Antártida Verde – Parte 2: Descubra como esse continente está se tornando verde novamente, mas não só da forma que você imagina

Na semana passada, exploramos a história geológica da Antártida e descobrimos como esse continente repleto de florestas tropicais se transformou na região mais inóspita de nosso planeta. Há apenas 2 milhões de anos, suas últimas árvores desapareceram, juntamente com as últimas pradarias. O interior do continente tornou-se cada vez mais seco e inabitável e, lentamente, a vida praticamente sumiu. Hoje, 98% da Antártida estão cobertos por mais de 2 quilômetros de gelo. Entretanto, enquanto a vida desaparecia em terra firme, os seus oceanos se enchiam de vida. As águas mais fundas do Oceano Austral, ricas em nutrientes, são constantemente puxadas para a superfície pela Corrente Circumpolar Antárctica, o que permite mares extremamente diversos e com uma das maiores concentrações de organismos do mundo (mais de 155.000 podem ser encontrados em apenas 1 metro quadrado do solo submerso). Apesar disso, o continente vem sofrendo com um estranho fenômeno. Nos últimos 60 anos, a diversidade sob o gelo vem decaindo drasticamente, enquanto, pouco a pouco, mais áreas verdes transformam a Antártida. Descubra a seguir como esse território está se tornando verde novamente e porque isso não é uma coisa boa.

Camadas de gelo com quilômetros de espessura cobrem 98% do continente – Foto por ravas51, Flickr.
Diving below the Antarctic Ice Sheet with No Escape | Seven Worlds ...
O Oceano Austral possui uma das maiores densidades de organismos do planeta – Foto por BBC

Desde 2015, cientistas de Cambridge e de diversas universidades do Chile vêm estudando um fenômeno conhecido há muitos anos, mas que tem se espalhado por todo o continente: a neve verde! Causada por florações de algas endêmicas do continente que crescem exclusivamente em cima do gelo, a neve verde sempre esteve presente na região da Península Antártica. Buscando entender sua ecologia, esses pesquisadores analisaram imagens de satélites para determinar a localização e as mudanças sazonais em sua área de ocorrência. No verão de 2019, detectaram uma área de 1.95 × 106 mcoberta pela alga apenas na península, que equivale a cerca de 1.3 × 10de toneladas de biomassa.

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Por Sarah Vincent

Isso significa que, durante seu crescimento, toneladas de carbono são aprisionadas em uma área onde plantas são praticamente inexistentes. Além disso, todos os anos um maior número de áreas verdes é encontrado, cada vez mais ao sul do continente, criando pradarias de algas, um ecossistema inexistente em qualquer outro local do mundo. Embora pareça uma coisa boa, essa expansão gradual de algas para o interior do continente está diretamente associada à temperatura crescente da área, uma vez que esses organismos não sobrevivem no frio extremo.

Enormes áreas verdes já são encontradas no interior do continente – Por NASA Earth Observatory / Norman Kuring

Além de serem um indicador da má qualidade ambiental, essas áreas verdes também contribuem para o aquecimento do planeta. Ao reduzirem a cobertura branca da Antártida, e substituindo por um tapete verde, uma menor quantidade de radiação solar é refletida para fora da terra, uma vez que a cor verde absorve a luz de todos os comprimentos de onda, com exceção do verde. Dessa forma, o gelo embaixo da alga fica muito mais quente, o que contribui para a aceleração de seu derretimento, agravando ainda mais esse problema.

Remote sensing reveals Antarctic green snow algae as important ...
As zonas cobertas pela neve verde perdem sua capacidade de refletir a maioria dos raios solares, o que acelera seu aquecimento – Por Gray et. al.

Nunca conhecemos tanto a Antártida quanto hoje e, por esse motivo, todos os anos descobrimos novas espécies no continente. Mesmo assim, a densidade de animais marinhos tem caído de forma drástica em algumas regiões, em resposta ao aumento da temperatura das águas no verão. Em contrapartida, o aquecimento do planeta tem contribuído também para o aumento da diversidade em terra firme. Apenas 0.18% do território do continente estão livres de gelo, dos quais apenas 1.34% estão cobertos por vegetais. Pouco mais de 100 espécies de musgos e 2 de angiospermas vivem no continente. Além de poucos invertebrados, os únicos animais terrestres nativos são aves marinhas, com destaque para quatro espécies de pinguins.

Penguin chicks rescued by unlikely hero | Spy In The Snow | BBC ...
Filhotes de pinguins-imperadores sendo caçados por um petrel – Por BBC

Nos últimos anos, entretanto, gramíneas vêm se espalhando pelo continente, incluindo uma espécie nativa e diversas invasoras. Juntamente com a expansão vegetal, novos animais também se adaptam ao ambiente, sobretudo nas ilhas em seu entorno, onde ratos, gatos, ovelhas, raposas e até mesmo renas contribuem para o pisoteamento da neve, derretimento do gelo e extinção local de inúmeras espécies. Com o aumento gradativo da temperatura do planeta, espera-se que, pouco a pouco, mais plantas dominem a paisagem, contribuindo ainda mais para o aquecimento do continente, ao escurecê-lo.

Musgos antárticos – Por Melinda Waterman

 

Summer Grass
South Shetland Islands no verão – Por CSUN
A população do pinguim-de-barbicha (Pygoscelis antarcticus) caiu 70% nos últimos 50 anos devido às mudanças em seu ambiente – Por Christian Aslund
A field guide to the wildlife of South Georgia with 350 colour ...
A ilha Geórgia do Sul sofre com uma população crescente de renas – Por Robert Burton

Descoberta em 1675, a Antártida continua sendo um dos ambientes mais inexplorados da Terra. Nossos impactos ambientais, mesmo que distantes, abalam diretamente esse continente que, pouco a pouco, perde suas características. A maior parte das correntes oceânicas do planeta, bem como do clima global são influenciadas diretamente por esse ambiente, que está desaparecendo antes mesmo que possamos compreendê-lo. Resta às gerações futuras lutar para que esse lugar não se torne verde novamente.

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Referências

https://blog.csiro.au/gardens-in-the-ice-the-flora-of-antarctica/

https://www.dailymail.co.uk/news/article-2154426/Its-snow-area-Penguins-living-unusually-green-pleasant-land-wait-winter-begin.html

https://www.irishnews.com/magazine/science/2020/02/11/news/chinstrap-penguin-numbers-fall-as-climate-change-bites-researchers-1839141/

https://www.nature.com/articles/s41467-020-16018-w

https://www.eurekalert.org/pub_releases/2020-05/uoc-cc051520.php

https://www.accuweather.com/en/weather-news/green-snow-to-become-a-more-regular-occurrence-in-antarctica/744433

https://www.cnet.com/news/antarcticas-weird-bright-green-snow-set-to-spread-as-a-result-of-climate-change/

 

 

 

Antártida Verde – Parte 1: Descubra como as florestas desapareceram desse continente gelado

De todos os continentes do nosso planeta, a Antártida é, sem dúvida, o mais inóspito. Esse enorme deserto gelado recebe em média 200 mm de chuva por ano (a última chuva em algumas regiões ocorreu há mais de 2 milhões de anos). Com temperaturas que chegam a  −94.7 °C e com meses de quase completa escuridão, é de se esperar que a vida terrestre nesse local seja apenas uma fração da encontrada em qualquer outro continente. Mas nem sempre foi assim. Durante  parte da história da Terra, a Antártida foi o lar de uma enorme biodiversidade, que desapareceu rapidamente à medida que o continente congelou. Nos milhões de anos seguintes, um complexo ecossistema marinho se formou no entorno de seu gelo, criando uma fauna completamente única. Entretanto, após mais de 50 milhões de relativa estabilidade, uma nova extinção em massa ameaça o continente.

Descubra nessa mini-série de textos por que a Antártida deixou de ser verde (e por que ela está se tornando verde novamente!)


 

Em “A Teoria de Tudo que Está Vivo“, contamos de forma breve como diversos grupos de organismos surgiram e se espalharam pelo planeta. Após a quebra do supercontinente Pangea, durante a era Mesozoica, a região ao sul (denominada Gondwana) permaneceu junta por milhões de anos, tempo em que diversos animais e plantas se diversificaram. Por estar muito mais ao norte que hoje em dia, a temperatura média da Antártida não era tão diferente da de outras regiões da Gondwana e, por esse motivo, ela tinha uma fauna e uma flora semelhantes. Dados fósseis do período Jurássico (entre 200 e 145 milhões de anos atrás) mostram que essa região era extremamente biodiversa, com grandes dinossauros, aves, anfíbios e mamíferos vivendo em uma vasta floresta temperada.

Jurassic period
Terra durante o período Jurássico – Imagem retirada do site dinosaursearch
Imagem
Cryolophosaurus ellioti, um grande dinossauro carnívoro caminhando por uma floresta da Antártida – Por Harrison Keller Pyle

No meio do período Cretáceo, há cerca de 100 milhões de anos, a África havia migrado para o norte, se desprendendo dos outros continentes da Gondwana. Progressivamente, a Antártida foi se aproximando da sua posição atual e, há cerca de 50 milhões de anos, atingiu a parte mais ao sul do planeta. Nesse momento, ela ainda estava muito próxima da América do Sul e conectada à Austrália. Essa conexão foi determinante para a fauna e a flora desses continentes, uma vez que diversos grupos de animais se originaram na América do Sul e migraram para a Austrália através da Antártida e vice-versa. Além de araucárias e quelônios gigantes, podemos destacar os marsupiais. Originados na América do Sul, colonizaram a Antártida e atingiram a Austrália, onde apresentam sua maior diversidade na atualidade.

Cretaceous Period | Definition, Climate, Dinosaurs, & Map | Britannica
Mapa durante o período Cretáceo. Embora já separadas, a Antártida e a América do Sul trocavam espécies constantemente através de ilhas em seus mares rasos
When dinosaurs roamed Antarctica | BBC Earth
Antártida durante o Cretáceo, dominada por Araucárias – Por BBC
Southern Cross(ings) – The Rafting Monkey
Rota de migração entre América do Sul e Austrália – Por The Rafting Monkey

 

Foi nesse período que o planeta atingiu suas maiores temperaturas da história, evento conhecido como Máximo Térmico do Paleoceno-Eoceno, no qual o planeta aqueceu mais de 6ºC em apenas 20 mil anos. Com a temperatura média de 23 °C (em contraste aos 14ºC atuais), enormes florestas se estendiam do Ártico até as porções mais austrais da Antártida. Além de palmeiras e samambaias gigantes, uma enorme diversidade de répteis, aves e mamíferos tomava conta desse continente massivo. Ainda maior que a Austrália, essa região possuía uma grande variedade de biomas, com montanhas cobertas de neve, florestas temperadas úmidas e florestas tropicais extremamente chuvosas, cercadas por um mosaico de planícies semi-áridas.

Hyperthermals: What can they tell us about modern global warming ...
PETM – Máximo Térmico do Paleoceno-Eoceno, registrou as maiores temperaturas médias do planeta (no gráfico, mostra-se a temperatura dos oceanos) – Por Smithsonian
Mapa hipotético dos biomas de uma Antártida sem gelo – Por Centralen

A fauna local também não era menos diversa que a dos continentes vizinhos. Marsupiais dividiam o ambiente com aves semelhantes a emas e com jabutis gigantes, que viviam nas porções mais quentes da região. Fósseis de bolas de fezes da área mostram a presença de besouros “rola-bosta”, que depositavam seus ovos no excremento de grandes herbívoros, como o Notiolofos e o Antarctodon, ungulados pastadores parente das Macrauchenias sul-americanas. Ossos isolados demonstram também a presença de Xenarthros no continente, grupo que surgiu na América do Sul e que inclui preguiças, tatus e tamanduás. Enormes pegadas de aves também indicam a existência de aves-do-terror (Phorusrhacidae) no continente, animais parentes das atuais seriemas que, por milhões de anos, foram os principais predadores na região Neotropical do planeta. Os pinguins, originários da Nova Zelândia, chegaram à costa da Antártida nessa época, e lá se diversificaram em dezenas de espécies.

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Imagem presente no artigo “Antarctic Peninsula and South America (Patagonia) Paleogene terrestrial faunas and environments:
biogeographic relationships” representando a fauna e a flora hipotéticas da Antártida durante o Eoceno.

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eons roundup – Nix Illustration
Antarctodon (Astrapotheria) – Por Nix Draws Stuff
Acima, pegadas de aves Phorusrhacidae, representadas abaixo – Por Huffington Post International

 

Diversidade de aves da Antártida durante o Eoceno – Por Martin Chavez

Entretanto, toda essa biodiversidade teria um rápido fim. Há cerca de 36 milhões de anos, a temperatura do planeta havia caído cerca de 15ºC, o que resultou em menos regiões de florestas tropicais no continente, gradualmente substituídas por florestas temperadas, com destaque para as árvores do gênero Nothofagus, que ainda existem na América do Sul e na Austrália. Entretanto, nessa mesma época, a conexão que existia entre a Antártida e a Austrália se quebrou, isolando completamente o atual continente gelado. As correntes marítimas, que antes eram bloqueadas pela ligação com a Austrália, começaram a contornar o continente, tornando-se cada vez mais rápidas. A Corrente Circumpolar Antártica é, atualmente, a mais forte de todo o planeta, com um volume 10 vezes maior que o do Rio Amazonas e correndo a uma velocidade de mais de 40cm/s.

The heat is on: Paleogene floras and the Paleocene–Eocene warm ...
Correntes marítimas antes da separação completa da Antártida e da Austrália – Por David J. Cantrill
The heat is on: Paleogene floras and the Paleocene–Eocene warm ...
Vegetação da Antártida no Oligoceno –
Ficheiro:Beech trees southern North Island New Zealand.JPG
Nothofagus da Nova Zelândia – Por Andrewgprout
Explainer: how the Antarctic Circumpolar Current helps keep ...
Progressivamente, a Corrente Circumpolar Antártica roubou o calor do continente –
phys.org

Além de puxar grandes volumes de água fria do fundo dos oceano, suas enormes força e velocidades impediram que correntes mais quentes atingissem o continente. Assim como uma ventoinha de uma geladeira, a Corrente Circumpolar Antártica roubava o calor da região, que foi congelando do centro para suas bordas. Quedas constantes de neve fizeram com que geleiras se formassem por todo o continente, algumas com quilômetros de profundidade. O surgimento do gelo na Antártida influenciou as dinâmicas climáticas de todo o planeta e retirou toneladas de água da atmosfera, o que reduziu a distribuição de florestas e criou as grandes savanas e planícies do planeta. Dados geológicos mostram que florestas foram substituídas por geleiras em algumas regiões em poucos milhares de anos, enquanto as porções litorâneas permaneceram mais preservadas. As últimas árvores do local morreram há cerca de 2 milhões de anos, durante uma era do gelo global. Era o fim do verde da Antártida. Atualmente, apenas duas espécies de angiospermas sobrevivem na porção norte da Península Antártica e em ilhas ao seu redor (Deschampsia antarctica e Colobanthus quitensis).

File:Colobanthus-quitensis-parnikoza-2014-1.jpg - Wikimedia Commons
Colobanthus quitensis
Paul Nicklen on Twitter: "In Antarctica working for conservation ...
Por Paul Nicklen

 

 

 

Entretanto, tudo isso está mudando e, embora a diversidade esteja aumentando em terra firme, um novo perigo se aproxima do continente. Na semana que vem, descubra como a Antártida está se tornando verde novamente, mas não só da forma que você imagina.

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Referências

http://www.climatechange.ie/hyperthermals-what-can-they-tell-us-about-modern-global-warming/

https://www.cambridge.org/core/books/the-vegetation-of-antarctica-through-geological-time/the-heat-is-on-paleogene-floras-and-the-paleoceneeocene-warm-period/14B33FBF2F88A170C328C84AB589CDAC

https://phys.org/news/2018-11-antarctic-circumpolar-current-antarctica-frozen.html

Anderson et al, 2011. “Progressive Cenozoic Cooling and the Demise of Antarctica’s Last Refugium.” PNAS 108 (28), 11356-11360. [Link

Baker, William J. and Couvreur, Thomas L. “Global Biogeography and Diversification of Palms Sheds Light on the Evolution of Tropical Lineages.” Journal of Biogeography. [Link]

Barker et al, 2007. “Onset of Cenozoic Antarctic Glaciation.” Deep Sea Research Part II: Tropical Studies in Oceanography, Volume 54, Issues 21-22, Pages 2293-2307. [Link

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Broschat, Timothy K. 2017. “Cold Damage on Palms.” Environmental Horticulture Department, University of Florida. [Link

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Rees-Owen et al, 2018. “The Last Forests on Antarctica: Reconstructing Flora and Temperature From the Neogene Sirius Group, Transantarctic Mountains.” Organic Geochemistry. [Link]

 

 

 

Ricardo Salles é apenas mais um: por que essa boiada não pode passar?

A declaração do ministro Ricardo Salles durante reunião ministerial do dia 22 de abril causou grande alvoroço. As imagens mostram que, em sua fala na reunião, Salles afirmou que era preciso aproveitar a “oportunidade” que o Governo Federal ganhava com a pandemia do novo coronavírus para “ir passando a boiada e mudando todo o regramento e simplificando normas”. Ainda completou que a cobertura da imprensa focada na COVID-19 daria “um pouco de alívio” para a adoção de reformas infralegais de desregulamentação e simplificação. “Estamos nesse momento de tranquilidade no aspecto de cobertura de imprensa. Só se fala de Covid”. Mas por que uma fala como essa pode ser tão danosa? E o que seria a boiada que Salles cita?

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Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente em reunião ministerial / 2020

Para entender por que tal fala é perigosa, devemos saber um pouco mais dos aspectos históricos da legislação ambiental no Brasil. Segundo Freiria (2015) é possível destacar ao menos quatro ciclos legislativos ambientais brasileiros: o primeiro voltado ao processo de ocupação e exploração territorial; um segundo referente à regulamentação dos recursos naturais como matéria prima do processo produtivo; o terceiro pautado pelo controle da poluição; o quarto e atual ciclo que direciona o conjunto de legislações ambientais para a efetivação do princípio de desenvolvimento sustentável. O processo de passagem entre esses ciclos é longo e complexo, mas falaremos brevemente sobre eles.

Processo de ocupação e exploração territorial

Ainda em 1500, com a chegada de Pedro Álvares Cabral, houve a preocupação em ocupar as terras para que os portugueses pudessem se estabelecer de vez no território. Os agentes da coroa poderiam doar terras a todos que tivessem condições de se estabelecer dependendo de seu status social e do serviço prestado à coroa. Segundo Freiria, posteriormente a “Lei de Terras” estabeleceu regras de direito voltadas para a demarcação e ocupação do território, assegurando mecanismos que garantissem o direito à propriedade particular. A obra História Econômica do Brasil conta que o processo primitivo de queimada, esgotamento do solo e o abandono posterior era  normal para a época, trazendo um regime de destruição contínua e gradual para o país.

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Esse primeiro ciclo durou até o Código Civil de 1916. Esse documento legal resguardava interesses privados. O artigo 584 já trazia ideias de vedação de construções capazes de poluir e inutilizar águas de poços ou fontes preexistentes, demonstrando uma visão, mesmo que primitiva, da importância da água como recurso natural.

Proteção dos recursos naturais enquanto matéria prima

Em 1934, durante o governo de Getúlio Vagas, foi criado o primeiro Código Florestal contendo em todo o seu mandato regulamentações do uso de recursos naturais. Apesar de representar a primeira iniciativa legal de conservação de florestas, tinha como principal objetivo estabelecer diretrizes básicas para a exploração e não para a conservação.

Na prática pode mesmo afirmar-se que o Código Florestal de 1934 e as legislações e instituições subsequentes acabaram representando muito mais uma reserva de mercado para os madeireiros mais organizados, que utilizaram o poder e o dirigismo estatal para consolidar uma reserva que os favoreceu.

Struminski (2007)

 

Com esse mesmo sentido, surgiu o Código das Águas, também em 1934, que tinha como característica disciplinar o uso econômico do recurso natural água, regulamentando o seu aproveitamento industrial e, de modo especial, o aproveitamento e exploração da energia hidráulica.

Já em 1965, durante a ditadura no governo do General Castelo Branco, foi instituído o novo Código Florestal, que revogou integralmente o Código Florestal anterior de 1934. O Código Florestal de 1965 trouxe inicialmente o instituto de proteção ambiental às florestas de preservação permanente que, com as alterações legislativas posteriores, resultou nos institutos da Reserva Florestal Legal e nas Áreas de Preservação Permanente (APP). Entretanto, a perspectiva de proteção nesse período, assim como o Código anterior, continuou sendo utilitarista com relação aos recursos florestais.

Muitas outras políticas públicas foram criadas no mesmo governo voltadas para o meio ambiente, porém sempre com o intuito de controle da exploração e posse. 

Controle da poluição

Em 1970, no governo do General Médici, foram instituídos dois Planos Nacionais de Desenvolvimento que, mesmo criando políticas de controle da quantidade de geração da poluição industrial, evidenciaram a sua preocupação em estabelecer procedimentos de controle de forma dissociada de uma política pública ambiental sistêmica e integrada. É importante lembrar que todas essas políticas foram respostas diretas ao crescimento exacerbado da exploração por meio de grandes corporações. Quanto mais se explorava, mais se fazia necessário o controle perante essa exploração.

Fazendo um balanço das regulamentações brasileiras relacionadas com aspectos ambientais publicadas até a década de 1980, constata-se que não havia qualquer perspectiva de sistematicidade no conjunto de legislações, sendo que o conjunto de leis existente até então tratava a proteção ambiental de forma diluída e na exata medida de atender sua exploração pelo homem.

Freiria, 2015

Desenvolvimento Sustentável

A partir da década de 80 as coisas começaram a mudar. Não foi um divisor de águas, mas a partir desse momento começaram a surgir leis ambientais que contemplavam um tratamento mais sistêmico em relação aos recursos naturais. Em 1981 foi instituída a Política Nacional do Meio Ambiente que teve grande contribuição de Paulo Nogueira Neto (secretário especial de meio ambiente da época). Ele foi inspirado pelas discussões ambientais que se iniciaram na Conferência de Estocolmo (1972).

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Paulo Nogueira Neto, idealizador da política ambiental brasileira.

Com a Política Nacional do Meio Ambiente, foi a primeira vez que, explicitamente, surgiu uma proposta de planejamento ambiental no Brasil, como forma de orientação de ordenamento territorial respaldada na legislação ambiental, sem que isso tivesse representado a revogação das legislações publicadas até então. O que significou, e significa ainda até hoje, a necessidade de coexistência de legislações criadas em diferentes momentos históricos, com diferentes propósitos e associadas como instrumentos do direito ambiental atual.

Rozely Santos (2004)

Em 1986 foi criado o Conselho Nacional do Meio Ambiente que regulamentou a obrigatoriedade da realização de Estudos de Impacto Ambiental (EIA) para várias atividades humanas. 

Em 1988, com a publicação da Constituição Federal Brasileira (CF), o capítulo VI determinou princípios para a defesa do meio ambiente, a proteção dos índios e conquistas da seguridade social. A CF influenciou também a adoção desses princípios nas constituições estaduais, como também nas leis orgânicas municipais subsequentes.

No Rio 92, com a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, foram traçados vários princípios básicos ambientais, dentre eles o princípio que assegura o desenvolvimento sustentável, sintetizado no princípio terceiro, ou seja, o “Direito ao desenvolvimento deve ser exercido de modo a permitir que sejam atendidas equitativamente as necessidades de desenvolvimento e de meio ambiente das gerações presentes e futuras”. 

Já em 2012 foi aprovado o Novo Código Florestal Brasileiro que, após vários anos de negociações sobretudo entre representantes legislativos das bancadas ruralista e ambientalista, é a base normativa atual para tratamento dos chamados espaços territoriais especialmente protegidos em sentido amplo, no caso a reserva florestal legal e áreas de preservação permanente.

Ricardo Salles e sua “desburocratização”

O que mudou no Ministério do Meio Ambiente – MMA desde a nomeação de Ricardo Salles como ministro da pasta e as principais questões que sofreram retrocessos ou estão sob ameaça por conta da política de Bolsonaro para o setor.

1. Enfraquecimento institucional

Apesar de mantido, o MMA perdeu certas competências. O Serviço Florestal Brasileiro, responsável pela gestão das Florestas Nacionais, passou para o Ministério da Agricultura. Já a Agência Nacional das Águas foi transferida para o Ministério do Desenvolvimento Regional.

Com o aviso prévio por parte do IBAMA dos locais onde haverá fiscalização, a quantidade de multas aplicadas pelo órgão de janeiro a maio de 2020 foi a menor dos últimos 11 anos, com queda de 34% em relação ao ano passado.

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2. Fundo Amazônia

Salles questionou e modificou o modo de gestão do Fundo Amazônia, financiado principalmente pela Noruega e Alemanha. A proposta de mudança causou, inclusive, um constrangimento diplomático. Um dos argumentos mais utilizado pelo ministro é justamente o da falta de orçamento para a pasta. O Fundo foi criado em 2008 e recebe repasses anuais dos dois países. Hoje, tem cerca de R$ 3 bilhões. Ainda em 2018, a Noruega anunciou que reduziria em 50% os repasses por conta do aumento da devastação amazônica durante o governo Temer.

“Uma das soluções que vinham sendo utilizadas era a utilização do próprio Fundo Amazônia para financiar a fiscalização. O ministro tomou a iniciativa deliberada de paralisar o fundo. O governo se coloca em uma sinuca de bico propositadamente, porque não deseja que o combate ao desmatamento avance”, avalia a diretora do ISA ao Blog Brasil de Fato.

3. Reserva legal e Código Florestal

O senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) apresentou Projeto de Lei que extingue as chamadas reservas legais – áreas que não podem ser desmatadas no interior de propriedades rurais. Segundo o parlamentar, a medida fere o direito de propriedade.  O governo, de outro lado, já apontou que retomará o conteúdo da Medida Provisória 867, que perdeu a validade. O texto, que beneficiaria apenas 4% dos produtores rurais do Brasil, altera o Código Florestal, estabelecendo, entre outras coisas, uma espécie de anistia que elimina o dever de recomposição de florestas desmatadas. Esse último ponto é considerado o mais grave pela Greenpeace na proposta retomada pelo Planalto.

“Ampliará a anistia já concedida, que dispensou na aprovação da lei a recuperação de 41 milhões de hectares em todo o país, área maior que a do Mato Grosso do Sul. Sob a falsa alegação de “aprimoramento” da regra, a anistia será ampliada para os grandes produtores rurais, dispensando-os de recuperar algo entre 5 e 6 milhões de hectares, ou duas vezes a área do de Sergipe”, diz texto da organização GP sobre a MP 867.

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“A sinalização política que o presidente e o ministro dão é de estímulo à atuação dos grupos que se beneficiam do desmatamento ilegal. Pode-se não ter dinheiro, mas se sinalizar politicamente com o interesse de fazer algo mesmo com dificuldades. Não é o que estamos vendo: o governo não tem dinheiro, mas também não tem um discurso político de fortalecimento”, comenta Ramos.

Ano passado a medida provisória MP 910 foi ainda pior. A MP, assinada por Jair Bolsonaro (sem partido) em dezembro do ano passado, tem como “pretexto” promover a regularização fundiária de áreas da União não tituladas, mas acaba, intencionalmente regularizando terras griladas.

4. Revisão de Unidades de Conservação

Salles já anunciou a intenção de revisar todas as Unidades de Conservação, desde o Parque Nacional de Itatiaia (de 1934) até o Refúgio da Vida Silvestre da Ararinha Azul (estabelecido em 2018). Ao todo, são 334 unidades. Segundo o ministro, elas foram criadas “sem critério técnico”.

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5. Política climática

O governo Bolsonaro abriu mão de sediar a COP-25, maior encontro climático do mundo. Salles afirma constantemente que o tema “não é prioritário”. O ministro chegou a anunciar também a não realização da Semana do Clima da América Latina e Caribe em Salvador (BA). Pela intervenção do prefeito da cidade, houve recuo no anúncio.

“A recusa do governo em receber a Semana do Clima demonstra ainda o negligenciamento do governo quanto a enfrentar de fato esse desafio”, criticou o Greenpeace.

O que é a boiada de Salles?

Bom, agora que fizemos uma contextualização rápida sobre como chegamos até aqui, fica a grande pergunta: o que Ricardo Salles quer dizer com “deixar a boiada passar” e “mudanças infralegais”. Dentre as medidas provisórias citadas acima está a MP 910. Essa medida foi substituída pelo Projeto de Lei 2633/20, que está em análise na Câmara dos Deputados. Esse PL, caso aprovado, permitirá regularizar até 15 módulos fiscais por autodeclaração, ou seja, sem a necessidade de vistoria.

Para o representante dos servidores do Incra em entrevista ao Jornal Estado de Minas, “possivelmente eles querem engavetar qualquer ação que possa prejudicar os ruralistas e, consequentemente, quem destrói o meio ambiente. Nosso temor é que no meio desse PL vá uma emenda, alguma coisa que possa ser enquadrada como a ‘passada de boiada’ do ministro. Esse projeto de lei pode servir de cavalo para levar alguma coisa que possa facilitar a vida dessa galera que destrói o meio ambiente e faz grilagem de terras”.

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O governo atual não é o primeiro que tenta beneficiar os ruralistas em prol de interesses econômicos com políticas que menosprezam a Amazônia. Porém, há de se lembrar que, independente dos governantes que estejam no poder, atualmente precisamos estar atentos para que nenhum interesse econômico atropele políticas ambientais reais e efetivas. Vale lembrar, ainda, que medidas provisórias são normas com força de lei editadas pelo Presidente da República em situações de relevância e urgência, podendo ser, posteriormente, aprovadas ou não pelo Congresso Nacional. Utilizar desse artifício para prejudicar o meio ambiente, favorecendo apenas interesses do governo e não da nação, pode atentar contra a democracia ao diminuir a influência da sociedade nos processos decisórios do legislativo.

A atuação de Salles é um retrocesso do país ao primeiro ciclo da legislação ambiental. Ela nos remete ao processo de ocupação e exploração territorial, desconsiderando completamente todos os passos e avanços que haviam sido conquistados. Portanto, ministro Ricardo Salles, ainda que estejamos em plena pandemia e presenciando tantas manobras do executivo, nos desculpe o inconveniente, mas essa boiada não vai passar!

 

 

 

 

Leia também:

Referências:

ASPECTOS HISTÓRICOS DA LEGISLAÇÃO AMBIENTAL NO BRASIL: DA OCUPAÇÃO E EXPLORAÇÃO TERRITORIAL AO DESAFIO DA SUSTENTABILIDADE, Rafael Costa FREIRIA


Desenvolvimento sustentável: da retórica à formulação de Políticas Públicas, Guimarães (1997).

História Econômica do Brasil, Caio Prado Júnior (1962)

Políticas ambientais e desenvolvimento no Brasil. Cadernos Fundap: Planejamento e Gerenciamento Ambiental

A Política Ambiental na Era Vargas. STRUMINSKI (2014)

Blog Brasil de Fato

Jornal Estado de Minas

MP 867: https://www.congressonacional.leg.br/materias/medidas-provisorias/-/mpv/135060

 MP 910 : https://www.congressonacional.leg.br/materias/medidas-provisorias/-/mpv/140116

 

 

 

Carta aberta às futuras gerações

Belo Horizonte, 15 de maio de 2020.

Queridas gerações futuras,

Nos desculpem. Não estamos destruindo nosso planeta por mal. Ao olharem para minha época, vocês vão questionar tudo que fazemos e deixamos de fazer, pois parece tão óbvio que nosso estilo de vida está acabando com a Terra… E, acreditem: com tantas evidências, muita gente ainda questiona esse fato. “Somos pequenos demais para alterar o clima”, eles dizem. “Espécies sempre se extinguiram, uma a menos não fará diferença”. “Isso é tudo alarmismo”.

Alarmismo… Essa é uma palavra comum em 2020. Com muita gente presa em casa por causa de uma grande pandemia (vocês devem se lembrar de ter lido a respeito em seus livros de história), muita gente ainda fala de alarmismo. Mais de 300 mil vidas perdidas até agora, mas os cientistas ainda estão sendo questionados. O Brasil é um excelente exemplo: com mais de três meses de atraso em relação a outros países, tivemos tempo de sobra para nos prepararmos. Quase nada foi feito. Com mais de 800 mortes diárias, pouca coisa ainda mudou no âmbito nacional. Quando o Brasil finalmente mudar de postura, já será tarde demais.

O mesmo acontecerá com o planeta Terra, e são vocês que pagarão o preço. Nossos ancestrais mataram mamutes e dodôs; minha geração acabará com ursos-polares e rinocerontes. Já cortamos mais de 50% das árvores do planeta, extinguimos 86% dos grandes animais e, mesmo assim, ainda não fazemos nada para reverter isso. Nossos mares estão perdendo vida a cada dia, dominados por toneladas de plástico. Em pouco tempo teremos mais plástico nos oceanos do que peixes, e são vocês que pagarão o preço. Temos mais CO2 na atmosfera do que tivemos nos últimos 400 mil anos e, lentamente, nosso planeta está aquecendo. Nossas marés estão subindo a níveis recordes, mas, mesmo assim, não fazemos nada. E são vocês que pagarão o preço.

As previsões para a vida de vocês não são boas. Seguindo os padrões atuais, vocês viverão em um mundo com muito menos gelo e muito menos verde. Criaremos diversos outros desertos, secaremos outros mares, destruiremos ecossistemas complexos e a maior parte dos animais, que crescemos vendo em documentários, para vocês será apenas história. Em breve, a Amazônia atingirá seu ponto de não retorno e deixará de existir, ameaçando os recursos hídricos da América do Sul. A parte continental da Antártida estará muito mais diversa que hoje em dia, mas a que custo? O aumento da temperatura permitirá a chegada de muitas espécies invasoras, que destruirão os ecossistemas nativos do ambiente. Quem sabe já teremos mamutes vivos em zoológicos? Com tanta tecnologia, poderemos até clonar tigres e elefantes e salvá-los da extinção – se seus ecossistemas ainda existirem.

Ao contrário do que vocês podem pensar, minha geração não é ruim. O mundo nunca teve tantas pessoas conscientes, que lutam todos os dias para tornar o mundo um lugar melhor. Outras milhões de pessoas não sabem que precisam mudar, nem como fazer isso. A falta de acesso à informação ainda é um dos maiores problemas de nosso planeta. A maioria dos caçadores, pescadores e lenhadores luta diariamente contra a pobreza, sendo explorados por grandes empresas e máfias, que são responsáveis pela maior parte da destruição. O restante da população ainda não está pronto para mudar. Ao contrário de uma pandemia, as mortes causadas pelo que fazemos com a Terra são bem mais lentas, o que faz com que todos achem que isso é um problema para o futuro. O que muita gente esquece é que foi essa destruição que causou essa enorme epidemia em primeiro lugar. Quando isso passar, muita gente vai continuar a vida que tinha antes. E são vocês que pagarão o preço.

Entretanto, eu espero estar errado. Espero que, ao ler esse texto, vocês interpretem esse desabafo como o desespero de uma pessoa na quarentena, que previu cenários que nunca aconteceram. Espero que vocês estejam vivendo em um planeta melhor que aquele que estamos preparando para vocês. Essa pandemia pode ser um ponto de virada, e vai alterar completamente a visão que temos da ciência e do planeta à nossa volta. O ano de 2020 pode, para sempre, ser marcado como o ano em que paramos a Terra, não para voltar para a nossa vida cotidiana, mas para começar um novo mundo, muito melhor que aquele que abandonamos.

Queridas gerações futuras, o destino de vocês está em nossas mãos. Espero que tomemos as decisões corretas para garantir que vocês tenham um mundo do qual possam desfrutar e que vocês sejam melhores do que jamais fomos.

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Pegar COVID-19 o torna imune?

Atualmente, existem dezenas de vacinas em potencial em desenvolvimento para combater a pandemia de COVID-19, algumas das quais já sendo testadas em seres humanos. As vacinas são uma das ferramentas mais poderosas da medicina porque oferecem um caminho para a imunidade sem que as pessoas precisem ficar seriamente doentes. E quando pessoas suficientes adquirem imunidade, ou porque foram vacinadas ou porque sobreviveram à doença, podemos obter a chamada “imunidade de rebanho” e reduzir drasticamente a taxa de infecção. Entretanto, tudo isso só funcionaria se fosse realmente possível criar resistência a longo prazo ao SARS-CoV-2, o vírus que causa o COVID-19. E isso, infelizmente, não é uma coisa garantida.

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Para entender isso, precisamos saber como a imunidade funciona e como o coronavírus poderia contorná-la. O sistema imunológico é basicamente a defesa do nosso corpo contra infecções e, como qualquer boa defesa, possui várias camadas. Em termos gerais, você pode dividir o sistema imunológico em dois tipos, o inato e o adaptativo. O sistema imunológico inato fornece nossas defesas genéricas que estão sempre em ação. Elas podem ser físicas, como a pele ou os minúsculos pelos dentro do nariz, que ajudam a impedir que os patógenos entrem em nosso corpo. Mas o sistema inato também fornece tipos especiais de células que circulam pelo corpo e atacam qualquer coisa que pareça diferente demais. Por exemplo, os macrófagos circundam e basicamente consomem (fagocitam) células hostis enquanto liberam substâncias químicas que ativam outras partes do sistema imunológico. Existem também as incrivelmente nomeadas “células exterminadoras naturais” ou células NK (do inglês Natural Killer Cell), que atacam rapidamente as infecções virais ganhando tempo para que outros ajudantes mais específicos cheguem. Esses auxiliares vêm do sistema imunológico adaptativo, que se adaptam ao agressor específico que o corpo está enfrentando naquele momento.

O sistema adaptativo utiliza algumas células, como o linfócito B, que rapidamente se reproduzem e criam anticorpos projetados para sobrecarregar e destruir algum patógeno específico. Ele também usa células T ou linfócitos T, que podem ajudar a regular tudo ou até atacar os vírus. Quando o nosso corpo se depara com um novo invasor, como o SARS-CoV-2, leva um tempo para que essas células especializadas se desenvolvam e se reproduzam. E uma vez que a pessoa se cura, a maioria dessas células morre, mas algumas, chamadas de células de memória, podem permanecer por aí. Elas ficam em lugares, como nos linfonodos e no baço, e, se voltarem a se deparar com o antigo inimigo, podem produzir rapidamente as células necessárias para destruí-lo. Quando isso acontece, a pessoa adquire a imunidade ativa. E é sobre isso que os cientistas geralmente pensam quando falam sobre imunidade duradoura ao COVID-19. Em alguns casos, como a varicela (ou catapora), a imunidade pode durar uma vida. Mas para outras infecções, como a tosse convulsa (coqueluche), essa proteção pode durar apenas alguns anos.

Depois do contato com a doença, o corpo pode decidir, por algum motivo, que não precisa mais dessas células de memória. Portanto, a grande questão que os pesquisadores enfrentam agora é onde, nesse espectro, o novo coronavírus está inserido.
No momento, há pelo menos uma pequena evidência de que é possível adoecer com o COVID-19 pela segunda vez. Por exemplo, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças da Coreia do Sul (CDC) registrou pelo menos 180 casos de reinfecção aparente, o que representa cerca de dois por cento de todos os que se recuperaram. E cerca da metade dessas pessoas apresentam sintomas leves novamente, embora não haja evidências de que elas voltem a ser contagiosas. Existem algumas razões pelas quais os pacientes podem obter teste positivo depois de, aparentemente, ter se recuperado. Pode-se dizer que o teste que a Coreia do Sul está usando não é tão preciso, mas esse não é o motivo  provável. Para serem declarados recuperados, os pacientes precisam fazer dois testes consecutivos negativos, espaçados por, pelo menos, um dia.

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Fonte: CDC

É possível que o teste esteja dando resultados enganosos para os reinfectados, mesmo que ele esteja captando corretamente partículas do material genético do SARS-CoV-2, mas que essas partículas sejam apenas os restos destruídos do vírus. Existe até uma pequena evidência para sugerir isso. Oh Myoung-don, chefe do CDC da Coreia do Sul, disse, durante uma coletiva de imprensa, que havia uma “grande possibilidade” de que os exames feitos em pacientes que deram como reinfectados foram baseados em resultados imprecisos. Os testes disponíveis atualmente não têm a capacidade de apontar quando o corpo do paciente ainda possui resquícios do vírus ou se acabou de ser infectado. Ele ainda deu como exemplo os testes feitos em macacos-rhesus (Bao, L. et al.), em que foi possível determinar que a imunidade à Covid-19 poderia durar cerca de um ano após a primeira contaminação.

Mas haveria alguma possibilidade de haver realmente uma reinfecção viral?

Para isso haveria duas explicações. A primeira é chamada de latência, que seria a ideia de que o vírus pode se “esconder” no corpo apenas para ressurgir mais tarde. Um exemplo comum de latência viral é o herpes. Cerca de 90% das pessoas em todo o mundo estão infectadas com o vírus do herpes simples tipo 1, que pode causar herpes labial. A maioria de nós não tem herpes labial o tempo todo, porque o sistema imunológico adaptativo pode efetivamente remover o vírus uma vez detectado. Mas, devido à latência, o herpes permanece conosco por toda a vida, incorporando-se aos neurônios sensoriais do cérebro. Como o nosso sistema imunológico sabe que não pode apenas destruir as células cerebrais, o herpes pode permanecer lá a longo prazo, desde que fique relativamente quieto. Então, sob várias circunstâncias, como quando você estiver estressado, o vírus pode se reativar e uma nova rodada de herpes labial se forma. A latência, no entanto, normalmente não é vista em outros coronavírus humanos, como os que causam o resfriado comum. Portanto, a menos que encontremos evidências que sugiram o contrário, não há uma grande razão para acreditar que isso seja verdade neste novo coronavírus.

A outra grande possibilidade é que o SARS-CoV-2 possa não provocar uma resposta imune a longo prazo. Se o seu sistema imunológico não criar muitas células de memória ou se elas não durarem muito, será possível se contaminar com o COVID-19, melhorar e depois pegá-lo novamente como se fosse novo. Esse parece ser o caso dos coronavírus que causam o resfriado comum. Em um estudo em recrutas do Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA no início dos anos 70 (Byerly, Carol R.) , menos da metade daqueles que pegaram Influenza produziram anticorpos suficientes para impedir uma reinfecção. O motivo por que isso acontece é ainda um mistério, em parte porque os resfriados são tão brandos que os pesquisadores do século 20 não se esforçaram muito para estudar os coronavírus. E, a menos que haja um surto grave, os pesquisadores de hoje também não tendem a se concentrar muito neles. Mas, olhando pelo lado positivo, alguns cientistas acreditam que os linfócitos B de memória são criados com vida útil específica e que os vírus que causam uma maior resposta imune resultam em células de memória de vida mais longa.

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Interior da ala de isolamento, hospital naval no campo de treinamento naval Gulfport, Mississippi, durante a epidemia de gripe de 1918. (Foto do Comando de História e Patrimônio Naval dos EUA)

Os coronavírus podem suprimir a resposta do sistema imunológico, podendo levar a períodos mais curtos de imunidade. Felizmente, nem todos os coronavírus criam imunidade tão ineficaz quanto o resfriado comum. O vírus que causa o COVID-19 parece compartilhar grande parte de sua estrutura com o vírus que causou a SARS, no início dos anos 2000. E essa infecção resultou em imunidade a longo prazo para a maioria das pessoas. Em um estudo de 2007 com 176 pessoas que sobreviveram à infecção por SARS (Wu, Li-Ping et al.), os níveis de proteção dos anticorpos duraram em média cerca de dois anos. E um estudo em três pacientes publicado em 2016 (Ng, Oi-Wing et al.) constatou a presença de células T de memória onze anos após sua recuperação da SARS. Obviamente, apenas o fato do vírus da SARS ser semelhante ao que causa o COVID-19 não significa que a imunidade funcione da mesma maneira nas duas doenças. Observar a SARS é uma maneira de formar hipóteses sobre o COVID-19, mas, no final, não há realmente nenhum atalho para descobrir se nossa imunidade é duradoura a esse vírus. Se a resposta é, em última análise, a que queremos ouvir, como, por exemplo, se pessoas infectadas ou vacinadas desenvolverem imunidade por uma década ou mais, somente saberemos isso por dez anos ou mais. Mas, se a resposta não for tão animadora, ou seja, se a imunidade durar apenas semanas ou meses, poderemos descobrir isso mais cedo. Não importa qual seja a resposta, ela será importante, pois guiará os cientistas na concentração de seus esforços e recursos. No entanto, caso esse vírus apresente um período muito curto de imunidade, toda a esperança não será perdida. Isso significará apenas que será mais importante encontrar tratamentos eficazes do que uma vacina. É muito cedo ainda para realmente se preocupar com as reinfecções do COVID-19. E não importa o que dizem os estudos futuros, ainda haverá ações que todos nós poderemos fazer para manter a nós mesmos e aos outros em segurança. Afinal, usar máscaras e manter a distância social ajudará a reduzir a transmissão, independentemente se alguém já tiver adquirido a doença ou não. Enquanto isso, médicos e cientistas estão trabalhando rapidamente para aprender sobre o novo coronavírus e, uma vez aprendido, poderão ajudar o mundo a tomar decisões sobre o que devemos fazer em seguida. Enquanto isso, cuidem de sua saúde física e mental e valorizem aqueles que precisam continuar trabalhando para que vocês possam permanecer em casa.

 

[Esse artigo foi criado no dia 01/05/2020. Qualquer mudança e achado científico após essa data não foi contemplado no texto acima.]

 

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Referências: 

Artigos:

Bao, L. et al. Reinfection could not occur in SARS-CoV-2 infected rhesus macaques. (2020)

Byerly, Carol R. “The U.S. military and the influenza pandemic of 1918-1919.” Public health reports (Washington, D.C. : 1974)

Ng, Oi-Wing et al. “Memory T cell responses targeting the SARS coronavirus persist up to 11 years post-infection.”

Raoult, Didier et al. “Coronavirus infections: Epidemiological, clinical and immunological features and hypotheses.”

Wu, Li-Ping et al. “Duration of antibody responses after severe acute respiratory syndrome.” 

Sites:

OMS

SciShow Tangents

Nature

ONU

Estradas – Conheça as ameaças da maior causa de morte de animais silvestres no Brasil – e como podemos solucioná-las

Estradas são construções humanas criadas para conectar duas localidades e permitir o deslocamento de carros, bicicletas, caminhões, ônibus, motocicletas e outros veículos automotivos. A popularização de carros a partir da década de 50 fez com que Estados do mundo todo investissem nesse tipo de infraestrutura, conectando grandes capitais, cidades pequenas, vilarejos e aldeias, o que possibilitou o desenvolvimento de muitas áreas. Entretanto, embora sejam extremamente práticas, elas são um grande problema ambiental no nosso planeta, sendo responsáveis por quilômetros de desmatamento, pela fragmentação de habitats e pela extinção local de milhões de espécies no mundo todo. Conheça os desafios para a biodiversidade criado por essas barreiras e como podemos superá-los.

Grandes mamíferos são muito vulneráveis a atropelamentos e podem causar graves acidentes – Foto por Chuck Bartlebaugh

Primeiramente, não podemos deixar de mencionar um problema que a pavimentação gera, até mesmo dentro das grandes cidades: os alagamentos. Escrevemos diversos textos que retratam esse assunto, que podem ser encontrados no seguinte link: Enchentes são nossa culpa?!

Somando dados rodoviários internos de cada país, estima-se que existam 21 milhões de quilômetros de estradas no planeta, o equivalente a 54 vezes a distância da Terra e da Lua. Para sua construção, milhões de quilômetros de biomas nativos foram desmatados, alterando os ecossistemas de forma irreversível em muitos locais. Além disso, a matéria prima para a confecção desses locais lança toneladas de materiais tóxicos no meio ambiente, sobretudo na atmosfera. Quando prontas, as estradas contribuem para a chegada de pesticidas em locais diferentes daqueles em que foram aplicados e de óleo em lençóis freáticos. Ao mesmo tempo, sabemos que ruas e estradas são necessárias. Como resolver esse problema?

4. Environmental issues related to road management - ROADEX Network
A construção de estradas destrói milhões de árvores todos os anos em todo o planeta – Por Roadex Network

Atualmente, locomotivas são a melhor maneira de transportar mercadorias internamente em um país. A força da indústria automobilística, somada ao desconhecimento da população desse fato fazem com que governos de países em desenvolvimento tendam a construir cada vez mais estradas, mesmo que isso tenha um enorme impacto ambiental. A ABIFER (Associação Brasileira da Indústria Ferroviária) lançou recentemente, com dados baseados em estudos científicos, estatísticas que comprovam que os trens são uma medida viável para substituir o transporte rodoviário de mercadorias, responsável pela maior parte dos impactos relativos às estradas:

1 – Numa distância de 1 km, um caminhão consome 13 vezes mais energia que um trem para transportar uma tonelada de frete.
2 – Uma via férrea de um único par de trilhos equivale a uma via expressa de 14 pistas paralelas.
3 – Um comboio de 200 vagões transporta tanto quanto 400 carretas rodoviárias.
4 – Acrescentar um único trem de frete à rede equivale a retirar da circulação até 280 caminhões.
5 – Redução dos níveis de poluição do ar, sobretudo quando o transporte ferroviário for movido à energia elétrica.
6 – No caso de locomotivas movidas a diesel, o reservatório tem capacidade para 15.000 litros. A maior parte dos trens pode percorrer mais de 1600 km sem precisar reabastecer.
7 – Rodovias transportam 3 vezes mais cargas que ferrovias, mas o custo é 6 vezes maior.

Mapa das ferrovias do mundo : brasil
Mapa ferroviário do mundo – O Brasil é um dos países em desenvolvimento que menos investe em novas ferrovias em comparação ao investimento em estradas para o transporte de mercadorias

Clique para acessar o brasil_evolucao_das_redes_ferroviaria_e_rodoviaria.pdf

Entretanto, o principal impacto das estradas na biodiversidade é direto. Geralmente criadas para o transporte de mercadorias, as estradas são facilitadoras para o desmatamento ilegal,  caça, tráfico de animais, início de queimadas e dispersão de espécies invasoras. O Brasil é, segundo dados do GRIP (Global Roads Inventory Dataset), o 4º país com a maior malha rodoviária, com mais de 11 mil quilômetros de rodovias. Todos os anos, mais de 475 milhões de animais selvagens são mortos por atropelamentos em nosso território, o equivalente a mais de 15 mortes por segundo, superando a caça ilegal, o desmatamento e a poluição. Por esse motivo, estradas se tornam verdadeiras armadilhas para a biodiversidade, reduzindo drasticamente as populações animais locais.

 

Jabuti-tinga, espécie ameaçada, se arrisca na tentativa de atravessar a BR-101 – Por Leonardo Mercon/BBC

Dependendo do tamanho do organismo, atravessar uma rodovia sem morrer é virtualmente impossível em locais movimentados, o que cria barreiras e isola comunidades já ameaçadas. Os Estados Unidos possuem um amplo registro de atropelamento de grandes animais. Surpreendentemente, carros e caminhões são a maior causa da redução populacional de  animais em extinção, como é o caso da Pantera-da-Flórida (Puma concolor coryi), com pouco mais de 230 indivíduos vivendo na natureza atualmente. Além do risco para os animais, 0,04% das colisões resultam em mortes humanas, sobretudo em áreas isoladas.

