iminente.

Resultado de imagem para northern bald ibis syria
Íbis-eremita, espécie criticamente ameaçada vítima das guerras no Oriente Médio

As guerras no nosso planeta, infelizmente, são mais comuns do que gostaríamos. Embora a proteção de animais e plantas pareça supérflua quando vidas humanas estão em jogo, a flora e a fauna são parte de ecossistemas importantes e, assim como monumentos e sítios arqueológicos, fazem parte do patrimônio de um povo. Enquanto existirem guerras, existirão ecossistemas em perigo. E, como disse Asaad Serhal, chefe da Sociedade de Proteção da Natureza do Líbano, “A guerra para, mas ninguém pode trazer de volta as espécies extintas”.

 

Referências:

https://www.pbs.org/newshour/science/in-war-torn-areas-of-africa-wildlife-is-a-major-casualty

Artigo ” Warfare in Biodiversity Hotspots”, de Hanson T. et. al.

Lions rescued from war-torn Syria and Iraq given new lease of life at animal sanctuary

http://www.bbc.com/news/world-middle-east-32872350

 

 

 

 

 

 

Os 3 principais tipos de NUVENS e o que você pode aprender com elas.

Em uma tarde fria de dezembro de 1802, um homem chamado Luke Howard deu uma palestra para um Clube de Ciências de Londres que mudou o entendimento do mundo sobre o céu. Para entender as nuvens não era possível pegar amostras. A única coleta possível seria de água de chuva, que não adiantaria, já que no final apenas restariam vasilhames cheios d’água. Ele então passou a observá-las diariamente e as nomeou em três tipos, conforme veremos ainda no decorrer desse texto.

Mesmo que tenhamos a impressão de que as nuvens são gasosas, elas, na verdade, são feitas de vapor d’água, ou seja: literalmente de gotículas de água líquida ou algumas vezes gelo, presas a pequenas partículas de poeira e outros fragmentos.

As nuvens adquirem formas diferentes dependendo de fatores como temperatura, altitude e umidade. Há inúmeras combinações desses parâmetros e cada uma pode criar um tipo diferente de nuvem. Meteorologistas tiveram que criar um sistema  de classificação para elas. Há apenas dez principais categorias de nuvens, baseadas principalmente em altitudes, como na imagem abaixo, porém, se entrarmos em subcategorias, centenas de tipos a mais podem ser encontradas.

maxresdefault
Classificação de nuvens Fonte: CLIMATEMPO

As 3 formas principais de nuvens são: 

1 – Cirrus 

São nuvens que se formam em grande altitude (formadas tipicamente entre 8km a 15km de altitude). A palavra cirrus é uma palavra em latim que significa “cacho de cabelo” e elas possuem esse nome devido à sua aparência fina e de fraca estrutura. A palavra “cirrus” também pode servir como um prefixo para caracterizar nuvens formadas em elevadas altitudes.

Estas nuvens geralmente são compostas por pequenos cristais de gelo suspensos nas partes mais elevadas da troposfera, que é a camada da atmosfera na qual ocorrem todos os fenômenos meteorológicos. Por isso mesmo, as nuvens do tipo cirrus são indicadores indiretos de mudanças no tempo, como por exemplo fortes correntes de vento na alta atmosfera. Elas também podem ser vistas precedendo frentes de superfície por mais de um dia ou dois. Por exemplo, se uma frente fria está prestes a chegar, podemos observar  algumas vezes nuvens cirrus se formando no céu dois dias antes.

cirrus-2393167_960_720.jpg

2 – Cumulus

As nuvens cumulus são as mais fáceis de serem detectadas, pois são parecidas com chumaços de algodão ou, até mesmo, com almofadas. Por isso o nome “cumulus” em latim significa amontoado ou travesseiro. O topo da nuvem delimita o limite da corrente ascendente que lhe deu origem e habitualmente nunca atinge altitudes muito elevadas, em média, de 0 a 3 km. Surgem bastante isoladas e possuem um topo mais arredondado. Essas nuvens são normalmente chamadas cumulus de bom tempo, porque surgem associadas a dias ensolarados e possuem base definida e uma cor branca brilhante. Originam-se sob o efeito de correntes convectivas, associadas a consideráveis decréscimos de temperatura nas camadas baixas da atmosfera.

74945.jpg

7197424802_7aa7d942a3_b.jpgDentre as nuvens cumulus há um subtipo que deve ser destacado: a famosa cumulonimbus. Ela é uma nuvem densa e encorpada, de grande dimensão vertical e horizontal. Ela pode ter um formato de bigorna e muitas pessoas a associam com um cogumelo de bomba atômica. Contendo gotículas de água na parte inferior e cristais de gelo na parte superior, ela pode conter de 0 a 15 quilômetros de altura. Essa nuvem também é chamada nuvem de tempestade porque sua presença está quase sempre associada à intensa precipitação, presença de rajadas e avanço de linhas de instabilidade de pressão. Ela usualmente é acompanhada de granizo e também pode ocasionar tornados. Além disso, como ela reflete a radiação solar e aprisiona a radiação infravermelha, seu efeito líquido geralmente é o resfriamento.

CCM-e-os-sistemas-severos-na-construção-civil.jpg
Satélite que monitora a altura de nuvens evidenciando uma cumulonimbus. Fonte: CLIMATEMPO

3 – Stratus

Se você vir nuvens do tipo stratus, é hora de entrar em casa e ficar por lá. Nuvens stratus significam vinda de chuva, se estiver quente, e de neve, se estiver frio. Elas se parecem com uma enorme manta cinza que está baixa no céu e se forma a menos de 1km de distância do solo. Quando as nuvens stratus estão no chão ou muito perto do chão são usualmente chamadas de neblina ou garoa. Geralmente essas nuvens de neblina se formam quando o frio acaba e o ar quente chega em seguida. Quando o ar quente flui sobre o solo frio ou sobre o ar frio perto do solo, o vapor de água no ar quente se condensa em gotas de água, que formam uma nuvem. A espessura da nuvem depende de quão úmido o ar está e quão grande é a diferença de temperatura entre o ar frio e o ar quente.

jf-sob-zcas.jpg

Para entender como as nuvens se formam, precisamos dar um passo para trás e examinar os processos de evaporação e condensação. Imagine uma poça d’água do lado de fora em um dia quente. Quando a temperatura do ambiente é quente, as moléculas de água (H2O) são energizadas e podem se movimentar mais rapidamente, expandindo a distância entre elas. Mais moléculas deixarão a massa de líquido da poça e se transformarão em vapor d’água no ar. Em um dia frio, as moléculas têm menos energia e são menos capazes de se separar da massa de água. (Em um dia extremamente frio, as moléculas de água geralmente se contraem em sua forma sólida, gelo, e não possuem o nível de energia necessária para se separarem.) Você pode ver os processos ocorrendo nos dois primeiros casos. No entanto, o resultado do primeiro cenário é a evaporação líquida e o do segundo cenário é a condensação líquida. Outros fatores podem afetar esses resultados, mas, para nossos objetivos, vamos nos concentrar apenas na temperatura. À medida que as moléculas de água se movem entre as fases de vapor, líquido e sólido, elas se movem pelo ar, mesmo que não possamos vê-las. No entanto, quando uma parcela de ar esfria rapidamente e atinge a saturação, há uma chance de que o vapor de água se condense e apareça como uma nuvem. Isso pode ocorrer devido a diferentes fatores, como, por exemplo, o terreno empurrando-o para cima no ar mais frio (chamado levantamento orográfico) ou, talvez, porque ele entre em uma frente fria.

Além disso, a formação de nuvens acontece facilmente quando a água líquida tem algo a que se apegar, permitindo que o vapor de água se transforme em suas fases líquida ou sólida. Um número de partículas pode atuar nesta função, comumente chamada de núcleos de condensação ou núcleos de congelamento (também conhecidos como aerossóis ou nucleadores). Normalmente, partículas de poeira, partículas de sal marinho e fuligem de incêndios florestais servirão como nucleadores fazendo com que as gotículas de água ou cristais de gelo se formem ao redor delas. Estudos mostram que bactérias (especificamente certas bactérias de vegetais) também podem servir como ponto focal para a condensação.

