Poluição eletromagnética: o celular pode causar câncer?

A eletricidade está ao nosso redor o tempo todo, tornando nossas vidas mais fáceis e divertidas, mas nunca paramos para pensar nisso. Porém, com tantos aparelhos ao nosso redor, ficamos na dúvida se existe eletricidade demais. Poderia aquilo que é a base do mundo moderno estar lentamente nos matando? Primeiramente temos que tentar entender o que é eletricidade e como ela nos afeta.

Eletricidade é o movimento de uma carga elétrica. Esse movimento gera campos elétricos e magnéticos que se espalham pelo espaço e transportam energia. Chamamos esse fenômeno de radiação eletromagnética.

Radiação é uma palavra que deixa as pessoas muito atônitas. Mas irradiar apenas significa “exalar”. Como quando o forno na sua casa libera calor na forma de radiação infravermelha. Diferentes partes do espectro eletromagnético correspondem a diferentes tipos de radiação. Muitos deles são perfeitamente inofensivos e alguns deles podem ser perigosos. A radiação com comprimentos de onda muito curtos, como luz UV, raios X e raios gama, é forte o suficiente para arrancar elétrons de seus átomos, podendo causar queimaduras e danos genéticos.

É isso que muitas pessoas têm em mente quando ouvem o termo “radiação”. O restante do espectro abrange uma grande variedade de ondas mais longas, de luz visível, infravermelho, microondas e ondas de rádio. Esse é o tipo de radiação emitida por todos os tipos de tecnologia humana. Telefones celulares, roteadores WiFi, linhas de energia elétrica e eletrodomésticos. Essa radiação não interrompe moléculas em nosso corpo. No entanto, alguns tipos de radiação podem estimular músculos e nervos e também provocar vibrações nos cabelos do seu corpo, o que às vezes pode causar sensação de formigamento acima de certos valores-limite.

images.jpeg

Alguns tipos de ondas são úteis para fazer o jantar. As microondas agitam as moléculas de água da comida fazendo-a aquecer. Isso acontece conosco o tempo todo. Por exemplo, o calor agradável que você sente na praia é o aquecimento da pele devido à sua exposição à radiação infravermelha eletromagnética do sol.

20150527-buzaglo-d87fd648.jpg

Estamos cercados por fontes naturais e, geralmente, inofensivas de radiação eletromagnética o tempo todo, mas desde a Revolução Industrial, adicionamos muito disso ao nosso ambiente imediato. A questão de saber se isso é realmente perigoso primeiro chamou a atenção do público quando um estudo de 1979 ligou a leucemia ao fato das pessoas viverem perto das linhas de energia. Este estudo em particular foi rapidamente desacreditado. A conexão não pôde ser explicada e nenhum link causal direto foi confirmado.

Uma vez que os supostos malefícios foram propostos, a ideia persistiu. E os milhares de estudos realizados sobre os possíveis perigos ilustram que os aparelhos tecnológicos ainda são vistos como uma ameaça muito real. Muitas pessoas afirmam ser sensíveis à radiação proveniente de nossos aparelhos e telefones celulares. Eles relatam sintomas como dores de cabeça, náusea, reações na pele, olhos ardentes ou exaustão. Mas esses são apenas efeitos relatados no dia-a-dia. Alguns estudos encontraram resultados muito mais perturbadores, como possíveis conexões entre o lado do cérebro que as pessoas usam quando estão em seus telefones e a aparição de tumores cerebrais. A pergunta que a ciência está tentando responder não é tanto sobre os efeitos agudos da irradiação. Sabemos, por exemplo, que os raios X causam danos imediatos ao DNA em suas células, mas o mesmo não ocorre com as ondas de rádio. A questão é: o tipo de radiação eletromagnética fraca na qual estamos constantemente cercados é prejudicial a longo prazo e pode ser resultado de algum mecanismo ainda desconhecido?

mario-caruso-0C9VmZUqcT8-unsplash.jpg

Responder a essa pergunta é muito mais difícil do que pensávamos, visto que existem milhares de fontes primárias, relatórios e declarações de diferentes organizações. Muitos dos estudos mais citados que espalham pânico acerca da radiação eletromagnética são altamente controversos pois se tratam, muitas vezes, de uma série de estudos populacionais baseados em pesquisas e relatos particulares. Isso significa, por exemplo, perguntar aos pacientes com tumores cerebrais o quanto eles acham que usaram o telefone nos últimos anos. O problema é que as pessoas não são confiáveis, pois tendem a se lembrar mal das coisas ou podem ser influenciadas facilmente. Além disso, muitos estudos podem ser influenciados por aquilo que melhor combina com a opinião de cada cientista ou da mídia, para conseguir uma manchete melhor para a primeira página de um jornal.

Um exemplo disso foi um estudo que procurava câncer em ratos e camundongos devido à radiação do telefone celular. Os resultados pareciam mostrar uma conexão. Mas, por alguma razão, houve relação apenas em ratos machos e nenhuma relação em camundongos. Porém foi relatado na mídia como se este estudo provasse que a radiação do telefone celular causa câncer. Infelizmente, esse é o caso de estudos com resultado falso positivo sobre o assunto. Outro aspecto é que a Organização Mundial da Saúde (OMS) classificou oficialmente os campos de radiofrequência como possivelmente cancerígenos. Mas o que isso realmente significa é que existem algumas indicações de que eles podem causar câncer, mas não podemos provar isso e devemos ficar atentos. Então, se fizermos uma breve análise, qual é o quadro geral? No geral, não houve evidências consistentes em estudos realizados em humanos de que a radiação eletromagnética abaixo dos limites do valor de exposição cause problemas de saúde. Existem algumas associações estatísticas, mas, em sua maioria, fracas e inconsistentes. Se houvesse alguma relação causa-efeito definida, já saberíamos devido ao número de dados existentes.

ramon-salinero-vEE00Hx5d0Q-unsplash.jpg

Portanto, com base nas pesquisas científicas atuais, você deveria se preocupar com a radiação emitida pelo seu laptop, telefone celular ou TV? A resposta é não. Pelo menos, você não deveria. Mas e quanto às pessoas que dizem que isso as está prejudicando? Estudos mostram que eles podem estar experimentando o que é conhecido como “efeito nocebo”. Se você estiver com dor de cabeça e começar a se sentir melhor quando desligar o laptop, poderá ver uma conexão entre essas duas coisas. Uma vez que você tenha essa suspeita, a ideia de que a radiação fraca possa prejudicá-lo pode ser exatamente o que está prejudicando você.

Na economia da tecnologia em que vivemos, falar sobre perigos não comprovados pode nos levar a negligenciar coisas que, com certeza, são ruins para nós. Por exemplo: a poluição do ar está ligada a 4,2 milhões de mortes prematuras a cada ano e é definitivamente algo que se pode mensurar um impacto real atualmente. Outros fatores, como o impacto psicológico negativo causado pelas redes sociais e o isolamento social devido ao uso dos aparelhos que usamos diariamente, também já foram comprovados.

jezael-melgoza-X7BSCrsdHVg-unsplash.jpg

Mesmo assim ainda há vários estudos de longo prazo em andamento para que as pessoas se sintam mais seguras com relação à irradiação eletromagnética, a exemplo do estudo Cosmos, que analisará os possíveis impactos do uso do telefone celular na saúde, medindo exatamente a frequência e a duração das chamadas telefônicas. Mas enquanto aguardamos a conclusão desses estudos de longo prazo, há muito mais problemas urgentes para se focar. Ao invés de se preocupar com o que as divisões e as redes fazem à sua saúde, considere como elas podem prejudicá-lo de outras maneiras, quando compramos on-line, usamos as redes sociais ou assistimos a vídeos sem conteúdo do YouTube. As ondas de rádio podem até não nos prejudicar, mas a negligência e o exagero na utilização de tecnologias e a poluição do ar com certeza irão.

 

 

Leia também: 

A poluição pode acabar com nossa Internet nos próximos dez anos – e não há nada que você possa fazer para impedir!

O Campo de Força Terrestre – Como nosso campo eletromagnético nos protege e pode um dia destruir a nossa sociedade

 

 

 

Referências:

Kurzgesagt – In a Nutshell

Ambient air pollution: Health impacts, 2018

WHO: What are electromagnetic fields? 2019

Electric & Magnetic Fields, NIH, 2018

Radiation Resources Outside of EPA, 2019

High Exposure to Radio Frequency Radiation Associated With Cancer in Male Rats, 2018

Espécies exterminadas – Conheça quatro animais outrora extremamente comuns que desapareceram devido a políticas governamentais

Quando ouvimos falar que um animal se encontra ameaçado de extinção, logo imaginamos ações governamentais para a sua proteção, como a criação de parques, planos de manejo e leis para garantir o futuro da espécie e impedir a caça ou pesca desenfreada. Entretanto, historicamente, governos não só ignoraram fatores que punham animais em risco, como também estimularam ou financiaram o extermínio de espécies devido a interesses econômicos. Conheça a história de quatro espécies extintas nos últimos 200 anos devido à negligência ou ganância humana.

Atenção: Este texto pode conter informações chocantes para algumas pessoas.

1- Arau-gigante (Pinguinus impennis) – Último avistamento em 1852

O Arau-gigante, apelidado de “pinguim original”, era uma grande ave preta e branca não-voadora que habitava as regiões polares da América do Norte. Diferente do que imaginamos a princípio, foi o pinguim que ganhou seu nome por causa dessa ave, e não o contrário. Antes da ocupação humana na Europa, o arau se espalhava pelo Mediterrâneo, Escandinávia, Islândia, Groenlândia e toda a costa leste dos Estados Unidos, chegando até a Flórida. Séculos de caça reduziram drasticamente  a população desse animal, mas foi somente a partir do século XVI que seu futuro estaria selado.

Resultado de imagem para great auk size
Representação gráfica de um Arau-gigante perto de uma pessoa – Por Roman Uchyetel
Resultado de imagem para greak auk range
Mapa da ocorrência histórica do arau-gigante – Por BirdLife International/IUCN

No Reino Unido, a caça do arau foi banida em 1553, o que não bastou para evitar sua extinção local. Nos séculos seguintes, com a expansão do mercado da pesca de bacalhau, marinheiros descobriram ilhas entre o Canadá e a Islândia tão cheias de arau que eles não podiam se mexer. Esse animal era extremamente dócil devido à falta de predadores terrestres na região, de forma que sua captura era muito fácil. Relatos de 1622 apontam que centenas de araus eram levados por vez para dentro dos navios e serviam de alimento para a tripulação pelos meses seguintes. Para o azar da espécie, alimentação não foi a única utilidade que os europeus encontraram para ela. Suas penas eram extremamente numerosas e macias, sendo arrancadas aos montes para a confecção de travesseiros, muitas vezes sem que as aves tivessem antes sido mortas. Devido à quantidade de gordura presente nos araus, eles serviam como uma ótima fonte de combustível para fogueiras, que eram acesas mesmo com os animais vivos. Quando os marinheiros enjoavam de carne de arau, amarravam suas pernas e os atiravam vivos ao mar, como isca para outros animais. Em 1775, o governo britânico proibiu a captura de araus para a obtenção de penas, mas as outras atividades ainda eram permitidas. Quando os europeus as encontraram pela primeira vez, centenas de milhares de aves viviam em ilhas, mas, dois séculos depois, a espécie já era extremamente rara. O último exemplar foi visto em 1852, e, desde então, a espécie é considerada extinta, sem nunca ter recebido proteção integral nos países em que vivia.

Two summer great auks, one swimming and facing right while another stands upon a rock looking left, are surrounded by steep, rocky cliffs.
Araus-gigantes, por  John James Audubon (1827–1838)

2- Gafanhoto-das-montanhas-rochosas (Melanoplus spretus) – Último avistamento em 1902

Ao contrário do que houve com o primeiro animal de nossa lista, a extinção do gafanhoto-das-montanhas-rochosas não só foi auxiliada como foi diretamente incentivada pelo governo estadunidense. Nativo do Oeste dos Estados Unidos e do Canadá, esse inseto era um dos mais comuns do planeta. A expansão da agricultura no oeste norte-americano, sobretudo a partir do século XVII, fez com que a população desses animais aumentasse drasticamente. Grandes enxames varreram os EUA entre 1750 e 1780, desencadeando diversas ondas de fome pelo país. A cada década, novos enxames surgiam, devorando plantações, lã de ovelhas e madeira, gerando prejuízos de centenas de milhões de dólares. Fazendeiros tentavam, sem sucesso, conter as hordas de gafanhotos com foices, espingardas e armas de fogo, mas seus números só aumentavam.

Resultado de imagem para rocky mountain locust
Exemplar fixado do gafanhoto-das-montanhas-rochosas

O maior enxame da história do planeta aconteceu em 1875, nos Estados Unidos. Batizado de Enxame de Albert, foi a maior concentração de animais conhecida, com estimativas que giram em torno de 3,5 a 12,5 trilhões de gafanhotos voando juntos. O médico Albert Child calculou que o enxame cobria uma área de 510.000 km, quase um terço do tamanho do estado do Alasca. Depois desse evento, os governos de Nebraska e dos estados vizinhos criaram leis que obrigavam fazendeiros a trabalhar a cada dois dias matando ovos de gafanhotos enterrados no solo. No Missouri, os fazendeiros ganhavam recompensas baseadas na quantidade de gafanhotos mortos que levavam para o governo. Após a adoção dessas políticas públicas, o último enxame emergiu em 1889 e nenhum exemplar foi avistado após 1902.

Foto de 1875 do Enxame de Albert – Fotógrafo desconhecido

3- Pombo-passageiro (Ectopistes migratorius) – Último avistamento em 1914

O pombo-passageiro era uma ave nativa da América-do-Norte, e, assim como o gafanhoto Melanoplus, foi amplamente beneficiada pela expansão da agricultura para o interior americano. Tal qual diversas aves dos Estados Unidos, esses pombos tinham o hábito de migrar para regiões com clima mais ameno durante o inverno, retornando para sua distribuição original durante a primavera. Nesse trajeto, devoravam imensas plantações, o que contribuiu para seu extermínio no futuro crescimento populacional explosivo.

Resultado de imagem para passenger pigeon
Pombos-passageiros macho (esquerda) e fêmea (direita) – Por Louis G. Puertos

Por volta de 1813, o artista  John James Audubon tentou, sem sucesso, contar quantos bandos de pombos-passageiros sobrevoariam sua propriedade. Ele desistiu em apenas 21 minutos, após o 163º bando sobrevoar sua casa. Em 1866, um bando em específico sobrevoou o estado de Ontário e escureceu completamente o céu. Com mais de 1,5 km de largura e 500 km de comprimento, o aglomerado continha mais de 3,5 bilhões de aves e levou mais de 14 horas para desaparecer dos céus do estado. Realizando um cálculo matemático simplificado, o escritor americano  Christopher Cokinos apontou que, se fossem colocados diretamente um atrás do outro, esses pombos dariam 22 voltas completas no planeta.

Imagem relacionada
Representação digital da aproximação de um grande bando de pombos-passageiros – Retirada do documentário “From Billions to None”

Por muito tempo, o pombo-passageiro foi caçado como uma importante fonte de comida para o povo dos Estados Unidos. Ainda em 1565, relatos históricos mostram que o explorador francês  René Laudonnière matou, em apenas uma semana, mais de 10.000 exemplares. Após sua explosão populacional, o pombo se tornou uma das principais fontes de carne para o país, sobretudo devido à facilidade em matar esses animais. Eles voavam em números tão grandes que um único tiro para cima de uma espingarda de cano duplo poderia abater 61 animais em voo. Eles passaram a ser capturados por todo o país com grandes redes, que pegavam mais de 3 mil indivíduos por vez, ou mortos aos milhares por fileiras de caçadores atirando incessantemente para cima enquanto os bandos passavam. Além da alimentação humana, passaram a ser moídos e utilizados como alimento de porcos e até mesmo como fertilizante. A partir de 1870, o governo estadunidense criou diversas competições esportivas para caçar esses animais, tendo prêmio mínimo para quem abatesse 30 mil indivíduos. Um dos métodos de caça utilizados nesses torneios era queimar enxofre em áreas de nidificação, sufocando centenas de filhotes por vez. Com tantos pombos mortos, seu valor no mercado caiu significativamente, com o barril cheio dessas aves custando menos de 50 centavos de dólar. As exportações levavam milhões de aves de cada vez, e alguns comerciantes atiravam centenas de barris ao mar para tentar reduzir a oferta desse produto.

Caça de pombos-passageiros em Louisiana por Smith Bennett,  1875

Com o ápice da caça em 1878, alguns estudiosos demonstraram preocupação com o futuro da espécie. Como bilhões de pombos haviam sido avistados nos anos anteriores, poucas pessoas acreditaram nessas previsões. Entretanto, em 1880, suas áreas de nidificação estavam praticamente vazias. Caçadores varreram o país em busca desses animais, com poucos casos de sucesso, o que levou os Estados Unidos a declararem o Ectopistes migratorius uma espécie protegida, e a tornarem certas práticas ilegais (como o uso de redes de mais de 3 km de comprimento). Essas medidas vieram tarde; o último exemplar macho da natureza foi avistado e morto em 1896, no meio de um bando de outros pombos nativos. Em 1910, a American Ornithologists’ Union ofereceu uma recompensa equivalente a 77 mil dólares caso um ninho fosse encontrado, mas o prêmio nunca foi recolhido. Martha, o último exemplar em cativeiro, morreu em 1914, e com ela a sua espécie.

Resultado de imagem para martha passenger pigeon photo
Foto de Martha em 1912

 

4- Tilacino, o “tigre-da-tasmânia” (Thylacinus cynocephalus) – Último avistamento em 1936

A história do tilacino é, provavelmente, o melhor exemplo do poder de um governo no desaparecimento de uma espécie. Ao contrário dos outros animais da nossa lista, este foi caçado até a extinção a mando do governo, que sempre quisera exterminá-lo. É uma das histórias mais tristes de nossa relação destrutiva com outras espécies do planeta.

Resultado de imagem para thylacinus cynocephalus paleoart
Desenho de tilacinos – Por Pip Abrabam

Quando o ser humano chegou à Austrália, há aproximadamente 60 mil anos, diversas espécies de grandes animais desapareceram completamente. Essa onda de extinções fez parte das chamadas extinções do Holoceno, nas quais perdemos a maior parte dos grandes animais do nosso planeta, em parte devido à caça desenfreada. Os tilacinos, ou tigres-da-tasmânia, foram uma das vítimas, provavelmente devido à introdução de cães no continente. Apelidados de dingos, esses cães viviam em matilhas e tinham hábitos similares aos dos tigres-da-tasmânia, que foram extirpados.

Resultado de imagem para thylacine vs dingo
Comparação de tilacino com dingo – Por Carl Buell

Quando chegaram à Tasmânia, em 1802, colonizadores britânicos se depararam com um estranho animal noturno, muito semelhante a um lobo, mas que tinha listras como as de um tigre. Na realidade, o tilacino era um grande carnívoro marsupial, parente de coalas e cangurus, que tinha uma bolsa em que seus filhotes de desenvolviam. Após a introdução de ovelhas e cabras na ilha, esse marsupial passou a ser descrito por alguns colonizadores como uma monstruosa hiena, que surgia silenciosamente à noite para matar e mutilar rebanhos inteiros e deixava para trás um rastro de morte. Embora esse animal tímido geralmente fosse pequeno demais para matar ovelhas, a abundância de alimento proporcionada pela presença de grandes rebanhos e pela introdução de galinhas na ilha aumentou sua população em número e em tamanho. Consequentemente, o número de ovelhas mortas cresceu, o que levou o governo australiano a declarar guerra ao animal em 1830.

Tigre-da-tasmânia caçando uma galinha – Foto tirada em 1926

Além das leis de incentivo à caça de tilacinos, recompensas foram distribuídas para fazendeiros que eliminassem esses animais entre 1888 e 1909. O governo pagava o equivalente a 100 libras por lobo adulto morto e 10 libras por filhote, o que fez diversas pessoas utilizarem a caça de tilacino como fonte de renda. Centenas de animais eram mortos por dia e pilhas de ossos se acumulavam em pátios, mesmo após o animal começar a se tornar cada vez mais raro.

O último tilacino morto na natureza foi caçado em 1928, e, mesmo com instituições afirmando que a espécie deveria ser protegida, o governo premiou o caçador. Para proteger a espécie, equipes de cientistas criaram expedições para capturar o animal, mas poucos indivíduos foram encontrados e a reprodução em cativeiro não ocorreu. Em 1933, Benjamin, o último exemplar conhecido, foi capturado e transportado para um zoológico da Tasmânia. O animal morreu dia 7 de setembro de 1936 devido à negligência dos tratadores, que o trancaram para fora de seu abrigo, causando nele uma séria hipotermia. Uma lei para a proteção da espécie foi criada em 10 de julho de 1936, após o animal já estar extinto na natureza. Embora avistamentos não confirmados tenham ocorrido desde então, a recompensa oferecida pelo governo caso se consiga comprovar sua existência não foi obtida por ninguém até os dias de hoje.

Resultado de imagem para benjamin thylacine
Benjamin, o último tilacino no Zoológico em que passou seus últimos anos de vida

 

Esses são apenas alguns exemplos do poder de ações governamentais na dizimação de uma espécie. Seja por descaso ou por incentivo propriamente dito, muitas espécies deixaram de existir devido a políticas governamentais. Por outro lado, a criação de leis de proteção já foi capaz de salvar ecossistemas inteiros, o que demonstra a importância de políticas públicas na conservação.

 

Leia também

Florestas Vazias – Descubra por que a vida está desaparecendo em nossas matas

A volta das baleias – Como a proibição mundial da caça conseguiu salvar dezenas de espécies da extinção

Os melhores amigos do homem? – Como cães e gatos podem prejudicar nossos ecossistemas

O Fim dos Gigantes – Conheça o papel do ser humano na extinção dos animais pré-históricos

Fogo na Amazônia: Como as queimadas podem acabar com nossa floresta

 

Referências

Arte de capa por Damir G. Martin

Livros

Imperialismo Ecológico – Por Alfred W. Crosby

A Sexta Extinção – Por Elizabeth Kolbert

Arau-gigante

https://www.iucnredlist.org/species/22694856/93472944

https://archive.org/details/cihm_06624/page/n7

https://birdsna.org/Species-Account/bna/species/260/articles/introduction

Gafanhoto-das-montanhas-rochosas

1874: The Year of the Locust

Lockwood, Jeffrey A. (2004). Locust: the Devastating Rise and Mysterious Disappearance of the Insect that Shaped the American Frontier (1st ed.). New York: Basic Books

https://timeline.com/in-the-1870s-12-trillion-locusts-devastated-the-great-plains-and-then-they-went-extinct-6f7c51a15d90

https://www.iucnredlist.org/species/51269349/111451167

Pombo-passageiro

Reeve, S. (March 2001). “Going Down in History”. Geographical73 (3): 60–64. ISSN 0016-741X

https://web.archive.org/web/20120313223001/http://www.si.edu/encyclopedia_Si/nmnh/passpig.htm

Schorger, A. W. (1955). The Passenger Pigeon: Its Natural History and Extinction. Madison, WI: University of Wisconsin Press. ISBN 978-1-930665-96-5.

Fuller, E. (2014). The Passenger Pigeon. Princeton and Oxford: Princeton University Press. ISBN 978-0-691-16295-9.

https://www.biodiversitylibrary.org/page/15937222#page/87/mode/1up

https://www.press.uchicago.edu/Misc/Chicago/779939pass.html

https://animals.howstuffworks.com/extinct-animals/did-passenger-pigeons-become-extinct.htm

Flocks that Darken the Heavens: The Passenger Pigeon in Indiana

Tilacino

The Thylacine Museum – http://www.naturalworlds.org/thylacine/index.htm

https://theconversation.com/tasmanian-tigers-were-going-extinct-before-we-pushed-them-over-the-edge-88947

Thylacine hunted more like a cat than a dog

https://www.newyorker.com/magazine/2018/07/02/the-obsessive-search-for-the-tasmanian-tiger

 

 

 

 

ODS – PARTE II – OBJETIVOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL (10 ao 17)

Essa é a segunda parte dessa mini-série de textos sobre o desenvolvimento sustentável. Para ler a Parte 1, clique aqui

Parte II- Objetivos do Desenvolvimento Sustentável

img_4277

Nessa segunda parte serão abordados os ODSs 10 ao 17.

A comunidade internacional fez progressos significativos no sentido de tirar as pessoas da pobreza. As nações mais vulneráveis (países menos desenvolvidos, países em desenvolvimento sem litoral e os pequenos estados insulares em desenvolvimento) continuam a fazer grandes investimentos visando à redução da pobreza. No entanto, a desigualdade persiste e ainda existem grandes disparidades, principalmente com relação ao acesso aos serviços de saúde e educação.

Para a redução da pobreza existe um consenso progressivo de que o crescimento econômico não é suficiente se não for inclusivo e se não envolver as três dimensões do desenvolvimento sustentável: econômico, social e ambiental. Felizmente, a desigualdade de renda foi reduzida dentro e entre os países. Atualmente, a renda per capita de 60 dos 94 países que possuem esses dados aumentou mais rapidamente do que a média nacional. Houve algum progresso em relação à criação de condições favoráveis para exportações também nos países menos desenvolvidos.

Para reduzir a desigualdade, a princípio, as políticas devem ser universais, com atenção nas necessidades das populações desfavorecidas e marginalizadas. É preciso aumentar o tratamento isento de impostos e continuar a favorecer as exportações dos países em desenvolvimento, além de aumentar a parcela de votos dos países em desenvolvimento no FMI. Deve-se empoderar e promover a inclusão social, econômica e política de todos, independentemente da idade, gênero, deficiência, raça, etnia, origem, religião e condições econômicas. Além disso, é preciso garantir a igualdade de oportunidades e reduzir as desigualdades de resultados, inclusive por meio da eliminação de leis, políticas e práticas discriminatórias e da promoção de legislação, políticas e ações adequadas a este respeito.

Fatos:

  • Em 2016, mais de 64,4% dos produtos exportados pelos países menos desenvolvidos para os mercados mundiais enfrentaram tarifas zero, um aumento de 20% desde 2010.
  • Evidências mostram que as crianças 20% mais pobres da população ainda têm três vezes mais chances de morrer antes do quinto aniversário do que as crianças de classes mais altas.
  • A proteção social foi significativamente ampliada globalmente, mas as pessoas com deficiência têm até cinco vezes mais chances do que a média de incorrer em despesas de saúde catastróficas.
  • Apesar do declínio geral na mortalidade materna na maioria dos países, as mulheres nas áreas rurais ainda têm três vezes mais chances de morrer durante o parto do que as mulheres que vivem em centros urbanos.
  • Até 30% da desigualdade de renda acontece devido à desigualdade nas famílias, inclusive entre mulheres e homens. As mulheres também são mais propensas do que os homens a viver abaixo de 50% da renda mediana.

As cidades são centros de idéias, comércio, cultura, ciência, produtividade, desenvolvimento social e muito mais. Na melhor das hipóteses, as cidades permitem que as pessoas avancem social e economicamente. Com o número de pessoas vivendo nas cidades projetadas para chegar a 5 bilhões de pessoas até 2030, é importante que existam práticas eficientes de planejamento e gerenciamento urbano para lidar com os desafios trazidos pela urbanização.

Existem muitos desafios para manter as cidades, de modo que continuem a ser criados empregos e prosperidade sem sobrecarregar terras e recursos. Os desafios urbanos comuns incluem congestionamentos, falta de fundos para fornecer serviços básicos, ausência de moradias adequadas, infraestrutura em declínio e poluição do ar nas cidades.

Desafios rápidos de urbanização, como a remoção e o gerenciamento seguros de resíduos sólidos nas cidades, podem ser superados de maneira que lhes permitam continuar prosperando e crescendo, melhorando o uso de recursos e reduzindo a poluição e a pobreza. Um exemplo é o aumento da coleta de lixo municipal. É preciso haver um futuro em que as cidades ofereçam oportunidades para todos, com acesso a serviços básicos de energia, moradia, transporte e muito mais.

Fatos:

  • Metade da humanidade (3,5 bilhões de pessoas) vive nas cidades hoje e 5 bilhões de pessoas devem viver nas cidades até 2030.
  • Hoje, 883 milhões de pessoas vivem em favelas e a maioria delas é encontrada no leste e sudeste da Ásia.
  • As cidades do mundo ocupam apenas 3% das terras do Planeta, mas representam 60-80% do consumo de energia e 75% das emissões de carbono.
  • Em 2016, 90% dos moradores urbanos respiravam ar inseguro, resultando em 4,2 milhões de mortes devido à poluição do ar ambiente. Mais da metade da população urbana global foi exposta a níveis de poluição do ar pelo menos 2,5 vezes superior ao padrão de segurança.

O consumo e a produção sustentáveis ​​têm como objetivo promover a eficiência de recursos e energia, infraestrutura sustentável e fornecer acesso a serviços básicos, empregos decentes e uma melhor qualidade de vida para todos. Sua implementação ajuda a alcançar planos gerais de desenvolvimento, reduzir futuros custos econômicos, ambientais e sociais, fortalecer a competitividade econômica e reduzir a pobreza.

Atualmente, o consumo material de recursos naturais está aumentando, principalmente no leste da Ásia. Os países também continuam enfrentando desafios relacionados à poluição do ar, da água e do solo.

Como o consumo e a produção sustentáveis ​​visam “fazer mais e melhor com menos”, os ganhos líquidos de bem-estar das atividades econômicas podem aumentar, reduzindo o uso de recursos, a degradação e a poluição ao longo de todo o ciclo de vida, enquanto aumenta a qualidade de vida. Também é preciso haver um foco significativo na operação da cadeia de suprimentos, envolvendo todos, desde o produtor até o consumidor final. Isso inclui educar os consumidores sobre consumo e estilos de vida sustentáveis, fornecendo-lhes informações adequadas, por meio de normas e rótulos, e participando de compras públicas sustentáveis.

Fatos:

  • Se a população global atingir 9,6 bilhões em 2050, poderá ser necessário o equivalente a quase três planetas para fornecer os recursos naturais essenciais para sustentar os estilos de vida atuais.
  • Com o aumento do uso de minerais não metálicos na infraestrutura e na construção, houve uma melhoria significativa no padrão de vida dos materiais. A “pegada material” per capita dos países em desenvolvimento aumentou de 5 toneladas em 2000 para 9 toneladas em 2017.
  • 93% das 250 maiores empresas do mundo estão agora reportando sobre sustentabilidade.
  • Menos de 3% da água do mundo é fresca (potável), dos quais 2,5% são congelados na Antártica, no Ártico e nas geleiras. A humanidade deve, portanto, contar com 0,5% de todas as necessidades do ecossistema do homem e de água doce.
  • A humanidade polui a água nos rios e lagos mais rapidamente do que a natureza pode reciclar e purificar.

A mudança climática está afetando todos os países e continentes, além de estar atrapalhando as economias nacionais, afetando vidas e custando caro às pessoas, comunidades e países. Os padrões climáticos estão mudando, o nível do mar está subindo, os eventos climáticos estão se tornando mais extremos e as emissões de gases de efeito estufa estão agora nos níveis mais altos da história. Sem ação, é provável que a temperatura média da superfície do mundo ultrapasse 3 graus centígrados ainda neste século. As pessoas mais pobres e vulneráveis ​​estão sendo as mais afetadas.

Soluções acessíveis e escaláveis ​​estão agora disponíveis para permitir que os países saltem para economias mais limpas e mais resilientes. O ritmo da mudança está se acelerando à medida que mais pessoas estão migrando para as energias renováveis ​​e uma série de outras medidas que reduzirão as emissões e aumentarão os esforços de adaptação estão sendo implementadas. As mudanças climáticas, no entanto, são um desafio global que não respeita as fronteiras nacionais. É uma questão que requer soluções que precisam ser coordenadas em nível internacional para ajudar os países em desenvolvimento a avançar para uma economia de baixo carbono.

Para fortalecer a resposta global às ameaças das mudanças climáticas, os países adotaram o Acordo de Paris na COP21, em Paris, que entrou em vigor em novembro de 2016. No acordo, todos os países concordaram em trabalhar para limitar o aumento da temperatura global para bem abaixo de 2 graus centígrados. Em abril de 2018, 175 partes ratificaram o Acordo de Paris e 10 países em desenvolvimento apresentaram sua primeira iteração de seus planos nacionais de adaptação para responder às mudanças climáticas.

Fatos:

  • Em abril de 2018, 175 países haviam ratificado o Acordo de Paris e 168 haviam comunicado suas primeiras contribuições determinadas nacionalmente à convenção-quadro da ONU sobre o Secretariado de Mudanças Climáticas.
  • De 1880 a 2012, a temperatura global média aumentou 0,85° C. Para colocar isso em perspectiva, para cada 1 grau de aumento de temperatura, a produção de grãos diminui cerca de 5%. Milho, trigo e outras culturas importantes sofreram reduções significativas de produção no nível global de 40 megatons por ano entre 1981 e 2002, devido a um clima mais quente.
  • Os oceanos aqueceram, as quantidades de neve e gelo diminuíram e o nível do mar aumentou. De 1901 a 2010, o nível médio global do mar aumentou 19 cm, à medida que os oceanos se expandiram devido ao aquecimento e ao gelo derretido.
  • A extensão do gelo marinho do Ártico diminuiu em todas as décadas sucessivas desde 1979, com perda de 1,07 milhão de km² de gelo a cada década.
  • Dadas as concentrações atuais e as emissões contínuas de gases de efeito estufa, é provável que até o final deste século, o aumento da temperatura global exceda 1,5°C em comparação com o período de 1850 a 1900.
  • O aumento médio do nível do mar é previsto em 24 a 30 cm até 2065 e em 40 a 63 cm em 2100. A maioria dos aspectos das mudanças climáticas persistirá por muitos séculos, mesmo que as emissões sejam interrompidas.

Os oceanos do mundo (temperatura, química, correntes marítimas e vida) impulsionam sistemas globais que tornam a Terra habitável para a humanidade. Nossa água da chuva, água potável, clima, tempo, linhas costeiras, grande parte de nossa comida e até o oxigênio no ar que respiramos são, em última análise, fornecidos e regulados pelo mar. Ao longo da história, oceanos e mares foram condutos vitais para o comércio e o transporte.

O gerenciamento cuidadoso desse recurso global essencial é uma característica indispensável para um futuro sustentável. No entanto, atualmente, há uma deterioração contínua das águas costeiras devido à poluição e à acidificação dos oceanos. Isso está causando um efeito adverso no funcionamento dos ecossistemas e da biodiversidade, impactando negativamente a pesca em pequena escala.

Fatos:

  • Os oceanos cobrem três quartos da superfície da Terra, contendo 97% da água do planeta e representando 99% do espaço de vida no mundo em volume.
  • Mais de três bilhões de pessoas dependem da biodiversidade marinha e costeira para sua subsistência.
  • Os oceanos contêm quase 200.000 espécies identificadas, mas os números reais podem estar na casa dos milhões.
  • Os oceanos absorvem cerca de 30% do dióxido de carbono produzido pelos seres humanos, protegendo os impactos do aquecimento global.
  • Os oceanos servem como um fornecedor de alimento importante, com mais de 3 bilhões de pessoas dependendo deles como sua principal fonte de proteína.
  • As análises de oceano aberto mostram que os níveis atuais de acidez aumentaram 26% desde o início da Revolução Industrial.
  • As águas costeiras estão se deteriorando devido à poluição e à eutrofização. Sem esforços conjuntos, a eutrofização costeira deverá aumentar em 20% nos grandes ecossistemas marinhos até 2050.

As florestas cobrem 30,7% da superfície da Terra e, além de fornecer segurança e abrigo alimentar, são essenciais para combater as mudanças climáticas, proteger a biodiversidade e as populações indígenas. Ao proteger as florestas, também poderemos fortalecer o gerenciamento de recursos naturais, aumentando a produtividade da terra.

Atualmente, treze milhões de hectares de florestas estão sendo perdidas todos os anos, enquanto a degradação persistente das terras secas levou à desertificação de 3,6 bilhões de hectares. Embora até 15% da terra esteja atualmente protegida, a biodiversidade ainda está em risco. O desmatamento e a desertificação, causados ​​pelas atividades humanas e pelas mudanças climáticas, apresentam grandes desafios ao desenvolvimento sustentável e afetam a vida e os meios de subsistência de milhões de pessoas na luta contra a pobreza.

Estão sendo feitos esforços para gerenciar florestas e combater a desertificação. Atualmente, existem dois acordos internacionais sendo implementados que promovem o uso de recursos de maneira equitativa. Também estão sendo fornecidos investimentos financeiros em apoio à biodiversidade.

O Fundo de Ações do Leão

Em 21 de junho de 2018, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), o FINCH e o parceiro fundador Mars Incorporated, anunciaram o Lion’s Share, uma iniciativa que visa transformar a vida dos animais em todo o mundo, pedindo aos anunciantes que contribuam com uma porcentagem de sua mídia para serem gastos em projetos de conservação e bem-estar animal.

Fatos:

  • Cerca de 1,6 bilhão de pessoas dependem das florestas para sua subsistência, incluindo 70 milhões de indígenas.
  • As florestas abrigam mais de 80% de todas as espécies terrestres de animais, plantas e insetos.
  • Entre 2010 e 2015, o mundo perdeu 3,3 milhões de hectares de áreas florestais.
  • 2,6 bilhões de pessoas dependem diretamente da agricultura, mas 52% da terra usada para agricultura é moderada ou severamente afetada pela degradação do solo.
  • Devido à seca e à desertificação, 12 milhões de hectares são perdidos a cada ano (23 hectares por minuto). Dentro de um ano, 20 milhões de toneladas de grãos poderiam ter sido cultivadas.
  • 74% dos pobres são diretamente afetados pela degradação da terra em todo o mundo.
  • A caça ilegal e o tráfico de animais selvagens continuam a frustrar os esforços de conservação, com quase 7.000 espécies de animais e plantas relatadas no comércio ilegal envolvendo 120 países.
  • Das 8.300 raças de animais conhecidas, 8% estão extintas e 22% estão em risco de extinção.
  • Cerca de 80% das pessoas que vivem em áreas rurais dependem de medicamentos tradicionais à base de plantas para cuidados básicos de saúde.
  • Microrganismos e invertebrados são essenciais para os serviços ecossistêmicos, mas suas contribuições ainda são pouco conhecidas e raramente reconhecidas.

As ameaças de homicídio internacional, violência contra crianças, tráfico de pessoas e violência sexual são importantes questões a serem enfrentadas para promover sociedades pacíficas e inclusivas para o desenvolvimento sustentável. Elas pavimentam o caminho para a provisão de acesso à justiça para todos e para a construção de instituições eficazes e responsáveis ​​em todos os níveis.

Embora os casos de homicídio e tráfico tenham registrado uma queda significativa na última década, ainda existem milhares de pessoas em maior risco de assassinato intencional na América Latina, na África Subsaariana e na Ásia. As violações dos direitos das crianças por agressão e violência sexual continuam a atormentar muitos países ao redor do mundo, especialmente porque a falta de denúncia e de de dados agravam o problema.

Para enfrentar esses desafios e construir sociedades mais pacíficas e inclusivas, é necessário que haja regulamentos mais eficientes e transparentes, bem como orçamentos governamentais abrangentes e realistas. Um dos primeiros passos para a proteção dos direitos individuais é a implementação do registro mundial de nascimento e a criação em todo o mundo de instituições nacionais independentes de direitos humanos.

Fatos:

  • Entre as instituições mais afetadas pela corrupção estão o judiciário e a polícia.
  • Corrupção, suborno, roubo e sonegação custam cerca de US$ 1,26 trilhão para os países por ano, quantia em dinheiro que poderia ser usada para elevar aqueles que vivem com menos de US$ 1,25 por dia.
  • O registro de nascimento ocorreu em 73% das crianças menores de 5 anos, mas apenas 46% da África Subsaariana tiveram seu nascimento registrado.
  • Aproximadamente 28,5 milhões de crianças em idade escolar fora da escola vivem em áreas afetadas por conflitos.
  • A violência contra crianças afeta mais de 1 bilhão de crianças em todo o mundo e custa às sociedades até US$ 7 trilhões por ano.
  • 50% das crianças do mundo sofrem violência todos os anos.
  • A cada 5 minutos, em algum lugar do mundo, uma criança é morta pela violência.
  • 1 em cada 10 crianças é abusada sexualmente antes dos 18 anos.

Uma agenda de desenvolvimento sustentável bem-sucedida requer parcerias entre governos, setor privado e sociedade civil. Essas parcerias inclusivas, baseadas em princípios e valores, uma visão e objetivos compartilhados, que coloquem as pessoas e o planeta no centro, são necessárias nos níveis global, regional, nacional e local.

É necessária uma ação urgente para mobilizar, redirecionar e liberar o poder transformador de trilhões de dólares em recursos privados para cumprir os objetivos de desenvolvimento sustentável. Investimentos de longo prazo, incluindo investimentos diretos estrangeiros, são necessários em setores críticos, especialmente nos países em desenvolvimento. Isso inclui energia, infraestrutura e transporte público sustentável, bem como tecnologias de informação e comunicação. O setor público precisará definir uma direção clara.

Fatos:

  • A assistência oficial ao desenvolvimento foi de US$ 146,6 bilhões em 2017.
  • Isso representa uma diminuição de 0,6% em termos reais em relação a 2016.
  • 79% das importações de países em desenvolvimento entram nos países desenvolvidos com isenção de impostos.
  • O ônus da dívida para os países em desenvolvimento permanece estável em cerca de 3% da receita de exportação.
  • O número de usuários da Internet na África quase dobrou nos últimos quatro anos.
  • 30% da juventude do mundo são nativos digitais, ativos on-line por pelo menos cinco anos.
  • Mais de quatro bilhões de pessoas não usam a Internet e 90% delas são do mundo em desenvolvimento

 

Referências

Organizações das Nações Unidas – Agenda 2030

Florestas Vazias – Descubra por que a vida está desaparecendo em nossas matas

“Eu procuro familiaridade com a Natureza -conhecer seus estados de espírito e maneiras de ser. A Natureza primitiva é a mais interessante para mim. Eu faço imensos sacrifícios para conhecer todos os fenômenos da primavera, por exemplo, pensando que eu tenho aqui o poema inteiro, e então, para meu desapontamento, eu ouço que é apenas uma cópia imperfeita a que possuo e li, que meus ancestrais rasgaram muitas das primeiras folhas e passagens mais grandiosas, e mutilaram-na em muitos lugares. Eu não gostaria de pensar que algum semideus tivesse vindo antes de mim e escolhido para si algumas das melhores estrelas. Eu quero conhecer um paraíso inteiro e uma Terra inteira. Todas as grandes árvores e animais selvagens, peixes e aves se foram.” 

                                                              Henry Thoreau, 1846

Eu não poderia começar esse texto de outra forma, sem copiar o brilhante cientista e escritor Fernando Fernandez, que cita em seu livro “Poema Imperfeito” o poema de Henry Thoreau. Nascido em 1817, Thoreau passou grande parte da sua vida escrevendo sobre os problemas da sociedade e sobre seu amor pela natureza. Nessa época, o escritor já citava um mundo não-natural, já degradado pela ação do homem e sem animais, árvores e plantas que o compunham no passado. Se a natureza é um poema, o que temos dele é apenas uma cópia imperfeita, um livro com diversas páginas faltando. Embora esse padrão se repita em diversos ecossistemas, vamos falar nesse texto sobre o ambiente que, ainda hoje, é o mais biodiverso do planeta mas que, crescentemente, tem tido suas páginas arrancadas. As nossas florestas estão vazias.

Resultado de imagem para tropical rainforests
Floresta subtropical úmida – Fotógrafo desconhecido

Florestas tropicais, ou mais especificamente, ecossistemas que compõem o bioma floresta tropical e subtropical úmida, são, em teoria, os ambientes mais biodiversos do planeta. Quando pensamos em florestas, logo imaginamos imensas comunidades de aves, répteis, anfíbios, peixes, insetos e grandes mamíferos vivendo em harmonia, em locais intocados pelo homem. Entretanto, eu sugiro que você faça um exercício simples. Passe o dia na floresta mais próxima de sua casa e tente observar grandes animais silvestres. Se você não mora imerso na Amazônia, no Pantanal ou perto de grandes parques nacionais, sinto muito, mas você provavelmente não verá nada além de aves, insetos e um calango ocasional. Se tiver um pouco de sorte, quem sabe um mico ou um macaco-prego? Não é porque todos os animais fogem com a nossa presença mas, sim, pois já não existem grandes animais à nossa volta. E, mais uma vez, a culpa é nossa.

Resultado de imagem para amazon rainforest pictures
Foto por Eduardo José Gazzinelli

Não precisamos voltar 10 mil anos, observando a extinção da megafauna, para entender o processo de perda de biodiversidade que vivemos. Tão grave quanto a extinção, a extirpação vem afetando a fauna de todo país, com resultados devastadores a longo prazo. Também chamado de extinção local, esse processo é muitas vezes ignorado, o que cria uma cascata de novas perdas biológicas. Imagine um pequeno fragmento de floresta que possuía porcos-do-mato, mas eles foram caçados até seu desaparecimento. Sem esses animais, algumas plantas não serão mais dispersadas, o que comprometerá a floresta futuramente. Onças terão o número de presas disponíveis reduzido, o que também pode acarretar sua extinção local. Aves que se alimentam de carrapatos nesses animais poderão migrar para outras regiões, assim como vermes e ectoparasitas dos porcos também sumirão. O desaparecimento de um único componente da floresta poderá gerar um efeito cascata, que comprometerá toda a biodiversidade da área.