Filhotes são extremamente vulneráveis em rodovias – Fotógrafo desconhecido
Florida panther roadkill deaths up slightly, but numbers may not ...
Pantera-da-Flórida fotografada perto de uma estada dos Estados Unidos – Por J Pat Carter

Enquanto a construção de muros e cercas podem impedir até 50% dos atropelamentos de animais em estradas (Public Library of Science, 2016), elas mantêm o isolamento de subpopulações, o que por si só já é uma ameaça, por limitarem sua capacidade de reprodução e de diversificação genética, além da sua área de procura por alimentos. Por esse motivo, autoridades do Canadá determinaram a construção de corredores para a travessia de animais nos anos 80, uma tendência que vem sendo copiada por todo o planeta. Pesquisadores estudaram os principais ambientes de travessia usados por cervos, ursos e lobos e, baseados nesses dados, cercaram o resto das rodovias, com exceção da entrada de túneis e pontes, criados exclusivamente para a vida selvagem. Após a construção desses caminhos, o número de atropelamentos caiu para 6% da quantidade original e a maioria das espécies dobraram sua área de ocorrência.

Tamanduá-mirim faz travessia por manilha construída na origem da BR-101 para escoamento de água – Por João Marcos Rosa – BBC

 

 

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Ponte criada para possibilitar a migração anual de caranguejos, na Ilha Christmas – Por Faulkner Photography]

 

 

Travessia em Banff National Park, no Canadá, pioneiro nesse tipo de projeto – Por Janice Chen

Embora essa medida esteja sendo adotada com frequência na Europa, Singapura e em algumas áreas dos EUA, ela ainda é pouco utilizada pelo resto do planeta, sobretudo devido ao seu custo inicial. O custo por carro de acidentes de trânsito envolvendo animais é relativamente baixo e investimentos como esse levam mais de 20 anos para mostrarem algum retorno. Entretanto, a fuga dos animais pela destruição de seus habitats e o aumento no número de carros tornarão esse tipo de colisão cada vez mais comuns. Quando resolvermos priorizar os investimentos de longo prazo e aplicar dinheiro em serviços ecossistêmicos, já será tarde demais para muitas espécies, e esse é um preço que ninguém poderá pagar.

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Referências

The world’s biggest road networks

https://datacatalog.worldbank.org/dataset/grip-global-roads-inventory-dataset-2018-road-density

Logística: Trem versus Caminhão

http://cbee.ufla.br/portal/atropelometro/

http://www.takepart.com/article/2015/01/04/slow-down-drought-making-bears-road-kill

https://www.iucnredlist.org/species/18868/97216466

https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/10/150924_atropelamentos_fauna_tg

https://www.roadex.org/e-learning/lessons/environmental-considerations-for-low-volume-roads/environmental-issues-related-to-road-management/

Seria o Coronavírus um alívio para a natureza? As coisas não são bem assim

As ordens globais de isolamento para combater a pandemia de Covid-19, o novo coronavírus, resultaram em um benefício climático amplamente divulgado: ar mais limpo na China e na Europa. Mas as consequências da crise global da saúde não foram uniformemente positivas para o meio ambiente.

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A disseminação do coronavírus criou uma crise de vida ou morte, não apenas para indivíduos e sistemas de saúde, mas para empresas e economias como um todo. Enquanto governos e empresas enfrentam a crise do coronavírus, a questão será como esta guerra influenciará o desafio que o mundo estava enfrentando antes da pandemia e voltará a enfrentar depois: as mudanças climáticas.

Combater o coronavírus é como uma guerra. Mas, para lidar com a mudança, “precisamos conquistar a paz”, diz Mark Carney, enviado especial da ONU para ações climáticas e financiamento climático, e governador do Banco da Inglaterra até o início deste ano. “Conquistar a paz” não será fácil, reconheceu Carney em um evento recente sobre investidores e mudanças climáticas. “Como os custos do combate à pandemia diminuirão a capacidade dos governos, empresas e instituições financeiras de enfrentar a próxima crise, e devemos reconhecer isso”, disse Carney.

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Uma rua vazia quando as pessoas finalmente levaram a sério o distanciamento social em Leeds, Reino Unido.

Antes do coronavírus, o momento parecia estar se desenvolvendo atrás de governos e empresas que tomavam medidas para lidar com as mudanças climáticas. No início de 2020, os incêndios florestais estavam destruindo vastas áreas da Austrália. A ativista climática sueca Greta Thunberg havia se tornado um nome familiar e grandes investidores se comprometeram a colocar o clima no centro de suas carteiras. Provavelmente esse ano seria também um ano crítico para o cumprimento das metas climáticas. Para cumprir as diretrizes do Acordo de Paris de reduzir as emissões para zero líquido até 2050, elas devem cair pela metade até 2030. Mas a disseminação do coronavírus gerou uma crise ainda mais urgente nos governos e nas empresas: como salvar a vida de milhões de pessoas, impedir o colapso dos sistemas de saúde e fortalecer economias que agora devem entrar em algo comparável a um coma induzido.

Nos EUA, algumas cidades interromperam os programas de reciclagem, pois as autoridades se preocupam com o risco de espalhar o vírus nos centros de triagem. Em países europeus particularmente atingidos, as opções de descarte de resíduos foram revertidas. A Itália proibiu os residentes infectados de separar seus resíduos. A indústria aproveitou a oportunidade para reverter as proibições de sacos descartáveis, apesar de especialistas ambientais afirmarem que os plásticos de uso único ainda podem abrigar vírus e bactérias. As empresas que antes incentivavam os consumidores a trazer suas próprias sacolas têm mudado, cada vez mais, para embalagens de uso único. No início de março, a Starbucks anunciou uma proibição temporária no uso de copos reutilizáveis.

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Apesar da quantidade de resíduos da indústria estarem reduzindo com os consumidores em casa, houve um aumento na quantidade de lixo doméstico, à medida que as pessoas estão comprando cada vez mais pela internet e pedindo refeições delivery, que vêm com muitas embalagens. Os resíduos médicos também estão aumentando. Os hospitais de Wuhan produziram, durante o surto, em média mais de 200 toneladas desse tipo de lixo por dia.

Os pacotes de resgate econômico para lidar com o impacto do coronavírus também devem ser ecológicos, insistiu um coro crescente de ativistas ambientais, preocupados com o fato de medidas apressadas levarem o mundo a um futuro com alto teor de carbono. “Os governos precisam investir muito dinheiro para sustentar empregos e meios de subsistência”, disse Mary Robinson, ex-presidente irlandesa e alta comissária da ONU para direitos humanos, que serviu duas vezes como enviada climática da ONU. “Mas eles devem fazê-lo com uma ênfase verde muito forte. Embora pareça distante, a ameaça da mudança climática é tão real quanto a do Covid-19. “

Embora as emissões globais provavelmente caiam este ano, devido às vastas restrições às viagens e à indústria, que já produziram ar mais limpo nas principais cidades e regiões manufatureiras, essas emissões estão diminuindo devido ao “colapso econômico”, ao invés de mudanças políticas de longo prazo, disse Fatih Birol, diretor executivo da Agência Internacional de Energia, em teleconferência com o Conselho Atlântico. Diferentemente de 2019, quando as emissões foram achatadas inesperadamente devido a mudanças de longo prazo, nações desenvolvidas se afastando do carvão, em particular, e aumentando as fontes de energia renovável, qualquer queda poderia ser desfeita por um rápido reinício dos motores econômicos e pelo rompimento dos compromissos climáticos em nome da recuperação.

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Em que pese a saúde das pessoas e o bem-estar imediato dos trabalhadores envolvidos na crise sejam de suma importância, os ativistas e especialistas temem que, se os pacotes de longo prazo não forem cuidadosamente projetados, eles apenas consolidarão a dependência de combustíveis fósseis na economia global. “Os governos estão elaborando planos de estímulo para combater os danos econômicos do coronavírus”, disse Fatih Birol, diretor executivo da Agência Internacional de Energia. “Esses pacotes de estímulo oferecem uma excelente oportunidade para garantir que a tarefa essencial de construir um futuro energético seguro e sustentável não se perca em meio à enxurrada de prioridades imediatas”.

Independentemente de qual rumo a economia escolherá daqui pra frente, todas essas mudanças obrigatórias que ocorreram em prol da redução do alastramento do vírus também demonstram às pessoas que as mudanças necessárias para alcançar um futuro de baixo carbono são muito menos drásticas e muito mais palatáveis. No que diz respeito ao clima, não devemos voltar aos maus hábitos depois. Será mais fácil convencer as pessoas, pois elas sabem exatamente as consequências de um desequilíbrio ambiental. Quando a guerra ao vírus acabar teremos que pensar mais sobre qual tipo de planeta desejamos deixar para nossas futuras gerações.

 

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Referências: 

The Guardian

ONU

Bloomberg 

 

 

As epidemias e a biodiversidade – Como a destruição da natureza pode ameaçar a saúde humana

Nos últimos meses, uma doença extremamente contagiosa se espalhou por todo o planeta. O vírus conhecido como COVID-19 já matou mais de 10 mil pessoas e infectou cerca de 250 mil, em um cenário cada vez mais preocupante. Ao tentar descobrir a origem desse novo patógeno, pesquisadores concluíram que, dos primeiros 41 infectados, 27 estiveram no Mercado de Huanan, na cidade de Wuhan, na China. Em 2002, uma outra doença viral, também causada por um coronavírus, conhecida como SARS, também surgiu na China, em um mercado como esse. Conhecidos como “wet markets”, esses centros comerciais são especializados em vender produtos frescos e perecíveis, sobretudo carne de animais domésticos e selvagens. Na África, por sua vez, várias doenças também apareceram nas últimas décadas, principalmente em áreas de intenso contato entre animais selvagens e seres humanos. Então, por que tantas doenças têm aparecido nos mesmos locais? E ainda, qual é o papel da biodiversidade nesses números?

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Embora essa imagem seja de um “Wet Market” na China, quantos brasileiros já não viram cenas como essa? – Foto de Adobe

Primeiramente, é importante lembrar que muitos vírus que infectam seres humanos surgiram devido ao contato com animais. Na natureza, animais tendem a viver em baixíssima densidade, o que foi alterado quando iniciamos a pecuária. Ao confinar centenas ou milhares de galinhas e porcos juntos, contribuímos para a rápida disseminação de doenças, que gera também uma alta taxa de mutação e, consequentemente, aumenta a chance de que uma mutação viável no patógeno permita que ele infecte seres humanos. Foi dessa forma que a gripe passou, em diferentes ocasiões, de porcos e aves para os seres humanos, trazendo consequências devastadoras em alguns casos, como nos surtos de gripe suína, em 2009, e de gripe aviária, em 2005. Muitas vezes, entretanto, animais selvagens entram em contato com nossas criações, passando a doença de um bicho silvestre para os domésticos e, posteriormente, para os seres humanos.

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A enorme concentração de animais em cativeiro permite a rápida propagação de doenças, como a gripe aviária – Foto tirada na Polônia durante surto da doença/ Fotógrafo desconhecido

Outras doenças, em contrapartida, se originaram a partir do contato direto com animais selvagens, sobretudo em regiões tropicais do globo. Desde seu surgimento, 70 milhões de pessoas já foram infectadas com o vírus HIV e 35 milhões já morreram, mas tudo começou por meio do contato com um parente próximo dos humanos: os chimpanzés. Por volta de 1908, um caçador matou um chimpanzé, provavelmente na região do Camarões, e o sangue do animal entrou em contato com alguma ferida em seu corpo. Lentamente, a doença foi se espalhando na região, chegando ao Congo, Gabão e à República Democrática do Congo, onde a infecção se espalhou pelas cidades. Por volta de 1980, o HIV já havia infectado pessoas em todo o mundo, tornando-se uma pandemia.

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Estudos genéticos apontam grande similaridade entre o HIV e vírus que causam imunodeficiência em outros primatas africanos; Primeira infecção humana veio de chimpanzés – Imagem por Denis M Tebit e Prof Eric J Arts

Muitas febres hemorrágicas, por outro lado, se originaram de um animal tido, por muitos, como um grande vilão: o morcego. Ao contrário da maioria dos animais, morcegos tendem a viver em altíssimas densidades populacionais, muitas vezes compartilhando seus abrigos com morcegos de várias outras espécies. Por esse motivo, diversos patógenos altamente infecciosos evoluíram em comunidades desses mamíferos. Além disso, esses vírus não costumam afetar drasticamente a saúde desses animais, o que permite que eles vivam normalmente, espalhando a doença para outros membros de sua colônia. Entretanto, nas últimas décadas, o ser humano vem destruindo o habitat desses organismos para a construção de cidades ou para a produção pecuária, o que possibilitou um maior contato entre morcegos e humanos (ou com os animais que consumimos), que passaram a viver em cidades e fazendas.

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Vírus como o o Ebola, Nipah, Marburg e Hendra surgiram em morcegos, mas não são tão letais para esses animais – Imagem por  GETTY

Pior do que gripes, essas doenças, como o Ebola, Nipah, Marburg e Hendra podem causar até 90% de letalidade em algumas regiões, devido ao meio em que elas surgiram. Ao contrário da maioria dos mamíferos (inclusive nós), morcegos possuem um metabolismo altíssimo, que faz com que sua temperatura corporal seja maior do que 40ºC. Uma das principais defesas de nosso corpo contra infecções severas é a febre, uma vez que os vírus humanos não estão adaptados a temperaturas altas. Ao sermos infectados com essas doenças, a temperatura do nosso corpo é elevada para tentar eliminar os microorganismos, o que apenas contribui para a rápida reprodução do vírus e para a disseminação da doença.

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Morcegos transmitem diversas doenças ao ser humano devido à destruição de seu habitat natural, que faz com que esses animais vivam nas cidades e fazendas – Por MinuteEarth

Então, o que aconteceu na China? É aí que entram os Wet Markets. Além de venderem animais domésticos e carnes, esses locais também vendem uma enorme quantidade de animais selvagens, vivos e mortos. Em gaiolas apertadas e empilhadas, os animais comem, dormem e defecam, contaminando outros animais ali presentes e as carnes vendidas no local, geralmente com bactérias que causam diarreias e outras formas de infecções alimentares. Aves, roedores, primatas, cervos e canídeos permanecem ao lado de porcos recém abatidos, que serão vendidos para restaurantes ou para consumidores  comuns. Dessa forma, vírus podem facilmente saltar de um animal selvagem para um doméstico ou, como aconteceu no nesse caso, diretamente para o ser humano.

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Diversas doenças comuns em humanos podem ter surgido em animais selvagens – Por Kuldeep Dhama
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Animais selvagens vivos são frequentemente vendidos em Wet Markets, o que contribui para a propagação de doenças.

Embora “Wet markets” podem ser encontrados em diversas partes do mundo, os da China são os mais famosos devido à enorme variedade de espécies neles presentes, por motivos históricos e culturais. Durante ondas de fome na China, em 1970, o governo tornou-se responsável por ampliar a produção agrícola, investindo em enormes produções com técnicas modernas, o que desfavoreceu os pequenos agricultores. Para suprir sua renda e para evitar a fome, essas pessoas passaram a vender carne de animais selvagens, uma prática que foi incentivada pelo governo, que rapidamente se tornaram uma iguaria no país, principalmente para as classes mais altas. Entretanto, em 1988, o governo declarou que animais selvagens são um recurso natural protegido pelo governo e incentivou a domesticação e produção de animais selvagens, o que criou uma nova indústria rentável no país. Em vez de pequenos produtores, investidores milionários criaram produções em massa de produtos animais e enormes latifúndios, que abrigavam milhares de ursos, cães-guaxinins, aves selvagens e répteis, o que contribuiu para a propagação de doenças entre membros da própria espécie.

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Com permissão legal, animais selvagens são vendidos em mercados chineses – Por Vox

Essa indústria legal também incentivou a procura de produtos ilegais provenientes de animais ameaçados, como elefantes, tigres e rinocerontes, cuja carne também é vendida (mesmo que de forma ilegal) nesses espaços. Animais menores, por sua vez, são levados ainda vivos para os “Wet Markets”, onde podem contribuir para o surgimento de uma zoonose. Após a epidemia de SARS, em 2002, provavelmente causada pelo contato com espécies selvagens, a China proibiu as fazendas de animais selvagens e sua venda em mercados. Entretanto, lobbies dessas indústrias pressionaram o governo, que permitiu a reabertura dessas fazendas e ainda incluiu animais ameaçados na lista de espécies permitidas para o consumo, como tigres e pangolins. Além da carne e da pele, essas indústrias se apoiam em ideias antigas da medicina tradicional chinesa para manter o comércio em alta, até mesmo de produtos como chifres de rinocerontes africanos ou (por mais chocante que pareça), ossos de mamutes, retirados na Sibéria. Ao contrário da nossa crença popular, apenas a parcela mais rica do país utiliza esses produtos e consome carne de espécies selvagens, mas sua influência à rentabilidade da indústria faz com que o governo chinês não a proíba.

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O surto de SARS provavelmente foi iniciado pelo contato com civetas selvagens em Wet Markets, como o da foto – Autor desconhecido

E é aí que entra o pangolim (Manis spp.), o animal ameaçado citado anteriormente. Esse estranho mamífero é a espécie mais traficada do planeta (mais de 50 mil indivíduos por ano) , sobretudo devido a seu uso na medicina tradicional. Pesquisas recentes indicaram que o COVID-19 surgiu de morcegos, mas foi por meio dos pangolins que a doença saltou para seres humanos, o que agora ameaça todo o nosso planeta. No momento, os “Wet Markets” e a venda desses animais estão proibidos na China, mas talvez seja apenas uma questão de tempo até que sejam liberados novamente.

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O pangolim é hoje o animal mais traficado do planeta
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Por: Getty Images/BBC NEWS BRASIL

Mais uma vez, a ganância humana e a destruição da natureza têm um impacto negativo em todo o planeta, beneficiando uma pequena parcela da sociedade. Além disso, esses animais se tornam ainda mais ameaçados ao serem culpabilizados pelas doenças que nos transmitiram, devido às nossas próprias ações.  O bem estar da população mundial depende da proibição da caça e de formas mais conscientes de produção pecuária, práticas essas que ameaçam não só o nosso meio ambiente, como também a saúde e a sobrevivência de todos nós.

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Referências

https://www.plantbasednews.org/opinion/chinese-wet-markets-coronavirus

https://www.researchgate.net/figure/Wild-life-zoonotic-diseases-being-transmitted-to-humans-a-glimpse_fig1_259870465

https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS1473-3099(10)70186-9/fulltext

https://www.nature.com/articles/d41586-020-00548-w?fbclid=IwAR1TaU8leMGzeMUzV0uZVIOBskJC2Zh4P7hixJfBEvwnsouHZGZnF4QTz_A

Chinese Citizens Call for Permanent Ban on Wildlife Markets

https://www.scmp.com/comment/opinion/article/3047828/first-sars-now-wuhan-coronavirus-heres-why-china-should-ban-its

https://journals.lww.com/infectdis/Fulltext/2002/02000/FROM_BATS_TO_PIGS_TO_MAN__THE_STORY_OF_NIPAH_VIRUS.3.aspx

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/19497090

 

 

 

Clique para acessar o global-pangolin-assessment.pdf

 

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Crise econômica petroleira e Meio Ambiente

Coronavírus, crise do petróleo, queda na bolsa de valores. No último mês um acumulado de notícias e crises se fez presente nos noticiários no mundo todo. Mas por que uma pandemia afetou o mercado petroleiro? E por que isso pode prejudicar o meio ambiente? Para entender isso, é necessário entender o que levou a um colapso no cartel petrolífero.

Já fizemos um texto sobre a COVID-19 (para saber mais detalhes sobre esse coronavírus clique aqui.) Nesse texto, vamos nos ater a explicar as consequências econômicas e ambientais dessa epidemia.

O número de infectados pelo coronavírus na China vem caindo, porém no resto do mundo o número de casos confirmados da doença está próximo de 128 mil. Até a data do monitoramento feito pela Universidade de Johns Hopkins as pesquisas mostravam 127.749 casos confirmados de COVID-19. A Itália é o segundo país mais afetado pela epidemia, com 12.462 casos, e o Irã vem em terceiro, com 10.075.

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Com a forte incidência da doença no país, a China reduziu significantemente sua produção e, consequentemente, sua demanda por petróleo (até 20% no primeiro trimestre). Quanto menor a demanda por um produto, menor preço ele terá. Então, logo as bolsas de valores começaram a dar sinais de inquietação e o preço do petróleo iniciou sua queda. A reversão de uma iminente crise só seria possível com a redução da oferta de barris. Porém, fatores políticos começaram a tomar conta do cenário que já parecia caótico.

A Arábia Saudita, a Rússia e outros países produtores de petróleo iriam se encontrar em Viena, na semana passada, para debaterem quem deveria reduzir a produção de petróleo para compensar o colapso da demanda devido ao surto de coronavírus. O drama entre a Arábia Saudita e a Rússia, os dois maiores produtores de petróleo do mundo depois dos Estados Unidos, começou com uma reunião histórica da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP).

Argentina G20 Leaders' Summit 2018 - Day 1 Of Sessions

O presidente russo, Vladimir Putin, olha para o príncipe herdeiro da Arábia Saudita Mohammad bin Salman al-Saud na cúpula do G20 em Buenos Aires em 30 de novembro de 2018.  Foto: DANIEL JAYO

Na véspera da reunião de sexta-feira, no entanto, a Arábia Saudita surpreendeu seus parceiros da OPEP ao pressionar publicamente por cortes mais severos do que esperado na produção de combustíveis fósseis. Moscou achava que a Arábia Saudita estava tentando convencê-lo a fazer cortes maiores de produção, colocando a Rússia em posição desvantajosa. A Rússia considerou o movimento Arábia Saudita como blefe. Após horas de negociações infrutíferas, os ministros deixaram Viena sem acordo. Os preços do petróleo subiram.

Como represaria, a Arábia Saudita reduziu os preços do petróleo e prometeu ampliar a produção, aumentando a oferta. Quando os mercados de petróleo abriram na noite de domingo, os preços caíram para a metade do que haviam sido no início de janeiro. Embora as crises passadas ​​do petróleo tenham sido causadas ​​pela oferta ou pela demanda, o colapso dos preços de 2020 é altamente incomum na história do mercado de petróleo: resulta de um choque massivo na demanda e de um enorme excesso de oferta ao mesmo tempo.

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Custo do Barril de Petróleo

Fatores de influência para o meio ambiente:

O primeiro fator curioso é que, com a paralisação temporária das fábricas na China, o secretário-geral da Organização Meteorológica Mundial, Petteri Taalas, durante uma apresentação na sede da ONU, mostrou imagens de satélite da qualidade do ar do país em 30 de janeiro de 2020, em comparação com o mesmo dia do ano anterior. As imagens mostram uma melhora significativa na qualidade do ar.

No entanto, o secretário-geral da ONU, António Guterres, alertou que não se deve superestimar essa redução das emissões momentânea, tendo em vista que o novo coronavírus deve ser temporário, enquanto as alterações climáticas vão se manter por décadas, requerendo uma ação constante.

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NASA via Reuters

O segundo fator pode ser duradouro e é nada otimista. O caos do petróleo provocou pânico instantâneo nos mercados financeiros, e a decisão da Arábia Saudita de iniciar uma guerra de preços ainda pode ter consequências profundas para a adoção mundial de energia mais limpa.

Analistas alertaram que o choque no preço do petróleo poderia prejudicar a demanda por veículos elétricos e diminuir o apelo das medidas de eficiência energética, porque a turbulência, aliada à desaceleração da economia global, teve um efeito assustador nos planos renováveis mais ambiciosos. O petróleo barato provavelmente tornará os veículos elétricos menos atraentes para os consumidores, pelo menos no curto prazo. O mercado global de veículos elétricos já havia sofrido uma desaceleração no ano passado devido à demanda mais fraca na China e nas Américas. Além disso, as pequenas empresas que estão iniciando no mercado de eficiência energética podem vir a desaparecer.

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Já a geração de energia não é diretamente afetada pelas mudanças no preço do petróleo, porque esse combustível fóssil raramente é usado para geração de energia. No entanto, as políticas governamentais que moldarão o futuro das energias renováveis ​​podem mudar devido ao choque atual. Embora o custo da energia eólica e solar tenha caído na última década, o nível de subsídio do governo para essas usinas também tem declinado em muitos países. Mesmo antes do choque econômico do coronavírus, o investimento em energia limpa atingiu o pico em 2017, caindo ligeiramente em 2018 e no primeiro semestre de 2019.

Considerando que a crise é recente e com diversas variáveis e possibilidades, é muito difícil prever ainda quais serão as consequências a longo prazo. Só nos resta aguardar e entender que a base energética do nosso planeta deve ser modificada para que as variações provocadas por crises não dependam apenas de políticos e príncipes, mas sim da própria natureza.

 

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Referências:

 

Financial Times

The Guardian

BBC

Johns Hopkins University

De Volta ao Lar – Conheça os desafios da reintrodução de espécies extintas na natureza

“Extinção é para sempre”. Essa pequena frase é frequentemente utilizada como forma de conscientização para a gravidade da onda de extinção que varre nosso planeta, mas ela não conta toda a verdade. Parte disso vem do fato que, devido às nossas dificuldades metodológicas, não conhecemos todos os seres vivos presentes no planeta e, por esse motivo, várias espécies tidas como extintas são posteriormente reencontradas. (Saiba mais sobre em A Volta dos que Não Foram – Como espécies extintas podem ser encontradas novamente). Além disso, avanços científicos nos deixam cada vez mais perto da clonagem de espécies extintas, no estilo Jurassic Park, que inclusive já permitiu que uma espécie fosse extinta duas vezes na história. Entretanto, o assunto desse texto é bem diferente desses dois cenários.

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Tido como extinto por 40 anos, o tagá (Catagonus wagneri) foi redescoberto vivo em 1971 – Foto de Beardsleyzoo

Muitas vezes, espécies que desapareceram completamente da natureza ainda estão presentes em zoológicos ou centros de reprodução. Na maioria dos casos, esses organismos jamais retornarão para o ambiente selvagem. Em outros, esses indivíduos são capazes de repovoar ecossistemas e transformar o ambiente em que vivem. Essa prática, conhecida como reintrodução, é muito cara e possui muitos riscos, motivos pelos quais não é feita com frequência. Quando bem administrada, entretanto, pode fazer com que savanas, pradarias, florestas e desertos voltem a ser o que já foram, dezenas ou centenas de anos atrás.

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Muitos animais têm sido reintroduzidos em áreas das quais foram extirpados, mas apenas recentemente animais extintos na natureza vêm sendo utilizados  – Foto de Jeroen Jacobs

Quando pensamos em reintrodução, temos um grande desafio pela frente. O primeiro passo é determinar quem são os possíveis candidatos. A IUCN (União Internacional para Conservação da Natureza) possui o inventários mais detalhado e mais utilizado sobre o estado de conservação de espécies do planeta e, atualmente, cita 38 animais extintos na natureza.

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O  Leopardo-do-sinai (Panthera pardus jarvisi) foi avistado na natureza pela última vez em 1990, mas diversos exemplares ainda vivem em zoológicos

Para escolher um candidato, deve-se primeiramente pensar: onde devemos soltar esses animais? O leão-do-atlas, por exemplo, é a maior subespécie de leão do planeta, extinta na natureza no século XX. Esse animal vivia em florestas e regiões semi-áridas da costa africana do Mediterrâneo e foi extinto sobretudo devido à caça esportiva e à perda de habitat. Atualmente, nem as grandes florestas muito menos as grandes populações de presas existem mais na região. Além disso, a caça esportiva ainda ameaça as subespécies de leões existentes na África. O que impediria que o leão-do-atlas fosse solto para ser extinto novamente pela caça anos depois? Esse é o motivo pelo qual ainda não podemos devolver esse animal para a natureza.

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O leão-do-atlas (Panthera leo leo) foi extinto na natureza em 1968 e sua reintrodução é extremamente improvável – Foto por Anne-Marie Kalus

Um outro grande problema que enfrentamos é a chamada depressão endogâmica. Em espécies extremamente raras, poucos indivíduos na população reproduzem e, consequentemente, poucos alelos existem na população. O cruzamento desses organismos pode aumentar a chance de que alelos recessivos deletérios, ou seja, que contribuiriam para a extinção da espécie, se propaguem na população, em um processo conhecido como “depressão endogâmica”. Isso pode se refletir em doenças genéticas, baixas taxas de reprodução ou, até mesmo, na resistência da espécie a certos patógenos. Ao escolher uma espécie para a reintrodução, os cientistas necessitam garantir a diversidade genética entre os indivíduos. Protocolos criados em 2004 conseguiram garantir que uma população de apenas 30 indivíduos possuíssem 95% da diversidade genética de uma espécie.

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A endogamia é responsável pelo aparecimento de diversos problemas genéticos em populações pequenas de animais – Imagem por Paulo Gabriel Fonseca 

Mas, afinal, a reintrodução dá certo? Por causa dos inúmeros estudos realizados antes da soltura dos animais, pouquíssimos casos até hoje falharam. O melhor exemplo para entender o potencial da soltura de espécies extintas na natureza é o do cavalo-selvagem-de-przewalski, o único cavalo selvagem de nosso planeta. Historicamente presentes por toda Eurásia, esses animais tiveram um declínio populacional significativo devido à perda de habitat, caça e captura. Por muitos anos, essa espécie permaneceu negligenciada até que, em 1950, apenas 12 indivíduos restavam em todo o planeta. Esforços de zoológicos contribuíram para a sua reprodução em cativeiro e estudos genéticos contribuíram para tentar minimizar os efeitos da depressão endogâmica. Em 1992, 16 indivíduos foram soltos em planícies da Mongólia. Em outras três ocasiões nos anos seguintes, mais 60 animais foram soltos e começaram a se reproduzir na natureza em várias localidades diferentes, atingindo uma população selvagem de 248 animais por volta de 2005. Foi a primeira vez na história que um grande animal passou de Extinto na Natureza para Criticamente Ameaçado, segundo a classificação da IUCN. Graças ao crescimento rápido de sua população, o animal saiu de Criticamente Ameaçado para Ameaçado, em 2011.

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Devido a esforços de conservação, o cavalo-selvagem-de-przewalski (Equus ferus przewalskii) vive hoje nas planícies asiáticas – Foto por Patrick Pleul

Além das reintroduções de espécies extintas na natureza, centenas de outras espécies de animais extintos localmente têm sido feitas e, até o momento, mais de 200 casos de sucesso já foram registrados pelo mundo. No Brasil, diversos estudos vêm sendo realizados para reintrodução de animais, sobretudo na Mata Atlântica. O mutum-de-alagoas (Pauxi mitu) é a maior ave desse bioma, tendo um papel fundamental na dispersão de sementes. A caça e o desmatamento fizeram com que seus números decaíssem drasticamente no século XX, tendo sido avistado pela última vez em 1977. No ano passado, seis exemplares vindos de criadouros especializados foram levados para a Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Mata do Cedro, no município de Rio Largo, próximo à cidade de Maceió. Após um período de aclimatação, os animais foram soltos na reserva, em uma área de mil hectares, onde estão sendo monitorados. Pela primeira vez, uma espécie extinta voltou para a natureza no Brasil.

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Mutum-do-Alagoas (Pauxi mitu) em cativeiro – Por Pedro Henrique Tunes

No Dia Mundial da Vida Selvagem (03/03), 52 ararinhas-azuis (Cyanopsitta spixii) chegaram no Brasil, vindas da Alemanha. A espécie, extinta na natureza desde 2000, foi mantida em cativeiro graças a esforços de conservação e de parcerias com zoológicos. As aves foram levadas para o município de Curaçá, na Bahia, onde ficarão em um centro de reprodução e, após alguns meses, serão soltas, enchendo nossa caatinga de cor após 20 anos de sua ausência.

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Ararinha-azul (Cyanopsitta spixii) fotografada em cativeiro – Por P. Pleul

A extinção é um processo muito prejudicial, mas nem sempre é irreversível. Milhares de pessoas em todo o mundo lutam para reverter as ações de seres humanos do passado e, sobretudo, para garantir um futuro para aqueles organismos que agora dependem de nós para existir. Esses animais são uma lição para a conservação e nos mostram, não só o nosso poder de extinguir espécies, mas também de salvá-las.

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Jurassic Park da vida real: Podemos (e devemos) clonar nossas espécies extintas?

Como voltar ao PASSADO?

Florestas Vazias – Descubra por que a vida está desaparecendo em nossas matas

 

Referências

Mutum-de-alagoas será reintroduzido na natureza depois de extinto há mais de 40 anos

https://web.archive.org/web/20111115014738/http://www.iucn.org/about/work/programmes/species/red_list/?8548%2FAnother-leap-towards-the-Barometer-of-Life

https://www.nationalgeographicbrasil.com/animais/2018/03/quoll-oriental-gato-marsupial-extinto-australia-conservacao

https://g1.globo.com/fantastico/noticia/2019/10/20/primeira-especie-de-animal-extinta-na-natureza-na-america-do-sul-sera-reintroduzida-em-alagoas.ghtml

https://www.iucnredlist.org/species/7961/97205530

The Przewalski horse: a prehistoric horse who lived through the Ice Age (Part 3)

Especialistas demonstram preocupação sobre projeto de reintrodução das ararinhas-azuis

https://www.dw.com/pt-br/brasil-e-alemanha-assinam-acordo-para-repatriar-ararinhas-azuis/a-49109174

 

Chuvas intensas e Mudanças Climáticas: uma nova realidade

Nos últimos dias o país tem sofrido com eventos de chuva extrema localizada. Cidades como Belo Horizonte, São Paulo e regiões da zona da mata estão sofrendo com alagamentos e deslizamentos sem precedentes. Mas porquê a intensidade das chuvas aumentaram? Seria esse nosso novo normal?

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Deslizamentos em MG – janeiro 2020

Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e coletados pelo Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC), com base em informações dos satélites e de pluviômetros, afirmam que somente no Sudeste do Brasil houveram 1373 registros de chuva extrema desde 2015 demonstrando uma mudança significativa no padrão.

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Esses alagamentos e chuvas intensas infelizmente não estão ocorrendo apenas no Brasil. A Germanwatch publicou no seu Índice de Risco Climático Global mais de 526.000 pessoas morreram em um ano no planeta devido à devastação em 11.500 eventos climáticos, com perdas econômicas totalizando US$ 3,47 trilhões. Alguns dos países mais pobres do mundo estão entre os países mais devastados pelo clima extremo.

O que sabemos sobre a mudança na temperatura terrestre?

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Este gráfico ilustra a mudança na temperatura global da superfície em relação às temperaturas médias de 1951-1980 (Fonte: Instituto Goddard de Estudos Espaciais da NASA). Crédito: NASA / JPL-Caltech

Desde o período pré-industrial, estima-se que as atividades humanas aumentaram a temperatura média global da Terra em cerca de 1 grau Celsius (1,8 graus Fahrenheit), um número que atualmente está aumentando em 0,2 graus Celsius (0,36 graus Fahrenheit) por década. A maior parte da atual tendência de aquecimento é extremamente provável (maior que 95% de probabilidade) resultado da atividade humana desde a década de 1950 e está ocorrendo a uma taxa sem precedentes ao longo de décadas a milênios. (Para saber mais sobre como o ser humano mudou o equilíbrio terrestre, clique aqui.)

Porque o aumento na temperatura terrestre aumenta a intensidade de chuvas?

Parte da resposta a essa pergunta requer saber como o tempo vai mudar à medida que a Terra se aquece. Existem alguns processos físicos básicos que informam as expectativas dos cientistas de como a precipitação reagirá em um mundo em aquecimento. Com temperaturas mais altas, ocorre maior evaporação e secagem da superfície, contribuindo potencialmente para a maior intensidade de chuvas e duração da seca. É um princípio científico bem conhecido de que o ar mais quente retém mais vapor de água. De fato, a quantidade de umidade que pode ser mantida no ar cresce muito rapidamente à medida que as temperaturas aumentam. Isso pode causar chuvas mais intensas aumentando riscos de inundação.

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Chuvas São Paulo – fevereiro 2020

De acordo com a equação de Clausius-Clapeyron, o ar geralmente pode reter cerca de 7% a mais de umidade a cada 1°C de aumento de temperatura. Como tal, um mundo cerca de 4 °C mais quente que a era pré-industrial teria cerca de 28% mais vapor de água na atmosfera.

Um ar mais quente também pode evaporar mais rapidamente a água das superfícies. Isso significa que as áreas onde não há ocorrência de chuva secam mais rapidamente. A tendência é que os períodos de seca serão mais longos e com evaporação mais rápida, causando seca no solo e déficit de água nos lençóis freáticos na estiagem. Mas, quando as chuvas caem, ocorrem fortes chuvas, que encharcam o solo não dando tempo suficiente para a água infiltrar e aumentando o escoamento superficial.

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Deve-se ressaltar que quando as temperaturas ficam altas demais, ultrapassando certo limite, fortes eventos de precipitação diminuem. Existem algumas razões claras para isso, mas, independentemente de onde as medições são feitas na Terra, parece haver um aumento da precipitação com a temperatura até um pico e, posteriormente, aquecimento  maior coincide com a diminuição das precipitações. Um novo estudo inteligente da Dra. Guiling Wang, da Universidade de Connecticut e seus colegas, analisaram isso. O trabalho deles foi publicado na Nature Climate Change. Eles relatam que a temperatura de pico (a temperatura em que ocorre a precipitação máxima) não é fixa no espaço ou no tempo. Ou seja, no futuro é provável que, com o aquecimento no planeta a precipitação mais intensa ocorra a temperaturas ainda mais altas.

Diferente do que muitos pensam, o aumento de umidade não irá chover uniformemente em todo o planeta. Algumas áreas terão aumento da precipitação, enquanto outras áreas deverão ter menos, devido à mudança dos padrões climáticos e outros fatores.
A figura abaixo mostra a mudança percentual projetada na precipitação entre o clima atual (representado pela média 1981-2000) e o final do século (2081-2100) na média de todos os modelos climáticos apresentados no mais recente Painel Intergovernamental sobre Relatório de Mudanças Climáticas (IPCC) (CMIP5), usando o cenário de aquecimento avançado (RCP8.5).
As cores púrpura mostram áreas onde a precipitação aumentará, enquanto as áreas alaranjadas indicam menos chuva e neve no futuro.

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Variação percentual média do multimodelo RCP8.5 na precipitação total (chuva e neve) entre 1981-2000 e 2081-2100. Utiliza uma execução para cada modelo, total de 38 modelos. Dados do KNMI Climate Explorer; mapa por Carbon Brief.

Há solução?

Limitar as emissões de gases de efeito estufa da humanidade limitaria o aumento de chuvas. O Relatório Especial de Ciência Climática do governo dos EUA fornece um exemplo claro. Se as emissões de efeito estufa continuarem sem controle, a frequência de um evento de chuva de uma vez em cinco anos poderá aumentar de duas a três vezes no final do século. Mas se o mundo fizer cortes significativos nas emissões, praticamente em linha com as promessas do Acordo de Paris, o aumento na frequência poderá ser reduzido pela metade. Para muitas cidades e comunidades, essa diferença seria crítica.

Projetos de renaturalização de cursos d’água, drenagem urbana eficiente e redução da impermeabilização do solo serão necessários para adaptar a mudança, mas muito se engana quem acha que é a solução. A natureza não vê fronteiras e chuva que fará falta na seca, é a mesma que irá causar a destruição no verão.

 

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O Impacto Por Trás das Manchetes: Como as mudanças climáticas já estão afetando a vida no planeta

Guerra à Ciência – Parte III – Aquecimento Global e seus opositores

Como os seres humanos quebraram o ciclo essencial à vida?

 

 

 

Referências

Nature Climate Change

Inpe

NASA

Climate Modeling – Carbon Brief

POURING IT ON: How Climate Change Intensi!es Heavy Rain Events – Climate Central

 

Artigos: 

“Agricultural drought in a future climate: results from 15 global climate models participating in the IPCC 4th assessment ” – Guiling Wang

“ATMOSPHERIC MOISTURE RESIDENCE TIMES AND CYCLING: IMPLICATIONS FOR RAINFALL RATES AND CLIMATE CHANGE” – KEVIN E. TRENBERTH

 

Por que você deve se preocupar com o novo Coronavírus – mas não da forma que você imagina

Os coronavírus são um grupo de vírus pertencentes à subfamília Orthocoronavirinae, dentro da família Coronaviridae, caracterizados por possuírem estruturas proteicas semelhantes a coroas (corona, em latim). Ao contrário da maioria dos organismos conhecidos, que possuem o clássico DNA de fita dupla em seu organismo, os coronavírus possuem uma única fita de material genético, denominada RNA. Conhecidos desde os anos 60, esses microorganismos estão associados a diversas patogenias em aves e mamíferos. Nos seres humanos, geralmente causam resfriados e infecções respiratórias leves, mas também são responsáveis por doenças mais graves, como a SARS e a MERS.

Nas últimas semanas, fomos bombardeados com notícias de um novo coronavírus, supostamente muito mais perigoso do que os anteriormente conhecidos. Mesmo com diversas medidas de contenção, mais de 30 mil pessoas já foram infectadas, em pelo menos 25 países. Em semanas de infecção, cidades entraram em quarentena, onde foram isoladas mais de 60 milhões de pessoas, e países proibiram vôos para a China, em um cenário inédito na história da humanidade. Batizado de 2019-nCoV, esse vírus teve impactos significativos na economia global, nas relações entre países e na segurança de milhares de pessoas. Sua história e sua progressão não serão o foco desse texto, uma vez que diversas informações sobre isso podem ser encontradas facilmente na internet. Nos próximos parágrafos, exploraremos algumas Fake News sobre esse patógeno e, também, o porquê desse vírus ser tão perigoso.

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Antes movimentadas, estradas da regiao de Hubei estão vazias após o início das quarentenas na China

O 2019-nCoV surgiu de uma sopa de morcego?

Embora diversas notícias e mensagens em redes sociais terem apontado sopa de morcego como sendo a origem dessa nova doença, nenhuma evidência científica aponta a ligação entre as duas coisas. É verdade que morcegos possuem diversos patógenos que podem infectar os seres humanos, mas o 2019-nCoV não é um deles. Também é verdade que, embora não seja uma prática tão comum, várias pessoas na China tomam sopa de morcego ou comem outros alimentos tidos como “nojentos” para o nosso paladar ocidental. A xenofobia, ou seja, a discriminação por pessoas ou culturas muito diferentes de nós é a causa desse tipo de notícia, uma vez que julgamos diferentes alguns hábitos baseados no nosso cotidiano e nas nossas vivências. É importante ressaltar, entretanto, que essa patogenia provavelmente surgiu do contato humano com animais selvagens. Inicialmente, acreditava-se que a doença veio de serpentes utilizadas para a alimentação humana, mas dados apresentados hoje pela Universidade de Agricultura do Sul da China apontaram que o vírus pode ter surgido em pangolins, mamíferos extremamente raros utilizados na medicina tradicional chinesa.

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Semelhante a um tatu, os pangolins (Manis spp.) são os animais mais traficados do planeta e podem ter sido hospedeiros do 2019-nCoV antes dos seres humanos – Foto por edgeofexistence

O novo Coronavírus já se tornou uma pandemia?

Essa dúvida é uma questão exclusivamente conceitual. Quando falamos de uma epidemia, estamos nos referindo a um pico no número de casos de uma doença no mesmo local e época. Uma pandemia, por sua vez, é uma epidemia que se estende por uma grande área do planeta, com um pico no número de casos em diversos países. Embora pelo menos 25 países já relatarem a doença em solo nacional, as pessoas infectadas estiveram na China ou entraram em contato com quem esteve no país, e ainda não existem evidências da circulação da doença livremente em território nacional. Portanto, até o presente momento, o 2019-nCoV é tratado como uma epidemia.

Locais onde casos da doença já foram confirmados – Por kfyrtv

 

Como essa doença é transmitida?

Assim como a maioria das doenças respiratórias infecciosas, a transmissão ocorre de pessoa para pessoa, de forma semelhante à gripe. Embora a transmissão original tenha ocorrido de um animal para uma pessoa, animais não contaminam o ser humano. O portal da FioCruz aponta que ela ocorre:

Pelo ar ou por contato pessoal com secreções contaminadas, como: gotículas de saliva; espirro; tosse; catarro; contato pessoal próximo, como toque ou aperto de mão; e contato com objetos ou superfícies contaminadas, seguido de contato com a boca, nariz ou olhos.

Uma mulher infectada na cidade de Wuhan, epicentro da doença, deu à luz a um bebê infectado, o que também indica uma possível transmissão no útero entre mãe e filho.

Quais são os sintomas?

Segundo dados da OMS, os sintomas comuns são os de infecções respiratórias, como  febre, tosse e dificuldade para respirar. Nos casos severos, a doença pode causar pneumonia, síndrome respiratória aguda, falência renal e, em poucos casos, pode levar o paciente à morte.

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Os sintomas do novo coronavírus incluem febre, dificuldades respiratórias e tosse – Por Aljazeera

Eu posso me infectar pelo 2019-nCoV aqui no Brasil?

Não é impossível, como discutiremos a seguir. Entretanto, até o presente momento, a doença ainda não foi detectada em território nacional e, portanto, as chances são extremamente remotas.

É verdade que não devemos nos preocupar com o novo Coronavírus, pois doenças como a gripe matam muito mais pessoas todos os anos?

É verdade que, todos os anos, a gripe comum mata milhares de pessoas. Entretanto, o 2019-nCoV é muito mais perigoso e ambas doenças não podem ser comparadas dessa forma. Um conceito importante para entendermos a periculosidade desse vírus é o chamado R0, ou “número básico de reprodução”. O R0 representa o número esperado de novas infecções vindas de um único paciente em uma população totalmente susceptível a uma determinada doença, em um cenário onde nenhuma medida para contenção foi tomada. Falando em termos mais simples, se o R0 de uma doença for 1, significa que cada paciente infectado irá infectar em média uma nova pessoa. Para colocarmos em perspectiva, o R0 da gripe sazonal comum é igual a 1,28. A gripe suína, extremamente infecciosa, possui o R0 = 1,48. A Gripe Espanhola, uma pandemia que matou milhões de pessoas, possuía o R0 = 1,8, um valor extremamente elevado. Pesquisas recentes indicam que o 2019-nCoV, por sua vez, possui um R0 = 4,8, ou seja, um valor extremamente preocupante, que cresce exponencialmente a cada dia.

Um outro conceito importante para nós é a taxa de complicações sérias, que determina a porcentagem de pessoas infectadas que apresentarão sintomas mais severos da doença, necessitando receber tratamento médico. De todas as pessoas infectadas pela gripe sazonal comum, menos de 1% necessitam de cuidados médicos, enquanto 20% dos pacientes com o novo coronavírus apresentam um quadro grave da doença.

Por sua vez, o 2019-nCoV possui uma alta taxa de mortalidade. De todos os pacientes que contraem a gripe, 0,1% vão a óbito, enquanto 6% das pessoas que contraem o novo coronavírus morrem.

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Comparação entre curvas de crescimento da SARS e do 2019-nCoV – Por G1

A situação é pior do que imaginamos?

Dados recentes mostram que essa epidemia é muito pior do que as informações veiculadas pela mídia. A China vem sendo constantemente acusada de ocultar informações e de não divulgar os números corretos de mortos e infectados. Para piorar, a transmissão pode acontecer antes de uma pessoa portadora do vírus apresentar sintomas, o que dificulta drasticamente acompanhar o paradeiro da doença. O suposto número de infectados não justifica diversas ações tomadas pelo governo chinês e dezenas de pessoas já divulgaram imagens de pilhas de corpos amontoadas perto de pacientes em péssimas condições, o que contraria a ideia de que a China está lidando com o problema com facilidade. Diversos vídeos foram censurados pelo governo do país e pessoas foram presas por “falar demais e criar pânico” sobre o tema. O primeiro médico que alertou o governo chinês sobre a doença foi preso, com a justificativa  de que ele estava provocando medo na população. Ontem, dia 06/02/2020, ele morreu devido à doença. O professor Neil Ferguson, especialista em epidemias pela Universidade de Londres, estima que mais de 50 mil pessoas estão sendo infectadas na China diariamente, o que contraria os 3.800 novos casos diários divulgados pelo governo. Se o número de novas infecções e de casos graves fosse realmente baixo, por que o governo chinês construiria um hospital em apenas dez dias e colocaria 60 milhões de pessoas em quarentena?

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Hospital na província de Hubei, na China – Fotógrafo desconhecido

É verdade que o 2019-nCoV pode ser uma arma biológica?

Como toda nova epidemia, surgem também especulações fantasiosas de sua origem. Não existem evidências científicas que apontem para isso e suas características moleculares indicam que esse vírus veio de animais selvagens.

O Coronavírus tem chance de acabar com a humanidade?

Como toda nova grande epidemia que surge no planeta, centenas de pessoas se desesperam e propagam mensagens alarmistas, que, na prática, mais atrapalham que ajudam na contenção de doenças. Nossa espécie já vivenciou centenas de pandemias e, em várias  delas, milhões de pessoas foram mortas. Entretanto, a medicina moderna, a evolução da compreensão de doenças e os métodos de contenção de epidemias tornam esse cenário extremamente improvável.

Uma vacina para o 2019-nCoV está sendo criada?

Sim! Equipes médicas do mundo todo batalham em conjunto para conceber maneiras efetivas de imunizar a população contra o vírus, mas métodos efetivos ainda podem levar meses.

Então, devemos nos preocupar?

Com certeza. Entretanto, preocupação não é sinônimo de pânico. Devemos, sim, ter atenção a esse novo patógeno, que se espalha em uma velocidade assustadora e, para contê-lo, governos do mundo todo estão tomando as medidas necessárias. Pode ser apenas uma questão de tempo até o 2019-nCoV chegar ao Brasil e a melhor forma de prevenção é o conhecimento.

Felizmente, as formas de nos protegermos do novo coronavírus valem para centenas de outras doenças e, portanto, devem ser implementadas no nosso dia-a-dia, mesmo sem a presença desse microrganismo no país. Em média, tocamos no nosso rosto 5 vezes por minuto. Por esse motivo, é importante lavar as mãos regularmente e utilizar álcool em gel quando necessário. Devemos evitar compartilhar garrafas de água e outros objetos de uso pessoal que podem servir como uma via de infecção para doenças.

Por fim, vale lembrar que, por mais que o coronavírus seja preocupante, diversas outras doenças também são. Além da gripe comum e da febre amarela, o sarampo, a difteria, a rubéola e a poliomelite possuem muito mais chance de nos infectar mas, ao contrário do 2019-nCoV, podem ser facilmente evitadas pela prática da vacinação, que vem diminuindo drasticamente no Brasil. Outras doenças, como a AIDS e a sífilis, também vêm sendo negligenciadas por falta de proteção, e voltaram a crescer no Brasil pela primeira vez em décadas.

Devo usar máscaras?

Não! As máscaras convencionais são feitas para que gotículas de saliva não voem da sua boca, devendo ser utilizadas por profissionais da saúde ou por quem está com alguma doença infecciosa. Além delas não serem adequadas para a prevenção, a procura excessiva na China fez com que infectados e médicos não conseguissem adquirir as máscaras, o que contribuiu para disseminar a doença.

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O uso de máscaras faciais não é recomendado pela OMS

O que fazer se eu contrair Coronavírus?

Caso você tenha ido ou entrado em contato com quem esteve na China e apresente os sintomas, ligue e procure a unidade de saúde mais próxima. Por outro lado, se nos próximos meses essa doença se tornar uma pandemia e você contrair o 2019-nCoV, fique em casa!  A melhor maneira de combater essa doença é em casa, com os medicamentos apropriados (que, se for o caso, serão informados pelo governo brasileiro na época). Caso a doença se agrave, busque o hospital mais próximo mas avise antes de ir.

Conclusão

No momento, a maior ameaça à humanidade é a desinformação. Preocupar-se com o novo coronavírus é importante, mas não devemos esquecer das outras tantas doenças que estão sendo negligenciadas pela população e que são uma ameaça ainda maior. Não há motivo para pânico e, assim como em outros momentos de nossa história, trabalharemos juntos para a contenção dessa epidemia.