Portanto, se as nuvens dependem de núcleos de condensação para se formarem e trazerem chuva, imaginem o quanto a poluição e o aumento de partículas no ar podem atrapalhar esse processo. Quanto maior a quantidade de partículas poluentes nas nuvens, menor a quantidade de gotículas d’água, diminuindo o peso em cada núcleo.

Conhecer a natureza e seus fenômenos é como conhecer a nós mesmos. A atmosfera é um organismo complexo e complicado, porém, tudo que nos resta é observá-la.

CURIOSIDADE: POR QUE ALGUMAS VEZES AS NUVENS E O CÉU FICAM DE COR LARANJA OU ATÉ MESMO ROSA?

Captura de Tela 2018-04-19 às 02.02.58

Captura de Tela 2018-04-19 às 02.02.40
Fonte: CLIMA TEMPO

Isso explica o motivo de todo e qualquer pôr do sol ser alaranjado, mas não explica o que o tempo frio tem a ver com isso. Muitas vezes, quando o ar está ao mesmo tempo frio e seco, como ocorre em boa parte do Brasil durante o inverno, ocorre um fenômeno próximo à superfície chamado Inversão Térmica. Resumindo, este fenômeno deixa as camadas mais baixas da atmosfera, próximo à superfície, muito estáveis e dificulta a dispersão de poeira e de poluentes, concentrando-os a poucas centenas de metros a partir do chão. É por esta razão que a qualidade do ar das grandes cidades do Sul e Sudeste do país tende a piorar nos dias mais frios de inverno. 

Estas partículas de poeira e poluição são muito maiores do que as moléculas de ar e, quando um raio de luz do Sol as atinge, elas tendem a espalhar a luz incidente de uma forma diferente, resultando em luz difusa mais longa e, portanto, avermelhada. Assim, como a atmosfera fria é mais estável, ela concentra uma quantidade maior de partículas de poeira, aerossóis e poluentes, que espalham mais ondas longas durante o nascer e pôr do Sol, que já são naturalmente avermelhados, como foi explicado anteriormente: assim as tonalidades de laranja, rosa e vermelho são intensificadas.

 

 

Fontes: 

 Palestras do meteorologista do NOAA Stephen Corfidi e de Richard Hamblyn ; Artigo “Modelling the morning glory of the Gulf of Carpentaria”; sites “How Stuff Works: Clouds” , “NOAA” e CLIMATEMPO

 

 

 

 

Porque o KitKat pode estar matando os Orangotangos.

O chocolate é um dos doces mais populares do mundo, com um importante valor econômico, social, histórico, cultural e político. Embora pareça um produto simples, o chocolate possui uma história complexa e molda nossa sociedade de maneiras que nem imaginamos.

Resultado de imagem para chocolate

Acredita-se que o cacaueiro (Theobroma cacao) começou a ser plantado há cerca de 3000 anos na América Central e, rapidamente, se espalhou pela região como uma importante cultura local. Cerca de mil anos depois, o Império Maia começou a utilizar sementes de cacau, pimenta e baunilha para produzir uma bebida amarga, denominada de xocoatl, que era utilizada pela etite local como um medicamento para combater o cansaço e também como afrodisíaco.

a63c027e-f83a-4883-b084-2c52a7260b20
Ilustração científica do cacau (Theobroma cacao) 

A expansão maia pela América levou o cacau para novas regiões do continente e, anos depois, suas sementes começaram a ser utilizadas como moeda de troca em diversos povos, sobretudo no Império Asteca, entre 1325 a 1521 D.C. Grande parte da expansão asteca dos séculos XV e XVI ocorreu para suprir a sua demanda por cacau, principalmente durante o reinado de Moctezuma II, entre 1502 e 1520. Nesse período, mais de  1.200 toneladas de sementes de cacau eram estocadas em Tenochtitlán (atual Cidade do México) e mais de 2000 taças de xocoatl eram consumidas diariamente pelos soldados locais.

Imagem relacionada
Pintura asteca representando o consumo do xocoatl e da troca de sementes de cacau durante um casamento

Após a descoberta do continente americano pelos europeus, em 1492, os espanhóis descobriram o consumo do cacau pelos povos nativos e, em 1526, levaram esse alimento para a Europa, que passou a ser consumido com cana de açúcar, canela e anis. O chocolate, como ficou conhecido, foi introduzido na Itália e França em 1606 e se espalhou pelo continente como uma bebida da aristocracia. No século XVII, a bebida começou a ser adicionada a diversos doces e diversas “casas de chocolate” foram abertas por toda Europa e, no século XVIII, na Ásia.

 

File:Liotard-Lady Pouring Chocolate.jpg
Quadro mostrando o consumo de chocolate pela burguesia europeia Lady Pouring Chocolate – Jean-Étienne Liotard (1744)

Grandes quantidades de cacau começaram a ser exportadas das novas colônias europeias, especialmente do México, Equador, Venezuela e Brasil. A grande adaptabilidade do cacaueiro permitiu que grandes plantações fossem iniciadas em outras colônias, o que reduziu o preço do cacau e, consequentemente, do chocolate, que começou a ser consumido por todas as classes sociais. No século XIX, grandes fábricas de chocolate existiam em toda Europa e, com a invenção do chocolate em pó, em 1828, da barra de chocolate, em 1849, e do chocolate ao leite, em 1879, esse doce começou a ser exportado para todo o mundo.

Resultado de imagem para chocolate

Entre os séculos XIV e XIX, a maior parte da produção de cacau do mundo ocorria na América Latina, com a utilização de mão de obra escrava. Com a abolição da escravidão no Brasil, em 1888, o uso dessa mão de obra deixou de existir na América, o que incentivou a indústria do chocolate a buscar novos locais para investir em plantações de cacau, como no sudeste asiático e na África subsaariana, onde a escravidão ainda persistia.

Resultado de imagem para plantação de cacau
Plantação de Cacau no Pará. Foto por Incaper

No século XX, o chocolate se tornou o doce mais consumido no mundo e, atualmente, o cacau é cultivado em cerca de 17 milhões de hectares e gera mais de 100 bilhões de dólares anualmente. Devido à sua grande demanda e a seu alto valor comercial, as grandes fábricas de chocolate do mundo, sobretudo após o início do século XXI, passaram a adotar medidas para aumentar a procura e reduzir o custo de seus produtos, o que gera impactos destrutivos na população e no meio ambiente.

Primeiramente, vale ressaltar que, com o fim da escravidão da América Latina, África e Ásia, a maior parte dos governos não ofereceu medidas de ascensão social e/ou apoio ao ex-escravos, o que gerou uma exclusão dessa parcela da população, principalmente de negros. Isso fez com que os ex-escravos permanecessem em extrema pobreza e, muitas vezes, aceitassem continuar vivendo em condições análogas à escravidão, o que ainda persiste em muitos lugares nos dias de hoje.

Atualmente, cerca de 70% da produção mundial de cacau vem da Costa do Marfim e de Gana e, de acordo com dados da Universidade Tulane, nos Estados Unidos, cerca de 2,3 milhões de crianças são usadas como mão-de-obra escrava nas plantações de cacau nesses locais, o que é negligenciado pelos governos locais em troca de propina. Crianças entre 9 e 16 anos, de diversos países diferentes, são forçadas a trabalhar entre 80 a 100 horas por semana em troca de comida e em condições extremas. Ainda hoje, marcas como Hershey, Mars, Nestlé, ADM Cocoa e Godiva são frequentemente acusadas do uso do trabalho escravo infantil em suas plantações de cacau na África Ocidental. Essas marcas assinaram um acordo internacional que tinha como meta erradicar essa prática até 2005, mas o número de crianças que trabalham na indústria do cacau cresceu 51% entre 2009 e 2014, de acordo com a Universidade Tulane.