Resultado de imagem para Pecari tajacu
O porco-do-mato (Pecari tajacu) já desapareceu de diversas áreas do Brasil – Foto por  Anton Teplyy

Primeiramente, vale ressaltar que nossa forma de conservação atual é pouco efetiva. Em sua obra prima “A Sexta Extinção”, a jornalista Elizabeth Kolbert conta sobre sua viagem à Reserva 1202, no coração da Amazônia brasileira. Essa reserva é apenas uma de um complexo gigantesco, que faz parte de um dos experimentos mais longos do mundo, denominado Projeto Dinâmica Biológica de Fragmentos Florestais, ou PDBFF. Com início nos anos 70, o projeto visa entender mecanismos responsáveis pela manutenção da biodiversidade em áreas de proteção, bem como sua eficiência. Os resultados foram alarmantes. Na época, a legislação brasileira vigente permitia que detentores de terras na Amazônia poderiam desmatar 50% da floresta em suas propriedades, deixando intacto o restante. Em teoria, isso permitiria uma preservação de toda biodiversidade local, mesmo que em uma área menor.

Resultado de imagem para Projeto Dinâmica Biológica de Fragmentos Florestais

Após anos de pesquisa, a equipe do PDBFF constatou que, ao contrário do esperado, em média 50% da biodiversidade em cada reserva foi perdida. Quanto menor a reserva, maior era a perda percentual de biodiversidade, e os resultados pioravam se florestas secundárias eram levadas em conta. Reservas biológicas funcionam hoje, aos olhos de Elizabeth, como “ilhas em terra firme”, cujo isolamento e baixa diversidade genética contribuem para a perda de espécies a longo prazo. Enquanto grandes reservas podem preservar melhor as relações ecológicas originais, pequenas reservas, sem corredores ecológicos para migração de espécies entre uma reserva e outra, são extremamente ineficientes. E adivinhem como é a maioria das reservas atuais.

Resultado de imagem para reservas ecologica isolamento
A fragmentação é uma grande ameaça para a biodiversidade atual – Reserva Biológica Poço das Antas, por Ernesto Viveiros de Castro

Em seu livo “O Mastodonte de Barriga Cheia”, Fernando Fernandez, que já mencionei anteriormente, cita uma outra pesquisa alarmante, realizada pelos cientistas Gerardo Ceballos e Paul Ehrlich, publicada em 2002 na Science. Eles mapearam as áreas de ocorrência, no século XIX,  de 173 espécies de mamíferos no mundo, em sua maioria componentes da megafauna, e compararam com sua área de ocorrência atual. Os autores constataram que 72% das espécies se extinguiram em mais da metade de sua área de ocorrência original e, em média, cada espécie perdeu 68% de seu território. O queixada está extinto na Mata Atlântica nordestina, a anta está extinta na caatinga e a onça-pintada já não existe mais nos Estados Unidos. Pouco a pouco, esses organismos tomam o mesmo caminho da maior parte da megafauna americana, vítimas de 500 anos de caça e da destruição do habitat. Como diria Fernando, nossos bosques não têm mais vida.

Resultado de imagem para panthera leo historical range
Comparação entre áreas de ocorrência original do leão (Panthera leo), em vermelho, com sua distribuição atual, em azul – Por Tommyknocker

O maior problema está nas interações que são perdidas ano a ano em ecossistemas de todo o mundo. Sabemos que muitos animais não existem sem floresta, mas muitas florestas também não existem sem animais. Um estudo realizado em matas ciliares da Tanzânia tentou comprovar o impacto do desaparecimento de aves para a manutenção de florestas. Para germinarem, muitas árvores necessitam que aves comam seus frutos, que passarão por seu trato gastrointestinal, deixando apenas a semente exposta, sendo também transportadas para outros locais. Após mais de 40 anos de estudo, os cientistas concluíram que, em áreas preservadas, o número de espécies de pássaros chega ao dobro, quando comparado com áreas degradadas. Em florestas densas, cerca de 70% das sementes encontradas tinham sido ingeridas por pássaros, o que permitia sua germinação. Em florestas ralas, danificadas pela ação do homem, apenas 3% das sementes haviam sido consumidas previamente por aves. Não existem florestas sem os pássaros e, nos últimos 50 anos, a população de aves decaiu mais de 30% em algumas regiões. Além do desmatamento, a defaunação é uma gigantesca ameaça para nossas árvores.

Resultado de imagem para toucan fruit
Tucano-de-bico-verde (Ramphastos sulfuratus) – Por Philip Witt

A América do Sul é o continente com maior número de árvores frutíferas com grandes sementes, que dependem sobretudo de grandes mamíferos para sua reprodução. Após o desaparecimento da megafauna do Pleistoceno, muitas plantas neotropicais, como o abacateiro e o pequizeiro, continuaram existindo graças ao ser humano, uma vez que seus dispersores originais foram extintos, como elefantes e preguiças-gigantes. Antas, primatas  e cutias desempenham esse mesmo papel crucial para diversas árvores, que não reproduzem mais após seu desaparecimento. Por mais que isso seja um fato contraintuitivo, a caça e o tráfico de animais têm se tornado uma das maiores ameaças para nossas árvores.

Resultado de imagem para cutia sementes
A cutia (Dasyprocta spp.) , por enterrar sementes para comer depois e, principalmente, por esquecer onde as enterrou, é um dos animais mais importantes para a manutenção das florestas brasileiras – Foto por Eiti Kimura

Entretanto, nem tudo está perdido. Projetos de refaunação, que serão melhor explorados em um texto futuro, têm sido propostos por todo o Brasil, com o intuito de devolver às matas parte de sua diversidade original e de restabelecer relações ecológicas perdidas. Cutias foram devolvidas a diversas matas do Rio de Janeiro pela equipe de Fernando Fernandez e do Projeto REFAUNA, assim como bugios-ruivos (Alouatta guariba clamitans). Antas (Tapirus terrestris) já foram devolvidas ao Rio de Janeiro, cervos-do-pantanal (Blastocerus dichotomus) voltaram a novas áreas do Paraná e o mico-leão-dourado (Leontopithecus rosalia) está presente de novo na Mata Atlântica. Quem diria que o mutum-do-nordeste (Pauxi mitu), extinto na natureza, voltaria a viver nas florestas do Alagoas? O Brasil é usado, muitas vezes, como um exemplo de destruição ambiental mas, também, como um dos países de ponta na luta pela preservação.

DSC_7443.jpg
Mutum-do-nordeste (Pauxi mitu) – Por Pedro Henrique Tunes

A Síndrome de Florestas Vazias ocorre hoje em todo o mundo. Nas primaveras silenciosas da América do Norte, nas gigantescas matas vazias na Europa e nas ilhas da Indonésia, que possuem mais aves engaioladas do que soltas, vemos a crescente destruição ambiental e a fragilidade dos ecossistemas terrestres. A onda de extinções causada pelo ser humano entre 60 e 10 mil anos atrás ainda não acabou, e as próximas vítimas já estão, lentamente, desaparecendo à nossa volta. Somente por meio do impedimento da caça de animais silvestres, da construção de corredores ecológicos e de projetos de devolução de vida para parques e reservas é que poderemos garantir a manutenção de florestas e savanas por todo o Brasil. Quem sabe no futuro conseguiremos nos orgulhar, não só de possuir a maior biodiversidade do planeta, como também por proporcionar sua verdadeira proteção. Animais não vivem sem florestas e florestas não vivem sem animais. E nós não vivemos sem nenhum deles!

Resultado de imagem para jaguar hunting forest
Onça-pintada (Panthera onca) -Por WWF

 Leia também

Saara – O paraíso transformado em deserto

Fogo na Amazônia: Como as queimadas podem acabar com nossa floresta

Capivaras – Pragas urbanas ou importantes animais silvestres?

A volta das baleias – Como a proibição mundial da caça conseguiu salvar dezenas de espécies da extinção

O Fim dos Gigantes – Conheça o papel do ser humano na extinção dos animais pré-históricos

Ainda dá tempo de salvar nossas espécies mais ameaçadas?

O Rinoceronte-branco-do-norte está extinto. O que isso muda na sua vida?

Como voltar ao PASSADO?

Referências

Projetos e ONGs

Protapir

Refauna

Instituto Vida Livre

Onçafari

Muriqui Instituto de Biodiversidade

CRAX – Sociedade de Pesquisa da Fauna Silvestre

Waita

 

Livros

A Sexta Extinção – Uma história não natural, por Elizabeth Kolbert

Os Mastodontes de Barriga Cheia e Outras Histórias – Crônicas de biologia e conservação da natureza, por Fernando Fernandez

Folha de Lótus, Escorregador de Mosquito – E outras 96 cônicas sobre comportamento dos seres vivos – Por Fernando Reinach

Textos

https://www.kickante.com.br/campanhas/instituto-conhecer-para-conservar/atualizacoes

https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/09/150918_bugios_tijuca_fauna_pai

Indonesia’s Forests Increasingly Empty of Wildlife

https://oglobo.globo.com/sociedade/florestas-vazias-do-vietna-23596025

O fenômeno das florestas vazias

http://redeglobo.globo.com/globoecologia/noticia/2012/03/sindrome-da-floresta-vazia-e-o-empobrecimento-da-biodiversidade.html

Vídeo: Por que podemos considerar a natureza de hoje como um poema imperfeito? por Fernando Fernandez

O que é Defaunação

Mapa aponta as florestas desertas na Mata Atlântica

Vídeo

 

Artigos

https://ppbio.inpa.gov.br/sites/default/files/Faria_L_F_de_Dissertacao_2017.pdf

https://www.pnas.org/content/114/30/E6089

 

ODS – Parte I – Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (1 ao 9)

A Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, adotada por todos os Estados Membros das Nações Unidas em 2015, possui um plano audacioso e compartilhado de paz e prosperidade para as pessoas e para o planeta, agora e no futuro. No centro desse plano estão os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que consistem em um apelo urgente à ação de todos os países, desenvolvidos e em desenvolvimento, por meio de uma parceria global. Eles reconhecem que o fim da pobreza e outras privações devam andar de mãos dadas com estratégias que melhorem a saúde e a educação, reduzam a desigualdade e estimulem o crescimento econômico. Ações que visem ao combate às mudanças climáticas e que trabalhem para preservar nossos oceanos e florestas devem acontecer paralelamente.

Os ODS baseiam-se em décadas de trabalho de diversos países e da ONU, incluindo o Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da entidade.

  • Em junho de 1992, na Cúpula da Terra no Rio de Janeiro (COP 92), mais de 178 países adotaram a Agenda 21, um plano de ação abrangente para construir uma parceria global para o desenvolvimento sustentável;
  • Os Estados Membros adotaram, por unanimidade, a Declaração do Milênio na Cúpula do Milênio, em setembro de 2000, na sede da ONU em Nova York. O evento culminou com a elaboração de oito Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) para redução da pobreza extrema até 2015.
  • A Declaração de Joanesburgo sobre Desenvolvimento Sustentável e o Plano de Implementação, adotados na Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável na África do Sul em 2002, reafirmaram os compromissos da comunidade global com a erradicação da pobreza e com o meio ambiente, e se basearam na Agenda 21 e na Declaração do Milênio, incluindo mais ênfase em parcerias multilaterais.
  • Na Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio + 20), no Rio de Janeiro, Brasil, em junho de 2012, os Estados Membros adotaram o documento final “O futuro que queremos”, no qual decidiram, entre outros, lançar um processo para desenvolver um conjunto de ODS;

O ano de 2015 foi marcante para o multilateralismo e a formulação de políticas internacionais:

  • Transformando nosso mundo: a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, com seus 17 ODS, foi adotada na Cúpula das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável, em Nova York, em setembro de 2015.
  • Acordo de Paris sobre mudanças climáticas (dezembro de 2015.)

Para manter a pauta em dia, o Fórum Político de Alto Nível anual sobre Desenvolvimento Sustentável serve como plataforma central da ONU para o acompanhamento e a revisão dos ODS.

Parte I – Objetivos do Desenvolvimento Sustentável 

Nessa primeira parte serão abordados 9 dos 17 ODSs.

objetivos_port.png

ods1.png

Mais de 700 milhões de pessoas, ou 10% da população mundial, ainda vivem em extrema pobreza e lutam para atender às suas necessidades mais básicas, como saúde, educação e acesso à água e saneamento. A maioria das pessoas que vivem com menos de R$ 8,00 por dia vive na África Subsaariana. Em todo o mundo, a taxa de pobreza nas áreas rurais é de 17,2%, mais que três vezes maior que nas áreas urbanas.

Ter um emprego não garante uma vida decente. De fato, 8% dos trabalhadores empregados e suas famílias em todo o mundo viviam em extrema pobreza em 2018. A pobreza afeta as crianças de maneira desproporcional. Uma em cada cinco crianças no planeta vive em extrema pobreza. Garantir proteção social para todas as crianças e outros grupos vulneráveis é fundamental para reduzir a pobreza.

A pobreza tem muitas dimensões, mas suas causas incluem desemprego, exclusão social e alta vulnerabilidade de certas populações a desastres, doenças e outros fenômenos que os impedem de serem produtivos. A crescente desigualdade é prejudicial ao crescimento econômico e mina a coesão social, aumentando as tensões políticas e sociais e, em algumas circunstâncias, gerando instabilidade e conflitos.

Fatos:

  • Mais de 700 milhões de pessoas, ou 10% da população mundial, ainda vivem em extrema pobreza, sobrevivendo com menos de R$ 8,00 por dia.
  • 8% dos trabalhadores empregados e suas famílias em todo o mundo viviam em extrema pobreza em 2018.
  • Globalmente, existem 122 mulheres com idades entre 25 e 34 anos que vivem em extrema pobreza para cada 100 homens da mesma faixa etária.
  • Altas taxas de pobreza são frequentemente encontradas em países pequenos, frágeis e afetados por conflitos.
  • Uma em cada cinco crianças vive em extrema pobreza.
  • A partir de 2018, 55% da população do mundo não tem acesso à proteção social.
  • Em 2018, apenas 41% das mulheres que deram à luz receberam benefícios em dinheiro da maternidade.

ods2.png

É hora de repensar como plantamos, compartilhamos e consumimos nossos alimentos. Se bem desenvolvidas, a agricultura, a silvicultura e a pesca podem fornecer alimentos nutritivos para todos, gerando renda, apoiando o desenvolvimento rural centrado nas pessoas e protegendo o meio ambiente.

No momento, nossos solos, água doce, oceanos, florestas e biodiversidade estão sendo rapidamente degradados. As mudanças climáticas estão pressionando ainda mais os recursos dos quais dependemos, aumentando os riscos associados a desastres, como secas e inundações. Muitas mulheres e homens das áreas rurais não conseguem mais sobreviver em suas terras, forçando-os a migrar para as cidades em busca de oportunidades. A falta de segurança alimentar também está fazendo com que milhões de crianças sejam subnutridas ou muito pequenas para a sua idade, devido à desnutrição grave.

Uma mudança profunda é necessária no sistema global de produção alimentícia e agricultura para alimentarmos os 815 milhões de pessoas que hoje passam fome e os 2 bilhões de pessoas adicionais que estarão subnutridos até 2050.

Fatos:

  • Estima-se que 821 milhões de pessoas encontravam-se desnutridas em 2017.
  • A maioria das pessoas famintas do mundo vive em países em desenvolvimento, onde 12,9% da população está desnutrida.
  • Na África Subsaariana, o número de pessoas subnutridas aumentou de 195 milhões em 2014 para 237 milhões em 2017.
  • A má nutrição causa quase metade (45%) das mortes de crianças menores de cinco anos, ou seja, de 3,1 milhões de crianças por ano.
  • A agricultura é o maior empregador do mundo, fornecendo meios de subsistência para 40% da população global. É a maior fonte de renda e emprego para famílias rurais pobres.
  • 500 milhões de pequenas fazendas em todo o mundo fornecem até 80% dos alimentos consumidos em grande parte do mundo em desenvolvimento. 
  • A pobreza energética em muitas regiões é uma barreira fundamental para reduzir a fome e garantir que o mundo possa produzir alimentos suficientes para atender à demanda futura.

ods3.png

Garantir uma vida saudável e promover o bem-estar em todas as idades é essencial para o desenvolvimento sustentável.

Houveram avanços significativos no aumento da expectativa de vida e na redução de alguns dos problemas comuns associados à mortalidade infantil e materna, mas trabalhar para alcançar a meta de menos de 70 mortes maternas por 100.000 nascidos vivos até 2030 exige melhorias no atendimento especializado.

São necessários muito mais esforços para erradicar completamente uma ampla gama de doenças e resolver muitos problemas de saúde ainda persistentes e emergentes. Ao se concentrar no fornecimento mais eficiente dos sistemas de saúde, melhorias no saneamento e a na higiene, além de aumentar o acesso aos médicos e implementação de novas maneiras de reduzir a poluição ambiental, pode-se fazer um progresso significativo para ajudar a salvar as vidas de milhões de pessoas.

Fatos:

  •  Mais de cinco milhões de crianças ainda morrem antes do quinto aniversário.
  • Desde 2000, as vacinas contra o sarampo evitaram quase 15,6 milhões de mortes.
  • As crianças nascidas na pobreza têm quase duas vezes mais chances de morrer antes dos cinco anos do que as de famílias mais ricas.
  • A mortalidade materna caiu 37% desde 2000.
  • Mais mulheres estão recebendo atendimento pré-natal. Nas regiões em desenvolvimento, o atendimento pré-natal aumentou de 65% em 1990 para 83% em 2012.
  • 36,9 milhões de pessoas em todo o mundo viviam com HIV em 2017.
  • O HIV é a principal causa de morte para mulheres em idade reprodutiva em todo o mundo.

ods4.png

Uma educação de qualidade é a base para a criação do desenvolvimento sustentável. Além de melhorar a qualidade de vida, o acesso à educação inclusiva pode ajudar a equipar os locais com as ferramentas necessárias para desenvolver soluções inovadoras para os maiores problemas do mundo.

As razões para a falta de educação de qualidade se devem à falta de professores adequadamente treinados, às más condições das escolas e à questões de equidade relacionadas às oportunidades oferecidas às crianças da zona rural. Para que a educação de qualidade seja oferecida aos filhos de famílias pobres, é necessário investimento em bolsas de estudo, oficinas de treinamento de professores, construção de escolas e melhoria ao acesso à água e eletricidade nas escolas.

Fatos:

  • As matrículas no ensino primário nos países em desenvolvimento atingiram 91%, mas ainda 57 milhões de crianças em idade primária continuam fora das escolas.
  • Estima-se que 50% das crianças fora da escola em idade escolar primária vivem em áreas afetadas por conflitos.
  • 617 milhões de jovens em todo o mundo carecem de habilidades básicas de matemática e alfabetização.

ods5.png

Embora o mundo tenha alcançado progresso em direção à igualdade de gênero e ao empoderamento das mulheres sob os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (incluindo acesso igual à educação primária entre meninas e meninos), mulheres e meninas continuam sofrendo discriminação e violência em todas as partes do mundo.

A igualdade de gênero não é apenas um direito humano fundamental, mas uma base necessária para um mundo pacífico, próspero e sustentável. Proporcionar às mulheres e meninas acesso igual à educação, assistência médica, trabalho decente e representação nos processos políticos e econômicos de tomada de decisão alimentará economias sustentáveis e beneficiará as sociedades e a humanidade como um todo.

Fatos:

  • Globalmente, 750 milhões de mulheres e meninas se casaram antes dos 18 anos e pelo menos 200 milhões de mulheres e meninas em 30 países foram submetidas à Mutilação Genital Feminina (MGF).
  • Em 18 países, os maridos podem impedir legalmente suas esposas de trabalhar.
  • Uma em cada cinco mulheres e meninas sofreram violência física e/ou sexual por um parceiro íntimo nos últimos 12 meses. No entanto, 49 países não têm leis que protejam especificamente as mulheres de tal violência.
  • Embora as mulheres tenham feito importantes avanços nos cargos políticos em todo o mundo, sua representação nos parlamentos nacionais em 23,7% dos países ainda está longe de ser igualitária.

ods6-2.png

Água limpa e acessível para todos é uma parte essencial do mundo em que queremos viver e há água fresca suficiente no planeta para conseguirmos isso. No entanto, devido a fatores econômicos ou à infraestrutura precária, milhões de pessoas, incluindo crianças, morrem todos os anos de doenças associadas ao suprimento inadequado de água, saneamento e higiene.

Para melhorar o saneamento e o acesso à água potável, é necessário aumentar o investimento na gestão de recursos hídricos e instalações de saneamento em nível local.

Fatos:

  • 3 em cada 10 pessoas não têm acesso a serviços de água potável gerenciados com segurança e 6 em cada 10 pessoas não têm acesso a instalações de saneamento gerenciadas com segurança.
  • Pelo menos 892 milhões de pessoas continuam praticando defecação a céu aberto.
  • Mulheres e meninas são responsáveis pela coleta de água em 80% das famílias sem acesso à água nas instalações.
  • Entre 1990 e 2015, a proporção da população global que utiliza uma fonte melhorada de água potável aumentou de 76% para 90%.
  • A escassez de água afeta mais de 40% da população global e deve aumentar ainda mais.
  • Atualmente, mais de 1,7 bilhão de pessoas vivem em bacias hidrográficas onde o uso da água excede a recarga.
  • 2,4 bilhões de pessoas não têm acesso a serviços de saneamento básico, como banheiros ou latrinas.
  • Mais de 80% das águas residuais resultantes de atividades humanas são despejadas em rios ou no mar sem nenhuma remoção de poluição.
  • Todos os dias, quase 1.000 crianças morrem devido a doenças diarreicas evitáveis relacionadas à água e ao saneamento
  • Aproximadamente 70% de toda a água captada em rios, lagos e aquíferos é usada para irrigação.
  • Inundações e outros desastres relacionados à água são responsáveis por 70% de todas as mortes relacionadas a desastres naturais.

ods7.png

A energia é um ponto crucial para quase todos os grandes desafios e oportunidades que o mundo enfrenta atualmente. Seja para empregos, segurança, mudanças climáticas, produção de alimentos ou aumento de renda, o acesso à energia para todos é essencial. Trabalhar para atingir esse objetivo é especialmente importante, pois ele se vincula aos outros Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. O foco no acesso universal à energia, no aumento da eficiência energética e no aumento do uso de energia renovável, por meio de novas oportunidades econômicas e de emprego, é crucial para criar comunidades mais sustentáveis e resilientes à questões ambientais, como as mudanças climáticas.

Felizmente, houve progresso na última década em relação ao uso de eletricidade renovável da água, energia solar e eólica e a proporção de energia usada por PIB também está em declínio.

No entanto, o desafio está longe de ser resolvido e é preciso haver mais acesso à combustíveis e tecnologias limpas, além de avanços na integração da energia renovável com suas aplicações de uso final em edifícios, transportes e indústria. Os investimentos públicos e privados em energia também precisam ser aumentados.

Fatos:

  • 13% da população global ainda não tem acesso à eletricidade moderna.
  • 3 bilhões de pessoas dependem de madeira, carvão, carvão vegetal ou de animais para cozinhar e se aquecer.
  • A energia é o principal contribuinte para as mudanças climáticas, representando cerca de 60% do total das emissões globais de gases de efeito estufa.
  • A parcela de energia renovável no consumo final de energia atingiu 17,5% em 2015.

ods8.png

Aproximadamente metade da população mundial ainda vive com o equivalente a US$2,00 por dia, com taxas globais de desemprego de 5,7%. Ter um emprego não garante a capacidade de escapar da pobreza em muitos lugares. Esse progresso lento e desigual exige que repensemos e reformulemos nossas políticas econômicas e sociais destinadas a erradicar a pobreza.

O crescimento econômico sustentável exigirá que as sociedades criem condições que permitam às pessoas ter empregos de qualidade que estimulem a economia sem prejudicar o meio ambiente. Oportunidades de trabalho e condições de trabalho decentes também são necessárias para toda a população em idade ativa. É necessário aumentar o acesso a serviços financeiros para gerenciar receitas, acumular ativos e fazer investimentos produtivos.

Fatos:

  • A taxa global de desemprego em 2017 foi de 5,6% e em 2000 foi de 6,4%.
  • Os homens ganham 12,5% a mais do que as mulheres em 40 dos 45 países analisados.
  • A disparidade salarial global entre os sexos é de 23% em todo o mundo e, sem uma ação decisiva, levará mais 68 anos para alcançar remuneração igualitária.
  • A taxa de participação da força de trabalho das mulheres é de 63%, enquanto a dos homens é de 94%.
  • São necessários 470 milhões de empregos em todo o mundo para novos entrantes no mercado de trabalho entre os anos de 2016 e 2030.

ods9.png

Os investimentos em infraestrutura, transporte, irrigação, energia e tecnologia da informação e comunicação são cruciais para alcançar o desenvolvimento sustentável e capacitar as comunidades em muitos países. O crescimento da produtividade e da renda e as melhorias nos resultados em saúde e educação exigem investimentos em infraestrutura.

O progresso tecnológico é a base dos esforços para atingir os objetivos ambientais, como aumento de recursos e eficiência energética. Sem tecnologia e inovação, a industrialização não acontecerá e, sem a industrialização, o desenvolvimento não virá. É preciso haver mais investimentos em produtos de alta tecnologia, que dominam as produções de manufatura, para aumentar a eficiência com foco em serviços de telefonia móvel, aumentando as conexões entre as pessoas.

Fatos:

  • 16% da população global não tem acesso a redes de banda larga móvel.
  • Todo trabalho na indústria cria 2,2 empregos em outros setores.
  • Nos países em desenvolvimento, apenas 30% da produção agrícola passa por processamento industrial. Nos países de alta renda, 98% são processados. Isso sugere que existem grandes oportunidades para os países em desenvolvimento no agronegócio.

Na próxima semana abordaremos os ODSs 10 a 17.

Referências

Organizações das Nações Unidas – Agenda 2030

Ambientalismo e suas origens

Você deve se perguntar quando foi que o ambientalismo começou. A preocupação com o impacto na vida humana, de problemas como a poluição do ar e da água, vem desde o período romano. A poluição foi associada à propagação de doenças epidêmicas na Europa entre o final do século XIV e meados do século XVI, e a conservação do solo foi praticada na China, Índia e Peru há mais de dois mil anos. Em geral, no entanto, essas preocupações não deram origem ao ativismo público.

O movimento ambiental contemporâneo surgiu, principalmente, de preocupações no final do século XIX acerca da proteção do campo na Europa e do deserto nos Estados Unidos e as consequências para a saúde da poluição durante a Revolução Industrial. Em oposição ao  liberalismo (filosofia política dominante da época), que sustentava que todos os problemas sociais, inclusive ambientais, poderiam e deveriam ser resolvidos por meio do livre mercado, a maioria dos primeiros ambientalistas acreditava que o governo, ao invés do mercado, deveria ser encarregado de proteger o meio ambiente e garantir a conservação de recursos.

Uma filosofia anterior de conservação de recursos foi desenvolvida por Gifford Pinchot (1865-1946), o primeiro chefe do Serviço Florestal dos EUA, para quem a conservação representava o uso sábio e eficiente dos recursos. Também nos Estados Unidos, na mesma época, surgiu uma abordagem mais fortemente biocêntrica na filosofia preservacionista de John Muir (1838 a 1914), fundador do Sierra Club. Além dele, Aldo Leopold (1887 a 1948), professor de gestão da vida selvagem, que foi crucial na proteção da Floresta Nacional de Gila, no Novo México, em 1924, como a primeira área selvagem nacional da América. Leopold, introduziu o conceito de ética da Terra, argumentando que os humanos deveriam se transformar, de conquistadores da natureza, em cidadãos dela.

S0952-header
John Muir

As organizações ambientais estabelecidas entre o final do século XIX e meados do século XX eram principalmente grupos de lobby da classe média preocupados com a conservação da natureza, a proteção da vida selvagem e a poluição advinda do desenvolvimento industrial e da urbanização. Havia também organizações científicas preocupadas com a história natural e com aspectos biológicos dos esforços de conservação.

Embora os Estados Unidos tenham liderado o mundo em tais esforços durante esse período, outros desenvolvimentos de conservação notáveis ​​também estavam ocorrendo na Europa e Oceania. Por exemplo, um grupo de cientistas e conservacionistas suíços convenceu o governo a reservar 14.000 hectares de terreno nos Alpes Suíços com o objetivo de criar o primeiro parque nacional da Europa em 1914. Na Nova Zelândia, a Native Bird Protection Society (mais tarde a Royal Forest and Bird Protection Society, ou Forest & Bird) surgiu em 1923 em resposta à devastação decorrente da pecuária na ilha Kapiti.

A partir da década de 1960, as várias vertentes filosóficas do ambientalismo receberam expressão política por intermédio do estabelecimento de movimentos políticos “verdes” na forma de organizações não-governamentais ativistas e partidos políticos ambientalistas. Apesar da diversidade do movimento ambiental, quatro pilares forneceram um tema unificador para os objetivos gerais da ecologia política: proteção do meio ambiente, democracia de base, justiça social e não-violência. No entanto, um número pequeno de grupos ambientalistas e ativistas individuais se envolveu com ações ecoterroristas. A violência foi vista por eles como uma resposta justificada ao que eles consideravam um tratamento destruidor à natureza por alguns interesses, principalmente das indústrias madeireiras e de mineração. Os objetivos políticos do movimento verde contemporâneo no Ocidente industrializado se concentraram majoritariamente em mudar as políticas governamentais e promover valores sociais ambientais. Alguns desses movimentos incluem as campanhas na Tasmânia, nos anos 70 e 80, para bloquear as inundações do Lago Pedder e as represas do rio Franklin; protestos nos Estados Unidos e na Europa Ocidental contra o desenvolvimento de energia nuclear, especialmente após os acidentes catastróficos em Three Mile Island (1979) e Chernobyl (1986); a controvérsia de décadas relacionada à mineração de urânio no Território do Norte da Austrália, inclusive na mina de Jabiluka; protestos contra o desmatamento na Indonésia e na bacia amazônica; e campanhas em vários países para limitar o volume de gases de efeito estufa liberado por meio de atividades humanas.

mulher-viveu-dois-anos-arvore-para-salva-la-julia-butterfly.jpg
Julia Butterfly Hill, uma uma ativista que passou exatos 738 dias nas alturas, sem colocar os pés no chão sequer uma vez. Ela queria proteger uma sequoia!

Os movimentos socioambientais eram conscientemente ativistas e não convencionais, envolvendo ações de protesto direto destinadas a obstruir e chamar a atenção para políticas e projetos prejudiciais ao meio ambiente. Outras estratégias incluíram campanhas de educação pública e mídia, atividades dirigidas à comunidade e lobby convencional de formuladores de políticas e representantes políticos. O movimento também tentou dar exemplos públicos, a fim de aumentar a conscientização e a sensibilidade às questões ambientais. Tais projetos incluíam reciclagem, consumismo ecológico e o estabelecimento de comunidades alternativas, abrangendo fazendas autossuficientes, cooperativas de trabalhadores e projetos de habitação cooperativa.

Ambientalismo e a política

As estratégias eleitorais do movimento ambiental incluíram na época a nomeação de candidatos ambientais e o registro de partidos políticos verdes. Esses partidos foram concebidos como um novo tipo de organização política que trariam a influência do movimento ambiental de base diretamente para as máquinas do governo, tornando o meio ambiente uma preocupação central das políticas públicas e as instituições do Estado mais democráticas, transparentes e responsáveis. Os primeiros partidos verdes do mundo – o Values ​​Party, partido nacional da Nova Zelândia e o United Tasmania Group, organizado no estado australiano da Tasmânia – foram fundados no início dos anos 70. O primeiro membro explicitamente verde de uma legislatura nacional foi eleito na Suíça em 1979; mais tarde, em 1981, quatro “verdes” conquistaram cadeiras legislativas na Bélgica. Também foram formados partidos verdes no antigo bloco soviético, onde foram fundamentais no colapso de alguns regimes comunistas e em alguns países em desenvolvimento da Ásia, América do Sul e África, embora tenham alcançado pouco sucesso eleitoral no país.

O partido ambientalista de maior sucesso foi o Partido Verde Alemão (die Grünen), fundado em 1980. Embora não tenha conseguido representação nas eleições federais daquele ano, entrou no Bundestag (parlamento) em 1983 e 1987, ganhando 5,6% e 8,4%. por cento do voto nacional, respectivamente. O partido não obteve representação em 1990, mas em 1998 formou uma coalizão de governo com o Partido Social Democrata e a líder do partido, Joschka Fischer, foi escolhida como ministra das Relações Exteriores do país.

Nas duas últimas décadas do século XX, os partidos verdes conquistaram representação nacional em vários países e até reivindicaram o cargo de prefeito em capitais europeias como Dublin e Roma, em meados da década de 90. Fora da Europa, o Partido Verde da Nova Zelândia, que foi reconstituído do antigo Partido dos Valores em 1990, conquistou 7% dos votos nas eleições gerais de 1990. Sua influência aumentou para 9 dos 121 assentos parlamentares do país em 2002 e para 14 assentos parlamentares em 2014.

tania-malrechauffe-Tq7lbAeF9BQ-unsplash
Foto de Tania Malréchauffé

A essa altura, os partidos verdes haviam se tornado veículos políticos amplos, embora continuassem a se concentrar no meio ambiente. Ao desenvolverem a política partidária, eles tentaram aplicar os valores da filosofia ambiental a todas as questões enfrentadas por seus países, incluindo política externa, defesa e políticas sociais e econômicas.

Apesar do sucesso de alguns partidos ambientais, os ambientalistas permaneceram divididos sobre a importância da política eleitoral. Para alguns, a participação nas eleições é essencial porque aumenta a conscientização do público sobre questões ambientais e incentiva os partidos políticos tradicionais a abordá-las. Outros, no entanto, argumentam que os compromissos necessários para o sucesso eleitoral invariavelmente minam o  equilíbrio da democracia de base e da ação direta. Essa tensão foi talvez mais acentuada no Partido Verde Alemão. Os Realos do partido (realistas) aceitaram a necessidade de coalizões e compromissos com outros partidos políticos, incluindo partidos tradicionais com visões às vezes contrárias às do Partido Verde. Por outro lado, os Fundis (fundamentalistas) sustentaram que a ação direta deve permanecer como a principal forma de ação política e que nenhum pacto ou aliança deve ser formado com outros partidos.

Captura de Tela 2019-10-04 às 12.20.02.png
A tripulação a bordo do navio são os pioneiros do movimento verde que formaram o grupo original do Greenpeace. O objetivo da viagem era interromper os testes nucleares na Ilha Amchitka navegando para a área restrita. Foto: Greenpeace / Robert

ONGs e a força ambiental

No final dos anos 80, o ambientalismo havia se tornado uma força política global e nacional. Algumas organizações não-governamentais (por exemplo, Greenpeace, Amigos da Terra e World Wildlife Fund) estabeleceram uma presença internacional significativa, com escritórios em todo o mundo e sede internacional centralizada para coordenar campanhas de lobby e para servir como centros de campanha e de informações para seus afiliados nacionais. A construção de coalizões transnacionais foi e continua sendo outra estratégia importante para organizações ambientais e movimentos populares nos países em desenvolvimento, principalmente porque facilita o intercâmbio de informações e conhecimentos, mas também porque fortalece as ações diretas em nível internacional.

Por meio de seu ativismo internacional, o movimento ambiental influenciou a agenda da política internacional. Embora um pequeno número de acordos ambientais internacionais bilaterais e multilaterais estivesse em vigor antes da década de 1960, desde a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente em Estocolmo, em 1972, a variedade de acordos ambientais multilaterais aumentou para abranger a maioria dos aspectos da proteção ambiental, bem como muitas práticas com consequências ambientais, como a queima de combustíveis fósseis, o comércio de espécies ameaçadas, o gerenciamento de resíduos perigosos, especialmente resíduos nucleares, e conflitos armados. A natureza mutável do debate público sobre o meio ambiente se refletiu também na organização da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento COP 92, ocorrida no Rio de Janeiro, Brasil, na qual participaram cerca de 180 países e vários grupos empresariais, ONGs e a mídia. No século XXI, o movimento ambiental agregou às preocupações tradicionais de conservação, preservação e poluição outras preocupações mais contemporâneas, como as consequências ambientais de práticas econômicas tão diversas como turismo, comércio, investimento financeiro e conduta de guerra.

Screen_Shot_2015-01-20_at_12.15.32_PM.0.0.png.jpeg
Ações controvérsias da ONG Greenpeace

Escolas antropocêntricas de pensamento

Ambientalismo apocalíptico

A visão do movimento ambiental da década de 60 e início dos anos 70 era geralmente pessimista, refletindo um sentimento generalizado de “mal-estar da civilização” e uma convicção de que as perspectivas de longo prazo da Terra eram sombrias. Trabalhos como Silent Spring, de Rachel Carson (1962), The Tragedy of the Commons (Garrett Hardin) (1968), The Population Bomb (1968), de Paul Ehrlich, The Limits to Growth (Donella H. Meadows, 1972) e Edward Goldsmith’s Blueprint para Survival (1972) sugeriram que o ecossistema planetário estava atingindo os limites do que poderia sustentar. Essa literatura apocalíptica, ou sobrevivencialista, incentivou pedidos relutantes de alguns ambientalistas para aumentar os poderes dos governos centralizados sobre atividades humanas consideradas prejudiciais ao meio ambiente, um ponto de vista expresso de maneira mais vívida em Um inquérito, de Robert Heilbroner (1974), que argumentava que a sobrevivência humana acabou exigindo o sacrifício da liberdade humana. Contra-argumentos, como os apresentados em The Resourceful Earth (1984), de Julian Simon e Herman Kahn, enfatizaram a capacidade da humanidade de encontrar ou inventar substitutos para recursos escassos e em risco de esgotamento.

Book cover of Rachel Carson's Silent Spring, first published in 1962.

 

Ambientalismo emancipatório

A partir da década de 70, muitos ambientalistas tentaram desenvolver estratégias para limitar a degradação ambiental por meio da reciclagem, do uso de tecnologias de energia alternativa, da descentralização e democratização do planejamento econômico e social e, para alguns, de uma reorganização dos principais setores industriais, incluindo a agricultura e as indústrias de energia. Em contraste com o ambientalismo apocalíptico, o chamado ambientalismo “emancipatório” adotou uma abordagem mais positiva e prática, como o esforço para promover uma consciência ecológica e uma ética de “mordomia” do meio ambiente. Uma forma de ambientalismo emancipatório, a ecologia do bem-estar humano – que visa melhorar a vida humana criando um ambiente seguro e limpo – fazia parte de uma preocupação mais ampla com a justiça distributiva e refletia a tendência, mais tarde caracterizada como “pós-materialista”, dos cidadãos avançados.

O ambientalismo emancipatório também foi distinguido por alguns de seus defensores pela ênfase no desenvolvimento de sistemas de produção econômica em pequena escala, que seriam mais intimamente integrados aos processos naturais dos ecossistemas vizinhos. Essa abordagem mais ambientalmente holística do planejamento econômico foi promovida em trabalho, pelo ecologista americano Barry Commoner e pelo economista alemão Ernst Friedrich Schumacher. Em contraste com pensadores anteriores que subestimaram a interconectividade dos sistemas naturais, Commoner e Schumacher enfatizaram processos produtivos que trabalhavam com a natureza, não contra ela, incentivavam o uso de recursos orgânicos e renováveis ​​em vez de produtos sintéticos (por exemplo, plásticos e fertilizantes químicos), e defendiam recursos energéticos renováveis ​​e de pequena escala (por exemplo, energia eólica e solar), bem como políticas governamentais que apoiassem o transporte público eficaz e a eficiência energética.

A abordagem emancipatória foi evocada nos anos 90 no slogan popular “Pense globalmente, aja localmente”. Seu planejamento e produção descentralizados e em pequena escala foram criticados, no entanto, por serem irreais em sociedades altamente urbanizadas e industrializadas.

Tipos de ativismo ambiental

Os vários tipos de ativismo ambiental são categorizados em ativismo orientado à solução, ativismo focado na mudança e ativismo revolucionário. Os ativistas podem ter como objetivo conservar o meio ambiente ou até se opor a outros grupos de ativistas.

1. Ativismo ambientalista

O ambientalismo é um movimento cujos principais objetivos são a proteção e melhoria do meio ambiente. O foco está na mudança das atividades humanas por meio do uso de organizações sócio-políticas e econômicas. Os ativistas que apoiam essa ideia acreditam que, quando políticas sociais, econômicas e políticas são aprovadas, o ambiente natural deve ser considerado. Foi dessa vertente que surgiram os pensamentos ambientalistas, já retratados acima.

2. Ação individual e política

Esse tipo de ativismo visa reduzir a concentração de gases de efeito estufa (GEE) na atmosfera. O objetivo principal é diminuir os efeitos das mudanças climáticas. A ação política e a postura adotada por ativistas individuais levarão a uma mudança nas leis e regulamentos diretamente relacionados às mudanças climáticas e à redução das emissões de GEE.

Grupos ativistas nos EUA, como o Caucus Legislativo sobre Soluções Climáticas Bipartidárias e o Lobby do Clima do Cidadão, se formaram para apoiar as soluções propostas para o problema de emissões de GEE. Além disso, 50 ONGs formaram uma coalizão, em 2005, chamada Stop Climate Chaos, lançada na Grã-Bretanha com o principal objetivo de enfrentar a questão das mudanças climáticas.

3. Ativismo de conservação

Esse é um tipo de ativismo ambiental, cujo objetivo principal é a proteção de recursos naturais, plantas e animais. O movimento incentiva o uso dos recursos naturais de maneira sustentável, conservação da biodiversidade e preservação da natureza.

Como exemplo podemos citar um grupo de ativistas que protestou fortemente contra a construção da barragem de Reventazon, na Costa Rica. Várias condições não foram atendidas, comprometendo a sobrevivência dos onças-pintadas na região. Outros animais afetados incluem mais de 250 espécies diferentes de aves e mais de 80 espécies de répteis, mamíferos e anfíbios.

4. Ativismo pela justiça ambiental

Esse ativismo é definido como movimentos sociais cujo foco principal é uma distribuição justa e igual de benefícios e encargos no meio ambiente. Os ativistas que defendem a justiça social buscam resolver a questão da discriminação ambiental. Movimentos de justiça ambiental surgiram em todo o mundo com o objetivo de garantir que a equidade ambiental se torne um direito. Os ativistas desse movimento basearam a luta em regiões onde os níveis de discriminação são relativamente altos. Em Nova York, por exemplo, ativistas como Majora Carter tiveram um papel importante na criação de um projeto chamado South Bronx Greenway,  que permitiria ao público ter acesso ao espaço aberto.

4. Modernização ecológica

A ideia aqui é que o crescimento da economia só terá benefícios se visar o ambientalismo e foi iniciada por estudiosos do grupo em 1980. Os ativistas que apoiam essa ideia acreditam que a economia e a ecologia podem ser combinadas mediante a produtividade ambiental. A produtividade ambiental, por sua vez, é baseada na filosofia de que o uso de um recurso natural de maneira produtiva pode levar ao crescimento econômico no futuro. Por exemplo, a conservação do meio ambiente poderia levar a um aumento na eficiência energética e, portanto, as indústrias poderiam usar tecnologias limpas em substituição aos produtos perigosos.

5. Ativismo ambiental de base

Formada por um grupo de pessoas que usam direitos básicos, como liberdade de expressão para advogar por mudanças, o grupo não tem afiliações ou motivos políticos e age independentemente em suas campanhas. Os ativistas que exercem esse tipo de ativismo acreditam firmemente que uma mudança só pode ocorrer quando as pessoas agem. Por exemplo, as campanhas organizadas pelo Greenpeace para se opor aos testes de armas nucleares que estavam sendo realizados na França.

6. Ecoterrorismo

Também chamado de terrorismo ecológico ou ambiental, geralmente empregado em duas questões: quando governos, grupos ou indivíduos ameaçam ou provocam propositalmente a destruição do meio ambiente ou quando organizações, que se declaram defensoras da natureza, cometem crimes contra governos e empresas que prejudicam o meio ambiente. Esses ativistas às vezes cometem crimes ou causam violência que prejudicam pessoas, destroem propriedades ou mesmo o meio ambiente em geral. Entre os anos de 2003 e 2008, por exemplo, o Federal Bureau of Investigation associou o eco-terrorismo à destruição de propriedades no valor de US $ 200 milhões.  Esse tipo de ativismo é visto com descontento pela maioria dos outros tipos de ativistas e ambientalistas.

7. Ativismo local

Envolve organizar os habitantes locais para se oporem ou proporem políticas que visem a proteger seu meio ambiente. Na Carolina do Norte, o ativismo local é comum. Um exemplo é a organização formada pela comunidade que vive perto das montanhas Blue Ridge, com o principal objetivo de proteger a cobertura florestal encontrada na região.

Resultado de imagem para limpeza de praia voluntária brasil
Ações conjuntas para limpeza de praias.

 

 

 

Leia também: 

Minimalismo e o Ambientalismo: movimentos que andam lado a lado

Que medidas o Poder Público vem adotando em relação à sustentabilidade?

Hora do Planeta: protestando por um planeta melhor

 

 

Referências

Emancipatory Environmentalism: Civil Society and the Public Interest in Environmental Law

 Britannica – History Of The Environmental Movement

Peter, Dauvergne. (2009). History of Environmentalism.

Texto Curioso – Formigas – Conheça o maior império da história de nosso planeta!

Quando pensamos em grandes cidades, logo nos vem à mente construções humanas, com grandes vias de circulação de carros, lojas e arranha-céus. Porém, em outro post do site, mencionamos que a maior construção já feita por um ser vivo foi desenvolvida por cupins, em uma cidade subterrânea maior que o Reino Unido. Embora, em área contínua, essa possa ser a maior “cidade” da história, existe uma colônia de animais crescendo e se expandindo em uma velocidade nunca vista antes. Expandindo-se por todos os continentes, essa única colônia abriga milhões de indivíduos em diversos países, que são capazes de trabalhar em conjunto de forma surpreendente. Conheça o maior império atual do nosso planeta, a Mega-Colônia Global das Formigas!

ant mega-colony
Trabalho em equipe de formigas-argentinas – Fotógrafo desconhecido

Hoje em dia, as formigas são um dos grupos de animais que dominam nosso planeta. Desde seu surgimento, há 140 milhões de anos, esses animais se tornaram uma parte crucial dos ecossistemas em que vivem, ocupando os mais diversos nichos possíveis. Atualmente, esse grupo conta com mais de 16.000 espécies conhecidas e compõe entre 15 e 25% da biomassa total de animais em terra firme. Existem cerca de 10 quatrilhões de  formigas no planeta, o que equivale a 1,25 milhões de formigas para cada ser humano na Terra. Esses insetos, que desenvolveram formas de agricultura e pecuária, são capazes de derrubar ou criar novas florestas e são a base de diversos ecossistemas.