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Descubra também como doenças do passado podem voltar a ameaçar a humanidade

Referências

https://www.bbc.com/portuguese/internacional-51341831

https://wuflu.live/

https://gisanddata.maps.arcgis.com/apps/opsdashboard/index.html#/bda7594740fd40299423467b48e9ecf6

https://www.sciencealert.com/snakes-are-the-likely-source-of-china-s-deadly-coronavirus-here-s-why

Orientações sobre novo Coronavírus (2019 nCoV ) e suas possíveis implicações

https://veja.abril.com.br/mundo/medico-que-alertou-para-coronavirus-antes-de-epidemia-esta-em-estado-grave/

https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2020/02/coronavirus-ja-e-a-epidemia-mais-cara-dos-ultimos-20-anos-diz-estudo.shtml

https://www.who.int/health-topics/coronavirus

https://www.aljazeera.com/news/2020/01/countries-confirmed-cases-coronavirus-200125070959786.html

http://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2018-07/saiba-quais-doencas-voltaram-ameacar-o-brasil

https://www.bbc.com/portuguese/internacional-51390691

https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2020/02/07/pangolim-possivel-hospedeiro-intermediario-do-coronavirus-dizem-cientistas-chineses.ghtml

https://www.cdc.gov/coronavirus/2019-ncov/about/transmission.html

Chinese towns and villages barricade roads to stop coronavirus spread

https://www.nature.com/articles/d41586-020-00364-2

Austrália em Chamas – Parte 2 : Enchentes na África e sua relação

Esse artigo é continuação do Artigo “Austrália em Chamas – Parte 1: Uma ilha moldada pelo fogo.”. Caso você não tenha lido ainda, clique aqui.

Bem, sabemos bastante sobre os incêndios da Austrália e como as queimadas do passado moldaram a fauna e flora existentes hoje no continente. Mas como o fogo na Austrália se relaciona com alagamentos que têm ocorrido em outras partes do mundo?

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As queimadas recordes na Austrália foram incentivadas por fatores como relâmpagos, alguns casos de incêndio culposo e pelos ventos. Mas uma das principais razões pela situação ter se tornado tão extrema é a mesma razão pela qual houve o aumento de alagamentos no Leste Africano.

As queimadas na Austrália são uma parte natural do ecossistema do país. Há várias temporadas de queimadas em diversas regiões. Em 1974, os incêndios queimaram 3.5 milhões de hectares e, em 2003, outros 2 milhões de hectares. Mas a queimada que se iniciou em 2019 é ainda pior: 4.9 milhões de hectares, podendo piorar. O mundo todo está vivendo as consequências das mudanças climáticas, mas a Austrália tem sofrido ainda mais. O ano de 2019 foi o mais quente já registrado no país com regiões atingindo 45 graus Celsius em dezembro. Esse mesmo ano foi também o mais seco, o que produz a condição ideal para alastrar o fogo.

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Séries temporais de anomalias na temperatura da superfície do mar e temperatura sobre o solo na região australiana. Anomalias são as partidas do período climatológico médio de 1961 a 1990. FONTE: State of the Climate, 2016. Bureau of Meteorology e CSIRO

Mas como o aquecimento da superfície oceânica influencia nesses fatores? O aquecimento global está “sobrecarregando” um mecanismo climático cada vez mais perigoso no Oceano Índico, que teve um papel importante em desastres este ano, incluindo incêndios na Austrália e inundações na África. Cientistas e autoridades humanitárias dizem que o recorde do Dipolo no Oceano Índico (DOI) nesse ano, como é conhecido o fenômeno, ameaça reaparecer com mais regularidade e de forma mais extrema à medida que a temperatura da superfície do mar aumenta.

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DOI positivo Fonte: BBC

As temperaturas na parte oriental do oceano oscilam entre quente e frio em comparação com a parte ocidental, passando por fases denominadas “positiva”, “neutra” e “negativa”. A fase positiva do dipolo neste ano – a mais forte em seis décadas – é gerada por temperaturas mais quentes do mar na região oeste do Oceano Índico, e o oposto no leste. O resultado desse dipolo positivo incomumente forte este ano (+2,06 ° C) foram chuvas e inundações acima da média na África oriental e secas no sudeste da Ásia e na Austrália.

Na Somália, no final de 2019, rios que transbordam inundaram comunidades, deslocando 370.000 pessoas e destruindo fazendas. As inundações mataram pelo menos 17 pessoas por lá, segundo informações das Nações Unidas. A vizinha Etiópia teve mais de 200.000 pessoas deslocadas. No Quênia, pelo menos 17.000 foram expulsas de suas casas e 48 pessoas morreram. No momento, o oeste do Oceano Índico está mais quente que o normal. Os pesquisadores dizem que o aumento da evaporação do oceano sopra sobre o Chifre da África e cai como chuva. [Chifre da África, também conhecido como Sudeste Africano e algumas vezes como Península Somali.]

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Passageiros de veículos retidos ficam ao lado dos destroços das águas da enchente, na estrada de Kapenguria, no condado de West Pokot, no oeste do Quênia.

A temperatura média global da superfície do mar aumentou aproximadamente 0,13 graus Celsius por década nos últimos 100 anos, diz a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA. O oceano absorveu mais de 93% do excesso de calor proveniente das emissões de gases de efeito estufa desde a década de 1970, segundo um relatório de 2013 do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas. O Quênia está passando por uma estação chuvosa acima do normal, disse à Agência de Notícias Reuters o vice-diretor do Departamento de Meteorologia do Quênia, Bernard Chanzu: “Os extremos estão se tornando mais pronunciados do que antes”. “Podemos atribuir isso à mudança da atmosfera global, como o aquecimento global“, completou ele.

Caroline Ummenhofer, cientista da Woods Hole Oceanographic Institution, em Massachusetts, que tem sido uma figura-chave nos esforços para entender a importância do dipolo, disse que fatores únicos estão em jogo no Oceano Índico em comparação com outras regiões tropicais. Embora as correntes oceânicas e os ventos no Atlântico e no Pacífico possam dispersar a água do aquecimento, a grande massa de terra asiática ao norte do Oceano Índico o torna particularmente suscetível à retenção de calor. “É bem diferente dos eventos tropicais do Atlântico e do Pacífico tropical.”

Pesquisas recentes sugerem que o calor do oceano aumentou dramaticamente na última década, levando ao potencial do aquecimento da água no Oceano Índico para afetar as monções indianas, um dos padrões climáticos mais importantes do mundo. “Houve pesquisas sugerindo que os eventos de dipolo no Oceano Índico se tornaram mais comuns com o aquecimento nos últimos 50 anos, com modelos climáticos sugerindo uma tendência para que esses eventos se tornem mais frequentes e mais fortes”, disse Ummenhofer.

Em sua entrevista ao jornal The Guardian, a cientista disse que o aquecimento parece ser um mecanismo de “sobrecarga” já existente em segundo plano.

“O Oceano Índico é particularmente sensível a um mundo em aquecimento. É o canário na mina de carvão que vê grandes mudanças antes que cheguem a outras áreas do oceano tropical.”

[No século XIX, era comum entre trabalhadores das minas de carvão a prática de monitorar o nível de gases tóxicos usando canários. Os pobrezinhos eram os primeiros a morrer, sinalizando o momento em que os mineiros deveriam deixar a mina.]

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A natureza tem apresentado sinais cada vez mais fortes.  A forma que geramos energia e os nossos meios de produção precisam ser alterados. As mudanças desconhecem as barreiras governamentais. A migração de vítimas do aquecimento global já é uma realidade. A pergunta que fica é: quantos canários precisarão morrer para que o mundo enxergue o perigo iminente?

 

 

 

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Referências: 

Artigo “A dipole mode in the tropical Indian Ocean. Nature” – Saji, N., Goswami, B., Vinayachandran

“Indian Ocean Dipole Climate System” – Peter Beaumont e Graham Readfearn, em reportagem do The Guardian

Site Climate Change in Australia : https://www.climatechangeinaustralia.gov.au/en/

Bureau of Meteorology

Why Australia’s fires are linked to floods in Africa – Vox

 

Austrália em Chamas – Parte 1: Uma ilha moldada pelo fogo

Nos últimos meses, a Austrália sofreu com os maiores incêndios registados de sua história. No total, o fogo consumiu mais de 110.000 km² (uma área maior do que o estado de Santa Catarina), destruindo mais de duas mil casas e matando 32 pessoas até o momento. Mais de um bilhão de animais morreram em meio às chamas e, para 327 espécies, esse pode ser o fim, uma vez que mais de 80% de seu habitat foi completamente destruído. No dia do lançamento desse texto (24/01/2019), 120 focos de queimadas ainda destroem o país. Embora essa onda de incêndios tenha sido a mais destrutiva dos últimos anos, o fogo tem um papel crucial para alguns ecossistemas australianos. Além disso, ele moldou a história biogeográfica do país e foi responsável por permitir que nossa espécie sobrevivesse em meio a predadores gigantes, que já não existem mais. Na primeira parte dessa série, descubra como o fogo construiu a Austrália que conhecemos.

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Fogo em New South Wales, no dia 10 de janeiro. Foto por: Matthew Abbott

Esse enorme país está situado na menor área continental do planeta, que se isolou de outros continentes há cerca de 45 milhões de anos. Eventos de vicariância (quando os animais surgem e permanecem em um determinado ambiente após o seu isolamento) e de colonização da ilha por outros grupos de animais fizeram com que essa região possuísse uma fauna muito diferente do resto do mundo, composta principalmente por grandes aves, marsupiais gigantes e répteis vorazes. E assim esse ambiente permaneceu isolado até que uma redução drástica no nível do mar, durante o Pleistoceno, permitiu que a nossa espécie migrasse até a ilha em embarcações através do sudeste asiático, há cerca de 65.000 anos.

Figure 32.1. Map of Sahul showing sites, localities and regions mentioned in text. Site names are abbreviated: BB = Bobongara, BK = Buka, BM = Buang Merabak, CS = Cuddie Springs, MB = Matenbek, MK = Matenkupkum, MM = Mandu Mandu.
Mapa da Austrália e sudeste asiático durante o Pleistoceno – Por J. O’connell

Ao chegar nesse novo continente, o ser humano se deparou com cenas nunca vistas antes em sua história. Crocodilos corriam em quatro patas, longe da água, atrás de grandes herbívoros do tamanho de rinocerontes, que guardavam seus filhotes em bolsas. Lagartos venenosos de 8 metros espreitavam as aves mais altas que nossa espécie já havia encontrado, enquanto estranhos animais carnívoros caçavam grandes animais saltadores com suas grandes unhas. Embora não existam grandes registros desses encontros iniciais entre nossa espécie e a fauna dessa terra alienígena, esses organismos cativaram a imaginação dos primeiros povos australianos, que representaram esses gigantes em sua arte e em sua cultura.

Exemplos da megafauna australiana – Por Peter Trusler
An illustration of the extinct Quinkana fortirostrum
Quinkana, um crocodilo terrícola australiano e marsupiais gigantes ao fundo – Por Roman Uchytel
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Thylacoleo caçando um canguru-gigante – Por Maurício Antón
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Megalania (Varanus priscus) caçando ave gigante (Bullockornis) – Por Peter Trusler

 

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Inicialmente limitados à parte norte dessa ilha, os seres humanos começaram a migrar para seu interior há 47.000 anos. Entre 45.000 e 43.100 anos atrás, a Austrália sofreu um rápido declínio de toda sua megafauna, em um processo muito similar a outras extinções do Pleistoceno/Holoceno, já mencionadas em textos anteriores. Enquanto a caça direta foi a principal causa dessa extinção em outros continentes, o modo da expansão humana foi o que causou a extinção de quase 85% da megafauna da Australásia.

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 Alguns exemplos da megafauna extinta (preto) e atual (verde) da Austrália – Stuart (2015)

Quando os humanos chegaram no continente, a Austrália era amplamente florestada. Embora a porção norte da ilha, ainda hoje, seja composta por grandes florestas tropicais úmidas, o interior da ilha mudou drasticamente com nossa presença. Enormes florestas tropicais secas e savanas estendiam-se pelas áreas mais centrais do local, com um grande deserto em seu centro. Mesmo que esses ambientes possuam um ciclo de queimadas, que muitas vezes contribuem para a saúde e manutenção do bioma, a expansão humana foi marcada por incêndios em larga escala. Florestas eram incendiadas para abrir espaço para moradias e para a migração humana, mas, principalmente, para caçar. Ao iniciar um incêndio, pessoas se posicionavam em áreas estratégicas para capturar animais que fugissem das chamas e, ocasionalmente, também coletavam animais assados pelo fogo.

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Canguru fugindo de incêndio – Fonte: news.com.au

Embora essa técnica sofisticada de caça pareça uma inovação humana, ela já era utilizada por outros animais da Austrália há milhares de anos. Os chamados “firehawks” (ou gaviões de fogo, em tradução livre) são aves de rapina australianas, das espécies  Milvus migrans, Haliastur sphenurus e Falco berigora, que aproveitam os incêndios existentes para perseguir pequenos animais em fuga. Se poucos animais estão fugindo daquele incêndio, esses gaviões pegam galhos em brasa e jogam em uma outra área, iniciando uma nova queimada. Entretanto, ao aproveitar brasas de incêndios pré-existentes, essas aves não alteram o ciclo natural do fogo. A nossa espécie, por outro lado, conseguia criar novos incêndios ao longo de todo ano, mesmo nas épocas em que, naturalmente, a floresta não pegaria fogo. Dessa forma, a floresta seca no interior foi sendo substituída por gramíneas e desertos, enquanto a porção sul da Austrália teve um aumento considerável de matas de eucalipto, mais resistentes ao fogo que as florestas que antes existiam ali.

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“Firehawks” iniciando novo foco de incêndio – Por Bob Gosford

Enquanto mais de 85% da megafauna australiana desapareceu completamente  devido aos incêndios, outras espécies, como o diabo-da-tasmânia (Sarcophilus harrisii), foram extintas apenas na Austrália continental, mas sobreviveram em ilhas menores que foram colonizadas mais tardiamente pelo homem. Mas o que a extinção desses animais tem haver com o fogo que queima o país nos dias de hoje?

O diabo da tasmânia é um marsupial em risco de extinção, e seu leite pode ajudar no combate a bactérias resistentes a medicamentos Foto: GREG WOOD / AFP
Extinto na Austrália continental, o diabo-da-tasmânia (Sarcophilus harrisii) ainda vive em pequenas ilhas do país – Foto por Greg Wood

Dentre os diversos papeis executados por grandes animais herbívoros em seu ambiente, um dos principais é o consumo de vegetação. Ao se alimentarem de diversos tipos de plantas em diferentes locais, esses animais contribuem para a redução de ervas na floresta, diminuem a densidade de plantas e colaboram para a heterogeneidade da vegetação. Além disso, criam trilhas, evitam o acúmulo de plantas mortas no solo e dispersam sementes, o que ajuda na manutenção das florestas. O fim da megafauna cria um acúmulo de matéria vegetal no solo e aumenta a densidade de plantas, com destaque para arbustos e gramíneas, o que torna o ambiente muito mais inflamável. Além de um maior número de incêndios, o aumento do combustível os torna muito mais quentes, duradouros e destrutivos, criando um ciclo vicioso, cuja tendência é só piorar.

People were evacuated from the coastal town of Mallacoota by the Royal Australian Navy on Friday.
Pessoas sendo evacuadas na costa australiana – Por Royal Australian Navy

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Em resumo, no passado tornamos a Austrália muito mais seca e demasiadamente mais inflamável. No presente, estamos contribuindo ainda mais para esse cenário.

Descubra como impactamos o clima e aceleramos esse processo na semana que vem, na segunda parte dessa série de textos!

Referências

https://theconversation.com/did-fire-kill-off-australias-megafauna-19679

https://www.nature.com/articles/ncomms14142

https://www.pnas.org/content/113/4/838

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2684593/

https://royalsocietypublishing.org/doi/10.1098/rstb.2017.0443

https://www.ft.com/content/c068339e-3c55-11ea-b232-000f4477fbca

https://veja.abril.com.br/mundo/incendios-na-australia-ameacam-327-especies-de-plantas-e-animais/

https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2020/01/entenda-por-que-os-incendios-na-australia-sao-tao-graves.shtml

This is why Aussie ‘firehawk’ raptors are spreading bushfires

https://www.nature.com/articles/d41586-020-00173-7

 

A Explosão do Cambriano – Como a vida se diversificou em poucos milhões de anos

Há muito tempo, é do interesse humano descobrir como surgiu toda a diversidade de formas de vida que povoam o nosso planeta. E, com esse propósito, criamos diversas hipóteses para que essa diversidade fizesse sentido, hipóteses essas que vão desde os criacionismos mais mirabolantes para nossa visão atual, até hipóteses científicas modernas e com um forte respaldo em evidências – como as teorias da evolução biológica. Um fato curioso que os estudiosos da evolução biológica encontraram ao longo dos seus estudos foi o surgimento, relativamente rápido, de quase todos os principais grupos de animais viventes e extintos. Esse período de surgimento ficou conhecido como a “explosão do Cambriano”.

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Alguns grupos que surgiram durante o Cambriano – Por Sam Falconer

O Cambriano foi o primeiro período da era Paleozoica, já abordado no primeiro capítulo de nossa jornada pelo passado, a A Teoria de Tudo que está Vivo – Parte I – Do gênesis ao apocalipse . Compreendido entre cerca de 542 e 490 milhões de anos atrás, foi um período de extrema riqueza biológica, e foi quando os primeiros fósseis de animais grandes e com corpo rígido, com conchas, peles endurecidas com calcário ou outros materiais duros (e, portanto, mais facilmente fossilizados), apareceram no registro geológico pela primeira vez. Mas o que exatamente levou a esse boom de formas de vida diferentes? E por que esse boom ocorreu justamente nesse período específico da história da Terra? E, além disso, por que nenhuma outra vez na história da Terra ocorreu um evento de diversificação dessa magnitude?

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Fauna do Cambriano – Por Plioart (Deviantart)

Problemas que dificultam significativamente o debate sobre como se deu a “explosão” do Cambriano são, por exemplo, a dificuldade de identificar corretamente os fósseis de animais oriundos desse período e dos precedentes. Muitos desses fósseis são pequenos em tamanho ou representam apenas parte de indivíduos maiores. Outros, especialmente antes do Cambriano, se resumem a marcas no sedimento, horizontais ou tridimensionais, ao longo das camadas solidificadas em rocha. Fósseis mais facilmente identificáveis aparecem em maior peso apenas em períodos subsequentes, indicando que a grande diversificação dos organismos deve ter ocorrido no Cambriano. Em suma, há um problema de representação dos organismos “intermediários” na evolução dos grupos de animais que surgiram no Cambriano, e portanto não podemos confiar tão cegamente no registro fóssil para traçar hipóteses acerca desse processo.

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Exemplos de fósseis do Cambriano – Fu et al., Science, 2019

Um fator a se levar em conta são as mudanças climáticas e ambientais que ocorreram entre esse período e o que o antecedeu, o Ediacariano, da era Pré-Cambriana. Há um tipo de argumentação que supõe que mudanças no ambiente teriam de ter ocorrido antes do evento de diversificação observado. Uma dessas mudanças anteriores pode ter sido a alteração da proporção de gases que compunham a atmosfera Cambriana, como, por exemplo, o aumento dos níveis de oxigênio, de que todos os animais necessitam. Outra linha argumentativa para a influência ambiental nesse período afirma que algumas mudanças significativas ocorreram ao mesmo tempo da diversificação, como  mudanças atmosféricas e da química da água, que teriam levado à extinção da biota anterior e “limpado” o caminho para a diversificação do Cambriano, com destaque para os processos conhecidos como Terra Bola de Neve, períodos em que praticamente todo o planeta ficou coberto por calotas polares.

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Fauna de Ediacara, extinta antes do Cambriano – Por Franz Anthony

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Outras hipóteses que tentam explicar o grande aumento em diversidade nesse período focam em aspectos ecológicos. O surgimento de novos nichos, isto é, de uma série de características reprodutivas, alimentícias e comportamentais dos animais, pode ter sido um fator importante. O papel de predador, potencialmente inaugurado no Cambriano, poderia ao mesmo tempo explicar, tanto a maior esqueletização (produção de conchas, espículas, e outras estruturas rígidas protetoras), quanto a ocupação de novos habitats, como a coluna d’água e, consequentemente, o aumento na diversidade de formas e adaptações dos animais. Explicações ecológicas também conseguem elucidar, embora não de maneira inteiramente satisfatória, porque o evento do Cambriano foi tão único.

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Predador se aproximando de um Opabinia desprevenido – Por @Prehistorica_CM (Twitter)

Ainda outra parte da explicação envolve o surgimento de mecanismos mais refinados que regulariam o desenvolvimento dos animais. Para que um animal complexo cresça, ele precisa ter o arcabouço genético que permita o seu correto desenvolvimento. Alguns complexos de genes, como por exemplo os genes Hox e o gene timman/NK2.5, genes que provavelmente surgiram no ancestral de vários dos grupos que se originaram durante a “explosão” do Cambriano, controlam  a formação de diversas estruturas durante o desenvolvimento desses animais, e permitiram que eles alcançassem uma diversidade de formas complexas muito maior do que em animais que têm um estado mais primitivo desses genes, ou mesmo a ausência deles, como é o caso dos corais e das esponjas, por exemplo.

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Os genes Hox são comuns à maior parte dos animais viventes e regulam o desenvolvimento desses organismos – Por Billie J Swalla

Adicionalmente, hoje existem métodos teóricos e computacionais que permitem testar uma série de combinações de hipóteses dentro desses três tipos principais de explicações. Conceitos matemáticos foram criados permitindo aos pesquisadores inferir que, dada uma maior gama de necessidades às quais um organismo deve estar adaptado, uma maior quantidade de formas e características podem ser selecionadas. Essa visão é uma das visões modernas que integram algumas das explicações ambientais, ecológicas e do desenvolvimento para modelar a rápida diversificação. 

É difícil mergulhar nessa complexa rede de evidências e hipóteses muito sólidas e não sair com mais dúvidas do que quando se entrou. O nosso conhecimento sobre as causas, condições e características da “explosão” do Cambriano é ainda muito limitado, e, como é comum na ciência, nada é definitivo. Novas evidências podem surgir e alterar tudo o que se pensava anteriormente, ou podem confirmar ou ressuscitar ideias já propostas e debatidas. E, à medida em que isso for acontecendo, teremos um entendimento cada vez melhor de uma das mais antigas perguntas da humanidade: “de onde viemos?”

 

Co-autoria de Pedro Henrique Tunes e Vítor Emídio de Mendonça

Imagem destacada por Grahame Baker Smith

 

Leia também:

A Teoria de Tudo que está Vivo – Parte I – Do gênesis ao apocalipse

A Teoria de Tudo que está Vivo – Parte II – A Era dos Répteis

A Teoria de Tudo que está Vivo – Parte III – O Reinado dos Mamíferos

Breve Histórico do Pensamento Evolutivo

 

Referências

 

MARSHALL, C. R. Explaining the Cambrian “Explosion” of Animals. Annual Review of Earth and Planetary Sciences. v. 34, p. 355–384. 2006.

MARSHALL, C. R., VALENTINE, J. W. The Importance of Preadapted Genomes in the Origin of the Animal Bodyplans and the Cambrian Explosion. Evolution. V. 64, n. 5, p. 1189-1201. 2010.

P. F. Hoffman; D. P. Schrag (2002). “The snowball Earth hypothesis: testing the limits of global change”. Terra Nova14 (3): 129–55.

Parker, Andrew (2003). In the blink of an eye: How vision kick-started the big bang of evolution. Sydney: Free Press. pp. 1–4

 

 

Precisamos falar sobre saneamento

Saneamento básico é um assunto não muito bem vindo em rodas de conversa e que nem sempre desperta o interesse que quem lê, porém tem importância única para o funcionamento de uma sociedade. Apesar de saneamento ser o conjunto dos serviços, infraestrutura de abastecimento de água, esgotamento sanitário, limpeza urbana, drenagem urbana, manejos de resíduos sólidos e de águas pluviais, vamos focar o texto na coleta e no tratamento dos esgotos.

Exatamente 150 anos atrás, um verão excepcionalmente quente tornou o rio Tâmisa, que flui por Londres, em um córrego repugnante. O grande fedor do rio era tão torturante que o Parlamento em Westminster mal conseguia se reunir. Os terrores da cólera eram relativamente novos. A doença apareceu na literatura européia em 1642, na descrição do médico holandês Jakob de Bondt. Acredita-se que os primeiros surtos no subcontinente indiano tenham sido resultado de más condições sanitárias.

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A figura à esquerda é a personificação da cólera, enfrentando resistência de um grupo de mulheres. Esta gravura do século XIX é de Barcelona.

Cheiros ruins são rotineiramente emanados em todo o mundo por rios  repletos de esgoto bruto. Os córregos são reduzidos a um gotejamento na estação seca. Hoje, investimentos públicos maciços são desesperadamente necessários para atender à 40% da população mundial: 2,3 bilhões de pessoas sem um meio adequado de lidar com seus dejetos diários.

Segundo Barros (2014), o primeiro indício de saneamento no Brasil ocorreu em 1561, quando Estácio de Sá mandou escavar no Rio de Janeiro o primeiro poço para abastecer a cidade. Em 1673, deu-se início ao primeiro aqueduto do País, que ficou pronto em 1723, transportando águas do rio Carioca em direção ao Chafariz. Atualmente o aqueduto é conhecido como os Arcos da Lapa. Em 1746, foram inauguradas linhas adutoras para os conventos de Santa Tereza, e na Luz, em São Paulo. Na capital paulista, o primeiro chafariz foi construído em 1744 e em 1842, havia cinco chafarizes na cidade. No período colonial, ações de saneamento eram feitas de forma individual, resumindo-se à drenagem de terrenos e instalação de chafarizes.

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Arcos da Lapa

No final do século XIX, ocorreu a organização dos serviços de saneamento e as províncias entregaram as concessões às companhias estrangeiras, principalmente inglesas. O Governo de São Paulo construiu o primeiro sistema de abastecimento de água encanada, entre 1857 e 1877, após assinar contrato com a empresa Achilles Martin D’Éstudens. Em Porto Alegre, o sistema de abastecimento de água encanada foi concluído em 1861, e no do Rio de Janeiro, em 1876, por Antônio Gabrielli. Com o uso do decantador Dortmund, o sistema do Rio de Janeiro tornou-se pioneiro na inauguração, em nível mundial, de uma Estação de Tratamento de Água (ETA), com seis filtros rápidos de pressão ar/água.

Com a péssima qualidade dos serviços prestados pelas companhias estrangeiras, o Brasil estatizou o serviço de saneamento no início do século XX. A partir dos anos 40, iniciou-se a comercialização dos serviços de saneamento. Surgiram, então, as autarquias e mecanismos de financiamento para o abastecimento de água, com influência do Serviço Especial de Saúde Pública (SESP), hoje denominada Fundação Nacional de Saúde (FUNASA).

Hoje,  2,3 bilhões de pessoas ainda vivem sem acesso a saneamento, dos quais 1 bilhão ainda praticam defecação a céu aberto. Mas porque falamos tão pouco sobre esse assunto que ainda é um problema? Os banheiros são algo em que raramente pensamos, a menos que precisemos desesperadamente de um. Pode parecer engraçado, mas os banheiros são o direito humano mais esquecido. Todos os anos, mais de 360.000 crianças morrem de doenças evitáveis ​​causadas por falta de saneamento. Para colocar as coisas em perspectiva, mais pessoas têm telefones celulares do que banheiros. Essa é a escala do problema.

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Nessa altura do texto, você provavelmente já está pensando: se esse é um problema tão grande, por que não ouvi nada sobre isso? A crise global de saneamento é uma “crise silenciosa” que causou mais baixas por doenças do que qualquer guerra. No entanto, permanece nas periferias da cobertura da mídia global e no desinteresse da atenção do público.

Três fatores principais ajudaram a prolongar a natureza silenciosa da crise:

  • A maioria das pessoas nos países desenvolvidos tem a sorte de usar o banheiro sempre que quiser, o que significa que não sente a necessidade de pensar ou falar sobre saneamento.
  • Saneamento não é algo atraente: em comparação com outras causas, como água, comida ou educação, os banheiros são vistos como uma atividade menos interessante e, portanto, recebem menos atenção e investimento.
  • O tabu do banheiro: muitas pessoas e culturas são muito tímidas ou envergonhadas para falar sobre banheiros, o que apenas perpetua a falta de atenção dada ao problema.

Em 2013, as Nações Unidas decidiram estabelecer o Dia Mundial do Toalete como um dia oficial de observação da ONU, criado para aumentar a conscientização e inspirar ações para enfrentar a crise global de saneamento. As evidências mostram que investir em saneamento seguro é essencial para apoiar um ambiente saudável, o empoderamento das mulheres, a educação global e as economias mais fortes. Visto que o saneamento inseguro leva à disseminação de doenças transmitidas pela água, como cólera, diarreia, febre tifoide e disenteria.

Dois anos depois, a ONU estabeleceu os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, um plano para alcançar um futuro melhor e mais sustentável para todos. Os Objetivos abordam os desafios globais que enfrentamos, incluindo os relacionados à pobreza, desigualdade, clima, degradação ambiental, prosperidade, paz e justiça. A meta 6 exige água limpa e saneamento para todos, uma vez que a pobreza extrema e a falta de saneamento estão estatisticamente ligadas. Portanto, alcançar o acesso universal a um banheiro seguro é fundamental para eliminar a pobreza. Atualmente, o mundo não está no caminho de alcançar o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 6 (ODS 6) sobre Água e Saneamento no prazo estabelecido para 2030, de acordo com um novo relatório da ONU. A menos que mudemos as coisas e comecemos verdadeiramente a fazer algo sobre o assunto.

Você sabia? Desde o dia 1 de janeiro até a data desse artigo foram despejadas 2.112.637 piscinas olímpicas de esgoto na natureza.

 

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Pensando nisso, Bill Gates e Melinda Gates criaram projetos para chamar atenção para a necessidade de banheiros sanitários fora da rede de esgotamento, que possam remover subprodutos nocivos do dejeto humano, o que ajuda a impedir a propagação de doenças entre os dois bilhões de pessoas que não têm acesso ao saneamento básico. A exposição Reinvent the Toilet, que partiu de uma iniciativa da Fundação Bill e Melinda Gates, contou com 20 designs de banheiros desenvolvidos por empresas de todo o mundo, a maioria dos quais usou engenharia inteligente para separar resíduos sólidos e líquidos com segurança e sem odor.

Como esses banheiros funcionam? Como um banheiro autônomo, que mata patógenos , é inodoro e está a quilômetros de distância do encanamento de esgoto é diferente de um banheiro comum? Um dos principais projetos que supostamente tem o apoio da Gates Foundation foi desenvolvido por cientistas e engenheiros da Cranfield University e ganhou dois prêmios importantes no International Water Association Product Innovation Awards 2018 em Tóquio, em setembro de 2018. Chama-se Nano Membrane Toilet e usa uma brilhante série de engrenagens, parafusos e câmaras de retenção para separar, limpar e armazenar resíduos.

Ao ser perguntado sobre o motivo em investir em saneamento básico, Bill Gates respondeu à BBC:

“Nos países ricos, temos esgotos que absorvem água limpa e expelem parte da água suja; em quase todos os casos há uma estação de tratamento”, disse ele. “Como temos novas cidades com muitas pessoas de baixa renda, esses esgotos não foram construídos e, de fato, não é provável que algum dia sejam, então a questão é: você poderia fazê-lo? É possível processar resíduos humanos sem sistema de esgoto? “

A fundação disse esperar que o banheiro reinventado seja lançado em escolas e apartamentos, até que os custos diminuam gradualmente e se tornem acessíveis nas residências.

E completou: “Você está economizando todos os custos das águas e dos produtos de processamento, mas temos que reduzir em quase um fator de 10 vezes o valor dos novos vasos sanitários, o que não é atípico para novos mercados de produtos”.

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Ou seja, um dos homens mais ricos do mundo já percebeu a importância do saneamento básico, não somente para a saúde humana, como também para o meio ambiente, para o desenvolvimento e para a qualidade de vida. O saneamento deve ser discutido e cobrado dos governantes, já que é um direto adquirido. E não podemos ignorar um tema tão importante!

 

 

Veja Também :

ODS – Parte I – Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (1 ao 9)

Iraque: Tigre e Eufrates estão morrendo

A ecologia urbana e seus estudos

 

Referências: 

A história do saneamento básico no Brasil – Rodrigo Barros

BBC Londres

Gates Fundation

Trata Brasil: saneamento é saúde

 

Jardineiros do Passado: Como os seres humanos da pré-história criaram florestas e salvaram árvores da extinção

Quando falamos de impactos humanos no planeta, logo pensamos em destruição. Seja por meio da caça, pesca, poluição ou desmatamento, os humanos do passado alteraram drasticamente diversos ecossistemas por todo planeta, criando ondas de extinção que varreram ecossistemas inteiros. As grandes savanas brasileiras não são as mesmas sem mais de 80% de sua megafauna, que desapareceu há 12 mil anos. A Austrália, antes rica em animais colossais, agora é lar para pequenas espécies em sua maioria, que rapidamente rumam para a extinção. As grandes estepes da Rússia deixaram de ter vida após a extinção de seus grandes animais. Criamos desertos, secamos rios e mares e, em alguns lugares, causamos tantos danos que não conseguimos mais sobreviver.

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O Mar de Aral é considerado uma das maiores tragédias ambientais do planeta – Fotógrafo desconhecido

Mesmo podendo causar tantos problemas, também somos ótimos em criar novos ambientes. Os animais úteis para nossa sobrevivência se espalharam por todos os continentes habitáveis, assim como nossas plantas cultiváveis dominaram estepes e pradarias e, juntos, alteraram os ecossistemas nos quais foram inseridos. O que pouca gente sabe, entretanto, foi o impacto positivo que tivemos na dispersão de algumas plantas nativas e, como exemplo para entendermos melhor esse processo, não existe país melhor do que o Brasil.

Primeiramente, gostaria de citar o exemplo de duas plantas famosas que quase extinguimos, mas também que fomos responsáveis pelo seu sucesso: o pequizeiro (Caryocar brasiliense) e o abacateiro (Persea americana). Durante os eventos de extinção do Holoceno nas Américas, ocasionamos o desaparecimento de grande parte da megafauna desses continentes. A América do Sul, por sua vez, é o continente com a maior diversidade de árvores com grandes sementes que, consequentemente, necessitam ser dispersadas por grandes animais. Extinguimos preguiças-gigantes, toxodontes e elefantes e, consequentemente, destruímos redes de interações complexas. Sem seus dispersores, muitas espécies de árvores provavelmente também foram extintas ou extirpadas, em um processo conhecido como co-extinção.

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Alguns exemplos de dispersores de grandes sementes da América do Sul – Stegomastodon waringi, Catonyx cuvieri e Eremotherium laurillardi – Por Peter Schouten

Entretanto, nem tudo estava perdido para as árvores que mencionei anteriormente. Preguiças podiam adorar o corpo carnoso e gorduroso dos frutos do abacateiro mas, felizmente para ele, os seres humanos primitivos adoravam também. O abacate, antes restrito a uma pequena região do México, teve sua área expandida milhares de quilômetros em poucos mil anos, em um processo que foi apenas recentemente compreendido. Os povos mesoamericanos começaram a consumir abacate há pelo menos 18 mil anos e, por onde iam, levavam (provavelmente ainda de forma não intencional) essa saborosa fruta. As primeiras grandes plantações de abacate  conhecidas foram realizadas pelo povo Mokaya, no México, há 3500 anos e, menos de 300 anos depois, o cultivo da planta já tinha chegado até o Peru e o Brasil. Os olmecas e os maias utilizavam a planta como fonte de renda, transportando e vendendo em outras regiões e, atualmente, o abacate é encontrado na natureza por toda a América Latina.

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Variedade selvagem do abacate – Por Jen Geacone-Cruz
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O abacateiro é facilmente encontrado por toda América do Sul – Foto de Bruno Navez

 

 

 

O pequizeiro, por outro lado, não possui uma história tão conhecida. Assim como o abacateiro, era dispersado por animais que já não existem mais. Entretanto, como essa planta ainda existe? Os poucos estudos sobre o assunto apontam que, sem dúvidas, o desaparecimento da megafauna impactou de forma significativa a distribuição da planta e, atualmente, o pequizeiro é considerado ameaçado pela IUCN (International Union for Conservation of Nature). Entretanto, indícios apontam que a sobrevivência da fruta também está ligada com nossa espécie, uma ótima notícia para as abelhas e morcegos que se alimentam de seu néctar (e para aqueles que, assim como eu, adoram essa  fruta com cheiro e gosto forte!)

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O pequizeiro, sua flor e seus frutos –  Retirado do site Guia Ecológico

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divide o país em nove principais biomas: Caatinga, Campos, Cerrado, Floresta Amazônica, Mata Atlântica, Mata de Araucária, Mata de Cocais, Pantanal e Zonas Litorâneas. Embora prática, essa divisão não representa os biomas naturais do país, uma vez que dois deles foram, ao menos em parte, criados por nossa espécie.

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Biomas brasileiros segundo o IBGE

A Mata de Cocais é um ambiente transicional, situado entre a Caatinga, Cerrado e Amazônia, nos estados do Maranhão, Piauí e em partes do  Ceará, Pará e Tocantins. Destaca-se pela alta densidade de cocais, sobretudo de babaçu (Attalea speciosa) e de macaúbas (Acrocomia aculeata). É um ambiente indispensável para as populações da região, devido a sua alta densidade de plantas comestíveis e de interesse econômico (a página da Wikipédia aponta que esse ambiente também possui: pequi, bacuri, mangaba, açaí, cajuí, araticum, macaúba, anajá, puçá, murici, guabiraba, tucum, araçá, pitomba, mangabeira, pente-de-macaco, todas de interesse econômico). Seria coincidência esse bioma ter tantas plantas comestíveis? Provavelmente não.

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Mata de cocais – Foto do site conhecimentocientifico

 

Estudos recentes apontam que regiões dentro da Amazônia se parecem muito com Matas de Cocais. Sempre ao redor de rios, com pouca diversidade vegetal mas com muitas plantas cultiváveis. Plantadas há centenas de anos para extração humana, essas áreas permanecem, ainda hoje, com essas mesmas características, e as matas do Maranhão não são diferentes. Anteriormente dominado por savanas com eventuais palmeiras, milhares de anos de plantios subsequentes de árvores com frutos comestíveis, realizados pelos povos Ka’apor, Guajá, Tembé e Guajajara, transformaram partes do estado em um gigantesco pomar, que ainda hoje garante sustento aos povos da região.

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Foto do site conhecimentocientifico

Por fim, não podia deixar de mencionar a história das araucárias. Essas grandes árvores da espécie Araucaria angustifolia estão no planeta há pelo menos 200 milhões de anos e dominavam as paisagens da Gondwana, continente do Hemisfério Sul que compreendia a América do Sul, Antártida, Índia, África e Austrália. Nos milhões de anos seguintes, foi extinta na maior parte de sua área de ocorrência original, mas ainda estava presente por toda a América do Sul, incluindo a Região Nordeste brasileira. Mudanças climáticas, sobretudo ao longo do Pleistoceno e início do Holoceno, as restringiram ao sul do continente e, progressivamente, rumaram à extinção. A pesquisadora Mariana Vasconcellos aponta que estudos arqueológicos mostraram que as primeiras populações indígenas que habitaram o Sul do Brasil se alimentavam do pinhão, há pelo menos 4,3 mil anos. Enquanto as araucárias da Mantiqueira e de outros ambientes mais ao norte apresentam características genéticas que demonstram uma população natural, as araucárias que compõem a famosa Mata de Araucárias apresentam uma baixíssima variabilidade genética em uma grande área geográfica, o que aponta que elas foram cultivadas. O arqueólogo Paulo DeBlasis ainda conta que o local a partir do qual a floresta se expandiu, entre 1.410 e 900 anos atrás, é exatamente onde as populações nativas se espalharam, o que mostra que a expansão das araucárias acompanhou a expansão humana. Infelizmente, a extração de madeira novamente ameaça a árvore e se não tomarmos cuidado, ela poderá desaparecer em breve. 

Fonte- Shutterstock

Esses são apenas alguns exemplos dos impactos positivos do ser humano para algumas espécies. Diversos povos, mesmo com tecnologias primitivas, foram capazes de salvar espécies da extinção (mesmo sem saber) e de criar florestas que já duram milhares de anos. Possuímos tecnologias avançadas e um conhecimento vasto sobre o mundo a nossa volta mas, mesmo assim, não agimos. Salvar nossas florestas e nossas árvores ameaçadas é um esforço simples e surpreendentemente barato, mas poucos têm esse interesse. Resta saber se o futuro nos reserva um mundo reflorestado ou se nosso impacto acabará com nossas florestas.

 

Referências

https://www.persee.fr/doc/hom_0439-4216_1993_num_33_126_369639

A araucária e a erosão genética que destrói a Mata Atlântica

https://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0001745

https://bioone.org/journals/Harvard-Papers-in-Botany/volume-12/issue-2/1043-4534(2007)12%5B325:TAPALC%5D2.0.CO;2/The-Avocado-Persea-Americana-Lauraceae-Crop-in-Mesoamerica–10000/10.3100/1043-4534(2007)12%5B325:TAPALC%5D2.0.CO;2.full?casa_token=MZaGrPY6EKQAAAAA%3a_E5s2ijon_p3o2PFm3WRvt2GAXmsNgjMo-tfDLksM1SHlKooM-P7lu-Kj_fNQAdwLYfFtDvEpQ

https://onlinelibrary.wiley.com/doi/epdf/10.1046/j.1365-2699.2003.00842.x

https://books.google.com.br/books?hl=pt-BR&lr=&id=ofKbPTg2r0wC&oi=fnd&pg=PR7&dq=Maranh%C3%A3o+Baba%C3%A7u+forests+prehistory&ots=0DEjnASxL3&sig=BNJZDv1SOyAAdu0CZnIiAQYz4yw#v=onepage&q&f=false

https://books.google.com.br/books?hl=pt-BR&lr=&id=Yn88DwAAQBAJ&oi=fnd&pg=PA265&dq=Maranh%C3%A3o+Baba%C3%A7u+forests+prehistory&ots=82XptfKbES&sig=M1MlaXyop0ChHBkKpTTiQv3V9as#v=onepage&q&f=false

https://www.persee.fr/doc/hom_0439-4216_1993_num_33_126_369639

https://pt.wikipedia.org/wiki/Mata_dos_cocais

https://www.unicamp.br/unicamp/ju/noticias/2019/07/23/dispersao-da-araucaria-na-mata-atlantica-foi-influenciada-por-povos-pre

Povos pré-colombianos podem ter evitado extinção da araucária

Como os seres humanos quebraram o ciclo essencial à vida?

O carbono é um elemento bastante abundante no planeta e é produzido, como a maioria dos elementos leves presentes no núcleo das estrelas, pela fusão nuclear de hidrogênio. O carbono na Terra e nos outros planetas vem de uma estrela que explodiu antes da formação do Sistema Solar. Durante a explosão da supernova, a matéria condensável formou nuvens de gás e poeira que se agregaram para formar planetas na nebulosa solar inicial. Como todos os elementos não radioativos, esse carbono inicial é permanentemente conservado e reciclado desde a formação da Terra, passando por diferentes ambientes e combinando-se com diferentes moléculas.

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Fonte: NASA

Esse material primitivo, constituído antes do aparecimento da Terra, chegou até nós quase intacto em alguns meteoritos chamados condritos carbonáceos que também são encontrados em cometas. Notavelmente, o carbono forma vários compostos químicos orgânicos elementares, como hidrocarbonetos, álcoois e aminoácidos. Planetas gigantes como Júpiter ou Saturno são compostos principalmente de hidrogênio (90%) e hélio (quase 10%), mas o carbono também está presente (0,1%) na forma de metano (CH4) ou outros hidrocarbonetos. (Saiba mais em A Teoria de Tudo que Está Vivo)

Em planetas rochosos como a Terra, as altas temperaturas durante sua formação levaram à separação dos elementos metálicos (ferro e níquel) que formam o núcleo dos silicatos menos densos que compõem o manto. Estima-se que o carbono tenha sido distribuído em proporções comparáveis ​​entre o núcleo e o manto. Neste último caso, o carbono puro, quando sujeito às altas pressões e temperaturas, cristaliza-se em diamantes: eles são encontrados na superfície de antigos tubos vulcânicos altamente ativos, onde o resfriamento rápido bloqueou qualquer alteração de estado. No entanto, o carbono está presente principalmente na forma de carbonatos, constituindo entre 0,003 e 0,03% da massa do manto. Durante erupções vulcânicas, é liberado na atmosfera como dióxido de carbono, CO2. Em Marte e Vênus, o vulcanismo também emite CO2, que é o principal componente da atmosfera desses planetas. O CO2 também foi um dos principais componentes da atmosfera da Terra antes do surgimento da fotossíntese, que liberava oxigênio ao fixar o carbono atmosférico como matéria orgânica.

Após o surgimento da fotossíntese, o planeta Terra passou a manter um elegante ciclo da vida. As plantas iniciam o ciclo capturando dióxido de carbono da atmosfera, então usam energia do sol para converter esse carbono em oxigênio e açúcar, os quais elas utilizam para crescer. Eventualmente, a planta morre, devolvendo o carbono para o sistema, ou então é consumida por outro organismo, que eventualmente também morrerá.

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Nos oceanos ocorre algo similar: os corais e os plânctons necessitam de carbono para sobreviver. A água do mar absorve carbono da atmosfera por meio das chuvas que caem sobre as rochas e minerais para chegar até o mar.q-u-i-0G01UI1MQhg-unsplash.jpg

Todos esses organismos são feitos de carbono e em algum momento esse carbono é devolvido ao solo pela morte desses seres vivos. O CO2 é permanentemente trocado entre a atmosfera e o oceano da superfície, por dissolução ou desgaseificação.

A desgaseificação é dominante nas regiões equatoriais, onde as águas profundas, ricas em carbono, sobem e aquecem. Já nas regiões polares predomina a dissolução, devido ao resfriamento das águas superficiais. Nas latitudes médias, as variações sazonais de temperatura controlam a direção das trocas. Os dois efeitos, dissolução e desgaseificação, são aproximadamente equilibrados. O fluxo mais importante está relacionado à fotossíntese da vegetação terrestre, capturando cerca de 100 GtC / ano, teoricamente capaz de extrair todo o CO2 da atmosfera em menos de uma década. Isso também é conhecido como produção primária, que fornece matéria orgânica para toda a vida da Terra. Esse fluxo é quase exatamente compensado pelas emissões de CO2 devido à respiração, incluindo a das próprias plantas e das bactérias que decompõem a matéria orgânica, além de incêndios naturais das grandes florestas.

markus-spiske-vqU47hNXGE0-unsplashMas o que ocorre com aquele carbono que ficaria preso ao solo? Bem, usualmente, quando um ser vivo morre, ele se decompõe e se transforma em um tipo de rocha. Eventualmente, essa rocha recebe grande pressão e calor, causando seu derretimento. Parte desse carbono poderá voltar à atmosfera por intermédio do vulcanismo para continuar o ciclo. Ocasionalmente, algumas plantas e animais não se transformam em rochas e não se decompõem rápido o suficiente, transformando-se  no famoso petróleo, gás natural ou carvão mineral. Esse carbono fica preso ao solo, fazendo com que o ciclo do carbono se mantenha em perfeita harmonia. O carbono na atmosfera mantém a temperatura perfeitamente estável para os seres aqui presentes.

Acredito que você não estaria lendo esse texto se não fosse para entender o que deu errado, não é mesmo? Acho que todos sabem que muito recentemente, na história da Terra, um de seus animais começou a cavar e retirar esse carbono retido na crosta terrestre. Esse carbono do petróleo voltou para a atmosfera em grande escala, em um período curto de tempo e, consequentemente, o ciclo harmonioso foi quebrado. O calor que normalmente poderia escapar ficou retido na atmosfera terrestre, causando um aquecimento de sua superfície.

Há quem diga que esse carbono que é retirado da terra não afeta em absolutamente nada o ciclo de carbono terrestre. Se você é uma dessas pessoas, devo lhe alertar que, muito recentemente, ou seja, a menos de dois anos atrás, mais de 100 cientistas renomados afirmaram que talvez tenhamos menos de 12 anos para frear um aquecimento desastroso. Esses animais inconsequentes que citei devem parar de emitir carbono na atmosfera e também de retirá-lo de lá. Existe uma máquina mágica chamada árvore que ao crescer absorve carbono. Porém, essa máquina só funcionaria se os animais inconsequentes não a cortassem ou a queimassem no decorrer do caminho. Uma outra maneira seria utilizar de mecanismos para que as plantas absorvam o carbono atmosférico de forma que possamos queimá-lo para produzir energia e, então, aprisionar as emissões de volta ao solo.

Os seres humanos estão causando o aquecimento do planeta Terra e 97% dos cientistas do clima, aqueles que mais estudam e entendem sobre o tema, concordam com essa afirmação. Bem, ainda que você não tenha se convencido, pare para imaginar as consequências se esses cientistas estiverem certos. Que mal teria em trocar combustíveis fósseis por energias mais limpas? Existem, sim, estudos contrários a essa teoria, mas lembre-se do quão grande é a industria do petróleo e quanto dinheiro está em jogo. Basta  parar para pensar um minuto: continuar com as altas emissões de carbono favorece a grande e bilionária indústria do petróleo, além de ir contra a grande maioria dos cientistas sérios e sem financiamento da indústria. Por outro lado, preservar o meio ambiente beneficia o mundo inteiro.

 

 

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Referências

IPCC, 2001

IPCC, 2007

 Vox 

Encyclopedie Environnement

 

 

 

 

Ecocídio – Como civilizações se destruíram ao destruir o ambiente à sua volta

Quando pensamos na destruição ambiental causada pelo ser humano, logo lembramos de extinção de espécies, desmatamento ou extinções em larga escala. O que muita gente não sabe, entretanto, é que a ação humana já foi responsável por alterar alguns ambientes em uma escala tão grande, que até mesmo a vida humana se tornou ameaçada. Em uma época que tanto falamos do futuro de nossa espécie, devemos analisar o passado para não cometer os mesmos erros. Porém, infelizmente estamos tomando o mesmo rumo dessas civilizações extintas pela destruição ambiental que elas mesmas causaram.

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A cidade de Petra, na Jordânia, é um exemplo de como a destruição ambiental pode levar à ruína de um povo – Foto por Olena Pavlovich

Em seu livro “O Poema Imperfeito”, anteriormente já mencionado nesse site, Fernando Fernandez cita três exemplos de crises ecológicas que destruíram civilizações no passado. Brilhantemente, ele conta como o povo Anasazi construiu o pueblo de Chaco Canyon, a maior construção das Américas até o final do século XIX, no meio do deserto do Novo México. Por muito tempo, cientistas se questionaram como, no ano 900, esse grupo indígena conseguiu erguer uma edificação de madeira que abrigaria 3 mil pessoas, no meio de um deserto, e porque, poucos anos depois, ela teria sido completamente abandonada. A árvore mais próxima estava a centenas de quilômetros e, mesmo assim, mais de 200 mil troncos foram usados em sua estrutura.