Resultado de imagem para escravidão cacau
Criança trabalhando em plantação ilegal de cacau, na Costa do Marfim

Para melhorar a textura e baratear a produção do chocolate, diversas empresas utilizam em sua composição o óleo de palma (conhecido popularmente no Brasil como azeite de dendê), uma substância avermelhada, muito utilizada na culinária brasileira e africana e em rituais religiosos, que confere um gosto mais neutro ao chocolate e uma cremosidade característica. O dendezeiro (Elaeis guineensis) é cultivado de forma artesanal há mais de 10000 anos na África e chegou no Brasil após o início do tráfico inter-atlântico de escravos. Ainda hoje, ele é cultivado no Nordeste e Norte do país para o uso interno, o que gera fonte de renda para as populações locais e auxilia na manutenção de ambientes florestais em regiões de interesse agrícola.

Imagem relacionada
Dendezeiro, palmeira utilizada para a extração do óleo de palma

Atualmente, o óleo de palma é o óleo vegetal mais consumido no planeta e sua grande demanda gerou um plantio crescente de dendezeiros pelo mundo, pressionado pela indústria alimentícia industrial. Anualmente, milhares de hectares de florestas tropicais são destruídos para dar lugar a essas palmeiras, sobretudo no sudeste asiático, que produz mais de 85% desse ingrediente. Na Indonésia, por exemplo, a maior concentração dessas plantações está nas ilhas de Sumatra e Bornéu, duas regiões com milhares de espécies endêmicas.

A indústria da palma é a principal ameaça para animais como o rinoceronte-de-sumatra (Dicerorhinus sumatrensis), o menor rinoceronte do mundo, com menos de 300 animais viventes no mundo. O tigre-de-sumatra, que vive na mesma região, está em uma situação igualmente assustadora, com algo em torno de 600 exemplares na natureza. As três espécies de orangotangos (gênero Pongo) viventes no mundo também estão igualmente ameaçadas. A destruição do habitat desses animais, movida principalmente pela indústria do chocolate, torna esse produto uma ameaça para a biodiversidade mundial e para a manutenção de diversos ecossistemas, sobretudo em regiões negligenciadas do globo.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Portanto, devemos parar de comer chocolate? Podem ficar tranquilos, pois a resposta é não!

Existem diversas maneiras de garantir que o chocolate que consumimos diariamente seja socialmente e ecologicamente correto. Primeiramente, priorize marcas de chocolate artesanais e locais, que não utilizam cacau importado para a criação dos seus produtos. Caso opte por grandes empresas, procure sempre empresas nacionais, que não utilizam o trabalho escravo como mão-de-obra.

Em segundo lugar, escolha sempre produtos que não utilizem óleo de palma em sua composição. O azeite de dendê utilizado para fins culinários e religiosos não é uma ameaça para a biodiversidade mundial, mas o uso industrial desse ingrediente é um grande problema. Itens como cosméticos, massas, produtos de limpeza e doces que contenham qualquer um dos seguintes ingredientes devem ser evitados:

Óleo vegetal (Vegetable Oil), Gordura vegetal (Vegetable Fat), Palm Kernel, Palm Kernel Oil, Palm Fruit Oil, Palmate, Palmitato (Palmitate), Palmolein, Glicerol (Glyceryl), Stearate, Stearic Acid, Elaeis Guineensis, Palmitic Acid, Palm Stearine, Palmitoyl Oxostearamide, Palmitoyl Tetrapeptide-3, Sodium Laureth Sulfate, Sodium Lauryl Sulfate, Sodium Kernelate, Sodium Palm Kernelate, Sodium Lauryl Lactylate/Sulphate, Hyrated Palm Glycerides, Etyl Palmitate, Octyl Palmitate, Palmityl Alcohol

Diversas marcas possuem hoje o selo RSPO, que indica que o óleo de palma utilizado no produto vem de plantações sustentáveis, com é o caso da Ferrero, marca fabricante da Nutella. Produtos como o Kit Kat são extremamente ricos em óleo de palma, mas não possuem tal selo, o que indica a utilização de plantações ecologicamente incorretas.

Pequenas atitudes diárias podem fazer uma grande diferença. Ao sair de nossa zona de conforto e buscar produtos menos prejudiciais ao planeta, contribuímos para preservar não só o meio ambiente, como também populações do mundo todo. Continue comendo seu chocolate tranquilamente, mas esteja consciente de sua procedência.

 

 

 

Referências

Organização Food is Powet

World Wildlife Fundation

Organização Slave Free Chocolate

Site facts-about-chocolate.com

Organização Onegreenplanet

Wakker 1998, in Clay (2004) “World Agriculture & Environment

Site nutella.com

Site theuniplanet.com

Imagens retiradas do site da WWF

 

 

 

As catástrofes naturais estão aumentando?

Segundo o Centro de Pesquisas de Epidemiologia em Desastres (CRED), a quantidade de inundações e tempestades no mundo aumentou 7,4% ao ano nas últimas décadas. Considerando os constantes relatos de danos climáticos excessivos nas notícias veiculadas pela imprensa, é importante perguntar: os desastres naturais estão piorando?

Tornado2
Tornado

 

Por definição, os desastres naturais são qualquer forma de eventos catastróficos induzidos pela natureza ou atividades naturais da Terra. Alguns exemplos incluem terremotos, inundações, furacões, secas, tsunamis e tornados. A gravidade de tais desastres é tipicamente medida pelo número de mortes, perda econômica e capacidade de reconstrução da nação. Muitos desastres naturais estão além do controle humano. O movimento constante das placas tectônicas da Terra é o grande causador dos terremotos e tsunamis. A flutuação na radiação solar que se infiltra na atmosfera e nos oceanos dá origem a tempestades no verão e nevascas no inverno. No entanto, às vezes, os desastres naturais não são tão naturais e são causados ​​pela interferência da humanidade no sistema da Terra. Por exemplo, à medida que aumenta a poluição ambiental, os seres humanos contribuem com mais energia para o sistema, o que reforça a probabilidade de riscos repetidos, como inundações repentinas, incêndios florestais, ondas de calor e ciclones tropicais.

Para ser registrado como um desastre natural no EM-DAT (The International Desastres Database) , um evento deve atender a, pelo menos, um dos seguintes critérios:

• Dez ou mais pessoas forem dadas como mortas;

• 100 ou mais pessoas reportarem que foram afetadas;

• Declaração de estado de emergência ou

• Solicitação de assistência internacional.

A proporção da população global afetada por desastres naturais diminuiu nas últimas duas décadas (Figura abaixo), passando de uma média de uma em cada 23 pessoas no planeta, no período de 1994 a 2003, para uma em cada 39 pessoas, no período de 2004 a 2013. O total afetado atingiu o pico em 2002, devido, principalmente, à seca na Índia, que atingiu 300 milhões de pessoas, e a uma tempestade de areia na China, que afetou 100 milhões de pessoas.

Embora esse declínio geral seja parcialmente explicado pelo aumento da população global, o número absoluto de pessoas afetadas por desastres naturais também caiu, de uma média anual de 260 milhões, entre 1994 e 2003, para 175 milhões por ano, no período de 2004 a 2013.  As taxas médias de mortalidade, por outro lado, aumentaram durante o mesmo período de 20 anos. Esse aumento se deveu, principalmente, ao grande número de vidas perdidas durante três mega desastres: o tsunami asiático de 2004, o ciclone Nargis em 2008 e o terremoto de 2010 no Haiti. Mas mesmo excluindo esses mega-desastres, as taxas de mortalidade ainda aumentaram nas últimas três décadas. 

Captura de Tela 2018-04-04 às 15.21.36
Número de desastres naturais no mundo e por continente – CRED

 

Apesar do que o CRED (Centro de Pesquisas de Epidemiologia em Desastres) mostra, o gráfico acima é focado em apenas 20 anos de registros e pode nos confundir ao apresentar evidências. Ao se buscar registros advindos da EM-DAT (The International Desastres Database), podemos observar com mais clareza a variação de desastres ao longo de 117 anos:

number-of-natural-disaster-events
O número de desastres naturais registrados em qualquer ano. Incluindo seca, alagamentos, epidemias, clima extremo, temperatura extrema, deslizamento de terra, movimentação de terra, impactos espaciais, queimadas, atividade vulcânica e terremoto.