Imagem relacionada
Diversidade morfológica de algumas espécies de formiga – Por Benoit Guénard

Devido à complexidade de suas sociedades, é inevitável que, ao se encontrarem, espécies e colônias diferentes entrem em conflito. Em alguns casos, um pequeno confronto pode desencadear no completo extermínio de outro formigueiro, com milhões de corpos espalhados ao final da batalha. Entretanto, esse não é sempre o caso. A formiga-argentina (Linepithema humile) é uma espécie que possui interações sociais peculiares, com 300 rainhas existindo para cada 1.000 operárias. Além disso, em muitos casos, formigas de colônias próximas, geralmente com um ancestral em comum, podem trafegar livremente entre os formigueiros, o que cria uma rede colaborativa entre diferentes populações. Em seu habitat, essa espécie já era extremamente bem sucedida. O que ninguém esperava, porém, era que esses animais conquistariam todos os continentes do planeta com a ajuda do ser humano.

Resultado de imagem para Linepithema humile distribution map
Com uma distribuição original restrita ao sul do Rio Paraná, essa espécie de formiga colonizou todos os continentes, com exceção da Antártida – Por Xavier Espadaler

Transportada da América do Sul para outros locais por meio de embarcações, essas formigas rapidamente criaram super colônias nos países em que chegaram, formando uma grande rede de formigueiros conectados que se estendia por centenas de quilômetros. Por ser uma espécie exótica fora da América do Sul, as formigas-argentinas tornaram-se invasoras, uma vez que não possuem predadores nos novos territórios que conquistaram. Dessa forma, elas foram capazes de atingir números populacionais gigantescos, extirpando diversas áreas de suas espécies nativas. Ao estudar as relações sociais dessa espécie, cientistas perceberam que todas as grandes colônias dos Estados Unidos comportavam-se como uma só, sendo agressivas apenas com formigas de colônias menores, provavelmente descendentes de uma onda de colonização mais recente no país. O mesmo foi observado na Europa, Japão, Austrália e em diversas ilhas do Pacífico, o que levou pesquisadores a questionar as relações sociais inter-continentais desses organismos.

File:Giraud, T., Pedersen, J.S. et al. 2002. Fig. 1.jpg
Uma das regiões estudadas, a Europa apresenta uma supercolônia que se estende por quase seis mil quilômetros – Por Giraud, T., Pedersen, J.S. et al.

Por esse motivo, cientistas de vários países se reuniram em 2009 para testar os níveis de agressão entre diversas colônias do planeta. Ao transportarem formigas entre diferentes regiões e soltá-las perto de um formigueiro, os biólogos puderam observar e registrar se elas se comportariam de forma agressiva ou se as formigas recém-chegadas seriam bem-vindas. Enquanto a agressividade era mais comum entre formigas de diferentes áreas da América do Sul, ao transportar esses animais entre a América do Norte, Europa e o Japão, as recém-chegadas rapidamente passavam a integrar a colônia local. O experimento foi repetido diversas vezes e sempre apresentou o mesmo resultado: as formigas-argentinas desses três continentes se comportam como uma mega-colônia mundial.

Resultado de imagem para linepithema humile
Linepithema humile – Foto do GLOBAL INVASIVE SPECIES DATABASE

Ao todo, essa mega-colônia ocupa uma área de 6.900 km², totalizando bilhões de operárias e rainhas. Se fosse um país, a população desse império seria a maior do planeta. Em área, ele ocuparia a 163ª posição do mundo, sendo maior que a Palestina, Malta, Barbados, Cabo Verde, dentre outros. Para fins comparativos, consideremos que os humanos são cerca de 7.200 vezes maior do que esses animais. Se seu território fosse proporcionalmente 7.200 maior, ele teria 49,7 milhões de km², sendo maior que o Império Britânico, o maior em área da história. Recentemente, porém, outros pesquisadores apontaram que as populações do Havaí, da Austrália e da Nova Zelândia também possam fazer parte da mega-colônia, o que aumentaria sua área de forma significativa.

Localização das megacolônia em amarelo

 

Assim como os humanos, diversos animais criam sociedades complexas que apenas recentemente começamos a compreender. As Linepithemas são um lembrete da complexidade desses animais e da importância do conhecimento sobre esses organismos cruciais para a vida de diversos ecossistemas. Mesmo sendo animais comuns, as formigas possuem uma diversidade inimaginável, criando uma das redes de interações mais complexas de nossa biosfera.

Por esse motivo, é com muito orgulho que o Tunes Ambiental está apoiando o XXIV Simpósio de Mirmecologia, o maior encontro científico sobre formigas do planeta, que acontecerá no Campus Pampulha da Universidade Federal de Minas Gerais, em Belo Horizonte – MG. Com centenas de pesquisadores nacionais e internacionais, o evento ocorrerá no período de 30 de setembro a 04 de outubro de 2019, e tem como objetivo integrar as várias áreas do conhecimento científico que contribuem para o avanço da mirmecologia. Mais informações no site: http://mirmecobh2019.com.br/

Leia também:

Saara – O paraíso transformado em deserto

Derretimento do Permafrost e sua ameaça à humanidade

O Fim dos Corais – Como o aquecimento global está ameaçando nossos ambientes marinhos mais diversos

Capivaras – Pragas urbanas ou importantes animais silvestres?

O Fim dos Gigantes – Conheça o papel do ser humano na extinção dos animais pré-históricos

Engenheiros da Natureza – Como alguns animais conseguem transformar o ambiente em que vivem

Aliens entre nós

 

Referências

https://www.atlasobscura.com/articles/how-the-world-became-a-giant-ant-colony

http://www.bbc.com/earth/bespoke/story/20140908-battle-of-the-ants/index.html

http://news.bbc.co.uk/earth/hi/earth_news/newsid_8127000/8127519.stm

This Three-Continent Ant Mega-Colony WILL Conquer Earth Soon

Artigo “Intercontinental union of Argentine ants: Behavioral relationships among
introduced populations in Europe, North America, and Asia” (2009) – Por ESPADELER, X. e TERAYAMA, M.

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC122904/

https://blogs.scientificamerican.com/news-blog/ant-colony-crosses-continents-2009-07-02/

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3352483/

https://www.researchgate.net/publication/228654113_Worldwide_spread_of_the_Argentine_ant_Linepithema_humile_Hymenoptera_Formicidae

https://www.antweb.org/description.do?genus=linepithema&species=humile&rank=species

http://www.iucngisd.org/gisd/species.php?sc=127

Saara – O paraíso transformado em deserto

Imagine um ambiente megadiverso, repleto de um mosaico de savanas, pântanos e florestas tropicais, no continente africano. Manadas de elefantes vivem em meio a leões, antílopes e zebras, enquanto o solo fértil da região permitiu o surgimento de grandes civilizações, que, por sua vez, criaram novas técnicas de agricultura e construíram verdadeiros impérios. Em volta de grandes rios, esses povos ergueram templos e pirâmides, que resistiram à ação do tempo por milhares de anos e foram redescobertos apenas recentemente.  Embora essa descrição também se encaixe com a do Egito Antigo, essa região fértil se estendia desde o Delta do Nilo até o Oceano Atlântico. Hoje, o local mais quente do planeta, esse enorme deserto, já foi um verdadeiro paraíso para diversas populações humanas, há poucos milhares de anos.

Resultado de imagem para sahara photography
Foto por Marsel van Oorsten

Quando pensamos no Saara, logo imaginamos um grande ambiente hostil, que isola o Magrebe da África Subsaariana. Com pouquíssimas fontes naturais de água, temperaturas que podem chegar a 58°C e grandes tempestades de areias, essa região do tamanho da Europa é uma das mais inóspitas para a vida. Por esse motivo, poucos estudos são realizados no Saara em comparação com outros desertos quentes. Apenas recentemente, com o avanço de tecnologias de monitoramento via satélite, toda sua área está sendo detalhadamente conhecida, o que revelou algumas das mais impressionantes descobertas arqueológicas do planeta.

Camels making their way through the Sahara
Por  Hillary Fox

Ao analisarem depósitos de rocha de diversas regiões do Saara de até 240.000 anos de idade, pesquisadores do MIT (Massachusetts Institute of Technology) concluíram que esse enorme deserto possui ciclos de  avanços e retrações, que ocorrem a cada 20 mil anos. Durante esse tempo, mudanças na  inclinação da órbita terrestre fazem com que grandes florestas tropicais e savanas alagadas sejam rapidamente convertidas em deserto, eliminando a maior parte da biodiversidade local. Quando o Norte da África recebe um maior grau de incidência solar, as monções são intensificadas, o que gera um aumento do regime de chuvas na região e torna o Saara um paraíso verde. Entretanto, quando a incidência solar diminui, as chuvas tornam-se escassas na área, chegando a menos de 1mm anual em certos pontos, o que ocasiona a expansão do deserto. Esse fato contrasta com o que sabíamos sobre os ciclos climáticos da Terra, uma vez que a periodicidade de eras do gelo, também determinadas pela inclinação terrestre, é de cerca de 100 mil anos, o que indica que outras forças também influenciam os ciclos de glaciação.

Resultado de imagem para green sahara
A maior parte do Saara era semelhante às savanas verdes de regiões úmidas da África – Foto por Chris Cooper

Uma pergunta que sempre intrigou os cientistas é como diversos grupos de animais, incluindo o ser humano, conseguiram atravessar milhares de quilômetros de areia para sair da África Subsaariana e chegar até o Oriente Médio, colonizando outras regiões posteriormente. Esses ciclos temporais do Saara não só permitiram essa passagem, como também foram responsáveis por diversos eventos de especiação na região, que hoje possui faunas únicas isoladas por um mar de areia. Acredita-se que, entre 130.000 e 100.000 anos atrás, o ser humano foi capaz de sair da África devido a corredores verdes criados por esse sistema de chuvas, mudando completamente o curso de nossa história.  O modelo proposto pelos pesquisadores do MIT explica perfeitamente a história de nossa expansão e da expansão dessas espécies, que migraram, não por desertos inóspitos, mas, sim, por ambientes férteis e verdejantes.

Resultado de imagem para sahara human migrations
Corredor de rios possibilitou a migração de hominídeos para fora da África – Retirado do artigo de  Osborne et. al. (2008)

Em 2015, uma equipe de cientistas franceses publicou na revista Nature Communications um achado que confirmou o passado verde do Saara. Utilizando um sistema avançado de mapeamento por satélite, eles descobriram um complexo de rios secos, que cruzavam grande parte do Saara há menos de 5 mil anos. Esses rios proporcionavam a água necessária para o sustento de diversos ecossistemas na região e suas bacias interligavam os principais ambientes férteis africanos. Dessa forma, não seria estranho se grandes civilizações, assim como a egípcia, tivessem habitado países como o Sudão, Chad, Níger ou a Mauritânia, no passado.

Paleobacias hidrográficas do Saara – Por Nature Communications

Somado a isso, pesquisadores de Cambridge descreveram diversos lagos antigos para a região, em 2010, um fato que permaneceu sem explicação até o descobrimento das bacias hidrográficas extintas e dos ciclos climáticos do Saara. Dentre eles, o lago Mega-Chad era o maior de todos, com uma área de 360.000 quilômetros quadrados e mais de 247 metros de profundidade. Atualmente, o Lago Chad é um pequeno remanescente desse mar continental, que possui apenas 354 quilômetros quadrados e que continua a diminuir a cada ano. A área seca do Mega-Chad, entretanto, é composta por uma areia incrivelmente fina e rica em nutrientes, que é carregada pelo vento por intermédio do Oceano Atlântico até a Amazônia, contribuindo para sua fertilização.

Mega Chad was the biggest freshwater lake on earth covering 139,000 sq miles (360,000 sq km) of Central Africa. The graphic above shows how it has shrunk to just 137 sq miles
Tamanho do Lago Chad em comparação ao lago Mega-Chad – Por DailyMail
Resultado de imagem para green sahara map
Mapa contendo principais rios e lagos do Saara verde (os nomes das regiões são fictícios) – Retirado do site Worldanvil

Com tantos rios e lagos no passado do Saara, essa área extremamente fértil atraiu milhares de pessoas, que construíram grandes cidades na região. Com uma cultura similar à do Egito, esses povos ergueram templos e pirâmides por toda porção Noroeste da África, criando técnicas complexas de urbanismo e de agricultura. Por mais estranho que isso possa parecer, essas grandes civilizações foram descobertas apenas recentemente com o uso de drones e satélites, sobretudo devido ao tamanho do deserto. Além dos já conhecidos sítios arqueológicos no Egito e no Sudão, pesquisadores encontraram outros na Líbia, Chad e Mali, demonstrando o potencial para novas pesquisas na região. Outro fator que contribui para a dificuldade em encontrar ruínas no Saara é a mobilidade das dunas, que podem ter dezenas de metros de profundidade. A Esfinge de Gizé, por exemplo, estava quase totalmente enterrada quando foi descoberta, assim como diversas pirâmides menores do Egito.

Resultado de imagem para Garama
Ruínas de fortificação do povo Garamantes, na Líbia (acima) e de construções funerárias (abaixo) – Fotógrafos desconhecidos

Resultado de imagem para necropolis garama

Resultado de imagem para Fortresses of Sahara
Foto de forte do Garamantes descoberto com o uso de satélites mostra campos de plantio e técnicas de irrigação – U. Leicester
Resultado de imagem para giza sphinx buried
Esfinge de Gizé quando descoberta pelos europeus (acima) em comparação com a área já escavada atualmente (abaixo)  – Por b. Anthony Stewart

Resultado de imagem para giza sphinx

Resultado de imagem para sudan pyramids
O Sudão possui mais pirâmides conhecidas do que o Egito – Foto do  Getty Images

Mas então, o que aconteceu com as milhões de pessoas e animais que viviam no Saara? O fim do período chuvoso africano fez com que diversos rios secassem, o que impulsionou ondas migratórias em toda a região.  Além de enormes manadas de elefantes e antílopes, cidades humanas inteiras também migravam, levando consigo milhares de bois, ovelhas e, sobretudo, cabras, animais com extremo poder devastador em populações de plantas nativas. Por onde fossem, os humanos traziam essas espécies invasoras, que comiam toda vegetação do local, o que contribuía para processos ainda mais rápidos de desertificação. Cientistas acreditam que o Saara se transformou em um deserto em apenas pouco mais de 100 anos, o que demonstra a velocidade em que grandes mudanças podem ocorrer em nosso planeta.

Esquema mostrando diferenças na concentrações humanas ao longo do tempo no Saara – Por Kröpelin et. al.
Illustration for article titled What Happened to the Mysterious Humans of the Sahara 7,000 Years Ago?
Diversas ossadas humanas antigas foram encontradas em regiões previamente habitadas do Saara – Foto por Mike Hettwer

Com essa mudança abrupta, diversos povos e populações de animais morreram rapidamente. Hoje, cerca de 86% da megafauna do Saara está extinta ou ameaçada. Grandes animais de savanas, como elefantes, leões, guepardos e cachorros-pintados, não sobreviveram na região, enquanto outros restaram com populações extremamente fragmentadas. Além disso, o aquecimento global está contribuindo de forma significativa para o aumento das áreas desertificadas na região, ameaçando ainda mais as savanas e florestas do Norte da África. Desde 1920, o deserto já cresceu mais de 10%, em uma velocidade cada vez maior.

Resultado de imagem para Oryx dammah
Uma vez comum no Saara, o Órix-cimitarra (Oryx dammah) está extinto na natureza – Por BIOSPHOTO
Resultado de imagem para bubal hartebeest
Alcelaphus buselaphus buselaphus, extinto no século XIX
Resultado de imagem para sahara cheetah
O Guepardo-do-Saara é um dos felídeos mais raros do mundo – Farid Belbachir
Resultado de imagem para dromedary camel photography
Embora comum em cativeiro, o dromedário está extinto na natureza há mais de 2 mil anos – Foto por PixaBay

O Saara teve uma importância significativa para a nossa evolução, considerando que foi por meio de seus corredores verdes do passado que os humanos conseguiram migrar para outras partes do mundo. No entanto, a desertificação recente da região obrigou povos a se deslocarem para outras regiões e provocou a extinção de inúmeras espécies. Com o agravamento do aquecimento global, tememos que, cada vez mais, savanas e florestas sejam destruídas. A história desse deserto revela a velocidade com que as mudanças acontecem na natureza e, com os processos de desertificação ocorrendo em diversas regiões do mundo, sobretudo na Amazônia, questionamos se novos Saaras vão surgir em breve.

Leia também

O Impacto Por Trás das Manchetes: Como as mudanças climáticas já estão afetando a vida no planeta

O Fim dos Gigantes – Conheça o papel do ser humano na extinção dos animais pré-históricos

Amazonas: O rio brasileiro que surgiu na África

Rios Voadores e Tempestades de Areia

Referências

https://phys.org/news/2019-01-sahara-swung-lush-conditions-years.html

https://qz.com/africa/549573/5000-years-ago-the-sahara-desert-was-home-to-people-animals-and-lush-vegetation/

https://www.nature.com/scitable/knowledge/library/green-sahara-african-humid-periods-paced-by-82884405/

https://www.theguardian.com/science/2015/nov/10/ancient-river-network-discoverd-buried-under-saharan-sand

http://news.mit.edu/2019/study-regulating-north-african-climate-0102

https://www.smithsonianmag.com/smart-news/three-ancient-rivers-long-buried-by-the-sahara-created-a-passage-to-the-mediterranean-7222072/

https://www.sciencemag.org/news/2015/02/drones-and-satellites-spot-lost-civilizations-unlikely-places

https://www.sciencedaily.com/releases/2013/09/130911184712.htm

https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/ddi.12157

https://www.sciencedaily.com/releases/2013/12/131203124530.htm

https://www.nationalgeographic.com/news/2011/11/111111-sahara-libya-lost-civilization-science-satellites/

https://www.hindustantimes.com/world-news/sahara-desert-has-grown-by-10-since-1920-due-to-climate-change-says-study/story-use6q6ByRUc7wh6wriRkFM.html

https://www.pnas.org/content/105/43/16444

https://www.smithsonianmag.com/science-nature/what-really-turned-sahara-desert-green-oasis-wasteland-180962668/

https://www.independent.co.uk/environment/sahara-worlds-largest-desert-climate-change-growth-global-warming-sahel-a8280361.html

https://theconversation.com/humans-may-have-transformed-the-sahara-from-lush-paradise-to-barren-desert-74666

Ancient megalake discovered beneath Sahara Desert

https://www.cambridge.org/core/services/aop-cambridge-core/content/view/7515BC9AAFE40606D3FC30C9D0C7D9D7/S0033589418000467a.pdf/megalakes_in_the_sahara_a_review.pdf

https://www.dailymail.co.uk/news/article-3143617/Scientists-discover-Sahara-Desert-contained-world-s-largest-lake-named-Mega-Chad-1-000-years-ago-evaporated-just-years.html

86 percent of big animals in the Sahara Desert are extinct or endangered

 

 

 

 

 

 

Como sua dieta afeta o meio ambiente?

Você é o que come, como diz o ditado, e, embora boas escolhas alimentares melhorem sua própria saúde, elas também podem melhorar o sistema de saúde e até beneficiar o planeta. Pessoas mais saudáveis significam não apenas menos doenças, mas também emissões reduzidas de gases de efeito estufa.

Então, você quer reduzir sua pegada de carbono? Você pode considerar melhorar sua dieta. Os cientistas dizem que a produção de alimentos, incluindo o plantio, a criação de animais, a pesca e o transporte para os nossos pratos é responsável por 20% a 30% do total dos níveis globais de gases de efeito estufa. Além disso, 33% do solo livre de gelo em nosso planeta está sendo usado para cultivar nossos alimentos, dizem os pesquisadores.

louis-hansel-GiIiRV0FjwU-unsplash.jpg

Foto de Louis Hansel

De acordo com a Global Footprint Network, organização de pesquisa que combate o aquecimento global, seriam necessários 4 planetas Terra para sustentar o mesmo ritmo de consumo da população mundial até 2050. A realidade é que, com a maior disponibilidade, menor preço e mais acesso aos alimentos, passamos a consumir de forma desenfreada carnes vermelhas e a desperdiçar mais alimentos sem compostá-los adequadamente. Segundo o World Resources Institute (WRI), o Brasil anualmente descarta cerca de 41 mil toneladas de comida, nos colocando entre os 10 países que mais desperdiçam alimentos.

Mas como a alteração de nossas dietas pode mudar isso? Um novo estudo publicado no PNAS (jornal da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos) descobriu que, se os cidadãos de 28 países de alta renda, como Estados Unidos, Alemanha e Japão, realmente seguissem as recomendações alimentares de seus respectivos governos, os gases de efeito estufa relacionados à produção dos alimentos que eles comem cairiam de 13 % a 25%. Ao mesmo tempo, a quantidade de terra necessária para produzir esses alimentos poderia cair em até 17%.

“Pelo menos em países de alta renda, uma dieta mais saudável leva a um ambiente mais saudável”, disse Paul Behrens, cientista ambiental da Universidade de Leiden, na Holanda, que liderou o trabalho. “É ganha-ganha”.

Para chegar a essa conclusão, Behrens procurou o Exiobase, um enorme banco de dados de entrada e saída que representa toda a economia mundial. Isso permitiu que ele acompanhasse não apenas o custo ambiental de cultivar e transportar os vários tipos de alimentos que consumimos, mas também o custo das máquinas envolvidas na produção desses alimentos e o custo de colocá-los em nossos supermercados e, eventualmente, em nossos pratos. O banco de dados também leva em consideração que alguns países são mais eficientes na produção de alimentos do que outros. Por exemplo, cultivar tomates na Inglaterra consome mais energia do que cultivá-los na Espanha, onde é mais quente. Da mesma forma, um bife de uma vaca alimentada com grãos na Inglaterra tem uma pegada ambiental menor do que um de uma vaca alimentada com capim no Brasil.

“É excelente termos essas informações”, disse Behrens. “Você pode rastrear o impacto de qualquer consumo em todo o mundo.”

Para este estudo, Behrens reuniu dados sobre as dietas médias de pessoas que vivem em 39 países, bem como as recomendações alimentares formuladas pelos governos desses países. Para garantir que os resultados representassem as formas recomendadas de comer e não apenas uma redução na quantidade consumida, ele manteve as contagens de calorias de ambas as dietas iguais e apenas alterou a porcentagem dos diferentes grupos de alimentos que as pessoas realmente comem, comparando o resultado. Ele analisou três maneiras pelas quais o meio ambiente é afetado por nossas dietas: emissões de gases de efeito estufa, uso da terra e eutrofização, que é a adição de nutrientes às fontes de água que podem levar à proliferação de algas tóxicas e à falta de oxigênio na água. A eutrofização é geralmente causada pela descarga de resíduos de animais (esterco), esgoto doméstico e fertilizantes vegetais.

Os resultados estavam longe de ser uniformes, mas, em termos gerais, ele descobriu que os países mais ricos reduziriam seu impacto ambiental se seus cidadãos seguissem dietas recomendadas nacionalmente, principalmente porque a maioria dessas recomendações exige uma redução significativa na quantidade de carne consumida.

avel-chuklanov-sedJnjrUMM8-unsplash.jpg
Foto de Avel Chuklanov

“Em geral, a carne é pior do que outros tipos de comida, porque toda vez que algo come outra coisa, você perde energia”, disse Behrens. “Comer qualquer animal terá mais impacto em comparação com outros grupos de alimentos”.

Ajustes significativos e relativamente pequenos na dieta podem resultar em uma relevante mudança na sua pegada de carbono. Essa também foi a descoberta de um estudo liderado por pesquisadores da UC Santa Barbara, que analisaram os efeitos potenciais de dietas modelo mais saudáveis para os Estados Unidos. Os resultados apareceram na revista Climatic Change.

 “As pessoas analisaram o efeito que as dietas têm sobre o clima e a saúde, mas nunca examinaram o potencial de mitigar as mudanças climáticas por meio do sistema alimentar e do sistema de saúde juntos”, disse o diretor de estudos David Cleveland, professor de pesquisa no programa de estudos ambientais e departamento de geografia da UC Santa Barbara.

A produção alimentar contribui com cerca de 30% das emissões totais de gases de efeito estufa dos EUA, sendo que a maior proporção é proveniente de alimentos de origem animal. Além disso, a baixa qualidade da dieta padrão dos EUA, incluindo altos níveis de carne vermelha e processada e baixos níveis de frutas e legumes, é um fator importante em várias doenças evitáveis. Os EUA gastam US$ 3 trilhões em assistência médica todos os anos, o que representa 18% do produto interno bruto, tendo grande parte desse valor alocado a doenças associadas a dietas precárias.

Não é somente as emissões de gases de efeito estufa que estão ligadas à sua alimentação. Para produzir alimentos utilizamos muita água. No infográfico abaixo, retirado do site Huff Post, podemos comparar o impacto gerado por alguns alimentos:

5c5dd76e24000008024a856d.png
Canva/Luiza Belloni

 

Solução do problema…

Para criar dietas modelo mais saudáveis, os pesquisadores alteraram a dieta americana padrão de 2.000 calorias por dia, alterando as fontes de aproximadamente a metade dessas calorias. As diferentes dietas modelo reduziram progressivamente a quantidade de carnes vermelhas e processadas, e nas dietas mais rigorosas elas foram eliminadas completamente. A ingestão de frutas e vegetais foi dobrada e o consumo de ervilhas e feijões aumentou para substituir a proteína da carne removida. Grãos refinados foram parcialmente substituídos por grãos integrais. O açúcar adicionado, que Cleveland observou ser um risco conhecido para a saúde, não foi reduzido, nem laticínios, ovos, peixe ou carne não vermelha.

“Isso significa que nossas estimativas são provavelmente muito conservadoras, tanto em termos de implicações para a saúde quanto para as mudanças climáticas”, afirmou Cleveland. “Apenas mudando metade da dieta e incluindo apenas algumas das doenças associadas às dietas, encontramos um efeito enorme.

“Os alimentos têm um tremendo impacto no meio ambiente”, acrescentou. “Isso significa que há um enorme potencial para que nossas escolhas alimentares tenham efeitos positivos em nosso meio ambiente, bem como em nossa saúde e em nossos custos com saúde”.

Diante desses estudos é possível afirmar que se cada cidadão reduzisse seu consumo de carnes vermelhas e de industrializados provocaria uma grande redução do impacto que sua alimentação possui no meio ambiente. Esse assunto já foi abordado no artigo Eu não disse para você ser VEGETARIANO!.

A verdade é uma só: não precisamos do mundo inteiro tomando atitudes extremas em prol do meio ambiente. Necessitamos, sim, de cada um mudando aquilo que estiver ao seu alcance para reduzir o seu próprio impacto.

 

Veja também:

 

Referências 

Global Footprint Network

World Resources Institute (WRI)

Artigos: 

Evaluating the environmental impacts of dietary recommendations” – Paul Behrens e colegas. 

A healthier US diet could reduce greenhouse gas emissions from both the food and health care systems” David A. Cleveland e colegas

Derretimento do Permafrost e sua ameaça à humanidade

O permafrost, também chamado de pergelissolo, é um tipo de solo encontrado  em altas latitudes do Hemisfério Norte, próximo ao Círculo Polar Ártico. Como o nome indica, ele é permanentemente congelado (pergeli = gelo permanente; em inglês perma = permanente, e frost = congelado), sendo composto também por terra e rocha. Essa designação se refere a quaisquer tipos de terreno que permaneceram congelados por mais de dois anos consecutivos nessas localidades, inclusive durante o verão. Nos últimos milhares de anos, diversas eras glaciais contribuíram para a formação e manutenção de grandes áreas dos permafrosts atuais, que armazenaram uma grande quantidade de informações sobre o planeta no passado. Embora algumas regiões tenham permanecido congeladas nos últimos 740 mil anos, esse gelo vem derretendo com extrema rapidez, o que pode ameaçar até mesmo a existência da espécie humana.

Resultado de imagem para permafrost world map
Mapa mostrando as regiões de ocorrência do permafrost em 1998 – Elaborado pela International Permafrost Association

Nos últimos 2.58 milhões de anos, o planeta tem passado por diversos períodos de glaciações e interglaciações, marcados por mudanças extremas na temperatura média do planeta. Esses eventos são causados pelo chamado ciclo de Milankovitch, que consiste em uma pequena modificação da posição da órbita terrestre ao longo dos anos, o que resulta na alteração da quantidade de incidência solar que atinge o planeta (tema explorado no texto Era do Gelo: Porque o aquecimento global pode causar um resfriamento nas altas latitudes?). Durante as glaciações mais recentes, sobretudo a última, que ocorreu de 115.000 a 11.700 anos atrás, grandes porções do Ártico foram transformadas em pergelissolo, após a água infiltrada em solos úmidos congelar, em regiões em que a média de temperatura não ultrapassava os -2°C ao longo do ano.

Resultado de imagem para ice age cycles
Ciclos de glaciação têm ocorrido nos últimos 2.58 milhões de anos
Resultado de imagem para ice age world map
Mapa mostrando a localização de geleiras durante o último período glacial – Por PALEOMAP Project
Resultado de imagem para permafrost
Permafrost russo – Fotógrafo desconhecido

 

Após a extinção do mamute-lanoso (Mammuthus primigenius) nas regiões continentais, há cerca de 10 mil anos, diversas áreas de estepes e pradarias também foram transformadas em permafrost. As grandes manadas desses animais contribuíam para o revolvimento do solo, o que permitia o crescimento de diversas gramíneas e arbustos na região. Com o seu desaparecimento, provavelmente ocasionado pela interferência do ser humano, o chão dessas planícies foi se tornando mais compacto, contribuindo para o acúmulo de água próximo à superfície e, consequentemente, para o seu congelamento.

Resultado de imagem para mammoth reindeer paleoart
Os mamutes eram espécies-chave para os ecossistemas árticos durante o Pleistoceno – Arte por Tom Björklund

Entretanto, o pergelissolo começou a diminuir em todo o mundo nos últimos séculos, o que proporcionou diversas descobertas para cientistas ao redor do globo. Em várias regiões, o permafrost é protegido por uma camada de solo fértil, que varia entre 10 e 200 cm, que possibilita o crescimento de certos tipos de vegetação. Por outro lado, o permafrost pode chegar a mais de 1.500 metros de espessura, contendo diversos tipos de organismos congelados há milhares de anos. A redução do gelo no chão possibilitou que rinocerontes-lanudos, mamutes, cavalos extintos e lobos-gigantes fossem encontrados, preservados em perfeito estado por milhares de anos devido às baixas temperaturas e condições de umidade, possibilitando até a extração de DNA desses animais.

Coniferous trees lean at different angles in the snow
O derretimento do permafrost que sustenta camadas de solos férteis faz com que florestas inteiras afundem no chão – Foto por Mady Macdonald
Resultado de imagem para permafrost rhino
Múmia de rinoceronte-lanoso (Coelodonta antiquitatis) – Foto pela Academy of Sciences of the Republic of Sakha
Image:
Lyuba, mamute mais bem preservado do mundo, encontrada na Rússia em 2007 – Foto por Aaron Tam
Resultado de imagem para wolf permafrost
Cabeça de lobo-gigante (Canis dirus) encontrada por pescadores, na Sibéria – Por Nao Fundation

 

Em 2012, sementes de Silene stenophylla foram encontradas congeladas no solo Siberiano e se mostraram viáveis, o que chocou ainda mais os cientistas da região. Encontradas a 38 metros de profundidade, em meio a diversos ossos de mamutes e bisões, elas foram transportadas para um centro de pesquisa, onde foram plantadas e, para a surpresa de todos, geminaram após 32 mil anos de dormência. Apesar da alegria inicial, logo o poder de preservação do permafrost mostrou-se eficiente demais: vírus de mais de 30 mil anos  foram encontrados na região e também se mostraram viáveis. Mesmo não oferecendo riscos aos seres humanos, sua descoberta levantou a possibilidade de o aquecimento global libertar outros tipos de patógenos que ofereçam risco, podendo originar novos surtos de doenças.

Resultado de imagem para Silene stenophylla
Silene stenophylla germinada após 30 mil anos de dormência – Foto por National Academy of Sciences
Resultado de imagem para giant virus permafrost
Pithovirus, encontrado ativo no permafrost após 30 mil anos

Dois anos depois dessa descoberta, um surto de uma doença mortal assustou moradores da cidade de Yamal, na Rússia. Após o solo próximo a essa localidade derreter pela primeira vez em 70 anos, carcaças de animais contendo esporos da bactéria Bacillus anthracis ficaram expostas e contaminaram uma rena na região. Poucas semanas depois, mais de 2.000 renas foram encontradas mortas na localidade e 96 pessoas foram hospitalizadas. Além disso, um garoto de 12 anos morreu após ingerir carne contaminada na área, o que levou o CDC (Center of Disease Control) a se preocupar com a região, uma vez que essa bactéria, também conhecida como antrax, já foi até mesmo utilizada como arma biológica devido à sua elevada letalidade. Uma intensa campanha de vacinação ocorreu para imunizar as renas locais, mas o cenário ainda é alarmante. Para piorar, diversas porções da Sibéria possuem antigas covas comunitárias repletas de corpos infectados com varíola, doença altamente infecciosa, atualmente erradicada em todo o mundo. O aquecimento global pode, pela primeira vez em mais de 40 anos, gerar epidemias de uma das doenças mais letais da história.

Resultado de imagem para anthrax dead reindeer
Mais de 2 mil renas morreram em decorrência do Antrax, na Rússia
Resultado de imagem para anthrax reindeer vaccine
Mais de 800 mil renas foram vacinadas na região para evitar a proliferação da bactéria – Russian Emergency Ministry
Resultado de imagem para permafrost small pox
Amostras de varíola foram retiradas do solo siberiano perto de cidades – Russian Emergency Ministry

Embora menos famoso, o derretimento do pergelissolo causado pelo aquecimento global é incrivelmente mais perigoso do que o de geleiras, não só para nossa espécie, mas também para todo o planeta. Esse substrato, que ocupa mais de 25% da terra firme exposta do Hemisfério Norte, surgiu em meio a grandes quantidades de matéria orgânica presentes no solo. Dessa forma, ele acumulou, ao longo de milhares de anos, bilhões de toneladas de carbono, sobretudo na forma de metano e gás carbônico, e sua liberação agravaria ainda mais o efeito estufa. Um estudo publicado pela revista Bioscience apontou que o permafrost possui até duas vezes mais carbono do que a quantidade atualmente presente na atmosfera (mais de 300 bilhões de toneladas, quantidade superior a das plantas no planeta)  e sua total liberação poderia acabar com ecossistemas do mundo inteiro. Nos níveis atuais de degelo, mais de 1 bilhão de toneladas de carbono poderão ser liberadas na atmosfera todos os anos, o que aceleraria em até 30% o aquecimento global. Entretanto, quanto mais carbono for liberado, mais rápido será esse derretimento, perpetuando um círculo vicioso.

Resultado de imagem para permafrost gas
Em algumas regiões, a concentração de metano sendo liberada é tanta que o gelo pode pegar fogo – Foto por Mark Thiessen

Por fim, o que mais preocupa os cientistas é a extrema velocidade em que o permafrost vem sendo destruído. Com o derretimento do gelo, centenas de lagos têm aparecido na Sibéria e no Alaska, o que contribui para o aumento dos índices de chuva. Consequentemente, o gelo retido no solo é derretido, o que aumenta mais o processo. Estima-se que a temperatura no Ártico tem crescido até duas vezes mais rápido em comparação com outras regiões do mundo, o que pode significar mais de 7 graus a mais em sua temperatura média até 2100. Grandes crateras têm aparecido por todo Hemisfério Norte devido ao desaparecimento do pergelissolo, o que já afeta a vida de centenas de pessoas devido à destruição de casas e rodovias.

 

 

Resultado de imagem para permafrost craters
Grande cratera na sibéria engoliu grande parte de uma floresta – Foto por Alexander Gabyshev
Yamal Crater Wall
Cratera gigante formada pela explosão de metano – Por Siberian Times
Resultado de imagem para permafrost melting destruction
O derretimento do permafrost vem destruindo a fundação de diversas construções no Alasca

 

Embora seja um assunto pouco explorado, o derretimento do permafrost é um dos problemas ambientais mais sérios da atualidade. Se não for remediado, sua ação poderá interferir na temperatura de todo o planeta e também na saúde de milhões de pessoas do mundo inteiro. À medida que o planeta esquenta, nós nos deparamos com o desaparecimento de geleiras, mas muitas vezes esquecemos do gelo escondido no solo. Pela primeira vez em milhares de anos, o permafrost já não é mais permanente e, mais uma vez, a culpa é toda nossa.

Para saber mais, leia também

Era do Gelo: Porque o aquecimento global pode causar um resfriamento nas altas latitudes?

O Impacto Por Trás das Manchetes: Como as mudanças climáticas já estão afetando a vida no planeta

Guerra à Ciência – Parte III – Aquecimento Global e seus opositores

5 curiosidades e 30 fatos sobre mudança climática que você precisa saber

A Teoria de Tudo que está Vivo – Parte III – O Reinado dos Mamíferos

Jurassic Park da vida real: Podemos (e devemos) clonar nossas espécies extintas?

 

Referências

https://www.canadiangeographic.ca/article/arctic-permafrost-thawing-heres-what-means-canadas-north-and-world

https://www.wired.com/2015/03/hunters-find-frozen-10000-year-old-baby-wooly-rhino/

https://www.nbcnews.com/news/world/frozen-time-swiss-couple-just-one-many-findings-revealed-melting-n785221

https://www.dailymail.co.uk/news/article-3741091/Could-SMALLPOX-return-grave-Deadly-disease-risk-permafrost-thaws-near-Russian-village-victims-buried-warn-scientists.html

https://www.nationalgeographicbrasil.com/meio-ambiente/2019/08/permafrost-do-artico-esta-descongelando-em-ritmo-acelerado-e-consequencias

https://www.independent.co.uk/environment/smallpox-siberia-return-climate-change-global-warming-permafrost-melt-a7194466.html

https://www.popsci.com/laurie-j-schmidt/article/2008-09/permafrost-contains-vast-store-carbon/

https://phys.org/news/2018-12-permafrost-climate.html

http://www.bbc.com/earth/story/20170504-there-are-diseases-hidden-in-ice-and-they-are-waking-up

https://www.telegraph.co.uk/global-health/climate-and-people/thawing-siberian-permafrost-soil-risks-rise-anthrax-prehistoric/

https://www.nature.com/news/2008/080918/full/news.2008.1119.html

https://www.nationalgeographic.com/news/2012/2/120221-oldest-seeds-regenerated-plants-science/

 

 

 

 

Fogo na Amazônia: Como as queimadas podem acabar com nossa floresta

O bioma florestal Amazônia é biologicamente a região mais rica da Terra, hospedando 25% da biodiversidade global, e é um dos principais contribuintes para o funcionamento biogeoquímico do sistema terrestre. Sua degradação e queimada em grande escala deixaria um legado duradouro sobre o funcionamento e a diversidade da biosfera.

As florestas de terras baixas da Amazônia têm uma temperatura anual média de 26° C, com muita pouca variabilidade espacial, e uma precipitação anual média de 2400 mm, variando de >3000 mm no noroeste da Amazônia até <1500 mm nas zonas de transição de savana – floresta.

photo-1437149853762-a9c0fe22c9d0
Floresta Amazônica. Fonte: Unsplash

Recentemente, as temperaturas nas regiões tropicais de baixada em todo o mundo aumentaram 0,25° C por década e projeta-se um aumento de 3 a 8° C (média de 5° C) durante o século 21 sob o cenário de emissões. A Amazônia, e em particular suas margens mais secas, é palco de intensa pressão humana sobre a floresta por meio da extração de madeira, desmatamento e expansão do uso de fogo. Segundo estudiosos da Universidade de Oxford, com o aumento das fronteiras agrícolas há maiores chances de haver pontos de ignição prontos para inflamar as florestas amazônicas no caso de uma mudança para um clima mais seco e/ou mais sazonal. Vale ressaltar que, na maioria das vezes, as frentes de fogo são causadas por ações criminosas de grileiros e de exploradores de terras. As pressões vêm do agronegócio, juntamente com o aumento da demanda regional e global por carne bovina e soja da Amazônia, além da demanda global emergente por biocombustíveis.

Essa pressão influencia a resposta das florestas de várias maneiras:
(i) removendo diretamente a cobertura florestal e sendo um agente independente da morte da Amazônia;
(ii) modificando diretamente o clima local, a temperatura da superfície e o regime de chuvas, contribuindo, assim, para as mudanças climáticas regionais; e
(iii) aumentando a presença e a vulnerabilidade ao fogo.

alan-godfrey-509414-unsplash
Biodiversidade na Floresta. Fonte: Green Economy

O desmatamento pode afetar diretamente o clima da região, reduzindo a reciclagem local da água do solo por meio de raízes profundas na transpiração da floresta e, consequentemente, na precipitação, embora isso pareça depender da escala e da localização do desmatamento. A transpiração da floresta perdida resulta em diminuição do resfriamento da superfície e, consequentemente, no aumento da temperatura do ar regional, em demanda evaporativa e em estresse hídrico nas florestas remanescentes. A mudança no uso da terra e o fogo também afetam o regime de chuvas, aumentando consideravelmente a quantidade de aerossóis da atmosfera por intermédio da fumaça e da poeira. Os aerossóis favorecem a chuva convectiva menos frequente, porém mais intensiva, e a possível supressão da chuva na estação seca. Um recuo da floresta amazônica (seja causada por desmatamento, por seca severa ou por fogo), portanto, aumentaria ainda mais a mudança climática regional, alterando a reciclagem local de água e outras propriedades biofísicas.

O fogo

 As florestas possuem grande resiliência à intensificação da estação seca. No entanto, isso pode se quebrar quando a presença de fogo é considerada. Vários estudos de campo relatam que as florestas tropicais sazonais se tornam temporariamente inflamáveis, mas a falta de pontos de ignição natural na Amazônia inibe a quantidade de fogo natural.

3872
Estado de Tocantins. Foto: Xinhua/ Rex

O papel potencialmente crítico do fogo era visível durante as recentes secas na Amazônia, com incêndios extensos que vazaram das zonas agrícolas para as florestas inflamáveis ​​durante as secas de 1997, 1998, 2005 e 2007.

Na última década, vários estudos de campo exploraram as mudanças nas florestas primárias expostas a incêndios individuais ou repetidos. A maioria das árvores da floresta tropical é pouco adaptada ao estresse do fogo, e até incêndios florestais de baixa intensidade podem levar a excessivas mortes de árvores. Esses estudos pintam um quadro convincente de como as florestas tropicais são intolerantes ao fogo e podem reduzir significantemente sob cenários de seca e aumento de incêndios. Na divisa savana-floresta existe uma zona com maior potencial de inflamabilidade, onde os incêndios são possíveis, mas geralmente não ocorrem devido à falta de fontes de ignição.

Com o “Dia do Fogo”, que ocorreu no dia 10 de agosto de 2019, realizado por fazendeiros do entorno da BR-163, no sudoeste do Pará, o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisa Espaciais) registrou uma explosão de focos de incêndio na região.  No dia 5 de agosto de 2019, o jornal Folha do Progresso, de Novo Progresso, revelou o que era o Dia do Fogo, no qual, de acordo com a publicação, os produtores se sentiam “amparados pelas palavras do presidente”, coordenando assim a queima do pasto e de áreas em processo de desmate.

Captura de Tela 2019-08-23 às 09.01.28
Número de focos de incêndio

Captura de Tela 2019-08-23 às 10.34.28

Nos últimos anos o Ibama mantinha uma base de fiscalização em Novo Progresso durante, principalmente, o período seco. Neste ano, porém, a operação foi cancelada devido à falta de apoio da polícia militar do Pará. Segundo dados do Deter (Detecção do Desmatamento em Tempo Real), sistema do Inpe, o Pará perdeu 893 km² de floresta apenas no mês de julho, equivalente a dois municípios de Curitiba.

Captura de Tela 2019-08-23 às 11.14.43

Com as queimadas e cenários de altas emissões, há grande probabilidade de intensificação das estações secas na Amazônia. O aumento das temperaturas e das taxas de transpiração, o desmatamento generalizado e o recuo florestal induzido pelo fogo e pelas mudanças climáticas podem contribuir ainda mais para a intensificação do estresse hídrico sazonal. Florestas nas margens secas ou em solos rasos ou inférteis podem ser mais vulneráveis. Nesse caso, teme-se que a Amazônia passe a ser um ponto de inflexão na estrutura e função do ecossistema, assim como a atividade humana e a disseminação do fogo possam ser críticas ao ponto de desencadear uma quebra na resiliência da floresta e o consequente desaparecimento.

Como já falamos aqui, a floresta Amazônica tem papel fundamental, não somente para a manutenção de biodiversidade, como também para levar umidade para outras partes do Brasil por meio dos rios voadores. Os pesquisadores da Embrapa – Meio Ambiente, Marco Gomes e Lauro Pereira, destacam a importância dos rios voadores: tal evento possui ação direta nas condições de clima, na vida humana e nos recursos hídricos. E Gomes explica: “Dada a sua alta relevância por abordar os deslocamentos de massas úmidas da região amazônica para a região centro-sul do país – daí a denominação de Rios Voadores, influencia no regime de chuvas de boa parte do território nacional”.

Samaúma_a_rainha_das_florestas
Árvore Samaúma. Fotografia de Araquém Alcântara

Mesmo que a Amazônia esteja distante de nossa realidade urbana, todos nós necessitamos dela. Dependemos de sua umidade, das possíveis curas de doenças que se escondem em suas matas, da sua biodiversidade e equilíbrio, de sua regulação de temperatura e de seu oxigênio. É fundamental que os governos atuais e futuros percebam que a Amazônia é de nossa responsabilidade, porém que a natureza não tem fronteiras e que dela depende o mundo.

 

 

 

Leia também:

Fronteira Agrícola Brasileira: Matopiba e a ameaça à sustentabilidade

Quais são as propostas do futuro presidente para o Meio Ambiente?