Digital reconstruction of the Chaco Canyon. (Saravask via wikimedia commons)
Pintura digital representando Chaco Canyon em seu ápice – a estrutura abrigava até 3 mil pessoas – Por Saravask

Quando paleobotânicos estudaram a madeira da construção, tiveram uma grande surpresa. A madeira utilizada tinha vindo dali mesmo! Antes uma floresta, a área teve a maior parte de suas árvores arrancadas, ou para a construção de Chaco Canyon, ou para abrir espaço para lavouras, ou para servir de combustível para fogueiras. Com o tempo, esses nativos americanos tiveram que ir cada vez mais longe para buscar madeira. A falta de cobertura vegetal gerou um intenso processo de desertificação e, consequentemente, assoreamento dos rios. Menos de 300 anos após o fim da construção, esse pueblo estava vazio. Ao chegarem na área pela primeira vez, os europeus se depararam com essa enorme estrutura e, por onde iam, perguntavam quem foram os responsáveis pela grandiosa obra. O povo Navajo se referia a eles como “anasazi“, que em sua língua significa “os antigos”. Nem mesmo eles sabiam para onde os Anasazi tinham ido mas, atualmente, cientistas acreditam que a maioria morreu de fome ou sede, e o restante deixou a região para nunca mais ser visto.

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Chaco Canyon se localiza hoje no meio de um grande deserto – Foto por D. Kennett

A região no Oriente Médio chamada de “Crescente Fértil” foi um dos berços da civilização humana, devido aos enormes avanços agrícolas feitos na área. Ao longo de milhares de anos, povos da Mesopotâmia surgiram e desapareceram, tendo construído enormes impérios como nenhum outro da época. Após mais de 5 mil anos de exploração, a área hoje é um grande deserto no qual nenhuma grande plantação pode existir sem o uso de tecnologias específicas. Da mesma forma, o Saara, antes uma enorme área verde, se desertificou rapidamente. Embora o ser humano não seja o único culpado, com certeza aceleramos drasticamente o processo em algumas áreas, o que gerou o fim de centenas de povos.

A Babilônia realmente existiu? Saiba a história do império citado na Bíblia
Representação do grande império da Babilônia (acima) em comparação com a mesma área atualmente (abaixo) – Foto por M. Lubinski

Sítio arqueológico da Babilônia, no Iraque

Entretanto, nenhum colapso ambiental causado pelo ser humano é tão intrigante quanto o da Ilha de Páscoa. Situada a 4.000 km da América do Sul, essa ilha vulcânica no Oceano Pacífico possui um clima ameno e, até pouco tempo atrás, possuía um solo extremamente fértil. Seu isolamento fez com que, ao longo de milhões de anos, diversas novas espécies surgissem no local, que contava com uma densa floresta, povoada com palmeiras gigantes, corujas, papagaios e saracuras. Por muito tempo, a ilha foi um ponto de nidificação de mais de 30 espécies de aves marinhas, mais do que qualquer outro local do planeta. Então, os seres humanos chegaram.

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Representação da Ilha de Páscoa antes da colonização humana – Por Andreas Mieth

Os povos Polinésios originaram-se na região de Taiwan, no Sudeste Asiático. Há cerca de 5 mil anos, começaram a migrar entre ilhas, utilizando inicialmente canoas rudimentares, que foram substituídas por longas canoas a vela que suportavam várias pessoas ao mesmo tempo. Ao longo de 4 mil anos, colonizaram a maior parte das ilhas do Pacífico, incluindo a Nova Zelândia, Samoa, Taiti, Havaí, Ilhas Cook e diversos arquipélagos menores. Por onde iam, levavam consigo porcos e, provavelmente de forma intencional, ratos, que foram responsáveis por diversas extinções nos locais em que chegavam.

Mapa da região da Polinésia – Por  K.R. Howe

Ao chegarem na Ilha de Páscoa, a quase 15 mil km de distância de sua terra original, os polinésios rapidamente começaram a alterar seu ambiente. Alimentavam-se principalmente de plantas nativas, porcos, ratos e animais marinhos, que pescavam utilizando técnicas sofisticadas. Centenas de árvores eram derrubadas anualmente para a construção de casas e, sobretudo, canoas. Chamados de Rapa nui, os habitantes da ilha ergueram grandes estátuas de pedra, chamadas de Moai, utilizando uma tecnologia sofisticada, ainda desconhecida. Em muitos casos, a cabeça é a única parte acima da superfície, mas um corpo de pedra existe enterrado abaixo. Cada estátua mede cerca de 20 metros e pesa mais de 15 toneladas. 

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Estátuas da Ilha de Páscoa – Fonte UCLA

Full Easter Island bodies

Por volta de 1200, a população da pequena ilha era de mais de 15 mil pessoas. Grandes áreas de floresta eram destruídas para a agricultura, enquanto árvores também eram derrubadas para construções. A população de ratos da ilha também crescia de forma significativa. Esses animais alimentavam-se de ovos de aves e de sementes das grandes palmeiras, o que reduziu drasticamente a diversidade da ilha. Rapidamente, as florestas começaram a desaparecer e, com elas, grande parte dos alimentos dos Rapa Nui também sumiam. Ondas de fome varreram a população da ilha e os habitantes, acreditando que isso fosse obra de deuses, construíram ainda mais estátuas para agradá-los. Para movê-las, mais árvores ainda eram derrubadas para a construção de plataformas de madeira.  No total, mais de 880 estátuas foram erguidas.

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Palmeiras gigantes da Ilha de Páscoa foram extintas por volta de 1600 – Rod6807 em wikiMedia

Com o fim das últimas florestas, novas canoas não podiam mais ser construídas, o que impossibilitou a pesca de grandes animais. A erosão rapidamente tomou conta da ilha, acabando com a agricultura e secando fontes de água. A fome tomou conta da população, que começou a lutar por comida. Aves marinhas rapidamente foram consumidas e, quando acabaram, o canibalismo se tornou a opção de muitos sobreviventes. Quando os Europeus chegaram na ilha, na páscoa de 1722, encontraram uma pequena população de nativos famintos. Uma grande sociedade com tecnologias sofisticadas chegava ao fim, devido a um apocalipse que eles mesmos criaram.

Fonte: gettyimages

A nossa noção de imutabilidade do mundo à nossa volta é extremamente danosa. Temos consciência de que nossos recursos são esgotáveis, mas preferimos fingir que sabemos, e, dessa forma, usamos o planeta de forma descontrolada. Muitas vezes no passado, acabamos com grandes ecossistemas e alteramos completamente a região em que vivíamos mas, pela primeira vez em nossa história, isso tem acontecido de forma global. Já eliminamos 83% das espécies de grande porte do nosso planeta e mais de 50% de nossas florestas. Criamos desertos, secamos mares e extinguimos até mesmo a ave mais comum do mundo. Se não alterarmos o nosso modo de vida rapidamente, deixaremos de presenciar, muito em breve, o fim de mais uma civilização: a nossa.

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Referências

https://archive.org/details/collapse00jare

LA Times, Easter Island has stone heads, but little else. What happened?, 20 June 2012.

Hogan, C. Michael. (2008). Chilean Wine Palm: Jubaea chilensis Archived 17 October 2012 at the Wayback Machine.

Steadman, David (2006). Extinction and Biogeography in Tropical Pacific Birds. University of Chicago Press.

https://www.discovermagazine.com/planet-earth/extinction-looms-for-easter-islands-only-remaining-native-species

https://rainforests.mongabay.com/09easter_island.htm

Saving Easter Island’s Last Native Species

 

A ecologia urbana e seus estudos

As pesquisas em ecologia tradicionalmente estudaram os ecossistemas em termos de sua biofísica, ecologia e processos evolutivos não afetados pela influência humana. Porém, os ecologistas perceberam, nas últimas décadas, a necessidade de se observar os sistemas como equilibrados, mas em certos aspectos dinâmicos e altamente sujeitos a distúrbios, principalmente ocasionados por populações humanas.

Os cientistas concluíram que os ecossistemas terrestres podem ser orientados por processos (em vez de pontos finais) e geralmente são regulados por forças externas (não apenas mecanismos internos). Surge, então, nestas últimas décadas, uma nova linha de pesquisa que reconhece o ser humano como componente dos ecossistemas: a ecologia urbana.

A estrutura e o funcionamento de cada ambiente urbano envolvem um conjunto de fatores, como as escolhas de cada agente (famílias, empresas e outras instituições) em seus usos e comportamentos e também agentes físicos, como a geomorfologia, que é a constituição e formato do solo local, bem como o clima. Esses componentes determinam os diferentes padrões de desenvolvimento e de uso dos recursos naturais existentes em cada região.

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Fonte: Jornal Brasil econômico.

Os ambientes terrestres apresentam distúrbios que podem interromper repentinamente a estrutura de um ecossistema, comunidade ou população e alterar o ambiente físico ou a disponibilidade de recursos. Esses fatores podem ter causas físicas e/ou biológicas e, geralmente, levam à morte ou à redução da abundância de uma espécie, que por sua vez pode favorecer outras espécies.

Os distúrbios naturais incluem fenômenos como tempestades e incêndios florestais. Porém, no ambiente urbano, vários outros distúrbios já vêm sendo estudados por ecologistas, como, por exemplo a remoção superior dos solos para a construção, que pode levar a uma redução de espécies.

Além de tudo isto, é importante dizer que os ecologistas urbanos estudam como as atividades urbanas afetam os rios, o ar, as florestas e outros remanescentes naturais presentes nas cidades. Eles avaliam o impacto do descarte irregular do lixo, da falta de saneamento básico, do desmatamento das áreas verdes, entre outros fatores.

A ecologia urbana tem um importante objeto de estudo, que é a interação entre a vegetação, os animais e os seres humanos em ambientes urbanos, e que ela pode, de diversas formas, contribuir para a sustentabilidade e a melhoria da qualidade de vida nos centros urbanos.

Desmatamento e uso exagerado dos recursos naturais

Um dos estudos da ecologia urbana se refere às consequências do desmatamento para o espaço urbano. Primeiro, é preciso entender que a urbanização é o processo em que a população urbana se torna maior que a da zona rural. No Brasil, com o surgimento das indústrias, as pessoas foram saindo das áreas rurais e indo para os centros urbanos devido às maiores oportunidades de emprego, educação e tratamentos médicos nas cidades.

Porém, as cidades não foram planejadas para comportar aquela quantidade enorme de pessoas que se deslocaram das áreas rurais. Dessa forma, é possível perceber que o crescimento das cidades ocorreu de forma desenfreada e desordenada. Com isso, áreas exorbitantes de vegetação foram retiradas para a construção das áreas urbanas. O sudeste, por exemplo, região com maior atividade industrial e onde a população urbana mais se concentrou, possui o seu bioma, a Mata Atlântica, devastada pelo desmatamento, sendo a urbanização umas das causas.

Segundo o Instituto Brasileiro de Floretas (IBF), atualmente, cerca de 90% da Mata Atlântica está completamente destruída em todo o território brasileiro e dos 10% que restaram, aproximadamente 7,5% pode ser totalmente extinta pelas atividades humanas.

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Imagens de satélite mostrando desmatamento no entorno de reserva entre 1985 e 2016 – Por National Geographic

O desequilíbrio ambiental causado pela urbanização pode afetar diretamente a população urbana. Estudos realizados indicam que, com a aproximação da área urbana com a área silvestre, o homem é infectado na região silvestre pelos mosquitos transmissores de doenças silvestres, como a febre amarela silvestre, e, quando retorna às cidades, leva tais doenças para o espaço urbano. Além disso, o desflorestamento, por promover a perda da biodiversidade, pode reduzir os predadores dos mosquitos, aumentando a sua população, e pode também diminuir as presas desses mosquitos vetores. Com isso, eles precisam migrar para outros locais em busca de uma nova fonte de alimento, como os humanos.

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Desmatamento na região Norte – Por Reuters

É importante ressaltar que os macacos não transmitem a febre amarela. Eles são hospedeiros, ou seja, são fonte de alimento desses vetores, assim como nós, e possuem um papel fundamental em alertar quando a doença está ocorrendo na região (esse assunto já foi abordado em outro texto, que você pode acessar aqui).

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Imagem por ARCA BRASIL

Segundo a Fiocruz, o último registro de febre amarela urbana, que tem o Aedes aegypti como inseto vetor, ocorreu na década de 40. Porém, a doença pode ser reurbanizada caso as pessoas infectadas na região silvestre se desloquem para os centros urbanos e sejam picadas pelo Aedes aegypti.

Além disso, o estudo realizado pelo IPEA revela que o desmatamento que ocorre na Amazônia também promove a proliferação de doenças epidêmicas, como a malária e a leishmaniose cutânea e visceral. De acordo com esse estudo, para cada 1% de desflorestamento na Amazônia, ocorre um aumento de 23% na ocorrência de malária e aproximadamente de 9% na ocorrência da leishmaniose no estado do Amazonas.

Portanto, é fundamental a conservação das matas, que protegem a biodiversidade e, além de serem essenciais para o equilíbrio do meio ambiente, também estão relacionadas com a saúde pública. No entanto, pesquisas mostram o aumento cada vez mais expressivo do desmatamento na Amazônia. Os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) apontam que, entre janeiro e setembro de 2019, houve um aumento de 92,7 % no desmatamento em relação ao mesmo período do ano anterior.

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Desmatamento em Apuí, no Amazonas, região em que fiscais do Ibama realizaram operação em 27 de junho. – Foto: Bruno Kelly/Reuters

Dessa forma, a criação de leis ambientais mais rígidas, assim como a participação ativa da população no combate ao desmatamento, são medidas indispensáveis para reverter esse quadro.

Ainda, o estudo da ecologia urbana também inclui o uso exagerado dos recursos naturais no país, que é um problema ambiental que persiste desde o descobrimento do Brasil. Os portugueses extraíram tão intensamente o pau-brasil, encontrado na Mata Atlântica, para a construção de móveis e outros objetos usados nas cidades, que essa madeira quase foi extinta, já que naquela época não havia preocupação com o replantio dessas árvores.

Por muitos anos a questão ambiental foi ignorada mundialmente. Apenas após o uso desenfreado dos recursos naturais devido à industrialização foi que a população percebeu os danos ambientais causados e a conservação do meio ambiente começou a ser discutida.

É notável que o consumo exagerado faz com que o homem utilize mais recursos naturais, como o solo, água, ar, florestas e minerais, do que a natureza é capaz de recuperar. Isso acontece porque a procura descontrolada por alimentos, bens e produtos pela sociedade aumenta a produção industrial.

Poluição atmosférica provocada pelas indústrias.
Uso exagerado dos recursos naturais pelas indústrias. Fonte: https://www.coladaweb.com/quimica/quimica-ambiental/impactos-ambientais-causados-pelas-industrias

De acordo com a WWF, organização de conservação global, a Pegada Ecológica é um cálculo que mede o impacto negativo do homem no Planeta em hectares globais (gha), ou seja, a quantidade de recursos naturais gastos pode ser medida em área. Sendo assim, esse método permite a comparação dos diferentes padrões de consumo, bem como a análise da quantidade de recursos naturais utilizados e se a mesma excede a capacidade ecológica da Terra, que é de 1,8 hectares globais por pessoa. O cálculo da Pegada Ecológica pode ser feito por pessoa, cidade ou país. A cidade de São Paulo teve sua pegada ecológica calculada, que é de 4,38 hectares globais por pessoa, o que significa que se todas as pessoas da Terra também gastassem essa mesma quantidade, seriam necessários quase 2,5 planetas.

Diante disso, é evidente que a elevada demanda das áreas urbanas por recursos naturais aumenta a Pegada Ecológica das cidades, sendo, portanto, um sério problema ambiental. Estudos mostram que a Área verde, a Área construída, a Queima dos combustíveis fósseis, os Resíduos, o Consumo de Eletricidade, Consumo de água, Consumo de alimentos e a Área de ocupação ilegal são as variáveis mais utilizadas na análise da Pegada Ecológica urbana. Os estudos também mostram que os países desenvolvidos possuem a pegada ecológica significativamente maior que os países subdesenvolvidos, uma vez que possuem renda mais alta.

Ilustração de pegada ecológica – Fonte: CEPA

Dessa forma, a pegada ecológica chama a atenção para a parcela de cada indivíduo, cidade e país na degradação do meio ambiente e mostra a importância da utilização racional dos recursos naturais.

Coleta e Descarte de Lixo no Ambiente Urbano

Outro estudo da ecologia urbana é o aumento da quantidade de lixo gerado pela urbanização e crescimento populacional. As pessoas produzem lixo todos os dias, seja com embalagens de comida, produtos, restos de alimentos ou materiais descartáveis. Agora pense no lixo produzido diariamente por casa, depois por rua, quarteirão, bairro, cidade, estado, país e a nível mundial.

A responsabilidade da coleta de lixo nas cidades é da prefeitura do município. Uma parte do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) é destinada ao recolhimento de lixo no ambiente urbano. Há vários tipos de coletas de lixo, de acordo com a maneira mais adequada de se recolher cada um. Em relação ao lixo domiciliar e comercial (lojas e escritórios) é utilizado a coleta regular. Já para o lixo produzido pelas indústrias, deve-se analisar a natureza tóxica e não-tóxica dos materiais, realizando a coleta industrial por empresas especializadas. O lixo hospitalar requer uma coleta de alto risco, pois contém materiais tóxicos e contaminados. Além disso, antes de ir ao destino final estes materiais devem passar por uma incineração e esterilização. Há também a coleta de altíssimo risco que se faz com o lixo nuclear, sendo que esta não é realizada pela prefeitura e sim, pelas próprias usinas com técnicos treinados para isso.

Ultimamente, algumas cidades têm adotado a coleta seletiva de lixo, que separa o material de acordo com a sua categoria (orgânico, plástico, vidro, papel e latas), para a realização de programas de reciclagem. Depois de coletado, o destino final para o lixo geralmente é os aterros sanitários ou os lixões clandestinos.

No ano de 2010, uma lei que obrigava o fechamento dos lixões até 2014 foi decretada, o que não aconteceu, já que, até hoje, a maioria do lixo dos municípios brasileiros é jogada em lixões, que são depósitos a céu aberto nos quais os resíduos são descartados diretamente no solo, acarretando vários problemas ambientais e riscos para a saúde humana pela falta de infraestrutura adequada. Nesses locais ocorre a proliferação de animais como mosquitos, baratas e ratos, que são vetores de doenças como a dengue, leptospirose, entre outras, impactando diretamente a saúde da população urbana. Além disso, a matéria orgânica em decomposição gera o chorume, um subproduto tóxico que contamina o solo, podendo chegar até em lençóis freáticos, rios e mares, colocando em risco a saúde das pessoas que irão fazer o uso desses recursos.

Lixão – Foto retirada de https://www.aregiao.com.br/noticias/2019/04/mma-lancou-o-programa-lixo-zero.html

O destino final correto do lixo urbano seria o aterro sanitário, mas nem sempre ele é utilizado pelo seu alto custo de construção e manutenção. Nele, o lixo é compactado, em seguida uma camada de material impermeável é colocada para drenar o chorume produzido, depois o material é enterrado e, por último, uma camada de grama é colocada por cima. Esse processo é repetido, gerando camadas sobrepostas. Ele é considerado sustentável, uma vez que possui sistema de drenagem, preservando a qualidade do solo e dos lençóis freáticos, faz o controle da água e do gás, e é bem menos poluente.

Aterro Sanitário
Funcionamento do aterro sanitário. Fonte: https://www.vgresiduos.com.br/blog/como-funciona-o-aterro-sanitario/

Porém, esses aterros sanitários uma hora deixam de comportar todo o lixo produzido pela população, sendo necessário mais e mais áreas para que novos aterros sejam continuamente construídos.

Tudo o que descartamos tem um tempo de decomposição diferente, sendo que a maioria precisa de vários anos (Tabela 1). Por isso, é necessário também a conscientização da população em relação á quantidade de consumo exagerado de materiais.

LIXO

TEMPO DE DECOMPOSIÇÃO

(APROXIMADO)

Papel 3 a 6 meses
Plástico Mais de 100 anos
Lata de alumínio 200 a 500 anos
Fralda descartável 450 a 600 anos
Pneus Mais de 600 anos
Vidro 4.000 anos

Tabela 1. Valores referenciais ao tempo de decomposição de materiais.

Um outro grande problema urbano são as enchentes. Elas podem ter causas naturais, mas também são agravadas pelo acúmulo de lixo urbano que é descartado incorretamente ou que teve uma má coleta. Os lixos entopem bueiros que são importantes para conter a elevação do nível dos rios. Além disso, o lixo é facilmente carregado pelas enxurradas, elevando ainda mais o volume da água. Esse lixo entra junto com a água da enchente para dentro das casas e estabelecimentos, gerando altos riscos para as pessoas, como afogamentos e doenças pela contaminação da água.

Uma alternativa viável para o controle do lixo é a reciclagem. Alguns municípios já adotam programas de reciclagem do lixo, mas estes ainda precisam ser mais implementados. Ela consiste em fazer o reaproveito de materiais cotidianos já usados (papel, vidro, garrafas pet, papelão, alumínio e vários outros) para produzir novos produtos. O alumínio, por exemplo, tem um alto índice de reaproveitamento, pois é facilmente derretido e transformado novamente em chapas de alumínio, voltando ao sistema de produção. Então pense em todas as latinhas de alumínio de bebidas sendo recicladas, terá um alto impacto positivo. A coleta seletiva ajuda muito na reciclagem, uma vez que, nesse tipo de coleta, o lixo é separado por categoria, geralmente tendo contêineres coloridos pela cidade, em que cada cor representa uma categoria. O papel dos cidadãos é separar os lixos recicláveis e depositar nestes contêineres, que são instalados pela Prefeitura. A prática da reciclagem reduz a quantidade de lixo que vai para os lixões e aterros, diminuindo danos ambientais, poluição, além de gerar novos empregos e rendas.

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Lixeiras de reciclagem/ coleta seletiva – Retirado de http://www.ferrovelhocoradin.com.br/cores-e-simbolos-da-reciclagem/lixeiras/

SANEAMENTO BÁSICO

Como já discutido anteriormente, quanto mais a urbanização vem se desenvolvendo, mais lixo é produzido e mais recursos naturais são utilizados. Para uma cidade crescer é necessária uma boa estrutura de saneamento básico acessível a todos igualmente, mas, em muitos casos, isso não acontece.

Entende-se por saneamento básico um conjunto de procedimentos necessários para garantir e preservar uma boa saúde para a população humana, evitando a proliferação de doenças e preservando o meio ambiente. Entre esses procedimentos pode-se ressaltar: tratamento de água e abastecimento de água potável; coleta, canalização e tratamento de esgotos; coleta adequada de lixo e limpeza urbana; descarte e tratamento correto do lixo.

Infelizmente, o serviço de saneamento básico, que é direito por lei no Brasil, não chega a todos os habitantes. Segundo o INBEC (Instituto Brasileiro de Educação Continuada), aproximadamente 35 milhões de brasileiros não têm acesso ao abastecimento de água tratada e cerca de 100 milhões não têm acesso ao serviço de coleta de esgoto.

A saúde da população que não recebe esse serviço de saneamento básico se encontra em risco. Quando o esgoto e o lixo não são coletados, eles se acumulam e trazem várias complicações, como é o caso da proliferação de mosquitos vetores por conta da água parada, que transmitem várias doenças como a dengue, febre amarela, malária e outras. Além disso, o solo desses locais fica poluído com os resíduos e a chance da população que ali reside ingerir água ou alimentos contaminados, ou até mesmo se contaminar com o contato da pele com o solo, é grande, ocasionando doenças causadas por protozoários, bactérias, vermes, entre outros parasitos.

Falta de saneamento básico – Foto retirada de http://www.sambiental.com.br/noticias/como-lidar-com-falta-do-saneamento-b%C3%A1sico-no-brasil

Algumas alternativas que a população que carece do saneamento básico adota são a utilização da fossa séptica e do poço. A fossa séptica tem como função coletar as fezes e dejetos das pias e ralos das casas, em que a parte sólida é conduzida até o fundo e lá se decompõe, a porção líquida vai para o sumidouro e se infiltra na terra, penetrando o solo e tornando o local poluído. Já o poço tem como finalidade a coleta de água. Um problema que pode surgir a partir da utilização desses métodos é escavar o poço próximo a fossas sépticas e sumidouros, uma vez que ocorre grande risco de a água ficar contaminada com os dejetos coletados pela fossa, e assim ocorrer a proliferação de doenças.

É imprescindível levar saneamento básico para todas as áreas das cidades, afim de que a população possa ter uma qualidade de vida saudável e diminuir a incidência de doenças, contribuindo, desse modo, para que o crescimento das cidades ocorra sem maiores danos.

CONCLUSÃO

Como já foi citado, a ecologia urbana é uma expansão dos estudos de ecologia, que busca compreender, não só a parte física e biológica do ambiente, mas também a sua relação com os seres humanos dentro dos sistemas urbanos.

O ecossistema urbano é constituído de ciclos em que cada processo pode interferir no outro, tendo a presença dos seres humanos como componentes participantes. Sendo assim, eles podem exercer atividades que gerem consequências positivas ou negativas para o ambiente.

A interação entre os seres humanos e o ambiente, no processo de urbanização, pode ser bem complexa e muitos estudos estão sendo feitos para compreender essa relação.

Existem modelos que tentam explicar o desenvolvimento humano, a sua relação com o ecossistema e quais consequências podem ocorrer no ambiente e nos processos biológicos, como no exemplo demonstrado a seguir.

Sem título
Fonte: Imagem adapatada do artigo “Integrating Humans into Ecology: Opportunities and
Challenges for Studying Urban Ecosystems” – Marina Alberti, John M. Marzluff, Eric  Shulenberger, Gordon Bradley,Clare Ryan, And Craig Zumbrunnen

Ou seja, a cidade sendo construída por uma demanda populacional gera um padrão estrutural para sustentar a população naquele local (a criação de meios de transportes, vias de circulação, prédios e edifícios). Essas atividades podem surtir efeitos no ambiente, como, por exemplo, o escoamento fluvial nas vias, a erosão de barrancos, a diminuição da biodiversidade, a extinção de espécies, etc.

O uso exagerado de recursos naturais é tão desenfreado que a natureza não consegue repor e manter o equilíbrio ambiental. O desmatamento vem aumentando cada vez mais, devido à procura de espaço de sobrevivência e plantio para alimentar a população em crescimento.

Vimos que se continuarmos gastando a quantidade de recursos que estamos utilizando hoje, precisaríamos de 2.5 planetas. Porém, nós só temos um, que por sua vez, já está bastante devastado pela atividade humana.

Outra atividade que afeta negativamente o nosso planeta é a coleta de descarte indevido de lixo. A população brasileira, nas áreas urbanas, está produzindo uma quantidade imensa de lixo. O processo de recolhimento é de responsabilidade das prefeituras, mas nem sempre o lixo é destinado de forma correta. Isso faz com que seja colocada em risco a qualidade das nossas águas e, consequentemente, a nossa saúde.

O saneamento básico é um fator que interfere na nossa saúde.  Boa parte da população não tem acesso a esse recurso. As pessoas tendem a deixar o lixo a céu aberto, colocando em risco sua própria saúde.  Mesmo com a utilização de poços e fossas a população ainda fica em risco pois esses meios possuem grande possibilidade de contaminar cursos d’água próximos.

Esses foram apenas alguns aspectos da ecologia urbana que estão diretamente ligados à interação dos seres humanos com o meio ambiente. Quando pensamos em cada um desses aspectos, podemos notar algo em comum entre eles:  as atitudes que nós tomamos em relação ao meio ambiente e os nossos padrões de consumo possuem relação direta com o nosso planeta.

Os estudos da ecologia urbana vêm mostrar para todos que a nossa relação com o ambiente precisa mudar. Estamos causando um desequilíbrio muito grande o qual a natureza não repara facilmente. As enchentes, a seca, as mudanças climáticas, as ondas de calor, as doenças respiratórias, são todas consequências das atitudes humanas.

É de suma importância lembrar que este meio ambiente bonito e diverso é responsabilidade de todos nós como seres humanos, habitantes deste planeta azul. E atitudes simples podem fazer uma grande diferença.

Co-autoria de 

Amanda Lorena Marques Rosa

Jessica Alves Souza Ribeiro Silva

Pedro Henrique Tunes Pereira

Sara Ellen Costa Silva Reis

Tamiris Vanessa Miguel de Souza


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REFERÊNCIAS

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http://www.scielo.br/pdf/sn/v20n1/a08v20n1.pdf “LIXO E IMPACTOS AMBIENTAIS PERCEPTÍVEIS NO ECOSSISTEMA URBANO”

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https://educacao.uol.com.br/disciplinas/geografia/lixo-2-a-coleta-e-o-destino-do-lixo.htm “LIXO – A coleta e o destino do lixo”

https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2018/08/02/maioria-das-cidades-brasileiras-mantem-depositos-de-lixo-sem-tratamento.ghtml “Maioria das cidades brasileiras mantém depósitos de lixo sem tratamento”

https://www.menos1lixo.com.br/posts/lixao-x-aterro “Lixão x Aterro”

https://noticias.r7.com/brasil/proibidos-lixoes-ainda-sao-utilizados-para-descarte-de-residuos-no-brasil-25092019 “Proibidos, lixões ainda são utilizados para descarte de resíduos no Brasil”

http://cenedcursos.com.br/meio-ambiente/impactos-ambientais-lixoes/ “Impactos Ambientais Causados Pelos Lixões”

https://www.sobiologia.com.br/conteudos/Solo/Solo12.php “O destino do lixo”

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https://prefeitura.pbh.gov.br/slu/informacoes/coleta-seletiva “Coleta seletiva”

https://www.diariodolitoral.com.br/cotidiano/antigo-aterro-sanitario-vira-parque-de-preservacao-ambiental-em/122652/ “Antigo aterro sanitário vira parque de preservação ambiental em Itanhaém”

http://www.assemae.org.br/artigos/item/650-saneamento-e-sua-relacao-com-o-desenvolvimento-urbano “Saneamento e sua relação com o desenvolvimento urbano”

https://www.inbec.com.br/blog/mais-35-milhoes-brasileiros-nao-possuem-abastecimento-agua-tratada-quase-100-milhoes-nao-tem-acesso-coleta-esgoto “Mais de 35 milhões de brasileiros não possuem abastecimento de água tratada e quase 100 milhões não têm acesso à coleta de esgoto”

https://planetabiologia.com/o-que-e-saneamento-basico-importancia-tudo-sobre/ “O que é saneamento básico – importância – tudo sobre”

http://www.ipea.gov.br/desafios/index.php?option=com_content&view=article&id=3176&catid=28&Itemid=39

https://site.medicina.ufmg.br/inicial/baixa-cobertura-vacinal-e-desmatamento-podem-explicar-surto-de-febre-amarela/

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https://www.dw.com/pt-br/desmatamento-na-amaz%C3%B4nia-cresce-quase-93-neste-ano-indica-inpe/a-50804904

 

Poluição eletromagnética: o celular pode causar câncer?

A eletricidade está ao nosso redor o tempo todo, tornando nossas vidas mais fáceis e divertidas, mas nunca paramos para pensar nisso. Porém, com tantos aparelhos ao nosso redor, ficamos na dúvida se existe eletricidade demais. Poderia aquilo que é a base do mundo moderno estar lentamente nos matando? Primeiramente temos que tentar entender o que é eletricidade e como ela nos afeta.

Eletricidade é o movimento de uma carga elétrica. Esse movimento gera campos elétricos e magnéticos que se espalham pelo espaço e transportam energia. Chamamos esse fenômeno de radiação eletromagnética.

Radiação é uma palavra que deixa as pessoas muito atônitas. Mas irradiar apenas significa “exalar”. Como quando o forno na sua casa libera calor na forma de radiação infravermelha. Diferentes partes do espectro eletromagnético correspondem a diferentes tipos de radiação. Muitos deles são perfeitamente inofensivos e alguns deles podem ser perigosos. A radiação com comprimentos de onda muito curtos, como luz UV, raios X e raios gama, é forte o suficiente para arrancar elétrons de seus átomos, podendo causar queimaduras e danos genéticos.

É isso que muitas pessoas têm em mente quando ouvem o termo “radiação”. O restante do espectro abrange uma grande variedade de ondas mais longas, de luz visível, infravermelho, microondas e ondas de rádio. Esse é o tipo de radiação emitida por todos os tipos de tecnologia humana. Telefones celulares, roteadores WiFi, linhas de energia elétrica e eletrodomésticos. Essa radiação não interrompe moléculas em nosso corpo. No entanto, alguns tipos de radiação podem estimular músculos e nervos e também provocar vibrações nos cabelos do seu corpo, o que às vezes pode causar sensação de formigamento acima de certos valores-limite.

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Alguns tipos de ondas são úteis para fazer o jantar. As microondas agitam as moléculas de água da comida fazendo-a aquecer. Isso acontece conosco o tempo todo. Por exemplo, o calor agradável que você sente na praia é o aquecimento da pele devido à sua exposição à radiação infravermelha eletromagnética do sol.

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Estamos cercados por fontes naturais e, geralmente, inofensivas de radiação eletromagnética o tempo todo, mas desde a Revolução Industrial, adicionamos muito disso ao nosso ambiente imediato. A questão de saber se isso é realmente perigoso primeiro chamou a atenção do público quando um estudo de 1979 ligou a leucemia ao fato das pessoas viverem perto das linhas de energia. Este estudo em particular foi rapidamente desacreditado. A conexão não pôde ser explicada e nenhum link causal direto foi confirmado.

Uma vez que os supostos malefícios foram propostos, a ideia persistiu. E os milhares de estudos realizados sobre os possíveis perigos ilustram que os aparelhos tecnológicos ainda são vistos como uma ameaça muito real. Muitas pessoas afirmam ser sensíveis à radiação proveniente de nossos aparelhos e telefones celulares. Eles relatam sintomas como dores de cabeça, náusea, reações na pele, olhos ardentes ou exaustão. Mas esses são apenas efeitos relatados no dia-a-dia. Alguns estudos encontraram resultados muito mais perturbadores, como possíveis conexões entre o lado do cérebro que as pessoas usam quando estão em seus telefones e a aparição de tumores cerebrais. A pergunta que a ciência está tentando responder não é tanto sobre os efeitos agudos da irradiação. Sabemos, por exemplo, que os raios X causam danos imediatos ao DNA em suas células, mas o mesmo não ocorre com as ondas de rádio. A questão é: o tipo de radiação eletromagnética fraca na qual estamos constantemente cercados é prejudicial a longo prazo e pode ser resultado de algum mecanismo ainda desconhecido?

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Responder a essa pergunta é muito mais difícil do que pensávamos, visto que existem milhares de fontes primárias, relatórios e declarações de diferentes organizações. Muitos dos estudos mais citados que espalham pânico acerca da radiação eletromagnética são altamente controversos pois se tratam, muitas vezes, de uma série de estudos populacionais baseados em pesquisas e relatos particulares. Isso significa, por exemplo, perguntar aos pacientes com tumores cerebrais o quanto eles acham que usaram o telefone nos últimos anos. O problema é que as pessoas não são confiáveis, pois tendem a se lembrar mal das coisas ou podem ser influenciadas facilmente. Além disso, muitos estudos podem ser influenciados por aquilo que melhor combina com a opinião de cada cientista ou da mídia, para conseguir uma manchete melhor para a primeira página de um jornal.

Um exemplo disso foi um estudo que procurava câncer em ratos e camundongos devido à radiação do telefone celular. Os resultados pareciam mostrar uma conexão. Mas, por alguma razão, houve relação apenas em ratos machos e nenhuma relação em camundongos. Porém foi relatado na mídia como se este estudo provasse que a radiação do telefone celular causa câncer. Infelizmente, esse é o caso de estudos com resultado falso positivo sobre o assunto. Outro aspecto é que a Organização Mundial da Saúde (OMS) classificou oficialmente os campos de radiofrequência como possivelmente cancerígenos. Mas o que isso realmente significa é que existem algumas indicações de que eles podem causar câncer, mas não podemos provar isso e devemos ficar atentos. Então, se fizermos uma breve análise, qual é o quadro geral? No geral, não houve evidências consistentes em estudos realizados em humanos de que a radiação eletromagnética abaixo dos limites do valor de exposição cause problemas de saúde. Existem algumas associações estatísticas, mas, em sua maioria, fracas e inconsistentes. Se houvesse alguma relação causa-efeito definida, já saberíamos devido ao número de dados existentes.

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Portanto, com base nas pesquisas científicas atuais, você deveria se preocupar com a radiação emitida pelo seu laptop, telefone celular ou TV? A resposta é não. Pelo menos, você não deveria. Mas e quanto às pessoas que dizem que isso as está prejudicando? Estudos mostram que eles podem estar experimentando o que é conhecido como “efeito nocebo”. Se você estiver com dor de cabeça e começar a se sentir melhor quando desligar o laptop, poderá ver uma conexão entre essas duas coisas. Uma vez que você tenha essa suspeita, a ideia de que a radiação fraca possa prejudicá-lo pode ser exatamente o que está prejudicando você.

Na economia da tecnologia em que vivemos, falar sobre perigos não comprovados pode nos levar a negligenciar coisas que, com certeza, são ruins para nós. Por exemplo: a poluição do ar está ligada a 4,2 milhões de mortes prematuras a cada ano e é definitivamente algo que se pode mensurar um impacto real atualmente. Outros fatores, como o impacto psicológico negativo causado pelas redes sociais e o isolamento social devido ao uso dos aparelhos que usamos diariamente, também já foram comprovados.

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Mesmo assim ainda há vários estudos de longo prazo em andamento para que as pessoas se sintam mais seguras com relação à irradiação eletromagnética, a exemplo do estudo Cosmos, que analisará os possíveis impactos do uso do telefone celular na saúde, medindo exatamente a frequência e a duração das chamadas telefônicas. Mas enquanto aguardamos a conclusão desses estudos de longo prazo, há muito mais problemas urgentes para se focar. Ao invés de se preocupar com o que as divisões e as redes fazem à sua saúde, considere como elas podem prejudicá-lo de outras maneiras, quando compramos on-line, usamos as redes sociais ou assistimos a vídeos sem conteúdo do YouTube. As ondas de rádio podem até não nos prejudicar, mas a negligência e o exagero na utilização de tecnologias e a poluição do ar com certeza irão.

 

 

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Referências:

Kurzgesagt – In a Nutshell

Ambient air pollution: Health impacts, 2018

WHO: What are electromagnetic fields? 2019

Electric & Magnetic Fields, NIH, 2018

Radiation Resources Outside of EPA, 2019

High Exposure to Radio Frequency Radiation Associated With Cancer in Male Rats, 2018

Espécies exterminadas – Conheça quatro animais outrora extremamente comuns que desapareceram devido a políticas governamentais

Quando ouvimos falar que um animal se encontra ameaçado de extinção, logo imaginamos ações governamentais para a sua proteção, como a criação de parques, planos de manejo e leis para garantir o futuro da espécie e impedir a caça ou pesca desenfreada. Entretanto, historicamente, governos não só ignoraram fatores que punham animais em risco, como também estimularam ou financiaram o extermínio de espécies devido a interesses econômicos. Conheça a história de quatro espécies extintas nos últimos 200 anos devido à negligência ou ganância humana.

Atenção: Este texto pode conter informações chocantes para algumas pessoas.

1- Arau-gigante (Pinguinus impennis) – Último avistamento em 1852

O Arau-gigante, apelidado de “pinguim original”, era uma grande ave preta e branca não-voadora que habitava as regiões polares da América do Norte. Diferente do que imaginamos a princípio, foi o pinguim que ganhou seu nome por causa dessa ave, e não o contrário. Antes da ocupação humana na Europa, o arau se espalhava pelo Mediterrâneo, Escandinávia, Islândia, Groenlândia e toda a costa leste dos Estados Unidos, chegando até a Flórida. Séculos de caça reduziram drasticamente  a população desse animal, mas foi somente a partir do século XVI que seu futuro estaria selado.

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Representação gráfica de um Arau-gigante perto de uma pessoa – Por Roman Uchyetel
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Mapa da ocorrência histórica do arau-gigante – Por BirdLife International/IUCN

No Reino Unido, a caça do arau foi banida em 1553, o que não bastou para evitar sua extinção local. Nos séculos seguintes, com a expansão do mercado da pesca de bacalhau, marinheiros descobriram ilhas entre o Canadá e a Islândia tão cheias de arau que eles não podiam se mexer. Esse animal era extremamente dócil devido à falta de predadores terrestres na região, de forma que sua captura era muito fácil. Relatos de 1622 apontam que centenas de araus eram levados por vez para dentro dos navios e serviam de alimento para a tripulação pelos meses seguintes. Para o azar da espécie, alimentação não foi a única utilidade que os europeus encontraram para ela. Suas penas eram extremamente numerosas e macias, sendo arrancadas aos montes para a confecção de travesseiros, muitas vezes sem que as aves tivessem antes sido mortas. Devido à quantidade de gordura presente nos araus, eles serviam como uma ótima fonte de combustível para fogueiras, que eram acesas mesmo com os animais vivos. Quando os marinheiros enjoavam de carne de arau, amarravam suas pernas e os atiravam vivos ao mar, como isca para outros animais. Em 1775, o governo britânico proibiu a captura de araus para a obtenção de penas, mas as outras atividades ainda eram permitidas. Quando os europeus as encontraram pela primeira vez, centenas de milhares de aves viviam em ilhas, mas, dois séculos depois, a espécie já era extremamente rara. O último exemplar foi visto em 1852, e, desde então, a espécie é considerada extinta, sem nunca ter recebido proteção integral nos países em que vivia.

Two summer great auks, one swimming and facing right while another stands upon a rock looking left, are surrounded by steep, rocky cliffs.
Araus-gigantes, por  John James Audubon (1827–1838)

2- Gafanhoto-das-montanhas-rochosas (Melanoplus spretus) – Último avistamento em 1902

Ao contrário do que houve com o primeiro animal de nossa lista, a extinção do gafanhoto-das-montanhas-rochosas não só foi auxiliada como foi diretamente incentivada pelo governo estadunidense. Nativo do Oeste dos Estados Unidos e do Canadá, esse inseto era um dos mais comuns do planeta. A expansão da agricultura no oeste norte-americano, sobretudo a partir do século XVII, fez com que a população desses animais aumentasse drasticamente. Grandes enxames varreram os EUA entre 1750 e 1780, desencadeando diversas ondas de fome pelo país. A cada década, novos enxames surgiam, devorando plantações, lã de ovelhas e madeira, gerando prejuízos de centenas de milhões de dólares. Fazendeiros tentavam, sem sucesso, conter as hordas de gafanhotos com foices, espingardas e armas de fogo, mas seus números só aumentavam.

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Exemplar fixado do gafanhoto-das-montanhas-rochosas

O maior enxame da história do planeta aconteceu em 1875, nos Estados Unidos. Batizado de Enxame de Albert, foi a maior concentração de animais conhecida, com estimativas que giram em torno de 3,5 a 12,5 trilhões de gafanhotos voando juntos. O médico Albert Child calculou que o enxame cobria uma área de 510.000 km, quase um terço do tamanho do estado do Alasca. Depois desse evento, os governos de Nebraska e dos estados vizinhos criaram leis que obrigavam fazendeiros a trabalhar a cada dois dias matando ovos de gafanhotos enterrados no solo. No Missouri, os fazendeiros ganhavam recompensas baseadas na quantidade de gafanhotos mortos que levavam para o governo. Após a adoção dessas políticas públicas, o último enxame emergiu em 1889 e nenhum exemplar foi avistado após 1902.

Foto de 1875 do Enxame de Albert – Fotógrafo desconhecido

3- Pombo-passageiro (Ectopistes migratorius) – Último avistamento em 1914

O pombo-passageiro era uma ave nativa da América-do-Norte, e, assim como o gafanhoto Melanoplus, foi amplamente beneficiada pela expansão da agricultura para o interior americano. Tal qual diversas aves dos Estados Unidos, esses pombos tinham o hábito de migrar para regiões com clima mais ameno durante o inverno, retornando para sua distribuição original durante a primavera. Nesse trajeto, devoravam imensas plantações, o que contribuiu para seu extermínio no futuro crescimento populacional explosivo.

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Pombos-passageiros macho (esquerda) e fêmea (direita) – Por Louis G. Puertos

Por volta de 1813, o artista  John James Audubon tentou, sem sucesso, contar quantos bandos de pombos-passageiros sobrevoariam sua propriedade. Ele desistiu em apenas 21 minutos, após o 163º bando sobrevoar sua casa. Em 1866, um bando em específico sobrevoou o estado de Ontário e escureceu completamente o céu. Com mais de 1,5 km de largura e 500 km de comprimento, o aglomerado continha mais de 3,5 bilhões de aves e levou mais de 14 horas para desaparecer dos céus do estado. Realizando um cálculo matemático simplificado, o escritor americano  Christopher Cokinos apontou que, se fossem colocados diretamente um atrás do outro, esses pombos dariam 22 voltas completas no planeta.

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Representação digital da aproximação de um grande bando de pombos-passageiros – Retirada do documentário “From Billions to None”

Por muito tempo, o pombo-passageiro foi caçado como uma importante fonte de comida para o povo dos Estados Unidos. Ainda em 1565, relatos históricos mostram que o explorador francês  René Laudonnière matou, em apenas uma semana, mais de 10.000 exemplares. Após sua explosão populacional, o pombo se tornou uma das principais fontes de carne para o país, sobretudo devido à facilidade em matar esses animais. Eles voavam em números tão grandes que um único tiro para cima de uma espingarda de cano duplo poderia abater 61 animais em voo. Eles passaram a ser capturados por todo o país com grandes redes, que pegavam mais de 3 mil indivíduos por vez, ou mortos aos milhares por fileiras de caçadores atirando incessantemente para cima enquanto os bandos passavam. Além da alimentação humana, passaram a ser moídos e utilizados como alimento de porcos e até mesmo como fertilizante. A partir de 1870, o governo estadunidense criou diversas competições esportivas para caçar esses animais, tendo prêmio mínimo para quem abatesse 30 mil indivíduos. Um dos métodos de caça utilizados nesses torneios era queimar enxofre em áreas de nidificação, sufocando centenas de filhotes por vez. Com tantos pombos mortos, seu valor no mercado caiu significativamente, com o barril cheio dessas aves custando menos de 50 centavos de dólar. As exportações levavam milhões de aves de cada vez, e alguns comerciantes atiravam centenas de barris ao mar para tentar reduzir a oferta desse produto.

Caça de pombos-passageiros em Louisiana por Smith Bennett,  1875

Com o ápice da caça em 1878, alguns estudiosos demonstraram preocupação com o futuro da espécie. Como bilhões de pombos haviam sido avistados nos anos anteriores, poucas pessoas acreditaram nessas previsões. Entretanto, em 1880, suas áreas de nidificação estavam praticamente vazias. Caçadores varreram o país em busca desses animais, com poucos casos de sucesso, o que levou os Estados Unidos a declararem o Ectopistes migratorius uma espécie protegida, e a tornarem certas práticas ilegais (como o uso de redes de mais de 3 km de comprimento). Essas medidas vieram tarde; o último exemplar macho da natureza foi avistado e morto em 1896, no meio de um bando de outros pombos nativos. Em 1910, a American Ornithologists’ Union ofereceu uma recompensa equivalente a 77 mil dólares caso um ninho fosse encontrado, mas o prêmio nunca foi recolhido. Martha, o último exemplar em cativeiro, morreu em 1914, e com ela a sua espécie.

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Foto de Martha em 1912

 

4- Tilacino, o “tigre-da-tasmânia” (Thylacinus cynocephalus) – Último avistamento em 1936

A história do tilacino é, provavelmente, o melhor exemplo do poder de um governo no desaparecimento de uma espécie. Ao contrário dos outros animais da nossa lista, este foi caçado até a extinção a mando do governo, que sempre quisera exterminá-lo. É uma das histórias mais tristes de nossa relação destrutiva com outras espécies do planeta.

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Desenho de tilacinos – Por Pip Abrabam

Quando o ser humano chegou à Austrália, há aproximadamente 60 mil anos, diversas espécies de grandes animais desapareceram completamente. Essa onda de extinções fez parte das chamadas extinções do Holoceno, nas quais perdemos a maior parte dos grandes animais do nosso planeta, em parte devido à caça desenfreada. Os tilacinos, ou tigres-da-tasmânia, foram uma das vítimas, provavelmente devido à introdução de cães no continente. Apelidados de dingos, esses cães viviam em matilhas e tinham hábitos similares aos dos tigres-da-tasmânia, que foram extirpados.

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Comparação de tilacino com dingo – Por Carl Buell

Quando chegaram à Tasmânia, em 1802, colonizadores britânicos se depararam com um estranho animal noturno, muito semelhante a um lobo, mas que tinha listras como as de um tigre. Na realidade, o tilacino era um grande carnívoro marsupial, parente de coalas e cangurus, que tinha uma bolsa em que seus filhotes de desenvolviam. Após a introdução de ovelhas e cabras na ilha, esse marsupial passou a ser descrito por alguns colonizadores como uma monstruosa hiena, que surgia silenciosamente à noite para matar e mutilar rebanhos inteiros e deixava para trás um rastro de morte. Embora esse animal tímido geralmente fosse pequeno demais para matar ovelhas, a abundância de alimento proporcionada pela presença de grandes rebanhos e pela introdução de galinhas na ilha aumentou sua população em número e em tamanho. Consequentemente, o número de ovelhas mortas cresceu, o que levou o governo australiano a declarar guerra ao animal em 1830.

Tigre-da-tasmânia caçando uma galinha – Foto tirada em 1926

Além das leis de incentivo à caça de tilacinos, recompensas foram distribuídas para fazendeiros que eliminassem esses animais entre 1888 e 1909. O governo pagava o equivalente a 100 libras por lobo adulto morto e 10 libras por filhote, o que fez diversas pessoas utilizarem a caça de tilacino como fonte de renda. Centenas de animais eram mortos por dia e pilhas de ossos se acumulavam em pátios, mesmo após o animal começar a se tornar cada vez mais raro.

O último tilacino morto na natureza foi caçado em 1928, e, mesmo com instituições afirmando que a espécie deveria ser protegida, o governo premiou o caçador. Para proteger a espécie, equipes de cientistas criaram expedições para capturar o animal, mas poucos indivíduos foram encontrados e a reprodução em cativeiro não ocorreu. Em 1933, Benjamin, o último exemplar conhecido, foi capturado e transportado para um zoológico da Tasmânia. O animal morreu dia 7 de setembro de 1936 devido à negligência dos tratadores, que o trancaram para fora de seu abrigo, causando nele uma séria hipotermia. Uma lei para a proteção da espécie foi criada em 10 de julho de 1936, após o animal já estar extinto na natureza. Embora avistamentos não confirmados tenham ocorrido desde então, a recompensa oferecida pelo governo caso se consiga comprovar sua existência não foi obtida por ninguém até os dias de hoje.

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Benjamin, o último tilacino no Zoológico em que passou seus últimos anos de vida

 

Esses são apenas alguns exemplos do poder de ações governamentais na dizimação de uma espécie. Seja por descaso ou por incentivo propriamente dito, muitas espécies deixaram de existir devido a políticas governamentais. Por outro lado, a criação de leis de proteção já foi capaz de salvar ecossistemas inteiros, o que demonstra a importância de políticas públicas na conservação.

 

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Referências

Arte de capa por Damir G. Martin

Livros

Imperialismo Ecológico – Por Alfred W. Crosby

A Sexta Extinção – Por Elizabeth Kolbert

Arau-gigante

https://www.iucnredlist.org/species/22694856/93472944

https://archive.org/details/cihm_06624/page/n7

https://birdsna.org/Species-Account/bna/species/260/articles/introduction

Gafanhoto-das-montanhas-rochosas

1874: The Year of the Locust

Lockwood, Jeffrey A. (2004). Locust: the Devastating Rise and Mysterious Disappearance of the Insect that Shaped the American Frontier (1st ed.). New York: Basic Books

https://timeline.com/in-the-1870s-12-trillion-locusts-devastated-the-great-plains-and-then-they-went-extinct-6f7c51a15d90

https://www.iucnredlist.org/species/51269349/111451167

Pombo-passageiro

Reeve, S. (March 2001). “Going Down in History”. Geographical73 (3): 60–64. ISSN 0016-741X

https://web.archive.org/web/20120313223001/http://www.si.edu/encyclopedia_Si/nmnh/passpig.htm

Schorger, A. W. (1955). The Passenger Pigeon: Its Natural History and Extinction. Madison, WI: University of Wisconsin Press. ISBN 978-1-930665-96-5.