 

Os desastres naturais são classificados da seguinte forma:

Captura de Tela 2018-04-04 às 16.01.44
Geofísico/ Hidrológico/ Meteorológico/ Climatológico/ Biológico/ Extra-terrestre

Portanto, o que podemos dizer com relação a estes eventos e à atividade humana?

Desastres como, por exemplo, o terremoto ocorrido na segunda-feira (2 de abril de 2018), na Bolívia, é classificado como desastre de causa geofísica. O fenômeno registrado foi considerado forte: chegou a 6.8 pontos na escala Richter, que mede a magnitude dos terremotos. “As ondas se propagaram desde o ponto onde aconteceu o terremoto  e em todas as direções“, afirma o professor Marcelo Bianchi, do Centro de Sismologia da USP. “Elas acabaram atingindo e chegando nas cidades brasileiras. Mas, do mesmo jeito que chegaram aqui, também chegaram no Japão e no mundo inteiro. Aqui, como a gente está mais próximo do tremor, as pessoas acabaram sentindo. Uma coisa que a gente observou na nossa plataforma onde as pessoas podem relatar o que sentiram foi que a maior parte de quem relatou estava em edifícios. Isso acontece porque esse prédios muito altos têm estrutura muito sólida, presa no chão“, explica Bianchi. “Toda a energia de vibração que está no chão acaba sendo transmitida para o edifício. O edifício funciona como se fosse um pêndulo invertido“.

Muitas pessoas acreditam que esses fenômenos estão aumentando, mas, no caso de atividades vulcânicas e abalos sísmicos, isso não passa de uma impressão. De acordo com o British Geological Survey, o centro britânico de geociências, todo ano ocorrem, em média, 15 terremotos com magnitude maior que 7, considerados de grande proporção. O fato das pessoas acreditarem que eles estão aumentando se dá pelo fato de  que terremotos têm um impacto muito maior hoje do que no passado. A prova disso é que o terremoto de 2010 no Haiti, de longe o mais mortal desastre natural na história do hemisfério ocidental, que matou mais de 200.000 pessoas, não aparece em algumas listas de grandes terremotos. Isso acontece porque a magnitude do terremoto, 7, não foi tão excepcional.

ourworldindata_world-map-of-earthquakes-since-1898-by-magnitude-–-ux.blog0_
Mapa mundial de terremotos, por magnitude desde 1898 -Blog UX

A questão toda é que a maior parte dos terremotos que acontecem hoje no mundo ocorrem em locais onde não há pessoas, portanto eles não são notados. Hoje possuímos melhor instrumentação e relatos mais precisos desses grandes terremotos devido à mídia e, em parte, isso é verdade. Em 1931, havia cerca de 350 estações sismológicas. Hoje, elas são mais de 4.000 e os sismógrafos que são utilizados para medir os terremotos são muito mais sensíveis. Graças à internet, atualmente é possível descobrir sobre terremotos em minutos, em vez de semanas. 

Não é completamente irracional que um terremoto que ocorre em um lado da Terra possa desencadear outro do outro lado do mundo. Quando um grande terremoto passa, a Terra literalmente vibra através de ondas sísmicas, às vezes por até um mês depois. Isso ocorre devido ao choque do grande terremoto que faz com que todas as outras falhas “escorreguem”. Então, talvez um terremoto no Chile possa realmente fazer com que uma falha no Japão também entre em atrito.

Abalos sísmicos, atividades vulcânicas e tsunamis têm relação direta. Clique aqui para saber mais da nossa postagem sobre Tsunamis

39163290-earthquake-wallpapers.jpg

E com relação aos desastres de cunho meteorológico? Eles estão aumentando?

A resposta é que no caso dos furacões, depende. A quantidade e intensidade das tempestades de grandes proporções registradas em 2017 estão acima da média anual. A principal causa para o aumento da força desses fenômenos é o aquecimento global, segundo especialistas ouvidos pela BBC Brasil.

Shuai Wang, pesquisador da Faculdade de Ciências Naturais do Imperial College London, explica que a média anual de furacões no Atlântico é de 6,2, conforme a série histórica de 1968 a 2016 da Agência Norte-Americana de Administração Atmosférica e Oceânica. Em 2017, antes mesmo do término do período de tempestades tropicais, foram registrados sete furacões, quatro deles de grande proporções, classificados em categorias superiores a 3 na escala Saffir-Simpson, que mede os fenômenos pela intensidade dos ventos e o potencial de destruição. Em agosto de 2017, o furacão Harvey provocou estragos no Texas, Houston e Louisiana, matando, pelo menos, 47 pessoas. Pouco depois, entre os dias 6 e 7 de setembro, o furacão Irma arrasou várias cidades do Caribe e o sul da Flórida, provocando mais de 60 mortes.

catarina5-136882-2.jpg
Imagem de satélite de um furação

Em julho de 2007, um levantamento de furacões no Atlântico Norte ocorridos no século passado observou um aumento no número de furacões observados e concluiu que o aumento no número de ciclones estava diretamente associado ao efeito estufa. No entanto, isso foi refutado por uma análise de sistemas de monitoramento, que afirmou: “o monitoramento aprimorado nos últimos anos é responsável pela maioria da tendência observada no aumento da frequência de ciclones tropicais” (Landsea 2007). Em outras palavras, a razão pela qual mais furacões estão sendo observados pode ser devido a uma melhor capacidade de observá-los, graças a aeronaves, radares e satélites.

Então nada mudou?
Mudou sim! O aquecimento global produzido pelo homem cria condições que aumentam as chances de condições climáticas extremas. Nesse caso, há a intensificação do poder destrutivo de cada furacão. 

ourworldindata_hurricanes-and-tropical-storms-since-1851-locations-and-intensities-–-ux-blog
Intensidade e localização de furacões e tempestades tropicais, desde 1851 – Blog UX

Desastres climatológicos, como no caso de queimadas, possuem, em parte, causas naturais, porém grande parte vem de ações antropológicas. Devido às mudanças climáticas, em alguns locais do mundo o clima fica mais seco que o normal, além de que algumas infestações de insetos geram combustíveis para o começo de uma queimada. Outro fator que influencia, sem sombra de dúvidas, é o aumento de pessoas vivendo próximas às áreas de florestas, ficando mais expostas a esse problema. Assim como as queimadas, as mudanças antropológicas no clima afetam diretamente esse tipo de desastre.

wildfire-widescreen-a-1.jpg

Sabe-se que fatores hidrológicos têm relação direta com a antropização, ou seja, com a ação do ser humano sobre o meio ambiente. Para saber mais leia nossa postagem sobre Enchentes

Além disso, os desastres de cunho biológico também são diretamente influenciados por esse fenômeno. Porém, esse é um assunto complexo, que será melhor explicado em um texto futuro.

Sendo assim, poderíamos então concluir que desastres naturais, como o próprio nome diz, ocorreriam muitas vezes, independente de ações humanas. Porém, nossa atuação no planeta impulsiona e gera energia, piorando esses eventos. É importante entender que sociedades mais pobres tendem a sofrer mais com essas catástrofes e que, durante um desastre, as informações sobre grupos vulneráveis ​​podem ajudar a aumentar a eficácia das medidas de resposta, por exemplo, se estabelecendo prioridades durante as evacuações. Ademais, uma compreensão profunda da vulnerabilidade de cada grupo social pode ser usada para apoiar os mais desfavorecidos durante o processo de recuperação. Juntas, essas medidas podem contribuir consideravelmente para reduzir o risco de desastres sob circunstâncias socioeconômicas muito diferentes. 

Muitos dizem que a natureza age em legítima defesa. Entretanto, cabe a nós, seres humanos, respeitarmos seu espaço e ao invés de amplificarmos sua força através de nossas ações, ajudarmos àqueles que mais sofrem com esses desastres naturais.

 

 

Fonte: 

Site “Our World in Data – Natural Catastrophes” 

EM-DAT (The International Desastres Database

Centro de Pesquisa de Epidemiologia em Desastres (CRED)

British Geological Survey

Faculdade de Ciências Naturais do Imperial College London

Livro “The Human Cost Of Natural Disasters”

O Rinoceronte-branco-do-norte está extinto. O que isso muda na sua vida?