Amazonas: O rio brasileiro que surgiu na África

 

Referências:

 

INPE (Instituto Nacional de Pesquisa Espaciais)  – Monitoramento de Queimadas

EMBRAPA

NASA

 

Artigos científicos: 

“Tipping elements in the Earth’s climate system.” de LENTON

” Amazonian forest dieback under climate-carbon cycle projections for the 21st century. ” de COX

 “Spatial patterns and fire response of recent Amazonian droughts.” de LEOC

“The role of ecosystem-atmosphere interactions in simulated Amazonian precipitation decrease and forest dieback under global climate warming.” de BETTS

“Exploring the likelihood and mechanism of a climate-change-induced dieback of the Amazon rainforest” de MALHI

 

O Fim dos Corais – Como o aquecimento global está ameaçando nossos ambientes marinhos mais diversos

Recifes de corais são estruturas biológicas, formadas por colônias compostas por milhares de pequenos organismos, que possuem um exoesqueleto de carbonato de cálcio e que, ao longo de centenas ou milhares de anos, criam gigantescas estruturas que se tornam o lar para uma infinidade de espécies marinhas. Os corais formam os habitats mais densamente diversos dos oceanos, capazes de abrigar cerca de 25% de toda sua vida e, nos últimos anos, algumas áreas perderam  mais de 90% de seus recifes. Estima-se que todos os corais poderão praticamente desaparecer até 2050, em um cenário cada dia mais preocupante.

Resultado de imagem para coral bleaching
Branqueamento de corais na Polinésia Francesa – Foto por uiz Rocha/California Academy of Sciences

Recifes são ambientes megadiversos, que abrigam uma infinidade de organismos em regiões costeiras das regiões tropicais e semi-tropicais de todo o planeta. Mais de mil espécies de corais são capazes de formar recifes e, embora eles ocupem apenas 0,1% da área oceânica, abrigam entre 35.000 e 60.000 espécies de esponjas, polvos, anelídeos, anêmonas, peixes, répteis, mamíferos marinhos e centenas de outros grupos de seres vivos (embora algumas estimativas apontem que recifes possam abrigar mais de 9 milhões de espécies, a maioria ainda não descrita pela ciência). Por serem estruturas rígidas e resistentes, também funcionam como abrigos e berçários para espécies que vivem em regiões de mar aberto.

Resultado de imagem para reef diversity
Diversidade de recife australiano – Retirado de Getty Images

Mais de 500 milhões de pessoas necessitam diretamente de recifes para sobreviver, uma vez que utilizam seus recursos para subsistência ou trabalham com pesca e/ou turismo, o que movimenta 30 bilhões de dólares anualmente. Mesmo assim, o branqueamento dos recifes ainda é pouco discutido pela mídia, uma vez que ainda não gera um grande impacto econômico nos grandes países. Entretanto, diversas ilhas vêm sofrendo impactos devastadores ao perceberem que sua economia vem morrendo junto com os corais de que dependem.

Resultado de imagem para reef economy
Valor agregado de recifes de Belize – Por BreckCoral

Um recife é uma colônia de milhares de pequenos indivíduos, denominados pólipos, que vivem em simbiose com micro-organismos coloridos, denominados de zooxantelas. Esses protistas fotossintetizantes vivem dentro dos corais para sua proteção e, em troca, fornecem alimento para os mesmos, que vivem em águas pobres em nutrientes, além de serem responsáveis pelas suas cores vivas. Entretanto, se a água se torna muito quente, o coral expulsa a zooxantela, perdendo sua cor e sua principal fonte de alimento, o que pode levá-lo à morte caso a temperatura não volte ao normal nos próximos dias. Grandes tempestades e anomalias em temperaturas oceânicas sempre causaram branqueamentos em algumas áreas de recifes mas, à medida que o planeta esquenta, mais e mais corais são condenados à morte. Além disso, o aumento da quantidade de gás carbônico na atmosfera amplia também a quantidade desse gás dissolvido na água, o que acidifica os oceanos , fragilizando e dissolvendo o exoesqueleto de carbonato de cálcio desses animais.

Resultado de imagem para branqueamento de coral zooxantela
Tradução: Papo de Primata 
Mapa do branqueamento até 2006 – Por Marshall & Schuttenberg

A situação no Oceano Pacífico é a mais bem estudada e, portanto, a mais assustadora. A Grande Barreira de Corais, na Austrália, consiste em um complexo formado por mais de 2 mil recifes e se estende por uma área de 344.400 quilômetros quarados. Ela sofreu eventos de branqueamento em 1980, 1982, 1992, 1994, 1998, 2002, 2006, 2016 e 2017, alguns com 90% de mortalidade nas áreas afetadas. Desde que a área começou a ser monitorada, a barreira perdeu cerca de 60% de seus corais, tornando-se um deserto sem vida em algumas regiões e deixando de ser o maior complexo de recifes do planta. O Havaí já perdeu 56% dos corais próximos de sua principal ilha, enquanto o Japão perdeu 75% de seu maior recife, apenas no ano de 2017.

Imagem relacionada
Branqueament de corais da Austrália – The Ocean Agency/XL Catlin Seaview Survey/Richard V

Resultado de imagem para coral bleaching before and after

Antes e depois do branqueamento – Por Chasing corals

Entretanto, é para o Oceano Atlântico que devemos voltar a nossa atenção. Por banhar o Brasil, ele é o oceano mais conhecido pelos leitores desse texto e tivemos a oportunidade de presenciar em primeira mão os impactos desse evento. Uma pesquisa realizada na Flórida, em 2016, apontou que 66% dos recifes do estado estão parcialmente ou totalmente danificados pelo aumento das temperaturas oceânicas na região. Belize possui o maior recife do mundo e possui também um dos mares mais quentes do planeta. Em 1998, a temperatura da água no país ultrapassou 31 graus, o que matou todos os corais da espécie Agaricia tenuifolia da região.

A fire coral in Bermuda, before and after bleaching (Pic: XL Catlin Seaview Survey)
Coral-de-fogo antes e depois no Caribe –  Por XL Catlin Seaview Survey

Recentemente, um grande recife de corais foi descoberto na foz do Amazonas. Embora ainda pouco estudado, ele já apresenta sinais de estar sofrendo com impactos de atividades humanas e, cada dia mais, empresas petrolíferas têm ameaçado a sua existência. Descoberto em 2016, possui condições únicas, diferentes de todos os outros recifes conhecidos no planeta devido à sua proximidade com o Rio Amazonas, com uma baixa luminosidade e oxigenação.  Com uma área inicial estimada em 9.300 km² e expandida posteriormente para 56.000 km², esse recife pode desaparecer antes mesmo de ser profundamente conhecido.

Resultado de imagem para recife de coral amazonas
Recife de corais na foz do Amazonas – Por Greenpeace
Resultado de imagem para mapa recife corais amazonas
Por Greenpeace

Em julho de 2019, a equipe do Tunes Ambiental teve a oportunidade de visitar Curaçao, um pequeno país insular do Caribe, repleto de belezas naturais. Avistamos a belíssima diversidade de recifes caribenhos e, infelizmente, também nos deparamos com centenas de recifes completamente mortos. A ilha perdeu entre 42 (Sustainable FisheriesGroup, 2015) e 50% (WAITT Institute, 2016) de sua cobertura de corais, além de possuir uma baixa biomassa de peixes em comparação com um recife saudável. Mesmo com esses dados assustadores, a região é uma das mais diversas do caribe, o que mostra um declínio assustador para toda a região. Os recifes garantem cerca de 442 milhões de dólares para a ilha anualmente, rendimento que, em breve, poderá acabar.

Resultado de imagem para coral reef curacao
Recifes de Curaçao – Fotógrafo desconhecido
Branqueamento em Curaçao – Por SECORE
Corais mortos dominam parte da costa da ilha – Por SECORE

 

Entretanto, nem tudo está perdido. Nos últimos anos, por todo o planeta, milhares de pessoas vêm se dedicando à proteção desses ecossistemas. No fim de 2016, o projeto BioRock foi iniciado em Curaçao, com o objetivo de devolver vida a diversas regiões do país, por meio da construção de estruturas artificiais que permitam a reprodução de corais com facilidade. Esses recifes artificiais não só funcionam como uma fazenda de corais, como também oferecem abrigo e alimento para diversas espécies de animais. Em várias regiões do mundo, cascos de navios, barcos e até aviões vêm sendo deliberadamente naufragados, com o intuito de servir para o mesmo fim. Embora o aquecimento global e a poluição estejam destruindo ecossistemas megadiversos e seu futuro seja cada vez mais incerto e preocupante, essas iniciativas nos permitem sonhar com um mundo novamente repleto de corais e, consequentemente, de vida. Os corais estão na Terra há milhões de anos e estão sumindo por nossa causa. Portanto, é nosso dever protegê-los e, assim, garantir a saúde de nossos mares.

Resultado de imagem para artificial reef curaçao
Recifes artificiais em Curaçao – Por Alamy Stock Photo
Resultado de imagem para artificial reef curaçao
Fazenda de Corais em Curaçao – Por Biorock
Resultado de imagem para biorock project curaçao
Projeto indiano de restauração de corais -Por Biorock
Resultado de imagem para biorock project curaçao
Recife artificial em Bali – Por Biorock

Leia mais em

Era do Gelo: Porque o aquecimento global pode causar um resfriamento nas altas latitudes?

O Impacto Por Trás das Manchetes: Como as mudanças climáticas já estão afetando a vida no planeta

Guerra à Ciência – Parte III – Aquecimento Global e seus opositores

5 curiosidades e 30 fatos sobre mudança climática que você precisa saber

Ainda dá tempo de salvar nossas espécies mais ameaçadas?

 

Referências

https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/ciencia-e-saude/2018/04/23/interna_ciencia_saude,675562/recifes-de-corais-da-amazonia-sao-seis-vezes-maiores-do-que-estimado.shtml

http://www.researchstationcarmabi.org/wp-content/uploads/2017/08/Waitt-2017-Status-of-Curacaoan-reefs_Low-Res-1.pdf

https://www.dcbd.nl/sites/www.dcbd.nl/files/documents/BioNews-2017-4-Status%20Curacao%20Reef.pdf

https://www.abc.net.au/news/science/2019-05-21/coral-bleaching-french-polynesia/11129634

Warming seas devastate coral reefs in global bleaching event

https://www.vox.com/2016/3/30/11332636/great-barrier-reef-coral-bleaching

https://www.theguardian.com/world/2017/jan/12/almost-75-of-japans-biggest-coral-reef-has-died-from-bleaching-says-report?CMP=share_btn_link

https://www.cbsnews.com/news/great-barrier-reef-coral-bleaching-again/

http://www.globalcoral.org/coral-bleaching-now-starting-large-part-caribbean/

 

 

 

 

 

Era do Gelo: Por que o aquecimento global pode causar um resfriamento nas altas latitudes?

Muitas pessoas têm lembrança dos invernos amargos do fim dos anos 70 e início dos anos 80, e, na época, houve muita discussão nos círculos científicos sobre se as condições congelantes do inverno eram ou não um presságio de uma nova era do gelo.

Nas últimas duas décadas, esses avisos foram abafados pelo grande debate sobre o aquecimento global e pela preocupação de como a sociedade poderia lidar no futuro com um planeta sufocante, em vez de um planeta coberto de icebergs. Aparentemente, o fato de ainda estarmos dentro de um período interglacial, durante o qual o gelo recuou em grande parte, faz com que muitos esqueçam da ciclicidade do clima do planeta e que ela não descredibiliza a preocupação com o aquecimento e com as espécies aqui presentes.

O problema está na corrente oceânica conhecida como Corrente do Golfo, que banha o Reino Unido e o noroeste da Europa com águas quentes transportadas em direção ao norte do Caribe. É a Corrente do Golfo, e correntes associadas, que permitem que os morangos prosperem ao longo da costa norueguesa, enquanto nas latitudes comparáveis nas geleiras da Groenlândia as águas mais densas seguem seu caminho até o leito oceânico, gerando uma corrente mais profunda. Sem a Corrente do Golfo, as temperaturas no Reino Unido e no noroeste da Europa seriam cinco graus centígrados mais frias, com invernos rigorosos pelo menos tão violentos quanto os da chamada Pequena Idade do Gelo ocorrida nos séculos XVII a XIX.

Resultado de imagem para corrente oceanica golfo
Corrente do Golfo

A Corrente do Golfo é parte de um sistema mais complexo de correntes, conhecido por vários nomes diferentes, dos quais a Circulação Meridional Transversal do Atlântico (AMOC) é provavelmente a mais famosa. Isso incorpora, não apenas a Corrente do Golfo, mas também as correntes de retorno a frio, que levam a água para o sul novamente. Ao se aproximar do Ártico, a Corrente do Golfo perde calor e parte dela volta para climas mais quentes ao longo da costa da Groenlândia e do leste do Canadá, sob a forma fria e cheia de icebergs, um deles responsável pelo naufrágio do Titanic. Muito, no entanto, sobe, esfriando e afundando sob os mares nórdicos entre a Noruega e a Groenlândia, antes de seguir para o sul novamente abaixo da superfície.

AMOC

Esse processo poderia ocorrer indefinitivamente caso a salinidade e a temperatura da água fossem mantidas nas mesmas proporções em escala global. Mas o grande problema é que o aquecimento global está alterando fortemente esses parâmetros e, consequentemente, alterando as correntes marítimas tão importantes. O aumento da temperatura atmosférica nas altas latitudes causa um aumento da temperatura da água, reduzindo sua densidade e diminuindo a vazão de água que afundaria. Além disso, com o derretimento do gelo, há uma redução da salinidade da água nessa área, mais uma vez reduzindo sua densidade. Esses dois fatores causariam um enfraquecimento das correntes oceânicas. Apesar de ainda não haver comprovações e unanimidade cientifica a respeito disso, há grandes chances dessa hipótese se tornar logo uma teoria.

Foto: Shawn Ang

Mas o que o enfraquecimento das correntes trariam para o Planeta? No passado, a desaceleração da Corrente do Golfo estava intimamente ligada ao dramático resfriamento regional. Apenas 10.000 anos atrás, durante um clima frio conhecido como o Younger Dryas, a corrente foi severamente enfraquecida, causando a queda de até 10 graus nas temperaturas no norte da Europa. Dez mil anos antes disso, no auge da última era glacial, quando a maior parte do Reino Unido foi reduzida a um deserto congelado, a Corrente do Golfo tinha apenas dois terços da força que tem agora. Nos dias atuais, o calor seria retido na Faixa Equatorial, deixando as temperaturas ainda mais elevadas nessa latitude, além do resfriamento das altas latitudes.

O que é preocupante é que, há alguns anos, os modelos climáticos globais vêm prevendo um futuro enfraquecimento da Corrente do Golfo como conseqüência do aquecimento global. Esses modelos visualizam o rompimento do AMOC, incluindo a Corrente do Golfo, como resultado do derretimento em grande escala do gelo do Ártico e o consequente despejo de enormes volumes de água doce no Atlântico Norte, em um século ou dois. Novos dados sugerem, no entanto, que talvez não precisemos esperar séculos e, de fato, todo o processo já está acontecendo.

Foto: Ben Klea

Para que as águas superficiais quentes e salgadas da Corrente do Golfo possam continuar seu caminho para o norte, deve haver uma corrente de retorno comparável e profunda de água fria e densa dos mares nórdicos. Perturbadoramente, esta corrente de retorno parece ter diminuído desde meados do século passado. Bogi Hansen, do laboratório de pesca das Ilhas Faroe, e colegas na Escócia e na Noruega, têm monitorado o fluxo profundo de água fria dos mares nórdicos quando passa sobre o cume submarino da Groenlândia-Escócia, que fica no Atlântico Norte. Os resultados do monitoramento demostram que o fluxo de saída caiu 20% desde 1950, o que sugere um influxo reduzido comparável da corrente do Golfo.

Wallace Broecker, um pesquisador de circulação oceânica no observatório de Lamont-Doherty Earth, em Nova York, descreveu perfeitamente a situação quando afirmou que “o clima é uma fera raivosa e estamos cutucando-a com paus”. O ser humano não tem noção das consequências de se mudar o clima mundial e uma hora a fera raivosa vai atacar.

 

 

 

 

 

Referências 

Xianyao Chen & Ka-Kit Tung – “Global surface warming enhanced by weak Atlantic
overturning circulation”

Will global warming trigger a new ice age?”

 

Iraque: Tigre e Eufrates estão morrendo

Tigre e Eufrates encontram-se na província de Basra, no sul do Iraque, onde formam a hidrovia Shatt al-Arab. Por milhares de anos, esses rios fizeram do Iraque uma das regiões mais férteis do Oriente Médio, a antiga Mesopotâmia. Muitas vezes chamada de “berço da civilização”, os primeiros colonos urbanos cresceram nas terras entre os dois antigos canais. Mas atualmente a situação está dramaticamente diferente, tanto para os rios, quanto para as pessoas que dependem deles.

basra-oil-abundance-little-water-drink-Basra-Water-9.jpg
Fonte: UNICEF

Além da cidade de Basra conter os campos de petróleo e o único porto de águas profundas do país, ela também é o centro econômico do Iraque, já que aproximadamente 80% da receita do país vem dela. Os rios Tigre e Eufrates já foram, um dia, considerados os mais importantes do Oriente Médio. A hidrovia Shatt al-Arab fez de Basra um símbolo de prosperidade e de crescimento. Hoje, a cidade é a segunda maior do país com uma população de mais de 4 milhões de pessoas.

No verão de 2018, os rios foram estrangulados com detritos, esgoto bruto e lixo urbano que estavam envenenando os moradores da cidade. Aproximadamente cem mil pessoas foram hospitalizadas devido à doenças de veiculação hídrica. Em setembro de 2018, o Ministério de Recursos Hídricos do Iraque afirmou que os níveis em rios como o Tigre, em Bagdá, caíram para 40% nos últimos 20 anos.

ee1bea60-ad70-48c4-a17f-01f222394469.jpeg
Cidade de Basra

Mas o que causou a redução da água desses rios tão importantes? Isso ocorreu devido ao Iraque não conseguir controlar a vazão de seus rios e à falta de infraestrutura para limpá-los, o que vem atrapalhando a recuperação do país. Quase toda a água da região vem desses dois rios tão essenciais, que depois de convergirem no chamado Shatt al-Arab, finalmente desaguam no Golfo Pérsico.

Captura de Tela 2019-07-19 às 11.52.34.png
Fonte: VOX

Em todo o caminho, esses rios funcionam como mananciais de água potável e irrigação para as fazendas, enquanto o resto do país permanece um deserto. Uma grande parte da infraestrutura é usada para geração de energia elétrica, distribuição de água e tratamento. Isso representa um grande número de represamentos e de desvios ao longo de toda calha dos rios, tornando o sistema muito delicado. O Tigre e o Eufrates nascem na Turquia e quase 71% da água que chega no Iraque vem desse país, enquanto Síria e Irã detêm os outros 10%. Desde os anos 70, a Turquia construiu pelo menos vinte barragens no Eufrates e seus afluentes e isso inclui a represa de Ataturk, a quinta maior do mundo em geração de energia elétrica. Além disso, há represas no Tigres que incluem a Barragem Ilisu, que, devido à retenção de tanta água, os residentes de Baghdad podem até atravessar o rio à pé.  A Síria também construiu algumas represas no Eufrates e, hoje, os três países estão mantendo os rios como reféns em seus países.

0x0-water-level-at-turkeys-ataturk-dam-hits-7-year-high-after-rainfall-above-average-1559730977070.jpg
Barragem Ataturk – Turquia

Com a redução da vazão natural dos rios, há uma maior concentração de poluentes e, com o fluxo escasso, a água salobra do Golfo Pérsico consegue mover rio acima, o que causa mortandade de peixes e muda a microbiota do rio. Tudo isso aumenta a pressão da população em querer receber água limpa de qualidade, porém, grande parte da infraestrutura de dessalinização e distribuição de água pré-existente foi destruída com três grandes guerras devastadoras nas últimas três décadas.

nasa-whDrFMucHkc-unsplash.jpg
Fonte: NASA

Guerras no Iraque – últimas três décadas

  • 1990 – Guerra do Golfo: Saddam Hussein invadiu o Kuwait, aliado dos EUA. Os Estados Unidos enviaram mísseis e destruíram grande parte da infraestrutura do país, incluindo quatro usinas hidrelétricas e estações de tratamento de água.
  • 2003 – Invasão Americana: Fim do regime de Saddam Hussein e instalação de um governo iraquiano. Após a invasão constatou-se que 40% dos cidadãos iraquianos não tinham acesso à água potável e 70% das estações de tratamento necessitavam ser reparadas. Mesmo com os programas de reconstrução dos sistemas de tratamento, apenas um terço foi realmente entregue.
  • 2014 – Grupo ISIS toma conta do Iraque: O grupo tomou conta dos pontos de encontro dos dois rios, apoderando-se do controle de fornecimento de água do país, as hidrelétricas, e transformando-as em uma arma. Eles fechavam o fornecimento de água para a cidade ou, até mesmo, envenenavam a água com hidrocarbonetos.
CROPdamReuters.jpg
Barragem Mosul – Iraque

Em 2018, a população começou a ir para as ruas exigindo água de qualidade. Mesmo sendo o centro econômico do Iraque, Basra foi ignorada e deixada à deterioração. A Comissão de Integridade do Iraque (COI), que investigava corrupção no país, descobriu que as 13 plantas de dessalinização que haviam sido doadas à Basra em 2006 nunca funcionaram. Aproximadamente 600 milhões de dólares foram destinados a projetos de saneamento que nunca foram executados.

Iraq_Water_Crisis_45959.jpg

Ano após ano, a crise hídrica tem se agravado no antigo berço da Mesopotâmia e a cidade de Basra, que um dia já foi símbolo de prosperidade, representa hoje um futuro incerto e nos mostra que a maior riqueza do planeta não é o petróleo, e sim, a água.

 

Referências

Basra is Thirsty : https://www.hrw.org/report/2019/07/22/basra-thirsty/iraqs-failure-manage-water-crisis

Iraq: Water Crisis in Basra: https://www.hrw.org/news/2019/07/22/iraq-water-crisis-basra

Canal YouTube: Vox

Capivaras – Pragas urbanas ou importantes animais silvestres?

As capivaras são grandes animais da América do Sul, que vivem associadas a lagoas, rios, savanas alagadas e pântanos, sendo encontradas também no interior de florestas tropicais úmidas. Por esse motivo, também são frequentemente encontradas nos centros urbanos, vivendo em lagoas, rios e açudes por cidades de todo o Brasil, sobretudo nas regiões Sudeste e Centro-Oeste. Nos últimos anos, um crescimento populacional abrupto desses animais, associado ao aumento do número de casos de febre maculosa, fez com que diversas cidades criassem planos de manejo para reduzir a população desses organismos. Mas, afinal, combater esses animais pode reduzir o número da doença? E, ainda, devemos tratar esse roedor como uma praga urbana?

Resultado de imagem para capivara cidade
Capivaras em Curitiba – Por Bill Machado

A capivara (Hydrochoerus hydrochaeris) é o maior roedor do mundo, que pode chegar aos 136 centímetros de comprimento e pesar mais de 91 quilos em casos raros. É um animal gregário, que vive em bandos que variam de 10 a 100 indivíduos, compostos majoritariamente por indivíduos jovens. Quando os ambientes em que vivem secam ou se tornam desfavoráveis, tendem a migrar para outros locais, frequentemente movendo-se para o interior de cidades ou zonas de pasto, nos quais os lagos ou açudes são mantidos para uso do gado ou com objetivo paisagístico.

Capybara
Capivara na região Amazônica – Fotógrafo desconhecido

 

Entretanto, o problema começa com a falta de predadores desses animais em fazendas e em centros urbanos, como as onças e sucuris, o que permite o crescimento de suas populações de forma desenfreada. Em diversas regiões do país, as Hydrochoerus tornaram-se uma ameaça para lavouras e plantações, gerando prejuízos para pequenos agricultores. Isso levou ao aumento da caça, gerando desequilíbrios também em ambientes naturais, uma vez que as capivaras passaram a ser vistas como uma ameaça em locais como o Pantanal.

Resultado de imagem para capivara lavoura
Capivara em lavoura em em Arealva (SP) – Fonte TV TEM/Reprodução – G1

Um problema ainda maior relacionado a esse animal é a febre maculosa, doença causada pela bactéria Rickettsia rickettsii e transmitida pelo carrapato-estrela (Amblyomma cajennense). Ao picar e se alimentar de sangue, o carrapato infectado pode transmitir a doença por meio de sua saliva, após cerca de 6 horas de contato. Depois do contágio, a bactéria irá se alojar no cérebro, pulmões, coração, fígado, baço, pâncreas e tubo digestivo, causando febre intensa, dores de cabeça, náuseas, diarreia, inchaço e vermelhidão nas palmas das mãos e nas solas dos pés, e manchas na pele, de 2 a 14 dias após a infecção. Se não tratada, a doença pode gerar gangrena e paralisia, resultando em morte de 60% dos indivíduos portadores.

Close do carrapato-estrela, transmissor da febre maculosa.
Carrapato-estrela (Amblyomma cajennense) – Retirada de drauziovarella.uol.com.br
Resultado de imagem para ciclo febre maculosa
Fonte – Ministério da Saúde – Retirada do Portal G1

Para que a doença se mantenha viável na natureza, carrapatos precisam contaminar animais selvagens, que funcionarão como reservatórios da doença, permitindo a infecção posterior por outros carrapatos. Após infectados, os carrapatos permanecerão assim por toda sua vida, que pode durar até 18 meses. Nesse tempo, eles podem permanecer até 200 dias sem se alimentar, o que aumenta ainda mais o risco da infecção. Por viverem em altas densidades populacionais e devido à falta de predadores, as capivaras são ótimos reservatórios para a doença, que também pode infectar cães domésticos, marsupiais, outros roedores e cavalos.

Resultado de imagem para carrapato estrela em capivara
Fonte: Ministério da Saúde

Nos últimos anos, várias epidemias têm ocorrido por todo o Brasil, sobretudo nos estados de São Paulo e Minas Gerais, o que desencadeou uma série de programas para eliminar os maiores roedores do planeta de diversas cidades. Em 2009, um centro de pesquisa foi criado em Campinas, onde capivaras infectadas foram isoladas para o controle da doença. Entretanto, em 2011, após três funcionários morrerem pela doença, a prefeitura autorizou o abate de mais de 40 capivaras na cidade. O Secretario de Saúde da cidade à época, José Francisco Kerr Saraiva, afirmou que a eliminação das capivaras seria a única forma real de lidar com esse problema de saúde pública, uma vez que o uso de carrapaticidas nem sempre é eficiente. Em 2019, novos casos foram relatados em Itatiba – SP, onde, mais uma vez, o abate foi autorizado.

Resultado de imagem para capivaras campinas
Isolamento de capivaras em Campinas – Foto: Reprodução/EPTV

Entretanto, a capivara não é o único problema. Ao serem retiradas do local, os carrapatos infectados poderão buscar outros animais para se alimentarem, afastando-se da água e invadindo pastos ou, até mesmo, áreas residenciais, onde infectarão cavalos ou cães. Em entrevista para o jornal O Globo, o veterinário Paulo Anselmo Felippe, que trabalha com esses animais, afirmou que a castração e esterilização são manejos mais adequados, uma vez que capivaras deixam de transmitir a doença após 15 dias, e explicou: “Porque o sistema imunológico dela se organiza e ela não vai ter mais essa riquetsemia, essa bactéria circulando. Então, ela não infecta novos carrapatos. Sempre que a riquétsia circulou naquela população, você retira os animais e vêm novos, vai acontecer riquetsemia nesses novos, porque eles não tiveram contato anterior com a bactéria”. Dessa forma, abater as capivaras pode abrir espaço para a chegada de novos animais, que nunca entraram em contato com a doença e, dessa forma, passarão a ser novos reservatórios.

Resultado de imagem para cavalos febre maculosa
Fonte: Secretaria de Saúde de Rio Preto

Embora esse argumento tenha sido criticado por alguns estudiosos, a prática do manejo e castração vem sendo adotada em algumas cidades do país. Em 2014, na cidade de Belo Horizonte, a Fundação Ezequiel Dias (FUNED) constatou que, das 46 capivaras analisadas na Lagoa da Pampulha, 28 possuíam a bactéria da doença. Pouco depois, em 2018, um plano de manejo foi criado, no qual todas as 56 capivaras contabilizadas foram esterilizadas, receberam carrapaticida e microchip. Suas populações permaneceram estáveis e os animais ficaram saudáveis por muito tempo, o que permitiu novamente a sua convivência tranquila com a população.

O último censo indicou que vivem cerca de 65 capivaras na orla da lagoa
Capivaras na Lagoa da Pampulha, o principal cartão postal de BH – Foto por Flávio Tavares

 

Entretanto, em 2019, 84 suspeitas da doença foram reportadas na Grande BH, tendo sido confirmadas quatro mortes e dois pacientes infectados. Como uma nova capivara com a doença foi encontrada na Lagoa da Pampulha e devido à sua proximidade com a cidade de Contagem, novos planos de manejo deverão ser futuramente criados e os animais do local deverão ser novamente analisados, uma vez que a capivara infectada pode ser oriunda de outro local.

Febre maculosa
Cavalos foram recolhidos e vêm recebendo carrapaticida pela Prefeitura de Contagem – Foto por Leo Fontes

A relação conturbada das capivaras e dos seres humanos, portanto, ainda está longe de ter fim. Se por um lado a população se preocupa com a Saúde Pública, por outro o abate desenfreado pode, não só causar desequilíbrios ambientais, como também piorar as epidemias da febre maculosa, uma vez que ainda não compreendemos completamente o seu ciclo. Estudos realizados pela FUNED e UFMG vêm tentando solucionar o problema e, quem sabe, no futuro, uma vacina poderá ser criada.

As capivaras são um dos principais grandes herbívoros no país e sua proteção em áreas selvagens é essencial para a manutenção de onças, sucuris e jacarés. Em muitas áreas urbanas, esses animais representam um marco para a cidade, tornando-se até mesmo pontos turísticos vivos e contribuindo para a diversidade de aves, que muitas vezes se alimentam de parasitas (incluindo carrapatos) presentes no dorso desses animais. Um dos principais símbolos de Belo Horizonte, essas criaturas deverão continuar a ser amplamente estudadas e protegidas, caso seja possível, garantindo, assim, a presença de animais silvestres tão marcantes no meio urbano.

a onça e a capivara
A capivara é uma das principais presas da onça-pintada (Panthera onca) – Foto por Zig Koch
Capivaras na orla da Lagoa da Pampulha (foto:Renato Weil).
A capivara é o mascote não-oficial da cidade de Belo Horizonte – Foto por Renato Weil

Para saber mais sobre como se proteger da doença, acesse

Febre Maculosa: causas, sintomas, tratamento, diagnóstico e prevenção – Ministério da Saúde

Febre Maculosa – Portal Dráuzio Varella

Leia também: Matar os macacos da Febre Amarela pode aumentar seus riscos!

Foto de capa por Pedro Henrique Tunes

Referências

http://g1.globo.com/bom-dia-brasil/noticia/2011/02/capivaras-infestadas-de-carrapatos-dividem-campinas-mata-las-ou-nao.html

https://espaco-vital.jusbrasil.com.br/noticias/2600456/abatam-se-as-capivaras

https://www.hojeemdia.com.br/horizontes/contagem-investiga-60-casos-suspeitos-de-febre-maculosa-1.722696

https://g1.globo.com/sp/sorocaba-jundiai/noticia/2019/06/17/secretaria-de-meio-ambiente-autoriza-abate-de-40-capivaras-de-condominio-e-gera-polemica-em-itatiba.ghtml

https://portal.fiocruz.br/noticia/especialista-esclarece-duvidas-sobre-febre-maculosa-transmitida-pelo-carrapato-estrela

https://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,apos-morte-por-febre-maculosa-condominio-abate-capivaras-em-itatiba,70002879525

https://g1.globo.com/sp/sorocaba-jundiai/noticia/2019/06/17/secretaria-de-meio-ambiente-autoriza-abate-de-40-capivaras-de-condominio-e-gera-polemica-em-itatiba.ghtml

Jundiaí registra 16 casos suspeitos de febre maculosa em 2019

https://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2014/11/21/interna_gerais,592183/capivaras-recolhidas-da-orla-da-pampulha-tem-bacteria-da-febre-maculosa.shtml

http://ciflorestas.com.br/arquivos/d_d_d_10906.pdf

https://www.hojeemdia.com.br/horizontes/contagem-investiga-60-casos-suspeitos-de-febre-maculosa-1.722696

https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/noticia/2019/06/05/belo-horizonte-e-contagem-investigam-mais-de-60-casos-suspeitos-de-febre-maculosa.ghtml

https://www.otempo.com.br/cidades/bh-registra-31-casos-suspeitos-de-febre-maculosa-em-contagem-j%C3%A1-s%C3%A3o-32-1.2192064

https://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2019/06/26/interna_gerais,1064836/bacteria-febre-maculosa-confirmada-lagoa-da-pampulha-cidade-administra.shtml

http://www.aprag.org.br/noticias/capivaras-na-pampulha-chega-ao-fim-primeira-etapa-de-manejo-dos-animais

http://g1.globo.com/espirito-santo/agronegocios/noticia/2014/09/superpopulacao-de-capivaras-causa-transtornos-para-agricultores-do-es.html

https://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2018/10/30/interna_gerais,1001557/prefeitura-termina-manejo-das-capivaras-da-lagoa-da-pampulha.shtml

https://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2018/10/31/interna_gerais,1001753/manejo-das-capivaras-e-passo-importante-contra-a-febre-maculosa-em-bh.shtml

https://www.hojeemdia.com.br/horizontes/metade-das-capivaras-da-pampulha-j%C3%A1-foi-esterelizada-e-recebeu-microchip-1.632225

http://www.saude.gov.br/saude-de-a-z/febre-maculosa

http://www.icmbio.gov.br/parnaitatiaia/images/stories/o-que-fazemos/Animal_business_-_Febre_Maculosa.pdf

https://g1.globo.com/sp/sorocaba-jundiai/nosso-campo/noticia/capivaras-invadem-propriedades-e-causam-prejuizos-a-agricultores.ghtml

 

 

 

 

A volta das baleias – Como a proibição mundial da caça conseguiu salvar dezenas de espécies da extinção

A caça de baleias é uma prática extremamente antiga, que se inciou no Hemisfério Norte, há cerca de 6.000 anos, para suprir as demandas alimentares de povos na Escandinávia e no mar do Japão. Entretanto, nos últimos séculos, a baleação tomou proporções devastadoras, destruindo teias alimentares complexas e levando os maiores animais da Terra à beira da extinção. Como esses grandes animais conseguiram recuperar sua antiga glória e sair da lista vermelha de animais ameaçados? E quais os desafios para o futuro da preservação dessas criaturas gigantes?

Resultado de imagem para humpback whale
Grupo de jubartes – Foto por Tomas Kotou / Shutterstock.com

Apesar de ser geralmente chamada de caça ou pesca de baleias, diversos outros cetáceos, como orcas, belugas e cachalotes (que se diferem de baleias verdadeiras pela presença de dentes), também foram amplamente mortos na história humana. As primeiras evidências dessa pesca vem da Coreia do Sul, onde geoglifos representando a caça desses animais foram encontrados. Nessas pedras, desenhos de barcos cercando pequenos bandos de narvais, toninhas e belugas demonstram uma prática ainda empregada hoje, que consiste na perseguição desses animais com lanças em direção à costa, forçando seu encalhamento.

Resultado de imagem para Bangudae site whaling
Geoglifo na Coréia  de 6 mil anos demontrando a caça de cetáceos – Ilustração pelo Bangudae Petroglyphs Institute, Universidade de Ulsan
Resultado de imagem para monodon monoceros
Desenho de tamanho de narvais, um cetáceo com um dente alongado semelhante a um chifre  – Por Chen Yu
Resultado de imagem para sinammonite beluga
Tamanho comparativo de belugas – Por Chen Yu

De forma independente, diversas culturas pelo mundo criaram táticas de caça utilizando arpões, há cerca de 3 mil anos. Embarcações perseguiriam esses animais em baías e estuários, eventualmente aventurando-se em alto mar. Um forte arpão seria lançado no animal e ancorado no chão ou na embarcação, causando extrema fadiga a ele. Quando ele desistisse de tentar fugir, novas embarcações se aproximariam e o matariam com o uso de lanças, uma prática que permitiria a caça até mesmo de baleias maiores, como jubartes (Megaptera novaeangliae) e baleias-fin (Balaenoptera physalus). Pinturas rupestres de 1.500 anos em Izcuña, no Atacama, mostram a caça de grandes baleias na região com o uso da mesma técnica.

Resultado de imagem para whale old print
Pintura histórica japonesa representando pesca de baleias
Pintura rupestre mostrando a caça de baleias

Entretanto, foi a partir da Renascença, no século XIV, que esses animais começaram a ser caçados em larga escala por um produto um tanto quanto estranho na nossa visão moderna: o óleo. Grandes navios partiam para o alto mar atrás de animais cada vez maiores, que eram mortos com o uso de arpões e sua gordura era retirada. Chegando novamente nos portos, o óleo era vendido e utilizado para a iluminação pública por todo o Oeste e Centro europeu, sobretudo na Inglaterra. Na mesma época, o Japão tornou-se a maior potência baleeira do mundo, suprindo suas necessidades internas de óleo e de carne e vendendo o excedente para a China e Coreia.

Resultado de imagem para cornelis de man
Refinaria de óleo de baleia em Smerenburg, na Noruega no século XVI – Por Cornelis de Man

Com o aumento da necessidade de luz nas cidades nos séculos seguintes, a demanda por óleo de baleia tornava-se cada vez maior, até que um evento fez com que a busca por óleo se tornasse a atividade pesqueira mais rentável durante os séculos XVIII e XIX: a Revolução Industrial. Cada vez mais, investidores precisavam de luz para suas fábricas e óleo para suas máquinas, o que proporcionou um grande salto em tecnologias navais relacionadas à baleação e, a partir de 1900, iniciou-se a chamada baleação industrial. Grandes navios eram capazes de caçar baleias ainda maiores, como a baleia-azul (Balaenoptera musculus), que pode pesar até 200 toneladas, e a cachalote (Physeter macrocephalus), uma falsa-baleia agressiva que inspirou o livro Moby Dick.

Embarcações maiores permitiam a caça das maiores espécies de baleias – Oswald Brierly, Whalers off Twofold Bay, New South Wales, 1867
Resultado de imagem para sinammonite blue whale
Tamanho comparativo de diferentes populações de baleias-azuis – Por Harry Wilson
Resultado de imagem para sinammonite sperm whale
Tamanho de cachalotes atuais – Por Chen Yu

 

A cachalote mostrou-se o animal mais rentável para essa prática, uma vez que sua grande cabeça possui uma enorme concentração de um material gorduroso incrivelmente inflamável, denominada espermacete. Navios iam para o alto mar em busca desses animais e, quando encontrados, um grande arpão com uma corda era atirado no animal, que começava a se debater e entrar em exaustão. Posteriormente, a tripulação descia vários botes ao mar, que iriam se aproximar do animal e feri-lo com golpes de machado ou com pequenas lanças. Quando um jato de sangue saísse de seu espiráculo, a tripulação tinha certeza de que seu pulmão havia sido perfurado e o animal morreria poucas horas depois.

Resultado de imagem para capturing a sperm whale
Hulton Archive / Getty Images

Entretanto, a partir de 1905, essa indústria foi tornando-se cada vez mais difícil. Os números de baleias despencaram no mundo todo, o que forçava os baleeiros a irem cada vez mais longe, em busca de baleias de grande porte. Grandes cachalote,s de até 28 metros de comprimento, não eram mais encontradas e as populações de baleias-azuis já não conseguiam suprir a demanda das populações das Américas, Europa e Ásia. Por volta de 1930, toda indústria entrou em colapso.

Resultado de imagem para right whale numbers
Números populacionais da baleia-franca, uma das principais espécies de uso comercial

A partir de 1932, as primeiras leis de proteção aos cetáceos foram criadas pelo mundo. Inicialmente, 15 nações estabeleceram que seria proibida a caça de jubartes, baleias-franca (Eubalaena spp.) e baleias-cinza (Eschrichtius robustus), além de um limite de pesca de 16.000 baleias-azuis por ano. Em 1960, a maioria dos países já havia limitado a caça comercial de baleia, mas só em 1986 todos os países aceitaram sua total proibição, com exceção da Noruega, Japão e Rússia, que também pararam nos meses seguintes.

Imagem relacionada
Baleia-franca-do-sul – Por Lloyd Edwards
Resultado de imagem para Eschrichtius robustus
Baleia-cinza – Por Chris Johnson

A essa altura, os números de baleias por todo o mundo já eram preocupantes. As baleias-francas foram extintas no Mediterrâneo, por volta de 1000 a.C., onde já foram comuns. A baleia-cinza do Atlântico, uma possível subespécie de baleia-cinza, foi extinta no século XVIII.  Mais de 250.000 mil baleias-azuis viviam no mundo no passado e seus números chegaram a pouco mais de 600 indivíduos no século XX.

Resultado de imagem para blue whale numbers
População de baleias-azuis da Antártida

Por mais que os números se mostrem preocupantes, a proibição da caça fez com que as baleias conseguissem, mesmo que lentamente, voltar a dominar os mares. Embora cachalotes gigantes ainda não possam ser mais vistas (os maiores indivíduos de hoje não ultrapassam os 18 metros), suas populações voltaram a crescer, sobretudo no Oceano Atlântico. As baleias-cinzas, caçadas à beira da extinção, não chegam a 200 indivíduos, mas seus números estão estáveis pela primeira vez em muitos séculos. As jubartes, que foram uma das espécies mais afetadas pela caça comercial, tiveram uma queda populacional de 90% em dois séculos e seus números chegaram a 1.500 indivíduos adultos. Esforços internacionais de proteção, sobretudo no Brasil, possibilitaram que seus números subissem para 84 mil animais adultos. Estima-se que, em poucos séculos, suas populações poderão voltar aos níveis pré-industriais novamente.

Resultado de imagem para humpback whale with calf
Populações de jubarte vêm crescendo em todo mundo – Foto por Howard Chen
Resultado de imagem para humpback whale numbers
Número de cachalotes comparado ao número de navios

Mesmo com essa incrível recuperação, diversos desafios ainda ameaçam esses animais. Primeiramente, a poluição vem matando diversas baleias todos os anos pelo mundo, que são encontradas mortas com o estômago cheio de plástico. Embora isso ainda não ofereça um risco populacional significativo, a tendência é um aumento no número de plástico nos oceanos e, consequentemente, cada vez mais cetáceos mortos por esse motivo.

Resultado de imagem para whale plastic
Cachalote encontrada morta com 6 kg de plástico em seu estômago – Fotógrafo desconhecido

Em segundo lugar, populações humanas específicas ainda matam baleias desenfreadamente. Nas Ilhas Faroe, na Noruega, 800 baleias-piloto (Globicephala melenas) são mortas todos os anos de forma brutal, em um festival que ocorre na ilha há mais de mil anos. Ainda que essa prática, supostamente, não ofereça nenhum risco para a espécie como um todo, ela é criticada por não ser uma atividade de subsistência e por matar esses animais com cortes em sua medula espinhal, que oferece uma morte lenta e possivelmente dolorosa.

Resultado de imagem para faroe islands hunt
Caça de baleias-piloto nas ilhas Faroe – Foto por Andrija Ilic

Infelizmente uma nova ameaça surgiu esse ano, que poderá atrapalhar a recuperação desses animais de forma significativa. Após deixar a International Whaling Commission (IWC), comissão internacional que proíbe a caça desses animais, o Japão voltou a praticar a baleação. No dia primeiro de julho, a primeira expedição baleeira do mundo dos últimos 33 anos, deixou os portos japoneses e já matou alguns animais. A desculpa do país é que cerca de 200 a 1.200 baleias são mortas anualmente para fins científicos (uma prática importante caso seja feita com responsabilidade, o que não é o caso) e que sua carne, muitas vezes, é vendida ilegalmente após as pesquisas. O país decidiu então permitir a volta da caça apenas para fins alimentícios e dentro de suas águas nacionais, o que pode, a longo prazo, extinguir localmente diversas espécies de cetáceos. Pelo mundo, diversas ondas de protestos surgiram, além de que alguns países ameaçaram cortar relações comerciais com o Japão caso a pesca se torne desenfreada. Internamente, diversas campanhas foram criadas para desencorajar a compra da carne desse animal, o que, aparentemente, contribuiu para uma leve redução na demanda esperada pelo produto.

Resultado de imagem para whale meat
Carne de baleia em mercado japonês

Os cetáceos são os maiores e mais pesados animais da Terra e estão aqui há mais de 50 milhões de anos. Em poucos séculos, conseguimos reduzir ainda mais populações à beira da extinção, além de extinguir uma subespécie de baleia-franca e um golfinho de água-doce chinês (Lipotes vexillifer). Em poucos anos, extinguiremos também a vaquita (Phocoena sinus), cuja população hoje não ultrapassa os 18 indivíduos. Com a retomada da caça pelo Japão, o mundo todo volta a se preocupar com o futuro desses animais que, após anos de perseguição, voltaram a encher os mares do mundo. O que o futuro reserva para esses gigantes? Uma coisa é certa: esses organismos ainda têm que enfrentar diversos desafios e, com atitudes de governos e dos habitantes desse planeta, suas populações poderão voltar a crescer novamente! 

Leia também

Ainda da tempo de salvar nossas espécies mais ameaçadas?

O mar não está pra peixe

Referências

https://www.bbc.com/news/world-asia-48592682

https://www.nature.com/articles/srep16288

https://www.nationalgeographic.org/news/gray-whale-past-present-and-future/

https://www.leisurepro.com/blog/ocean-news/whale-species-extinction/

https://www.iucnredlist.org

https://iwc.int/status

https://www.smithsonianmag.com/smart-news/romans-may-have-hunted-whales-extinction-their-home-waters-180969605/

 

https://books.google.com.br/books?id=MYfxAQAAQBAJ&pg=PT24&redir_esc=y#v=onepage&q&f=false

China e Sustentabilidade: Uma história de amor ou ódio?