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https://animals.howstuffworks.com/extinct-animals/did-passenger-pigeons-become-extinct.htm

Flocks that Darken the Heavens: The Passenger Pigeon in Indiana

Tilacino

The Thylacine Museum – http://www.naturalworlds.org/thylacine/index.htm

https://theconversation.com/tasmanian-tigers-were-going-extinct-before-we-pushed-them-over-the-edge-88947

Thylacine hunted more like a cat than a dog

https://www.newyorker.com/magazine/2018/07/02/the-obsessive-search-for-the-tasmanian-tiger

 

 

 

 

ODS – PARTE II – OBJETIVOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL (10 ao 17)

Essa é a segunda parte dessa mini-série de textos sobre o desenvolvimento sustentável. Para ler a Parte 1, clique aqui

Parte II- Objetivos do Desenvolvimento Sustentável

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Nessa segunda parte serão abordados os ODSs 10 ao 17.

A comunidade internacional fez progressos significativos no sentido de tirar as pessoas da pobreza. As nações mais vulneráveis (países menos desenvolvidos, países em desenvolvimento sem litoral e os pequenos estados insulares em desenvolvimento) continuam a fazer grandes investimentos visando à redução da pobreza. No entanto, a desigualdade persiste e ainda existem grandes disparidades, principalmente com relação ao acesso aos serviços de saúde e educação.

Para a redução da pobreza existe um consenso progressivo de que o crescimento econômico não é suficiente se não for inclusivo e se não envolver as três dimensões do desenvolvimento sustentável: econômico, social e ambiental. Felizmente, a desigualdade de renda foi reduzida dentro e entre os países. Atualmente, a renda per capita de 60 dos 94 países que possuem esses dados aumentou mais rapidamente do que a média nacional. Houve algum progresso em relação à criação de condições favoráveis para exportações também nos países menos desenvolvidos.

Para reduzir a desigualdade, a princípio, as políticas devem ser universais, com atenção nas necessidades das populações desfavorecidas e marginalizadas. É preciso aumentar o tratamento isento de impostos e continuar a favorecer as exportações dos países em desenvolvimento, além de aumentar a parcela de votos dos países em desenvolvimento no FMI. Deve-se empoderar e promover a inclusão social, econômica e política de todos, independentemente da idade, gênero, deficiência, raça, etnia, origem, religião e condições econômicas. Além disso, é preciso garantir a igualdade de oportunidades e reduzir as desigualdades de resultados, inclusive por meio da eliminação de leis, políticas e práticas discriminatórias e da promoção de legislação, políticas e ações adequadas a este respeito.

Fatos:

  • Em 2016, mais de 64,4% dos produtos exportados pelos países menos desenvolvidos para os mercados mundiais enfrentaram tarifas zero, um aumento de 20% desde 2010.
  • Evidências mostram que as crianças 20% mais pobres da população ainda têm três vezes mais chances de morrer antes do quinto aniversário do que as crianças de classes mais altas.
  • A proteção social foi significativamente ampliada globalmente, mas as pessoas com deficiência têm até cinco vezes mais chances do que a média de incorrer em despesas de saúde catastróficas.
  • Apesar do declínio geral na mortalidade materna na maioria dos países, as mulheres nas áreas rurais ainda têm três vezes mais chances de morrer durante o parto do que as mulheres que vivem em centros urbanos.
  • Até 30% da desigualdade de renda acontece devido à desigualdade nas famílias, inclusive entre mulheres e homens. As mulheres também são mais propensas do que os homens a viver abaixo de 50% da renda mediana.

As cidades são centros de idéias, comércio, cultura, ciência, produtividade, desenvolvimento social e muito mais. Na melhor das hipóteses, as cidades permitem que as pessoas avancem social e economicamente. Com o número de pessoas vivendo nas cidades projetadas para chegar a 5 bilhões de pessoas até 2030, é importante que existam práticas eficientes de planejamento e gerenciamento urbano para lidar com os desafios trazidos pela urbanização.

Existem muitos desafios para manter as cidades, de modo que continuem a ser criados empregos e prosperidade sem sobrecarregar terras e recursos. Os desafios urbanos comuns incluem congestionamentos, falta de fundos para fornecer serviços básicos, ausência de moradias adequadas, infraestrutura em declínio e poluição do ar nas cidades.

Desafios rápidos de urbanização, como a remoção e o gerenciamento seguros de resíduos sólidos nas cidades, podem ser superados de maneira que lhes permitam continuar prosperando e crescendo, melhorando o uso de recursos e reduzindo a poluição e a pobreza. Um exemplo é o aumento da coleta de lixo municipal. É preciso haver um futuro em que as cidades ofereçam oportunidades para todos, com acesso a serviços básicos de energia, moradia, transporte e muito mais.

Fatos:

  • Metade da humanidade (3,5 bilhões de pessoas) vive nas cidades hoje e 5 bilhões de pessoas devem viver nas cidades até 2030.
  • Hoje, 883 milhões de pessoas vivem em favelas e a maioria delas é encontrada no leste e sudeste da Ásia.
  • As cidades do mundo ocupam apenas 3% das terras do Planeta, mas representam 60-80% do consumo de energia e 75% das emissões de carbono.
  • Em 2016, 90% dos moradores urbanos respiravam ar inseguro, resultando em 4,2 milhões de mortes devido à poluição do ar ambiente. Mais da metade da população urbana global foi exposta a níveis de poluição do ar pelo menos 2,5 vezes superior ao padrão de segurança.

O consumo e a produção sustentáveis ​​têm como objetivo promover a eficiência de recursos e energia, infraestrutura sustentável e fornecer acesso a serviços básicos, empregos decentes e uma melhor qualidade de vida para todos. Sua implementação ajuda a alcançar planos gerais de desenvolvimento, reduzir futuros custos econômicos, ambientais e sociais, fortalecer a competitividade econômica e reduzir a pobreza.

Atualmente, o consumo material de recursos naturais está aumentando, principalmente no leste da Ásia. Os países também continuam enfrentando desafios relacionados à poluição do ar, da água e do solo.

Como o consumo e a produção sustentáveis ​​visam “fazer mais e melhor com menos”, os ganhos líquidos de bem-estar das atividades econômicas podem aumentar, reduzindo o uso de recursos, a degradação e a poluição ao longo de todo o ciclo de vida, enquanto aumenta a qualidade de vida. Também é preciso haver um foco significativo na operação da cadeia de suprimentos, envolvendo todos, desde o produtor até o consumidor final. Isso inclui educar os consumidores sobre consumo e estilos de vida sustentáveis, fornecendo-lhes informações adequadas, por meio de normas e rótulos, e participando de compras públicas sustentáveis.

Fatos:

  • Se a população global atingir 9,6 bilhões em 2050, poderá ser necessário o equivalente a quase três planetas para fornecer os recursos naturais essenciais para sustentar os estilos de vida atuais.
  • Com o aumento do uso de minerais não metálicos na infraestrutura e na construção, houve uma melhoria significativa no padrão de vida dos materiais. A “pegada material” per capita dos países em desenvolvimento aumentou de 5 toneladas em 2000 para 9 toneladas em 2017.
  • 93% das 250 maiores empresas do mundo estão agora reportando sobre sustentabilidade.
  • Menos de 3% da água do mundo é fresca (potável), dos quais 2,5% são congelados na Antártica, no Ártico e nas geleiras. A humanidade deve, portanto, contar com 0,5% de todas as necessidades do ecossistema do homem e de água doce.
  • A humanidade polui a água nos rios e lagos mais rapidamente do que a natureza pode reciclar e purificar.

A mudança climática está afetando todos os países e continentes, além de estar atrapalhando as economias nacionais, afetando vidas e custando caro às pessoas, comunidades e países. Os padrões climáticos estão mudando, o nível do mar está subindo, os eventos climáticos estão se tornando mais extremos e as emissões de gases de efeito estufa estão agora nos níveis mais altos da história. Sem ação, é provável que a temperatura média da superfície do mundo ultrapasse 3 graus centígrados ainda neste século. As pessoas mais pobres e vulneráveis ​​estão sendo as mais afetadas.

Soluções acessíveis e escaláveis ​​estão agora disponíveis para permitir que os países saltem para economias mais limpas e mais resilientes. O ritmo da mudança está se acelerando à medida que mais pessoas estão migrando para as energias renováveis ​​e uma série de outras medidas que reduzirão as emissões e aumentarão os esforços de adaptação estão sendo implementadas. As mudanças climáticas, no entanto, são um desafio global que não respeita as fronteiras nacionais. É uma questão que requer soluções que precisam ser coordenadas em nível internacional para ajudar os países em desenvolvimento a avançar para uma economia de baixo carbono.

Para fortalecer a resposta global às ameaças das mudanças climáticas, os países adotaram o Acordo de Paris na COP21, em Paris, que entrou em vigor em novembro de 2016. No acordo, todos os países concordaram em trabalhar para limitar o aumento da temperatura global para bem abaixo de 2 graus centígrados. Em abril de 2018, 175 partes ratificaram o Acordo de Paris e 10 países em desenvolvimento apresentaram sua primeira iteração de seus planos nacionais de adaptação para responder às mudanças climáticas.

Fatos:

  • Em abril de 2018, 175 países haviam ratificado o Acordo de Paris e 168 haviam comunicado suas primeiras contribuições determinadas nacionalmente à convenção-quadro da ONU sobre o Secretariado de Mudanças Climáticas.
  • De 1880 a 2012, a temperatura global média aumentou 0,85° C. Para colocar isso em perspectiva, para cada 1 grau de aumento de temperatura, a produção de grãos diminui cerca de 5%. Milho, trigo e outras culturas importantes sofreram reduções significativas de produção no nível global de 40 megatons por ano entre 1981 e 2002, devido a um clima mais quente.
  • Os oceanos aqueceram, as quantidades de neve e gelo diminuíram e o nível do mar aumentou. De 1901 a 2010, o nível médio global do mar aumentou 19 cm, à medida que os oceanos se expandiram devido ao aquecimento e ao gelo derretido.
  • A extensão do gelo marinho do Ártico diminuiu em todas as décadas sucessivas desde 1979, com perda de 1,07 milhão de km² de gelo a cada década.
  • Dadas as concentrações atuais e as emissões contínuas de gases de efeito estufa, é provável que até o final deste século, o aumento da temperatura global exceda 1,5°C em comparação com o período de 1850 a 1900.
  • O aumento médio do nível do mar é previsto em 24 a 30 cm até 2065 e em 40 a 63 cm em 2100. A maioria dos aspectos das mudanças climáticas persistirá por muitos séculos, mesmo que as emissões sejam interrompidas.

Os oceanos do mundo (temperatura, química, correntes marítimas e vida) impulsionam sistemas globais que tornam a Terra habitável para a humanidade. Nossa água da chuva, água potável, clima, tempo, linhas costeiras, grande parte de nossa comida e até o oxigênio no ar que respiramos são, em última análise, fornecidos e regulados pelo mar. Ao longo da história, oceanos e mares foram condutos vitais para o comércio e o transporte.

O gerenciamento cuidadoso desse recurso global essencial é uma característica indispensável para um futuro sustentável. No entanto, atualmente, há uma deterioração contínua das águas costeiras devido à poluição e à acidificação dos oceanos. Isso está causando um efeito adverso no funcionamento dos ecossistemas e da biodiversidade, impactando negativamente a pesca em pequena escala.

Fatos:

  • Os oceanos cobrem três quartos da superfície da Terra, contendo 97% da água do planeta e representando 99% do espaço de vida no mundo em volume.
  • Mais de três bilhões de pessoas dependem da biodiversidade marinha e costeira para sua subsistência.
  • Os oceanos contêm quase 200.000 espécies identificadas, mas os números reais podem estar na casa dos milhões.
  • Os oceanos absorvem cerca de 30% do dióxido de carbono produzido pelos seres humanos, protegendo os impactos do aquecimento global.
  • Os oceanos servem como um fornecedor de alimento importante, com mais de 3 bilhões de pessoas dependendo deles como sua principal fonte de proteína.
  • As análises de oceano aberto mostram que os níveis atuais de acidez aumentaram 26% desde o início da Revolução Industrial.
  • As águas costeiras estão se deteriorando devido à poluição e à eutrofização. Sem esforços conjuntos, a eutrofização costeira deverá aumentar em 20% nos grandes ecossistemas marinhos até 2050.

As florestas cobrem 30,7% da superfície da Terra e, além de fornecer segurança e abrigo alimentar, são essenciais para combater as mudanças climáticas, proteger a biodiversidade e as populações indígenas. Ao proteger as florestas, também poderemos fortalecer o gerenciamento de recursos naturais, aumentando a produtividade da terra.

Atualmente, treze milhões de hectares de florestas estão sendo perdidas todos os anos, enquanto a degradação persistente das terras secas levou à desertificação de 3,6 bilhões de hectares. Embora até 15% da terra esteja atualmente protegida, a biodiversidade ainda está em risco. O desmatamento e a desertificação, causados ​​pelas atividades humanas e pelas mudanças climáticas, apresentam grandes desafios ao desenvolvimento sustentável e afetam a vida e os meios de subsistência de milhões de pessoas na luta contra a pobreza.

Estão sendo feitos esforços para gerenciar florestas e combater a desertificação. Atualmente, existem dois acordos internacionais sendo implementados que promovem o uso de recursos de maneira equitativa. Também estão sendo fornecidos investimentos financeiros em apoio à biodiversidade.

O Fundo de Ações do Leão

Em 21 de junho de 2018, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), o FINCH e o parceiro fundador Mars Incorporated, anunciaram o Lion’s Share, uma iniciativa que visa transformar a vida dos animais em todo o mundo, pedindo aos anunciantes que contribuam com uma porcentagem de sua mídia para serem gastos em projetos de conservação e bem-estar animal.

Fatos:

  • Cerca de 1,6 bilhão de pessoas dependem das florestas para sua subsistência, incluindo 70 milhões de indígenas.
  • As florestas abrigam mais de 80% de todas as espécies terrestres de animais, plantas e insetos.
  • Entre 2010 e 2015, o mundo perdeu 3,3 milhões de hectares de áreas florestais.
  • 2,6 bilhões de pessoas dependem diretamente da agricultura, mas 52% da terra usada para agricultura é moderada ou severamente afetada pela degradação do solo.
  • Devido à seca e à desertificação, 12 milhões de hectares são perdidos a cada ano (23 hectares por minuto). Dentro de um ano, 20 milhões de toneladas de grãos poderiam ter sido cultivadas.
  • 74% dos pobres são diretamente afetados pela degradação da terra em todo o mundo.
  • A caça ilegal e o tráfico de animais selvagens continuam a frustrar os esforços de conservação, com quase 7.000 espécies de animais e plantas relatadas no comércio ilegal envolvendo 120 países.
  • Das 8.300 raças de animais conhecidas, 8% estão extintas e 22% estão em risco de extinção.
  • Cerca de 80% das pessoas que vivem em áreas rurais dependem de medicamentos tradicionais à base de plantas para cuidados básicos de saúde.
  • Microrganismos e invertebrados são essenciais para os serviços ecossistêmicos, mas suas contribuições ainda são pouco conhecidas e raramente reconhecidas.

As ameaças de homicídio internacional, violência contra crianças, tráfico de pessoas e violência sexual são importantes questões a serem enfrentadas para promover sociedades pacíficas e inclusivas para o desenvolvimento sustentável. Elas pavimentam o caminho para a provisão de acesso à justiça para todos e para a construção de instituições eficazes e responsáveis ​​em todos os níveis.

Embora os casos de homicídio e tráfico tenham registrado uma queda significativa na última década, ainda existem milhares de pessoas em maior risco de assassinato intencional na América Latina, na África Subsaariana e na Ásia. As violações dos direitos das crianças por agressão e violência sexual continuam a atormentar muitos países ao redor do mundo, especialmente porque a falta de denúncia e de de dados agravam o problema.

Para enfrentar esses desafios e construir sociedades mais pacíficas e inclusivas, é necessário que haja regulamentos mais eficientes e transparentes, bem como orçamentos governamentais abrangentes e realistas. Um dos primeiros passos para a proteção dos direitos individuais é a implementação do registro mundial de nascimento e a criação em todo o mundo de instituições nacionais independentes de direitos humanos.

Fatos:

  • Entre as instituições mais afetadas pela corrupção estão o judiciário e a polícia.
  • Corrupção, suborno, roubo e sonegação custam cerca de US$ 1,26 trilhão para os países por ano, quantia em dinheiro que poderia ser usada para elevar aqueles que vivem com menos de US$ 1,25 por dia.
  • O registro de nascimento ocorreu em 73% das crianças menores de 5 anos, mas apenas 46% da África Subsaariana tiveram seu nascimento registrado.
  • Aproximadamente 28,5 milhões de crianças em idade escolar fora da escola vivem em áreas afetadas por conflitos.
  • A violência contra crianças afeta mais de 1 bilhão de crianças em todo o mundo e custa às sociedades até US$ 7 trilhões por ano.
  • 50% das crianças do mundo sofrem violência todos os anos.
  • A cada 5 minutos, em algum lugar do mundo, uma criança é morta pela violência.
  • 1 em cada 10 crianças é abusada sexualmente antes dos 18 anos.

Uma agenda de desenvolvimento sustentável bem-sucedida requer parcerias entre governos, setor privado e sociedade civil. Essas parcerias inclusivas, baseadas em princípios e valores, uma visão e objetivos compartilhados, que coloquem as pessoas e o planeta no centro, são necessárias nos níveis global, regional, nacional e local.

É necessária uma ação urgente para mobilizar, redirecionar e liberar o poder transformador de trilhões de dólares em recursos privados para cumprir os objetivos de desenvolvimento sustentável. Investimentos de longo prazo, incluindo investimentos diretos estrangeiros, são necessários em setores críticos, especialmente nos países em desenvolvimento. Isso inclui energia, infraestrutura e transporte público sustentável, bem como tecnologias de informação e comunicação. O setor público precisará definir uma direção clara.

Fatos:

  • A assistência oficial ao desenvolvimento foi de US$ 146,6 bilhões em 2017.
  • Isso representa uma diminuição de 0,6% em termos reais em relação a 2016.
  • 79% das importações de países em desenvolvimento entram nos países desenvolvidos com isenção de impostos.
  • O ônus da dívida para os países em desenvolvimento permanece estável em cerca de 3% da receita de exportação.
  • O número de usuários da Internet na África quase dobrou nos últimos quatro anos.
  • 30% da juventude do mundo são nativos digitais, ativos on-line por pelo menos cinco anos.
  • Mais de quatro bilhões de pessoas não usam a Internet e 90% delas são do mundo em desenvolvimento

 

Referências

Organizações das Nações Unidas – Agenda 2030

Florestas Vazias – Descubra por que a vida está desaparecendo em nossas matas

“Eu procuro familiaridade com a Natureza -conhecer seus estados de espírito e maneiras de ser. A Natureza primitiva é a mais interessante para mim. Eu faço imensos sacrifícios para conhecer todos os fenômenos da primavera, por exemplo, pensando que eu tenho aqui o poema inteiro, e então, para meu desapontamento, eu ouço que é apenas uma cópia imperfeita a que possuo e li, que meus ancestrais rasgaram muitas das primeiras folhas e passagens mais grandiosas, e mutilaram-na em muitos lugares. Eu não gostaria de pensar que algum semideus tivesse vindo antes de mim e escolhido para si algumas das melhores estrelas. Eu quero conhecer um paraíso inteiro e uma Terra inteira. Todas as grandes árvores e animais selvagens, peixes e aves se foram.” 

                                                              Henry Thoreau, 1846

Eu não poderia começar esse texto de outra forma, sem copiar o brilhante cientista e escritor Fernando Fernandez, que cita em seu livro “Poema Imperfeito” o poema de Henry Thoreau. Nascido em 1817, Thoreau passou grande parte da sua vida escrevendo sobre os problemas da sociedade e sobre seu amor pela natureza. Nessa época, o escritor já citava um mundo não-natural, já degradado pela ação do homem e sem animais, árvores e plantas que o compunham no passado. Se a natureza é um poema, o que temos dele é apenas uma cópia imperfeita, um livro com diversas páginas faltando. Embora esse padrão se repita em diversos ecossistemas, vamos falar nesse texto sobre o ambiente que, ainda hoje, é o mais biodiverso do planeta mas que, crescentemente, tem tido suas páginas arrancadas. As nossas florestas estão vazias.

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Floresta subtropical úmida – Fotógrafo desconhecido

Florestas tropicais, ou mais especificamente, ecossistemas que compõem o bioma floresta tropical e subtropical úmida, são, em teoria, os ambientes mais biodiversos do planeta. Quando pensamos em florestas, logo imaginamos imensas comunidades de aves, répteis, anfíbios, peixes, insetos e grandes mamíferos vivendo em harmonia, em locais intocados pelo homem. Entretanto, eu sugiro que você faça um exercício simples. Passe o dia na floresta mais próxima de sua casa e tente observar grandes animais silvestres. Se você não mora imerso na Amazônia, no Pantanal ou perto de grandes parques nacionais, sinto muito, mas você provavelmente não verá nada além de aves, insetos e um calango ocasional. Se tiver um pouco de sorte, quem sabe um mico ou um macaco-prego? Não é porque todos os animais fogem com a nossa presença mas, sim, pois já não existem grandes animais à nossa volta. E, mais uma vez, a culpa é nossa.

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Foto por Eduardo José Gazzinelli

Não precisamos voltar 10 mil anos, observando a extinção da megafauna, para entender o processo de perda de biodiversidade que vivemos. Tão grave quanto a extinção, a extirpação vem afetando a fauna de todo país, com resultados devastadores a longo prazo. Também chamado de extinção local, esse processo é muitas vezes ignorado, o que cria uma cascata de novas perdas biológicas. Imagine um pequeno fragmento de floresta que possuía porcos-do-mato, mas eles foram caçados até seu desaparecimento. Sem esses animais, algumas plantas não serão mais dispersadas, o que comprometerá a floresta futuramente. Onças terão o número de presas disponíveis reduzido, o que também pode acarretar sua extinção local. Aves que se alimentam de carrapatos nesses animais poderão migrar para outras regiões, assim como vermes e ectoparasitas dos porcos também sumirão. O desaparecimento de um único componente da floresta poderá gerar um efeito cascata, que comprometerá toda a biodiversidade da área.

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O porco-do-mato (Pecari tajacu) já desapareceu de diversas áreas do Brasil – Foto por  Anton Teplyy

Primeiramente, vale ressaltar que nossa forma de conservação atual é pouco efetiva. Em sua obra prima “A Sexta Extinção”, a jornalista Elizabeth Kolbert conta sobre sua viagem à Reserva 1202, no coração da Amazônia brasileira. Essa reserva é apenas uma de um complexo gigantesco, que faz parte de um dos experimentos mais longos do mundo, denominado Projeto Dinâmica Biológica de Fragmentos Florestais, ou PDBFF. Com início nos anos 70, o projeto visa entender mecanismos responsáveis pela manutenção da biodiversidade em áreas de proteção, bem como sua eficiência. Os resultados foram alarmantes. Na época, a legislação brasileira vigente permitia que detentores de terras na Amazônia poderiam desmatar 50% da floresta em suas propriedades, deixando intacto o restante. Em teoria, isso permitiria uma preservação de toda biodiversidade local, mesmo que em uma área menor.

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Após anos de pesquisa, a equipe do PDBFF constatou que, ao contrário do esperado, em média 50% da biodiversidade em cada reserva foi perdida. Quanto menor a reserva, maior era a perda percentual de biodiversidade, e os resultados pioravam se florestas secundárias eram levadas em conta. Reservas biológicas funcionam hoje, aos olhos de Elizabeth, como “ilhas em terra firme”, cujo isolamento e baixa diversidade genética contribuem para a perda de espécies a longo prazo. Enquanto grandes reservas podem preservar melhor as relações ecológicas originais, pequenas reservas, sem corredores ecológicos para migração de espécies entre uma reserva e outra, são extremamente ineficientes. E adivinhem como é a maioria das reservas atuais.

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A fragmentação é uma grande ameaça para a biodiversidade atual – Reserva Biológica Poço das Antas, por Ernesto Viveiros de Castro

Em seu livo “O Mastodonte de Barriga Cheia”, Fernando Fernandez, que já mencionei anteriormente, cita uma outra pesquisa alarmante, realizada pelos cientistas Gerardo Ceballos e Paul Ehrlich, publicada em 2002 na Science. Eles mapearam as áreas de ocorrência, no século XIX,  de 173 espécies de mamíferos no mundo, em sua maioria componentes da megafauna, e compararam com sua área de ocorrência atual. Os autores constataram que 72% das espécies se extinguiram em mais da metade de sua área de ocorrência original e, em média, cada espécie perdeu 68% de seu território. O queixada está extinto na Mata Atlântica nordestina, a anta está extinta na caatinga e a onça-pintada já não existe mais nos Estados Unidos. Pouco a pouco, esses organismos tomam o mesmo caminho da maior parte da megafauna americana, vítimas de 500 anos de caça e da destruição do habitat. Como diria Fernando, nossos bosques não têm mais vida.

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Comparação entre áreas de ocorrência original do leão (Panthera leo), em vermelho, com sua distribuição atual, em azul – Por Tommyknocker

O maior problema está nas interações que são perdidas ano a ano em ecossistemas de todo o mundo. Sabemos que muitos animais não existem sem floresta, mas muitas florestas também não existem sem animais. Um estudo realizado em matas ciliares da Tanzânia tentou comprovar o impacto do desaparecimento de aves para a manutenção de florestas. Para germinarem, muitas árvores necessitam que aves comam seus frutos, que passarão por seu trato gastrointestinal, deixando apenas a semente exposta, sendo também transportadas para outros locais. Após mais de 40 anos de estudo, os cientistas concluíram que, em áreas preservadas, o número de espécies de pássaros chega ao dobro, quando comparado com áreas degradadas. Em florestas densas, cerca de 70% das sementes encontradas tinham sido ingeridas por pássaros, o que permitia sua germinação. Em florestas ralas, danificadas pela ação do homem, apenas 3% das sementes haviam sido consumidas previamente por aves. Não existem florestas sem os pássaros e, nos últimos 50 anos, a população de aves decaiu mais de 30% em algumas regiões. Além do desmatamento, a defaunação é uma gigantesca ameaça para nossas árvores.

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Tucano-de-bico-verde (Ramphastos sulfuratus) – Por Philip Witt

A América do Sul é o continente com maior número de árvores frutíferas com grandes sementes, que dependem sobretudo de grandes mamíferos para sua reprodução. Após o desaparecimento da megafauna do Pleistoceno, muitas plantas neotropicais, como o abacateiro e o pequizeiro, continuaram existindo graças ao ser humano, uma vez que seus dispersores originais foram extintos, como elefantes e preguiças-gigantes. Antas, primatas  e cutias desempenham esse mesmo papel crucial para diversas árvores, que não reproduzem mais após seu desaparecimento. Por mais que isso seja um fato contraintuitivo, a caça e o tráfico de animais têm se tornado uma das maiores ameaças para nossas árvores.

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A cutia (Dasyprocta spp.) , por enterrar sementes para comer depois e, principalmente, por esquecer onde as enterrou, é um dos animais mais importantes para a manutenção das florestas brasileiras – Foto por Eiti Kimura

Entretanto, nem tudo está perdido. Projetos de refaunação, que serão melhor explorados em um texto futuro, têm sido propostos por todo o Brasil, com o intuito de devolver às matas parte de sua diversidade original e de restabelecer relações ecológicas perdidas. Cutias foram devolvidas a diversas matas do Rio de Janeiro pela equipe de Fernando Fernandez e do Projeto REFAUNA, assim como bugios-ruivos (Alouatta guariba clamitans). Antas (Tapirus terrestris) já foram devolvidas ao Rio de Janeiro, cervos-do-pantanal (Blastocerus dichotomus) voltaram a novas áreas do Paraná e o mico-leão-dourado (Leontopithecus rosalia) está presente de novo na Mata Atlântica. Quem diria que o mutum-do-nordeste (Pauxi mitu), extinto na natureza, voltaria a viver nas florestas do Alagoas? O Brasil é usado, muitas vezes, como um exemplo de destruição ambiental mas, também, como um dos países de ponta na luta pela preservação.

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Mutum-do-nordeste (Pauxi mitu) – Por Pedro Henrique Tunes

A Síndrome de Florestas Vazias ocorre hoje em todo o mundo. Nas primaveras silenciosas da América do Norte, nas gigantescas matas vazias na Europa e nas ilhas da Indonésia, que possuem mais aves engaioladas do que soltas, vemos a crescente destruição ambiental e a fragilidade dos ecossistemas terrestres. A onda de extinções causada pelo ser humano entre 60 e 10 mil anos atrás ainda não acabou, e as próximas vítimas já estão, lentamente, desaparecendo à nossa volta. Somente por meio do impedimento da caça de animais silvestres, da construção de corredores ecológicos e de projetos de devolução de vida para parques e reservas é que poderemos garantir a manutenção de florestas e savanas por todo o Brasil. Quem sabe no futuro conseguiremos nos orgulhar, não só de possuir a maior biodiversidade do planeta, como também por proporcionar sua verdadeira proteção. Animais não vivem sem florestas e florestas não vivem sem animais. E nós não vivemos sem nenhum deles!

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Onça-pintada (Panthera onca) -Por WWF

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Como voltar ao PASSADO?

Referências

Projetos e ONGs

Protapir

Refauna

Instituto Vida Livre

Onçafari

Muriqui Instituto de Biodiversidade

CRAX – Sociedade de Pesquisa da Fauna Silvestre

Waita

 

Livros

A Sexta Extinção – Uma história não natural, por Elizabeth Kolbert

Os Mastodontes de Barriga Cheia e Outras Histórias – Crônicas de biologia e conservação da natureza, por Fernando Fernandez

Folha de Lótus, Escorregador de Mosquito – E outras 96 cônicas sobre comportamento dos seres vivos – Por Fernando Reinach

Textos

https://www.kickante.com.br/campanhas/instituto-conhecer-para-conservar/atualizacoes

https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/09/150918_bugios_tijuca_fauna_pai

Indonesia’s Forests Increasingly Empty of Wildlife

https://oglobo.globo.com/sociedade/florestas-vazias-do-vietna-23596025

O fenômeno das florestas vazias

http://redeglobo.globo.com/globoecologia/noticia/2012/03/sindrome-da-floresta-vazia-e-o-empobrecimento-da-biodiversidade.html

Vídeo: Por que podemos considerar a natureza de hoje como um poema imperfeito? por Fernando Fernandez

O que é Defaunação

Mapa aponta as florestas desertas na Mata Atlântica

Vídeo

 

Artigos

Clique para acessar o Faria_L_F_de_Dissertacao_2017.pdf

https://www.pnas.org/content/114/30/E6089

 

ODS – Parte I – Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (1 ao 9)

A Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, adotada por todos os Estados Membros das Nações Unidas em 2015, possui um plano audacioso e compartilhado de paz e prosperidade para as pessoas e para o planeta, agora e no futuro. No centro desse plano estão os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que consistem em um apelo urgente à ação de todos os países, desenvolvidos e em desenvolvimento, por meio de uma parceria global. Eles reconhecem que o fim da pobreza e outras privações devam andar de mãos dadas com estratégias que melhorem a saúde e a educação, reduzam a desigualdade e estimulem o crescimento econômico. Ações que visem ao combate às mudanças climáticas e que trabalhem para preservar nossos oceanos e florestas devem acontecer paralelamente.

Os ODS baseiam-se em décadas de trabalho de diversos países e da ONU, incluindo o Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da entidade.

  • Em junho de 1992, na Cúpula da Terra no Rio de Janeiro (COP 92), mais de 178 países adotaram a Agenda 21, um plano de ação abrangente para construir uma parceria global para o desenvolvimento sustentável;
  • Os Estados Membros adotaram, por unanimidade, a Declaração do Milênio na Cúpula do Milênio, em setembro de 2000, na sede da ONU em Nova York. O evento culminou com a elaboração de oito Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) para redução da pobreza extrema até 2015.
  • A Declaração de Joanesburgo sobre Desenvolvimento Sustentável e o Plano de Implementação, adotados na Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável na África do Sul em 2002, reafirmaram os compromissos da comunidade global com a erradicação da pobreza e com o meio ambiente, e se basearam na Agenda 21 e na Declaração do Milênio, incluindo mais ênfase em parcerias multilaterais.
  • Na Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio + 20), no Rio de Janeiro, Brasil, em junho de 2012, os Estados Membros adotaram o documento final “O futuro que queremos”, no qual decidiram, entre outros, lançar um processo para desenvolver um conjunto de ODS;

O ano de 2015 foi marcante para o multilateralismo e a formulação de políticas internacionais:

  • Transformando nosso mundo: a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, com seus 17 ODS, foi adotada na Cúpula das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável, em Nova York, em setembro de 2015.
  • Acordo de Paris sobre mudanças climáticas (dezembro de 2015.)

Para manter a pauta em dia, o Fórum Político de Alto Nível anual sobre Desenvolvimento Sustentável serve como plataforma central da ONU para o acompanhamento e a revisão dos ODS.

Parte I – Objetivos do Desenvolvimento Sustentável 

Nessa primeira parte serão abordados 9 dos 17 ODSs.

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Mais de 700 milhões de pessoas, ou 10% da população mundial, ainda vivem em extrema pobreza e lutam para atender às suas necessidades mais básicas, como saúde, educação e acesso à água e saneamento. A maioria das pessoas que vivem com menos de R$ 8,00 por dia vive na África Subsaariana. Em todo o mundo, a taxa de pobreza nas áreas rurais é de 17,2%, mais que três vezes maior que nas áreas urbanas.

Ter um emprego não garante uma vida decente. De fato, 8% dos trabalhadores empregados e suas famílias em todo o mundo viviam em extrema pobreza em 2018. A pobreza afeta as crianças de maneira desproporcional. Uma em cada cinco crianças no planeta vive em extrema pobreza. Garantir proteção social para todas as crianças e outros grupos vulneráveis é fundamental para reduzir a pobreza.

A pobreza tem muitas dimensões, mas suas causas incluem desemprego, exclusão social e alta vulnerabilidade de certas populações a desastres, doenças e outros fenômenos que os impedem de serem produtivos. A crescente desigualdade é prejudicial ao crescimento econômico e mina a coesão social, aumentando as tensões políticas e sociais e, em algumas circunstâncias, gerando instabilidade e conflitos.

Fatos:

  • Mais de 700 milhões de pessoas, ou 10% da população mundial, ainda vivem em extrema pobreza, sobrevivendo com menos de R$ 8,00 por dia.
  • 8% dos trabalhadores empregados e suas famílias em todo o mundo viviam em extrema pobreza em 2018.
  • Globalmente, existem 122 mulheres com idades entre 25 e 34 anos que vivem em extrema pobreza para cada 100 homens da mesma faixa etária.
  • Altas taxas de pobreza são frequentemente encontradas em países pequenos, frágeis e afetados por conflitos.
  • Uma em cada cinco crianças vive em extrema pobreza.
  • A partir de 2018, 55% da população do mundo não tem acesso à proteção social.
  • Em 2018, apenas 41% das mulheres que deram à luz receberam benefícios em dinheiro da maternidade.

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É hora de repensar como plantamos, compartilhamos e consumimos nossos alimentos. Se bem desenvolvidas, a agricultura, a silvicultura e a pesca podem fornecer alimentos nutritivos para todos, gerando renda, apoiando o desenvolvimento rural centrado nas pessoas e protegendo o meio ambiente.

No momento, nossos solos, água doce, oceanos, florestas e biodiversidade estão sendo rapidamente degradados. As mudanças climáticas estão pressionando ainda mais os recursos dos quais dependemos, aumentando os riscos associados a desastres, como secas e inundações. Muitas mulheres e homens das áreas rurais não conseguem mais sobreviver em suas terras, forçando-os a migrar para as cidades em busca de oportunidades. A falta de segurança alimentar também está fazendo com que milhões de crianças sejam subnutridas ou muito pequenas para a sua idade, devido à desnutrição grave.

Uma mudança profunda é necessária no sistema global de produção alimentícia e agricultura para alimentarmos os 815 milhões de pessoas que hoje passam fome e os 2 bilhões de pessoas adicionais que estarão subnutridos até 2050.

Fatos:

  • Estima-se que 821 milhões de pessoas encontravam-se desnutridas em 2017.
  • A maioria das pessoas famintas do mundo vive em países em desenvolvimento, onde 12,9% da população está desnutrida.
  • Na África Subsaariana, o número de pessoas subnutridas aumentou de 195 milhões em 2014 para 237 milhões em 2017.
  • A má nutrição causa quase metade (45%) das mortes de crianças menores de cinco anos, ou seja, de 3,1 milhões de crianças por ano.
  • A agricultura é o maior empregador do mundo, fornecendo meios de subsistência para 40% da população global. É a maior fonte de renda e emprego para famílias rurais pobres.
  • 500 milhões de pequenas fazendas em todo o mundo fornecem até 80% dos alimentos consumidos em grande parte do mundo em desenvolvimento. 
  • A pobreza energética em muitas regiões é uma barreira fundamental para reduzir a fome e garantir que o mundo possa produzir alimentos suficientes para atender à demanda futura.

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Garantir uma vida saudável e promover o bem-estar em todas as idades é essencial para o desenvolvimento sustentável.

Houveram avanços significativos no aumento da expectativa de vida e na redução de alguns dos problemas comuns associados à mortalidade infantil e materna, mas trabalhar para alcançar a meta de menos de 70 mortes maternas por 100.000 nascidos vivos até 2030 exige melhorias no atendimento especializado.

São necessários muito mais esforços para erradicar completamente uma ampla gama de doenças e resolver muitos problemas de saúde ainda persistentes e emergentes. Ao se concentrar no fornecimento mais eficiente dos sistemas de saúde, melhorias no saneamento e a na higiene, além de aumentar o acesso aos médicos e implementação de novas maneiras de reduzir a poluição ambiental, pode-se fazer um progresso significativo para ajudar a salvar as vidas de milhões de pessoas.

Fatos:

  •  Mais de cinco milhões de crianças ainda morrem antes do quinto aniversário.
  • Desde 2000, as vacinas contra o sarampo evitaram quase 15,6 milhões de mortes.
  • As crianças nascidas na pobreza têm quase duas vezes mais chances de morrer antes dos cinco anos do que as de famílias mais ricas.
  • A mortalidade materna caiu 37% desde 2000.
  • Mais mulheres estão recebendo atendimento pré-natal. Nas regiões em desenvolvimento, o atendimento pré-natal aumentou de 65% em 1990 para 83% em 2012.
  • 36,9 milhões de pessoas em todo o mundo viviam com HIV em 2017.
  • O HIV é a principal causa de morte para mulheres em idade reprodutiva em todo o mundo.

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Uma educação de qualidade é a base para a criação do desenvolvimento sustentável. Além de melhorar a qualidade de vida, o acesso à educação inclusiva pode ajudar a equipar os locais com as ferramentas necessárias para desenvolver soluções inovadoras para os maiores problemas do mundo.

As razões para a falta de educação de qualidade se devem à falta de professores adequadamente treinados, às más condições das escolas e à questões de equidade relacionadas às oportunidades oferecidas às crianças da zona rural. Para que a educação de qualidade seja oferecida aos filhos de famílias pobres, é necessário investimento em bolsas de estudo, oficinas de treinamento de professores, construção de escolas e melhoria ao acesso à água e eletricidade nas escolas.

Fatos:

  • As matrículas no ensino primário nos países em desenvolvimento atingiram 91%, mas ainda 57 milhões de crianças em idade primária continuam fora das escolas.
  • Estima-se que 50% das crianças fora da escola em idade escolar primária vivem em áreas afetadas por conflitos.
  • 617 milhões de jovens em todo o mundo carecem de habilidades básicas de matemática e alfabetização.

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Embora o mundo tenha alcançado progresso em direção à igualdade de gênero e ao empoderamento das mulheres sob os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (incluindo acesso igual à educação primária entre meninas e meninos), mulheres e meninas continuam sofrendo discriminação e violência em todas as partes do mundo.

A igualdade de gênero não é apenas um direito humano fundamental, mas uma base necessária para um mundo pacífico, próspero e sustentável. Proporcionar às mulheres e meninas acesso igual à educação, assistência médica, trabalho decente e representação nos processos políticos e econômicos de tomada de decisão alimentará economias sustentáveis e beneficiará as sociedades e a humanidade como um todo.

Fatos:

  • Globalmente, 750 milhões de mulheres e meninas se casaram antes dos 18 anos e pelo menos 200 milhões de mulheres e meninas em 30 países foram submetidas à Mutilação Genital Feminina (MGF).
  • Em 18 países, os maridos podem impedir legalmente suas esposas de trabalhar.
  • Uma em cada cinco mulheres e meninas sofreram violência física e/ou sexual por um parceiro íntimo nos últimos 12 meses. No entanto, 49 países não têm leis que protejam especificamente as mulheres de tal violência.
  • Embora as mulheres tenham feito importantes avanços nos cargos políticos em todo o mundo, sua representação nos parlamentos nacionais em 23,7% dos países ainda está longe de ser igualitária.

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Água limpa e acessível para todos é uma parte essencial do mundo em que queremos viver e há água fresca suficiente no planeta para conseguirmos isso. No entanto, devido a fatores econômicos ou à infraestrutura precária, milhões de pessoas, incluindo crianças, morrem todos os anos de doenças associadas ao suprimento inadequado de água, saneamento e higiene.

Para melhorar o saneamento e o acesso à água potável, é necessário aumentar o investimento na gestão de recursos hídricos e instalações de saneamento em nível local.

Fatos:

  • 3 em cada 10 pessoas não têm acesso a serviços de água potável gerenciados com segurança e 6 em cada 10 pessoas não têm acesso a instalações de saneamento gerenciadas com segurança.
  • Pelo menos 892 milhões de pessoas continuam praticando defecação a céu aberto.
  • Mulheres e meninas são responsáveis pela coleta de água em 80% das famílias sem acesso à água nas instalações.
  • Entre 1990 e 2015, a proporção da população global que utiliza uma fonte melhorada de água potável aumentou de 76% para 90%.
  • A escassez de água afeta mais de 40% da população global e deve aumentar ainda mais.
  • Atualmente, mais de 1,7 bilhão de pessoas vivem em bacias hidrográficas onde o uso da água excede a recarga.
  • 2,4 bilhões de pessoas não têm acesso a serviços de saneamento básico, como banheiros ou latrinas.
  • Mais de 80% das águas residuais resultantes de atividades humanas são despejadas em rios ou no mar sem nenhuma remoção de poluição.
  • Todos os dias, quase 1.000 crianças morrem devido a doenças diarreicas evitáveis relacionadas à água e ao saneamento
  • Aproximadamente 70% de toda a água captada em rios, lagos e aquíferos é usada para irrigação.
  • Inundações e outros desastres relacionados à água são responsáveis por 70% de todas as mortes relacionadas a desastres naturais.

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A energia é um ponto crucial para quase todos os grandes desafios e oportunidades que o mundo enfrenta atualmente. Seja para empregos, segurança, mudanças climáticas, produção de alimentos ou aumento de renda, o acesso à energia para todos é essencial. Trabalhar para atingir esse objetivo é especialmente importante, pois ele se vincula aos outros Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. O foco no acesso universal à energia, no aumento da eficiência energética e no aumento do uso de energia renovável, por meio de novas oportunidades econômicas e de emprego, é crucial para criar comunidades mais sustentáveis e resilientes à questões ambientais, como as mudanças climáticas.

Felizmente, houve progresso na última década em relação ao uso de eletricidade renovável da água, energia solar e eólica e a proporção de energia usada por PIB também está em declínio.

No entanto, o desafio está longe de ser resolvido e é preciso haver mais acesso à combustíveis e tecnologias limpas, além de avanços na integração da energia renovável com suas aplicações de uso final em edifícios, transportes e indústria. Os investimentos públicos e privados em energia também precisam ser aumentados.

Fatos:

  • 13% da população global ainda não tem acesso à eletricidade moderna.
  • 3 bilhões de pessoas dependem de madeira, carvão, carvão vegetal ou de animais para cozinhar e se aquecer.
  • A energia é o principal contribuinte para as mudanças climáticas, representando cerca de 60% do total das emissões globais de gases de efeito estufa.
  • A parcela de energia renovável no consumo final de energia atingiu 17,5% em 2015.

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Aproximadamente metade da população mundial ainda vive com o equivalente a US$2,00 por dia, com taxas globais de desemprego de 5,7%. Ter um emprego não garante a capacidade de escapar da pobreza em muitos lugares. Esse progresso lento e desigual exige que repensemos e reformulemos nossas políticas econômicas e sociais destinadas a erradicar a pobreza.

O crescimento econômico sustentável exigirá que as sociedades criem condições que permitam às pessoas ter empregos de qualidade que estimulem a economia sem prejudicar o meio ambiente. Oportunidades de trabalho e condições de trabalho decentes também são necessárias para toda a população em idade ativa. É necessário aumentar o acesso a serviços financeiros para gerenciar receitas, acumular ativos e fazer investimentos produtivos.

Fatos:

  • A taxa global de desemprego em 2017 foi de 5,6% e em 2000 foi de 6,4%.
  • Os homens ganham 12,5% a mais do que as mulheres em 40 dos 45 países analisados.
  • A disparidade salarial global entre os sexos é de 23% em todo o mundo e, sem uma ação decisiva, levará mais 68 anos para alcançar remuneração igualitária.
  • A taxa de participação da força de trabalho das mulheres é de 63%, enquanto a dos homens é de 94%.
  • São necessários 470 milhões de empregos em todo o mundo para novos entrantes no mercado de trabalho entre os anos de 2016 e 2030.

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Os investimentos em infraestrutura, transporte, irrigação, energia e tecnologia da informação e comunicação são cruciais para alcançar o desenvolvimento sustentável e capacitar as comunidades em muitos países. O crescimento da produtividade e da renda e as melhorias nos resultados em saúde e educação exigem investimentos em infraestrutura.

O progresso tecnológico é a base dos esforços para atingir os objetivos ambientais, como aumento de recursos e eficiência energética. Sem tecnologia e inovação, a industrialização não acontecerá e, sem a industrialização, o desenvolvimento não virá. É preciso haver mais investimentos em produtos de alta tecnologia, que dominam as produções de manufatura, para aumentar a eficiência com foco em serviços de telefonia móvel, aumentando as conexões entre as pessoas.

Fatos:

  • 16% da população global não tem acesso a redes de banda larga móvel.
  • Todo trabalho na indústria cria 2,2 empregos em outros setores.
  • Nos países em desenvolvimento, apenas 30% da produção agrícola passa por processamento industrial. Nos países de alta renda, 98% são processados. Isso sugere que existem grandes oportunidades para os países em desenvolvimento no agronegócio.

Na próxima semana abordaremos os ODSs 10 a 17.

Referências

Organizações das Nações Unidas – Agenda 2030

Ambientalismo e suas origens

Você deve se perguntar quando foi que o ambientalismo começou. A preocupação com o impacto na vida humana, de problemas como a poluição do ar e da água, vem desde o período romano. A poluição foi associada à propagação de doenças epidêmicas na Europa entre o final do século XIV e meados do século XVI, e a conservação do solo foi praticada na China, Índia e Peru há mais de dois mil anos. Em geral, no entanto, essas preocupações não deram origem ao ativismo público.

O movimento ambiental contemporâneo surgiu, principalmente, de preocupações no final do século XIX acerca da proteção do campo na Europa e do deserto nos Estados Unidos e as consequências para a saúde da poluição durante a Revolução Industrial. Em oposição ao  liberalismo (filosofia política dominante da época), que sustentava que todos os problemas sociais, inclusive ambientais, poderiam e deveriam ser resolvidos por meio do livre mercado, a maioria dos primeiros ambientalistas acreditava que o governo, ao invés do mercado, deveria ser encarregado de proteger o meio ambiente e garantir a conservação de recursos.

Uma filosofia anterior de conservação de recursos foi desenvolvida por Gifford Pinchot (1865-1946), o primeiro chefe do Serviço Florestal dos EUA, para quem a conservação representava o uso sábio e eficiente dos recursos. Também nos Estados Unidos, na mesma época, surgiu uma abordagem mais fortemente biocêntrica na filosofia preservacionista de John Muir (1838 a 1914), fundador do Sierra Club. Além dele, Aldo Leopold (1887 a 1948), professor de gestão da vida selvagem, que foi crucial na proteção da Floresta Nacional de Gila, no Novo México, em 1924, como a primeira área selvagem nacional da América. Leopold, introduziu o conceito de ética da Terra, argumentando que os humanos deveriam se transformar, de conquistadores da natureza, em cidadãos dela.

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John Muir

As organizações ambientais estabelecidas entre o final do século XIX e meados do século XX eram principalmente grupos de lobby da classe média preocupados com a conservação da natureza, a proteção da vida selvagem e a poluição advinda do desenvolvimento industrial e da urbanização. Havia também organizações científicas preocupadas com a história natural e com aspectos biológicos dos esforços de conservação.

Embora os Estados Unidos tenham liderado o mundo em tais esforços durante esse período, outros desenvolvimentos de conservação notáveis ​​também estavam ocorrendo na Europa e Oceania. Por exemplo, um grupo de cientistas e conservacionistas suíços convenceu o governo a reservar 14.000 hectares de terreno nos Alpes Suíços com o objetivo de criar o primeiro parque nacional da Europa em 1914. Na Nova Zelândia, a Native Bird Protection Society (mais tarde a Royal Forest and Bird Protection Society, ou Forest & Bird) surgiu em 1923 em resposta à devastação decorrente da pecuária na ilha Kapiti.

A partir da década de 1960, as várias vertentes filosóficas do ambientalismo receberam expressão política por intermédio do estabelecimento de movimentos políticos “verdes” na forma de organizações não-governamentais ativistas e partidos políticos ambientalistas. Apesar da diversidade do movimento ambiental, quatro pilares forneceram um tema unificador para os objetivos gerais da ecologia política: proteção do meio ambiente, democracia de base, justiça social e não-violência. No entanto, um número pequeno de grupos ambientalistas e ativistas individuais se envolveu com ações ecoterroristas. A violência foi vista por eles como uma resposta justificada ao que eles consideravam um tratamento destruidor à natureza por alguns interesses, principalmente das indústrias madeireiras e de mineração. Os objetivos políticos do movimento verde contemporâneo no Ocidente industrializado se concentraram majoritariamente em mudar as políticas governamentais e promover valores sociais ambientais. Alguns desses movimentos incluem as campanhas na Tasmânia, nos anos 70 e 80, para bloquear as inundações do Lago Pedder e as represas do rio Franklin; protestos nos Estados Unidos e na Europa Ocidental contra o desenvolvimento de energia nuclear, especialmente após os acidentes catastróficos em Three Mile Island (1979) e Chernobyl (1986); a controvérsia de décadas relacionada à mineração de urânio no Território do Norte da Austrália, inclusive na mina de Jabiluka; protestos contra o desmatamento na Indonésia e na bacia amazônica; e campanhas em vários países para limitar o volume de gases de efeito estufa liberado por meio de atividades humanas.

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Julia Butterfly Hill, uma uma ativista que passou exatos 738 dias nas alturas, sem colocar os pés no chão sequer uma vez. Ela queria proteger uma sequoia!

Os movimentos socioambientais eram conscientemente ativistas e não convencionais, envolvendo ações de protesto direto destinadas a obstruir e chamar a atenção para políticas e projetos prejudiciais ao meio ambiente. Outras estratégias incluíram campanhas de educação pública e mídia, atividades dirigidas à comunidade e lobby convencional de formuladores de políticas e representantes políticos. O movimento também tentou dar exemplos públicos, a fim de aumentar a conscientização e a sensibilidade às questões ambientais. Tais projetos incluíam reciclagem, consumismo ecológico e o estabelecimento de comunidades alternativas, abrangendo fazendas autossuficientes, cooperativas de trabalhadores e projetos de habitação cooperativa.