No dia 19 de março de 2018 morreu Sudán, o último rinoceronte-branco-do-norte (Ceratotherium simum cottoni) macho do mundoEsse animal nasceu e foi capturado no  Sudão do Sul para fins de conservação (na época existiam 700 desses rinocerontes no mundo) e passou os primeiros 34 anos de sua vida no zoológico Dvůr Králové, na República Tcheca. Com o passar dos anos, o número dessa espécie na natureza caiu drasticamente e, em 1980, a população desses animais não passava dos 20 indivíduos. Sudán teve três filhas ao longo de sua vida, sendo que uma morreu logo após o parto, e, após o ano 2000,  nenhum novo filhote nasceu no mundo.

Imagem relacionada

Em 2009, Sudán foi levado de volta para a África, juntamente com as três últimas fêmeas de sua espécie, mas novas tentativas de reprodução não obtiveram sucesso, nem mesmo por inseminação artificial. O penúltimo macho do mundo morreu no Zoológico de São Francisco em 2014, no mesmo ano em que uma das três fêmeas também veio a óbito, deixando no mundo apenas Sudán, sua filha Najin e sua neta Fatu. Esses animais eram vigiados 24 horas por dia por guardas armados, cães de guarda e drones para impedir a ação de caçadores, uma vez que os chifres desses animais podem valer até 90 dólares por grama no mercado clandestino  – quase o dobro do preço do ouro.

Resultado de imagem para northern white rhino sudan

Sudán foi eutanasiado no dia 19 de março, devido a complicações em sua saúde, após meses em tratamento, sem sucesso. Acredita-se que ele já não era mais fértil, mas sua morte representa a extinção da esperança de salvar essa espécie. Mas afinal, salvar espécies em extinção é nossa responsabilidade? E ainda, o que ganhamos com isso?

Primeiramente, devemos entender um fato chocante para muitos. A extinção é algo natural. O planeta já passou por cinco grandes extinções em massa, ou seja, períodos em que, em poucos milhões de anos, mais de 70% das espécies do planeta foram extintas devido a mudanças climáticas bruscas ou grandes desastres naturais globais. A mais famosa delas, ocorrida 66 milhões de anos atrás devido à queda de um asteroide, matou mais de 75% das espécies do planeta, incluindo todos os dinossauros não-avianos, répteis voadores e mosassauros. Somente para se ter uma ideia, a maior extinção em massa ocorrida no final do período Permiano, 252 milhões de anos atrás, quase varreu a vida do planeta, eliminando entre 90% e 96% das espécies. Entretanto, após todos esses cataclismas, os animais e plantas sobreviventes espalharam-se pela Terra e se diversificaram em milhões de novas espécies. – “Life finds a way“.

 

Resultado de imagem para mass extinction
Representação do meteoro que colidiu com a Terra e desencadeou uma série de eventos causou a extinção dos dinossauros não-avianos, cerca de 66 milhões de anos atrás. Foto de Science Photo Library

 

Um outro processo de extinção, que sempre ocorre no mundo, é a chamada “extinção de fundo” (no original, “background extinction“). A extinção de fundo corresponde à quantidade de gêneros extintos no mundo por ano em condições ideais. Não entrarei em detalhes acerca da forma como isso é calculado, mas a taxa normal de extinção no nosso planeta gira em torno de uma e cinco espécies por ano. Atualmente, a taxa de extinção de fundo está entre 1000 e 10000 vezes os valores normais, com dezenas de espécies desaparecendo de nosso planeta todos os dias. Sapos, cobras, orangotangos, rinocerontes, abelhas, corais e morcegos estão sumindo. E o pior de tudo: a culpa é nossa.

 

Great Barrier Reef Coral Bleaching
Branqueamento dos recifes de corais. Foto da direita por Gary Bell / Foto da esquerda por  Roger Grace

 

Raramente paramos para pensar que a maioria das espécies extintas anualmente são desconhecidas. Então, o que muda realmente com a extinção? Se tantas somem todo ano, por que ainda não sentimos esse impacto? Uma espécie que desaparece no planeta pode não ter nenhum impacto direto para nós. Entretanto, isso também pode gerar redução da produção de frutas e grãos, pragas agrícolas, epidemias urbanas, crises econômicas, desequilíbrios ecológicos generalizados e perdas irreparáveis na medicina. Para entender esses processos, vamos a um exemplo prático:

Atualmente, cerca de 40% das espécies de anfíbios do mundo estão em risco de extinção. Isso se deve à redução de seu habitat, poluição das águas, tráfico internacional de animais e, sobretudo, a uma doença fúngica. Com a introdução de uma espécie africana de rã na América do Sul , na década de 1970, as populações de anfíbios de diversas regiões das Américas entraram em colapso. Essas rãs estavam infectadas com um fungo parasítico denominado Batrachochytrium dendrobatidis. Por terem convivido com esse parasita por milhões de anos, essas rãs não eram afetadas por ele mas, ao infectar anuros locais, os efeitos foram devastadores. Essa doença, denominada quitridiomicose, causa convulsões e falhas respiratórias nos animais e possui 100% de mortalidade em algumas regiões.  Atualmente, a doença pode ser encontrada em todos os continentes, e está se espalhando cada vez mais rápido no meio natural.

Resultado de imagem para chytridiomycosis
Países afetados pela quitridiomicose. Imagem retirada do site Amphibia Web

 

Caso a redução do número de anfíbios do planeta persista, a população de insetos pode subir drasticamente, inclusive no meio urbano. Pragas agrícolas como gafanhotos e pulgões podem varrer plantações inteiras em questões de horas, o que pode significar fome para milhares de famílias por todo o mundo. Uma menor disponibilidade de alimento para nós também significaria um aumento significativo em seus preços, prejudicando a economia de diversos países, sobretudo aqueles que têm a agricultura como sua principal fonte de renda, como Madagascar.

Imagem relacionada
Praga de gafanhotos em 2015, na Argentina. Foto de BBC/CRA

 

O crescimento da população de insetos pode contribuir para o surgimento de novas epidemias de doenças vetoriais, como Dengue, Zika e Malária. O recente surto de Febre Amarela, por exemplo, pode estar relacionado com a degradação de ambientes selvagens, fragmentação do habitat das presas naturais dos mosquitos (que buscam o ser humano como alimento alternativo) e até mesmo a redução do número de  predadores, sobretudo sapos e pererecas.

DSC_6713-1
A Pithecopus ayeaye é um animal localmente comum, mas é considerada criticamente ameaçada pela IUCN por viver em uma área menor que 100 km² em uma região de interesse econômico, sobretudo das mineradoras.
Foto por: Pedro Henrique Tunes

 

Os ecossistemas são redes interconectadas nos quais as espécies evoluem em conjunto por milhões de anos e, assim, mantém o equilíbrio do meio. A biota de uma área é interdependente, o que significa que, ao excluir um animal específico de uma teia alimentar, todo o sistema pode entrar em colapso. Milhares de espécies dependem dos anfíbios para sua alimentação ou controle populacional e retirar uma única espécie pode extinguir um ecossistema inteiro.

 

Resultado de imagem para trophic net
Ao contrário da maior parte das representações que vemos, teias alimentares são muito mais complexas do que imaginamos. – Changes to marine trophic networks caused by fishing (NAVIA, A. F., et al.)

 

Por fim, a extinção de espécies, sobretudo das ainda desconhecidas, gera perdas irreparáveis na saúde da população. Anfíbios, principalmente os sapos, são conhecidos por possuírem uma enorme variedade de venenos e toxinas em sua pele. Algumas dessas substâncias possuem  propriedades antibacterianas incríveis, enquanto outras estão sendo atualmente testadas para o combate de doenças como a AIDS e a doença de Chagas. Inúmeras substâncias isoladas de fungos, plantas e animais possuem propriedades farmacológicas importantes, como é o caso da jararaca (Bothrops jararaca), cujo veneno possui substâncias anti-coagulantes e cardio-estimulantes, que reduzem a pressão arterial. O Captopril (Capril), é um remédio da classe IECA (Inibidores da Enzima de Conversão da Angiotensina) criado a partir do veneno dessa serpente e, atualmente, é o anti-hipertensivo mais utilizado em todo o mundo.