Desde 2008, o governo chinês mudou para uma postura proativa sobre governança climática e desenvolvimento de baixo carbono. Devido a melhorias significativas na eficiência de CO2 e a uma lenta desaceleração no total anual de emissões de CO2, a China é cada vez mais percebida como uma nova campeã de baixo carbono e parece estar em posição de assumir a liderança de mitigação climática global. Em dezembro de 2009, na COP-15, a Conferência das Nações Unidas para Mudanças Climáticas, realizada na Dinamarca, a China não atingiu metas de um acordo global de redução de emissões de gás carbônico. O argumento deles à época dizia que as grandes economias queriam frear o crescimento chinês.

Segundo a revista Exame, todos os anos, de 1,1 milhão a 1,6 milhão de chineses morrem por problemas de saúde causados pela poluição atmosférica. No mundo, são cerca de 3 milhões de mortes prematuras decorrentes desse tipo de poluição. Respirar o ar de Pequim é o equivalente a fumar 40 cigarros por dia, segundo estimativa da Universidade da Califórnia, em Berkeley, nos Estados Unidos.

Poluição em Pequim
Mulher usando máscara devido à poluição atmosférica. Foto: Kevin Frayer

Para mudar essa realidade, o governo de Pequim deu uma guinada em suas políticas ambientais nos últimos seis anos para a grande surpresa dos ambientalistas. Em 2014, o primeiro-ministro Li Keqiang declarou “guerra à poluição” e anunciou que os principais objetivos da China estavam mudando: em vez de buscar o enriquecimento a todo custo, a nova meta é tornar a China uma economia verde. Em março de 2017, no encontro anual do Partido Comunista, Keqiang reafirmou o compromisso de “fazer o céu da China azul novamente”.

Desde 2014, a China construiu uma rede nacional de monitoramento de emissão das partículas, chamado de PM 2.5. Essas emissões causam problemas de pele, hipertensão e doenças neurológicas. O país também passou a compartilhar dados com a Organização Mundial da Saúde e começou a fazer parte do projeto de monitoramento Air Quality Index. Graças a esse controle se sabe, por exemplo, que a poluição média do ar na região mais problemática do país, que reúne as províncias de Pequim, Hebei e Tianjin, ficou em 77 PM 2.5 em 2015, uma queda de 25% em relação ao ano anterior. Em Baoding, a média ficou em 128 ao ano, também em queda. A boa notícia é que os índices têm caído no país inteiro. A má notícia é que levará pelo menos dez anos para que a China alcance a meta de chegar ao índice 30, considerado mais saudável. Qualquer chinês pode checar a qualidade do ar em tempo real e denunciar fábricas que estejam poluindo mais do que o limite permitido por lei. Com isso, monitorar a qualidade do ar virou uma obsessão nacional. Uma executiva de uma empresa de tecnologia, ouvida pela revista Exame, afirmou que usa o app para saber a melhor hora de ir ao supermercado, de sair para uma corrida ou, até mesmo, de abrir as janelas da casa.

Shenzhen é uma das cidades que mais crescem na China, sendo hoje o epicentro das empresas chinesas de tecnologia, localizada no Sul do país. Hoje, possui 12 milhões de habitantes, 140 empresas inovadoras listadas em bolsa e, orgulho de seus moradores, um dos ares mais limpos da China. Em 2015, a média de poluentes PM 2.5 na cidade foi de 29,9, já abaixo da meta estabelecida para 2030.

rob-bye-627862-unsplash
Uma mulher observa a vista com um guarda-chuva para proteger do sol em Shenzhen, China. Foto : Bob Rye

Em 2002, Shenzhen recebeu o prêmio máximo das Nações Unidas por ser uma das cidades mais ecológicas do mundo, um elogio que, tanto chocou, quanto impressionou seus vizinhos. Em menos de uma década, a cidade reduziu seus níveis de poluição do ar em cerca de 50%, segundo suas autoridades. A consultoria global McKinsey & Company, em 2016, nomeou Shenzhen a cidade mais sustentável de toda a China. Shenzhen também fez parte das manchetes globais por ter sido a primeira grande cidade do mundo a lançar uma frota de 16 mil ônibus públicos totalmente elétricos. Para se colocar isso em perspectiva, a cidade tem mais ônibus totalmente elétricos do que a soma de ônibus em operação de Nova York, Los Angeles, Toronto, Nova Jersey e Chicago. E para cada mil ônibus movidos a bateria em operação, o país deixa de consumir 500 barris de diesel, segundo cálculos da Bloomberg New Energy Finance. Foi essa frota totalmente elétrica que ajudou a cidade a atingir suas metas de qualidade do ar em 2016 e 2017.

Ações mais importantes feitas pela China:

Menos carvão, ar mais limpo

A China tomou medidas para desmantelar as centrais a carvão, reduzir os níveis globais de emissões e as taxas de emissão de partículas. Um enorme progresso foi feito na qualidade do ar, e agora há menos dias de poluição nas maiores cidades da China.

Melhor regulamentação

O antigo Ministério de Proteção Ambiental foi transformado no Ministério de Ecologia e Meio Ambiente (MEE), uma nova entidade com responsabilidades mais amplas e claras. O novo ministério supervisionará todas as políticas relacionadas à água, da gestão de recursos oceânicos à água subterrânea. Anteriormente, estas atribuições estavam espalhadas entre os diferentes departamentos. O ministério também é responsável pelas políticas sobre mudança climática.

Financiando um futuro mais verde

A China estima que necessitará aumentar de 40,3 trilhões de RMB (US$ 6,4 trilhões) para 123,4 trilhões de RMB (US$ 19,4 trilhões) para financiar a transição para uma economia mais verde. Ela começou a cobrar uma taxa ambiental para ajudar a financiar suas políticas ambientais e também está tentando atrair mais investimentos verdes. A Iniciativa do Cinturão e Estrada da China (BRI), um programa global massivo que visa melhorar a interconectividade entre os países, inspirado na antiga Rota da Seda, procura impulsionar o comércio e o crescimento econômico na Ásia e além. Como o vice-primeiro-ministro Liu He disse na Reunião Anual do Fórum Econômico Mundial, ocorrida em Davos este ano, reduzir a poluição é um dos principais objetivos estratégicos da China, pois persegue essa iniciativa, além de prevenir grandes riscos financeiros e aliviar a pobreza.

Zonas de desenvolvimento sustentável

No início deste ano, o governo chinês aprovou três zonas de desenvolvimento sustentável, que implementarão os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas para 2030:

  • Shenzhen ( como já exemplificado acima)

Shenzhen é o motor de inovação da China. Essa zona integrará tecnologias de tratamento de esgoto, utilização de resíduos, restauração ecológica e inteligência artificial para resolver problemas, desde o gerenciamento de recursos até a poluição.

  • Guilin

Esta zona se concentrará em inovações que lidam com a desertificação, criando soluções que podem ser replicadas por outras regiões que enfrentam a ameaça de invasão de desertos.

  • Taiyuan

Visando a poluição do ar e da água, esta zona promoverá soluções inovadoras que podem ser replicadas por regiões que dependem da extração de recursos.

  • Empresas de tecnologia verde

Os gigantes da tecnologia da China desempenham um papel vital no desenvolvimento sustentável. Tencent, Baidu e Alibaba estão entre as 10 maiores empresas de internet do mundo. A tecnologia on-line, principalmente o comércio eletrônico, o internet banking e as mídias sociais, estão acelerando o ritmo das mudanças. Por exemplo, a Ant Financial, uma subsidiária bancária do Alibaba, é uma das fundadoras da Green Digital Finance Alliance. Esta aliança visa usar a tecnologia digital para promover finanças verdes. Mais de 200 milhões de usuários da Ant se inscreveram no Ant Forest, um aplicativo que utiliza o rastreamento da pegada de carbono. O aplicativo leva os usuários à reduzirem as emissões de gases do efeito estufa na vida real, demonstrando o enorme potencial da Fintech para apoiar o desenvolvimento sustentável. Até o final de janeiro de 2017, a abordagem economizou 150.000 toneladas de CO2.

denys-nevozhai-7nrsVjvALnA-unsplash.jpg
Vista aérea de Shanghai. Foto: Denys Nevozhai

 

Joyce Msuya, microbióloga tanzaniana, veterana do Banco Mundial e Diretora Executiva do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), falou na 4ª Assembleia Ambiental ocorrida em março desse ano: “Esta é a hora de realmente fazer uma diferença, fazer a diferença no meio ambiente. A natureza não é inesgotável, deve ser vista como o capital financeiro.”

A China não é somente um polo de produção industrial, como também tem muito a oferecer em termos de boas práticas. Hoje ela está se transformando, não apenas em relação à mudança climática e à poluição, bem como tem procurado compartilhar o que foi aprendido com outros países que estão passando por desafios semelhantes. A China está tentando corrigir os seus erros. O que esse país oriental percebeu é que sem a natureza e sem saúde, a busca pelo ranking de potência mundial de nada adianta. Vamos aprender Brasil? 

 

 

 

 

Referência:

Artigos do World Economic Forum e da Nature

Matérias do Business Insider e Exame 

 

Veja também:

 

O Impacto Por Trás das Manchetes: Como as mudanças climáticas já estão afetando a vida no planeta

Nos últimos anos, muito se fala sobre o aquecimento global, sobre o derretimento das geleiras, sobre o aumento do nível do mar e da seca em várias regiões no globo. Mas esses parecem efeitos de uma realidade distante, sempre associados a previsões de 2050 pra frente. Entretanto, as mudanças no clima a nível local já são extremamente evidentes e muito pouco discutidas.

World ice cream
Imagem do AdobeStock

A difusão do termo aquecimento global se deu em meados da década de 1980 e transpôs os meios comunicativos, as classes corporativa, civil e política global em um debate incessante e controverso sobre o aumento da temperatura média do planeta. Os estudos apontam uma grande associação entre o aumento da temperatura e a Segunda Revolução Industrial ocorrida na metade final do século XIX, que disseminou o uso de combustíveis fósseis como força motriz de indústrias e do setor de transportes. A combustão do petróleo está associada a outro termo bastante famoso: a intensificação do efeito estufa. Os gases estufa (CO₂, CH₄, N₂O, H₂O) absorvem a radiação infravermelha térmica emitida pela terra e pelos oceanos, impedindo a dispersão do calor para o espaço. O excesso desses gases na atmosfera, tais quais aqueles provenientes da queima de combustíveis fósseis, agrava esse efeito e está promovendo o aumento da temperatura média do planeta. Além disso, a variação da temperatura influencia o macroclima global, afetando zonas de alta e baixa pressão e, consequentemente, pluviosidade, concentração de sais, dinâmica oceânica etc.

02 Global Temperature Anomaly - NASA
A temperatura cresce rapidamente nas últimas décadas, sendo o último dado de 2018. Imagem: NASA’s Earth Observatory

As consequências desses eventos são amplamente discutidas, já tendo inclusive virado temática para filmes de realidade distópica e apocalíptica, como Mad Max (2015) e Interestelar (2014). No entanto, essas projeções refletem um aparelho antropocêntrico e muitas vezes apontam exclusivamente para os impactos sobre a espécie humana. O calor extremo vai matar as safras e as pessoas vão passar fome. As geleiras vão derreter e as metrópoles costeiras como Los Angeles, Amsterdã e Rio de Janeiro vão perecer. Os campos verdes e férteis vão desertificar. Não haverá água para as necessidades básicas como lavar o cabelo. Essas previsões soam distantes e parecem que não serão problemas com os quais nossa geração terá que lidar. Elas não necessariamente são falsas, no entanto, as mudanças climáticas já estão matando muitos.

A produção científica relacionada ao impacto climático sobre a biodiversidade está em alta e muitos estudos analisam previsões a partir de modelos matemáticos, bem como relatam o abalo sofrido por algumas populações. Modelos biológicos e matemáticos indicam que, no pior cenário, as mudanças climáticas antropogênicas podem causar a sexta extinção em massa da história do planeta. Além disso, o aumento da temperatura pode, não só elevar o risco de extinção de espécies, mas também acelerar o processo à medida que a temperatura média global aumenta.

Um estudo publicado na revista Science em 2010 discorreu sobre uma grande redução na diversidade de lagartos em regiões do México por causa do aumento da temperatura. Os pesquisadores associaram o nicho termal desses répteis à reprodução. Muito afetados pela temperatura exterior, eles têm o costume de se abrigar em locais frescos e, se as temperaturas ficam cada vez maiores em ambientes abertos, eles buscam locais menos quentes, que resultam em isolamento em locais fechados ou de acesso relativamente difícil. Assim, ocorrem menos interações entre indivíduos de uma mesma população, o que compromete a reprodução e por fim, afeta a espécie. O grupo de pesquisadores estimou a extinção de 58% das espécies de lagarto do gênero Sceloporus, que foi o alvo de estudo.

03 Sceloporus - Viva Natura.jpg
Lagarto do espécie Sceloporus bulleri com sua distinta coloração azul na parte inferior do corpo. As espécies do gênero Sceloporus possuem diversas colorações, do verde para o marrom para o azul. Imagem: Viva Natura ORG.

Outra publicação, de 2011, na Nature Climate Change, correlacionou as mudanças no clima com a redução do tamanho corporal de diversas espécies e os seus efeitos na cadeia trófica. Com as mudanças climáticas, a distribuição de chuvas no planeta é alterada. Desta forma, latitudes subtropicais que apresentavam chuvas bem distribuídas no decorrer do ano, com um elevado índice pluviométrico, tendem a apresentar secas. Em contrapartida, latitudes muito altas (mais distantes da linha do Equador, próximo aos polos), assim como a região Equatorial, tendem a ficar mais úmidas. Mas como isso interfere no tamanho corpóreo e cadeia trófica?

Sabe-se que o crescimento de uma planta está diretamente relacionado com a sua taxa de respiração, que depende da disponibilidade de água. Portanto, quanto mais água, maior a capacidade da planta de crescer e se desenvolver. Por outro lado, chuvas em demasia podem diluir os nutrientes no solo em função da lixiviação (promovida pelo excesso de água infiltrando por ele). Logo, a redistribuição de precipitações no globo tende a comprometer o tamanho dos produtores primários, seja pela falta de água ou pela escassez de nutrientes. Com isso, os consumidores subsequentes da cadeia alimentar têm menos disponibilidade de alimento e, portanto, menos disponibilidade de fonte de energia para se desenvolverem, o que também pode comprometer o seu tamanho corporal.

Uma vez que os organismos devem dividir energia entre manutenção fisiológica, crescimento e reprodução, em caso de escassez energética uma preferência evolutiva é dada aos dois últimos fatores, limitando o crescimento corporal da espécie. Desta forma, alguns pesquisadores hipotetizam que há uma tendência evolutiva global em favorecer espécies menores, visto que o crescimento pode ser limitado pela decadência de recursos como água e nutrientes.

04 Red Knot - Jan van Gils
O maçarico-de-papo-vermelho (Calidris canutus) como é agora (esq.) e a projeção de como pode ser no futuro (dir.): tamanho reduzido e bico mais longo. Imagem: Jan van Gils, NIOZ.

O outro extremo do planeta também está sendo afetado pelas altas temperaturas ocasionadas pelo aquecimento global. No Mar de Bering, localizado entre o Alaska (EUA) e a Rússia, a superfície do oceano fica recoberta por uma camada de gelo durante o inverno e o aumento da temperatura não só diminui essa camada de gelo, como também gera ondas de calor na superfície do oceano no verão, que afetam o ciclo de vida de mamíferos aquáticos, peixes, aves e algas. Em anos mais quentes, a população de algas tende a diminuir nesse mar, e, com menos produtores primários, toda a cadeia alimentar sofre uma enorme redução que pode ser visualizada em espécies de topo de cadeia, como aves marinhas.

Entre 2016 e 2017 foram encontradas por volta de 60 a 80 vezes mais carcaças de papagaios-do-mar no Mar de Bering do que em anos anteriores, com estimativas de 3,1 a 8,8 mil aves mortas ao longo das várias populações que habitavam diferentes ilhas desse Mar. A alta mortalidade dessas aves é uma repercussão da alta mortalidade geral de seres vivos nos mares do norte na onda de calor que ocorreu entre 2014 e 2018. As aves encontradas durante esse período eram bastante magras e tinham penugem característica da época de troca de penas, período em que se faz necessária muita energia. Isso sugere que o evento massivo de mortes foi causado pela diminuição de fonte de alimento em vários níveis da cadeia alimentar, bem como a perda da diversidade de organismos nessas águas que abrigam grande variedade de animais, incluindo algumas das populações de peixes com maior importância econômica no mundo.

Outro estudo foi coordenado por pesquisadores da UFMG e trouxe para o debate a determinação sexual de tartaruga. Várias espécies de répteis têm a designação macho/fêmea da sua prole a partir de uma faixa de temperatura específica durante a incubação dos seus ovos. Diferentemente de humanos, as tartarugas não definem suas características sexuais a partir de cromossomos X e Y.  Elas possuem genes termossensíveis responsáveis pela produção de enzimas que permitem que as gônadas femininas sejam desenvolvidas. Quanto maior a temperatura, mais fêmeas. Porém, com o desequilíbrio do clima global, a razão sexual dessas espécies pode ser afetada, gerando uma população com muito mais fêmeas do que machos, já que os termômetros têm marcado números maiores. Os cientistas da UFMG constataram um excedente de fêmeas de tartarugas-de-pente (Eretmochelys imbricata) na costa da Bahia. Na falta de machos da mesma espécie, elas estão cruzando frequentemente com machos de outras espécies, como a tartaruga-oliva e a tartaruga-cabeçuda, gerando híbridos.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Além disso, o aquecimento global já foi diretamente responsável pela extinção de espécies no nosso planeta. Em 2016, o roedor Melomys rubicola foi declarado extinto e, com base em estudos realizados pelo Queensland’s Department of Environment and Heritage Protection, contatou-se que a culpa foi do aumento do nível do mar em decorrência das mudanças climáticas. Esses animais viviam na ilha Bramble Cay, na costa australiana, uma pequena massa de terra com elevação máxima de 3 metros acima do nível do mar. Durante as marés cheias, a ilha costumava ter uma área de 40.000 metros quadrados, o que foi reduzida a apenas 25.000 metros quadrados nos últimos 20 anos. Com isso, toda a vegetação da ilha foi sendo drasticamente impactada, o que fez com que esse rato perdesse cerca de 97% de seu habitat. O último exemplar foi avistado em 2009, sendo o primeiro de muitos mamíferos a desaparecer por causa desse evento global.

Resultado de imagem para Melomys rubicola
Melomys rubicola, o primeiro mamífero extinto devido ao aquecimento global – Foto de Cameron De Jong

Todos esses estudos de casos não descartam as evidentes consequências sobre a espécie humana, a principal propulsora do desequilíbrio em sua gênese. E essas consequências não giram em torno somente de previsões, visto que as mazelas já estão acontecendo.

Alguns estudos relacionam, pertinentemente, as mudanças climáticas à escassez de comida. Uma publicação de 1994 na revista Nature aborda que um aumento na produção global de comida só seria provável na presença de intensos e custosos investimentos em irrigação e melhoramento das plantas cultivadas. Porém, para países em desenvolvimento, a disponibilidade de água e de tecnologia própria ainda é pequena, e por vezes o capital financeiro para adquirir equipamentos é baixo. Essa abordagem pode parecer obsoleta e malthusiana e pessoas podem argumentar que muita coisa mudou desde 1994 e que suprimento de alimento não seria mais um problema. No entanto, um artigo de 2008 (pouco mais de 10 anos atrás) da revista Science faz previsões para um futuro não tão distante. Em 2030, o Brasil estará dentro dos países que teriam redução na produção. Notícias diárias já indicam um cenário provável: nossos rios estão secando, as temperaturas estão subindo e pequenos e médios agricultores já apresentam perdas em suas produções.

09 Augusta - Michael Bourgault
Sistema de irrigação em Augusta, Estados Unidos. Imagem: Michael Bourgault.

Outra área afetada pelo aumento da temperatura é a qualidade do ar, o surgimento de doenças relacionadas e a saúde pública em geral. Especialistas alegam que a poluição do ar é resultado da combinação de altas taxas de emissões de gases efeito estufa e clima desfavorável, sendo os dois poluentes mais preocupantes para a saúde pública: o ozônio superficial e o material particulado. O ozônio (O₃) é produzido naturalmente na troposfera, camada atmosférica mais próxima da superfície, a partir de CO₂, CH₄, óxidos de nitrogênio e alguns compostos orgânicos voláteis. Os particulados são sulfatos, nitratos, carbono orgânico, carbono inorgânico, poeira e sal marinho, sendo os quatro primeiros mais preocupantes.

O aumento da produção dos gases precursores do ozônio está diretamente relacionado com o acréscimo na temperatura média do planeta, visto que muitos desses gases são estufa. E a alta concentração de ozônio superficial traz consigo sérios danos à saúde. É um gás tóxico, que mesmo em pequenas quantidades é capaz de causar lesões nos brônquios e alvéolos pulmonares, aumento no tempo para preencher os pulmões e na quantidade de fluído presente neles. Além disso, fibrose pulmonar também é observada em organismos com exposição ao gás. Em temperaturas elevadas, nos chamados “picos” (com a maior concentração de ozônio), somados à presença de NO₂, e a menor prevalência de ventos, a exposição constante aos poluentes estagnados pode levar a desenvolvimento de pneumonia, doenças pulmonares crônicas, doenças cardiovasculares e mesmo morte.

Somado a isso, tem-se a preocupante fuligem, partículas oriundas da queima incompleta principalmente do carvão industrial e do diesel. Uma pesquisa divulgada no Journal of Geophysical Research: Atmospheres apontou a fuligem como o segundo agente que mais contribui para o aquecimento global, ficando atrás somente do metano. A fuligem favorece o aquecimento global de duas principais maneiras: absorve o calor irradiado pela superfície (efeito estufa) ou ainda promove a formação de nuvens que dificultam a reflexão das geleiras, acelerando o seu derretimento. Alguns especialistas relacionam a ocorrência de asma, bronquite e pneumonia com a inalação constante de fuligem, comum nos grandes centros onde há indústrias e muitos caminhões trafegando.

10 China - Jerry Zhan
Poluição em Shanghai, China. Foto por: Holger Link.

Por fim, um dos fenômenos mais estudados em se tratando de impactos do aquecimento global em humanos são as ilhas de calor. Por causa da pavimentação nos grandes centros, asfaltos, calçadas, prédios e constante substituição da área verde, os grandes centros urbanos retêm muito calor durante o dia e têm pouco tempo para liberá-lo durante a noite. Por causa de uma onda de calor que afetou a Europa em 2003, 15 mil pessoas morreram – sobretudo idosos. A causa dessas mortes, segundo especialistas, girou em torno principalmente da desidratação. Termômetros marcavam constantemente 40ºC e durante a noite, por muito tempo, não marcaram menos do que 23ºC. Desde então, o governo do país tem investido pesadamente em tecnologias e políticas públicas que visam a reduzir a área de concreto e aumentar áreas verdes em grandes centros como Paris.

Vários estudos aplicados que visam solucionar as ilhas de calor estão sendo feitos ao redor do globo.  Cientistas canadenses em um estudo de 2013 sugeriram o investimento pesado em asfaltos mais claros ou cinzas, uma vez que, quanto mais escura é a cor, maior a capacidade dela de reter calor. Eles também defenderam a criação de prédios que refletem a luz e não a absorvem.  Além disso, uma pesquisa publicada em 2014 na revista Environmental and Climate Technologies concluiu, em seu experimento, que o uso de fachadas verdes ou de jardins verticais em prédios pode reduzir a temperatura dentro do ambiente em até 4ºC.

11 Bosco Verticale - Stefano Boeri
Edifício de luxo Bosco Verticale (Jardim Vertical), do arquiteto Stefano Boeri, em Milão, Itália. O edifício da empresa Boeri Studio foi entregue em 2014. Imagem: Boeri Studio.

O cenário ambiental atual é preocupante, as taxas de extinção estão com uma tendência vertiginosa à aceleração à medida que as temperaturas aumentam. Uma realidade que afeta não somente os humanos, mas a biodiversidade em geral. Contudo, apesar do constante esforço do homem em agredir o ambiente de forma geral, algumas espécies têm desenvolvido meios de sobreviver a essa devastação.

Environment conservation concept. Close up of glass globe in the forest with copy space
Imagem: Adobe Stock

A tendência evolutiva parte do pressuposto que, diante de pressões seletivas, indivíduos mais adaptados ao novo ambiente vão ser selecionados e a espécie tende a remanescer. No entanto, as mudanças são drásticas e o pior de tudo é que estão acontecendo rápido demais para que as espécies tenham tempo de contornar o problema.  A espécie humana poderá ser mesmo a causa da sexta extinção em massa do planeta e talvez, dentro da enorme lista de espécies extintas, Homo sapiens será uma delas.

Co-autoria de:

Amanda Abdo de Oliveira

Athos Moreira Silva

Bernardo Palhares Silva Puliero

Jorge Luís de Melo Guadalupe

Julia de Paula Vilaça Santos

Marina Costa Andrade

 

Para saber mais, leia também

Ainda dá tempo de salvar nossas espécies mais ameaçadas?

O que aconteceria com o mundo se os seres humanos desaparecessem de repente?

Cenário apocalíptico: a Terra já está cheia de nós!


Referências

Imagem destacada: PAUL SOUDERS

https://www.researchgate.net/publication/225894518_The_Global_Warming_Debate_A_Review_of_the_State_of_Science

BELLARD, C. Impacts of climate change on the future of biodiversity. Ecology Letters. Vol. 15. Pg. 365-377. 2012.

URBAN, M. C. Accelerating extinction risk from climate change. Science Magazine. Issue 6234, Vol. 348. 2015

[9] SHERIDAN, J. A.; BICKFORD, D. Shrinking body size as an ecological response to climate change. Nature Climate Change. Issue 1, Vol. 8, Pg. 401-406. 2011.

https://www.nps.gov/subjects/aknatureandscience/commonmurrewreck.htm

https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/noticia/2019/05/mudancas-climaticas-causam-mortes-em-massa-de-especie-de-ave.html

http://tamar.org.br/arquivos/Tamar-Responde.pdf

FERREIRA JUNIOR, Paulo Dias. Aspectos ecológicos da determinação sexual em tartarugas. Acta Amaz.,  Manaus ,  v. 39, n. 1, p. 139-154,  Mar.  2009

Lara-Ruiz, Paula;Lopez, Gustave Gilles; Santos, Fabrício Rodrigues dos; Soares, Luciano Silveira. Extensive hybridization in hawksbill turtles (Eretmochelys imbricata) nesting in Brazil revealed by mtDNA analyses. 0 Journal Article

[1] Rosenzweig, C., & Parry, M. L. (13 January 1994). Potential impact of climate change on world food supply. Nature, 367(6459), 133–138.

[5] Jacob, D. J., & Winner, D. A. (January 2009). Effect of climate change on air quality. Elsevier; Atmospheric Environment, 43(1), 51–63.

https://www.nature.com/articles/nclimate3301.epdf?referrer_access_token=x3h6VMISnbeIyNgrB9dLl9RgN0jAjWel9jnR3ZoTv0MyOuS16ChMRKL0u4l1grt5FBWGrjN6wtznvJ8bEKwCEpE7pK0dH6GX1t9Sp7VCA5sQMYpjbeBwPUZ9sQZiOXHLBhw1xNYi6tcntBZz0qVMljS8Ur4-qMTHZr1Eqmoh9yDkecti-Q0P69A9QX-IxUXEM6emS7WUWmS8ktsribGVtrgpI3uePSS6nHlXLV6j6J2f7YXfgWbm4-22YEB1zeyA3eiCOEnk6CcdaQ5molUAeAKYqGYBmEbtSGdfbub-g2l4ouSW83ju6SzVjl3P0wwtiakkSbRESzHJGqGGDtMT9ZH6Ydo1cu2Gr33qUmCCHQc=&tracking_referrer=www.lemonde.fr

https://www.ecycle.com.br/1296-fuligem

https://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,a-fuligem-e-o-poluente-mais-perigoso-para-a-saude,543500

https://sci-hub.tw/10.1080/10298436.2013.782402

https://ortus.rtu.lv/science/lv/publications/19982/fulltext

(https://www.researchgate.net/publication/326332138_Plasticity_reveals_hidden_resistance_to_extinction_under_climate_change_in_the_global_hotspot_of_salamander_diversity)

A triste realidade dos pets silvestres

Nos últimos anos, a busca por animais de estimação pouco convencionais cresceu drasticamente, sobretudo com a popularização de redes sociais, como o Instagram, onde pessoas do mundo todo podem seguir usuários que possuem ouriços, tucanos ou, até mesmo, tigres em casa. Embora a procura por bichos silvestres esteja inclusive relacionada com a valorização de nossa fauna, ela esconde uma dura verdade relacionada ao tráfico, à caça, bem como à extinção de espécies na natureza. Por outro lado, quando feita corretamente, ela pode ser a chave para a preservação de nossa biodiversidade.

Resultado de imagem para vale verde criatorio
Arara-azul-grande no Criatório Vale Verde, um dos melhores e mais conhecidos do país

O termo “animal silvestre” engloba todos os bichos que vivem na natureza, dentro do território nacional, ao contrário dos animais exóticos, que são oriundos de outros países. A comercialização de espécies exóticas dentro do Brasil é extremamente complicada, uma vez que esses organismos podem gerar inúmeros problemas ecológicos caso sejam soltos na natureza, motivo pelo qual poucos animais exóticos podem ser vendidos no país. Por outro lado, a lista de silvestres permitidos é incrivelmente longa, mas sua posse requer diversos cuidados.

Resultado de imagem para pets exoticos
Por não ser nativo da nossa fauna, o ouriço é considerado um pet exótico – hoje proibido no Brasil 

Primeiramente, vale ressaltar que a cultura de possuir animais silvestres em casa gera enormes prejuízos para a natureza. Ainda hoje, a maior parte dos pets silvestres são adquiridos de forma ilegal, na qual os animais são capturados diretamente na natureza para serem comercializados. Essa prática pode oferecer diversos riscos sanitários, uma vez que o comprador poderá adquirir um animal com alguma zoonose ou parasitose, sob pena de contaminar toda sua família. Entretanto, os impactos são ainda maiores para os animais. Anualmente, a indústria do tráfico de animais no Brasil movimenta 1 bilhão de dólares e comercializa cerca de 12 milhões de animais, que, na maioria das vezes, são transportados em condições desumanas, com dezenas de aves levadas dentro de pequenas gaiolas adequadas para comportar apenas duas. Essa indústria foi, inclusive, responsável pela extinção local de espécies na natureza como o bicudo (Sporophila maximiliani), ave comum em cativeiro que não é vista solta em Minas Gerais há mais de 50 anos.

Resultado de imagem para trafico de animais silvestres
Acredite, essa gaiola está relativamente vazia comparada com outras do tráfico de animais
Resultado de imagem para bicudo
Bicudo (Sporophila maximiliani) – Ave comum em cativeiro e localmente extinta na natureza em vários estados –  Foto retirada do Wiki Aves

Muitas vezes, animais são mortos a tiros para que os traficantes obtenham os seus filhotes. A mutilação também é outro problema sério. Para que se tornem mais dóceis, cantem mais ou não ofereçam riscos ao comprador, aves são cegadas e têm as asas cortadas de forma irreversível (diferente do corte de penas da asa realizado por profissionais veterinários), mamíferos, como macacos e quatis, têm unhas e dentes arrancados e répteis são incapacitados ou, ainda, em alguns casos amputados (em respeito aos nossos leitores, imagens dessas práticas não serão colocadas, podendo ser facilmente encontradas no Google imagens digitando “tráfico de animais”).

Então, como adquirir um pet silvestre de forma ética e legal? Primeiramente, o comprador deve ter consciência que criar um animal silvestre pode ser difícil e perigoso. Ao contrário dos animais domésticos, os silvestres não foram alterados geneticamente por meio de seleção artificial ao longo de milhares de anos e, por isso, ainda retêm características “selvagens”. Uma arara ou um papagaio, por exemplo, requerem alimentação especial e são extremamente barulhentos, o que torna sua criação muito difícil em áreas residenciais. Uma cobra ou um macaco, por outro lado, podem gerar despesas exorbitantes, além de oferecerem certos riscos a seus donos. Estudar o animal e oferecer condições apropriadas a seu bem estar são condições essenciais para a sua compra.

Resultado de imagem para terrario jiboia pet
Exemplo de terrário para serpentes e lagartos

Em segundo lugar, o comprador deve conhecer a legislação por trás de cada espécie e saber onde comprá-la. Existem vários criadouros certificados pelo IBAMA pelo país, nos quais podem ser comprados macacos-prego, jiboias, iguanas, teiús, tarântulas, passarinhos, tucanos, araras, papagaios e, até mesmo, grandes aves de rapina. Esses animais são muito caros, podendo chegar a até 15 mil reais e, em nenhum caso, seu manejo adequado é simples. Vale lembrar que um animal ilegal não pode ser legalizado, uma vez que todos os pets silvestres devem ter nascido em cativeiro e dentro de um dos locais certificados. A multa para o porte de animais ilegais varia entre R$ 1.625,70 a R$ 16.250,00 por animal e o indivíduo pode ser preso, com pena de seis meses a um ano, de acordo com o artigo 29 da Lei de Crimes Ambientais (Lei nº 9.605/98). Entretanto, um animal ilegal pode ser entregue voluntariamente ao IBAMA sem nenhum tipo de penalidade, onde ele passará por avaliações médicas e, em alguns casos, poderá até ser reabilitado para voltar para a natureza.

Resultado de imagem para terrario jiboia pet
Jiboia-arco-íris, um dos pets legais mais procurados no país

Em resumo, a obtenção de um animal silvestre é custosa, seu manejo é difícil e a obtenção de animais ilegais patrocina a caça e a mutilação de nossa biodiversidade. Mesmo os animais legalizados podem ser prejudiciais, uma vez que podem influenciar pessoas a buscar o mercado ilegal devido ao preço alto de bichos provenientes de criatórios. Então, por que não proibir os pets silvestres? Assim como as drogas, por exemplo, a proibição só aumentaria o tráfico e, no caso dos animais, aumentaria também os maus tratos. Independente da legislação, muitas pessoas irão buscar animais silvestres. Ao existirem centros especializados para sua reprodução e venda, a saúde e bem estar desses animais são garantidas e os seus compradores podem ser responsabilizados por quaisquer danos a eles, uma vez que o IBAMA possui um registro de todos os adquirentes. Entretanto, o aumento da penalização para os infratores e a criação de mecanismos mais eficientes para a fiscalização e punição do tráfico devem ser adotados. Além disso, esses criatórios são indispensáveis para a conservação de alguns animais, algo que abordaremos em um texto futuro.

Resultado de imagem para papagaio pet
O papagaio-comum é a ave mais traficada do país. A ave legalizada custa em torno de 3 mil reais.

Precisamos lembrar que, se quisermos um animal silvestre, devemos procurar criadouros legais, conhecer as necessidades de cada bicho e estar dispostos a gastar muito dinheiro com seu recinto, alimentação e despesas médicas. Possuir um pet silvestre é muito bom, mas requer ética, responsabilidade e carinho. Portanto, pense bem antes de escolher um pet silvestre e lembre-se de não contribuir com atividades que ameacem diretamente nossa fauna. Eventualmente, algumas pessoas compram animais ilegais por perceberem que eles estão em uma situação ruim, mas isso também financia o tráfico. Sendo assim, não comprar um animal é a melhor forma de ajudá-lo.

Segue abaixo um link com a lista de criatórios certificados pelo IBAMA:

https://smastr16.blob.core.windows.net/home/2015/09/criadores_e_estabelecimentos_comerciais_v3.pdf

Referências

http://drfala.com.br/post/roedores/cuidados/como-comprar-animais-silvestres-de-forma-legal

https://www.forumanimal.org/silvestre-nao-e-pet

https://canaldopet.ig.com.br/curiosidades/especiais/2019-02-16/animais-silvestres-comprar.html

https://g1.globo.com/sp/sorocaba-jundiai/mundo-pet/noticia/ter-animais-silvestres-em-casa-requer-autorizacao-do-ibama-e-cuidados-especificos-entenda-as-regras.ghtml

https://www.todamateria.com.br/trafico-de-animais/

https://pib.socioambiental.org/en/Not%C3%ADcias?id=104804

https://criatoriovaleverde.com.br/tabela-de-precos

Projeto Bicudos

 

 

Fronteira Agrícola Brasileira: Matopiba e a ameaça à sustentabilidade

A mais nova fronteira agrícola de soja do Brasil, a região do MATOPIBA, que se estende por quatro estados do norte, está contribuindo para a redução do bioma da região. Matopiba é uma palavra formada pelas iniciais Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia e tem como sua principal frente o plantio de soja. Projeções do Ministério da Agricultura do Brasil indicam que a área plantada pode crescer de 4,16 milhões de hectares atuais para 10,3 milhões de hectares em 10 anos.

Captura de Tela 2019-06-07 às 08.23.31
Área plantada com soja por microrregião (1975, 1985, 1995, 2005 e 2015) e destaque para a região do MATOPIBA Fonte: IBGE – Produção Agrícola Municipal. Elaboração: Niederle e Wesz Jr., 2018.

O bioma Cerrado é a maior região de savana da América do Sul e é responsável pela maior biodiversidade da Terra, com 44% de plantas endêmicas. É também a segunda maior formação natural do continente e cobre um quarto do território brasileiro, 2 milhões de km², correspondente em tamanho aos territórios combinados da Espanha, França, Alemanha, Itália e Reino Unido. O Cerrado constitui um terço da biodiversidade do Brasil e é considerado um “berço de águas”, uma vez que é fundamental para oito das doze bacias hidrográficas brasileiras. As cabeceiras de todos os afluentes do sul do rio Amazonas (com exceção do Juruá e Purus), bem como vários rios nos estados do Maranhão e Piauí, estão no Cerrado.

Nos últimos anos, a vegetação nativa da região da Matopiba foi em grande parte desmatada para o plantio de soja e para a pecuária. O Código Florestal Brasileiro permite a limpeza de até 80% das áreas cobertas por propriedades rurais no Cerrado, de modo que há um escudo legal para o fim do habitat nativo em troca da agropecuária.

Captura de Tela 2019-06-07 às 08.51.57
Fonte: Embrapa (2015) e IBGE (2016).

Um ponto de grande preocupação é o fato de uma parcela importante do Matopiba estar localizada na região definida como Amazônia Legal (Lei nº 1.806/1953 e Lei nº 12.651/2012), apesar de o bioma Amazônico estar presente apenas em uma pequena área do estado do Tocantins e do Maranhão. A presença dos biomas e da Amazônia Legal no território do Matopiba afeta na delimitação da reserva legal a partir do Código Florestal Brasileiro (Brasil, 2012).

chapada_marcelo.jpg

Quando um imóvel rural está localizado simultaneamente no bioma Cerrado e na Amazônia Legal, segundo o Código Florestal (Brasil, 2012), a área de reserva legal é de 35%. Agora, se o imóvel rural estiver localizado apenas no bioma Cerrado ou no bioma Caatinga, a reserva legal é de 20% (Brasil, 2012). A delimitação das Áreas de Preservação Permanentes (APPs) segue as regras do Código Florestal, logo podemos ter a ideia de quanto impacto essa expansão agrícola pode trazer.

Atualmente há cerca de 324 mil estabelecimentos agrícolas, 46 unidades de conservação, 35 terras indígenas e 781 assentamentos de reforma agrária e áreas quilombolas, num total estimado em 14 milhões de hectares de áreas legalmente atribuídas, além de áreas de conservação ainda em processo de regularização.

Fronteira Agrícola na Amazônia Legal

O projeto do Matopiba iniciou-se de forma rápida e já é um grave problema socioambiental. Entre os anos de 2015 e 2016 o desmatamento na área foi de 2 mil quilômetros quadrados. Segundo informação do Ministério do Meio Ambiente (MMA) quase metade da cobertura vegetal original do cerrado já desapareceu, tendo sido desmatado um total de 975,7 mil quilômetros quadrados desse bioma tão importante.

De acordo com a Agência Brasil, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) começou, no mês de abril desse ano, a visitar áreas de fronteira agrícola nos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia (Matopiba). Os técnicos, em parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro, verificam os impactos da agropecuária, do plantio de soja, em especial, na Bacia do Rio Grande, afluente do São Francisco. O levantamento vai testar o marco metodológico das contas ambientais de ecossistema, indicador que deve ser usado no Produto Interno Verde (PIV), índice internacional das Nações Unidas (ONU) que estima o impacto no meio ambiente da atividade econômica calculada pelo PIB tradicional. Para definir a metodologia das contas de ecossistema, testes são feitos no Brasil, no México, na Índia, na África do Sul e na China. A Divisão de Estatística da ONU acompanha o trabalho, financiado pela União Europeia.

O avanço da fronteira agropecuária precisa incorporar todos os impactos ambientais, não só objetivando a preservação da biodiversidade e dos biomas afetados, como também calculando o risco da própria produção. Estudos profundos de disponibilidade hídrica são necessários, considerando as mudanças no uso da cobertura do solo, o aumento da demanda de água e os possíveis efeitos da mudança climática.

Resultado de imagem para fronteira agricola indigena

Além disso, é fundamental que as políticas públicas caminhem lado a lado com o desenvolvimento sustentável, sempre levando em consideração a premissa de que, independente de qual valor econômico esteja em jogo, não há riqueza maior do que a nossa biodiversidade.

 

 

Referências: 
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística ( IBGE ) 

Letras Ambientais: Matopiba: o império do agronegócio nos limites do Cerrado brasileiro
Artigos:

BOECHAT, Cássio: “A fronteira agrícola no Brasil hoje e os limites do ajuste espacial: o capital fictício condicionando a produção do espaço no MATOPIBA” 

GARCIA, Junior: “A questão ambiental e a expansão da fronteira agrícola na direção do matopiba brasileiro. ”  

 

 

Guerra à Ciência – Parte IV – A Terra não é redonda. E muito menos plana!

A ideia de que a Terra é plana é uma das mais complexas vertentes do movimento anti-científico. Para a maioria das pessoas, a noção de que nosso planeta é redondo é algo completamente óbvio e o movimento terraplanista, como é chamado, parece alguma grande piada de mau gosto. Entretanto, cada vez mais, pessoas do mundo inteiro compram livros, assistem palestras e entram em grupos locais para discutir e disseminar esse entendimento. Mas, afinal, realmente existem muitos indivíduos terraplanistas no mundo? Como essa ideia surgiu e quais seus principais argumentos?

Resultado de imagem para flat earth images

Quando pensamos na ideia do nosso planeta ser esférico, muitas vezes lembramos da história de Colombo e do “descobrimento” da América. Entretanto, esse conhecimento já era amplamente difundido por muitas sociedades ocidentais desde Aristóteles, em 300 a.C., com exceção de poucos povos, como os Vikings. Em 600 a.C., os gregos notaram que, quando um barco partia em expedições marítimas, sua base ia desaparecendo à medida que a sua distância aumentava, além de que seu mastro era a última coisa a sumir no horizonte. Isso significava que nosso planeta possui algum tipo de curvatura, que poderia ser explicada de diversas formas distintas além de uma esfera. Além disso, ao observar eclipses lunares, eles notaram que a sombra da terra imprimia uma forma côncava na lua e, portanto, nosso planeta deveria ser um disco côncavo ou uma esfera.

Imagem relacionada
Eclipse lunar total do dia 8 de Outubro de 2014 fotografado por Connor Madison em Oshkosh, Wisconsin

Com o passar do tempo, mais e mais pessoas estavam convencidas de que a Terra era uma esfera, principalmente após as observações de que, quanto mais ao sul os navegadores iam, mais ao norte as estrelas polares apareciam no céu. Os contatos com povos africanos também criaram a ideia de que o sol estaria mais próximo da porção central do globo, uma vez que ele se encontrava exatamente no meio do céu ao meio dia nas áreas tropicais. Comparando o ângulo do sol em um mesmo horário em diferentes regiões, o filósofo Eratosthenes conseguiu, por volta de 100 a.C., calcular a circunferência da Terra, com uma enorme precisão.

Imagem relacionada
Esboço do experimento de Eratosthenes para calcular a circunferência da terra

Nos próximos séculos, diversos povos chegaram às mesmas conclusões dos gregos, utilizando métodos muito diferentes, com um grande destaque para os povos árabes que, por volta do ano 800, conseguiram descobrir o ângulo de curvatura entre as cidades de  Tadmur até Raqqa, ambas na Síria. O contato islâmico com a Europa e, posteriormente, a chegada de Colombo às Américas, em 1492, consolidou ainda mais esse conhecimento, que se tornou quase inquestionável para os europeus após a circum-navegação do globo por Fernão de Magalhães, entre 1519 e 1521.

Resultado de imagem para Fernão de Magalhães
O Trajeto de Fernão de Magalhães seria impossível no tempo realizado caso a Terra fosse plana

A primeira foto da Terra vista do espaço foi tirada em Outubro de 1946 por um foguete americano, a 105 km de altura, e pouco pode ser visto de sua estrutura. Anos depois, em 1966, uma foto foi tirada próximo da superfície lunar. Desde então, diversas novas tecnologias foram empregadas para fotografias cada vez mais nítidas e para um mapeamento tridimensional, que revelou que o planeta não é uma esfera mas, sim, que possui um formato elíptico e distorcido.

The first photograph of Earth from space.
Primeira foto da Terra, em 1946
Foto da Terra tirada da lua, em 1966
The Blue Marble, 1972. Photo via NASA.
Foto Blue Marble, tirada pela NASA em 1972
Resultado de imagem para earth shape
Embora a Terra pareça com uma esfera vista de longe, testes gravitacionais indicam que seu formato é levemente distorcido

Mesmo com fotos, filmagens e com o depoimento de dezenas de pessoas que já viram nosso planeta de longe, no interior de foguetes, o terraplanismo vem crescendo de forma acelerada, e a culpa é da internet. Em 2018, durante a maior conferência mundial de terraplanismo do mundo, em Denver, a Universidade de Tecnologia do Texas entrevistou participantes e, das 30 pessoas ouvidas, 29 afirmaram que aprenderam que a Terra é plana no YouTube, menos de dois anos antes. Pouco a pouco, esse grupo de pessoas ganhou força e, atualmente, cerca de 33% dos jovens entre 18 e 24 anos nos Estados Unidos não tem certeza do formato da Terra e 9% estão totalmente convencidos de que ela seja plana.