Ambientalismo e a política

As estratégias eleitorais do movimento ambiental incluíram na época a nomeação de candidatos ambientais e o registro de partidos políticos verdes. Esses partidos foram concebidos como um novo tipo de organização política que trariam a influência do movimento ambiental de base diretamente para as máquinas do governo, tornando o meio ambiente uma preocupação central das políticas públicas e as instituições do Estado mais democráticas, transparentes e responsáveis. Os primeiros partidos verdes do mundo – o Values ​​Party, partido nacional da Nova Zelândia e o United Tasmania Group, organizado no estado australiano da Tasmânia – foram fundados no início dos anos 70. O primeiro membro explicitamente verde de uma legislatura nacional foi eleito na Suíça em 1979; mais tarde, em 1981, quatro “verdes” conquistaram cadeiras legislativas na Bélgica. Também foram formados partidos verdes no antigo bloco soviético, onde foram fundamentais no colapso de alguns regimes comunistas e em alguns países em desenvolvimento da Ásia, América do Sul e África, embora tenham alcançado pouco sucesso eleitoral no país.

O partido ambientalista de maior sucesso foi o Partido Verde Alemão (die Grünen), fundado em 1980. Embora não tenha conseguido representação nas eleições federais daquele ano, entrou no Bundestag (parlamento) em 1983 e 1987, ganhando 5,6% e 8,4%. por cento do voto nacional, respectivamente. O partido não obteve representação em 1990, mas em 1998 formou uma coalizão de governo com o Partido Social Democrata e a líder do partido, Joschka Fischer, foi escolhida como ministra das Relações Exteriores do país.

Nas duas últimas décadas do século XX, os partidos verdes conquistaram representação nacional em vários países e até reivindicaram o cargo de prefeito em capitais europeias como Dublin e Roma, em meados da década de 90. Fora da Europa, o Partido Verde da Nova Zelândia, que foi reconstituído do antigo Partido dos Valores em 1990, conquistou 7% dos votos nas eleições gerais de 1990. Sua influência aumentou para 9 dos 121 assentos parlamentares do país em 2002 e para 14 assentos parlamentares em 2014.

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Foto de Tania Malréchauffé

A essa altura, os partidos verdes haviam se tornado veículos políticos amplos, embora continuassem a se concentrar no meio ambiente. Ao desenvolverem a política partidária, eles tentaram aplicar os valores da filosofia ambiental a todas as questões enfrentadas por seus países, incluindo política externa, defesa e políticas sociais e econômicas.

Apesar do sucesso de alguns partidos ambientais, os ambientalistas permaneceram divididos sobre a importância da política eleitoral. Para alguns, a participação nas eleições é essencial porque aumenta a conscientização do público sobre questões ambientais e incentiva os partidos políticos tradicionais a abordá-las. Outros, no entanto, argumentam que os compromissos necessários para o sucesso eleitoral invariavelmente minam o  equilíbrio da democracia de base e da ação direta. Essa tensão foi talvez mais acentuada no Partido Verde Alemão. Os Realos do partido (realistas) aceitaram a necessidade de coalizões e compromissos com outros partidos políticos, incluindo partidos tradicionais com visões às vezes contrárias às do Partido Verde. Por outro lado, os Fundis (fundamentalistas) sustentaram que a ação direta deve permanecer como a principal forma de ação política e que nenhum pacto ou aliança deve ser formado com outros partidos.

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A tripulação a bordo do navio são os pioneiros do movimento verde que formaram o grupo original do Greenpeace. O objetivo da viagem era interromper os testes nucleares na Ilha Amchitka navegando para a área restrita. Foto: Greenpeace / Robert

ONGs e a força ambiental

No final dos anos 80, o ambientalismo havia se tornado uma força política global e nacional. Algumas organizações não-governamentais (por exemplo, Greenpeace, Amigos da Terra e World Wildlife Fund) estabeleceram uma presença internacional significativa, com escritórios em todo o mundo e sede internacional centralizada para coordenar campanhas de lobby e para servir como centros de campanha e de informações para seus afiliados nacionais. A construção de coalizões transnacionais foi e continua sendo outra estratégia importante para organizações ambientais e movimentos populares nos países em desenvolvimento, principalmente porque facilita o intercâmbio de informações e conhecimentos, mas também porque fortalece as ações diretas em nível internacional.

Por meio de seu ativismo internacional, o movimento ambiental influenciou a agenda da política internacional. Embora um pequeno número de acordos ambientais internacionais bilaterais e multilaterais estivesse em vigor antes da década de 1960, desde a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente em Estocolmo, em 1972, a variedade de acordos ambientais multilaterais aumentou para abranger a maioria dos aspectos da proteção ambiental, bem como muitas práticas com consequências ambientais, como a queima de combustíveis fósseis, o comércio de espécies ameaçadas, o gerenciamento de resíduos perigosos, especialmente resíduos nucleares, e conflitos armados. A natureza mutável do debate público sobre o meio ambiente se refletiu também na organização da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento COP 92, ocorrida no Rio de Janeiro, Brasil, na qual participaram cerca de 180 países e vários grupos empresariais, ONGs e a mídia. No século XXI, o movimento ambiental agregou às preocupações tradicionais de conservação, preservação e poluição outras preocupações mais contemporâneas, como as consequências ambientais de práticas econômicas tão diversas como turismo, comércio, investimento financeiro e conduta de guerra.

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Ações controvérsias da ONG Greenpeace

Escolas antropocêntricas de pensamento

Ambientalismo apocalíptico

A visão do movimento ambiental da década de 60 e início dos anos 70 era geralmente pessimista, refletindo um sentimento generalizado de “mal-estar da civilização” e uma convicção de que as perspectivas de longo prazo da Terra eram sombrias. Trabalhos como Silent Spring, de Rachel Carson (1962), The Tragedy of the Commons (Garrett Hardin) (1968), The Population Bomb (1968), de Paul Ehrlich, The Limits to Growth (Donella H. Meadows, 1972) e Edward Goldsmith’s Blueprint para Survival (1972) sugeriram que o ecossistema planetário estava atingindo os limites do que poderia sustentar. Essa literatura apocalíptica, ou sobrevivencialista, incentivou pedidos relutantes de alguns ambientalistas para aumentar os poderes dos governos centralizados sobre atividades humanas consideradas prejudiciais ao meio ambiente, um ponto de vista expresso de maneira mais vívida em Um inquérito, de Robert Heilbroner (1974), que argumentava que a sobrevivência humana acabou exigindo o sacrifício da liberdade humana. Contra-argumentos, como os apresentados em The Resourceful Earth (1984), de Julian Simon e Herman Kahn, enfatizaram a capacidade da humanidade de encontrar ou inventar substitutos para recursos escassos e em risco de esgotamento.

Book cover of Rachel Carson's Silent Spring, first published in 1962.

 

Ambientalismo emancipatório

A partir da década de 70, muitos ambientalistas tentaram desenvolver estratégias para limitar a degradação ambiental por meio da reciclagem, do uso de tecnologias de energia alternativa, da descentralização e democratização do planejamento econômico e social e, para alguns, de uma reorganização dos principais setores industriais, incluindo a agricultura e as indústrias de energia. Em contraste com o ambientalismo apocalíptico, o chamado ambientalismo “emancipatório” adotou uma abordagem mais positiva e prática, como o esforço para promover uma consciência ecológica e uma ética de “mordomia” do meio ambiente. Uma forma de ambientalismo emancipatório, a ecologia do bem-estar humano – que visa melhorar a vida humana criando um ambiente seguro e limpo – fazia parte de uma preocupação mais ampla com a justiça distributiva e refletia a tendência, mais tarde caracterizada como “pós-materialista”, dos cidadãos avançados.

O ambientalismo emancipatório também foi distinguido por alguns de seus defensores pela ênfase no desenvolvimento de sistemas de produção econômica em pequena escala, que seriam mais intimamente integrados aos processos naturais dos ecossistemas vizinhos. Essa abordagem mais ambientalmente holística do planejamento econômico foi promovida em trabalho, pelo ecologista americano Barry Commoner e pelo economista alemão Ernst Friedrich Schumacher. Em contraste com pensadores anteriores que subestimaram a interconectividade dos sistemas naturais, Commoner e Schumacher enfatizaram processos produtivos que trabalhavam com a natureza, não contra ela, incentivavam o uso de recursos orgânicos e renováveis ​​em vez de produtos sintéticos (por exemplo, plásticos e fertilizantes químicos), e defendiam recursos energéticos renováveis ​​e de pequena escala (por exemplo, energia eólica e solar), bem como políticas governamentais que apoiassem o transporte público eficaz e a eficiência energética.

A abordagem emancipatória foi evocada nos anos 90 no slogan popular “Pense globalmente, aja localmente”. Seu planejamento e produção descentralizados e em pequena escala foram criticados, no entanto, por serem irreais em sociedades altamente urbanizadas e industrializadas.

Tipos de ativismo ambiental

Os vários tipos de ativismo ambiental são categorizados em ativismo orientado à solução, ativismo focado na mudança e ativismo revolucionário. Os ativistas podem ter como objetivo conservar o meio ambiente ou até se opor a outros grupos de ativistas.

1. Ativismo ambientalista

O ambientalismo é um movimento cujos principais objetivos são a proteção e melhoria do meio ambiente. O foco está na mudança das atividades humanas por meio do uso de organizações sócio-políticas e econômicas. Os ativistas que apoiam essa ideia acreditam que, quando políticas sociais, econômicas e políticas são aprovadas, o ambiente natural deve ser considerado. Foi dessa vertente que surgiram os pensamentos ambientalistas, já retratados acima.

2. Ação individual e política

Esse tipo de ativismo visa reduzir a concentração de gases de efeito estufa (GEE) na atmosfera. O objetivo principal é diminuir os efeitos das mudanças climáticas. A ação política e a postura adotada por ativistas individuais levarão a uma mudança nas leis e regulamentos diretamente relacionados às mudanças climáticas e à redução das emissões de GEE.

Grupos ativistas nos EUA, como o Caucus Legislativo sobre Soluções Climáticas Bipartidárias e o Lobby do Clima do Cidadão, se formaram para apoiar as soluções propostas para o problema de emissões de GEE. Além disso, 50 ONGs formaram uma coalizão, em 2005, chamada Stop Climate Chaos, lançada na Grã-Bretanha com o principal objetivo de enfrentar a questão das mudanças climáticas.

3. Ativismo de conservação

Esse é um tipo de ativismo ambiental, cujo objetivo principal é a proteção de recursos naturais, plantas e animais. O movimento incentiva o uso dos recursos naturais de maneira sustentável, conservação da biodiversidade e preservação da natureza.

Como exemplo podemos citar um grupo de ativistas que protestou fortemente contra a construção da barragem de Reventazon, na Costa Rica. Várias condições não foram atendidas, comprometendo a sobrevivência dos onças-pintadas na região. Outros animais afetados incluem mais de 250 espécies diferentes de aves e mais de 80 espécies de répteis, mamíferos e anfíbios.

4. Ativismo pela justiça ambiental

Esse ativismo é definido como movimentos sociais cujo foco principal é uma distribuição justa e igual de benefícios e encargos no meio ambiente. Os ativistas que defendem a justiça social buscam resolver a questão da discriminação ambiental. Movimentos de justiça ambiental surgiram em todo o mundo com o objetivo de garantir que a equidade ambiental se torne um direito. Os ativistas desse movimento basearam a luta em regiões onde os níveis de discriminação são relativamente altos. Em Nova York, por exemplo, ativistas como Majora Carter tiveram um papel importante na criação de um projeto chamado South Bronx Greenway,  que permitiria ao público ter acesso ao espaço aberto.

4. Modernização ecológica

A ideia aqui é que o crescimento da economia só terá benefícios se visar o ambientalismo e foi iniciada por estudiosos do grupo em 1980. Os ativistas que apoiam essa ideia acreditam que a economia e a ecologia podem ser combinadas mediante a produtividade ambiental. A produtividade ambiental, por sua vez, é baseada na filosofia de que o uso de um recurso natural de maneira produtiva pode levar ao crescimento econômico no futuro. Por exemplo, a conservação do meio ambiente poderia levar a um aumento na eficiência energética e, portanto, as indústrias poderiam usar tecnologias limpas em substituição aos produtos perigosos.

5. Ativismo ambiental de base

Formada por um grupo de pessoas que usam direitos básicos, como liberdade de expressão para advogar por mudanças, o grupo não tem afiliações ou motivos políticos e age independentemente em suas campanhas. Os ativistas que exercem esse tipo de ativismo acreditam firmemente que uma mudança só pode ocorrer quando as pessoas agem. Por exemplo, as campanhas organizadas pelo Greenpeace para se opor aos testes de armas nucleares que estavam sendo realizados na França.

6. Ecoterrorismo

Também chamado de terrorismo ecológico ou ambiental, geralmente empregado em duas questões: quando governos, grupos ou indivíduos ameaçam ou provocam propositalmente a destruição do meio ambiente ou quando organizações, que se declaram defensoras da natureza, cometem crimes contra governos e empresas que prejudicam o meio ambiente. Esses ativistas às vezes cometem crimes ou causam violência que prejudicam pessoas, destroem propriedades ou mesmo o meio ambiente em geral. Entre os anos de 2003 e 2008, por exemplo, o Federal Bureau of Investigation associou o eco-terrorismo à destruição de propriedades no valor de US $ 200 milhões.  Esse tipo de ativismo é visto com descontento pela maioria dos outros tipos de ativistas e ambientalistas.

7. Ativismo local

Envolve organizar os habitantes locais para se oporem ou proporem políticas que visem a proteger seu meio ambiente. Na Carolina do Norte, o ativismo local é comum. Um exemplo é a organização formada pela comunidade que vive perto das montanhas Blue Ridge, com o principal objetivo de proteger a cobertura florestal encontrada na região.

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Ações conjuntas para limpeza de praias.

 

 

 

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Referências

Emancipatory Environmentalism: Civil Society and the Public Interest in Environmental Law

 Britannica – History Of The Environmental Movement

Peter, Dauvergne. (2009). History of Environmentalism.

Texto Curioso – Formigas – Conheça o maior império da história de nosso planeta!

Quando pensamos em grandes cidades, logo nos vem à mente construções humanas, com grandes vias de circulação de carros, lojas e arranha-céus. Porém, em outro post do site, mencionamos que a maior construção já feita por um ser vivo foi desenvolvida por cupins, em uma cidade subterrânea maior que o Reino Unido. Embora, em área contínua, essa possa ser a maior “cidade” da história, existe uma colônia de animais crescendo e se expandindo em uma velocidade nunca vista antes. Expandindo-se por todos os continentes, essa única colônia abriga milhões de indivíduos em diversos países, que são capazes de trabalhar em conjunto de forma surpreendente. Conheça o maior império atual do nosso planeta, a Mega-Colônia Global das Formigas!

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Trabalho em equipe de formigas-argentinas – Fotógrafo desconhecido

Hoje em dia, as formigas são um dos grupos de animais que dominam nosso planeta. Desde seu surgimento, há 140 milhões de anos, esses animais se tornaram uma parte crucial dos ecossistemas em que vivem, ocupando os mais diversos nichos possíveis. Atualmente, esse grupo conta com mais de 16.000 espécies conhecidas e compõe entre 15 e 25% da biomassa total de animais em terra firme. Existem cerca de 10 quatrilhões de  formigas no planeta, o que equivale a 1,25 milhões de formigas para cada ser humano na Terra. Esses insetos, que desenvolveram formas de agricultura e pecuária, são capazes de derrubar ou criar novas florestas e são a base de diversos ecossistemas.

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Diversidade morfológica de algumas espécies de formiga – Por Benoit Guénard

Devido à complexidade de suas sociedades, é inevitável que, ao se encontrarem, espécies e colônias diferentes entrem em conflito. Em alguns casos, um pequeno confronto pode desencadear no completo extermínio de outro formigueiro, com milhões de corpos espalhados ao final da batalha. Entretanto, esse não é sempre o caso. A formiga-argentina (Linepithema humile) é uma espécie que possui interações sociais peculiares, com 300 rainhas existindo para cada 1.000 operárias. Além disso, em muitos casos, formigas de colônias próximas, geralmente com um ancestral em comum, podem trafegar livremente entre os formigueiros, o que cria uma rede colaborativa entre diferentes populações. Em seu habitat, essa espécie já era extremamente bem sucedida. O que ninguém esperava, porém, era que esses animais conquistariam todos os continentes do planeta com a ajuda do ser humano.

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Com uma distribuição original restrita ao sul do Rio Paraná, essa espécie de formiga colonizou todos os continentes, com exceção da Antártida – Por Xavier Espadaler

Transportada da América do Sul para outros locais por meio de embarcações, essas formigas rapidamente criaram super colônias nos países em que chegaram, formando uma grande rede de formigueiros conectados que se estendia por centenas de quilômetros. Por ser uma espécie exótica fora da América do Sul, as formigas-argentinas tornaram-se invasoras, uma vez que não possuem predadores nos novos territórios que conquistaram. Dessa forma, elas foram capazes de atingir números populacionais gigantescos, extirpando diversas áreas de suas espécies nativas. Ao estudar as relações sociais dessa espécie, cientistas perceberam que todas as grandes colônias dos Estados Unidos comportavam-se como uma só, sendo agressivas apenas com formigas de colônias menores, provavelmente descendentes de uma onda de colonização mais recente no país. O mesmo foi observado na Europa, Japão, Austrália e em diversas ilhas do Pacífico, o que levou pesquisadores a questionar as relações sociais inter-continentais desses organismos.

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Uma das regiões estudadas, a Europa apresenta uma supercolônia que se estende por quase seis mil quilômetros – Por Giraud, T., Pedersen, J.S. et al.

Por esse motivo, cientistas de vários países se reuniram em 2009 para testar os níveis de agressão entre diversas colônias do planeta. Ao transportarem formigas entre diferentes regiões e soltá-las perto de um formigueiro, os biólogos puderam observar e registrar se elas se comportariam de forma agressiva ou se as formigas recém-chegadas seriam bem-vindas. Enquanto a agressividade era mais comum entre formigas de diferentes áreas da América do Sul, ao transportar esses animais entre a América do Norte, Europa e o Japão, as recém-chegadas rapidamente passavam a integrar a colônia local. O experimento foi repetido diversas vezes e sempre apresentou o mesmo resultado: as formigas-argentinas desses três continentes se comportam como uma mega-colônia mundial.

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Linepithema humile – Foto do GLOBAL INVASIVE SPECIES DATABASE

Ao todo, essa mega-colônia ocupa uma área de 6.900 km², totalizando bilhões de operárias e rainhas. Se fosse um país, a população desse império seria a maior do planeta. Em área, ele ocuparia a 163ª posição do mundo, sendo maior que a Palestina, Malta, Barbados, Cabo Verde, dentre outros. Para fins comparativos, consideremos que os humanos são cerca de 7.200 vezes maior do que esses animais. Se seu território fosse proporcionalmente 7.200 maior, ele teria 49,7 milhões de km², sendo maior que o Império Britânico, o maior em área da história. Recentemente, porém, outros pesquisadores apontaram que as populações do Havaí, da Austrália e da Nova Zelândia também possam fazer parte da mega-colônia, o que aumentaria sua área de forma significativa.

Localização das megacolônia em amarelo

 

Assim como os humanos, diversos animais criam sociedades complexas que apenas recentemente começamos a compreender. As Linepithemas são um lembrete da complexidade desses animais e da importância do conhecimento sobre esses organismos cruciais para a vida de diversos ecossistemas. Mesmo sendo animais comuns, as formigas possuem uma diversidade inimaginável, criando uma das redes de interações mais complexas de nossa biosfera.

Por esse motivo, é com muito orgulho que o Tunes Ambiental está apoiando o XXIV Simpósio de Mirmecologia, o maior encontro científico sobre formigas do planeta, que acontecerá no Campus Pampulha da Universidade Federal de Minas Gerais, em Belo Horizonte – MG. Com centenas de pesquisadores nacionais e internacionais, o evento ocorrerá no período de 30 de setembro a 04 de outubro de 2019, e tem como objetivo integrar as várias áreas do conhecimento científico que contribuem para o avanço da mirmecologia. Mais informações no site: http://mirmecobh2019.com.br/

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Referências

https://www.atlasobscura.com/articles/how-the-world-became-a-giant-ant-colony

http://www.bbc.com/earth/bespoke/story/20140908-battle-of-the-ants/index.html

http://news.bbc.co.uk/earth/hi/earth_news/newsid_8127000/8127519.stm

This Three-Continent Ant Mega-Colony WILL Conquer Earth Soon

Artigo “Intercontinental union of Argentine ants: Behavioral relationships among
introduced populations in Europe, North America, and Asia” (2009) – Por ESPADELER, X. e TERAYAMA, M.

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC122904/

https://blogs.scientificamerican.com/news-blog/ant-colony-crosses-continents-2009-07-02/

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3352483/

https://www.researchgate.net/publication/228654113_Worldwide_spread_of_the_Argentine_ant_Linepithema_humile_Hymenoptera_Formicidae

https://www.antweb.org/description.do?genus=linepithema&species=humile&rank=species

http://www.iucngisd.org/gisd/species.php?sc=127

Saara – O paraíso transformado em deserto

Imagine um ambiente megadiverso, repleto de um mosaico de savanas, pântanos e florestas tropicais, no continente africano. Manadas de elefantes vivem em meio a leões, antílopes e zebras, enquanto o solo fértil da região permitiu o surgimento de grandes civilizações, que, por sua vez, criaram novas técnicas de agricultura e construíram verdadeiros impérios. Em volta de grandes rios, esses povos ergueram templos e pirâmides, que resistiram à ação do tempo por milhares de anos e foram redescobertos apenas recentemente.  Embora essa descrição também se encaixe com a do Egito Antigo, essa região fértil se estendia desde o Delta do Nilo até o Oceano Atlântico. Hoje, o local mais quente do planeta, esse enorme deserto, já foi um verdadeiro paraíso para diversas populações humanas, há poucos milhares de anos.

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Foto por Marsel van Oorsten

Quando pensamos no Saara, logo imaginamos um grande ambiente hostil, que isola o Magrebe da África Subsaariana. Com pouquíssimas fontes naturais de água, temperaturas que podem chegar a 58°C e grandes tempestades de areias, essa região do tamanho da Europa é uma das mais inóspitas para a vida. Por esse motivo, poucos estudos são realizados no Saara em comparação com outros desertos quentes. Apenas recentemente, com o avanço de tecnologias de monitoramento via satélite, toda sua área está sendo detalhadamente conhecida, o que revelou algumas das mais impressionantes descobertas arqueológicas do planeta.

Camels making their way through the Sahara
Por  Hillary Fox

Ao analisarem depósitos de rocha de diversas regiões do Saara de até 240.000 anos de idade, pesquisadores do MIT (Massachusetts Institute of Technology) concluíram que esse enorme deserto possui ciclos de  avanços e retrações, que ocorrem a cada 20 mil anos. Durante esse tempo, mudanças na  inclinação da órbita terrestre fazem com que grandes florestas tropicais e savanas alagadas sejam rapidamente convertidas em deserto, eliminando a maior parte da biodiversidade local. Quando o Norte da África recebe um maior grau de incidência solar, as monções são intensificadas, o que gera um aumento do regime de chuvas na região e torna o Saara um paraíso verde. Entretanto, quando a incidência solar diminui, as chuvas tornam-se escassas na área, chegando a menos de 1mm anual em certos pontos, o que ocasiona a expansão do deserto. Esse fato contrasta com o que sabíamos sobre os ciclos climáticos da Terra, uma vez que a periodicidade de eras do gelo, também determinadas pela inclinação terrestre, é de cerca de 100 mil anos, o que indica que outras forças também influenciam os ciclos de glaciação.

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A maior parte do Saara era semelhante às savanas verdes de regiões úmidas da África – Foto por Chris Cooper

Uma pergunta que sempre intrigou os cientistas é como diversos grupos de animais, incluindo o ser humano, conseguiram atravessar milhares de quilômetros de areia para sair da África Subsaariana e chegar até o Oriente Médio, colonizando outras regiões posteriormente. Esses ciclos temporais do Saara não só permitiram essa passagem, como também foram responsáveis por diversos eventos de especiação na região, que hoje possui faunas únicas isoladas por um mar de areia. Acredita-se que, entre 130.000 e 100.000 anos atrás, o ser humano foi capaz de sair da África devido a corredores verdes criados por esse sistema de chuvas, mudando completamente o curso de nossa história.  O modelo proposto pelos pesquisadores do MIT explica perfeitamente a história de nossa expansão e da expansão dessas espécies, que migraram, não por desertos inóspitos, mas, sim, por ambientes férteis e verdejantes.

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Corredor de rios possibilitou a migração de hominídeos para fora da África – Retirado do artigo de  Osborne et. al. (2008)

Em 2015, uma equipe de cientistas franceses publicou na revista Nature Communications um achado que confirmou o passado verde do Saara. Utilizando um sistema avançado de mapeamento por satélite, eles descobriram um complexo de rios secos, que cruzavam grande parte do Saara há menos de 5 mil anos. Esses rios proporcionavam a água necessária para o sustento de diversos ecossistemas na região e suas bacias interligavam os principais ambientes férteis africanos. Dessa forma, não seria estranho se grandes civilizações, assim como a egípcia, tivessem habitado países como o Sudão, Chad, Níger ou a Mauritânia, no passado.

Paleobacias hidrográficas do Saara – Por Nature Communications

Somado a isso, pesquisadores de Cambridge descreveram diversos lagos antigos para a região, em 2010, um fato que permaneceu sem explicação até o descobrimento das bacias hidrográficas extintas e dos ciclos climáticos do Saara. Dentre eles, o lago Mega-Chad era o maior de todos, com uma área de 360.000 quilômetros quadrados e mais de 247 metros de profundidade. Atualmente, o Lago Chad é um pequeno remanescente desse mar continental, que possui apenas 354 quilômetros quadrados e que continua a diminuir a cada ano. A área seca do Mega-Chad, entretanto, é composta por uma areia incrivelmente fina e rica em nutrientes, que é carregada pelo vento por intermédio do Oceano Atlântico até a Amazônia, contribuindo para sua fertilização.

Mega Chad was the biggest freshwater lake on earth covering 139,000 sq miles (360,000 sq km) of Central Africa. The graphic above shows how it has shrunk to just 137 sq miles
Tamanho do Lago Chad em comparação ao lago Mega-Chad – Por DailyMail
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Mapa contendo principais rios e lagos do Saara verde (os nomes das regiões são fictícios) – Retirado do site Worldanvil

Com tantos rios e lagos no passado do Saara, essa área extremamente fértil atraiu milhares de pessoas, que construíram grandes cidades na região. Com uma cultura similar à do Egito, esses povos ergueram templos e pirâmides por toda porção Noroeste da África, criando técnicas complexas de urbanismo e de agricultura. Por mais estranho que isso possa parecer, essas grandes civilizações foram descobertas apenas recentemente com o uso de drones e satélites, sobretudo devido ao tamanho do deserto. Além dos já conhecidos sítios arqueológicos no Egito e no Sudão, pesquisadores encontraram outros na Líbia, Chad e Mali, demonstrando o potencial para novas pesquisas na região. Outro fator que contribui para a dificuldade em encontrar ruínas no Saara é a mobilidade das dunas, que podem ter dezenas de metros de profundidade. A Esfinge de Gizé, por exemplo, estava quase totalmente enterrada quando foi descoberta, assim como diversas pirâmides menores do Egito.

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Ruínas de fortificação do povo Garamantes, na Líbia (acima) e de construções funerárias (abaixo) – Fotógrafos desconhecidos

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Foto de forte do Garamantes descoberto com o uso de satélites mostra campos de plantio e técnicas de irrigação – U. Leicester
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Esfinge de Gizé quando descoberta pelos europeus (acima) em comparação com a área já escavada atualmente (abaixo)  – Por b. Anthony Stewart

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O Sudão possui mais pirâmides conhecidas do que o Egito – Foto do  Getty Images

Mas então, o que aconteceu com as milhões de pessoas e animais que viviam no Saara? O fim do período chuvoso africano fez com que diversos rios secassem, o que impulsionou ondas migratórias em toda a região.  Além de enormes manadas de elefantes e antílopes, cidades humanas inteiras também migravam, levando consigo milhares de bois, ovelhas e, sobretudo, cabras, animais com extremo poder devastador em populações de plantas nativas. Por onde fossem, os humanos traziam essas espécies invasoras, que comiam toda vegetação do local, o que contribuía para processos ainda mais rápidos de desertificação. Cientistas acreditam que o Saara se transformou em um deserto em apenas pouco mais de 100 anos, o que demonstra a velocidade em que grandes mudanças podem ocorrer em nosso planeta.

Esquema mostrando diferenças na concentrações humanas ao longo do tempo no Saara – Por Kröpelin et. al.
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Diversas ossadas humanas antigas foram encontradas em regiões previamente habitadas do Saara – Foto por Mike Hettwer

Com essa mudança abrupta, diversos povos e populações de animais morreram rapidamente. Hoje, cerca de 86% da megafauna do Saara está extinta ou ameaçada. Grandes animais de savanas, como elefantes, leões, guepardos e cachorros-pintados, não sobreviveram na região, enquanto outros restaram com populações extremamente fragmentadas. Além disso, o aquecimento global está contribuindo de forma significativa para o aumento das áreas desertificadas na região, ameaçando ainda mais as savanas e florestas do Norte da África. Desde 1920, o deserto já cresceu mais de 10%, em uma velocidade cada vez maior.

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Uma vez comum no Saara, o Órix-cimitarra (Oryx dammah) está extinto na natureza – Por BIOSPHOTO
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Alcelaphus buselaphus buselaphus, extinto no século XIX
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O Guepardo-do-Saara é um dos felídeos mais raros do mundo – Farid Belbachir
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Embora comum em cativeiro, o dromedário está extinto na natureza há mais de 2 mil anos – Foto por PixaBay

O Saara teve uma importância significativa para a nossa evolução, considerando que foi por meio de seus corredores verdes do passado que os humanos conseguiram migrar para outras partes do mundo. No entanto, a desertificação recente da região obrigou povos a se deslocarem para outras regiões e provocou a extinção de inúmeras espécies. Com o agravamento do aquecimento global, tememos que, cada vez mais, savanas e florestas sejam destruídas. A história desse deserto revela a velocidade com que as mudanças acontecem na natureza e, com os processos de desertificação ocorrendo em diversas regiões do mundo, sobretudo na Amazônia, questionamos se novos Saaras vão surgir em breve.

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Referências

https://phys.org/news/2019-01-sahara-swung-lush-conditions-years.html

https://qz.com/africa/549573/5000-years-ago-the-sahara-desert-was-home-to-people-animals-and-lush-vegetation/

https://www.nature.com/scitable/knowledge/library/green-sahara-african-humid-periods-paced-by-82884405/

https://www.theguardian.com/science/2015/nov/10/ancient-river-network-discoverd-buried-under-saharan-sand

http://news.mit.edu/2019/study-regulating-north-african-climate-0102

https://www.smithsonianmag.com/smart-news/three-ancient-rivers-long-buried-by-the-sahara-created-a-passage-to-the-mediterranean-7222072/

https://www.sciencemag.org/news/2015/02/drones-and-satellites-spot-lost-civilizations-unlikely-places

https://www.sciencedaily.com/releases/2013/09/130911184712.htm

https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/ddi.12157

https://www.sciencedaily.com/releases/2013/12/131203124530.htm

https://www.nationalgeographic.com/news/2011/11/111111-sahara-libya-lost-civilization-science-satellites/

https://www.hindustantimes.com/world-news/sahara-desert-has-grown-by-10-since-1920-due-to-climate-change-says-study/story-use6q6ByRUc7wh6wriRkFM.html

https://www.pnas.org/content/105/43/16444

https://www.smithsonianmag.com/science-nature/what-really-turned-sahara-desert-green-oasis-wasteland-180962668/

https://www.independent.co.uk/environment/sahara-worlds-largest-desert-climate-change-growth-global-warming-sahel-a8280361.html

https://theconversation.com/humans-may-have-transformed-the-sahara-from-lush-paradise-to-barren-desert-74666

Ancient megalake discovered beneath Sahara Desert

Clique para acessar o megalakes_in_the_sahara_a_review.pdf

https://www.dailymail.co.uk/news/article-3143617/Scientists-discover-Sahara-Desert-contained-world-s-largest-lake-named-Mega-Chad-1-000-years-ago-evaporated-just-years.html

86 percent of big animals in the Sahara Desert are extinct or endangered

 

 

 

 

 

 

Como sua dieta afeta o meio ambiente?

Você é o que come, como diz o ditado, e, embora boas escolhas alimentares melhorem sua própria saúde, elas também podem melhorar o sistema de saúde e até beneficiar o planeta. Pessoas mais saudáveis significam não apenas menos doenças, mas também emissões reduzidas de gases de efeito estufa.

Então, você quer reduzir sua pegada de carbono? Você pode considerar melhorar sua dieta. Os cientistas dizem que a produção de alimentos, incluindo o plantio, a criação de animais, a pesca e o transporte para os nossos pratos é responsável por 20% a 30% do total dos níveis globais de gases de efeito estufa. Além disso, 33% do solo livre de gelo em nosso planeta está sendo usado para cultivar nossos alimentos, dizem os pesquisadores.

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Foto de Louis Hansel

De acordo com a Global Footprint Network, organização de pesquisa que combate o aquecimento global, seriam necessários 4 planetas Terra para sustentar o mesmo ritmo de consumo da população mundial até 2050. A realidade é que, com a maior disponibilidade, menor preço e mais acesso aos alimentos, passamos a consumir de forma desenfreada carnes vermelhas e a desperdiçar mais alimentos sem compostá-los adequadamente. Segundo o World Resources Institute (WRI), o Brasil anualmente descarta cerca de 41 mil toneladas de comida, nos colocando entre os 10 países que mais desperdiçam alimentos.

Mas como a alteração de nossas dietas pode mudar isso? Um novo estudo publicado no PNAS (jornal da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos) descobriu que, se os cidadãos de 28 países de alta renda, como Estados Unidos, Alemanha e Japão, realmente seguissem as recomendações alimentares de seus respectivos governos, os gases de efeito estufa relacionados à produção dos alimentos que eles comem cairiam de 13 % a 25%. Ao mesmo tempo, a quantidade de terra necessária para produzir esses alimentos poderia cair em até 17%.

“Pelo menos em países de alta renda, uma dieta mais saudável leva a um ambiente mais saudável”, disse Paul Behrens, cientista ambiental da Universidade de Leiden, na Holanda, que liderou o trabalho. “É ganha-ganha”.

Para chegar a essa conclusão, Behrens procurou o Exiobase, um enorme banco de dados de entrada e saída que representa toda a economia mundial. Isso permitiu que ele acompanhasse não apenas o custo ambiental de cultivar e transportar os vários tipos de alimentos que consumimos, mas também o custo das máquinas envolvidas na produção desses alimentos e o custo de colocá-los em nossos supermercados e, eventualmente, em nossos pratos. O banco de dados também leva em consideração que alguns países são mais eficientes na produção de alimentos do que outros. Por exemplo, cultivar tomates na Inglaterra consome mais energia do que cultivá-los na Espanha, onde é mais quente. Da mesma forma, um bife de uma vaca alimentada com grãos na Inglaterra tem uma pegada ambiental menor do que um de uma vaca alimentada com capim no Brasil.

“É excelente termos essas informações”, disse Behrens. “Você pode rastrear o impacto de qualquer consumo em todo o mundo.”

Para este estudo, Behrens reuniu dados sobre as dietas médias de pessoas que vivem em 39 países, bem como as recomendações alimentares formuladas pelos governos desses países. Para garantir que os resultados representassem as formas recomendadas de comer e não apenas uma redução na quantidade consumida, ele manteve as contagens de calorias de ambas as dietas iguais e apenas alterou a porcentagem dos diferentes grupos de alimentos que as pessoas realmente comem, comparando o resultado. Ele analisou três maneiras pelas quais o meio ambiente é afetado por nossas dietas: emissões de gases de efeito estufa, uso da terra e eutrofização, que é a adição de nutrientes às fontes de água que podem levar à proliferação de algas tóxicas e à falta de oxigênio na água. A eutrofização é geralmente causada pela descarga de resíduos de animais (esterco), esgoto doméstico e fertilizantes vegetais.

Os resultados estavam longe de ser uniformes, mas, em termos gerais, ele descobriu que os países mais ricos reduziriam seu impacto ambiental se seus cidadãos seguissem dietas recomendadas nacionalmente, principalmente porque a maioria dessas recomendações exige uma redução significativa na quantidade de carne consumida.

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Foto de Avel Chuklanov

“Em geral, a carne é pior do que outros tipos de comida, porque toda vez que algo come outra coisa, você perde energia”, disse Behrens. “Comer qualquer animal terá mais impacto em comparação com outros grupos de alimentos”.

Ajustes significativos e relativamente pequenos na dieta podem resultar em uma relevante mudança na sua pegada de carbono. Essa também foi a descoberta de um estudo liderado por pesquisadores da UC Santa Barbara, que analisaram os efeitos potenciais de dietas modelo mais saudáveis para os Estados Unidos. Os resultados apareceram na revista Climatic Change.

 “As pessoas analisaram o efeito que as dietas têm sobre o clima e a saúde, mas nunca examinaram o potencial de mitigar as mudanças climáticas por meio do sistema alimentar e do sistema de saúde juntos”, disse o diretor de estudos David Cleveland, professor de pesquisa no programa de estudos ambientais e departamento de geografia da UC Santa Barbara.

A produção alimentar contribui com cerca de 30% das emissões totais de gases de efeito estufa dos EUA, sendo que a maior proporção é proveniente de alimentos de origem animal. Além disso, a baixa qualidade da dieta padrão dos EUA, incluindo altos níveis de carne vermelha e processada e baixos níveis de frutas e legumes, é um fator importante em várias doenças evitáveis. Os EUA gastam US$ 3 trilhões em assistência médica todos os anos, o que representa 18% do produto interno bruto, tendo grande parte desse valor alocado a doenças associadas a dietas precárias.

Não é somente as emissões de gases de efeito estufa que estão ligadas à sua alimentação. Para produzir alimentos utilizamos muita água. No infográfico abaixo, retirado do site Huff Post, podemos comparar o impacto gerado por alguns alimentos:

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Canva/Luiza Belloni

 

Solução do problema…

Para criar dietas modelo mais saudáveis, os pesquisadores alteraram a dieta americana padrão de 2.000 calorias por dia, alterando as fontes de aproximadamente a metade dessas calorias. As diferentes dietas modelo reduziram progressivamente a quantidade de carnes vermelhas e processadas, e nas dietas mais rigorosas elas foram eliminadas completamente. A ingestão de frutas e vegetais foi dobrada e o consumo de ervilhas e feijões aumentou para substituir a proteína da carne removida. Grãos refinados foram parcialmente substituídos por grãos integrais. O açúcar adicionado, que Cleveland observou ser um risco conhecido para a saúde, não foi reduzido, nem laticínios, ovos, peixe ou carne não vermelha.

“Isso significa que nossas estimativas são provavelmente muito conservadoras, tanto em termos de implicações para a saúde quanto para as mudanças climáticas”, afirmou Cleveland. “Apenas mudando metade da dieta e incluindo apenas algumas das doenças associadas às dietas, encontramos um efeito enorme.

“Os alimentos têm um tremendo impacto no meio ambiente”, acrescentou. “Isso significa que há um enorme potencial para que nossas escolhas alimentares tenham efeitos positivos em nosso meio ambiente, bem como em nossa saúde e em nossos custos com saúde”.

Diante desses estudos é possível afirmar que se cada cidadão reduzisse seu consumo de carnes vermelhas e de industrializados provocaria uma grande redução do impacto que sua alimentação possui no meio ambiente. Esse assunto já foi abordado no artigo Eu não disse para você ser VEGETARIANO!.

A verdade é uma só: não precisamos do mundo inteiro tomando atitudes extremas em prol do meio ambiente. Necessitamos, sim, de cada um mudando aquilo que estiver ao seu alcance para reduzir o seu próprio impacto.

 

Veja também:

 

Referências 

Global Footprint Network

World Resources Institute (WRI)

Artigos: 

Evaluating the environmental impacts of dietary recommendations” – Paul Behrens e colegas. 

A healthier US diet could reduce greenhouse gas emissions from both the food and health care systems” David A. Cleveland e colegas

Derretimento do Permafrost e sua ameaça à humanidade

O permafrost, também chamado de pergelissolo, é um tipo de solo encontrado  em altas latitudes do Hemisfério Norte, próximo ao Círculo Polar Ártico. Como o nome indica, ele é permanentemente congelado (pergeli = gelo permanente; em inglês perma = permanente, e frost = congelado), sendo composto também por terra e rocha. Essa designação se refere a quaisquer tipos de terreno que permaneceram congelados por mais de dois anos consecutivos nessas localidades, inclusive durante o verão. Nos últimos milhares de anos, diversas eras glaciais contribuíram para a formação e manutenção de grandes áreas dos permafrosts atuais, que armazenaram uma grande quantidade de informações sobre o planeta no passado. Embora algumas regiões tenham permanecido congeladas nos últimos 740 mil anos, esse gelo vem derretendo com extrema rapidez, o que pode ameaçar até mesmo a existência da espécie humana.

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Mapa mostrando as regiões de ocorrência do permafrost em 1998 – Elaborado pela International Permafrost Association

Nos últimos 2.58 milhões de anos, o planeta tem passado por diversos períodos de glaciações e interglaciações, marcados por mudanças extremas na temperatura média do planeta. Esses eventos são causados pelo chamado ciclo de Milankovitch, que consiste em uma pequena modificação da posição da órbita terrestre ao longo dos anos, o que resulta na alteração da quantidade de incidência solar que atinge o planeta (tema explorado no texto Era do Gelo: Porque o aquecimento global pode causar um resfriamento nas altas latitudes?). Durante as glaciações mais recentes, sobretudo a última, que ocorreu de 115.000 a 11.700 anos atrás, grandes porções do Ártico foram transformadas em pergelissolo, após a água infiltrada em solos úmidos congelar, em regiões em que a média de temperatura não ultrapassava os -2°C ao longo do ano.

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Ciclos de glaciação têm ocorrido nos últimos 2.58 milhões de anos
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Mapa mostrando a localização de geleiras durante o último período glacial – Por PALEOMAP Project
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Permafrost russo – Fotógrafo desconhecido

 

Após a extinção do mamute-lanoso (Mammuthus primigenius) nas regiões continentais, há cerca de 10 mil anos, diversas áreas de estepes e pradarias também foram transformadas em permafrost. As grandes manadas desses animais contribuíam para o revolvimento do solo, o que permitia o crescimento de diversas gramíneas e arbustos na região. Com o seu desaparecimento, provavelmente ocasionado pela interferência do ser humano, o chão dessas planícies foi se tornando mais compacto, contribuindo para o acúmulo de água próximo à superfície e, consequentemente, para o seu congelamento.

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Os mamutes eram espécies-chave para os ecossistemas árticos durante o Pleistoceno – Arte por Tom Björklund

Entretanto, o pergelissolo começou a diminuir em todo o mundo nos últimos séculos, o que proporcionou diversas descobertas para cientistas ao redor do globo. Em várias regiões, o permafrost é protegido por uma camada de solo fértil, que varia entre 10 e 200 cm, que possibilita o crescimento de certos tipos de vegetação. Por outro lado, o permafrost pode chegar a mais de 1.500 metros de espessura, contendo diversos tipos de organismos congelados há milhares de anos. A redução do gelo no chão possibilitou que rinocerontes-lanudos, mamutes, cavalos extintos e lobos-gigantes fossem encontrados, preservados em perfeito estado por milhares de anos devido às baixas temperaturas e condições de umidade, possibilitando até a extração de DNA desses animais.

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O derretimento do permafrost que sustenta camadas de solos férteis faz com que florestas inteiras afundem no chão – Foto por Mady Macdonald
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Múmia de rinoceronte-lanoso (Coelodonta antiquitatis) – Foto pela Academy of Sciences of the Republic of Sakha
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Lyuba, mamute mais bem preservado do mundo, encontrada na Rússia em 2007 – Foto por Aaron Tam
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Cabeça de lobo-gigante (Canis dirus) encontrada por pescadores, na Sibéria – Por Nao Fundation

 

Em 2012, sementes de Silene stenophylla foram encontradas congeladas no solo Siberiano e se mostraram viáveis, o que chocou ainda mais os cientistas da região. Encontradas a 38 metros de profundidade, em meio a diversos ossos de mamutes e bisões, elas foram transportadas para um centro de pesquisa, onde foram plantadas e, para a surpresa de todos, geminaram após 32 mil anos de dormência. Apesar da alegria inicial, logo o poder de preservação do permafrost mostrou-se eficiente demais: vírus de mais de 30 mil anos  foram encontrados na região e também se mostraram viáveis. Mesmo não oferecendo riscos aos seres humanos, sua descoberta levantou a possibilidade de o aquecimento global libertar outros tipos de patógenos que ofereçam risco, podendo originar novos surtos de doenças.

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Silene stenophylla germinada após 30 mil anos de dormência – Foto por National Academy of Sciences
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Pithovirus, encontrado ativo no permafrost após 30 mil anos

Dois anos depois dessa descoberta, um surto de uma doença mortal assustou moradores da cidade de Yamal, na Rússia. Após o solo próximo a essa localidade derreter pela primeira vez em 70 anos, carcaças de animais contendo esporos da bactéria Bacillus anthracis ficaram expostas e contaminaram uma rena na região. Poucas semanas depois, mais de 2.000 renas foram encontradas mortas na localidade e 96 pessoas foram hospitalizadas. Além disso, um garoto de 12 anos morreu após ingerir carne contaminada na área, o que levou o CDC (Center of Disease Control) a se preocupar com a região, uma vez que essa bactéria, também conhecida como antrax, já foi até mesmo utilizada como arma biológica devido à sua elevada letalidade. Uma intensa campanha de vacinação ocorreu para imunizar as renas locais, mas o cenário ainda é alarmante. Para piorar, diversas porções da Sibéria possuem antigas covas comunitárias repletas de corpos infectados com varíola, doença altamente infecciosa, atualmente erradicada em todo o mundo. O aquecimento global pode, pela primeira vez em mais de 40 anos, gerar epidemias de uma das doenças mais letais da história.

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Mais de 2 mil renas morreram em decorrência do Antrax, na Rússia
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Mais de 800 mil renas foram vacinadas na região para evitar a proliferação da bactéria – Russian Emergency Ministry
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Amostras de varíola foram retiradas do solo siberiano perto de cidades – Russian Emergency Ministry

Embora menos famoso, o derretimento do pergelissolo causado pelo aquecimento global é incrivelmente mais perigoso do que o de geleiras, não só para nossa espécie, mas também para todo o planeta. Esse substrato, que ocupa mais de 25% da terra firme exposta do Hemisfério Norte, surgiu em meio a grandes quantidades de matéria orgânica presentes no solo. Dessa forma, ele acumulou, ao longo de milhares de anos, bilhões de toneladas de carbono, sobretudo na forma de metano e gás carbônico, e sua liberação agravaria ainda mais o efeito estufa. Um estudo publicado pela revista Bioscience apontou que o permafrost possui até duas vezes mais carbono do que a quantidade atualmente presente na atmosfera (mais de 300 bilhões de toneladas, quantidade superior a das plantas no planeta)  e sua total liberação poderia acabar com ecossistemas do mundo inteiro. Nos níveis atuais de degelo, mais de 1 bilhão de toneladas de carbono poderão ser liberadas na atmosfera todos os anos, o que aceleraria em até 30% o aquecimento global. Entretanto, quanto mais carbono for liberado, mais rápido será esse derretimento, perpetuando um círculo vicioso.

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Em algumas regiões, a concentração de metano sendo liberada é tanta que o gelo pode pegar fogo – Foto por Mark Thiessen

Por fim, o que mais preocupa os cientistas é a extrema velocidade em que o permafrost vem sendo destruído. Com o derretimento do gelo, centenas de lagos têm aparecido na Sibéria e no Alaska, o que contribui para o aumento dos índices de chuva. Consequentemente, o gelo retido no solo é derretido, o que aumenta mais o processo. Estima-se que a temperatura no Ártico tem crescido até duas vezes mais rápido em comparação com outras regiões do mundo, o que pode significar mais de 7 graus a mais em sua temperatura média até 2100. Grandes crateras têm aparecido por todo Hemisfério Norte devido ao desaparecimento do pergelissolo, o que já afeta a vida de centenas de pessoas devido à destruição de casas e rodovias.

 

 

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Grande cratera na sibéria engoliu grande parte de uma floresta – Foto por Alexander Gabyshev
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Cratera gigante formada pela explosão de metano – Por Siberian Times
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O derretimento do permafrost vem destruindo a fundação de diversas construções no Alasca

 

Embora seja um assunto pouco explorado, o derretimento do permafrost é um dos problemas ambientais mais sérios da atualidade. Se não for remediado, sua ação poderá interferir na temperatura de todo o planeta e também na saúde de milhões de pessoas do mundo inteiro. À medida que o planeta esquenta, nós nos deparamos com o desaparecimento de geleiras, mas muitas vezes esquecemos do gelo escondido no solo. Pela primeira vez em milhares de anos, o permafrost já não é mais permanente e, mais uma vez, a culpa é toda nossa.

Para saber mais, leia também

Era do Gelo: Porque o aquecimento global pode causar um resfriamento nas altas latitudes?

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5 curiosidades e 30 fatos sobre mudança climática que você precisa saber

A Teoria de Tudo que está Vivo – Parte III – O Reinado dos Mamíferos

Jurassic Park da vida real: Podemos (e devemos) clonar nossas espécies extintas?

 

Referências

https://www.canadiangeographic.ca/article/arctic-permafrost-thawing-heres-what-means-canadas-north-and-world

https://www.wired.com/2015/03/hunters-find-frozen-10000-year-old-baby-wooly-rhino/

https://www.nbcnews.com/news/world/frozen-time-swiss-couple-just-one-many-findings-revealed-melting-n785221

https://www.dailymail.co.uk/news/article-3741091/Could-SMALLPOX-return-grave-Deadly-disease-risk-permafrost-thaws-near-Russian-village-victims-buried-warn-scientists.html

https://www.nationalgeographicbrasil.com/meio-ambiente/2019/08/permafrost-do-artico-esta-descongelando-em-ritmo-acelerado-e-consequencias

https://www.independent.co.uk/environment/smallpox-siberia-return-climate-change-global-warming-permafrost-melt-a7194466.html

https://www.popsci.com/laurie-j-schmidt/article/2008-09/permafrost-contains-vast-store-carbon/

https://phys.org/news/2018-12-permafrost-climate.html

http://www.bbc.com/earth/story/20170504-there-are-diseases-hidden-in-ice-and-they-are-waking-up

https://www.telegraph.co.uk/global-health/climate-and-people/thawing-siberian-permafrost-soil-risks-rise-anthrax-prehistoric/

https://www.nature.com/news/2008/080918/full/news.2008.1119.html

https://www.nationalgeographic.com/news/2012/2/120221-oldest-seeds-regenerated-plants-science/

 

 

 

 

Fogo na Amazônia: Como as queimadas podem acabar com nossa floresta

O bioma florestal Amazônia é biologicamente a região mais rica da Terra, hospedando 25% da biodiversidade global, e é um dos principais contribuintes para o funcionamento biogeoquímico do sistema terrestre. Sua degradação e queimada em grande escala deixaria um legado duradouro sobre o funcionamento e a diversidade da biosfera.