 

Resultado de imagem para bothrops jararaca
Filhote de Bothrops jararaca.                                                        Foto de: Fabio Olmos

 

Em resumo, a perda da biodiversidade representa inúmeras perdas para os seres humanos. Somos os culpados, de forma direta ou indireta, pela maior parte das extinções atuais do planeta e, por isso, é nosso dever proteger as espécies que prejudicamos. Milhares de espécies se extinguem todo ano no mundo e, na maior parte das vezes, esses danos, por menores que sejam para nós, são irreparáveis. Sendo assim, encerro o texto com uma reflexão:

Uma pesquisa de 2010 revelou que as extinções podem gerar um prejuízo de 18% da economia atual até 2050. Além disso, a extinção de outras espécies pode contribuir para a nossa própria, a longo prazo. Porém, quanto realmente vale uma vida? A natureza é um tesouro inestimável, que estamos perdendo, dia após dia, por nossa própria culpa. O planeta não é nosso. Conhecemos cerca de  950.000 espécies, mas estima-se que dividimos o planeta com algo em torno de 7 a 10 milhões. Não seria egoísmo pensarmos apenas nos impactos que a extinção gera diretamente em nossa vida? Devemos nos preocupar, não só com nossa espécie, mas com todas as outras. Afinal, não seremos realmente humanos se nos faltar humanidade.

Cada um pensa em mudar a humanidademas ninguém pensa em mudar a si mesmo – Leon tolstoi

Nota do autor: Esse texto foi um dos mais difíceis que já escrevi até hoje. Foram 15 horas de trabalho, distribuídos em seis dias de pesquisa. São tantos exemplos possíveis e tantas histórias que eu poderia contar que fiquei assustado. A natureza está pedindo socorro, só nos resta começar a ouvir.

 

 

Referências:

Por que você deveria conhecer Sérgio Ferreira

Texto BBC  sobre espécies ameaçadas – http://www.bbc.com/earth/story/20150715-why-save-an-endangered-species

Texto BBC sobre impactos econômicos da Extinção

Texto New York Times sobre vida de Sudán – https://www.nytimes.com/2018/03/20/science/rhino-sudan-extinct.html

Artigo sobre extinção de fundo – https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/25159086

Artigo sobre teias alimentares e redes tróficas – https://www.researchgate.net/figure/Schematic-image-of-the-trophic-network-of-the-Gulf-of-Tortugas-based-on-TU-3-The_fig3_259183367

 

 

“No dumping, drains to river” – Educação ambiental, água de chuva e qualidade.

Andando pelos parques urbanos dos Estados Unidos se nota facilmente algumas formas um tanto quanto peculiares nas calçadas e bocas-de-lobo. São placas de ferro, pinturas, desenhos, broches e grades dos mais variados tipos, com inscrições que revelam: “No dumping, drains to river!” (Não despeje, drena para o rio! – na tradução livre). A jogada apelativa ao visual é genial. As prefeituras, especialmente de pequenas cidades norte-americanas, se empenham fortemente em implantar uma política de educação ambiental, envolvendo voluntários das escolas locais, para pintar e sinalizar, próximos aos bueiros e sumidouros de água de chuva, as mensagem que conscientizam sobre a importância de não despejar ou jogar lixos nesses sistemas de microdrenagem, uma vez que os mesmos drenam para rios e ambientes aquáticos sensíveis.

Figura 1.jpg

Figura 1.1
Aluna sinaliza próximo ao bueiro em Clark County – Washington. Foto: The Columbian Press.

Os esforços das comunidades e vizinhanças têm mostrado resultados significativos, até mesmo nas grandes cidades. A cidade da Filadélfia conta com programas de implantação de métodos para cuidar das bacias urbanas em várias escalas, indo desde o residencial até o comercial. O uso de “Best Management Practices for stormwater”, Técnicas compensatórias de águas de chuva, como conhecido na área acadêmica no Brasil, são largamente aplicadas em novos projetos urbanos e são capazes de reduzir, quando avaliadas em conjunto, a quantidade e a qualidade das águas que vão para os rios.

Figura 2
Jardim de chuva usado em área comercial para aumentar a taxa de infiltração da água de chuva e reter os poluentes carreados. Foto: Philadelphia Water Department.

O uso destas técnicas, como por exemplo os jardins de chuva individuais, são capazes ainda de trazerem vantagens indiretas, como a melhoria visual do cenário urbano e uma ideia geral de limpeza e cuidado com os solos das cidades.

Ainda que pareça de fácil implantação e de simples operação, o Brasil engatinha na aplicação de tais vantajosas técnicas. A grande preocupação das municipalidades, em sua minoria, gira em torno da redução de vazão de água que chega aos rios e córregos. Temos cidades pioneiras no uso de bacias de amortecimento de vazão, como Belo Horizonte, São Paulo e Porto Alegre, mas cabe salientar que países como Estados Unidos e Japão já usavam dessas bacias para reduzir os alagamentos nos centros urbanos desde a década de 70.

Figura 3
Bacia de amortecimento de cheias em Porto Alegre. Foto: Prefeitura de Porto Alegre.

Mesmo dando este pequeno passo para os cuidados de nossos rios urbanos, o Brasil ainda está longe de melhorar outro aspecto importantíssimo dos escoamentos superficiais: a qualidade das águas escoadas. Acontece que as primeiras águas de chuva que escoam carregam uma carga significante de poluentes (o chamado first flush), levando diretamente para o sistema de drenagem sólidos finos e grosseiros, óleo lavado das ruas, metais depositados no solo por fontes diversas e tantos outros poluentes. Nossa estrutura urbana não está preparada para controlar esses poluentes “invisíveis” aos olhos dos municípios e nem sequer estão na lista de passíveis de um tipo de tratamento. Vale ressaltar que no Brasil funciona o sistema separador absoluto, no qual o sistema de coleta de esgotos domésticos e industriais é separado do sistema de coleta de águas de chuva; tratar o esgoto produzido na cidade não quer dizer tratar a água que escoa por nossas sarjetas.

Figura 4
Poluente passível de ser carreado pelo escoamento da água de chuva em ambientes urbanos. Foto: sítio eletrônico motonline.

A educação ambiental no Brasil se mostra tão pequena quando analisamos os diversos aspectos do nosso meio, que ainda necessita de uma atenção especial. Alguns vão dizer que é de nossa cultura; que a boca-de-lobo entupida por lixo perto da esquina de nossa casa sempre vai ficar assim e que não adianta pedir porque ninguém vai ligar. Proponho, portanto, uma mensagem a ser passada no horário nobre da televisão brasileira, em letras capitais e brilhantes: NO DUMPING, DRAINS TO RIVER!

 

 

 

Figura 5
Mensagem de intervenção ambiental típica de municípios norte-americanos. Foto: Pomperaug River Watershed Coalition.

 

 

Fonte:

Sites 

http://www.columbian.com 

http://www.phillywatersheds.org 

www2.portoalegre.rs.gov.br/dep

O planeta está aquecendo ou resfriando?

A fonte primária de energia para o planeta Terra é o Sol. Ele emite radiação eletromagnética (energia) que é refletida de volta ao espaço. O percentual de ondas curtas que é refletido é chamado de albedo, atualmente cerca de 30%, que depende principalmente da variação da cobertura e vegetação, tipos de nuvens, concentração de aerossóis e partículas em suspensão no ar. Portanto, o albedo controla o fluxo de ondas curtas que entra no sistema terra-atmosfera-oceanos: quanto menor o albedo, menor reflexão e, consequentemente, maior o aquecimento da atmosfera e vice-versa.