A maioria dos terraplanistas acredita que nosso planeta seja coberto por um grande domo no qual emissores de luz, o sol e a lua, giram diariamente. Há ainda aqueles, grande parte do grupo, que afirmam que o mar não cai da beirada da Terra, pois é protegido por uma grande muralha de gelo denominada Antártida (estilo Game of Thrones, segundo Mark Sargent, criador do canal do YouTube Flat Earth Clues e um dos principais nomes do terraplanismo). Para eles, a gravidade também é uma mentira, uma vez que ela só pode ser explicada se nosso planeta fosse uma esfera.

Resultado de imagem para flat earth map
O mapa da Terra Plana e a posição da Lua e do Sol

Mas, afinal, quais são os seus principais argumentos?

1- O homem nem nenhum objeto terrestre jamais deixou a Terra

Um argumento muito utilizado é que a NASA é uma mentira e que o ser humano jamais esteve no espaço. Os terraplanistas afirmam que todas as fotos do espaço foram criadas no computador. Entretanto, esse argumento não leva em conta a existência de satélites que, inclusive, podem ser vistos aqui da Terra e cuja tecnologia é utilizada por nós diariamente.

2- Não conseguimos ver a curvatura

Nosso planeta é muito grande. Para conseguir observar a curvatura da Terra, precisamos ter um espaço livre muito amplo, não obstruído por objetos como montanhas. Mesmo nos casos em que cidades são observadas do mar, dando a impressão de que são vistas em sua totalidade, a base dos prédios vai sumindo no horizonte à medida que a distância da cidade aumenta. O mesmo exemplo pode ser observado com barcos que, a medida que se afastam da costa, cada vez menos sua base pode ser observada.

Imagem relacionada
A base dos prédios desaparece com a distância – Cidade de Chicago

3- Não sentimos a Terra girando

Nosso planeta está girando em torno dele mesmo, está circulando o Sol, que, por sua vez, está girando em torno do centro da galáxia. Tudo isso em velocidades inimagináveis por nós. Esse movimento pode ser medido e observado de forma relativamente simples para aqueles que possuem um telescópio. Além disso, se evoluímos em um planeta que está girando, não possuímos os mecanismos necessários para detectar seu movimento, uma vez que isso não confere nenhuma vantagem evolutiva para nós.

4- A água de copos, rios e piscinas é plana. Por que a água da Terra seria curvada?

Esse é um dos argumentos mais utilizados pelos terraplanistas. Enquanto a água em um copo é segurada por sua tensão superficial, a enorme massa da Terra puxa toda a água do planeta para seu centro, o que gera uma forma esferoidal.

5- Existem pouquíssimos voos no sul do Hemisfério Sul devido à enorme distância entre as cidades, uma vez que estão mais perto da borda

Realmente existe uma enorme massa oceânica entre a Oceania e a América do Sul, que realmente dificulta os vôos. Todavia, não há o mesmo número de pessoas querendo ir da Austrália para o Chile como ocorre dos Estados Unidos para a Europa, por exemplo. Esse é o verdadeiro motivo do número reduzido de voos.

6- Ninguém vai para a Antártida por que a CIA e a NASA não deixam

Os valores exorbitantes da viagem e o clima inóspito são os verdadeiros motivos para poucas pessoas irem para esse continente, que possui bases de pesquisas de vários países e recebe centenas de pessoas todos os anos – e ninguém nunca viu uma muralha.

7- As estações são consequência do distanciamento do sol em determinadas épocas do ano

Essa explicação não leva em conta o fato de que, enquanto é verão no hemisfério norte, é inverno no hemisfério sul e vice versa.

A Terra Plana, assim como os outros movimentos anticientíficos, não é levada a sério pelos verdadeiros cientistas e, aqueles que acreditam nela, muitas vezes são ridicularizados. É importante respeitar e explicar de forma didática e responsável a ciência por trás das teorias que movem o mundo, jamais ridicularizando aqueles que não possuem o conhecimento científico para que, assim, mais e mais pessoas acreditem e confiem na ciência.

Referências

https://theflatearthsociety.org/

https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/noticia/2019/03/terraplanistas-planejam-expedicao-para-ver-o-limite-do-planeta.html

https://www.nationalgeographic.com/photography/photos/milestones-space-photography/

https://blogs.scientificamerican.com/observations/do-people-really-think-earth-might-be-flat/?redirect=1

https://www.livescience.com/62220-millennials-flat-earth-belief.html

Garrett’s Blog: The Earth Actually Isn’t Round

Documentário da Netflix “A Terra é plana” (Behind the Curve em inglês)

 

 

Guerra à Ciência – Parte III – Aquecimento Global e seus opositores

Nos dias atuais, notamos uma grande quantidade de céticos que não acreditam que o aquecimento global esteja se intensificando devido às ações antrópicas. Muitas pessoas nos Estados Unidos – uma porcentagem bem maior que em outros países – mantêm incredulidade sobre esse consenso ou acreditam que os ativistas do clima estão usando a ameaça do aquecimento global para atacar o livre comércio e a sociedade industrial em geral.

vidar-nordli-mathisen-1518592-unsplash
Foto de Vidar Nordli-Mathisen

Para alguns descrentes da mudança climática, o fato de que alguns cientistas na década de 1970 estavam preocupados com a possibilidade de uma era do gelo próxima é suficiente para invalidar a preocupação com o aquecimento global agora. O Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática, que consiste em centenas de cientistas operando sob os auspícios das Nações Unidas, divulgou seu quinto relatório nos últimos 25 anos. Este repetiu, mais alto e mais claro do que nunca, o consenso dos cientistas do mundo: a temperatura da superfície do planeta subiu cerca de 1,5 graus Celsius nos últimos 130 anos e as ações humanas, incluindo a queima de combustíveis fósseis, são muito provavelmente a principal causa do aquecimento desde meados do século XX.

Alguns ativistas ambientais querem que os cientistas, além de desempenhar seus papéis nas universidades, se envolvam mais nas batalhas políticas. Qualquer cientista que vá por esse caminho precisa fazer isso com cuidado, diz Liz Neeley. Segundo ela, “essa linha entre comunicação científica e advocacia é muito difícil de se afastar”. No debate sobre a mudança climática, a alegação central dos céticos é a de que a ciência é politicamente tingida, impulsionada pelo ativismo ambiental e não por dados concretos, ao dizer que o aquecimento é uma ameaça séria e real. Isso não é verdade e calunia os cientistas honestos, mas torna-se mais plausível a olhos desconfiados se os cientistas forem além de sua perícia profissional e começarem a defender políticas específicas.

harrison-moore-1450269-unsplash
Foto de Harrison Moore

No debate sobre o clima, as consequências da dúvida provavelmente são globais e duradouras. Muitos céticos da mudança climática alcançam seu objetivo fundamental de deter a ação legislativa de combate ao aquecimento global. Eles não precisam ganhar o debate por meio de méritos, apenas influenciar a sala o suficiente para impedir que as leis que regem as emissões de gases do efeito estufa sejam aprovadas.

O que motiva a negação?

Há algo, que está em jogo a nível subconsciente, que nos permite desconsiderar as grandes evidências que estão à nossa frente, tais quais as de que o aquecimento global é real. Mesmo havendo consenso de que a mudança climática está ocorrendo e de que os humanos a estão exacerbando, ainda há pessoas, incluindo políticos, que se recusam a reconhecer as evidências.

Nós temos que mudar a maneira como falamos de alterações climáticas. A psicologia diz que os sentimentos gerados ao falarmos sobre o assunto são culpa e medo, ao invés de comprometimento. O que se observa é exatamente o oposto do engajamento; quando sentimos algo ruim, é normal que nos afastemos do problema para nos aproximarmos de algo que nos faça sentir melhor. Muitos pensam que outras pessoas devem lidar com isso, e não eles mesmos. Grande parte das pessoas enxerga o aquecimento global como uma mudança distante que acontecerá daqui há muito tempo. Além disso, os gases de efeito estufa, causa fundamental do problema, são invisíveis aos nossos olhos.

ekaterina-sazonova-1310803-unsplash
Foto de Ekaterina Sazonova

“Uma grande parte duvida não pela experiência, e sim pela motivação”, disse Paul Thagard, professor emérito do Departamento de Filosofia da Universidade de Waterloo, especializado em ciência cognitiva. “Os psicólogos falam muito sobre ‘inferência motivada’ que se dá quando as pessoas têm motivações fortes, são muito seletivas no tipo de evidência em que acreditam”. Por exemplo, aquelas pessoas cuja subsistência depende da indústria petrolífera podem temer que a mudança climática ameace seus empregos. Outros podem recear que o governo tire dinheiro de seus bolsos na forma de gastos públicos em esforços de mitigação de carbono.

10 Principais argumentos utilizados pelos céticos e porque eles podem ser refutados:

  • O clima já mudou antes: Sim, o clima reage a qualquer força que o faça mudar; os seres humanos são atualmente a força dominante. 
  • O sol é o causador da mudança climática:
    Nos últimos 35 anos, o sol mostrou uma tendência de arrefecimento. No entanto, as temperaturas globais continuam a aumentar. Se a energia do sol está diminuindo enquanto a Terra está aquecendo, então o sol não pode ser o responsável por essa alteração da temperatura.TvsTSI.png
  • Não há consenso entre cientistas:
    A teoria de que os seres humanos estão causando o aquecimento global é defendida por Academias de Ciências de 80 países, além de muitas organizações que estudam a ciência do clima. Mais especificamente, cerca de 95% dos pesquisadores do clima que publicam ativamente artigos sobre o assunto endossam a posição de consenso.
  • O planeta está esfriando:
    A última década, de 2000 a 2009, foi a mais quente já registrada.
  • Estamos indo para uma nova era do gelo:
    Devemos nos preocupar mais com os impactos do aquecimento global nos próximos 100 anos, e não com era do gelo, que não ocorrerá até os próximos 10.000 anos.

Temperature_Interglacials.gif

  • O CO2 gerado por ação humana é uma pequena porcentagem de emissões de CO2:
    O ciclo natural adiciona e remove CO2 na Terra de forma natural, mantendo um equilíbrio. Enquanto isso, nós humanos adicionamos CO2 extra sem remover na mesma proporção.
  • É um ciclo natural:
    Nenhuma força natural conhecida é capaz de gerar as mudanças abruptas do aquecimento observado, exceto os gases de efeito estufa.
  • Cientistas do clima fazem isso pelo dinheiro: 
    Os cientistas do clima poderiam ganhar muito mais dinheiro em outras carreiras, principalmente trabalhando para a indústria do petróleo.
  • Vulcões emitem mais CO2 do que humanos:
    Os vulcões emitem em torno de 0,3 bilhões de toneladas de CO2 por ano. Isso representa cerca de 1% das emissões humanas de CO2, que são de aproximadamente 29 bilhões de toneladas por ano.
  • É uma variabilidade interna e normal: 
    A variabilidade interna só pode levar em conta uma mudança na temperatura média global do ar de aproximadamente 0,3° C em períodos de várias décadas, e estudos científicos mostraram consistentemente que ela não pode explicar mais do que uma pequena fração do aquecimento global no século passado.

 

 

Leia também:

O planeta está aquecendo ou resfriando?

NÃO queremos salvar o Planeta!

Buraco na Camada de Ozônio: foi apenas uma modinha?

Como as áreas alagadas podem influenciar na mudança climática

5 curiosidades e 30 fatos sobre mudança climática que você precisa saber

 

 

 

Referências

 “The psychology of climate change: Why people deny the evidence” ;

“Why Do Many Reasonable People Doubt Science”;

Site Skeptical Science 

Guerra à Ciência – Parte II – Os Perigos das Vacinas

 

As vacinas são consideradas por muitos o maior avanço médico da história. Segundo dados da OMS (Organização Mundial da Saúde), a vacinação previne cerca de 2 a 3 milhões de mortes todos os anos e, caso fosse mais implementada, poderia evitar mais 1,5 milhão. Mesmo assim, milhares de pessoas pelo mundo se recusam a aceitar esse procedimento, sobretudo quando se trata de seus filhos. Mas afinal, as vacinas realmente são necessárias? Elas realmente podem causar autismo ou alergias? E vacinar deveria ser uma escolha pessoal?

Resultado de imagem para vaccine autism

Há cerca de 10 mil anos, uma doença mortal surgiu no Norte da África e, rapidamente, se espalhou por todo mundo. Transmitida pelo ar, a varíola causava febres, vômitos, úlceras na boca e erupções cutâneas. Ela foi responsável por bilhões de mortes ao longo da sua história, dizimando grande parte das populações indígenas quando chegou nas Américas e matando mais de 500 milhões de pessoas somente no século XX. Para proteger a população local dessa temível doença, uma monja chinesa desenvolveu, no século X, um procedimento conhecido como variolação, no qual ela moía cascas de feridas de portadores de varíola e assoprava o pó formado no nariz de pessoas saudáveis, que se tornavam imunes. Esse método eficaz foi criado após essa monja observar que portadores de varíola que se curavam nunca mais contraíam a doença e, após muitos séculos, essa prática se tornou comum em várias partes do oriente.

Resultado de imagem para variolation
Monge realizando a variolação – Artista desconhecido

Durante o século XVIII, médicos europeus passaram a perfurar feridas de varíola de pessoas infectadas com uma lâmina e a arranhar pessoas saudáveis com ela, o que provocava a imunização na maioria dos pacientes, com cerca de 3% morrendo por contrair a varíola. Somente em 1798 uma vacina segura para a doença foi criada pelo médico Edward Jenner, ao observar que fazendeiros que haviam contraído varíola bovina não contraíam a varíola humana. Após anos de experimentação e aperfeiçoamento, a vacina da varíola passou a ser distribuída por todo o mundo, salvando a vida de milhões de pessoas anualmente e abrindo o caminho para o desenvolvimento da imunização artificial para diversas outras doenças.

Resultado de imagem para edward jenner vaccine
Edward Jenner é considerado o pai da vacinação

Em 1904, o governo brasileiro decretou uma lei que tornava obrigatória a vacinação da varíola para todos os cidadãos do Brasil por sugestão do médico Oswaldo Cruz, durante os projetos de modernização do Rio de Janeiro, que era a capital do país. Certificados de vacinação eram exigidos para diversas atividades cotidianas, como casamentos, compras de imóveis e matrículas em escolas. Essa exigência, somada ao despejo de milhares de habitantes da cidade para o alargamento de ruas e avenidas, gerou a famosa Revolta da Vacina, na qual a população se rebelou contra agentes de saúde que vacinavam a todos de forma compulsória. Barricadas foram erguidas e diversos prédios foram queimados, o que levou o governo a decretar estado de sítio, com a suspensão de direitos individuais, e a colocação do exército nas ruas, o que resultou na prisão de 900 pessoas, 30 mortes e quase 500 deportações para o estado do Acre.

Resultado de imagem para revolta da vacina
Charge da revista O Malho, de 29 de outubro de 1904, poucos dias antes do estouro da Revolta da Vacina: “Nem com um exército, o “Napoleão da Seringa e Lanceta”, como muitos se referiam a Oswaldo Cruz na época, conseguia conter a fúria da população contra a vacinação compulsória” (Crédito: Leonidas/Acervo Fiocruz)

Anos depois, em 1979, a varíola foi erradicada em todo o mundo, sendo a primeira doença humana extinta pelo homem. Além dela, o sarampo, a poliomelite, a tuberculose e muitas outras tiveram seus números reduzidos drasticamente e, por muito tempo, caminharam para sua aniquilação mas, nos últimos anos, seus números voltaram a crescer, uma vez que muitos pais pararam de vacinar seus filhos. Um dos principais fatores que ocasionaram o crescimento do movimento anti-vacina no século XXI foi a associação errônea entre a vacinação e o aparecimento de autismo e alergias. A conexão entre o autismo e as vacinas foi apontada por um artigo, em 1998, que, desde então, já foi refutado por mais de 20 outros artigos. Além disso, dos 13 autores originais dessa publicação, 10 afirmam que suas conclusões foram errôneas. Um estudo de 2014 avaliou 1,2 milhão de crianças de todo mundo e nenhuma relação com o autismo foi encontrada. Quanto às alergias, um estudo com mais de 1.200 crianças nos Estados Unidos apontou que crianças não vacinadas têm maior tendência a alergias, uma vez que não possuem uma resposta imune tão efetiva.

Resultado de imagem para vaccine autism
Por Dr. Melvin Sanicas

Outro argumento contra as vacinas está relacionado com os seus riscos para a saúde que, na realidade, são ínfimos quando comparados às doenças que elas previnem. Na vacinação tradicional, uma forma enfraquecida de um patógeno (embora vacinas modernas utilizem proteínas ou trechos de RNA) é injetada no corpo do paciente, que irá desenvolver anticorpos para combater essa infecção. Dessa forma, ao entrar em contato com a forma potente da doença para qual foi imunizado, seu organismo possuirá uma “memória” de como combater aquela doença. Portanto, ao ser vacinado, o indivíduo poderá apresentar sintomas brandos de uma doença, mas ficará protegido pelo resto de sua vida.

Resultado de imagem para como as vacinas funcionam
Retirado de resumov.com.br

Por fim e talvez o principal motivo do movimento anti-vacina na atualidade é o desconhecimento das doenças do passado. Estamos tão acostumados com a proteção das vacinas que não nos lembramos de um mundo em que nossos irmãos morriam de tuberculose com poucos anos de vida e onde epidemias destruíam até 30% da população de cidades em poucas semanas. A falta de conhecimento gera, também, a ausência de medo na população, que trata doenças infecciosas como um pequeno resfriado. Antes do advento das vacinas, cerca de 20.000 crianças ficavam paralisadas todos os anos nos Estados Unidos devido à poliomelite. A rubéola, por sua vez, gerava mais de 15 mil abortos nos EUA anualmente e, das 20.000 crianças que nasciam com a doença, mais da metade ficava surda, 3.000 ficavam cegas e cerca de 1.500 teriam problemas cognitivos por toda sua vida.  O sarampo era uma doença contraída pela maior parte da população, cuja vacina salvou mais de 20 milhões de vidas entre 2000 e 2016, segundo dados da OMS.

Resultado de imagem para graficos sobre vacina epidemiologia
Gráfico apontando relação direta entre a vacinação e a redução do número de casos de coqueluche no Brasil – Pelo Ministério da Saúde

Em 2019, o maior surto de sarampo em 20 anos aconteceu em Nova York, devido à redução da procura pela vacinação. O Brasil, por sua vez, já havia erradicado essa doença e hoje, infelizmente, possui um número crescente de casos. A poliomelite, rubéola, catapora e tuberculose têm voltado a diversos países, matando inúmeras pessoas, sobretudo idosos e crianças. Segundo a OMS, o movimento anti-vacina é um dos maiores desafios da saúde do planeta no momento, que deve ser combatido pela população. Devemos, de forma científica e respeitosa, demonstrar a importância da vacinação e sua eficácia para as pessoas ao nosso redor. Além disso, devemos sempre lembrar que, ao vacinar, você protege não só sua família, mas reduz também a chance de um surto em sua cidade. Diversas pessoas não podem vacinar por problemas de saúde, restando às outras pessoas da sociedade garantirem também sua proteção.

Resultado de imagem para measles world map
Número de casos de Sarampo pelo mundo – No Brasil, a doença já havia sido erradicada – Fonte OMS

Em casos extremos, o governo pode exigir a obrigatoriedade da vacinação para garantir a segurança de toda a população. Ao contrário do programa de Oswaldo Cruz, ninguém deve receber a vacina à força, mas o governo pode restringir o acesso de pessoas não vacinadas para a febre-amarela, por exemplo, a locais de risco, como parques e praças, o que incentivará cada vez mais pessoas a se protegerem. Dessa forma, rumaremos para um futuro livre de doenças e cada vez mais seguro.

Referências

http://webpages.fc.ul.pt/~mcgomes/vacinacao/historia/index.html

https://www.who.int/features/factfiles/immunization/en/

https://www.cdc.gov/media/releases/2014/p0424-immunization-program.html

https://www.medicalnewstoday.com/articles/324619.php

Artigo “Vaccines are not associated with autism: An evidence-based meta-analysis of case-control and cohort studies” https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0264410X14006367

http://www.medicinanet.com.br/conteudos/conteudo/2086/coqueluche.htm

http://www.multirio.rj.gov.br/index.php/estude/historia-do-brasil/rio-de-janeiro/66-o-rio-de-janeiro-como-distrito-federal-vitrine-cartao-postal-e-palco-da-politica-nacional/2917-a-revolta-da-vacina

Guerra à Ciência – Parte I – Por que as pessoas não acreditam mais nos cientistas?

Desde o fim da Idade Média, no século XV, movimentos como o Renascentismo e o Iluminismo auxiliaram no desenvolvimento técnico-científico de nosso planeta. Cada vez mais, diversas pessoas pararam de se dedicar às profissões mais comuns e passaram a se dedicar à ciência, que tomou o lugar da religião na explicação de eventos da natureza e se tornou o principal molde da sociedade, sendo respeitada pela maior parte das esferas sociais. Entretanto, nos últimos anos, o pensamento científico da sociedade como um todo entrou em um retrocesso e a ciência vem perdendo força. Afinal, o que fez com que a ciência perdesse sua credibilidade? Nessa série de textos iremos abordar os grandes alvos do movimento anticientífico e os diversos perigos por trás desse discurso, que ameaça, não só o aperfeiçoamento de nossas tecnologias, como também a vida de milhões de pessoas.

Famoso quadro De Anatomische les van Dr. Nicolaes Tulp, de Rembrandt, que aponta o renascimento científico no século XVII

A ciência é baseada no método científico, que consiste no conjunto de regras básicas adotadas para a realização de experiências, com o objetivo de produzir conhecimento. Por meio da observação de um fato e de um questionamento (o que queremos saber daquele fato observado), o cientista irá formular uma hipótese, que será testada de modo que outros cientistas possam repetir seu feito. Após seu experimento, uma análise de dados será realizada e, caso sua hipótese estiver errada, o cientista poderá criar novas hipóteses. Posteriormente, ele apresentará suas conclusões, comentando os resultados obtidos. Após a realização de todas as etapas do método científico, as afirmações serão chamadas de teorias. Um argumento muito usado por anticientistas é de que algo considerado como “apenas uma teoria” demonstra simplesmente a falta do entendimento de como funciona a ciência.

Resultado de imagem para metodo científico
Esquema de como funciona o Método Científico retirado do site omundodaquimica.com.br

Acredita-se que o movimento anticientífico tomou força a partir dos anos 70, impulsionado inicialmente por grandes setores da economia. Ao questionar o aquecimento global, por exemplo, a produção petrolífera, que movimenta bilhões de dólares anualmente, possibilita que mais pessoas continuem a investir nesse setor, tão prejudicial para o planeta. Dessa forma, algumas indústrias, sobretudo nos Estados Unidos, tentam reduzir a credibilidade de pesquisas científicas como forma de defender seus interesses econômicos, ideologias e crenças, além de financiarem políticos que, por sua vez, também defendam esses interesses.

Resultado de imagem para petróleo movimenta quanto dinheiro
Embora dependa totalmente da ciência para seu desenvolvimento, a indústria petrolífera é uma das principais forças contra as ciências climáticas na atualidade

A Anticiência tem como princípio a apresentação de argumentos contra pesquisas e teorias científicas sem bases teóricas concretas, ou seja, que não se utilizam de métodos científicos. Quando direcionada a pessoas que não entendem a fundo o funcionamento da ciência, essa argumentação falaciosa pode convencer milhões de indivíduos, ameaçando a confiabilidade das instituições sérias de pesquisa. Quando relacionada a fatos banais do cotidiano, a anticiência pode não ser preocupante, mas, caso ameace a saúde pública e as decisões políticas do planeta, ela pode se tornar um grande perigo para toda a sociedade.

Resultado de imagem para terra plana
Imagem da “Terra Plana”, um dos principais movimentos anticientíficos da atualidade

Um outro ponto extremamente importante é a popularização da internet. O acesso rápido e fácil à informação e a possibilidade do desenvolvimento de conteúdos sem nenhum rigor científico fizeram com que textos e mensagens falsas, sobretudo em redes sociais e no WhatsApp, se propagassem rapidamente. A noção de que a mídia convencional não é imparcial fez com que muitas pessoas se esquecessem de que os escritores autônomos também podem ser parciais, colocando suas crenças pessoais na frente do rigor técnico.

Por fim, os maiores causadores do retrocesso da ciência são a mídia e os próprios cientistas. Enquanto 97% dos cientistas concordam com o aquecimento global, apenas 60% da população dos Estados Unidos acredita em sua existência. Muitas vezes, ao apontar dois lados de um tópico, os argumentos científicos e não-científicos são apontados como equivalentes, o que descredibiliza o método científico perante a população. Por sua vez, os cientistas têm grande dificuldade em expor suas ideias para as pessoas comuns, pecando consideravelmente na divulgação de seus trabalhos. Quando questionados, os pesquisadores, muitas vezes, tendem a apontar a falta de conhecimento de seu questionador, ao invés de realmente tentar entender o por quê daquela pessoa pensar assim e, consequentemente, poder explicar melhor suas descobertas.

Resultado de imagem para movimento antivacina
O Movimento Anti-Vacina é, segundo a OMS, um dos maiores perigos atuais para a saúde pública mundial

Por ser tão perigosa, a luta contra a anticiência é algo que deve partir de todos, ensinando, de forma calma e respeitosa, àqueles que não concordem com conceitos empíricos. Dessa forma, mais pessoas entenderão que a ciência não fornece respostas concretas mas, sim, tenta responder perguntas baseando-se em experiências e testes rigorosos e não-enviesados.

Nos próximos textos de nossa série, mostraremos como ideias como a Terra Plana, o Movimento Anti-Vacina, o negacionismo cego ao aquecimento global e o Design Inteligente vêm ganhando força e moldando a sociedade de diversas formas diferentes, ameaçando, inclusive, nossa própria sobrevivência.

Referências

https://netnature.wordpress.com/2017/02/27/por-que-os-cientistas-estao-perdendo-a-luta-para-comunicar-a-ciencia-ao-publico-comentado/

https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe2605200203.htm

https://netnature.wordpress.com/2017/02/27/por-que-os-cientistas-estao-perdendo-a-luta-para-comunicar-a-ciencia-ao-publico-comentado

http://futureatrisk.blogspot.com/2010/09/o-movimento-anti-ciencia-e-anti.html

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

5 curiosidades e 30 fatos sobre mudança climática que você precisa saber

O que se entende por mudança climática?

O sistema climático é dinâmico e está sempre mudando. No entanto, ‘Mudança Climática’ é um termo que hoje é usado para se referir às mudanças aceleradas dentro do sistema climático, resultantes de alterações antropogênicas da composição atmosférica. A mudança no balanço energético global causada pelo aumento das concentrações de gases de efeito estufa leva a padrões alterados de clima em todo o mundo. As mudanças não ocorrem necessariamente de forma linear ao longo do tempo, nem ocorrem uniformemente em todo o mundo.

alto-crew-524959-unsplash
Foto de Alto Crew

O aquecimento global pode ser verdade mesmo se tivermos um inverno mais frio?

O aquecimento global refere-se ao aumento global da radiação líquida que chega ao planeta como um todo (como resultado da composição alterada da atmosfera). Essa energia recebida é redistribuída em todo o planeta pela atmosfera e pelos oceanos, que impulsionam o sistema climático e criam padrões variados de calor e umidade em todo o mundo. Um inverno rigoroso em uma parte do mundo não é contraditório ao aquecimento global médio.

Por que estamos planejando a mudança climática? Não devemos concentrar nossos esforços em tentar pará-la?

As intervenções antropogênicas que já ocorreram mostram que já estamos vinculados a um sistema climático alterado e não há como evitar mudanças aceleradas na temperatura, na precipitação e nos níveis do mar. Assim, além de tentar limitar a mudança reduzindo as emissões, devemos também entender e gerenciar os riscos climáticos, que são inevitáveis.

markus-spiske-1439579-unsplash
Foto de Markus Spiske

Se a mudança climática não vai acontecer por um longo tempo, por que planejar isso por enquanto?

A mudança climática não é apenas uma coisa do futuro. Embora as mudanças de curto prazo possam ser menos extremas do que as mudanças projetadas para 2100, a alteração no clima já está ocorrendo e os riscos nos próximos 50 anos podem ser significativamente diferentes dos riscos atuais. É por isso que a adaptação flexível aos riscos das mudanças climáticas é tão importante e é uma das principais razões para escrever essas diretrizes.

matt-artz-444891-unsplash
Foto de Matt Artz

Quais os sinais visíveis da mudança climática ?

Há fortes evidências de aquecimento climático nas últimas décadas a partir de observações de aumentos na temperatura média global do ar e dos oceanos, derretimento de neve e gelo e aumento do nível do mar. O último relatório do Painel Internacional sobre Mudança Climática afirma que os lençóis de gelo da Groenlândia e da Antártida têm perdido massa, assim como a maioria das geleiras do mundo, o gelo do mar Ártico e a cobertura de neve da primavera também continuam a diminuir. O relatório também conclui que a elevação do nível do mar desde meados do século XIX tem sido maior do que a taxa dos dois milênios anteriores e aumentou em média 0,19 milhões desde 1901. Embora nenhuma mudança global consistente na precipitação seja observável, há evidências substanciais de mudanças zonais, como o aumento da precipitação média nas latitudes médias do hemisfério norte sobre a Terra que ocorreram desde a década de 1950. Aumentos na freqüência de eventos de precipitação pesada foram observados na Europa e na América do Norte, e aumentos na frequência e severidade das secas foram observados em grande parte do Hemisfério Norte. Estudos de atribuição sugerem que essas mudanças excedem o que pode ser explicado pela variabilidade natural do sistema climático.

 william-bossen-120685-unsplash.jpg

Foto de William Bossen

Fatos curiosos

  • Fato 1 : a NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica) e outras agências concordam que a mudança climática é real e é causada principalmente pela atividade humana.
  • Fato 2: A temperatura média global é atualmente de 14°C. Os cientistas preveem que ela pode subir outros 6°C no século 21, se nada for modificado.
  • Fato 3: A temperatura média global é calculada usando vários registros de temperatura em todo o mundo, reunidos pela NOAA, e verificados por outras agências, incluindo a NASA.
  • Fato 4: Normalmente, a luz solar irradia através da atmosfera da Terra e aquece a superfície, depois volta ao espaço. O aquecimento global ocorre quando o calor é retido pelos gases do efeito estufa e, em vez de irradiar de volta, continua a aquecer a superfície da Terra, elevando as temperaturas.
  • Fato 5: Embora a Terra tenha passado por temperaturas mais altas do que as de hoje, a taxa de aquecimento agora desestabilizou e acelerou, criando condições nas quais os humanos acharão cada vez mais difícil prosperar.
  • Fato 6: 2014 foi registrado como o ano mais quente do mundo na história. Embora o aumento da temperatura tenha ocorrido em todo o mundo, os pontos mais quentes incluíram o oeste dos EUA, o leste da Rússia chegando ao Alasca, pontos no interior da América do Sul e a maior parte da Europa até o norte da África.
  • Fato 7: A atividade solar afeta definitivamente a temperatura da Terra, pois é a principal fonte de energia natural. No entanto, os cientistas dizem que a atual mudança climática não é devida apenas ao aumento da atividade solar, porque ao invés de um aquecimento uniforme em todo o mundo, há aquecimento em certas áreas e resfriamento em outras.
  • Fato 8: A atmosfera superior da Terra está esfriando enquanto a baixa atmosfera está aquecendo, devido ao aprisionamento do calor na baixa atmosfera provocado pelos gases do efeito estufa.
  • Fato 9: Tempo frio ou neve não significam que as temperaturas globais não estão subindo, pelo contrário. Os climas mais quentes demonstram a existência de mais vapor de água no ar, o que, por sua vez, significa mais chuva e neve a longo prazo.
  • Fato 10: Os gases de efeito estufa são formados por:

→ Vapor de água – ocorre normalmente na atmosfera autoperpetuante.

→ Óxido Nitroso – gerado pelo cultivo de solo, uso de combustível fóssil, produção de ácido nítrico e queima de biomassa.

→ Metano – gerado por processos naturais e atividades humanas, como cultivo de arroz, manejo de esterco doméstico e decomposição de resíduos.

→ Dióxido de Carbono – Um componente da atmosfera da Terra gerado por processos naturais, incluindo erupções vulcânicas e respiração, também geradas por atividades humanas, especialmente a queima de combustíveis fósseis.

→ Clorofluorcarbonos (CFCs) – um composto feito pelo homem que foi usado em muitos processos de fabricação e outros bem regulados agora.

  • Fato 11: Gases do efeito estufa, como o dióxido de carbono, elevam a temperatura da Terra, que por sua vez aumenta o nível de vapor d’água no ar. O vapor de água em si é um gás de efeito estufa que também provoca a elevação da temperatura.
  • Fato 12: O buraco da camada de ozônio não tem muito a ver com a mudança climática. Ele consiste no afinamento da camada de moléculas de ozônio na atmosfera, causada por clorofluorcarbonos que costumavam ser usados de forma generalizada na fabricação. A camada de ozônio impede que muitos raios ultravioleta atinjam a Terra.
  • Fato 13: Um orçamento de US$ 40 milhões foi alocado para pesquisas sobre mudança climática desde 1990.
  • Fato 14: Devido ao efeito estufa, a temperatura média da terra é de 15 graus ao invés de -18 graus.
  • jens-johnsson-415871-unsplash
    Foto de Jens Johnsson
  • Fato 15: O dióxido de carbono constitui apenas 3,6% do total de gases de efeito estufa, dos quais 0,12% são atribuídos às atividades humanas.
  • Fato 16: O dióxido de carbono não é o único gás contribuinte para as mudanças climáticas. Outros gases, como o metano e o óxido nitroso, são muito mais perigosos do que o dióxido de carbono.
  • Fato 17: O Painel Intergovernamental das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (IPCC) é um dos principais órgãos que lutam contra as mudanças climáticas. Essa entidade é política e não científica.
  • Fato 18: O Protocolo de Kyoto, acordo internacional firmado para analisar e lutar contra as mudanças climáticas, custará mais de 100 trilhões de dólares, fazendo com que comunidades em desenvolvimento e subdesenvolvidas participem.
  • Fato 19: De acordo com o Programa Mundial de Alimentos (WPF.org), 375 milhões de pessoas são afetadas anualmente por desastres causados por mudanças climáticas. 
  • Fato 20: Nos últimos 50 anos, a concentração de dióxido de carbono na atmosfera aumentou em 30% devido à queima de combustíveis fósseis e emissões de gases de efeito estufa, como dióxido de carbono, óxido nitroso e outros gases, aprisionando mais calor na baixa atmosfera.
  • Fato 21: O aumento das temperaturas causará mais mortes, não por razões naturais, mas como resultado de superaquecimento e disseminação rápida de doenças mortais.
  • Fato 22: Exemplos clássicos de mudanças climáticas podem ser vistos por meio de danos causados pelas fortes chuvas e desastres como o furacão Katrina em 2005.
  • Fato 23:  95% das mortes causadas por mudanças no clima ocorrem em países em desenvolvimento.
  • Fato 24: A mudança climática pode causar sérios impactos à saúde, como estresse por calor, frio extremo, levando a mortes provocadas por doenças cardíacas.
  • Fato 25: Muitas variedades de flora também morrem devido a ambientes inóspitos – a mais conhecida são os corais.
  • Fato 26: A mudança climática aumentou o número e a variedade de pragas que disseminam doenças, como a dengue e a malária.
  • Fato 27: A mudança climática causa mais de 600.000 mortes anualmente, algumas delas devido a doenças causadas pelo aumento da temperatura.
  • Fato 28: Muitas doenças também são provocadas pela contaminação da água transportada para áreas atingidas pela seca.
  • Fato 29: As doenças transmitidas pela água contaminada pelas enchentes mataram mais de três milhões de pessoas desde 2005.
  • Fato 30: Os preços dos alimentos aumentaram e continuarão a subir cerca de 60% até 2030, devido aos efeitos das mudanças climáticas nas lavouras e na pecuária.

Alguma atitude pode e deve ser tomada em relação às mudanças climáticas, seja em grande escala, por meio de governos, empresas e comunidades, ou mediante um esforço individual para reduzir as emissões de gases com efeito de estufa. A hora para começar já passou e não existe um Planeta B.

Leia também:
Como as áreas alagadas podem influenciar na mudança climática

É possível utilizar somente ENERGIA RENOVÁVEL no planeta?

Enchentes são nossa culpa?!

O planeta está aquecendo ou resfriando?

 

Referência:

Relatorio IPCC, NASA e NOAA

Os melhores amigos do homem? – Como cães e gatos podem prejudicar nossos ecossistemas

Cães e gatos são, sem dúvida, os animais mais presentes em nosso dia-a-dia. Há pelo menos 14.000 anos e 9.000 anos, respectivamente, esses animais desempenham diversas funções em nossas vidas, como no auxílio para a caça, pastoreio, proteção, transporte, alimentação, controle de pragas e companhia, sendo também muito importantes para a cultura de diversos países. Entretanto, por mais que esses animais sejam de extrema importância para nós e que sejam amados pela maior parte da população, eles podem representar grandes riscos ao meio ambiente.

Resultado de imagem para dog  sledding
Cães e gatos fazem parte de culturas por todo mundo, sendo incrivelmente importantes para a sociedade de muitos países

Resultado de imagem para house cat

Dentro das cidades, a presença de cães e gatos tende a diminuir a diversidade de pequenos animais, como aves e lagartos, em quintais e jardins do mundo todo, uma vez que esses pets espantam e caçam a fauna selvagem. Caso esse comportamento fosse mantido apenas dentro das zonas residenciais, o impacto já seria muito grande. Ainda assim, a maior parte dos gatos domésticos pode vagar livremente, saindo de sua casa quando tem vontade e, dos 900 milhões de cães vivos no mundo, apenas 83% ficam presos, a maioria vivendo soltos em cidades e em zonas rurais.

Resultado de imagem para farm dog
Cães e gatos em zonas rurais frequentemente matam pequenos animais, o que pode impactar a fauna local

Para mensurar o impacto de gatos domésticos na vida selvagem, pesquisadores desenvolveram diversos projetos por todo o mundo, com resultados alarmantes. Estima-se que, somente na Inglaterra, gatos sejam responsáveis pela morte de mais de 70 milhões de animais todos os anos. Dados do Smithsonian Conservation Biology Institute apontam que, nos Estados Unidos, esses felinos matam entre 1.3 a 3.7 bilhões de aves e entre 6.3 a 22.3 bilhões de mamíferos. Em arquipélagos, as situações são ainda mais assustadoras, uma vez que o alto índice de endemismo faz com que muitas espécies estejam susceptíveis às extinções. Na Austrália, esses invasores já foram diretamente responsáveis pela extinção de 20 mamíferos nativos e por ameaçar ainda hoje mais 124.  Na Nova Zelândia, o governo propôs, inclusive, o extermínio desses animais, que foi realizado em pequenas ilhas do país.

cat eating mouse
Gato feral na Austrália – Foto por Taavo Kuusiku

Programas de eliminação dessa espécie exótica, entretanto, nem sempre se mostram efetivos. Ao eliminar os gatos de algumas ilhas da Oceania, a população de ratos (também introduzido) aumentou drasticamente, ameaçando ainda mais a fauna local. Esse tipo de desequilíbrio mostrou-se problemático, uma vez que se observa a presença de ratos na maior parte das ilhas nas quais gatos foram também introduzidos, o que leva os pesquisadores a questionarem a eficiência dessas ações.

Imagem relacionada
Pragas de ratos são comuns por toda a Oceania em áreas com ausência de gatos

Os cães domésticos, por sua vez, possuem um impacto direto menos significativo. Entretanto, o abandono excessivo, somado à falta de barreiras físicas que impeçam a fuga de grande parte desses animais, contribuiu para o surgimento de grandes populações ferais, ou seja, quando um animal doméstico adquire características que permitem sua sobrevivência na natureza. Grandes matilhas de cães ferais vivem hoje na América do Sul, Europa e Ásia, onde caçam desenfreadamente grandes herbívoros e ameaçam mais de 200 espécies pelo mundo. Impactam, também, nas populações de grandes carnívoros, por transmitirem doenças e oferecerem intensa competição.

A free-ranging dog chases a blackbuck in Vetnoi of Indian state of Orissa
Cachorro feral caçando um antílope (acima) e um cervo (abaixo) , na Índia – PITAM CHATTOPADHYAY e VIKASPATIL

Dogs attack a spotted deer in Karnata state of south India

O extermínio de cachorros também é empregado, nos casos em que esses carnívoros ameacem diretamente a fauna afetada ou vidas humanas. Em Bucareste, na Romênia, a população de cães de rua com comportamentos ferais cresceu drasticamente nas últimas décadas. Somente em 2012, mais de 16.192 pessoas foram mordidas por cães na cidade e, em 2013, uma criança de quatro anos foi atacada e morta, o que gerou extremo descontentamento popular com esses animais. Desde então, mais de 25 mil desses canídeos foram mortos por agentes governamentais. No Chile, por sua vez, grandes matilhas passaram a viver nos arredores de Santiago, caçando e matando veados ameaçados locais, o que gerou a liberação da caça de cães.

Imagem relacionada
Bucareste possui uma das maiores populações de cães de rua do mundo, mesmo após o extermínio em massa desses animais

Então, o que devemos fazer? Primeiramente, vale ressaltar que a culpa por esses acontecimentos é exclusivamente nossa e que erros humanos não devem justificar o mau-trato a esses organismos. O abandono e o manejo incorreto desses animais fazem com que eles ofereçam riscos, não só para as pessoas, mas para todo o ecossistema, o que deve ser tratado de forma extremamente delicada. O governo neozelandês e ONGs locais vêm incentivado a população a castrar seus gatos e a não adquirir um novo após eles morrerem, o que poderia extinguir os gatos do país até 2050. Essa orientação vem sendo copiada por alguns países insulares. A Holanda, por sua vez, conseguiu acabar com todos os cães de rua do país, por meio de amplas campanhas de sensibilização da população, de feiras de adoção e da promoção da castração gratuita para animais domésticos. Já o Chile e a Nova Zelândia capturam cães e gatos ferais e os devolvem à natureza após a sua castração, o que evita o crescimento populacional.

Imagem relacionada
Após castrados, gatos da Nova Zelândia retornam à natureza, impossibilitando a geração de impactos nas gerações futuras.

Para oferecer segurança às pessoas e aos animais, devemos ter a consciência de que cães e gatos são organismos que, como qualquer outro, têm o poder de impactar em seu ambiente. Ao mantermos gatos e cães em casa, fora dos momentos de passeio, evitamos a morte desenfreada de inúmeras espécies nativas. Além disso, a castração é uma excelente opção para quem possui animais soltos, uma vez que impede a reprodução indesejada e, consequentemente, evita o abandono, reprimindo, também, o sofrimento animal. Devemos evitar ao máximo alimentar cachorros e gatos de rua em ambientes como parques, uma vez que estes lugares abrigam uma enorme variedade de vida selvagem, que pode correr riscos com a presença desses animais . Por fim, devemos lembrar que, além de nossos amigos, esses seres são nossa responsabilidade e que, cuidando bem do seu pet, você estará também zelando pelo nosso planeta.

Resultado de imagem para street dog netherlands
Atualmente, nenhum cão vive nas ruas da Holanda, que é considerado o lugar do mundo com o maior bem estar canino.

Referências

https://theconversation.com/the-bark-side-domestic-dogs-threaten-endangered-species-worldwide-76782

https://www.bbc.com/news/science-environment-47062959

https://cascadesraptorcenter.org/articles/the-effects-of-cats-on-wildlife

https://www.smithsonianmag.com/science-nature/moral-cost-of-cats-180960505/

https://www.protectnatureto.org/wp-content/uploads/2017/07/Impacts-of-dogs-on-wildlife-10-Aug-16.pdf

https://www.clintonherald.com/news/local_news/feral-cat-program-plans-forwarded/article_2dc67114-3caa-56fd-9747-5cc7713567ae.html

Artigo publicado na Nature “The impact of free-ranging domestic cats on wildlife of the United States” – https://www.nature.com/articles/ncomms2380

 

 

Como as áreas alagadas podem influenciar na mudança climática

Os cientistas desenterraram e juntaram provas em mais de mil locais antigos de zonas úmidas de todo o mundo, que estão atualmente cobertos por campos, florestas e lagos. Penhascos, pedreiras, construções de estradas e amostragem científica revelaram depósitos de terras úmidas, ricas em carbono, enterrados sob outros tipos de solos e sedimentos.

Muitas zonas úmidas são caracterizadas por depósitos espessos de material vegetal (ou turfa) não decomposto, que é frequentemente preservado, indicando a presença de zonas úmidas em anos anteriores. Os pântanos enterrados frequentemente incluíam pântanos costeiros que haviam sido inundados pelo aumento do nível do mar e áreas alagadas que haviam sido enterradas por geleiras, inundações ou sedimentos depositados pelo vento.

ecologicalservices_pd2_coastalwetlands.jpg

Dados globais

Os pesquisadores compilaram as informações sobre esses depósitos de terras úmidas enterradas, inclusive onde foram encontrados, quando se formaram e por que foram enterrados. O estudo foi conduzido pelo Dr. Treat, na Universidade da Finlândia Oriental, e pelo Dr. Thomas Kleinen, no Instituto Max Planck de Meteorologia na Alemanha. A Dra. Claire Treat, da Universidade do Leste da Finlândia, salientou: “Ficamos muito surpresos quando começamos a combinar os nossos dados de diferentes locais ao redor do mundo. Pensamos que seriam apenas alguns dados e acabaram sendo apenas a ponta do iceberg.