As florestas de terras baixas da Amazônia têm uma temperatura anual média de 26° C, com muita pouca variabilidade espacial, e uma precipitação anual média de 2400 mm, variando de >3000 mm no noroeste da Amazônia até <1500 mm nas zonas de transição de savana – floresta.

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Floresta Amazônica. Fonte: Unsplash

Recentemente, as temperaturas nas regiões tropicais de baixada em todo o mundo aumentaram 0,25° C por década e projeta-se um aumento de 3 a 8° C (média de 5° C) durante o século 21 sob o cenário de emissões. A Amazônia, e em particular suas margens mais secas, é palco de intensa pressão humana sobre a floresta por meio da extração de madeira, desmatamento e expansão do uso de fogo. Segundo estudiosos da Universidade de Oxford, com o aumento das fronteiras agrícolas há maiores chances de haver pontos de ignição prontos para inflamar as florestas amazônicas no caso de uma mudança para um clima mais seco e/ou mais sazonal. Vale ressaltar que, na maioria das vezes, as frentes de fogo são causadas por ações criminosas de grileiros e de exploradores de terras. As pressões vêm do agronegócio, juntamente com o aumento da demanda regional e global por carne bovina e soja da Amazônia, além da demanda global emergente por biocombustíveis.

Essa pressão influencia a resposta das florestas de várias maneiras:
(i) removendo diretamente a cobertura florestal e sendo um agente independente da morte da Amazônia;
(ii) modificando diretamente o clima local, a temperatura da superfície e o regime de chuvas, contribuindo, assim, para as mudanças climáticas regionais; e
(iii) aumentando a presença e a vulnerabilidade ao fogo.

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Biodiversidade na Floresta. Fonte: Green Economy

O desmatamento pode afetar diretamente o clima da região, reduzindo a reciclagem local da água do solo por meio de raízes profundas na transpiração da floresta e, consequentemente, na precipitação, embora isso pareça depender da escala e da localização do desmatamento. A transpiração da floresta perdida resulta em diminuição do resfriamento da superfície e, consequentemente, no aumento da temperatura do ar regional, em demanda evaporativa e em estresse hídrico nas florestas remanescentes. A mudança no uso da terra e o fogo também afetam o regime de chuvas, aumentando consideravelmente a quantidade de aerossóis da atmosfera por intermédio da fumaça e da poeira. Os aerossóis favorecem a chuva convectiva menos frequente, porém mais intensiva, e a possível supressão da chuva na estação seca. Um recuo da floresta amazônica (seja causada por desmatamento, por seca severa ou por fogo), portanto, aumentaria ainda mais a mudança climática regional, alterando a reciclagem local de água e outras propriedades biofísicas.

O fogo

 As florestas possuem grande resiliência à intensificação da estação seca. No entanto, isso pode se quebrar quando a presença de fogo é considerada. Vários estudos de campo relatam que as florestas tropicais sazonais se tornam temporariamente inflamáveis, mas a falta de pontos de ignição natural na Amazônia inibe a quantidade de fogo natural.

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Estado de Tocantins. Foto: Xinhua/ Rex

O papel potencialmente crítico do fogo era visível durante as recentes secas na Amazônia, com incêndios extensos que vazaram das zonas agrícolas para as florestas inflamáveis ​​durante as secas de 1997, 1998, 2005 e 2007.

Na última década, vários estudos de campo exploraram as mudanças nas florestas primárias expostas a incêndios individuais ou repetidos. A maioria das árvores da floresta tropical é pouco adaptada ao estresse do fogo, e até incêndios florestais de baixa intensidade podem levar a excessivas mortes de árvores. Esses estudos pintam um quadro convincente de como as florestas tropicais são intolerantes ao fogo e podem reduzir significantemente sob cenários de seca e aumento de incêndios. Na divisa savana-floresta existe uma zona com maior potencial de inflamabilidade, onde os incêndios são possíveis, mas geralmente não ocorrem devido à falta de fontes de ignição.

Com o “Dia do Fogo”, que ocorreu no dia 10 de agosto de 2019, realizado por fazendeiros do entorno da BR-163, no sudoeste do Pará, o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisa Espaciais) registrou uma explosão de focos de incêndio na região.  No dia 5 de agosto de 2019, o jornal Folha do Progresso, de Novo Progresso, revelou o que era o Dia do Fogo, no qual, de acordo com a publicação, os produtores se sentiam “amparados pelas palavras do presidente”, coordenando assim a queima do pasto e de áreas em processo de desmate.

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Número de focos de incêndio

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Nos últimos anos o Ibama mantinha uma base de fiscalização em Novo Progresso durante, principalmente, o período seco. Neste ano, porém, a operação foi cancelada devido à falta de apoio da polícia militar do Pará. Segundo dados do Deter (Detecção do Desmatamento em Tempo Real), sistema do Inpe, o Pará perdeu 893 km² de floresta apenas no mês de julho, equivalente a dois municípios de Curitiba.

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Com as queimadas e cenários de altas emissões, há grande probabilidade de intensificação das estações secas na Amazônia. O aumento das temperaturas e das taxas de transpiração, o desmatamento generalizado e o recuo florestal induzido pelo fogo e pelas mudanças climáticas podem contribuir ainda mais para a intensificação do estresse hídrico sazonal. Florestas nas margens secas ou em solos rasos ou inférteis podem ser mais vulneráveis. Nesse caso, teme-se que a Amazônia passe a ser um ponto de inflexão na estrutura e função do ecossistema, assim como a atividade humana e a disseminação do fogo possam ser críticas ao ponto de desencadear uma quebra na resiliência da floresta e o consequente desaparecimento.

Como já falamos aqui, a floresta Amazônica tem papel fundamental, não somente para a manutenção de biodiversidade, como também para levar umidade para outras partes do Brasil por meio dos rios voadores. Os pesquisadores da Embrapa – Meio Ambiente, Marco Gomes e Lauro Pereira, destacam a importância dos rios voadores: tal evento possui ação direta nas condições de clima, na vida humana e nos recursos hídricos. E Gomes explica: “Dada a sua alta relevância por abordar os deslocamentos de massas úmidas da região amazônica para a região centro-sul do país – daí a denominação de Rios Voadores, influencia no regime de chuvas de boa parte do território nacional”.

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Árvore Samaúma. Fotografia de Araquém Alcântara

Mesmo que a Amazônia esteja distante de nossa realidade urbana, todos nós necessitamos dela. Dependemos de sua umidade, das possíveis curas de doenças que se escondem em suas matas, da sua biodiversidade e equilíbrio, de sua regulação de temperatura e de seu oxigênio. É fundamental que os governos atuais e futuros percebam que a Amazônia é de nossa responsabilidade, porém que a natureza não tem fronteiras e que dela depende o mundo.

 

 

 

Leia também:

Fronteira Agrícola Brasileira: Matopiba e a ameaça à sustentabilidade

Quais são as propostas do futuro presidente para o Meio Ambiente?

Amazonas: O rio brasileiro que surgiu na África

 

Referências:

 

INPE (Instituto Nacional de Pesquisa Espaciais)  – Monitoramento de Queimadas

EMBRAPA

NASA

 

Artigos científicos: 

“Tipping elements in the Earth’s climate system.” de LENTON

” Amazonian forest dieback under climate-carbon cycle projections for the 21st century. ” de COX

 “Spatial patterns and fire response of recent Amazonian droughts.” de LEOC

“The role of ecosystem-atmosphere interactions in simulated Amazonian precipitation decrease and forest dieback under global climate warming.” de BETTS

“Exploring the likelihood and mechanism of a climate-change-induced dieback of the Amazon rainforest” de MALHI

 

O Fim dos Corais – Como o aquecimento global está ameaçando nossos ambientes marinhos mais diversos

Recifes de corais são estruturas biológicas, formadas por colônias compostas por milhares de pequenos organismos, que possuem um exoesqueleto de carbonato de cálcio e que, ao longo de centenas ou milhares de anos, criam gigantescas estruturas que se tornam o lar para uma infinidade de espécies marinhas. Os corais formam os habitats mais densamente diversos dos oceanos, capazes de abrigar cerca de 25% de toda sua vida e, nos últimos anos, algumas áreas perderam  mais de 90% de seus recifes. Estima-se que todos os corais poderão praticamente desaparecer até 2050, em um cenário cada dia mais preocupante.

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Branqueamento de corais na Polinésia Francesa – Foto por uiz Rocha/California Academy of Sciences

Recifes são ambientes megadiversos, que abrigam uma infinidade de organismos em regiões costeiras das regiões tropicais e semi-tropicais de todo o planeta. Mais de mil espécies de corais são capazes de formar recifes e, embora eles ocupem apenas 0,1% da área oceânica, abrigam entre 35.000 e 60.000 espécies de esponjas, polvos, anelídeos, anêmonas, peixes, répteis, mamíferos marinhos e centenas de outros grupos de seres vivos (embora algumas estimativas apontem que recifes possam abrigar mais de 9 milhões de espécies, a maioria ainda não descrita pela ciência). Por serem estruturas rígidas e resistentes, também funcionam como abrigos e berçários para espécies que vivem em regiões de mar aberto.

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Diversidade de recife australiano – Retirado de Getty Images

Mais de 500 milhões de pessoas necessitam diretamente de recifes para sobreviver, uma vez que utilizam seus recursos para subsistência ou trabalham com pesca e/ou turismo, o que movimenta 30 bilhões de dólares anualmente. Mesmo assim, o branqueamento dos recifes ainda é pouco discutido pela mídia, uma vez que ainda não gera um grande impacto econômico nos grandes países. Entretanto, diversas ilhas vêm sofrendo impactos devastadores ao perceberem que sua economia vem morrendo junto com os corais de que dependem.

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Valor agregado de recifes de Belize – Por BreckCoral

Um recife é uma colônia de milhares de pequenos indivíduos, denominados pólipos, que vivem em simbiose com micro-organismos coloridos, denominados de zooxantelas. Esses protistas fotossintetizantes vivem dentro dos corais para sua proteção e, em troca, fornecem alimento para os mesmos, que vivem em águas pobres em nutrientes, além de serem responsáveis pelas suas cores vivas. Entretanto, se a água se torna muito quente, o coral expulsa a zooxantela, perdendo sua cor e sua principal fonte de alimento, o que pode levá-lo à morte caso a temperatura não volte ao normal nos próximos dias. Grandes tempestades e anomalias em temperaturas oceânicas sempre causaram branqueamentos em algumas áreas de recifes mas, à medida que o planeta esquenta, mais e mais corais são condenados à morte. Além disso, o aumento da quantidade de gás carbônico na atmosfera amplia também a quantidade desse gás dissolvido na água, o que acidifica os oceanos , fragilizando e dissolvendo o exoesqueleto de carbonato de cálcio desses animais.

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Tradução: Papo de Primata 
Mapa do branqueamento até 2006 – Por Marshall & Schuttenberg

A situação no Oceano Pacífico é a mais bem estudada e, portanto, a mais assustadora. A Grande Barreira de Corais, na Austrália, consiste em um complexo formado por mais de 2 mil recifes e se estende por uma área de 344.400 quilômetros quarados. Ela sofreu eventos de branqueamento em 1980, 1982, 1992, 1994, 1998, 2002, 2006, 2016 e 2017, alguns com 90% de mortalidade nas áreas afetadas. Desde que a área começou a ser monitorada, a barreira perdeu cerca de 60% de seus corais, tornando-se um deserto sem vida em algumas regiões e deixando de ser o maior complexo de recifes do planta. O Havaí já perdeu 56% dos corais próximos de sua principal ilha, enquanto o Japão perdeu 75% de seu maior recife, apenas no ano de 2017.

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Branqueament de corais da Austrália – The Ocean Agency/XL Catlin Seaview Survey/Richard V

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Antes e depois do branqueamento – Por Chasing corals

Entretanto, é para o Oceano Atlântico que devemos voltar a nossa atenção. Por banhar o Brasil, ele é o oceano mais conhecido pelos leitores desse texto e tivemos a oportunidade de presenciar em primeira mão os impactos desse evento. Uma pesquisa realizada na Flórida, em 2016, apontou que 66% dos recifes do estado estão parcialmente ou totalmente danificados pelo aumento das temperaturas oceânicas na região. Belize possui o maior recife do mundo e possui também um dos mares mais quentes do planeta. Em 1998, a temperatura da água no país ultrapassou 31 graus, o que matou todos os corais da espécie Agaricia tenuifolia da região.

A fire coral in Bermuda, before and after bleaching (Pic: XL Catlin Seaview Survey)
Coral-de-fogo antes e depois no Caribe –  Por XL Catlin Seaview Survey

Recentemente, um grande recife de corais foi descoberto na foz do Amazonas. Embora ainda pouco estudado, ele já apresenta sinais de estar sofrendo com impactos de atividades humanas e, cada dia mais, empresas petrolíferas têm ameaçado a sua existência. Descoberto em 2016, possui condições únicas, diferentes de todos os outros recifes conhecidos no planeta devido à sua proximidade com o Rio Amazonas, com uma baixa luminosidade e oxigenação.  Com uma área inicial estimada em 9.300 km² e expandida posteriormente para 56.000 km², esse recife pode desaparecer antes mesmo de ser profundamente conhecido.

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Recife de corais na foz do Amazonas – Por Greenpeace
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Por Greenpeace

Em julho de 2019, a equipe do Tunes Ambiental teve a oportunidade de visitar Curaçao, um pequeno país insular do Caribe, repleto de belezas naturais. Avistamos a belíssima diversidade de recifes caribenhos e, infelizmente, também nos deparamos com centenas de recifes completamente mortos. A ilha perdeu entre 42 (Sustainable FisheriesGroup, 2015) e 50% (WAITT Institute, 2016) de sua cobertura de corais, além de possuir uma baixa biomassa de peixes em comparação com um recife saudável. Mesmo com esses dados assustadores, a região é uma das mais diversas do caribe, o que mostra um declínio assustador para toda a região. Os recifes garantem cerca de 442 milhões de dólares para a ilha anualmente, rendimento que, em breve, poderá acabar.

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Recifes de Curaçao – Fotógrafo desconhecido
Branqueamento em Curaçao – Por SECORE
Corais mortos dominam parte da costa da ilha – Por SECORE

 

Entretanto, nem tudo está perdido. Nos últimos anos, por todo o planeta, milhares de pessoas vêm se dedicando à proteção desses ecossistemas. No fim de 2016, o projeto BioRock foi iniciado em Curaçao, com o objetivo de devolver vida a diversas regiões do país, por meio da construção de estruturas artificiais que permitam a reprodução de corais com facilidade. Esses recifes artificiais não só funcionam como uma fazenda de corais, como também oferecem abrigo e alimento para diversas espécies de animais. Em várias regiões do mundo, cascos de navios, barcos e até aviões vêm sendo deliberadamente naufragados, com o intuito de servir para o mesmo fim. Embora o aquecimento global e a poluição estejam destruindo ecossistemas megadiversos e seu futuro seja cada vez mais incerto e preocupante, essas iniciativas nos permitem sonhar com um mundo novamente repleto de corais e, consequentemente, de vida. Os corais estão na Terra há milhões de anos e estão sumindo por nossa causa. Portanto, é nosso dever protegê-los e, assim, garantir a saúde de nossos mares.

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Recifes artificiais em Curaçao – Por Alamy Stock Photo
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Fazenda de Corais em Curaçao – Por Biorock
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Projeto indiano de restauração de corais -Por Biorock
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Recife artificial em Bali – Por Biorock

Leia mais em

Era do Gelo: Porque o aquecimento global pode causar um resfriamento nas altas latitudes?

O Impacto Por Trás das Manchetes: Como as mudanças climáticas já estão afetando a vida no planeta

Guerra à Ciência – Parte III – Aquecimento Global e seus opositores

5 curiosidades e 30 fatos sobre mudança climática que você precisa saber

Ainda dá tempo de salvar nossas espécies mais ameaçadas?

 

Referências

https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/ciencia-e-saude/2018/04/23/interna_ciencia_saude,675562/recifes-de-corais-da-amazonia-sao-seis-vezes-maiores-do-que-estimado.shtml

Clique para acessar o Waitt-2017-Status-of-Curacaoan-reefs_Low-Res-1.pdf

Clique para acessar o BioNews-2017-4-Status%20Curacao%20Reef.pdf

https://www.abc.net.au/news/science/2019-05-21/coral-bleaching-french-polynesia/11129634

Warming seas devastate coral reefs in global bleaching event

https://www.vox.com/2016/3/30/11332636/great-barrier-reef-coral-bleaching

https://www.theguardian.com/world/2017/jan/12/almost-75-of-japans-biggest-coral-reef-has-died-from-bleaching-says-report?CMP=share_btn_link

https://www.cbsnews.com/news/great-barrier-reef-coral-bleaching-again/

http://www.globalcoral.org/coral-bleaching-now-starting-large-part-caribbean/

 

 

 

 

 

Era do Gelo: Por que o aquecimento global pode causar um resfriamento nas altas latitudes?

Muitas pessoas têm lembrança dos invernos amargos do fim dos anos 70 e início dos anos 80, e, na época, houve muita discussão nos círculos científicos sobre se as condições congelantes do inverno eram ou não um presságio de uma nova era do gelo.

Nas últimas duas décadas, esses avisos foram abafados pelo grande debate sobre o aquecimento global e pela preocupação de como a sociedade poderia lidar no futuro com um planeta sufocante, em vez de um planeta coberto de icebergs. Aparentemente, o fato de ainda estarmos dentro de um período interglacial, durante o qual o gelo recuou em grande parte, faz com que muitos esqueçam da ciclicidade do clima do planeta e que ela não descredibiliza a preocupação com o aquecimento e com as espécies aqui presentes.

O problema está na corrente oceânica conhecida como Corrente do Golfo, que banha o Reino Unido e o noroeste da Europa com águas quentes transportadas em direção ao norte do Caribe. É a Corrente do Golfo, e correntes associadas, que permitem que os morangos prosperem ao longo da costa norueguesa, enquanto nas latitudes comparáveis nas geleiras da Groenlândia as águas mais densas seguem seu caminho até o leito oceânico, gerando uma corrente mais profunda. Sem a Corrente do Golfo, as temperaturas no Reino Unido e no noroeste da Europa seriam cinco graus centígrados mais frias, com invernos rigorosos pelo menos tão violentos quanto os da chamada Pequena Idade do Gelo ocorrida nos séculos XVII a XIX.

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Corrente do Golfo

A Corrente do Golfo é parte de um sistema mais complexo de correntes, conhecido por vários nomes diferentes, dos quais a Circulação Meridional Transversal do Atlântico (AMOC) é provavelmente a mais famosa. Isso incorpora, não apenas a Corrente do Golfo, mas também as correntes de retorno a frio, que levam a água para o sul novamente. Ao se aproximar do Ártico, a Corrente do Golfo perde calor e parte dela volta para climas mais quentes ao longo da costa da Groenlândia e do leste do Canadá, sob a forma fria e cheia de icebergs, um deles responsável pelo naufrágio do Titanic. Muito, no entanto, sobe, esfriando e afundando sob os mares nórdicos entre a Noruega e a Groenlândia, antes de seguir para o sul novamente abaixo da superfície.

AMOC

Esse processo poderia ocorrer indefinitivamente caso a salinidade e a temperatura da água fossem mantidas nas mesmas proporções em escala global. Mas o grande problema é que o aquecimento global está alterando fortemente esses parâmetros e, consequentemente, alterando as correntes marítimas tão importantes. O aumento da temperatura atmosférica nas altas latitudes causa um aumento da temperatura da água, reduzindo sua densidade e diminuindo a vazão de água que afundaria. Além disso, com o derretimento do gelo, há uma redução da salinidade da água nessa área, mais uma vez reduzindo sua densidade. Esses dois fatores causariam um enfraquecimento das correntes oceânicas. Apesar de ainda não haver comprovações e unanimidade cientifica a respeito disso, há grandes chances dessa hipótese se tornar logo uma teoria.

Foto: Shawn Ang

Mas o que o enfraquecimento das correntes trariam para o Planeta? No passado, a desaceleração da Corrente do Golfo estava intimamente ligada ao dramático resfriamento regional. Apenas 10.000 anos atrás, durante um clima frio conhecido como o Younger Dryas, a corrente foi severamente enfraquecida, causando a queda de até 10 graus nas temperaturas no norte da Europa. Dez mil anos antes disso, no auge da última era glacial, quando a maior parte do Reino Unido foi reduzida a um deserto congelado, a Corrente do Golfo tinha apenas dois terços da força que tem agora. Nos dias atuais, o calor seria retido na Faixa Equatorial, deixando as temperaturas ainda mais elevadas nessa latitude, além do resfriamento das altas latitudes.

O que é preocupante é que, há alguns anos, os modelos climáticos globais vêm prevendo um futuro enfraquecimento da Corrente do Golfo como conseqüência do aquecimento global. Esses modelos visualizam o rompimento do AMOC, incluindo a Corrente do Golfo, como resultado do derretimento em grande escala do gelo do Ártico e o consequente despejo de enormes volumes de água doce no Atlântico Norte, em um século ou dois. Novos dados sugerem, no entanto, que talvez não precisemos esperar séculos e, de fato, todo o processo já está acontecendo.

Foto: Ben Klea

Para que as águas superficiais quentes e salgadas da Corrente do Golfo possam continuar seu caminho para o norte, deve haver uma corrente de retorno comparável e profunda de água fria e densa dos mares nórdicos. Perturbadoramente, esta corrente de retorno parece ter diminuído desde meados do século passado. Bogi Hansen, do laboratório de pesca das Ilhas Faroe, e colegas na Escócia e na Noruega, têm monitorado o fluxo profundo de água fria dos mares nórdicos quando passa sobre o cume submarino da Groenlândia-Escócia, que fica no Atlântico Norte. Os resultados do monitoramento demostram que o fluxo de saída caiu 20% desde 1950, o que sugere um influxo reduzido comparável da corrente do Golfo.

Wallace Broecker, um pesquisador de circulação oceânica no observatório de Lamont-Doherty Earth, em Nova York, descreveu perfeitamente a situação quando afirmou que “o clima é uma fera raivosa e estamos cutucando-a com paus”. O ser humano não tem noção das consequências de se mudar o clima mundial e uma hora a fera raivosa vai atacar.

 

 

 

 

 

Referências 

Xianyao Chen & Ka-Kit Tung – “Global surface warming enhanced by weak Atlantic
overturning circulation”

Will global warming trigger a new ice age?”

 

Iraque: Tigre e Eufrates estão morrendo

Tigre e Eufrates encontram-se na província de Basra, no sul do Iraque, onde formam a hidrovia Shatt al-Arab. Por milhares de anos, esses rios fizeram do Iraque uma das regiões mais férteis do Oriente Médio, a antiga Mesopotâmia. Muitas vezes chamada de “berço da civilização”, os primeiros colonos urbanos cresceram nas terras entre os dois antigos canais. Mas atualmente a situação está dramaticamente diferente, tanto para os rios, quanto para as pessoas que dependem deles.

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Fonte: UNICEF

Além da cidade de Basra conter os campos de petróleo e o único porto de águas profundas do país, ela também é o centro econômico do Iraque, já que aproximadamente 80% da receita do país vem dela. Os rios Tigre e Eufrates já foram, um dia, considerados os mais importantes do Oriente Médio. A hidrovia Shatt al-Arab fez de Basra um símbolo de prosperidade e de crescimento. Hoje, a cidade é a segunda maior do país com uma população de mais de 4 milhões de pessoas.

No verão de 2018, os rios foram estrangulados com detritos, esgoto bruto e lixo urbano que estavam envenenando os moradores da cidade. Aproximadamente cem mil pessoas foram hospitalizadas devido à doenças de veiculação hídrica. Em setembro de 2018, o Ministério de Recursos Hídricos do Iraque afirmou que os níveis em rios como o Tigre, em Bagdá, caíram para 40% nos últimos 20 anos.

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Cidade de Basra

Mas o que causou a redução da água desses rios tão importantes? Isso ocorreu devido ao Iraque não conseguir controlar a vazão de seus rios e à falta de infraestrutura para limpá-los, o que vem atrapalhando a recuperação do país. Quase toda a água da região vem desses dois rios tão essenciais, que depois de convergirem no chamado Shatt al-Arab, finalmente desaguam no Golfo Pérsico.

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Fonte: VOX

Em todo o caminho, esses rios funcionam como mananciais de água potável e irrigação para as fazendas, enquanto o resto do país permanece um deserto. Uma grande parte da infraestrutura é usada para geração de energia elétrica, distribuição de água e tratamento. Isso representa um grande número de represamentos e de desvios ao longo de toda calha dos rios, tornando o sistema muito delicado. O Tigre e o Eufrates nascem na Turquia e quase 71% da água que chega no Iraque vem desse país, enquanto Síria e Irã detêm os outros 10%. Desde os anos 70, a Turquia construiu pelo menos vinte barragens no Eufrates e seus afluentes e isso inclui a represa de Ataturk, a quinta maior do mundo em geração de energia elétrica. Além disso, há represas no Tigres que incluem a Barragem Ilisu, que, devido à retenção de tanta água, os residentes de Baghdad podem até atravessar o rio à pé.  A Síria também construiu algumas represas no Eufrates e, hoje, os três países estão mantendo os rios como reféns em seus países.

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Barragem Ataturk – Turquia

Com a redução da vazão natural dos rios, há uma maior concentração de poluentes e, com o fluxo escasso, a água salobra do Golfo Pérsico consegue mover rio acima, o que causa mortandade de peixes e muda a microbiota do rio. Tudo isso aumenta a pressão da população em querer receber água limpa de qualidade, porém, grande parte da infraestrutura de dessalinização e distribuição de água pré-existente foi destruída com três grandes guerras devastadoras nas últimas três décadas.

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Fonte: NASA

Guerras no Iraque – últimas três décadas

  • 1990 – Guerra do Golfo: Saddam Hussein invadiu o Kuwait, aliado dos EUA. Os Estados Unidos enviaram mísseis e destruíram grande parte da infraestrutura do país, incluindo quatro usinas hidrelétricas e estações de tratamento de água.
  • 2003 – Invasão Americana: Fim do regime de Saddam Hussein e instalação de um governo iraquiano. Após a invasão constatou-se que 40% dos cidadãos iraquianos não tinham acesso à água potável e 70% das estações de tratamento necessitavam ser reparadas. Mesmo com os programas de reconstrução dos sistemas de tratamento, apenas um terço foi realmente entregue.
  • 2014 – Grupo ISIS toma conta do Iraque: O grupo tomou conta dos pontos de encontro dos dois rios, apoderando-se do controle de fornecimento de água do país, as hidrelétricas, e transformando-as em uma arma. Eles fechavam o fornecimento de água para a cidade ou, até mesmo, envenenavam a água com hidrocarbonetos.
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Barragem Mosul – Iraque

Em 2018, a população começou a ir para as ruas exigindo água de qualidade. Mesmo sendo o centro econômico do Iraque, Basra foi ignorada e deixada à deterioração. A Comissão de Integridade do Iraque (COI), que investigava corrupção no país, descobriu que as 13 plantas de dessalinização que haviam sido doadas à Basra em 2006 nunca funcionaram. Aproximadamente 600 milhões de dólares foram destinados a projetos de saneamento que nunca foram executados.

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Ano após ano, a crise hídrica tem se agravado no antigo berço da Mesopotâmia e a cidade de Basra, que um dia já foi símbolo de prosperidade, representa hoje um futuro incerto e nos mostra que a maior riqueza do planeta não é o petróleo, e sim, a água.

 

Referências

Basra is Thirsty : https://www.hrw.org/report/2019/07/22/basra-thirsty/iraqs-failure-manage-water-crisis

Iraq: Water Crisis in Basra: https://www.hrw.org/news/2019/07/22/iraq-water-crisis-basra

Canal YouTube: Vox

Capivaras – Pragas urbanas ou importantes animais silvestres?

As capivaras são grandes animais da América do Sul, que vivem associadas a lagoas, rios, savanas alagadas e pântanos, sendo encontradas também no interior de florestas tropicais úmidas. Por esse motivo, também são frequentemente encontradas nos centros urbanos, vivendo em lagoas, rios e açudes por cidades de todo o Brasil, sobretudo nas regiões Sudeste e Centro-Oeste. Nos últimos anos, um crescimento populacional abrupto desses animais, associado ao aumento do número de casos de febre maculosa, fez com que diversas cidades criassem planos de manejo para reduzir a população desses organismos. Mas, afinal, combater esses animais pode reduzir o número da doença? E, ainda, devemos tratar esse roedor como uma praga urbana?

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Capivaras em Curitiba – Por Bill Machado

A capivara (Hydrochoerus hydrochaeris) é o maior roedor do mundo, que pode chegar aos 136 centímetros de comprimento e pesar mais de 91 quilos em casos raros. É um animal gregário, que vive em bandos que variam de 10 a 100 indivíduos, compostos majoritariamente por indivíduos jovens. Quando os ambientes em que vivem secam ou se tornam desfavoráveis, tendem a migrar para outros locais, frequentemente movendo-se para o interior de cidades ou zonas de pasto, nos quais os lagos ou açudes são mantidos para uso do gado ou com objetivo paisagístico.

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Capivara na região Amazônica – Fotógrafo desconhecido

 

Entretanto, o problema começa com a falta de predadores desses animais em fazendas e em centros urbanos, como as onças e sucuris, o que permite o crescimento de suas populações de forma desenfreada. Em diversas regiões do país, as Hydrochoerus tornaram-se uma ameaça para lavouras e plantações, gerando prejuízos para pequenos agricultores. Isso levou ao aumento da caça, gerando desequilíbrios também em ambientes naturais, uma vez que as capivaras passaram a ser vistas como uma ameaça em locais como o Pantanal.

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Capivara em lavoura em em Arealva (SP) – Fonte TV TEM/Reprodução – G1

Um problema ainda maior relacionado a esse animal é a febre maculosa, doença causada pela bactéria Rickettsia rickettsii e transmitida pelo carrapato-estrela (Amblyomma cajennense). Ao picar e se alimentar de sangue, o carrapato infectado pode transmitir a doença por meio de sua saliva, após cerca de 6 horas de contato. Depois do contágio, a bactéria irá se alojar no cérebro, pulmões, coração, fígado, baço, pâncreas e tubo digestivo, causando febre intensa, dores de cabeça, náuseas, diarreia, inchaço e vermelhidão nas palmas das mãos e nas solas dos pés, e manchas na pele, de 2 a 14 dias após a infecção. Se não tratada, a doença pode gerar gangrena e paralisia, resultando em morte de 60% dos indivíduos portadores.

Close do carrapato-estrela, transmissor da febre maculosa.
Carrapato-estrela (Amblyomma cajennense) – Retirada de drauziovarella.uol.com.br
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Fonte – Ministério da Saúde – Retirada do Portal G1

Para que a doença se mantenha viável na natureza, carrapatos precisam contaminar animais selvagens, que funcionarão como reservatórios da doença, permitindo a infecção posterior por outros carrapatos. Após infectados, os carrapatos permanecerão assim por toda sua vida, que pode durar até 18 meses. Nesse tempo, eles podem permanecer até 200 dias sem se alimentar, o que aumenta ainda mais o risco da infecção. Por viverem em altas densidades populacionais e devido à falta de predadores, as capivaras são ótimos reservatórios para a doença, que também pode infectar cães domésticos, marsupiais, outros roedores e cavalos.

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Fonte: Ministério da Saúde

Nos últimos anos, várias epidemias têm ocorrido por todo o Brasil, sobretudo nos estados de São Paulo e Minas Gerais, o que desencadeou uma série de programas para eliminar os maiores roedores do planeta de diversas cidades. Em 2009, um centro de pesquisa foi criado em Campinas, onde capivaras infectadas foram isoladas para o controle da doença. Entretanto, em 2011, após três funcionários morrerem pela doença, a prefeitura autorizou o abate de mais de 40 capivaras na cidade. O Secretario de Saúde da cidade à época, José Francisco Kerr Saraiva, afirmou que a eliminação das capivaras seria a única forma real de lidar com esse problema de saúde pública, uma vez que o uso de carrapaticidas nem sempre é eficiente. Em 2019, novos casos foram relatados em Itatiba – SP, onde, mais uma vez, o abate foi autorizado.

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Isolamento de capivaras em Campinas – Foto: Reprodução/EPTV

Entretanto, a capivara não é o único problema. Ao serem retiradas do local, os carrapatos infectados poderão buscar outros animais para se alimentarem, afastando-se da água e invadindo pastos ou, até mesmo, áreas residenciais, onde infectarão cavalos ou cães. Em entrevista para o jornal O Globo, o veterinário Paulo Anselmo Felippe, que trabalha com esses animais, afirmou que a castração e esterilização são manejos mais adequados, uma vez que capivaras deixam de transmitir a doença após 15 dias, e explicou: “Porque o sistema imunológico dela se organiza e ela não vai ter mais essa riquetsemia, essa bactéria circulando. Então, ela não infecta novos carrapatos. Sempre que a riquétsia circulou naquela população, você retira os animais e vêm novos, vai acontecer riquetsemia nesses novos, porque eles não tiveram contato anterior com a bactéria”. Dessa forma, abater as capivaras pode abrir espaço para a chegada de novos animais, que nunca entraram em contato com a doença e, dessa forma, passarão a ser novos reservatórios.

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Fonte: Secretaria de Saúde de Rio Preto

Embora esse argumento tenha sido criticado por alguns estudiosos, a prática do manejo e castração vem sendo adotada em algumas cidades do país. Em 2014, na cidade de Belo Horizonte, a Fundação Ezequiel Dias (FUNED) constatou que, das 46 capivaras analisadas na Lagoa da Pampulha, 28 possuíam a bactéria da doença. Pouco depois, em 2018, um plano de manejo foi criado, no qual todas as 56 capivaras contabilizadas foram esterilizadas, receberam carrapaticida e microchip. Suas populações permaneceram estáveis e os animais ficaram saudáveis por muito tempo, o que permitiu novamente a sua convivência tranquila com a população.

O último censo indicou que vivem cerca de 65 capivaras na orla da lagoa
Capivaras na Lagoa da Pampulha, o principal cartão postal de BH – Foto por Flávio Tavares

 

Entretanto, em 2019, 84 suspeitas da doença foram reportadas na Grande BH, tendo sido confirmadas quatro mortes e dois pacientes infectados. Como uma nova capivara com a doença foi encontrada na Lagoa da Pampulha e devido à sua proximidade com a cidade de Contagem, novos planos de manejo deverão ser futuramente criados e os animais do local deverão ser novamente analisados, uma vez que a capivara infectada pode ser oriunda de outro local.

Febre maculosa
Cavalos foram recolhidos e vêm recebendo carrapaticida pela Prefeitura de Contagem – Foto por Leo Fontes

A relação conturbada das capivaras e dos seres humanos, portanto, ainda está longe de ter fim. Se por um lado a população se preocupa com a Saúde Pública, por outro o abate desenfreado pode, não só causar desequilíbrios ambientais, como também piorar as epidemias da febre maculosa, uma vez que ainda não compreendemos completamente o seu ciclo. Estudos realizados pela FUNED e UFMG vêm tentando solucionar o problema e, quem sabe, no futuro, uma vacina poderá ser criada.

As capivaras são um dos principais grandes herbívoros no país e sua proteção em áreas selvagens é essencial para a manutenção de onças, sucuris e jacarés. Em muitas áreas urbanas, esses animais representam um marco para a cidade, tornando-se até mesmo pontos turísticos vivos e contribuindo para a diversidade de aves, que muitas vezes se alimentam de parasitas (incluindo carrapatos) presentes no dorso desses animais. Um dos principais símbolos de Belo Horizonte, essas criaturas deverão continuar a ser amplamente estudadas e protegidas, caso seja possível, garantindo, assim, a presença de animais silvestres tão marcantes no meio urbano.

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A capivara é uma das principais presas da onça-pintada (Panthera onca) – Foto por Zig Koch
Capivaras na orla da Lagoa da Pampulha (foto:Renato Weil).
A capivara é o mascote não-oficial da cidade de Belo Horizonte – Foto por Renato Weil

Para saber mais sobre como se proteger da doença, acesse

Febre Maculosa: causas, sintomas, tratamento, diagnóstico e prevenção – Ministério da Saúde

Febre Maculosa – Portal Dráuzio Varella

Leia também: Matar os macacos da Febre Amarela pode aumentar seus riscos!

Foto de capa por Pedro Henrique Tunes

Referências

http://g1.globo.com/bom-dia-brasil/noticia/2011/02/capivaras-infestadas-de-carrapatos-dividem-campinas-mata-las-ou-nao.html

https://espaco-vital.jusbrasil.com.br/noticias/2600456/abatam-se-as-capivaras

https://www.hojeemdia.com.br/horizontes/contagem-investiga-60-casos-suspeitos-de-febre-maculosa-1.722696

https://g1.globo.com/sp/sorocaba-jundiai/noticia/2019/06/17/secretaria-de-meio-ambiente-autoriza-abate-de-40-capivaras-de-condominio-e-gera-polemica-em-itatiba.ghtml

https://portal.fiocruz.br/noticia/especialista-esclarece-duvidas-sobre-febre-maculosa-transmitida-pelo-carrapato-estrela

https://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,apos-morte-por-febre-maculosa-condominio-abate-capivaras-em-itatiba,70002879525

https://g1.globo.com/sp/sorocaba-jundiai/noticia/2019/06/17/secretaria-de-meio-ambiente-autoriza-abate-de-40-capivaras-de-condominio-e-gera-polemica-em-itatiba.ghtml

Jundiaí registra 16 casos suspeitos de febre maculosa em 2019

https://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2014/11/21/interna_gerais,592183/capivaras-recolhidas-da-orla-da-pampulha-tem-bacteria-da-febre-maculosa.shtml

Clique para acessar o d_d_d_10906.pdf

https://www.hojeemdia.com.br/horizontes/contagem-investiga-60-casos-suspeitos-de-febre-maculosa-1.722696

https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/noticia/2019/06/05/belo-horizonte-e-contagem-investigam-mais-de-60-casos-suspeitos-de-febre-maculosa.ghtml

https://www.otempo.com.br/cidades/bh-registra-31-casos-suspeitos-de-febre-maculosa-em-contagem-j%C3%A1-s%C3%A3o-32-1.2192064

https://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2019/06/26/interna_gerais,1064836/bacteria-febre-maculosa-confirmada-lagoa-da-pampulha-cidade-administra.shtml

http://www.aprag.org.br/noticias/capivaras-na-pampulha-chega-ao-fim-primeira-etapa-de-manejo-dos-animais

http://g1.globo.com/espirito-santo/agronegocios/noticia/2014/09/superpopulacao-de-capivaras-causa-transtornos-para-agricultores-do-es.html

https://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2018/10/30/interna_gerais,1001557/prefeitura-termina-manejo-das-capivaras-da-lagoa-da-pampulha.shtml

https://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2018/10/31/interna_gerais,1001753/manejo-das-capivaras-e-passo-importante-contra-a-febre-maculosa-em-bh.shtml

https://www.hojeemdia.com.br/horizontes/metade-das-capivaras-da-pampulha-j%C3%A1-foi-esterelizada-e-recebeu-microchip-1.632225

http://www.saude.gov.br/saude-de-a-z/febre-maculosa

Clique para acessar o Animal_business_-_Febre_Maculosa.pdf

https://g1.globo.com/sp/sorocaba-jundiai/nosso-campo/noticia/capivaras-invadem-propriedades-e-causam-prejuizos-a-agricultores.ghtml

 

 

 

 

A volta das baleias – Como a proibição mundial da caça conseguiu salvar dezenas de espécies da extinção

A caça de baleias é uma prática extremamente antiga, que se inciou no Hemisfério Norte, há cerca de 6.000 anos, para suprir as demandas alimentares de povos na Escandinávia e no mar do Japão. Entretanto, nos últimos séculos, a baleação tomou proporções devastadoras, destruindo teias alimentares complexas e levando os maiores animais da Terra à beira da extinção. Como esses grandes animais conseguiram recuperar sua antiga glória e sair da lista vermelha de animais ameaçados? E quais os desafios para o futuro da preservação dessas criaturas gigantes?

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Grupo de jubartes – Foto por Tomas Kotou / Shutterstock.com

Apesar de ser geralmente chamada de caça ou pesca de baleias, diversos outros cetáceos, como orcas, belugas e cachalotes (que se diferem de baleias verdadeiras pela presença de dentes), também foram amplamente mortos na história humana. As primeiras evidências dessa pesca vem da Coreia do Sul, onde geoglifos representando a caça desses animais foram encontrados. Nessas pedras, desenhos de barcos cercando pequenos bandos de narvais, toninhas e belugas demonstram uma prática ainda empregada hoje, que consiste na perseguição desses animais com lanças em direção à costa, forçando seu encalhamento.

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Geoglifo na Coréia  de 6 mil anos demontrando a caça de cetáceos – Ilustração pelo Bangudae Petroglyphs Institute, Universidade de Ulsan
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Desenho de tamanho de narvais, um cetáceo com um dente alongado semelhante a um chifre  – Por Chen Yu
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Tamanho comparativo de belugas – Por Chen Yu

De forma independente, diversas culturas pelo mundo criaram táticas de caça utilizando arpões, há cerca de 3 mil anos. Embarcações perseguiriam esses animais em baías e estuários, eventualmente aventurando-se em alto mar. Um forte arpão seria lançado no animal e ancorado no chão ou na embarcação, causando extrema fadiga a ele. Quando ele desistisse de tentar fugir, novas embarcações se aproximariam e o matariam com o uso de lanças, uma prática que permitiria a caça até mesmo de baleias maiores, como jubartes (Megaptera novaeangliae) e baleias-fin (Balaenoptera physalus). Pinturas rupestres de 1.500 anos em Izcuña, no Atacama, mostram a caça de grandes baleias na região com o uso da mesma técnica.

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Pintura histórica japonesa representando pesca de baleias
Pintura rupestre mostrando a caça de baleias

Entretanto, foi a partir da Renascença, no século XIV, que esses animais começaram a ser caçados em larga escala por um produto um tanto quanto estranho na nossa visão moderna: o óleo. Grandes navios partiam para o alto mar atrás de animais cada vez maiores, que eram mortos com o uso de arpões e sua gordura era retirada. Chegando novamente nos portos, o óleo era vendido e utilizado para a iluminação pública por todo o Oeste e Centro europeu, sobretudo na Inglaterra. Na mesma época, o Japão tornou-se a maior potência baleeira do mundo, suprindo suas necessidades internas de óleo e de carne e vendendo o excedente para a China e Coreia.

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Refinaria de óleo de baleia em Smerenburg, na Noruega no século XVI – Por Cornelis de Man

Com o aumento da necessidade de luz nas cidades nos séculos seguintes, a demanda por óleo de baleia tornava-se cada vez maior, até que um evento fez com que a busca por óleo se tornasse a atividade pesqueira mais rentável durante os séculos XVIII e XIX: a Revolução Industrial. Cada vez mais, investidores precisavam de luz para suas fábricas e óleo para suas máquinas, o que proporcionou um grande salto em tecnologias navais relacionadas à baleação e, a partir de 1900, iniciou-se a chamada baleação industrial. Grandes navios eram capazes de caçar baleias ainda maiores, como a baleia-azul (Balaenoptera musculus), que pode pesar até 200 toneladas, e a cachalote (Physeter macrocephalus), uma falsa-baleia agressiva que inspirou o livro Moby Dick.

Embarcações maiores permitiam a caça das maiores espécies de baleias – Oswald Brierly, Whalers off Twofold Bay, New South Wales, 1867
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Tamanho comparativo de diferentes populações de baleias-azuis – Por Harry Wilson
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Tamanho de cachalotes atuais – Por Chen Yu

 

A cachalote mostrou-se o animal mais rentável para essa prática, uma vez que sua grande cabeça possui uma enorme concentração de um material gorduroso incrivelmente inflamável, denominada espermacete. Navios iam para o alto mar em busca desses animais e, quando encontrados, um grande arpão com uma corda era atirado no animal, que começava a se debater e entrar em exaustão. Posteriormente, a tripulação descia vários botes ao mar, que iriam se aproximar do animal e feri-lo com golpes de machado ou com pequenas lanças. Quando um jato de sangue saísse de seu espiráculo, a tripulação tinha certeza de que seu pulmão havia sido perfurado e o animal morreria poucas horas depois.

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Hulton Archive / Getty Images

Entretanto, a partir de 1905, essa indústria foi tornando-se cada vez mais difícil. Os números de baleias despencaram no mundo todo, o que forçava os baleeiros a irem cada vez mais longe, em busca de baleias de grande porte. Grandes cachalote,s de até 28 metros de comprimento, não eram mais encontradas e as populações de baleias-azuis já não conseguiam suprir a demanda das populações das Américas, Europa e Ásia. Por volta de 1930, toda indústria entrou em colapso.

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Números populacionais da baleia-franca, uma das principais espécies de uso comercial

A partir de 1932, as primeiras leis de proteção aos cetáceos foram criadas pelo mundo. Inicialmente, 15 nações estabeleceram que seria proibida a caça de jubartes, baleias-franca (Eubalaena spp.) e baleias-cinza (Eschrichtius robustus), além de um limite de pesca de 16.000 baleias-azuis por ano. Em 1960, a maioria dos países já havia limitado a caça comercial de baleia, mas só em 1986 todos os países aceitaram sua total proibição, com exceção da Noruega, Japão e Rússia, que também pararam nos meses seguintes.

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Baleia-franca-do-sul – Por Lloyd Edwards
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Baleia-cinza – Por Chris Johnson

A essa altura, os números de baleias por todo o mundo já eram preocupantes. As baleias-francas foram extintas no Mediterrâneo, por volta de 1000 a.C., onde já foram comuns. A baleia-cinza do Atlântico, uma possível subespécie de baleia-cinza, foi extinta no século XVIII.  Mais de 250.000 mil baleias-azuis viviam no mundo no passado e seus números chegaram a pouco mais de 600 indivíduos no século XX.

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População de baleias-azuis da Antártida

Por mais que os números se mostrem preocupantes, a proibição da caça fez com que as baleias conseguissem, mesmo que lentamente, voltar a dominar os mares. Embora cachalotes gigantes ainda não possam ser mais vistas (os maiores indivíduos de hoje não ultrapassam os 18 metros), suas populações voltaram a crescer, sobretudo no Oceano Atlântico. As baleias-cinzas, caçadas à beira da extinção, não chegam a 200 indivíduos, mas seus números estão estáveis pela primeira vez em muitos séculos. As jubartes, que foram uma das espécies mais afetadas pela caça comercial, tiveram uma queda populacional de 90% em dois séculos e seus números chegaram a 1.500 indivíduos adultos. Esforços internacionais de proteção, sobretudo no Brasil, possibilitaram que seus números subissem para 84 mil animais adultos. Estima-se que, em poucos séculos, suas populações poderão voltar aos níveis pré-industriais novamente.

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Populações de jubarte vêm crescendo em todo mundo – Foto por Howard Chen
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Número de cachalotes comparado ao número de navios

Mesmo com essa incrível recuperação, diversos desafios ainda ameaçam esses animais. Primeiramente, a poluição vem matando diversas baleias todos os anos pelo mundo, que são encontradas mortas com o estômago cheio de plástico. Embora isso ainda não ofereça um risco populacional significativo, a tendência é um aumento no número de plástico nos oceanos e, consequentemente, cada vez mais cetáceos mortos por esse motivo.

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Cachalote encontrada morta com 6 kg de plástico em seu estômago – Fotógrafo desconhecido

Em segundo lugar, populações humanas específicas ainda matam baleias desenfreadamente. Nas Ilhas Faroe, na Noruega, 800 baleias-piloto (Globicephala melenas) são mortas todos os anos de forma brutal, em um festival que ocorre na ilha há mais de mil anos. Ainda que essa prática, supostamente, não ofereça nenhum risco para a espécie como um todo, ela é criticada por não ser uma atividade de subsistência e por matar esses animais com cortes em sua medula espinhal, que oferece uma morte lenta e possivelmente dolorosa.

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Caça de baleias-piloto nas ilhas Faroe – Foto por Andrija Ilic

Infelizmente uma nova ameaça surgiu esse ano, que poderá atrapalhar a recuperação desses animais de forma significativa. Após deixar a International Whaling Commission (IWC), comissão internacional que proíbe a caça desses animais, o Japão voltou a praticar a baleação. No dia primeiro de julho, a primeira expedição baleeira do mundo dos últimos 33 anos, deixou os portos japoneses e já matou alguns animais. A desculpa do país é que cerca de 200 a 1.200 baleias são mortas anualmente para fins científicos (uma prática importante caso seja feita com responsabilidade, o que não é o caso) e que sua carne, muitas vezes, é vendida ilegalmente após as pesquisas. O país decidiu então permitir a volta da caça apenas para fins alimentícios e dentro de suas águas nacionais, o que pode, a longo prazo, extinguir localmente diversas espécies de cetáceos. Pelo mundo, diversas ondas de protestos surgiram, além de que alguns países ameaçaram cortar relações comerciais com o Japão caso a pesca se torne desenfreada. Internamente, diversas campanhas foram criadas para desencorajar a compra da carne desse animal, o que, aparentemente, contribuiu para uma leve redução na demanda esperada pelo produto.

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Carne de baleia em mercado japonês

Os cetáceos são os maiores e mais pesados animais da Terra e estão aqui há mais de 50 milhões de anos. Em poucos séculos, conseguimos reduzir ainda mais populações à beira da extinção, além de extinguir uma subespécie de baleia-franca e um golfinho de água-doce chinês (Lipotes vexillifer). Em poucos anos, extinguiremos também a vaquita (Phocoena sinus), cuja população hoje não ultrapassa os 18 indivíduos. Com a retomada da caça pelo Japão, o mundo todo volta a se preocupar com o futuro desses animais que, após anos de perseguição, voltaram a encher os mares do mundo. O que o futuro reserva para esses gigantes? Uma coisa é certa: esses organismos ainda têm que enfrentar diversos desafios e, com atitudes de governos e dos habitantes desse planeta, suas populações poderão voltar a crescer novamente! 

Leia também

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Referências

https://www.bbc.com/news/world-asia-48592682

https://www.nature.com/articles/srep16288

https://www.nationalgeographic.org/news/gray-whale-past-present-and-future/

https://www.leisurepro.com/blog/ocean-news/whale-species-extinction/

https://www.iucnredlist.org

https://iwc.int/status

https://www.smithsonianmag.com/smart-news/romans-may-have-hunted-whales-extinction-their-home-waters-180969605/

 

https://books.google.com.br/books?id=MYfxAQAAQBAJ&pg=PT24&redir_esc=y#v=onepage&q&f=false

China e Sustentabilidade: Uma história de amor ou ódio?

Desde 2008, o governo chinês mudou para uma postura proativa sobre governança climática e desenvolvimento de baixo carbono. Devido a melhorias significativas na eficiência de CO2 e a uma lenta desaceleração no total anual de emissões de CO2, a China é cada vez mais percebida como uma nova campeã de baixo carbono e parece estar em posição de assumir a liderança de mitigação climática global. Em dezembro de 2009, na COP-15, a Conferência das Nações Unidas para Mudanças Climáticas, realizada na Dinamarca, a China não atingiu metas de um acordo global de redução de emissões de gás carbônico. O argumento deles à época dizia que as grandes economias queriam frear o crescimento chinês.

Segundo a revista Exame, todos os anos, de 1,1 milhão a 1,6 milhão de chineses morrem por problemas de saúde causados pela poluição atmosférica. No mundo, são cerca de 3 milhões de mortes prematuras decorrentes desse tipo de poluição. Respirar o ar de Pequim é o equivalente a fumar 40 cigarros por dia, segundo estimativa da Universidade da Califórnia, em Berkeley, nos Estados Unidos.