Parte da radiação de ondas curtas que entra no planeta é absorvida e emitida em forma de ondas longas por gases como vapor d’água, gás carbônico, metano, ozônio, óxido nitroso e compostos de clorofluorcarbono. A absorção/emissão desses gases pelas várias camadas atmosféricas reduz a perda de radiação, emitida pela superfície, que escaparia para o espaço exterior, constituindo o chamado efeito-estufa.

greenhouse-effect.jpg

“O efeito-estufa faz com que a temperatura média global do ar, próximo à superfície da Terra, seja cerca de 15°C. Caso ele não existisse, a temperatura da superfície seria 18°C abaixo de zero, ou seja, o efeito-estufa é responsável por um aumento de 33°C na temperatura da superfície do Planeta!”

Luiz Carlos Molion

Muitas vezes o Planeta sente na própria pele os efeitos das mudanças climáticas: queimadas, tempestades mais fortes que o normal e aumento dos níveis do mar. Há aproximadamente quarenta anos, cientistas descobriram que o efeito estufa era agravado pelos clorofluorcarbonet (CFCs). Esses poluentes são comumente encontrados em refrigeradores, extintores de incêndio e aerossóis. Até então, pesquisadores achavam que o dióxido de carbono advindo de combustíveis fósseis era o único gás de efeito estufa gerado pelo homem. Através das pesquisas do professor Ram Ramanathan, cientistas puderam ver que os CFCs eram mais de 10.000 vezes mais potentes que o dióxido de carbono.

Então, qual a quantidade de poluição estamos jogando na atmosfera todo ano? Aproximadamente 50 bilhões de toneladas de gases poluentes. Em 1980, Ramanathan previu que o efeito estufa seria detectável até o ano 2000 e essa previsão foi confirmada. Com o passar dos anos e a chegada de 2010, a temperatura  alavancou e atingiu valores maiores que os últimos milhões de anos. O efeito estufa é um fenômeno que já existia e é essencial para que haja a vida na Terra. Entretanto, o que a hipótese diz é que estamos amplificando esse efeito e trazendo diversos malefícios para a vida terrena.1294.jpg

Há quem diga que o chamado Aquecimento Global é uma farsa, já que as mudanças climáticas foram estudadas em uma micro escala , dentro de uma escala global. Segundo o professor Luiz Carlos Molion, a hipótese do agravamento do Efeito Estufa está fundamentada em três argumentos: a série de temperatura média global do ar na superfície “observada” nos últimos 160 anos, o aumento observado na concentração de gás carbônico a partir de 1958 e os resultados obtidos com modelos numéricos de simulação de clima.

A figura abaixo mostra desvios de temperatura do ar para o Globo terrestre, que aumentou cerca de 0,6°C entre os anos de 1950 e 2000.

Captura de Tela 2018-03-14 às 18.58.08
Desvios da temperatura média global (Jones e Colaboradores, 1999)

Segundo os descrentes sobre o aquecimento global, o clima é muito complexo, envolvendo controles internos e externos ao sistema terra-atmosfera-oceano, dos quais o efeito-estufa é apenas um dos processos, e ocorreram aumentos de temperatura em tempos passados, supostamente sem sua intensificação. A aparente coincidência entre os registros históricos de emissões e as previsões dos modelos não significa que o aquecimento esteja ocorrendo. Na realidade, as características desses registros históricos conflitam com a hipótese do efeito-estufa intensificado, já que o Planeta se aqueceu mais rapidamente entre o período de 1925 a 1946, quando a quantidade de gases do efeito-estufa lançada na atmosfera era inferior a 10% da atual. O professor Molion também acredita que a relação pode ser inversa, já que, com o aquecimento dos oceanos (variação natural e sazonal), a solubilidade de CO2 nos mares pode ter diminuído, gerando seu aumento na atmosfera.

Como assim? Isso significaria que cientistas renomados, pertencentes às associações American Association for the Advancement of ScienceAmerican Chemical Society, American Geophysical UnionAmerican Medical AssociationAmerican Meteorological Society, American Physical SocietyGeological Society of America, U.S. National Academy of Sciencee, e principalmente, à Painel de Mudanças Climáticas , estão equivocados? Eu acredito que NÃO.1-3.jpg

Estudos dos gases presos em camadas profundas de gelo nos permite observar  como era a atmosfera antigamente. Hoje os níveis de CO2 são mais elevados do que eram há quase 1 milhão de anos atrás, antes mesmo da existência humana. A velocidade com que a temperatura média da Terra está subindo é alarmante, já que é dez vezes maior que o aumento de temperatura no final da era glacial. Como saber se esse aumento de CO2 é nossa culpa? A melhor evidência são os isótopos de carbono advindos de combustíveis fósseis. Os combustíveis são provenientes de depósitos de plantas fossilizadas que utilizam, preferencialmente, o carbono 12 ( C12) ao carbono 13 (C13) em sua composição. A porcentagem de C12 que está aumentando na atmosfera é bem maior do que a de C13, o que pode sustentar essa hipótese. Como o C13 é mais abundante na natureza e os níveis de C12 têm aumentado significativamente, isso mostra a presença de átomos de origem biológica na atmosfera.

Se fossemos utilizar simulações de mudanças climáticas para prever o clima através de causas naturais, iríamos encontrar poucas mudanças ou até mesmo o resfriamento da Terra. Porém, percebemos que não é o que está acontecendo: mesmo que em alguns lugares a Terra estejam esfriando, há duas vezes mais registros de aumentos do que de redução na temperatura.

Captura de Tela 2018-03-14 às 20.19.39
Esquema mostrando como o formados o gelo sazonal com o aumento da temperatura

Existem estudos mostrando que o gelo do Ártico aumentou, porém essas pesquisas dizem respeito ao gelo do inverno Ártico e Antártico (ice pack), e não ao gelo permanente. A explicação lógica para esse fato é que o aquecimento global também reforça a precipitação de neve sobre essas regiões. Isso porque ele aumenta a evaporação da água pelo mundo e as correntes atmosféricas se encarregam de levá-la aos polos. Segundo o meteorologista Eric Holthaus, o comportamento do gelo na Antártida ainda está muito além da compreensão humana. Estamos lidando com sistemas muito complexos e nossos modelos são, muitas vezes, meras simplificações grosseiras da realidade.

50-600-ursa-polar-2-525Então, como esse tipo de mudança afeta a vida no planeta? Vamos pegar como exemplo o maior símbolo das mudanças climáticas: os ursos polares. Eles caçam no verão e geralmente ficam durante horas à espreita de focas em buracos abertos no gelo, usados para que elas possam respirar (breathing hole). Com o derretimento do gelo permanente, os ursos são obrigados a mudar suas estratégias de caça e irem em busca de sua presa. Como as focas são muito ágeis na água, não precisam encontrar tantos buracos para sua respiração, fazendo com que grande parte dos ursos morram de fome.

Como se pode ver, existem diversas hipóteses, teorias e questionamentos para o aquecimento global. Entretanto, devemos sempre esperar pelo pior, já que, com o derretimento de calotas, o nível médio dos oceanos pode subir em até 1 metro nos próximos 100 anos, acarretando diversas perdas materiais e enormes problemas para o homem. Ainda que estivéssemos no início de uma Era Glacial, iríamos demorar milhares de anos para começar a sentir o seu efeito. Logo, como diz o dito popular, “é melhor previnir, do que remediar”, principalmente quando não sabemos qual remédio utilizar.

Fontes: Dados de Reanálises, Earth System Research Laboratory, Physical Sciences Division, NOAA; artigos “Effects of Earlier Sea Ice Breakup on Survival and Population Size of Polar Bears in Western Hudson Bay” de Steven Amstrup; “Cycles of Global Cooling and Warming” de Gabriel Cousens; “Aquecimento Global: Fatos e Mitos” de Luiz Carlos Molion e fatos baseados em estudos da Universidade de Colorado, NASA e Revista Nature

Do pó viemos, ao pó não voltaremos. Morrer é sustentável?

Atenção: Esse texto contém imagens e informações que podem ser consideradas desagradáveis para alguns leitores!

O que acontece com nosso corpo quando morremos? Embora pareça uma pergunta simples, o destino de nossos corpos é muito mais complexo do que imaginamos e tem um impacto significativo no meio ambiente. A morte é um processo irreversível no qual as atividades metabólicas de um organismo são interrompidas. O que fazer com as 55.3 milhões de pessoas que morrem todo ano?