“Quando começamos a procurar mais exemplos de estudos anteriores, identificamos mais de 1.000 locais de áreas úmidas (wetlands) enterradas em todo o mundo”. Dra. Claire Treat

Tidal-Wetlands_Paul-Crockett_crop.jpg

Os locais de zonas úmidas enterradas foram encontrados, desde as altas ilhas do Árctico, do Canadá e da Sibéria, até a África tropical e Indonésia, ao sul do nosso continente e Nova Zelândia. Alguns se formaram a menos de 1.000 anos atrás, enquanto outros se formaram durante o período de clima quente entre as duas últimas glaciações, há mais de 100.000 anos.

Novas descobertas

Usando esses registros de presença de zonas úmidas desde o início do último interglacial, há 130 mil anos, os pesquisadores descobriram que as zonas úmidas nas latitudes norte respondiam às mudanças no clima. Muitas zonas úmidas foram formadas quando o clima era mais quente e muitas delas foram enterradas durante períodos de avanço glacial e resfriamento do clima. Quando estava frio, poucas novas terras úmidas se formaram até o clima se aquecer novamente. Alguns destes sedimentos de turfa enterrados permanecem até hoje.

Essas novas descobertas de picos generalizados enterrados sugerem que, em geral, o enterro de turfa pode resultar na lenta transferência de carbono da atmosfera para a terra, compensando uma pequena parte do aquecimento climático no passado.

O Dr. Treat afirmou: “O fato das turfas estarem enterradas e permanecerem em terra é basicamente como um vazamento inverso no que normalmente consideraríamos um sistema fechado de como o carbono se move ao redor da Terra, da atmosfera para a terra e os oceanos.

“Essa nova descoberta não está representada em nossos modelos do ciclo de carbono global e pode ajudar a explicar alguns comportamentos que diferem entre modelos e observações”.

Os resultados também sugerem que as áreas úmidas atuais podem continuar a compensar as concentrações crescentes de CO2 atmosférico, à medida que o clima se aquece, caso permaneçam inalteradas pela drenagem e pelos incêndios florestais.

PrairePotholeRegion_USFWSMountainPriaire_new-1280x685.jpg

De acordo com o estudo, as áreas úmidas de solos congelados do hemisfério norte e das regiões tropicais armazenam mais de 600 pentagramas de carbono. Isso corresponde a mais de dois terços do total de carbono presente na atmosfera, e quase a mesma quantidade presente na biomassa florestal global.

As wetlands ou zonas úmidas são muito vulneráveis às alterações no uso e ocupação do solo causados por ações antrópicas. Essas mudanças interferem no sequestro de carbono na atmosfera e suas características estarão associadas, em geral, à condições locais.

A importância das wetlands enterradas não está associada somente ao ecossistema e à preservação de espécies. Ela também é um meio de reduzir a quantidade de gases de efeito estufa, minimizando o impacto do homem na atmosfera.

 

 

Referência: 

Baseado em um comunicado de imprensa da Universidade da Finlândia Oriental.

 Artigo : Wetlands In a Changing Climate: Science, Policy and Management

O Fim dos Gigantes – Conheça o papel do ser humano na extinção dos animais pré-históricos

Imagine uma grande savana, repleta de herbívoros pastando, equinos selvagens, macacos e aves. Grandes mamíferos semi-aquáticos dividem os rios com enormes crocodilianos, enquanto as áreas abertas abrigam grandes manadas de elefantes e grandes animais pescoçudos, que se alimentam de folhas de acácias. Felinos de grande porte caçam em bandos familiares e grandes migrações cortam todo o continente, seguindo as chuvas sazonais. Embora pareça um clássico cenário de um safári africano, estamos falando da América do Sul, há cerca de 20 mil anos. Ecossistemas complexos, recheados com animais gigantes, eram extremamente comuns em todos os continentes, com exceção da Antártida, até pouco mais de 40 mil anos atrás. O que aconteceu com essa fauna? Por que, de todos os locais do planeta, a África foi o lugar em que mais se preservou desde o Pleistoceno? E, afinal, a culpa foi nossa?

Imagem relacionada
Megafauna da América do Sul durante o Pleistoceno – Por Maurício Antón

Para entender o desaparecimento dos grandes animais, devemos entender, primeiro, quem eles são e como era o mundo durante os últimos milhares de anos. Megafauna é um termo utilizado para se referir a quaisquer animais com mais de 40kg, segundo alguns autores, e com mais de 100kg, segundo outros. Para nosso texto, consideraremos o primeiro conceito, por abranger grande parte da megafauna extinta. Há cerca de 21 milhões de anos, um longo período de glaciações tornou o clima terrestre extremamente seco, o que promoveu a redução de florestas e o aparecimento de grandes savanas e pradarias por todo o mundo. A ampla disponibilidade de alimento e a pressão seletiva de grandes predadores permitiu uma rápida diversificação de grandes herbívoros, que consequentemente geraria a seleção de carnívoros cada vez maiores. Há 6 milhões de anos, a expansão do gelo na Antártida tornou o planeta ainda mais frio e seco, fazendo com que as pradarias fossem os maiores ecossistemas em terra firme.

Savana africana há 2 milhões de anos – Por Maurício Antón

Entretanto, o reinado da megafauna começaria a ruir há cerca de 3 milhões de anos. Desde o final do Mesozóico, a América do Sul vivia isolada do resto do mundo, possuindo animais e plantas totalmente endêmicos, como tatus e preguiças gigantes, tamanduás, grandes ungulados, marsupiais carnívoros e aves do terror. Mudanças geológicas durante o Plioceno, há 2,7 milhões de anos, conectaram a América do Norte à América do Sul, gerando o Grande Intercâmbio Interamericano, no qual diversas ondas de migração permitiram trocas faunísticas entre os continentes. A entrada em massa de herbívoros vindos do norte causou uma enorme pressão nas populações de ungulados sul-americanos, que aos poucos foram se extinguindo até restarem poucas espécies. Por outro lado, a chegada de onças e tigres-dentes-de-sabre eliminou a presença das grandes aves carnívoras e marsupiais predadores nos ecossistemas neotropicais.

Resultado de imagem para pliocene south america paleoart
Ecossistema sul-americano do Mioceno, com a presença de grandes condores, marsupiais carnívoros, notoungulados e preguiças-gigantes – Por Oscar Sanisidro
Resultado de imagem para pliocene south america paleoart
O Grande Intercâmbio Interamericano permitiu a chegada de diversos mega-herbívoros no continente, como elefantes (Cuvieronius hyodon) e antas (Tapirus sp.) – Artista desconhecido
A chegada de tigres-dentes-de-sabre afetou, tanto  as populações de herbívoros nativos (acima), quanto de outros carnívoros, como as aves-do-terror (abaixo) – Por Maurício Antón e Julio Lacerda

Resultado de imagem para terror bird paleoart

A onça-pintada (Panthera onca) é um dos animais provenientes da América do Norte que ainda vivem em nossa fauna. Nessa imagem, a onça é cercada por Glyptodon reticulatus adultos após matar um filhote – Por Velizar Simeonovski

Enquanto isso, um novo grupo de animais surgiu na África, que mudaria para sempre o curso da história do planeta: os hominíneos. Esses estranhos primatas que viviam em grandes grupos familiares começaram a criar ferramentas há cerca de 3,1 milhões de anos, o que rapidamente moldou a sua evolução. Em milhares de anos, nossos ancestrais transformaram-se, de coletores e carniceiros a caçadores ativos, que utilizavam tecnologias relativamente complexas para matar grandes animais. Rapidamente, o gênero Homo se espalhou por toda África e, no meio do Pleistoceno, já havia colonizado a Ásia e Europa. Nessa época, diversas espécies de girafídeos, camelídeos, elefantes e carnívoros foram extintos pela África e Ásia, provavelmente devido à expansão humana.

Resultado de imagem para Mauricio Anton
Caçadores Homo habilis – Por Maurício Antón

O final do Pleistoceno foi marcado por diversas mudanças no planeta. Há cerca de 130.000 anos, uma onda de extinções ocorreu por todo o Hemisfério Norte, varrendo ecossistemas inteiros, devido ao rápido ciclo de avanços e retrações de geleiras pelos continentes. Setenta mil anos atrás, uma nova onda de extinções varreu a Ásia e Europa, mas, dessa vez, a culpa provavelmente foi nossa. Embora pareça impossível que a megafauna tenha sido extinta por primatas relativamente pequenos, a reprodução extremamente lenta desses animais e a preferência humana por caçar filhotes foi um fator determinante para o declínio dos mega-herbívoros, que provocou o declínio subsequente dos mega carnívoros. Após a extinção dos mamutes na Sibéria, há 10 mil anos, o solo foi sendo compactado e se tornou praticamente infértil, extinguindo os grandes ecossistemas no norte da Ásia.

Resultado de imagem para pleistocene glaciation julio lacerda
Humanos caçando um rinoceronte-lanoso – Por Julio Lacerda
Resultado de imagem para tundra paleoart
Os mamutes eram indispensáveis para a complexidade dos ecossistemas na Sibéria – Por Beth Zaiken

Há cerca de 45 mil anos, a chegada dos seres humanos na Austrália coincide com o declínio da megafauna. Nessa grande área, diversos marsupiais do tamanho de rinocerontes conviviam com lagartos gigantes e com leões-marsupiais. Provavelmente, o uso do fogo para limpar pastagens e para atrair grandes herbívoros para áreas de caça foram o principal fator para o declínio tão acentuado desses animais tão estranhos.

Resultado de imagem para thylacoleo Mauricio Anton
Thylacoleo e o canguru-gigante são exemplos da megafauna australiana extinta pelo homem – Por Maurício Antón
Resultado de imagem para australia paleoart
Wombates-gigantes eram frequentemente caçados pelo Megalania, um lagarto de 6 metros – Por Laurie Beirneil

A chegada do ser humano na América do Norte pelo Estreito de Bering, há 15 mil anos,  comprometeu ainda mais as populações já fragilizadas pela retração de geleiras. Nessa época, grande parte da megafauna icônica da Europa, Ásia e Austrália já havia desaparecido completamente. As diversas ondas migratórias pelas Américas impactaram diferentes grupos de animais em épocas distintas, mas os mega-herbívoros (com mais de 1000 kg) foram os primeiros a desaparecer. Além disso, os humanos locais ainda roubavam caças provenientes dos ataques dos lobos-gigantes e tigres-dentes-de-sabre, o que também reduziu suas populações.

Resultado de imagem para mastodon paleoart
Mastodontes desapareceram há cerca de 11 mil anos – Por Roman Yevseyev

Na América do Sul, por sua vez, poucos dados apontam causas reais para a extinção da megafauna, mas, com certeza, o homem também possui certo nível de culpa. A maior parte dos grandes animais do Pleistoceno sumiu completamente do continente há cerca de 13 mil anos (que também coincide com a chegada humana), deixando enormes ecossistemas vazios em seu caminho. Estima-se que o Cerrado, que ainda hoje é a savana mais biodiversa do mundo, teria muito mais animais gigantes que a África, caso o ser humano não tivesse colonizado o continente.

Resultado de imagem para pliocene paleoart
Savana sul-americana antes da chegada dos humanos no continente
Imagem relacionada
Tigre-dentes-de-sabre (Smilodon populator) e preguiça-gigante (Megatherium americanum) extintos entre 11 e 7 mil anos atrás – Por Rodolfo Nogueira

Por fim, as colonizações do Caribe (6 mil anos atrás), das ilhas do pacífico (3 mil anos), de Madagascar (2 mil anos) e da Nova Zelândia (700 anos) dizimaram rapidamente a frágil megafauna insular do mundo. As últimas preguiças-gigantes do mundo morreram há 5 mil anos em uma pequena ilha do Caribe, mais de mil anos depois da invenção do vinho. Os últimos mamutes, por sua vez, morreram há 2650 anos, após a construção das Pirâmides do Egito mais famosas. Pouco a pouco, o mundo foi obtendo a formação faunística que conhecemos hoje, grande parte por nossa culpa.

Resultado de imagem para diornis paleoart
Moa (Diornis spp.), ave extinta de 3 metros de altura da Nova Zelândia – Por Mark A. Garlick

Embora a África tenha sido o primeiro continente afetado pela ação humana, ele foi o menos atingido pela extinção em massa entre o Pleistoceno e o Holoceno. Parte disso se deve à sua geolocalização, uma vez que seus ciclos climáticos não foram tão alterados pelas glaciações. Além disso, a evolução dos hominíneos nesse local contribuiu para a maior resistência da megafauna ao homem, uma vez que evoluíram em conjunto por milhões de anos. As colonizações humanas em outros continentes foram extremamente rápidas, impedindo a seleção de características mais vantajosas que permitiriam as adaptações necessárias para a sua sobrevivência.

stuart_2015_megafauna-extinctions-001
Principais espécies da megafauna de cada continente, com espécies viventes (verde) e extintas (preto). A África é o continente com a megafauna mais bem preservada desde o Pleistoceno.

 

Nos últimos milênios, o ser humano extinguiu mais de 83% das espécies de mamíferos do nosso planeta, o que contribuiu para a destruição de redes tróficas complexas e ecossistemas inteiros. Em nossa presença, as espécies se extinguem cerca de mil vezes mais rápido do que ocorreria em condições normais, número este que só aumenta com a degradação ambiental, introdução de espécies exóticas e caça predatória, crescentes a cada ano pelo mundo.

Resultado de imagem para Current and estimated present-natural diversity patterns
Comparação entre densidade atual de diferentes grupos de animais (esquerda) e densidade esperada caso as extinções do Pleistoceno não tivessem ocorrido (direita) – Por Svenning et. al.

A megafauna de nosso planeta está em risco. Temos extinguido nossa grande fauna há milhares de anos e, com ela, extinguimos também redes complexas de interações que ocasionam o desaparecimento de diversos outros organismos. Se não tomarmos cuidado, em poucos anos nossos elefantes, rinocerontes, tigres e leões terão seguido o caminho de seus antigos vizinhos. Precisamos ter a consciência de que o espaço em que vivemos já pertenceu a inúmeros organismos extintos e que, cabe a nós, impedir que esse erro continue se repetindo.

SubwayMammothWeb
Representação da fauna do Pleistoceno no centro da cidade de Los Angeles – Por Brian Engh

Referências

Extant Megafauna Frugivores

https://www.theguardian.com/environment/2018/may/21/human-race-just-001-of-all-life-but-has-destroyed-over-80-of-wild-mammals-study

https://www.bbc.com/news/science-environment-41417633

Artigos

Science for a wilder Anthropocene: Synthesis and future directions for trophic rewilding research – Jens-Christian Svenning, Pil B. M. Pedersen, C. Josh Donlan, Rasmus Ejrnæs, Søren Faurby, Mauro Galetti, Dennis M. Hansen, Brody Sandel, Christopher J. Sandom, John W. Terborgh, and Frans W. M. Vera

Megafauna and ecosystem function from the Pleistocene to the Anthropocene
Yadvinder Malhi, Christopher E. Doughty, Mauro Galetti, Felisa A. Smith, Jens-Christian Svenning, and John W. Terborgh

 

 

Minimalismo e o Ambientalismo: movimentos que andam lado a lado

Você já se perguntou sobre a história do minimalismo e o que o minimalismo, como estilo de vida, realmente significa? É provável que você tenha ouvido falar sobre isso, mesmo que você não pratique. Há uma história interessante sobre a prática do minimalismo que, além de trazer às pessoas uma vida mais plena e feliz, ajuda o meio ambiente.

O que é o minimalismo como estilo de vida?

O minimalismo moderno é uma prática de consciência e intenções em relação a seus pertences, tempo e energia. Algumas pessoas erroneamente tentam usar a palavra da mesma forma que você faria para o design minimalista, que seria “caracterizado pela extrema escassez”. Minimalismo é uma prática porque é feito de forma consciente e consistente. Não existem regras ou padrões para definir um minimalista. O objetivo não é atingir a perfeição ou um estado obsessivo. É priorizar e viver de uma maneira que pareça completa e autêntica.

Minimalistas colocam ênfase nos pertences porque acreditam que os ambientes em que moram e o que consomem afetam grandemente todos os outros aspectos de suas vidas. Todos os nossos pertences exigem algo de nós, seja nosso tempo, nosso foco, nossa energia. Com o minimalismo, há um foco maior naquilo que realmente importa, praticando a consciência dos pertences que possuímos e de como eles nos afetam. A diminuição é na quantidade, focando na qualidade.

É uma mudança de mentalidade

Minimalismo é uma mudança de mentalidade como qualquer outra área de melhoria focada. Quando você decide ficar saudável, por exemplo, você precisa mudar sua mentalidade sobre comida e exercício. Como o minimalismo tem uma forte ênfase na priorização, ele naturalmente continua em outras áreas de sua vida. Então, enquanto você pode começar por organizar sua casa, você acaba também agilizando sua agenda e priorizando seus relacionamentos. Ao invés de comprar aquilo que você já possui, o minimalismo é focado em coisas duráveis e de qualidade que serão úteis por muito mais tempo. Sua mente começa a filtrar as coisas de maneira diferente por meio de uma prática construída sobre o que realmente importa.

Imagem relacionada

História do Minimalismo

Se você está procurando por algumas origens distantes do minimalismo, pode realmente encontrar menções ao longo da história. Muitos grupos religiosos, do budismo ao cristianismo, têm alguma menção de renunciar posses para ganhar foco espiritual ou sabedoria. Alguns exemplos mais extremos incluem monges budistas e freiras católicas. Isso apenas lhe dá uma ideia de até onde os princípios da redução de pertences podem contribuir para o ganho em áreas de maior importância.

Agora, se você procurar uma definição de minimalismo em um dicionário oficial provavelmente não encontrará o que procura. Isso porque, até muito recentemente, a palavra minimalismo não era usada para definir um estilo de vida. De fato, originalmente não tinha nada a ver com desordem ou pertences. O termo minimalismo tornou-se popular nos anos 50 e 60 para tendências simplistas, primeiro na música e depois na arte e no design. As ideias eram as mesmas, para remover tudo, exceto o instrumento ou as peças de design.

À medida que o minimalismo se tornou popular no design e na arquitetura das casas, as pessoas começaram a perceber os aspectos visualmente atraentes do minimalismo para si mesmos. Mas isso foi apenas o começo.

Resultado de imagem para minimalist architecture
Arquitetura Minimalista

Minimalismo é um movimento em direção à simplicidade e longe do consumismo.

Minimalismo e sua relação com o meio ambiente

O consumismo como conhecemos se iniciou na Revolução Industrial. Foi quando mudamos de produtos artesanais para produtos industrializados e começamos a produzir em massa. A produção em massa levou à superprodução.

Naomi Klein, em seu livro This Changes Everything, diz que “a verdade é que, se quisermos viver dentro dos limites ecológicos, precisaremos retornar um estilo de vida semelhante ao que tivemos nos anos 70, antes que os níveis de consumo enlouquecessem nos anos 80 ” Até mesmo o papa Francisco, em sua encíclica, culpou a “cultura do consumismo” pela mudança climática.

A fast fashion, por exemplo, cresceu como uma indústria por causa do consumo excessivo. De acordo com um artigo de Sarah Ripper, da Uplift, as pessoas estão comprando 400% mais roupas do que há 20 anos, e os impactos ambientais são surpreendentes. Em 2014, verificou-se que 85% dos materiais produzidos pelo homem encontrados nas margens dos oceanos eram de microfibras, materiais sintéticos usados ​​em roupas. Além disso, para produzir a demanda de 2 bilhões de jeans por ano são necessários 7.000 litros de água para cada peça. Com tudo isso em mente, é hora de as pessoas adotarem um estilo de vida mais simples e consumirem menos.

Resultado de imagem para fast fashion

O minimalismo é apenas para os privilegiados?

O minimalismo, no entanto, gera alguns debates sobre a tendência dessa prática ser apenas para os privilegiados e para aquelas pessoas que possuem acesso ao conhecimento. Um artigo de Kyle Chaka, publicado no New York Times, discute como a tendência atual sobre o minimalismo se baseia em “capital social, uma rede de segurança e acesso à internet”. Além disso, o artigo considera o minimalismo de hoje como “arrogante” e que ele apenas nos faz consumir “mais de menos”. Porém, segundo pesquisa do IBOPE, as Classes A e B representam 53% do potencial de consumo no Brasil. Dessa forma, mesmo que a onda minimalista seja de maior acesso elitista, essa prática vai abranger aqueles que mais consomem, reduzindo assim grande parte da geração de resíduos para o meio ambiente.

No mesmo estudo mencionado anteriormente, os pesquisadores descobriram que “o consumismo era muito mais alto nos países ricos do que nos países pobres e que aqueles com as taxas mais altas de consumo tinham até 5,5 vezes o impacto ambiental da média mundial”. Segundo relatório da Christian Aid, 20% da população mundial é responsável por cerca de 80% do consumo de recursos globais e o mundo está consumindo 50% a mais do que é ambientalmente sustentável.

Assim como muitos outros movimentos pelo mundo, é importante lembrar o quanto o minimalismo gera uma melhor qualidade de vida nas pessoas e na redução dos impactos negativos ao meio ambiente. Entender a cadeia produtiva de tudo aquilo que consumimos, desde a sua produção até o destino final, deveria ser uma obrigação de todo cidadão. Sendo assim, parece que hoje em dia muitas pessoas têm encontrado a felicidade em minimizar as coisas que possuem, incorporando o mantra “menos é mais”, onde possuir menos é proporcional à liberdade.

Bem-vindo a um novo mundo no qual, mesmo sendo dedicado ao consumismo e à produção em massa, já existem milhares de pessoas que estão trazendo a mudança e tentando minimizar a pegada destrutiva que os seres humanos vêm deixando no mundo. Haverá um dia em que não poderemos escolher se seremos minimalistas ou não, pois os recursos serão tão escassos que essa prática, que hoje ainda é pouco conhecida, será uma imposição. 

 

 

 

 

 

Referências: 

Climate Tracker

Livro “This Changes Everything”

Artigo “What is the real cost of That Dress?”

Artigo “The Oppressive Gospel of the Minimalism”

Artigo “Consumerism plays a huge role in climate change”

A Volta dos que Não Foram – Como espécies extintas podem ser encontradas novamente

Recentemente, um grupo de pesquisadores do Equador se deparou com uma enorme surpresa durante um trabalho de campo. Em uma expedição na floresta de Chocó, os cientistas se depararam com a perereca Gastrotheca cornuta, uma espécie que possui estruturas semelhantes a chifres, olhos dourados e uma estranha bolsa nas costas das fêmeas que serve para guardar seus ovos. O mais impressionante é que esse animal não era visto há mais de uma década e, portanto, era considerado extinto na natureza. Mas afinal, como esse anfíbio retornou da extinção?

Resultado de imagem para Gastrotheca cornuta
Foto de uma Gastrotheca cornuta em cativeiro, com ovos em sua bolsa nas costas – Foto por Joel Sartore

Ao contrário da desextinção, que consiste na clonagem de espécies extintas ou na manipulação de espécies atuais para aproximá-las de seus antepassados, o processo que vemos aqui é completamente natural. Devido à falta de técnicas mais precisas para encontrar espécies, à sua localização isolada ou simplesmente à extensão de nosso planeta, muitas vezes animais e plantas são dados como extintos e reaparecem anos depois. São as chamadas “Espécies Lazarus”, em alusão a Lázaro, personagem Bíblico que morreu e foi ressuscitado por Jesus Cristo. Embora raras, essas espécies demonstram nossa falta de conhecimento da complexidade do mundo natural e nos dão uma nova chance de preservar organismos considerados extintos anteriormente. A seguir, veremos alguns exemplos de animais e plantas que quebraram a barreira da extinção e, pelo menos ao nosso ver, retornaram à vida.

Minhoca gigante de Washington (Driloleirus americanus)

Resultado de imagem para Driloleirus americanus
Foto: Universidade de Idaho, Kelly Weaver

O primeiro animal da nossa lista é um caso clássico, que demonstra as nossas limitações para encontrar as espécies que buscamos. Essa grande minhoca, que pode chegar a quase um metro de comprimento e que exala um odor semelhante ao do lírio, não era vista desde a década de 1980 e foi considerada extinta por vários anos, até ser redescoberta em 2005. Embora provavelmente ameaçada, essa espécie não é facilmente encontrada, sobretudo, devido a seu habitat, mais de 5 metros abaixo da superfície.

Gecko-de-crista                          (Correlophus ciliatus)

Resultado de imagem para Correlophus ciliatus
Foto: Harry Lyndon-Skeggs

Esse simpático lagarto foi descoberto na ilha de Nova Caledônia, em 1866 e, anos depois, foi considerado extinto pela ciência, uma vez que não foi mais avistado depois de seu primeiro registro. Entretanto, após uma forte tempestade ocorrida em 1994, um desses indivíduos caiu do alto de uma árvore e foi encontrado pelo cientista Robert Seipp. Por viver no alto das árvores em uma região remota, a espécie permaneceu escondida por mais de um século e, após várias expedições, centenas de indivíduos foram encontrados. Por muitos anos, cientistas reproduziram esses animais em cativeiro para estudo e, por um tempo, sua exportação foi permitida pelo país. Atualmente, é um dos lagartos mais populares como pet no mundo, sendo criado legalmente em diversos países, embora seu status no ambiente natural ainda seja preocupante.

Tartaruga Gigante de Galápagos de Fernandina                                                        (Chelonoidis phantastica)

Resultado de imagem para Chelonoidis phantasticus
Foto: Rodrigo Buendía

Mesmo em uma ilha, encontrar um animal pode ser um desafio. Descoberto em 1906, esse jabuti gigante nunca mais foi visto e, portanto, acreditava-se que a espécie havia se extinguido. Apenas um exemplar havia sido coletado, o que fez com que muitos cientistas duvidassem que essa fosse uma espécie distinta das outras tartarugas-gigantes-de-Galápagos já conhecidas. Entretanto, para a surpresa de muitos, uma fêmea foi encontrada em fevereiro de 2019 e, devido a expedições no local, acredita-se que outros indivíduos ainda existam. Sua população atual não deve ultrapassar os 5 indivíduos, o que torna sua sobrevivência pouco provável, mas sua descoberta abre portas para tentativas de sua preservação.

Cachorro-do-Mato-Vinagre           (Speothos venaticus)

Resultado de imagem para bush dog

Um dos casos mais curiosos de nossa lista aconteceu no Brasil, no estado de Minas Gerais. Peter Lund, considerado o pai da paleontologia brasileira, foi um brilhante cientista dinamarquês que passou grande parte da sua vida em Lagoa Santa, onde se dedicou a estudar e classificar espécies fósseis e atuais. Em sua casa, ele criava diversos animais para estudo que, posteriormente, sacrificava para registrar sua estrutura óssea. Um dos animais que criou foi um cachorro-do-mato-vinagre, que considerou uma nova espécie. O que ele não percebeu foi que a espécie já havia sido descoberta poucos anos antes, em 1839, por ele mesmo. Ao encontrar um fóssil de um canídeo em uma caverna, ele imaginou que se tratava de uma espécie extinta há milhares de anos, mal sabendo ele que teria um exemplar vivo em sua casa, quatro anos depois.

Metasequoias                                            (Metasequoia glyptostroboides)

Resultado de imagem para metasequoia

O reaparecimento de criaturas desaparecidas há centenas e até milhares de anos é impressionante, mas nada se compara aos organismos que ressurgem após períodos geológicos inteiros. As metasequoias eram conhecidas apenas pelo registro fóssil, supostamente extintas há mais de 100 milhões de anos, durante o período Cretáceo. Entretanto, em 1943, um pesquisador chamado Zhan Wang coletou amostras de estranhas árvores que encontrou em uma região remota da China e descobriu a similaridade entre as espécies, que foram sinonimizadas em 1946.

Celacanto                                                           (Latimeria spp.)

Imagem relacionada
Fóssil de celacanto do Cretáceo
Imagem relacionada
Celacanto atual (Latimeria chalumnae) – Foto de oceana.org

Os celacantos são, sem dúvida, os táxons lazarus mais famosos. Esses animais eram conhecidos a partir de fósseis e, junto com os dinossauros não-avianos, pterossauros e diversos répteis marinhos, teriam sido extintos na última grande extinção em massa de nosso planeta, há 66 milhões de anos. Em 1936, entretanto, Marjorie Courtenay-Latimer, curadora de um museu na África do Sul, foi surpreendida ao ver um espécime em uma rede de pesca. Desde então, celacantos já foram vistos em diversos países africanos e, anos depois, uma segunda espécie foi descoberta na Indonésia.

Anomalocaridid

Imagem relacionada
Anomalocaris canadensis (ROM 51214) – Foto por Jean-Bernard Caron
Resultado de imagem para Anomalocaris paleoart
Representação de um Anomalocarideo – Por Julio Lacerda

Muitas vezes, a preservação de um determinado grupo no registro fóssil é extremamente reduzida, sobretudo devido à dinâmica dos solos, o que gera grande representatividade de táxons lazarus na paleontologia. É o caso dos Anomalocarideos, um grupo de artrópodes do Cambriano que desapareceu completamente no final desse período e reapareceu milhões de anos depois, no meio do Ordoviciano. Por alguma razão, nenhum desses animais foi preservado durante uma grande escala temporal (ou os que foram ainda não foram encontrados), o que gera um buraco no nosso conhecimento desse grupo.

Mas, afinal, espécies redescobertas devem ser divulgadas?

Imagem relacionada
Rinoceronte-de-Bornéu (Dicerorhinus sumatrensis harrissoni) – 

Embora encontrar viva uma espécie considerada extinta possa auxiliar na sua proteção, casos no passado mostraram que isso nem sempre acontece. O rinoceronte-de-Bornéu (Dicerorhinus sumatrensis harrissoni) foi considerado extinto por 27 anos, até ser redescoberto em 2013, o que fez com que o governo criasse leis de proteção à esse animal. Atualmente, estima-se que sua população seja de 15 animais e, desde a criação das leis protetivas, pouco foi feito para garantir e fiscalizar o seu cumprimento. Pesquisadores temem que, com a redescoberta desses animais, caçadores sejam atraídos para a região em busca dos seus chifres, que podem valer quantias exorbitantes no mercado negro. Portanto, a descoberta das espécies lazarus podem determinar sua sobrevivência ou sua extinção. Os táxons lazarus são para sempre um lembrete dos organismos de nosso planeta que quase perdemos, muitas vezes por nossa causa, além de serem uma nova chance para mudar positivamente o destino de uma espécie.

Referências

https://www.theguardian.com/science/2019/mar/10/the-five-back-from-the-brink-species-thought-exctinct-giant-tortoise-horned-marsupial-frog

https://www.nationalgeographic.com/animals/2018/12/lost-marsupial-frog-rediscovered-ecuador-choco-forest/

http://theconversation.com/meet-the-lazarus-creatures-six-species-we-thought-were-extinct-but-arent-50274

https://scroll.in/article/915875/species-thought-to-be-extinct-are-being-sighted-again-are-they-rising-from-the-dead

https://faunalytics.org/is-secrecy-good-conservation-policy-the-case-of-lazarus-species/

https://www.theguardian.com/environment/2019/feb/21/giant-tortoise-believed-extinct-for-100-years-found-in-galapagos

https://www.iucnredlist.org/species/170517/128969920

https://g1.globo.com/natureza/noticia/2019/02/20/encontrada-no-equador-tartaruga-gigante-considerada-desaparecida-ha-um-seculo.ghtml

Artigo “A review of bush dog Speothos venaticus (Lund, 1842) (Carnivora, Canidae) occurrences in Paraná state, subtropical Brazil”, por Tiepolo, L. M. et al. – http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1519-69842016000200444

https://www.forbes.com/sites/kionasmith/2019/02/28/when-species-come-back-from-the-dead/#3884edc1206c

Artigo “The Pleistocene Bush Dog Speothos pacivorus (Canidae) from the Lagoa Santa Caves, Brazil” – Por Berta, A.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Hora do Planeta: protestando por um planeta melhor

A Hora do Planeta é um evento anual e voluntário, geralmente realizado na última noite de sábado do mês de março, quando milhões de pessoas e empresas apagam luzes e desligam a maioria dos aparelhos elétricos para celebrar a sustentabilidade e mostrar seu apoio às ações que ajudarão a resolver o problema do aquecimento global .

A primeira Hora do Planeta

A Hora do Planeta foi inspirada em uma demonstração ocorrida em Sydney, Austrália, em 31 de março de 2007, quando mais de 2,2 milhões de habitantes da cidade e mais de 2.100 empresas desligaram luzes e aparelhos elétricos não essenciais, por uma hora, para fazer um protesto poderoso sobre a principal colaboradora do aquecimento global: a eletricidade movida a combustíveis fósseis.

image.png

Essa única hora representou uma redução de 10,2% no consumo de energia em toda a cidade. Ícones globais como o Sydney Opera House ficaram escuros, casamentos foram realizados à luz de velas e o todo o planeta ficou sabendo.

Hora da Planeta se torna global

O que começou em 2007 como um protesto dramático de uma cidade contra o aquecimento global tornou-se um movimento mundial. Patrocinada pelo WWF (grupo de conservação que visa reduzir as emissões de gases de efeito estufa da geração de eletricidade em 5% ao ano), a Hora do Planeta tem a participação oficial de um número crescente de cidades, países, empresas e indivíduos em todo o mundo. Apenas um ano depois, em 2008, a Hora do Planeta se tornou um movimento global, com a participação de mais de 50 milhões de pessoas em 35 países e territórios. Pontos de referência globais, como a Sydney Harbour Bridge, a CN Tower, em Toronto, a Golden Gate Bridge, em San Francisco, e o Colosseum, em Roma, permaneceram como símbolos silenciosos de esperança e sustentabilidade.

image
Luzes da Torre Eiffel desligadas pela hora do planeta.

Em março de 2009, centenas de milhões de pessoas participaram da terceira Hora do Planeta. Mais de 4000 cidades em 88 países e territórios demonstraram seu apoio ao planeta desligando suas luzes. A Hora do Planeta cresceu novamente em 2010, quando 128 países e territórios se uniram à causa global da ação climática. Construções icônicas e pontos de referência em todos os continentes, exceto na Antártida, e pessoas de quase todas as nações e classes sociais desligaram as luzes para mostrar o seu apoio. Em 2011, a Hora do Planeta adicionou algo novo ao evento anual, convocando os participantes a “ir além da hora” ao se comprometerem com, pelo menos, uma ação ambiental para dar continuidade durante o ano todo, com o objetivo de tornar o mundo um lugar melhor.

Cover_Facebook_HP_2.png

O Propósito da Hora do Planeta

A finalidade, é claro, é inspirar as pessoas a reduzirem o seu consumo de energia todos os dias, não somente ficando no escuro por uma hora a cada ano, mas dando passos simples que podem ter um efeito definitivo. É mostrar, por meio de uma hora no escuro, que podemos impactar positivamente o planeta fazendo pouco.

Os sessenta minutos de celebração são um lembrete pontual de que nossos hábitos têm interferência direta na natureza. O símbolo 60+ quer dizer que todas as horas devem ser a Hora do Planeta.

Precisamos agir agora

♦ A cada ano, devido ao consumo desenfreado e do desperdício, estamos acabando com os recursos naturais disponíveis para o período mais cedo. Em 2018, isso ocorreu em 1º de agosto.

♦ As áreas úmidas são a categoria mais afetada pelas atividades humanas e já perdeu 87% de sua extensão.

♦ A pesca excessiva e a poluição pelo plástico estão ameaçando os nossos oceanos. Já a poluição, a fragmentação e a destruição de habitats estão acabando com a biodiversidade da água doce.

♦ O Brasil possui a maior área de floresta tropical contínua do planeta, o que ajuda a regular o clima, produzir água, estocar carbono e muito mais.

♦ Nos últimos 50 anos, 20% da Amazônia já desapareceu. Se o desmatamento atingir 25%, a floresta poderá entrar em um “ponto de não retorno”, passando por um processo irreversível de savanização.

♦ O desmatamento já atingiu mais de 50% do Cerrado. É nele que estão as nascentes dos mais importantes rios brasileiros, como o Paraná, o Tocantins e o São Francisco.

♦ No Brasil existem oficialmente 3.286 espécies ameaçadas em flora e fauna. O maior número se encontra na Mata Atlântica.

Algumas cidades brasileiras já estão confirmadas para a Hora do Planeta 2019:

Captura de Tela 2019-03-08 às 13.58.03.png

Quer saber o que você pode fazer durante a hora em que as luzes estão apagadas? O WWF sugere várias possibilidades, como um jantar à luz de velas , uma festa do Bloco da Hora do Planeta ou um piquenique noturno com a família ou amigos. E enquanto estiver fazendo isso, pense no que mais você pode fazer para ajudar a proteger e preservar o meio ambiente.

Para participar basta apagar as luzes no dia 30 de março de 2019  às 20:30, durante uma hora, registrar o momento postando com a #HoraDoPlaneta e marcar o @tunesambiental no Instagram. Clique aqui e saiba mais!

Esse simples gesto trará consciência àqueles que vivem na Terra, com o objetivo de deixarmos um legado positivo para as futuras gerações. Apague as luzes!

 

 

 

 

 

Referências:

Thought.Co

WWF

Como secar um mar – A triste história do Mar de Aral

O Mar de Aral é um lago de água salgada, localizado na Ásia Central, entre o Cazaquistão e uma região autônoma do Uzbequistão denominada Caracalpaquistão, que surgiu há cerca de 9 mil anos, no período Holoceno. Durante muito tempo, ele foi o quarto maior mar do planeta, com uma área de aproximadamente 68.000 km² e um volume de 1.100 km³. Entretanto, desde 1960, esse mar vem encolhendo drasticamente, com apenas 10% de seu tamanho original. Em menos de 60 anos, conseguimos reduzir um mar a três pequenas lagoas, em um dos maiores desastres ambientais da história. Mas, afinal, como isso foi possível? E ainda, há esperança para o Mar de Aral?

Resultado de imagem para aral sea

Esse grande corpo d’água era irrigado por dois grandes rios, denominados Amu Daria e Syr Darya. Após o fim da Primeira Guerra, esses dois rios passaram a ser parcialmente desviados para irrigar áreas agrícolas na União Soviética. Nas próximas duas décadas, os planos de irrigação aumentaram drasticamente, o que levou grande desenvolvimento para a região. O Mar de Aral tornou-se um intenso ponto de pesca e de desenvolvimento militar, com grandes navios espalhados por sua superfície. Embora o avanço humano tenha sido rápido, ele não afetou a biodiversidade local no primeiro momento, que era composta por inúmeras espécies de aves, insetos, grandes manadas de mamíferos e, sobretudo, peixes. Mais de 35.000 toneladas de peixes eram capturadas anualmente, o que correspondia a mais de 80% da economia local, enquanto mais de 100.000 pessoas viviam da agropecuária.

Indústria de pesca no Mar de Aral durante a década de 1940

A partir de 1960, entretanto, a demanda por produtos de moda na URSS aumentou drasticamente, o que fez com que o governo desviasse ainda mais água dos rios Amu Daria e Syr Darya para irrigar as plantações de algodão. O influxo de água para o Mar de Aral diminuiu até 22% da quantidade original , o que fez com que a taxa de evaporação fosse maior que a taxa de reposição no local. Ao longo dos anos, o nível da água decaiu  24 metros e sua área foi reduzida a 10% da original, ocasionando um aumento significativo na salinidade do ambiente, o que, junto com o uso desenfreado de agrotóxicos, acabou com a indústria de pesca na região.

Imagem relacionada
Nível do Mar de Aral ao longo dos anos

Atualmente, essa região tornou-se um complexo de pequenos lagos cercados por um deserto, na qual 12 espécies de mamíferos, 6 de anes e 11 de plantas estão quase extintos localmente. Grandes navios são encontrados a centenas de metros de qualquer fonte d’água e camelos caminham por uma área que, poucos anos atrás, era um mar cheio de vida.

Imagem relacionada

Entretanto, nem tudo está perdido. Desde os anos 2000, esforços da Ucrânia e do Cazaquistão, juntamente com a ONU, vêm melhorando a qualidade de vida das populações locais e a saúde do lago como um todo. Mais de 1,2 bilhões de dólares foram investidos pela Ucrânia na manutenção do nível atual do mar, criando sistemas de reabastecimento e reduzindo a retirada de água de seus afluentes. Uma enorme reserva foi criada na região, na qual mais de 740.000 hectares de floresta foram plantadas, além de diversos investimentos na infraestrutura da população local. Desde 2016, a produção de peixes no local aumentou 6 vezes e o nível da porção norte do lago subiu 8 metros.

Resultado de imagem para aral sea fishing
Pescadores no Mar de Aral – Foto por Carolyn Drake

Estima-se que o estrago nunca será reparado mas, devido aos esforços de governos e à ajuda da população local, o maior desastre hídrico da história poderá ser amenizado. O Mar de Aral será, para sempre, um lembrete da capacidade de destruição e da ganância humana, assim como de sua capacidade de mudanças positivas no mundo.

Referências

https://www.aljazeera.com/programmes/earthrise/2012/07/201271912543306106.html

https://www.theguardian.com/sustainable-business/sustainable-fashion-blog/2014/oct/01/cotton-production-linked-to-images-of-the-dried-up-aral-sea-basin

https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/02/150226_mar_aral_gch_lab

http://www.earthtimes.org/conservation/international-cooperation-recovery-aral-disaster/2734/

http://www.aralconference.uz/en/about_aral/

Doomsday Clock: O relógio do Juízo Final

O Relógio do Juízo Final chegou mais perto da meia-noite, de dois minutos e meio a dois minutos. Ao anunciar a decisão, o Boletim dos Cientistas Atômicos citou “o fracasso do presidente Trump e de outros líderes mundiais em lidar com ameaças iminentes de guerra nuclear e mudança climática”. Mas o que é o Relógio do Juízo Final e quão preciso ele é?

Uma Breve História do Relógio do Apocalipse

O Relógio do Juízo Final ou Relógio do Apocalipse foi criado em 1947 pelo conselho do Boletim dos Cientistas Atômicos da Universidade de Chicago como uma resposta às ameaças nucleares. O conceito é simples – quanto mais próximo o ponteiro dos minutos estiver da meia-noite, mais próximo o conselho acredita que o mundo está para acabar. O relógio foi originalmente concebido por um grupo de cientistas atômicos envolvidos no Projeto Manhattan, o programa responsável pela produção das primeiras armas nucleares. Os cientistas produziram regularmente um boletim detalhando o progresso e as atualizações em armamentos nucleares, e o relógio foi inicialmente concebido como uma ilustração para a capa da primeira edição. Desde então, o relógio voltou para trás e para frente – de dezessete minutos para a meia-noite, em 1991, para dois minutos para a meia-noite, em 1953.

“O relógio do Boletim não é um indicador para registrar os altos e baixos da luta internacional pelo poder; destina-se a refletir mudanças básicas no nível de perigo contínuo em que a humanidade vive na era nuclear” Eugene Rabinowitch, Boletim dos Cientistas Atômicos

O relógio faz sentido?

O Relógio do Juízo Final enfrentou críticas ao longo dos anos, com alguns céticos duvidando da natureza do relógio. Escrevendo no site The Conversation, Anders Sandberg sugeriu que as maiores ameaças da humanidade são provocadas pelo homem, ou seja, neste caso, “as formas normais de estimativa de probabilidade não são apenas inadequadas, elas são ativamente enganosas”.

image.png

“A probabilidade de 1,4% por ano de guerra nuclear parece muito exata, mas a estimativa é baseada em uma lista de suposições potencialmente suspeitas”, escreveu Sandberg. “A chance de pelo menos um deles estar errado é alta. Pode ser melhor reconhecer explicitamente a incerteza “.

É importante lembrar, no entanto, que o relógio não está apontando para a precisão total. Em vez disso, é um símbolo das ameaças globais e uma forma de “informar o público sobre as ameaças à sobrevivência e ao desenvolvimento da humanidade”, portanto, não há necessidade de entendê-lo literalmente.


image.png

O Boletim leva vários fatores em consideração ao calcular a hora no relógio:

  • Ameaças nucleares;
  • Alterações Climáticas;
  • Biossegurança;
  • Bioterrorismo;
  • Ameaças diversas.

 

2000px-Doomsday_Clock_graph.svg.png

A Linha do Tempo do Juízo Final

Aqui estão algumas das oscilações mais significativas na história do Relógio do Juízo Final.  

  • 1947 – 7 minutos para a meia-noite: em sua primeira aparição, a mão do relógio ficou sete minutos para a meia-noite para destacar a “urgência dos perigos nucleares”;
  • 1949 – 3 minutos para a meia-noite: o relógio chegou cada vez mais perto da meia-noite, quando a União Soviética testou seu primeiro dispositivo nuclear;
  • 1953 – 2 minutos para a meia noite: os EUA criaram a bomba de hidrogênio;
  • 1963 – 12 minutos para a meia-noite: testes nucleares atmosféricos terminaram;
  • 1984 – 3 minutos para a meia-noite: as relações EUA-Soviética atingiram seu nível mais frio em anos;
  • 1991 – 17 minutos para a meia-noite: a Guerra Fria terminou e o relógio recuou;
  • 2015 – 3 minutos para a meia-noite: o Relógio do Apocalipse de 2015 ficou preso entre três minutos e meia-noite devido a “mudanças climáticas descontroladas, modernizações de armas nucleares globais e arsenais de armas nucleares enormes”, que representam “uma ameaça extraordinária e inegável à existência contínua de armas nucleares”. 

image.png

O que aconteceu da última vez em que o relógio foi atualizado?

Em 2017, o relógio passou de três minutos para dois minutos e meio para a meia-noite. O Boletim cita como causas a ascensão do nacionalismo, os comentários de Donald Trump sobre as armas nucleares e a ameaça de uma corrida armamentista entre os EUA e a Rússia. Nesse ano foi a primeira vez em que uma fração foi usada no tempo.