Poluição em Pequim
Mulher usando máscara devido à poluição atmosférica. Foto: Kevin Frayer

Para mudar essa realidade, o governo de Pequim deu uma guinada em suas políticas ambientais nos últimos seis anos para a grande surpresa dos ambientalistas. Em 2014, o primeiro-ministro Li Keqiang declarou “guerra à poluição” e anunciou que os principais objetivos da China estavam mudando: em vez de buscar o enriquecimento a todo custo, a nova meta é tornar a China uma economia verde. Em março de 2017, no encontro anual do Partido Comunista, Keqiang reafirmou o compromisso de “fazer o céu da China azul novamente”.

Desde 2014, a China construiu uma rede nacional de monitoramento de emissão das partículas, chamado de PM 2.5. Essas emissões causam problemas de pele, hipertensão e doenças neurológicas. O país também passou a compartilhar dados com a Organização Mundial da Saúde e começou a fazer parte do projeto de monitoramento Air Quality Index. Graças a esse controle se sabe, por exemplo, que a poluição média do ar na região mais problemática do país, que reúne as províncias de Pequim, Hebei e Tianjin, ficou em 77 PM 2.5 em 2015, uma queda de 25% em relação ao ano anterior. Em Baoding, a média ficou em 128 ao ano, também em queda. A boa notícia é que os índices têm caído no país inteiro. A má notícia é que levará pelo menos dez anos para que a China alcance a meta de chegar ao índice 30, considerado mais saudável. Qualquer chinês pode checar a qualidade do ar em tempo real e denunciar fábricas que estejam poluindo mais do que o limite permitido por lei. Com isso, monitorar a qualidade do ar virou uma obsessão nacional. Uma executiva de uma empresa de tecnologia, ouvida pela revista Exame, afirmou que usa o app para saber a melhor hora de ir ao supermercado, de sair para uma corrida ou, até mesmo, de abrir as janelas da casa.

Shenzhen é uma das cidades que mais crescem na China, sendo hoje o epicentro das empresas chinesas de tecnologia, localizada no Sul do país. Hoje, possui 12 milhões de habitantes, 140 empresas inovadoras listadas em bolsa e, orgulho de seus moradores, um dos ares mais limpos da China. Em 2015, a média de poluentes PM 2.5 na cidade foi de 29,9, já abaixo da meta estabelecida para 2030.

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Uma mulher observa a vista com um guarda-chuva para proteger do sol em Shenzhen, China. Foto : Bob Rye

Em 2002, Shenzhen recebeu o prêmio máximo das Nações Unidas por ser uma das cidades mais ecológicas do mundo, um elogio que, tanto chocou, quanto impressionou seus vizinhos. Em menos de uma década, a cidade reduziu seus níveis de poluição do ar em cerca de 50%, segundo suas autoridades. A consultoria global McKinsey & Company, em 2016, nomeou Shenzhen a cidade mais sustentável de toda a China. Shenzhen também fez parte das manchetes globais por ter sido a primeira grande cidade do mundo a lançar uma frota de 16 mil ônibus públicos totalmente elétricos. Para se colocar isso em perspectiva, a cidade tem mais ônibus totalmente elétricos do que a soma de ônibus em operação de Nova York, Los Angeles, Toronto, Nova Jersey e Chicago. E para cada mil ônibus movidos a bateria em operação, o país deixa de consumir 500 barris de diesel, segundo cálculos da Bloomberg New Energy Finance. Foi essa frota totalmente elétrica que ajudou a cidade a atingir suas metas de qualidade do ar em 2016 e 2017.

Ações mais importantes feitas pela China:

Menos carvão, ar mais limpo

A China tomou medidas para desmantelar as centrais a carvão, reduzir os níveis globais de emissões e as taxas de emissão de partículas. Um enorme progresso foi feito na qualidade do ar, e agora há menos dias de poluição nas maiores cidades da China.

Melhor regulamentação

O antigo Ministério de Proteção Ambiental foi transformado no Ministério de Ecologia e Meio Ambiente (MEE), uma nova entidade com responsabilidades mais amplas e claras. O novo ministério supervisionará todas as políticas relacionadas à água, da gestão de recursos oceânicos à água subterrânea. Anteriormente, estas atribuições estavam espalhadas entre os diferentes departamentos. O ministério também é responsável pelas políticas sobre mudança climática.

Financiando um futuro mais verde

A China estima que necessitará aumentar de 40,3 trilhões de RMB (US$ 6,4 trilhões) para 123,4 trilhões de RMB (US$ 19,4 trilhões) para financiar a transição para uma economia mais verde. Ela começou a cobrar uma taxa ambiental para ajudar a financiar suas políticas ambientais e também está tentando atrair mais investimentos verdes. A Iniciativa do Cinturão e Estrada da China (BRI), um programa global massivo que visa melhorar a interconectividade entre os países, inspirado na antiga Rota da Seda, procura impulsionar o comércio e o crescimento econômico na Ásia e além. Como o vice-primeiro-ministro Liu He disse na Reunião Anual do Fórum Econômico Mundial, ocorrida em Davos este ano, reduzir a poluição é um dos principais objetivos estratégicos da China, pois persegue essa iniciativa, além de prevenir grandes riscos financeiros e aliviar a pobreza.

Zonas de desenvolvimento sustentável

No início deste ano, o governo chinês aprovou três zonas de desenvolvimento sustentável, que implementarão os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas para 2030:

  • Shenzhen ( como já exemplificado acima)

Shenzhen é o motor de inovação da China. Essa zona integrará tecnologias de tratamento de esgoto, utilização de resíduos, restauração ecológica e inteligência artificial para resolver problemas, desde o gerenciamento de recursos até a poluição.

  • Guilin

Esta zona se concentrará em inovações que lidam com a desertificação, criando soluções que podem ser replicadas por outras regiões que enfrentam a ameaça de invasão de desertos.

  • Taiyuan

Visando a poluição do ar e da água, esta zona promoverá soluções inovadoras que podem ser replicadas por regiões que dependem da extração de recursos.

  • Empresas de tecnologia verde

Os gigantes da tecnologia da China desempenham um papel vital no desenvolvimento sustentável. Tencent, Baidu e Alibaba estão entre as 10 maiores empresas de internet do mundo. A tecnologia on-line, principalmente o comércio eletrônico, o internet banking e as mídias sociais, estão acelerando o ritmo das mudanças. Por exemplo, a Ant Financial, uma subsidiária bancária do Alibaba, é uma das fundadoras da Green Digital Finance Alliance. Esta aliança visa usar a tecnologia digital para promover finanças verdes. Mais de 200 milhões de usuários da Ant se inscreveram no Ant Forest, um aplicativo que utiliza o rastreamento da pegada de carbono. O aplicativo leva os usuários à reduzirem as emissões de gases do efeito estufa na vida real, demonstrando o enorme potencial da Fintech para apoiar o desenvolvimento sustentável. Até o final de janeiro de 2017, a abordagem economizou 150.000 toneladas de CO2.

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Vista aérea de Shanghai. Foto: Denys Nevozhai

 

Joyce Msuya, microbióloga tanzaniana, veterana do Banco Mundial e Diretora Executiva do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), falou na 4ª Assembleia Ambiental ocorrida em março desse ano: “Esta é a hora de realmente fazer uma diferença, fazer a diferença no meio ambiente. A natureza não é inesgotável, deve ser vista como o capital financeiro.”

A China não é somente um polo de produção industrial, como também tem muito a oferecer em termos de boas práticas. Hoje ela está se transformando, não apenas em relação à mudança climática e à poluição, bem como tem procurado compartilhar o que foi aprendido com outros países que estão passando por desafios semelhantes. A China está tentando corrigir os seus erros. O que esse país oriental percebeu é que sem a natureza e sem saúde, a busca pelo ranking de potência mundial de nada adianta. Vamos aprender Brasil? 

 

 

 

 

Referência:

Artigos do World Economic Forum e da Nature

Matérias do Business Insider e Exame 

 

Veja também:

 

O Impacto Por Trás das Manchetes: Como as mudanças climáticas já estão afetando a vida no planeta

Nos últimos anos, muito se fala sobre o aquecimento global, sobre o derretimento das geleiras, sobre o aumento do nível do mar e da seca em várias regiões no globo. Mas esses parecem efeitos de uma realidade distante, sempre associados a previsões de 2050 pra frente. Entretanto, as mudanças no clima a nível local já são extremamente evidentes e muito pouco discutidas.

World ice cream
Imagem do AdobeStock

A difusão do termo aquecimento global se deu em meados da década de 1980 e transpôs os meios comunicativos, as classes corporativa, civil e política global em um debate incessante e controverso sobre o aumento da temperatura média do planeta. Os estudos apontam uma grande associação entre o aumento da temperatura e a Segunda Revolução Industrial ocorrida na metade final do século XIX, que disseminou o uso de combustíveis fósseis como força motriz de indústrias e do setor de transportes. A combustão do petróleo está associada a outro termo bastante famoso: a intensificação do efeito estufa. Os gases estufa (CO₂, CH₄, N₂O, H₂O) absorvem a radiação infravermelha térmica emitida pela terra e pelos oceanos, impedindo a dispersão do calor para o espaço. O excesso desses gases na atmosfera, tais quais aqueles provenientes da queima de combustíveis fósseis, agrava esse efeito e está promovendo o aumento da temperatura média do planeta. Além disso, a variação da temperatura influencia o macroclima global, afetando zonas de alta e baixa pressão e, consequentemente, pluviosidade, concentração de sais, dinâmica oceânica etc.

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A temperatura cresce rapidamente nas últimas décadas, sendo o último dado de 2018. Imagem: NASA’s Earth Observatory

As consequências desses eventos são amplamente discutidas, já tendo inclusive virado temática para filmes de realidade distópica e apocalíptica, como Mad Max (2015) e Interestelar (2014). No entanto, essas projeções refletem um aparelho antropocêntrico e muitas vezes apontam exclusivamente para os impactos sobre a espécie humana. O calor extremo vai matar as safras e as pessoas vão passar fome. As geleiras vão derreter e as metrópoles costeiras como Los Angeles, Amsterdã e Rio de Janeiro vão perecer. Os campos verdes e férteis vão desertificar. Não haverá água para as necessidades básicas como lavar o cabelo. Essas previsões soam distantes e parecem que não serão problemas com os quais nossa geração terá que lidar. Elas não necessariamente são falsas, no entanto, as mudanças climáticas já estão matando muitos.

A produção científica relacionada ao impacto climático sobre a biodiversidade está em alta e muitos estudos analisam previsões a partir de modelos matemáticos, bem como relatam o abalo sofrido por algumas populações. Modelos biológicos e matemáticos indicam que, no pior cenário, as mudanças climáticas antropogênicas podem causar a sexta extinção em massa da história do planeta. Além disso, o aumento da temperatura pode, não só elevar o risco de extinção de espécies, mas também acelerar o processo à medida que a temperatura média global aumenta.

Um estudo publicado na revista Science em 2010 discorreu sobre uma grande redução na diversidade de lagartos em regiões do México por causa do aumento da temperatura. Os pesquisadores associaram o nicho termal desses répteis à reprodução. Muito afetados pela temperatura exterior, eles têm o costume de se abrigar em locais frescos e, se as temperaturas ficam cada vez maiores em ambientes abertos, eles buscam locais menos quentes, que resultam em isolamento em locais fechados ou de acesso relativamente difícil. Assim, ocorrem menos interações entre indivíduos de uma mesma população, o que compromete a reprodução e por fim, afeta a espécie. O grupo de pesquisadores estimou a extinção de 58% das espécies de lagarto do gênero Sceloporus, que foi o alvo de estudo.

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Lagarto do espécie Sceloporus bulleri com sua distinta coloração azul na parte inferior do corpo. As espécies do gênero Sceloporus possuem diversas colorações, do verde para o marrom para o azul. Imagem: Viva Natura ORG.

Outra publicação, de 2011, na Nature Climate Change, correlacionou as mudanças no clima com a redução do tamanho corporal de diversas espécies e os seus efeitos na cadeia trófica. Com as mudanças climáticas, a distribuição de chuvas no planeta é alterada. Desta forma, latitudes subtropicais que apresentavam chuvas bem distribuídas no decorrer do ano, com um elevado índice pluviométrico, tendem a apresentar secas. Em contrapartida, latitudes muito altas (mais distantes da linha do Equador, próximo aos polos), assim como a região Equatorial, tendem a ficar mais úmidas. Mas como isso interfere no tamanho corpóreo e cadeia trófica?

Sabe-se que o crescimento de uma planta está diretamente relacionado com a sua taxa de respiração, que depende da disponibilidade de água. Portanto, quanto mais água, maior a capacidade da planta de crescer e se desenvolver. Por outro lado, chuvas em demasia podem diluir os nutrientes no solo em função da lixiviação (promovida pelo excesso de água infiltrando por ele). Logo, a redistribuição de precipitações no globo tende a comprometer o tamanho dos produtores primários, seja pela falta de água ou pela escassez de nutrientes. Com isso, os consumidores subsequentes da cadeia alimentar têm menos disponibilidade de alimento e, portanto, menos disponibilidade de fonte de energia para se desenvolverem, o que também pode comprometer o seu tamanho corporal.

Uma vez que os organismos devem dividir energia entre manutenção fisiológica, crescimento e reprodução, em caso de escassez energética uma preferência evolutiva é dada aos dois últimos fatores, limitando o crescimento corporal da espécie. Desta forma, alguns pesquisadores hipotetizam que há uma tendência evolutiva global em favorecer espécies menores, visto que o crescimento pode ser limitado pela decadência de recursos como água e nutrientes.

04 Red Knot - Jan van Gils
O maçarico-de-papo-vermelho (Calidris canutus) como é agora (esq.) e a projeção de como pode ser no futuro (dir.): tamanho reduzido e bico mais longo. Imagem: Jan van Gils, NIOZ.

O outro extremo do planeta também está sendo afetado pelas altas temperaturas ocasionadas pelo aquecimento global. No Mar de Bering, localizado entre o Alaska (EUA) e a Rússia, a superfície do oceano fica recoberta por uma camada de gelo durante o inverno e o aumento da temperatura não só diminui essa camada de gelo, como também gera ondas de calor na superfície do oceano no verão, que afetam o ciclo de vida de mamíferos aquáticos, peixes, aves e algas. Em anos mais quentes, a população de algas tende a diminuir nesse mar, e, com menos produtores primários, toda a cadeia alimentar sofre uma enorme redução que pode ser visualizada em espécies de topo de cadeia, como aves marinhas.

Entre 2016 e 2017 foram encontradas por volta de 60 a 80 vezes mais carcaças de papagaios-do-mar no Mar de Bering do que em anos anteriores, com estimativas de 3,1 a 8,8 mil aves mortas ao longo das várias populações que habitavam diferentes ilhas desse Mar. A alta mortalidade dessas aves é uma repercussão da alta mortalidade geral de seres vivos nos mares do norte na onda de calor que ocorreu entre 2014 e 2018. As aves encontradas durante esse período eram bastante magras e tinham penugem característica da época de troca de penas, período em que se faz necessária muita energia. Isso sugere que o evento massivo de mortes foi causado pela diminuição de fonte de alimento em vários níveis da cadeia alimentar, bem como a perda da diversidade de organismos nessas águas que abrigam grande variedade de animais, incluindo algumas das populações de peixes com maior importância econômica no mundo.

Outro estudo foi coordenado por pesquisadores da UFMG e trouxe para o debate a determinação sexual de tartaruga. Várias espécies de répteis têm a designação macho/fêmea da sua prole a partir de uma faixa de temperatura específica durante a incubação dos seus ovos. Diferentemente de humanos, as tartarugas não definem suas características sexuais a partir de cromossomos X e Y.  Elas possuem genes termossensíveis responsáveis pela produção de enzimas que permitem que as gônadas femininas sejam desenvolvidas. Quanto maior a temperatura, mais fêmeas. Porém, com o desequilíbrio do clima global, a razão sexual dessas espécies pode ser afetada, gerando uma população com muito mais fêmeas do que machos, já que os termômetros têm marcado números maiores. Os cientistas da UFMG constataram um excedente de fêmeas de tartarugas-de-pente (Eretmochelys imbricata) na costa da Bahia. Na falta de machos da mesma espécie, elas estão cruzando frequentemente com machos de outras espécies, como a tartaruga-oliva e a tartaruga-cabeçuda, gerando híbridos.

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Além disso, o aquecimento global já foi diretamente responsável pela extinção de espécies no nosso planeta. Em 2016, o roedor Melomys rubicola foi declarado extinto e, com base em estudos realizados pelo Queensland’s Department of Environment and Heritage Protection, contatou-se que a culpa foi do aumento do nível do mar em decorrência das mudanças climáticas. Esses animais viviam na ilha Bramble Cay, na costa australiana, uma pequena massa de terra com elevação máxima de 3 metros acima do nível do mar. Durante as marés cheias, a ilha costumava ter uma área de 40.000 metros quadrados, o que foi reduzida a apenas 25.000 metros quadrados nos últimos 20 anos. Com isso, toda a vegetação da ilha foi sendo drasticamente impactada, o que fez com que esse rato perdesse cerca de 97% de seu habitat. O último exemplar foi avistado em 2009, sendo o primeiro de muitos mamíferos a desaparecer por causa desse evento global.

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Melomys rubicola, o primeiro mamífero extinto devido ao aquecimento global – Foto de Cameron De Jong

Todos esses estudos de casos não descartam as evidentes consequências sobre a espécie humana, a principal propulsora do desequilíbrio em sua gênese. E essas consequências não giram em torno somente de previsões, visto que as mazelas já estão acontecendo.

Alguns estudos relacionam, pertinentemente, as mudanças climáticas à escassez de comida. Uma publicação de 1994 na revista Nature aborda que um aumento na produção global de comida só seria provável na presença de intensos e custosos investimentos em irrigação e melhoramento das plantas cultivadas. Porém, para países em desenvolvimento, a disponibilidade de água e de tecnologia própria ainda é pequena, e por vezes o capital financeiro para adquirir equipamentos é baixo. Essa abordagem pode parecer obsoleta e malthusiana e pessoas podem argumentar que muita coisa mudou desde 1994 e que suprimento de alimento não seria mais um problema. No entanto, um artigo de 2008 (pouco mais de 10 anos atrás) da revista Science faz previsões para um futuro não tão distante. Em 2030, o Brasil estará dentro dos países que teriam redução na produção. Notícias diárias já indicam um cenário provável: nossos rios estão secando, as temperaturas estão subindo e pequenos e médios agricultores já apresentam perdas em suas produções.

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Sistema de irrigação em Augusta, Estados Unidos. Imagem: Michael Bourgault.

Outra área afetada pelo aumento da temperatura é a qualidade do ar, o surgimento de doenças relacionadas e a saúde pública em geral. Especialistas alegam que a poluição do ar é resultado da combinação de altas taxas de emissões de gases efeito estufa e clima desfavorável, sendo os dois poluentes mais preocupantes para a saúde pública: o ozônio superficial e o material particulado. O ozônio (O₃) é produzido naturalmente na troposfera, camada atmosférica mais próxima da superfície, a partir de CO₂, CH₄, óxidos de nitrogênio e alguns compostos orgânicos voláteis. Os particulados são sulfatos, nitratos, carbono orgânico, carbono inorgânico, poeira e sal marinho, sendo os quatro primeiros mais preocupantes.

O aumento da produção dos gases precursores do ozônio está diretamente relacionado com o acréscimo na temperatura média do planeta, visto que muitos desses gases são estufa. E a alta concentração de ozônio superficial traz consigo sérios danos à saúde. É um gás tóxico, que mesmo em pequenas quantidades é capaz de causar lesões nos brônquios e alvéolos pulmonares, aumento no tempo para preencher os pulmões e na quantidade de fluído presente neles. Além disso, fibrose pulmonar também é observada em organismos com exposição ao gás. Em temperaturas elevadas, nos chamados “picos” (com a maior concentração de ozônio), somados à presença de NO₂, e a menor prevalência de ventos, a exposição constante aos poluentes estagnados pode levar a desenvolvimento de pneumonia, doenças pulmonares crônicas, doenças cardiovasculares e mesmo morte.

Somado a isso, tem-se a preocupante fuligem, partículas oriundas da queima incompleta principalmente do carvão industrial e do diesel. Uma pesquisa divulgada no Journal of Geophysical Research: Atmospheres apontou a fuligem como o segundo agente que mais contribui para o aquecimento global, ficando atrás somente do metano. A fuligem favorece o aquecimento global de duas principais maneiras: absorve o calor irradiado pela superfície (efeito estufa) ou ainda promove a formação de nuvens que dificultam a reflexão das geleiras, acelerando o seu derretimento. Alguns especialistas relacionam a ocorrência de asma, bronquite e pneumonia com a inalação constante de fuligem, comum nos grandes centros onde há indústrias e muitos caminhões trafegando.

10 China - Jerry Zhan
Poluição em Shanghai, China. Foto por: Holger Link.

Por fim, um dos fenômenos mais estudados em se tratando de impactos do aquecimento global em humanos são as ilhas de calor. Por causa da pavimentação nos grandes centros, asfaltos, calçadas, prédios e constante substituição da área verde, os grandes centros urbanos retêm muito calor durante o dia e têm pouco tempo para liberá-lo durante a noite. Por causa de uma onda de calor que afetou a Europa em 2003, 15 mil pessoas morreram – sobretudo idosos. A causa dessas mortes, segundo especialistas, girou em torno principalmente da desidratação. Termômetros marcavam constantemente 40ºC e durante a noite, por muito tempo, não marcaram menos do que 23ºC. Desde então, o governo do país tem investido pesadamente em tecnologias e políticas públicas que visam a reduzir a área de concreto e aumentar áreas verdes em grandes centros como Paris.

Vários estudos aplicados que visam solucionar as ilhas de calor estão sendo feitos ao redor do globo.  Cientistas canadenses em um estudo de 2013 sugeriram o investimento pesado em asfaltos mais claros ou cinzas, uma vez que, quanto mais escura é a cor, maior a capacidade dela de reter calor. Eles também defenderam a criação de prédios que refletem a luz e não a absorvem.  Além disso, uma pesquisa publicada em 2014 na revista Environmental and Climate Technologies concluiu, em seu experimento, que o uso de fachadas verdes ou de jardins verticais em prédios pode reduzir a temperatura dentro do ambiente em até 4ºC.

11 Bosco Verticale - Stefano Boeri
Edifício de luxo Bosco Verticale (Jardim Vertical), do arquiteto Stefano Boeri, em Milão, Itália. O edifício da empresa Boeri Studio foi entregue em 2014. Imagem: Boeri Studio.

O cenário ambiental atual é preocupante, as taxas de extinção estão com uma tendência vertiginosa à aceleração à medida que as temperaturas aumentam. Uma realidade que afeta não somente os humanos, mas a biodiversidade em geral. Contudo, apesar do constante esforço do homem em agredir o ambiente de forma geral, algumas espécies têm desenvolvido meios de sobreviver a essa devastação.

Environment conservation concept. Close up of glass globe in the forest with copy space
Imagem: Adobe Stock

A tendência evolutiva parte do pressuposto que, diante de pressões seletivas, indivíduos mais adaptados ao novo ambiente vão ser selecionados e a espécie tende a remanescer. No entanto, as mudanças são drásticas e o pior de tudo é que estão acontecendo rápido demais para que as espécies tenham tempo de contornar o problema.  A espécie humana poderá ser mesmo a causa da sexta extinção em massa do planeta e talvez, dentro da enorme lista de espécies extintas, Homo sapiens será uma delas.

Co-autoria de:

Amanda Abdo de Oliveira

Athos Moreira Silva

Bernardo Palhares Silva Puliero

Jorge Luís de Melo Guadalupe

Julia de Paula Vilaça Santos

Marina Costa Andrade

 

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Referências

Imagem destacada: PAUL SOUDERS

https://www.researchgate.net/publication/225894518_The_Global_Warming_Debate_A_Review_of_the_State_of_Science

BELLARD, C. Impacts of climate change on the future of biodiversity. Ecology Letters. Vol. 15. Pg. 365-377. 2012.

URBAN, M. C. Accelerating extinction risk from climate change. Science Magazine. Issue 6234, Vol. 348. 2015

[9] SHERIDAN, J. A.; BICKFORD, D. Shrinking body size as an ecological response to climate change. Nature Climate Change. Issue 1, Vol. 8, Pg. 401-406. 2011.

https://www.nps.gov/subjects/aknatureandscience/commonmurrewreck.htm

https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/noticia/2019/05/mudancas-climaticas-causam-mortes-em-massa-de-especie-de-ave.html

Clique para acessar o Tamar-Responde.pdf

FERREIRA JUNIOR, Paulo Dias. Aspectos ecológicos da determinação sexual em tartarugas. Acta Amaz.,  Manaus ,  v. 39, n. 1, p. 139-154,  Mar.  2009

Lara-Ruiz, Paula;Lopez, Gustave Gilles; Santos, Fabrício Rodrigues dos; Soares, Luciano Silveira. Extensive hybridization in hawksbill turtles (Eretmochelys imbricata) nesting in Brazil revealed by mtDNA analyses. 0 Journal Article

[1] Rosenzweig, C., & Parry, M. L. (13 January 1994). Potential impact of climate change on world food supply. Nature, 367(6459), 133–138.

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https://sci-hub.tw/10.1080/10298436.2013.782402

https://ortus.rtu.lv/science/lv/publications/19982/fulltext

(https://www.researchgate.net/publication/326332138_Plasticity_reveals_hidden_resistance_to_extinction_under_climate_change_in_the_global_hotspot_of_salamander_diversity)

A triste realidade dos pets silvestres

Nos últimos anos, a busca por animais de estimação pouco convencionais cresceu drasticamente, sobretudo com a popularização de redes sociais, como o Instagram, onde pessoas do mundo todo podem seguir usuários que possuem ouriços, tucanos ou, até mesmo, tigres em casa. Embora a procura por bichos silvestres esteja inclusive relacionada com a valorização de nossa fauna, ela esconde uma dura verdade relacionada ao tráfico, à caça, bem como à extinção de espécies na natureza. Por outro lado, quando feita corretamente, ela pode ser a chave para a preservação de nossa biodiversidade.

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Arara-azul-grande no Criatório Vale Verde, um dos melhores e mais conhecidos do país

O termo “animal silvestre” engloba todos os bichos que vivem na natureza, dentro do território nacional, ao contrário dos animais exóticos, que são oriundos de outros países. A comercialização de espécies exóticas dentro do Brasil é extremamente complicada, uma vez que esses organismos podem gerar inúmeros problemas ecológicos caso sejam soltos na natureza, motivo pelo qual poucos animais exóticos podem ser vendidos no país. Por outro lado, a lista de silvestres permitidos é incrivelmente longa, mas sua posse requer diversos cuidados.

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Por não ser nativo da nossa fauna, o ouriço é considerado um pet exótico – hoje proibido no Brasil 

Primeiramente, vale ressaltar que a cultura de possuir animais silvestres em casa gera enormes prejuízos para a natureza. Ainda hoje, a maior parte dos pets silvestres são adquiridos de forma ilegal, na qual os animais são capturados diretamente na natureza para serem comercializados. Essa prática pode oferecer diversos riscos sanitários, uma vez que o comprador poderá adquirir um animal com alguma zoonose ou parasitose, sob pena de contaminar toda sua família. Entretanto, os impactos são ainda maiores para os animais. Anualmente, a indústria do tráfico de animais no Brasil movimenta 1 bilhão de dólares e comercializa cerca de 12 milhões de animais, que, na maioria das vezes, são transportados em condições desumanas, com dezenas de aves levadas dentro de pequenas gaiolas adequadas para comportar apenas duas. Essa indústria foi, inclusive, responsável pela extinção local de espécies na natureza como o bicudo (Sporophila maximiliani), ave comum em cativeiro que não é vista solta em Minas Gerais há mais de 50 anos.

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Acredite, essa gaiola está relativamente vazia comparada com outras do tráfico de animais
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Bicudo (Sporophila maximiliani) – Ave comum em cativeiro e localmente extinta na natureza em vários estados –  Foto retirada do Wiki Aves

Muitas vezes, animais são mortos a tiros para que os traficantes obtenham os seus filhotes. A mutilação também é outro problema sério. Para que se tornem mais dóceis, cantem mais ou não ofereçam riscos ao comprador, aves são cegadas e têm as asas cortadas de forma irreversível (diferente do corte de penas da asa realizado por profissionais veterinários), mamíferos, como macacos e quatis, têm unhas e dentes arrancados e répteis são incapacitados ou, ainda, em alguns casos amputados (em respeito aos nossos leitores, imagens dessas práticas não serão colocadas, podendo ser facilmente encontradas no Google imagens digitando “tráfico de animais”).

Então, como adquirir um pet silvestre de forma ética e legal? Primeiramente, o comprador deve ter consciência que criar um animal silvestre pode ser difícil e perigoso. Ao contrário dos animais domésticos, os silvestres não foram alterados geneticamente por meio de seleção artificial ao longo de milhares de anos e, por isso, ainda retêm características “selvagens”. Uma arara ou um papagaio, por exemplo, requerem alimentação especial e são extremamente barulhentos, o que torna sua criação muito difícil em áreas residenciais. Uma cobra ou um macaco, por outro lado, podem gerar despesas exorbitantes, além de oferecerem certos riscos a seus donos. Estudar o animal e oferecer condições apropriadas a seu bem estar são condições essenciais para a sua compra.

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Exemplo de terrário para serpentes e lagartos

Em segundo lugar, o comprador deve conhecer a legislação por trás de cada espécie e saber onde comprá-la. Existem vários criadouros certificados pelo IBAMA pelo país, nos quais podem ser comprados macacos-prego, jiboias, iguanas, teiús, tarântulas, passarinhos, tucanos, araras, papagaios e, até mesmo, grandes aves de rapina. Esses animais são muito caros, podendo chegar a até 15 mil reais e, em nenhum caso, seu manejo adequado é simples. Vale lembrar que um animal ilegal não pode ser legalizado, uma vez que todos os pets silvestres devem ter nascido em cativeiro e dentro de um dos locais certificados. A multa para o porte de animais ilegais varia entre R$ 1.625,70 a R$ 16.250,00 por animal e o indivíduo pode ser preso, com pena de seis meses a um ano, de acordo com o artigo 29 da Lei de Crimes Ambientais (Lei nº 9.605/98). Entretanto, um animal ilegal pode ser entregue voluntariamente ao IBAMA sem nenhum tipo de penalidade, onde ele passará por avaliações médicas e, em alguns casos, poderá até ser reabilitado para voltar para a natureza.

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Jiboia-arco-íris, um dos pets legais mais procurados no país

Em resumo, a obtenção de um animal silvestre é custosa, seu manejo é difícil e a obtenção de animais ilegais patrocina a caça e a mutilação de nossa biodiversidade. Mesmo os animais legalizados podem ser prejudiciais, uma vez que podem influenciar pessoas a buscar o mercado ilegal devido ao preço alto de bichos provenientes de criatórios. Então, por que não proibir os pets silvestres? Assim como as drogas, por exemplo, a proibição só aumentaria o tráfico e, no caso dos animais, aumentaria também os maus tratos. Independente da legislação, muitas pessoas irão buscar animais silvestres. Ao existirem centros especializados para sua reprodução e venda, a saúde e bem estar desses animais são garantidas e os seus compradores podem ser responsabilizados por quaisquer danos a eles, uma vez que o IBAMA possui um registro de todos os adquirentes. Entretanto, o aumento da penalização para os infratores e a criação de mecanismos mais eficientes para a fiscalização e punição do tráfico devem ser adotados. Além disso, esses criatórios são indispensáveis para a conservação de alguns animais, algo que abordaremos em um texto futuro.

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O papagaio-comum é a ave mais traficada do país. A ave legalizada custa em torno de 3 mil reais.

Precisamos lembrar que, se quisermos um animal silvestre, devemos procurar criadouros legais, conhecer as necessidades de cada bicho e estar dispostos a gastar muito dinheiro com seu recinto, alimentação e despesas médicas. Possuir um pet silvestre é muito bom, mas requer ética, responsabilidade e carinho. Portanto, pense bem antes de escolher um pet silvestre e lembre-se de não contribuir com atividades que ameacem diretamente nossa fauna. Eventualmente, algumas pessoas compram animais ilegais por perceberem que eles estão em uma situação ruim, mas isso também financia o tráfico. Sendo assim, não comprar um animal é a melhor forma de ajudá-lo.

Segue abaixo um link com a lista de criatórios certificados pelo IBAMA:

https://smastr16.blob.core.windows.net/home/2015/09/criadores_e_estabelecimentos_comerciais_v3.pdf

Referências

http://drfala.com.br/post/roedores/cuidados/como-comprar-animais-silvestres-de-forma-legal

https://www.forumanimal.org/silvestre-nao-e-pet

https://canaldopet.ig.com.br/curiosidades/especiais/2019-02-16/animais-silvestres-comprar.html

https://g1.globo.com/sp/sorocaba-jundiai/mundo-pet/noticia/ter-animais-silvestres-em-casa-requer-autorizacao-do-ibama-e-cuidados-especificos-entenda-as-regras.ghtml

https://www.todamateria.com.br/trafico-de-animais/

https://pib.socioambiental.org/en/Not%C3%ADcias?id=104804

https://criatoriovaleverde.com.br/tabela-de-precos

Projeto Bicudos

 

 

Fronteira Agrícola Brasileira: Matopiba e a ameaça à sustentabilidade

A mais nova fronteira agrícola de soja do Brasil, a região do MATOPIBA, que se estende por quatro estados do norte, está contribuindo para a redução do bioma da região. Matopiba é uma palavra formada pelas iniciais Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia e tem como sua principal frente o plantio de soja. Projeções do Ministério da Agricultura do Brasil indicam que a área plantada pode crescer de 4,16 milhões de hectares atuais para 10,3 milhões de hectares em 10 anos.

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Área plantada com soja por microrregião (1975, 1985, 1995, 2005 e 2015) e destaque para a região do MATOPIBA Fonte: IBGE – Produção Agrícola Municipal. Elaboração: Niederle e Wesz Jr., 2018.

O bioma Cerrado é a maior região de savana da América do Sul e é responsável pela maior biodiversidade da Terra, com 44% de plantas endêmicas. É também a segunda maior formação natural do continente e cobre um quarto do território brasileiro, 2 milhões de km², correspondente em tamanho aos territórios combinados da Espanha, França, Alemanha, Itália e Reino Unido. O Cerrado constitui um terço da biodiversidade do Brasil e é considerado um “berço de águas”, uma vez que é fundamental para oito das doze bacias hidrográficas brasileiras. As cabeceiras de todos os afluentes do sul do rio Amazonas (com exceção do Juruá e Purus), bem como vários rios nos estados do Maranhão e Piauí, estão no Cerrado.

Nos últimos anos, a vegetação nativa da região da Matopiba foi em grande parte desmatada para o plantio de soja e para a pecuária. O Código Florestal Brasileiro permite a limpeza de até 80% das áreas cobertas por propriedades rurais no Cerrado, de modo que há um escudo legal para o fim do habitat nativo em troca da agropecuária.

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Fonte: Embrapa (2015) e IBGE (2016).

Um ponto de grande preocupação é o fato de uma parcela importante do Matopiba estar localizada na região definida como Amazônia Legal (Lei nº 1.806/1953 e Lei nº 12.651/2012), apesar de o bioma Amazônico estar presente apenas em uma pequena área do estado do Tocantins e do Maranhão. A presença dos biomas e da Amazônia Legal no território do Matopiba afeta na delimitação da reserva legal a partir do Código Florestal Brasileiro (Brasil, 2012).

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Quando um imóvel rural está localizado simultaneamente no bioma Cerrado e na Amazônia Legal, segundo o Código Florestal (Brasil, 2012), a área de reserva legal é de 35%. Agora, se o imóvel rural estiver localizado apenas no bioma Cerrado ou no bioma Caatinga, a reserva legal é de 20% (Brasil, 2012). A delimitação das Áreas de Preservação Permanentes (APPs) segue as regras do Código Florestal, logo podemos ter a ideia de quanto impacto essa expansão agrícola pode trazer.

Atualmente há cerca de 324 mil estabelecimentos agrícolas, 46 unidades de conservação, 35 terras indígenas e 781 assentamentos de reforma agrária e áreas quilombolas, num total estimado em 14 milhões de hectares de áreas legalmente atribuídas, além de áreas de conservação ainda em processo de regularização.

Fronteira Agrícola na Amazônia Legal

O projeto do Matopiba iniciou-se de forma rápida e já é um grave problema socioambiental. Entre os anos de 2015 e 2016 o desmatamento na área foi de 2 mil quilômetros quadrados. Segundo informação do Ministério do Meio Ambiente (MMA) quase metade da cobertura vegetal original do cerrado já desapareceu, tendo sido desmatado um total de 975,7 mil quilômetros quadrados desse bioma tão importante.

De acordo com a Agência Brasil, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) começou, no mês de abril desse ano, a visitar áreas de fronteira agrícola nos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia (Matopiba). Os técnicos, em parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro, verificam os impactos da agropecuária, do plantio de soja, em especial, na Bacia do Rio Grande, afluente do São Francisco. O levantamento vai testar o marco metodológico das contas ambientais de ecossistema, indicador que deve ser usado no Produto Interno Verde (PIV), índice internacional das Nações Unidas (ONU) que estima o impacto no meio ambiente da atividade econômica calculada pelo PIB tradicional. Para definir a metodologia das contas de ecossistema, testes são feitos no Brasil, no México, na Índia, na África do Sul e na China. A Divisão de Estatística da ONU acompanha o trabalho, financiado pela União Europeia.

O avanço da fronteira agropecuária precisa incorporar todos os impactos ambientais, não só objetivando a preservação da biodiversidade e dos biomas afetados, como também calculando o risco da própria produção. Estudos profundos de disponibilidade hídrica são necessários, considerando as mudanças no uso da cobertura do solo, o aumento da demanda de água e os possíveis efeitos da mudança climática.

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Além disso, é fundamental que as políticas públicas caminhem lado a lado com o desenvolvimento sustentável, sempre levando em consideração a premissa de que, independente de qual valor econômico esteja em jogo, não há riqueza maior do que a nossa biodiversidade.

 

 

Referências: 
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística ( IBGE ) 

Letras Ambientais: Matopiba: o império do agronegócio nos limites do Cerrado brasileiro
Artigos:

BOECHAT, Cássio: “A fronteira agrícola no Brasil hoje e os limites do ajuste espacial: o capital fictício condicionando a produção do espaço no MATOPIBA” 

GARCIA, Junior: “A questão ambiental e a expansão da fronteira agrícola na direção do matopiba brasileiro. ”  

 

 

Guerra à Ciência – Parte IV – A Terra não é redonda. E muito menos plana!

A ideia de que a Terra é plana é uma das mais complexas vertentes do movimento anti-científico. Para a maioria das pessoas, a noção de que nosso planeta é redondo é algo completamente óbvio e o movimento terraplanista, como é chamado, parece alguma grande piada de mau gosto. Entretanto, cada vez mais, pessoas do mundo inteiro compram livros, assistem palestras e entram em grupos locais para discutir e disseminar esse entendimento. Mas, afinal, realmente existem muitos indivíduos terraplanistas no mundo? Como essa ideia surgiu e quais seus principais argumentos?

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Quando pensamos na ideia do nosso planeta ser esférico, muitas vezes lembramos da história de Colombo e do “descobrimento” da América. Entretanto, esse conhecimento já era amplamente difundido por muitas sociedades ocidentais desde Aristóteles, em 300 a.C., com exceção de poucos povos, como os Vikings. Em 600 a.C., os gregos notaram que, quando um barco partia em expedições marítimas, sua base ia desaparecendo à medida que a sua distância aumentava, além de que seu mastro era a última coisa a sumir no horizonte. Isso significava que nosso planeta possui algum tipo de curvatura, que poderia ser explicada de diversas formas distintas além de uma esfera. Além disso, ao observar eclipses lunares, eles notaram que a sombra da terra imprimia uma forma côncava na lua e, portanto, nosso planeta deveria ser um disco côncavo ou uma esfera.

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Eclipse lunar total do dia 8 de Outubro de 2014 fotografado por Connor Madison em Oshkosh, Wisconsin

Com o passar do tempo, mais e mais pessoas estavam convencidas de que a Terra era uma esfera, principalmente após as observações de que, quanto mais ao sul os navegadores iam, mais ao norte as estrelas polares apareciam no céu. Os contatos com povos africanos também criaram a ideia de que o sol estaria mais próximo da porção central do globo, uma vez que ele se encontrava exatamente no meio do céu ao meio dia nas áreas tropicais. Comparando o ângulo do sol em um mesmo horário em diferentes regiões, o filósofo Eratosthenes conseguiu, por volta de 100 a.C., calcular a circunferência da Terra, com uma enorme precisão.

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Esboço do experimento de Eratosthenes para calcular a circunferência da terra

Nos próximos séculos, diversos povos chegaram às mesmas conclusões dos gregos, utilizando métodos muito diferentes, com um grande destaque para os povos árabes que, por volta do ano 800, conseguiram descobrir o ângulo de curvatura entre as cidades de  Tadmur até Raqqa, ambas na Síria. O contato islâmico com a Europa e, posteriormente, a chegada de Colombo às Américas, em 1492, consolidou ainda mais esse conhecimento, que se tornou quase inquestionável para os europeus após a circum-navegação do globo por Fernão de Magalhães, entre 1519 e 1521.

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O Trajeto de Fernão de Magalhães seria impossível no tempo realizado caso a Terra fosse plana

A primeira foto da Terra vista do espaço foi tirada em Outubro de 1946 por um foguete americano, a 105 km de altura, e pouco pode ser visto de sua estrutura. Anos depois, em 1966, uma foto foi tirada próximo da superfície lunar. Desde então, diversas novas tecnologias foram empregadas para fotografias cada vez mais nítidas e para um mapeamento tridimensional, que revelou que o planeta não é uma esfera mas, sim, que possui um formato elíptico e distorcido.

The first photograph of Earth from space.
Primeira foto da Terra, em 1946
Foto da Terra tirada da lua, em 1966
The Blue Marble, 1972. Photo via NASA.
Foto Blue Marble, tirada pela NASA em 1972
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Embora a Terra pareça com uma esfera vista de longe, testes gravitacionais indicam que seu formato é levemente distorcido

Mesmo com fotos, filmagens e com o depoimento de dezenas de pessoas que já viram nosso planeta de longe, no interior de foguetes, o terraplanismo vem crescendo de forma acelerada, e a culpa é da internet. Em 2018, durante a maior conferência mundial de terraplanismo do mundo, em Denver, a Universidade de Tecnologia do Texas entrevistou participantes e, das 30 pessoas ouvidas, 29 afirmaram que aprenderam que a Terra é plana no YouTube, menos de dois anos antes. Pouco a pouco, esse grupo de pessoas ganhou força e, atualmente, cerca de 33% dos jovens entre 18 e 24 anos nos Estados Unidos não tem certeza do formato da Terra e 9% estão totalmente convencidos de que ela seja plana.

A maioria dos terraplanistas acredita que nosso planeta seja coberto por um grande domo no qual emissores de luz, o sol e a lua, giram diariamente. Há ainda aqueles, grande parte do grupo, que afirmam que o mar não cai da beirada da Terra, pois é protegido por uma grande muralha de gelo denominada Antártida (estilo Game of Thrones, segundo Mark Sargent, criador do canal do YouTube Flat Earth Clues e um dos principais nomes do terraplanismo). Para eles, a gravidade também é uma mentira, uma vez que ela só pode ser explicada se nosso planeta fosse uma esfera.

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O mapa da Terra Plana e a posição da Lua e do Sol

Mas, afinal, quais são os seus principais argumentos?

1- O homem nem nenhum objeto terrestre jamais deixou a Terra

Um argumento muito utilizado é que a NASA é uma mentira e que o ser humano jamais esteve no espaço. Os terraplanistas afirmam que todas as fotos do espaço foram criadas no computador. Entretanto, esse argumento não leva em conta a existência de satélites que, inclusive, podem ser vistos aqui da Terra e cuja tecnologia é utilizada por nós diariamente.

2- Não conseguimos ver a curvatura

Nosso planeta é muito grande. Para conseguir observar a curvatura da Terra, precisamos ter um espaço livre muito amplo, não obstruído por objetos como montanhas. Mesmo nos casos em que cidades são observadas do mar, dando a impressão de que são vistas em sua totalidade, a base dos prédios vai sumindo no horizonte à medida que a distância da cidade aumenta. O mesmo exemplo pode ser observado com barcos que, a medida que se afastam da costa, cada vez menos sua base pode ser observada.

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A base dos prédios desaparece com a distância – Cidade de Chicago

3- Não sentimos a Terra girando

Nosso planeta está girando em torno dele mesmo, está circulando o Sol, que, por sua vez, está girando em torno do centro da galáxia. Tudo isso em velocidades inimagináveis por nós. Esse movimento pode ser medido e observado de forma relativamente simples para aqueles que possuem um telescópio. Além disso, se evoluímos em um planeta que está girando, não possuímos os mecanismos necessários para detectar seu movimento, uma vez que isso não confere nenhuma vantagem evolutiva para nós.

4- A água de copos, rios e piscinas é plana. Por que a água da Terra seria curvada?

Esse é um dos argumentos mais utilizados pelos terraplanistas. Enquanto a água em um copo é segurada por sua tensão superficial, a enorme massa da Terra puxa toda a água do planeta para seu centro, o que gera uma forma esferoidal.

5- Existem pouquíssimos voos no sul do Hemisfério Sul devido à enorme distância entre as cidades, uma vez que estão mais perto da borda

Realmente existe uma enorme massa oceânica entre a Oceania e a América do Sul, que realmente dificulta os vôos. Todavia, não há o mesmo número de pessoas querendo ir da Austrália para o Chile como ocorre dos Estados Unidos para a Europa, por exemplo. Esse é o verdadeiro motivo do número reduzido de voos.

6- Ninguém vai para a Antártida por que a CIA e a NASA não deixam

Os valores exorbitantes da viagem e o clima inóspito são os verdadeiros motivos para poucas pessoas irem para esse continente, que possui bases de pesquisas de vários países e recebe centenas de pessoas todos os anos – e ninguém nunca viu uma muralha.

7- As estações são consequência do distanciamento do sol em determinadas épocas do ano

Essa explicação não leva em conta o fato de que, enquanto é verão no hemisfério norte, é inverno no hemisfério sul e vice versa.

A Terra Plana, assim como os outros movimentos anticientíficos, não é levada a sério pelos verdadeiros cientistas e, aqueles que acreditam nela, muitas vezes são ridicularizados. É importante respeitar e explicar de forma didática e responsável a ciência por trás das teorias que movem o mundo, jamais ridicularizando aqueles que não possuem o conhecimento científico para que, assim, mais e mais pessoas acreditem e confiem na ciência.

Referências

https://theflatearthsociety.org/

https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/noticia/2019/03/terraplanistas-planejam-expedicao-para-ver-o-limite-do-planeta.html

https://www.nationalgeographic.com/photography/photos/milestones-space-photography/

https://blogs.scientificamerican.com/observations/do-people-really-think-earth-might-be-flat/?redirect=1

https://www.livescience.com/62220-millennials-flat-earth-belief.html

Garrett’s Blog: The Earth Actually Isn’t Round

Documentário da Netflix “A Terra é plana” (Behind the Curve em inglês)

 

 

Guerra à Ciência – Parte III – Aquecimento Global e seus opositores

Nos dias atuais, notamos uma grande quantidade de céticos que não acreditam que o aquecimento global esteja se intensificando devido às ações antrópicas. Muitas pessoas nos Estados Unidos – uma porcentagem bem maior que em outros países – mantêm incredulidade sobre esse consenso ou acreditam que os ativistas do clima estão usando a ameaça do aquecimento global para atacar o livre comércio e a sociedade industrial em geral.

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Foto de Vidar Nordli-Mathisen

Para alguns descrentes da mudança climática, o fato de que alguns cientistas na década de 1970 estavam preocupados com a possibilidade de uma era do gelo próxima é suficiente para invalidar a preocupação com o aquecimento global agora. O Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática, que consiste em centenas de cientistas operando sob os auspícios das Nações Unidas, divulgou seu quinto relatório nos últimos 25 anos. Este repetiu, mais alto e mais claro do que nunca, o consenso dos cientistas do mundo: a temperatura da superfície do planeta subiu cerca de 1,5 graus Celsius nos últimos 130 anos e as ações humanas, incluindo a queima de combustíveis fósseis, são muito provavelmente a principal causa do aquecimento desde meados do século XX.

Alguns ativistas ambientais querem que os cientistas, além de desempenhar seus papéis nas universidades, se envolvam mais nas batalhas políticas. Qualquer cientista que vá por esse caminho precisa fazer isso com cuidado, diz Liz Neeley. Segundo ela, “essa linha entre comunicação científica e advocacia é muito difícil de se afastar”. No debate sobre a mudança climática, a alegação central dos céticos é a de que a ciência é politicamente tingida, impulsionada pelo ativismo ambiental e não por dados concretos, ao dizer que o aquecimento é uma ameaça séria e real. Isso não é verdade e calunia os cientistas honestos, mas torna-se mais plausível a olhos desconfiados se os cientistas forem além de sua perícia profissional e começarem a defender políticas específicas.

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Foto de Harrison Moore

No debate sobre o clima, as consequências da dúvida provavelmente são globais e duradouras. Muitos céticos da mudança climática alcançam seu objetivo fundamental de deter a ação legislativa de combate ao aquecimento global. Eles não precisam ganhar o debate por meio de méritos, apenas influenciar a sala o suficiente para impedir que as leis que regem as emissões de gases do efeito estufa sejam aprovadas.

O que motiva a negação?

Há algo, que está em jogo a nível subconsciente, que nos permite desconsiderar as grandes evidências que estão à nossa frente, tais quais as de que o aquecimento global é real. Mesmo havendo consenso de que a mudança climática está ocorrendo e de que os humanos a estão exacerbando, ainda há pessoas, incluindo políticos, que se recusam a reconhecer as evidências.

Nós temos que mudar a maneira como falamos de alterações climáticas. A psicologia diz que os sentimentos gerados ao falarmos sobre o assunto são culpa e medo, ao invés de comprometimento. O que se observa é exatamente o oposto do engajamento; quando sentimos algo ruim, é normal que nos afastemos do problema para nos aproximarmos de algo que nos faça sentir melhor. Muitos pensam que outras pessoas devem lidar com isso, e não eles mesmos. Grande parte das pessoas enxerga o aquecimento global como uma mudança distante que acontecerá daqui há muito tempo. Além disso, os gases de efeito estufa, causa fundamental do problema, são invisíveis aos nossos olhos.

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Foto de Ekaterina Sazonova

“Uma grande parte duvida não pela experiência, e sim pela motivação”, disse Paul Thagard, professor emérito do Departamento de Filosofia da Universidade de Waterloo, especializado em ciência cognitiva. “Os psicólogos falam muito sobre ‘inferência motivada’ que se dá quando as pessoas têm motivações fortes, são muito seletivas no tipo de evidência em que acreditam”. Por exemplo, aquelas pessoas cuja subsistência depende da indústria petrolífera podem temer que a mudança climática ameace seus empregos. Outros podem recear que o governo tire dinheiro de seus bolsos na forma de gastos públicos em esforços de mitigação de carbono.

10 Principais argumentos utilizados pelos céticos e porque eles podem ser refutados:

  • O clima já mudou antes: Sim, o clima reage a qualquer força que o faça mudar; os seres humanos são atualmente a força dominante. 
  • O sol é o causador da mudança climática:
    Nos últimos 35 anos, o sol mostrou uma tendência de arrefecimento. No entanto, as temperaturas globais continuam a aumentar. Se a energia do sol está diminuindo enquanto a Terra está aquecendo, então o sol não pode ser o responsável por essa alteração da temperatura.