DSC_8204-1
Bezerro em processo de decomposição natural      Foto por: Pedro Henrique Tunes

 

Embora a morte e a decomposição sejam iminentes para todos os seres humanos, esses processos são temidos pela maior parte da população. Atualmente, a indústria funerária utiliza diversos mecanismos para distanciar ao máximo a morte de nosso cotidiano, o que contribuiu para a consolidação desse mercado, que move mais de 16 bilhões de dólares ao ano pelo mundo, segundo dados da  National Funeral Directors Association (NFDA). Para isso, são utilizadas técnicas caras, extremamente prejudiciais ao meio ambiente e, na maioria das vezes, completamente desnecessárias, o que contribui para aumentar o preço desses procedimentos.

Um enterro em um cemitério privado nos Estados Unidos custa hoje, em média, 7.200 dólares. No Brasil, sepultar um corpo em um cemitério municipal custa a partir de 700 reais, mas o valor pode chegar até 20 mil reais em cemitérios privados. Grande parte desse preço está agregado nos três pilares da indústria funerária: proteção, sanitação e embelezamento.

A proteção consiste na venda de grandes caixões de madeira sólida, selados com fitas de borracha, depositados em grandes caixas de cimento ou metal no solo ou em mausoléus. A maioria dos túmulos atuais encontrados no mundo funciona como um cofre de armazenagem, no qual os corpos jamais entrarão em contato com a terra ao seu redor. Anualmente, centenas de toneladas de madeira e cimento são utilizados nesse processo, que possui a única função de atrasar a decomposição inevitável do corpo.

Imagem relacionada
Imagem retirada do Site Oakland Cemetery Burials

A limpeza do corpo ou sanitação, por sua vez, consiste na preservação química, realizada através da embalsamação, também chamada de tanatopraxia. Primeiramente, todo o sangue do corpo é drenado por uma bomba e, posteriormente, descartado, muitas vezes clandestinamente no esgoto convencional. Em seguida, o corpo é preenchido por uma solução extremamente tóxica, composta por água, corantes e formaldeído. Essa prática, supostamente, tem como objetivo preservar o corpo por tempo suficiente para que ele possa ser velado e eliminar possíveis patógenos dos cadáveres, de forma a não oferecer risco aos familiares e amigos. Entretanto, em condições normais de temperatura e umidade, um corpo só irá apresentar sinais visíveis de putrefação após o terceiro dia. Além disso, cadáveres só apresentam risco para a população quando a pessoa morreu de alguma doença extremamente contagiosa, como Ebola por exemplo. Portanto, o embalsamamento deveria ser apresentado como uma opção para o comprador de um plano funerário, e não como a regra geral. Além disso, túmulos podem ser inundados durante as chuvas e transportar esses compostos químicos para o solo e aquíferos subterrâneos, contaminando todo o ambiente no entorno do local. Dados recentes apontam que mais de 3 milhões de litros de formol são usados por ano somente nos Estados Unidos para esse procedimento, o que é uma grande ameaça para os ecossistemas locais e para a saúde da população.

Boneco utilizado para treinamento de tanatopraxia. Foto do site do SynDaver Lab

Por fim, o embelezamento é realizado através de maquiagem, corantes químicos e cirurgias plásticas post mortem. Além disso, caixões ornamentados e flores são vendidos a preços absurdos. Embora essa etapa não ofereça um grande impacto ambiental, ela proporciona um grande impacto econômico para as famílias que utilizam os serviços funerários. Geralmente, opções mais caras são as únicas oferecidas pelas funerárias, sendo que caixões não ornamentados e funerais mais simples só são utilizados por aqueles que diretamente solicitam esse serviço, que pode ser até 1/30 do preço de pacotes tradicionais.

Resultado de imagem para plastic surgery post mortem
Próteses utilizadas no século XX para realização de plásticas post mortem

Já a cremação é hoje considerada por muitas pessoas como uma opção mais prática que os enterros convencionais. Embora a maioria das empresas só ofereça a cremação após o embalsamamento do corpo, essa prática evita que os produtos químicos escoem para o solo e, por isso, é mais ecológica que o sepultamento. Entretanto, para que a cremação seja realizada, é necessária uma temperatura de pelo menos 900 graus Celsius por cerca de duas horas, o que demanda grandes quantidades de combustível. Uma única cremação gera vários quilos de gás carbônico e gasta a mesma quantidade de gás natural necessária para se realizar uma viagem de carro de 800 quilômetros.

Resultado de imagem para cremation
Processo de cremação             Foto de Pat Sutphin

Já que as técnicas mais utilizadas atualmente não são ecologicamente sustentáveis, quais seriam as melhores formas de disposição de corpos?

A cremação líquida, também chamada de hidrólise alcalina, é uma forma mais ecológica de cremação, na qual o corpo é depositado em um tanque de metal e dissolvido em água e soda cáustica em temperaturas extremamente altas. O resultado é um composto muito semelhante às cinzas da cremação convencional, mas esse procedimento gasta muito menos combustíveis fósseis e praticamente não gera poluentes.

Um segundo método, utilizado por milhares de anos mas que perdeu forças após o fortalecimento da indústria funerária, é o enterro tradicional. Nesse processo, o corpo é velado sem ser embalsamado e, posteriormente, é envolvido em um pano ou depositado em um caixão biodegradável e enterrado diretamente no solo, sem a utilização de proteções de cimento no túmulo. Essa forma de enterro não gera poluentes, não ocupa tanto espaço e é extremamente barata, razão pela qual é preterida pelas empresas, que lucram muito menos.

Imagem relacionada
Exemplo de caixão biodegradável.                              Foto de John Christian Phifer

 

O modo mais sustentável, entretanto, é a compostagem de cadáveres. Ao enterrar o corpo com uma mistura de nutrientes, ele irá se decompor totalmente em quatro semanas, sendo reduzido a apenas ossos e, ao mesmo tempo, fertilizando o solo e promovendo o crescimento de plantas no local. Assim, cemitérios que antes eram áreas inutilizáveis para outras atividades podem se tornar refúgios para a vida selvagem, áreas de preservação e parques, criando áreas de interação em que as famílias podem visitar seus entes queridos, plantar árvores e prestar seu respeito aos mortos em contato com a natureza.

Imagem relacionada
Local de compostagem de corpos, que será posteriormente transformado em um parque.       Foto do usuário Flickr Mark

Embora essas opções ainda não estejam disponíveis no Brasil, saber que os métodos convencionais de destinação dos corpos não são a única opção é um grande passo rumo a uma vida mais consciente. O primeiro passo para a mudança é o conhecimento, e quanto maior for a demanda para esse tipo de serviço, maior será a chance de sua adoção. Ao aderir a planos funerários ou contratar seus serviços, questione sobre as opções por caixões biodegradáveis, enterros diretamente na terra ou sem embalsamento. Nossas atitudes em vida, por mais que tenham um grande impacto, são realizadas em um tempo determinado. Por sua vez, após a morte, nossos corpos terão um impacto permanente no ambiente e na sociedade ao nosso redor. Por isso, não tenha medo de informar à sua família e amigos qual destinação você quer que seja dada ao seu corpo após a sua partida. Por mais desagradável que essa conversa possa parecer em um primeiro momento, a morte faz parte do ciclo natural da vida e quanto mais falarmos sobre isso, mais fácil será lidar com esse assunto.

Do pó viemos e a terra tem sentindo a nossa falta. Por isso, é importante saber a melhor forma de retornar para ela.

 

Referências e Agradecimentos

Todo o trabalho de Caitlin Doughty, que me inspirou escrever esse texto, assim como seu canal no YouTube: https://www.youtube.com/user/OrderoftheGoodDeath/videos

Ao seu movimento Death Positive, do qual sou um participante:  http://www.orderofthegooddeath.com/death-positive

Ao site http://www.ecology.com/birth-death-rates/

À matéria da revista Exame intitulada “Os custos do enterro e da cremação”