O ano de 2018

O ano que se encerrou mostrou-se perigoso e caótico, porém foi um ano em que muitos dos riscos anunciados na última declaração do Relógio trouxeram grande alívio. Em 2017, vimos uma linguagem imprudente no reino nuclear aquecer situações já perigosas e reaprendemos que minimizar as avaliações baseadas em evidências sobre o clima e outros desafios globais não leva a melhores políticas públicas. Embora o Boletim dos Cientistas Atômicos se concentre no risco nuclear, a mudança climática e as tecnologias emergentes assumem o centro do palco na declaração do Relógio deste ano.

relogio-juizo-final.jpg

Na frente da mudança climática, o perigo pode parecer menos imediato, mas evitar aumentos catastróficos de temperatura a longo prazo requer atenção urgente agora. As emissões globais de dióxido de carbono ainda não mostraram o início do declínio que deveria ocorrer caso o aquecimento cada vez maior fosse evitado. As nações do mundo terão que diminuir significativamente suas emissões de gases de efeito estufa para manter os riscos climáticos gerenciáveis, e até agora, a resposta global ficou muito aquém do desafio. Além dos domínios nuclear e climático, a mudança tecnológica está afetando as democracias do mundo, à medida que os Estados buscam e exploram oportunidades para usar as tecnologias de informação como armas, entre elas campanhas de fraude baseadas na Internet para minar eleições e a falta da confiança popular em instituições essenciais ao livre pensamento e à globalização.

É urgente que, coletivamente, façamos o trabalho necessário para produzir uma declaração do Relógio de 2019 que rebobine o Relógio do Juízo Final. Envolva-se, mude e ajude a criar esse futuro. A hora é agora.

Referência 

2018 Doomsday Clock Statement Science and Security Board – Bulletin of the Atomic Scientists : Editor, John Mecklin

 

Jurassic Park da vida real: Podemos (e devemos) clonar nossas espécies extintas?

Em 1993, Steven Spielberg nos apresentou uma das ficções científicas mais famosas do mundo, popularizando as ideias do livro de Michael Crichton lançado em 1990. O seu “Parque dos Dinossauros” (Jurassic Park, no título original) popularizou a ideia da clonagem como forma de trazer de volta à vida seres extintos, o que era, até então, algo impossível na visão do público geral. Mas afinal, o quão perto estamos de ressuscitar seres extintos? E ainda, devemos realmente tentar?

Imagem relacionada
Cena do filme Jurassic Park 

No “Jurassic Park” os cientistas da empresa InGen coletam DNA de animais extintos por meio da coleta do sangue existente dentro de mosquitos presos em âmbar (resina vegetal fossilizada) há milhões de anos atrás. A partir desse DNA de grandes dinossauros, esses animais foram clonados e, posteriormente, colocados em um parque temático, que seria aberto para visitação. Entretanto, para a tristeza de muitos, provavelmente nunca veremos um Tiranossauro caminhando por nosso planeta, uma vez que o DNA possui uma meia-vida de 521 anos, ou seja, ele perde 50% de informações nesse tempo. Mesmo em condições ideais, nenhum DNA sobreviveria a mais de 6,8 milhões de anos, o que significa que o Jurassic Park é um sonho quase impossível. Embora pesquisas recentes de “reversão genética” tenham tentado devolver às aves algumas características de seus ancestrais (uma vez que as aves são um grupo de dinossauros), esses animais nunca serão completamente parecidos com qualquer espécie de dinossauro que já existiu.

Resultado de imagem para mosquito amber
Réplica de mosquito preso em âmbar feita por  Peter Brown
Imagem relacionada
Da esquerda para a direita – Embriões de galinha, galinha experimental com características ósseas de dinossauros extintos e filhote de crocodilo – Artigo por  Bhart‐Anjan S. Bhullar et. al.

Mesmo assim, nem tudo está perdido. Na última década, avanços nos estudos de sequenciamento e de engenharia genética mostraram-se eficazes para encontrar DNA antigo em fósseis mais recentes e, por meio de estudos matemáticos, completar as lacunas feitas pelo tempo. É o que está sendo feito nesse momento no Museu de Mamutes de Yakutsk, na Rússia, onde DNA foi extraído de mamutes que morreram e foram preservados sob o gelo da Sibéria. Os cientistas esperam conseguir completar lacunas nesse DNA e implantá-lo em um óvulo de elefante, que irá carregar o filhote em sua barriga por 22 meses. Outra possibilidade seria comparar o DNA do mamute com o de elefantes atuais e substituir possíveis diferenças em um óvulo de elefante, fornecendo genes-chaves do mamute, como os responsáveis por seu tamanho ou pela produção de pelos. Caso esses esforços deem certo, em breve poderemos ter mamutes caminhando na Terra novamente.

Resultado de imagem para lyuba mammoth
Lyuba, um filhote de mamute de 41.800 anos que morreu com apenas 30 dias de vida

Mas afinal, o que faríamos com um mamute? O Pleitocene Park é uma iniciativa russa de recriar, em uma área de 160 km², as condições das estepes locais antes da chegada dos seres humanos na área. Após a reintrodução de mais de 20 mamíferos de grande porte nativos, as condições do ambiente, que antes era coberto por gelo permanente (permafrost), mudaram drasticamente, possibilitando o crescimento de gramíneas e árvores de grande porte. Esse estudo, além de demonstrar os impactos da ação humana na paisagem local, visa também criar um ambiente em que mamutes poderiam ser reintroduzidos. Esse parque, embora ainda altamente experimental, pode ser a esperança para essa espécie extinta.

Resultado de imagem para pleistocene park before and after
O Pleitocene Park conta com mais de 20 espécies que, anteriormente, estavam extintas localmente nessa região da Sibéria
Resultado de imagem para pleistocene park before and after
Em um futuro próximo, mamutes poderão caminhar novamente pela Sibéria

Entretanto, muitos ainda estão céticos com esses resultados. O jornalista Brian Swiket, especialista em evolução e autor de livros sobre o assunto, afirma que esses animais clonados seriam apenas uma reinvenção dos seus progenitores extintos, uma vez que eles “não saberiam como ser um mamute pois nunca viram um mamute”. Além disso, outras espécies trazidas de volta da extinção não teriam a mesma sorte. O mundo atual é bem diferente do que era há milhares de anos atrás e os animais que deixaram de ser extintos poderiam não se adaptar, sendo extintos mais uma vez, considerando que seus habitats originais foram destruídos. Para cientistas como George Church, entretanto, esses animais poderiam ser a chave para recriar seus ecossistemas extintos, abrindo o caminho para sua própria preservação.

Imagem relacionada
Fauna da região da Beringia no Pleitoceno – perto da área do Pleistocene Park – Arte por  Beth Zaiken

Além disso, existe um outro lado da clonagem de espécies extintas: a sobrevivência das espécies atuais. No ano 2000, morreu o último exemplar de íbex-dos-pireneus (Capra pyrenaica pyrenaica), uma  subespécie de cabra-montesa que vivia entre a França e a Espanha. Felizmente, um ano antes, seu material genético havia sido colhido para estudo por cientistas espanhóis e, por meio de financiamento governamental, eles implantaram o DNA desse animal em óvulos de cabras-montesas viventes (Capra pyrenaica victoriae). Após 439 tentativas, 57 embriões foram gerados e implantados em cabras, mas apenas 7 engravidaram. Dessas, apenas uma deu à luz ao primeiro clone de um animal extinto da história, batizado de Célia (o mesmo nome do último exemplar vivente de íbex-dos-pirineus). Infelizmente, o filhote sobreviveu apenas por 10 minutos, extinguindo a espécie pela segunda vez na história.

Resultado de imagem para pyrenean ibex
Foto de um dos últimos íbex-dos-pireneus – Fotógrafo desconhecido
Resultado de imagem para pyrenean ibex celia
Célia, primeiro clone de um animal extinto do mundo, que morreu minutos após seu nascimento

Embora essa tentativa de recriar a espécie tenha falhado, ela abriu portas para esse tipo de pesquisa por todo o planeta, incluindo o estudo de clonagem de mamutes. Atualmente, os cientistas buscam clonar animais extintos recentemente como tigres-da-tasmânia (Thylacinus cynocephalus, extinto em 1936) e alguns sapos da Austrália e Madagascar (extintos na década de 1980). Além disso, a “reversão genética” usada para tentar transformar galinhas em dinossauros extintos também vem sendo empregada para recriar características de espécies que desapareceram há pouco tempo, como o auroque, ancestral extinto do boi atual e a quaga (Equus quagga quagga), subespécie de zebra extinta no século XIX, ambos “trazidos de volta à vida” por seleção artificial.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Ao empregar técnicas de clonagem e de ressurreição de animais extintos em espécies ameaçadas, podemos, em teoria, salvar espécies à beira da extinção. Um projeto da Embrapa e do Zoológico de Brasília preserva atualmente material genético de diversos animais como onças, lobos-guará, veados, tamanduás e primatas. Com um banco genético com mais de 400 espécies, esse zoológico pode, futuramente, auxiliar na preservação de nossa fauna com a clonagem e a engenharia genética. Infelizmente, seria necessário clonar centenas de animais da mesma espécie, cada um com material genético de um indivíduo diferente,  para manter uma população viável, mas os avanços científicos na área se mostram promissores.

Picture of a federally endangered jaguar (Panthera onca) at the Chapultepec Zoo in Mexico City.
Onça-pintada, um dos animais cotados para a clonagem pelo Zoológico de Brasília – Foto por Joel Sartore

Atualmente, a maior crítica da desextinção é a banalização da extinção. Caso, no futuro, clonar um animal extinto seja algo extremamente fácil e barato, esforços para impedir que a extinção ocorra em primeiro lugar podem ser vistos como desnecessários, aumentando a degradação de nossos ecossistemas. Além disso, quais direitos esses animais teriam? Como discutido no filme Jurassic World – Fallen Kingdom, provavelmente esses organismos seriam propriedade dos cientistas que os cloraram e, consequentemente, os mesmos poderiam explorá-los de diversas formas possíveis. Não é difícil imaginar pessoas pagando fortunas para caçar tigres-dentes-de-sabre em safáris nos Estados Unidos, lojas da Europa vendendo roupas feitas com pelo de rinocerontes-lanosos, pratos caríssimos feitos com carne de preguiças-gigantes ou o governo russo exterminando mamutes após uma superpopulação devido à falta de predadores, que agora ameaça a agricultura local.

Resultado de imagem para pleistocene park
Representação de um safari comanimais do Pleistoceno – Por Mauricio Antón

Contudo, se feita com responsabilidade, a desextinção pode ser uma ferramenta para salvar nossas espécies e para corrigir nossos erros do passado. Zoológicos com mamutes podem ser um lembrete do tempo em que o ser humano extinguia as espécies indiscriminadamente, sem ter consciência de seus impactos. Podemos reconstruir ecossistemas e devolver a vida a milhares de animais e plantas que foram extintos por nossa culpa, conscientes da importância de sua preservação, além de reproduzir milhões de espécies para tirá-las da extinção. Mais do que nunca, temos o poder de mudar o futuro de nossas espécies atuais, e, até mesmo, das extintas. Se essa mudança será para o bem ou para o mal, só depende de nós.

Referências

Clonagem de animais extintos e desextinção

https://www.express.co.uk/news/science/977045/jurassic-world-park-dinosaur-tyrannosaurus-rex-clone-cloning

http://www.nhm.ac.uk/discover/could-scientists-bring-dinosaurs-back.html

https://nypost.com/2017/01/07/how-scientists-actually-could-bring-dinosaurs-back-to-life/

Artigo “A molecular mechanism for the origin of a key evolutionary innovation, the bird beak and palate, revealed by an integrative approach to major transitions in vertebrate history”, por Bhart‐Anjan S. Bhullar et. al.

Livro ” How to Clone a Mammoth“, por Beth Shapiro

Revista Superinteressante  “Ressurreição – A volta dos animais extintos já começou” -Edição 332 – Maio de 2014

 

Clonagem de animais atuais

http://revistagalileu.globo.com/Revista/Common/0,,EMI329340-18537,00-EMBRAPA+POLEMIZA+COM+PROJETO+PARA+CLONAR+ANIMAIS+EM+EXTINCAO+PARA+ZOOS.html

 

 

 

 

 

 

Brumadinho: por que esse tipo de crime ambiental continua acontecendo?

Na tarde da última sexta-feira, dia 25, uma barragem de minério de ferro da Vale rompeu-se na cidade de Brumadinho, próxima a Belo Horizonte (MG). Com isso, uma onda de rejeitos da mineração, uma lama viscosa e escura, avançou sobre mais de 300 funcionários da mineradora, dezenas de moradores que viviam nas proximidades, em uma zona rural, e incontáveis espécies da fauna e flora local.

mapa_espalhamento_do_rejeito_-_27_de_janeiro
Fonte: FEAM

No domingo, dois dias depois da enxurrada de lama, os moradores tiveram que evacuar devido a uma segunda ameaça de rompimento na outra barragem de água, estimulando pânico e indignação, o que demonstra a falta de responsabilidade pela poderosa indústria de mineração. Sirenes soaram antes do amanhecer, provocadas por níveis de água perigosamente altos em uma barragem de água pertencente ao complexo de minério de ferro. No final do dia, os moradores foram autorizados a voltar para suas casas. Mas, para muitos brasileiros, este último alerta foi mais uma prova de que o sistema que regula a indústria de mineração está quebrado, arriscando a vida das pessoas e colocando em risco o meio ambiente. Ainda assim, poucos esperam que as regras sejam mais rígidas com o novo presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, que prometeu durante sua campanha restringir multas e facilitar as regulamentações na mineração e em outras indústrias que exploram recursos naturais.

mapa_espalhamento_do_rejeito_-_29_de_janeiro
Fonte: FEAM

Auditores independentes verificam a segurança das barragens por meio de inspeções regulares e análise de registros escritos. O problema, segundo especialistas como Milanez e Luiz Jardim, professor de geografia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, é que as mineradoras escolhem e contratam os auditores e fornecem toda a documentação que os mesmos analisam. Isso não mudou nos três últimos anos desde o desastre de Mariana, disse Jardim. No mínimo, a estrutura regulatória do estado se tornou mais frouxa, uma vez que a queda nos preços das commodities internacionais levou empresas de mineração a cortar custos, e, em alguns casos, levando-as a preencher barragens além da capacidade, reduzir orçamentos de segurança e deixar de implementar sistemas de emergência, disseram especialistas.

Resultado de imagem para barragem mineradora
Imagem de barragem retirada do site da Samarco

A primeira ruptura de uma barragem tradicional pelo método de montante, provavelmente foi a de Barahona, no Chile. Durante um grande terremoto ocorrido em 1928, a barragem se rompeu, matando mais de 50 pessoas, o que resultou em uma inundação catastrófica. A barragem de Barahona foi substituída por uma mais estável, pelo método de jusante, com o uso de ciclones para obter o material grosseiro dos rejeitos para a construção da barragem (ICOLD, 2001).

Alguns exemplos de rompimentos em barragens de contenção de rejeitos e de resíduos industriais no cenário mundial:

  • Setembro de 1970 – Mufilira, Zambia: 89 mortes, 68.000 mderramados na área de mineração;
  • Fevereiro de 1972 – Buffalo Creek, EUA: 125 mortes, 500 casas destruídas;
  • Novembro de 1974 – Bafokeng, África do Sul: 3 milhões de mde lodo seguiram por 45 km, resultando em 12 mortes;
  • Janeiro de 1978 – Arcturus, Zimbawe: 20.000 m3, uma morte;
  • Julho de 1985 – Stava, Itália: 269 mortes, os rejeitos seguiram por 8km;
  • Fevereiro de 1994 – Merriespruit, África do Sul: 17 mortos, 500.000 mde lodo seguiram por 2km;
  • Agosto de 1995 – Omai, Guiana: 4.2 milhões de m3 de lodo cianeto;
  • Setembro de 1995 – Placer, Filipinas: 50.000 m3, 12 mortos;
  • Março de 1996 – Marcopper, Filipinas: 1.5 milhões de toneladas de rejeitos;
  • Agosto de 1996 – El Porco, Bolívia: 400.000 toneladas envolvidas;
  • Outubro de 1997- Pinto Valley, EUA: liberação de 230.000 mde rejeitos;
  • Abril de 1998 – Aznalcóllar, Espanha: liberação de 4-5 milhões de m3  de água tóxica e lodo;
  • Dezembro de 1998 – Haelva, Espanha:   liberação    de    50.000 m3    de   resíduos industriais tóxicos e ácidos;
  • Abril de 1999 – Placer, Surigao del Norte, Filipinas: 700.000 toneladas de rejeitos contaminados com cianeto foram derramadas. 17 casas destruídas;
  • Janeiro de 2000 – Baia Maré, Romênia: 100.000 mde cianeto contaminaram a água com os rejeitos derramados;
  • Março de 2000 – Borsa, Romênia: 22.000 toneladas de rejeitos contaminados por metais pesados foram liberados, contaminando água e solo;
  • Setembro de 2000 – Mina de Aitik, Suécia: 1,8 milhões de mde água liderada;
  • Outubro de 2000 – Martin Country Coal Corporation, Kentucky, EUA: 0,95 milhões de mde rejeitos derramados nos rios a jusante, provocando mortalidade de peixes e tornando a água imprópria para o abastecimento;
  • Junho de 2001 – Mineração Rio Verde Ltda. Nova Lima, MG. O rompimento da barragem resultou em 5 mortes, danos à fauna, flora e unidade de conservação, danos à adutoras de abastecimento de água, assoreamento de rios, o que gerou pagamento de multa e prestação de serviços sociais;
  • Março de 2003 – Indústria Cataguazes de Papel. Cataguazes, MG. Lixívia negra causou interrupção no fornecimento de água;
  • Março de 2006 – Rio Pompa Mineração Cataguazes. Miraí, MG. Vazamento de lama casou danos ambientais, prejuízos materiais e suspensão de abastecimento de água em cidades de MG e RJ;
  • Janeiro de 2007 – Reincidente: Rio Pompa Mineração Cataguazes. Miraí, MG. Rompimento da barragem causou danos ambientais, prejuízos materiais, suspensão do abastecimento de água; mais de 500 pessoas desalojadas;
  • Novembro de 2015 – Mineradora Vale. Mariana (MG). A barragem de Fundão se rompeu e liberou 62 milhões de m³ de lama. A fauna, flora e economia da região ainda estão se recuperando.

“Estes não são eventos excepcionais. Barragens se rompem. Mais barragens irão se romper.” “Ou o sistema de monitoramento é falho, ou as empresas descobriram como contorná-lo.”, disse Jardim.

O quadro é muito mais grave do que parece para 68% das cidades com barragem, ou seja, 48 municípios mineiros, 162 estruturas possuem alto potencial de dano ambiental e são consideradas de Classe III.

Há grandes diferenças entre barragens de rejeito e barragens convencionais:

  • Barragens de contenção de rejeitos são tipicamente construídas em estágios, enquanto que as barragens convencionais são geralmente construídas em um estágio único, em um curto período de tempo. Como resultado, as condições das barragens de contenção de rejeitos estão sempre mudando devido ao aumento progressivo da carga dos rejeitos na fundação do reservatório com o tempo e, por isso, sua segurança deve ser continuamente reavaliada;
  • Barragens convencionais são tipicamente de propriedade do Estado ou companhias de utilidade pública, com autoridades que gerenciam o recurso hídrico. Estes proprietários geralmente possuem recursos substanciais à sua disposição. Do contrário, as barragens de contenção de rejeitos, que são de propriedade da companhia de mineração, não fornecem nenhum benefício direto ao público;
  • As companhias de mineração geralmente não possuem profissionais próprios com experiência em barragens, recorrendo, então, a consultores externos ao seu quadro de funcionários. Isso introduz uma nova questão no gerenciamento das instalações de rejeitos: a perda potencial da boa e clara comunicação e a perda da continuidade do projeto;
  • Barragens de contenção de rejeitos geralmente retêm materiais sólidos e água que podem ser considerados contaminantes, se liberados para o meio ambiente. A composição destes materiais depende do processo industrial e do tipo de mineral explorado. A contaminação do meio ambiente pode acontecer por meio de drenagem ácida, infiltração dos contaminantes para o lençol freático, contaminação do solo e água superficial a jusante, com grande potencial de afetar a fauna local que utiliza a água de outras barragens como manancial.

O ponto comum é que as barragens demandam gestões específicas, ou seja, cada barragem apresenta peculiaridades em relação ao local em que se encontra, ao tipo de processo industrial e às características dos rejeitos, ao tipo de construção e operação e, por isso, não devem ser utilizadas fórmulas prontas, comuns para todas as barragens.

“Não existe barragem totalmente segura no estado de Minas Gerais” Superintendente do IBAMA – Júlio César Grilo

A procuradora-geral da República, Raquel Dodge, afirmou nesta segunda-feira, dia 28, que os responsáveis pela tragédia devem responder criminalmente.

“É preciso responsabilizar severamente do ponto de vista indenizatório a empresa que deu causa a esse desastre, e também promover a persecução penal, a punição penal é muito importante”, destacou a procuradora.

Raquel Dodge afirmou que será conduzido um trabalho minucioso para identificar as áreas nas quais foram cometidas as infrações e a devida responsabilização: cível, ambiental, criminal e trabalhista.

Resultado de imagem para samarco mariana
Anos depois, os responsáveis da Samarco pela tragédia de Mariana ainda estão impunes

 

A indústria bilionária da mineração deve entender que, por mais alto que seja o lucro obtido, o valor ambiental (e isso inclui TODAS as vidas perdidas no evento criminal) é impagável, imensurável e irreversível.  É preciso modificar e enrijecer as leis ambientais para evitar que esse tipo de crime possa passar impune, tornando-o como hediondo. O Brasil chorou por Mariana e chora mais uma vez por Brumadinho. A diferença é que agora vamos lutar para que nunca mais a sustentabilidade seja deixada de lado e para que nosso Brasil não se torne mais uma mistura triste de lágrimas, sangue e lama.

Resultado de imagem para barragem brumadinho
Rastro de destruição em Brumadinho

 

Referências

DUARTE. Anderson – Classificação das Barragens de Contenção de Rejeitos de Mineração e de Resíduos Industriais no Estado de Minas Gerais em Relação ao Potencial de Risco. 2008

VIEIRA, V. P. P. B. Análise de riscos em recursos hídricos – fundamentos e Aplicações. Porto Alegre-RS: Associação Brasileira de Recursos Hídricos (ABRH), nov. 2005.

UNITED STATES COMMITTEE ON LARGE DAMS – USCOLD. Tailings Dams Incidents. 2004 

Conheça a ilha mais mortal do Planeta – e ela está no Brasil!

Quando pensamos em um ranking das ilhas mais perigosas do planeta, logo imaginamos destinos exóticos, em terras longínquas, do outro lado do mundo. Entretanto, para conhecer o “lugar mais perigoso do mundo para se visitar”, eleito em 2010 pelo site Listverse, basta se deslocar pouco mais de 18 milhas náuticas da costa do estado de São Paulo.

Resultado de imagem para ilha queimada grande
Localização da ilha mais perigosa do mundo

A Ilha da Queimada Grande, também conhecida como Ilha das Cobras, encontra-se a 35 quilômetros da cidade de Itanhaém, a segunda cidade mais antiga do Brasil. Foi descoberta em 1532, pela expedição colonizadora de Martim Afonso de Souza e, desde então, diversos barcos atracaram no local inúmeras vezes, o que resultou em várias mortes, sobretudo devido a naufrágios na região. Para tornar o desembarque de pescadores mais seguro e auxiliar os barcos e navios que circundavam a área, o governo brasileiro instalou um farol no topo da ilha, no final do século XIX, o que desencadeou uma série de eventos que contribuíram para a fama do lugar.

Resultado de imagem para ilha queimada grande naufragios
O Navio Tocantins é uma dentre várias embarcações que afundaram perto da ilha – Foto por Clécio Mayrink
Imagem relacionada
Farol antigo da Ilha da Queimada Grande – Foto por Igor Fontes

Durante o início do século XX, dezenas de pessoas se mudaram para a ilha, incluindo pescadores e a família de um faroleiro, que ficou responsável pela manutenção da estrutura. Para abrir caminho na região, era comum que os moradores ateassem fogo no mato seco, o que conferiu à ilha o seu nome. Entretanto, nos primeiros meses de ocupação o local já apresentou diversos desafios. Primeiramente, essa ilhota não possui uma fonte de água potável, o que dificultou drasticamente o assentamento de uma população na área. Em segundo lugar, o ambiente contava com outra ameaça mortal, que logo se mostraria decisiva para o seu destino: a presença de uma espécie de cobra.

Resultado de imagem para bothrops insularis
Jararaca-ilhoa (Bothrops insularis), espécie endêmica da Ilha

O primeiro registro da Jararaca-ilhoa na ilha foi em 1911 e, desde então, os moradores passaram a temer o animal. Embora existam poucos registros da época, acredita-se que grande parte dos incêndios do lugar foram causados com o objetivo de diminuir a população desse animal, que frequentemente matava galinhas, gatos e cães, além de cavalos e jumentos. Nos anos seguintes, algumas mortes humanas foram atribuídas a esse animal, o que fez com que a ilha fosse evacuada entre 1918 e 1925, quando o farol foi automatizado. (Embora a história de que a família do faroleiro tenha sido morta por cobras em uma só noite seja frequentemente mencionada, não existem registros históricos que comprovem essa narrativa). Desde 1984, o desembarque no local é expressamente proibido, sendo permitido apenas pela marinha e por biólogos autorizados do ICMBio.

Resultado de imagem para bothrops insularis
Foto por Wolfgang Wuster

Mas afinal, por que a Jararaca-ilhoa é considerada tão mais perigosa do que as outras cobras? E ainda, como essa espécie foi parar na ilha? Durante a última era glacial, há cerca de 12 mil anos, Queimada Grande era um morro que fazia parte do litoral do continente mas, com o derretimento acentuado dos glaciares a partir de 11 mil anos atrás, esse pedaço de terra ficou isolado, apartando também uma população de jararacas. Ao longo de milhares de anos, esses animais adquiriram características exclusivas, selecionadas para melhor se adaptarem às condições da ilha. Por não existirem mamíferos nativos no local, o veneno dessas serpentes semi-arborícolas é extremamente tóxico, com o objetivo de matar rapidamente as aves, sua principal presa. Embora fontes afirmem que seu veneno é cerca de 15 vezes mais potente que o das cobras do continente, pesquisas recentes demonstram que sua ação é apenas mais específica, o que justifica a morte súbita dos pássaros de que se alimentam.

Exemplo de uma jararaca arborícola (Bothriechis schlegelii) caçando uma ave – Foto por Chris Jimenez

Outro fator que torna a jararaca-ilhoa tão perigosa é sua densidade demográfica: devido à ausência de predadores, a ilha contava com uma enorme quantidade desses animais. As primeiras contagens, realizadas por Afrânio do Amaral (entre 1914 e 1929) e pelo Dr. Alphonse Richard Hoge (entre 1947 e 1970), apontaram que a população desses animais ultrapassava os 12 mil indivíduos, com mais de 5 serpentes por metro quadrado. Entretanto, pesquisas mais recentes demonstram um declínio populacional acentuado, com pouco mais de dois mil exemplares na ilha, sobretudo devido ao impacto humano durante sua ocupação no local e ao tráfico internacional desses animais, uma vez que seu veneno vem sendo utilizado para o estudo de diversos medicamentos. Essa queda populacional, somada à área restrita em que esse animal vive, fizeram com que ele fosse classificado como Criticamente Ameaçado pela IUCN, uma vez que, se medidas protetivas não forem bem empregadas, essa espécie corre grande risco de desaparecer em um futuro próximo.

Resultado de imagem para bothrops insularis  bird
Jararaca-ilhoa adulta e filhote – Fotógrafo desconhecido

A jararaca-ilhoa é um exemplo de como a fama de um animal pode quase levá-lo à extinção – ou resgatá-lo. Devido à seu endemismo e às propriedades específicas de seu veneno, sua população é constantemente monitorada desde 1984 e seu lar se tornou uma grande reserva natural. Além disso, a Marinha do Brasil proíbe que a pesca seja realizada no entorno do local, o que também contribui para a preservação da vida aquática.

Foto: Igor Fontes

A Ilha da Queimada Grande nos mostra a importância de se conhecer o ambiente à nossa volta e, mais importante, a respeitá-lo. Isso confere segurança, tanto para o ser humano, quanto para a natureza onde esse ambiente está inserido.

Referências

Textos 

https://www.hipercultura.com/ilha-da-queimada-grande/

http://www2.itanhaem.sp.gov.br/turismo/ilha-queimada-grande/

https://www.bbc.com/portuguese/geral-43115867

Site

http://www.ilhaqueimadagrande.com.br

Artigos

A biological survey of the pitviper Bothrops insularis amaral (serpentes, viperidae): An endemic and threatened offshore island snake of southeastern Brazil (2008) – DUARTE, M. R. et. al.

Butantan Institute and the Golden lancehead: one hundred years of his- tory, myths and science (2012) – Kasperoviczus, K. N. et. al. 

 

 

Engenheiros da Natureza – Como alguns animais conseguem transformar o ambiente em que vivem

Desde os primórdios da humanidade, alteramos o solo, os rios e as paisagens que nos cercam.  Com nossa inteligência coletiva, fomos capazes de criar sistemas de drenagem de água, cidades com milhões de habitantes, estruturas que podem ser vistas do espaço e, até mesmo, monumentos que já duram milhares de anos e que, provavelmente, continuarão aqui mesmo depois que formos extintos. Entretanto, ao longo de milhões de anos de evolução, diversos grupos de animais do nosso planeta desenvolveram técnicas de construção e de manipulação ambiental extremamente complexas, superando, em alguns casos, até mesmo as construções humanas!

Peixes

Embora diversos peixes tenham a capacidade de construir ninhos e tocas complexas (com destaque para os ciclídeos), nenhum se compara à capacidade criativa do baiacu japonês chamado Torquigener albomaculosus. Por muitos anos, mergulhadores na costa do Japão observaram estranhas estruturas submersas, com mais de dois metros de diâmetro, que rapidamente ficaram conhecidas como “círculos nas plantações marinhos”, em referência a estranhos padrões observados em regiões agrícolas dos Estados Unidos e Europa e atribuídos por alguns a alienígenas.

Resultado de imagem para Torquigener albomaculosus

Felizmente para os cientistas locais, o mistério foi solucionado nos anos 90 e o criador desses padrões era um pequeno peixe, com pouco mais de 12 centímetros de comprimento. Para atrair fêmeas, os machos dessa espécia criam esses gigantescos ninhos de areia, cujo formato faz com que a areia de seu centro, onde os ovos da fêmea serão depositados, não sofra com correntes marinhas e permaneça inalterado nas próximas duas semanas, tempo em que o macho guardará seu ninho sozinho.

Resultado de imagem para Torquigener albomaculosus
Macho de Torquigener albomaculosus construindo seu ninho – Por Yoji Okata

 

Mamíferos

Desde seu surgimento, os mamíferos vêm criando uma enorme variedade de tocas subterrâneas, sendo essas as mais complexas dentre os vertebrados. Acredita-se, inclusive, que os mamíferos tenham se originado de uma linhagem de mammaliaformes cavadores no período Triássico e, em diversas linhagens, retornaram para a vida fossorial. A primeira toca de mammaliaforme conhecida pertence ao Docofossor brachydactylus, um pequeno docodonte do Jurássico que vivia grande parte da sua vida em túneis simples. 

Esquema do esqueleto e representação gráfica do Docofossor brachydactylus – Por April I. Neander

Dentre todos os grupos de mamíferos, o que mais se destaca atualmente na construção de tocas são os roedores. O rato-toupeira-pelado, por exemplo, vive em colônias de até 300 indivíduos, governadas por uma rainha e com uma hierarquia muito semelhante à das formigas, na qual operárias irão construir uma grande rede de túneis interligados com mais de quatro quilômetros de comprimento, com separações de câmaras para diferentes funções, cavados com seus incisivos. 

Resultado de imagem para naked mole rat burrow
Túnel subterrâneo de um rato-toupeira-pelado (Heterocephalus glaber)

Os cães-das-pradarias (gênero Cynomys) vivem em grandes cidades subterrâneas, em campos abertos da América do Norte. Historicamente, a maior dessas cidades, no Texas, tinha uma população de 400 milhões de indivíduos e ocupava uma área de 64.000 quilômetros quadrados. Embora as populações desses animais tenham decaído drasticamente no último século, suas técnicas de engenharia mantiveram-se as mesmas. Primeiramente, eles constroem um grande túnel com duas entradas, que servirá como uma “avenida principal” em sua cidade. De todos os lados, diversas câmaras serão feitas, para funcionar como residência para as famílias, berçários, depósitos de alimentos e banheiros comunitários.

Resultado de imagem para prairie dog
Família de cães-da-pradaria (Cynomys ludovicianus)
Imagem relacionada
Esquema de toca coletiva de cão-das-pradarias

Além disso, suas cidades contam com um sofisticado sistema de ar-condicionado natural, no qual há um fluxo constante de ar para dentro das tocas, baixando as temperaturas e renovando o oxigênio disponível para esses animais.

Resultado de imagem para prairie dog burrow air
Esquema de “ar-condicionado” dos cães-da-pradaria, construído com base em uma diferença de pressão entre as entradas da toca.

Um outro construtor extremo é o extinto Palaeocastor fossor, animal semelhante ao castor, que viveu no Mioceno e que criava estruturas perfeitamente espiraladas com até 3 metros de profundidade , cujo modelo nenhum animal foi capaz de copiar até hoje.

Imagem relacionada
Toca fossilizada de um Paleocastor, em exposição nos Estados Unidos.
Resultado de imagem para Palaeocastor
Representação de tocas de um Paleocastor – Por Julio Lacerda

Atualmente, existem outras duas espécies de castor capazes de construir estruturas tão surpreendentes quanto as tocas de seus primos extintos. O castor-americano (Castor canadensis) e o castor-europeu (Castor fiber) vivem em rios e lagos de grande parte do Hemisfério Norte (tendo sido introduzidos na Argentina) e, ao contrário do que muitas pessoas pensam, esses animais não vivem em represas. Caso encontrem um lago para morar, os castores irão derrubar árvores (roendo a base com seus dentes) e utilizarão seus galhos para construir uma toca semi-flutuante, cuja entrada se encontrará submersa, e onde irão dormir e criar seus filhotes.

Resultado de imagem para castor den
Toca semi-flutuante de um castor em um lago
Resultado de imagem para beaver den
Esquema de uma toca de castor

Caso esses animais não encontrem um lago adequado, eles irão coletar galhos para construir uma represa, criando, assim, lagoas artificiais, nas quais erguerão sua toca. Esses animais são capazes de modificar o curso de rios deliberadamente, de criar vazantes e, até mesmo, de criar micro ecossistemas inteiros. A maior represa de castores do mundo, no Canadá, possui 850 metros de comprimento,  sendo quase três vezes mais comprida que a represa de Hoover, em Nevada.

Resultado de imagem para beaver building a dam
Castor construindo uma represa
Imagem relacionada
Represa de castores na Argentina

Aves

Diversas famílias de aves adquiriram o hábito de fazer ninhos complexos de forma independente, para oferecer maior proteção e criar um microambiente com temperatura favorável para seus filhotes ou para atrair o sexo oposto. Desde ninhos feitos de barro a estruturas suspensas que pesam toneladas, esses animais conseguem construir as mais belas casas do reino animal. Apesar de extremamente elaborados, eles não possuem grande impacto em seu ambiente.

Resultado de imagem para sociable weaver bird
Ninhos comunitários do pássaro-tecelão (Philetairus socius) podem pesar várias toneladas
Resultado de imagem para bowerbird
Os pássaros-cetim da Oceania são conhecidos por criarem ninhos complexos adornados com frutas e flores coloridas para atrair parceiros
Resultado de imagem para joao de barro
João-de-barro (Furnarius rufus) ao lado de seu ninho
Resultado de imagem para Baya weaver birds
Ninho de grama trançada de um Ploceus philippinus

Artrópodes

Dentre os artrópodes, as aranhas são os mais conhecidos entre os construtores. Apesar de possuírem teias extremamente elaboradas, nesse texto elas serão apenas citadas, uma vez que suas estruturas são pequenas, com raras exceções, podendo chegar a até 25 metros de comprimento. Esses animais serão abordados em um texto futuro.

Resultado de imagem para spider web
A seda produzida pela aranha está entre as substâncias orgânicas mais resistentes do planeta

Dentre os Hymenopteros (ordem que também inclui abelhas e vespas), as formigas são os animais com maiores habilidades de construção. Além disso, algumas espécies possuem um sistema de castas extremamente complexo, com uma rainha, soldados, mega soldados e diversos tipos de operários, com uma diferença de tamanho de até 500 vezes entre eles. As colônias contínuas podem chegar a até 7 milhões de indivíduos, distribuídos entre os aposentos reais, quarteis generais, berçário, fazendas de fungos e depósito de dejetos. A maior dessas cidades contínuas foi descoberta aqui no Brasil, com uma área de 50 metros quadrados e mais de 8 metros de profundidade e sua construção moveu mais de 40 toneladas de terra.

Underground city: The network of tunnels and dens built by millions of Leaf Cutter ants in Brazil
O maior formigueiro contínuo já descoberto, com mais de 50 metros quadrados
Sophisticated: Scientists reveal concrete casts of the circular chambers and roads connecting them
Imagem mostrando as diversas câmeras que compunham o formigueiro gigante

Entretanto, um outro grupo de animais supera todos os outros de nossa lista: os cupins. Embora pequenos e sem um “plano de construção”, os cupins conseguem criar verdadeiros impérios, assim como as formigas, com uma pequena diferença: o seu tamanho. Esses insetos, com poucos milímetros de comprimento, são capazes de criar chaminés para ventilar a colônia com até 8 metros de altura, em um sistema ainda mais eficiente que o dos cães-da-pradaria.

Resultado de imagem para 8 meters termite mound
Chaminé de um cupinzeiro com 6 metros de altura na Austrália – Fotógrafo desconhecido
Resultado de imagem para termite mound air
Fluxo de ar em um cupinzeiro

Entretanto, no final de 2018, cientistas publicaram na revista Current Biology a descoberta de um cupinzeiro de 4 mil anos de idade, que abrangia a Bahia e o norte de Minas Gerais. Com uma área total de mais de 230 mil quilômetros quadrados, essa megalópole é tão grande quanto a Grã-Bretanha, sendo, portanto, a maior estrutura biológica do planeta, maior que nossas maiores cidades. Para sua construção, foram movidos mais de 10 km cúbicos de terra, o suficiente para construir quatro mil vezes as Pirâmides de Gizé .

Botanist Roy Funch carried out radioactive dating to determine the age of the giant termite mounds near Palmeiras
Uma das 200 milhões de chaminés de ventilação da maior cidade do mundo
Chaminés estão espalhadas em uma área de 230 mil quilômetros quadrados – Fotos por Roy Funch
Resultado de imagem para Syntermes dirus
Espécie responsável pela colônia gigante

 

Embora esses animais não tenham um vasto conhecimento em matemática, física ou química, eles são capazes de parar rios, derrubar árvores, criar sociedades e construir estruturas grandes o bastante para serem vistas do espaço. Além de aprendermos com suas técnicas, esses organismos são capazes de nos ensinar a ter humildade perante a natureza e de nos mostrar que a coletividade pode, literalmente, mover montanhas.

 

Referências

Baiacu

https://blog.nationalgeographic.org/2013/08/15/whats-this-mysterious-circle-on-the-seafloor

https://www.smithsonianmag.com/smart-news/pufferfish-create-underwater-crop-circles-when-they-mate-620736/

Docofossor

https://www.washingtonpost.com/news/morning-mix/wp/2015/02/13/meet-the-furry-jurassic-period-critters-that-outwitted-the-dinosaurs/?utm_term=.d65fd93eec74

Rato-toupeira-pelado

https://nationalzoo.si.edu/animals/naked-mole-rat

Cão-das-pradarias

https://www.britannica.com/animal/prairie-dog

Palaeocastor

http://www.eartharchives.org/articles/legend-of-the-devil-s-corkscrews/

Castor

https://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/northamerica/canada/7676300/Worlds-biggest-beaver-dam-can-be-seen-from-space.html

Formigas

Como é o interior de um formigueiro?

https://www.coolweirdo.com/giant-ant-hill-megalopolis-discovered-in-brazil.html

https://www.dailymail.co.uk/sciencetech/article-2095335/Underground-ant-city-Brazil-rivals-Great-Wall-China-labyrinth-highways.html

Cupim

https://www.independent.co.uk/news/science/termite-colony-brazil-bigger-britain-pyramids-university-of-salford-study-a8668136.html

https://www.cell.com/action/showPdf?pii=S0960-9822%2818%2931287-9

 

 

 

 

Cenário apocalíptico: a Terra já está cheia de nós!

O planeta terra possui 4,5 bilhões de anos, porém a existência humana é bem mais curta do que isso. Se o Big Bang tivesse ocorrido há 24 horas atrás, os seres humanos teriam aparecido no planeta nos últimos 3 segundos. Você já imaginou quanto impacto já causamos em tão pouco tempo de história planetária? Tanto impacto ao planeta em tão pouco tempo de existência. Nós nos denominamos HOMO SAPIENS, ou HOMEM INTELIGENTE em português. Não há quem questione se somos inteligentes. É muito bom sermos espertos, mas será que somos espertos o suficiente para nosso próprio bem?

Nós alcançamos coisas inimagináveis, dividimos átomos e construímos máquinas para viajar no universo. Mas os mesmos átomos que dividimos serviram para criar armas nucleares e, ao mesmo tempo que exploramos galáxias em busca de novas estadias para a humanidade, negligenciamos nossa própria casa Gaia. Então não me diga que isso possa ser sabedoria, pois isso é bem diferente. Quando a inteligência fala, a sabedoria ouve, e nós estamos convenientemente tapando nossos ouvidos para os gritos da mãe natureza e fechando os nossos olhos para todos os sinais de socorro que ela nos envia.

Devido ao ritmo cada vez mais acelerado da mudança, nunca poderemos ter bem a certeza se os adultos nos estão a transmitir sabedoria intemporal ou algum dado tendencioso e já ultrapassado – Yuval Harari

Pessoas sábias sabem que toda ação gera uma reação oposta e de mesma intensidade. Se fôssemos inteligentes, não ficaríamos chocados quando estivéssemos de frente com tempestades de intensidade nunca antes vistas, mais secas, furacões e queimadas impressionantes?  Mas estamos poluindo mais do que antes, cortando mais árvores do que nunca e, em tempo recorde, aumentamos a taxa de animais em extinção em 1000 vezes do normal. Entre os próximos 10 e 100 anos, os animais selvagens característicos mais encontrados em livros de escola serão extintos. Não encontraremos mais na natureza leões, rinocerontes, tigres, gorilas, elefantes, ursos polares, devido a três segundos. As espécies que estão aqui há mais tempo que os humanos não desaparecerão do planeta por nossa causa.

farm-1-e1510748149300

Nós, seres humanos, transformamos o ciclo da vida da Terra em um ciclo de conveniência e precisamos reconhecer que todos os seres estão conectados de uma forma que nossa ignorância não consegue compreender. A terra está cheia. Cheia de nós. Cheia de nossas coisas. Cheia de nossos resíduos. Cheia de nossas demandas. Nossa economia agora é maior do que seu hospedeiro, o nosso planeta. Isso quer dizer que nossa economia é totalmente insustentável. Quando as coisas não são sustentáveis, elas paralisam.

O crescimento econômico vai parar devido ao fim dos recursos baratos que vão acabar por causa da crescente demanda humana em todos os sistemas da Terra. Os humanos têm uma ideia louca e megalomaníaca de que podemos ter um crescimento infinito em um planeta finito. A Terra não se importa com o que precisamos. A mãe natureza não negocia. Ela apenas define regras e apresenta as consequências.

clims7_stt0009105_2400

Nós tendemos a olhar para o mundo, não como um sistema integrado, mas como uma série de questões individuais. Nós presenciamos os protestos para ocupação dos Sem Terra, as crises de endividamento em espiral, uma crescente desigualdade social e a influência do dinheiro na política. Mas enxergamos, erroneamente, cada uma dessas questões como problemas individuais que devem ser resolvidos. Na verdade, isso são apenas evidências do doloroso processo de quebra do sistema. Eu poderia te apresentar inúmeros estudos e evidências para provar isso, mas não será necessário, pois as evidências estão ao nosso redor. A crise é agora e é inevitável. A questão é como vamos reagir a tudo isso. Imagine o que acontecerá com nossa economia quando a bolha de carbono explodir. Quando os mercados financeiros reconhecerem que não há mais esperança de impedir que o clima saia do controle. As indústrias de petróleo e carvão estarão acabadas.

Imagine o Oriente Médio sem a renda do petróleo e com governos em colapso. Imagine a China, a Índia e o Paquistão entrando em guerra, pois os impactos climáticos geram conflitos sobre a comida e a disponibilidade de água. Imagine nossa indústria de alimentos altamente sintonizada para evitar desperdícios e nosso sistema agrícola falhando, enquanto as prateleiras dos supermercados estiverem esvaziando. Imagine 50% de desemprego no Brasil, já que a economia global está dominada pelo medo e pela incerteza. Imagine o que isso significa para a sua segurança pessoal, à medida que uma população civil fortemente armada fica cada vez mais irritada com o motivo pelo qual isso foi permitido.

Post_Apocalypse_-_Flickr_-_Joe_Parks.jpg

Apenas tire um momento, respire e pense: o que você sente ao ler tudo isso? Quando pensamos sobre as possibilidades que estão à nossa frente, devemos sentir um pouco de medo. Todos nós estamos em perigo. Nós evoluímos para responder ao perigo com medo, para motivar uma resposta poderosa. Conseguimos coisas notáveis ​​desde que trabalhamos para cultivar alimentos, há cerca de 10.000 anos. Para as pessoas que acreditam que os humanos podem resolver qualquer problema, saibam que essa tecnologia é limitada. Os mercados podem ser uma força para o bem, pois é histórico que é preciso uma boa crise para nos levar adiante. Quando sentimos medo e percebemos a perda, somos capazes de coisas extraordinárias.


globalwarming

Após o bombardeio de Pearl Harbor, em apenas quatro dias o governo proibiu a produção de carros civis e redirecionou a indústria automobilística. A partir daí, ocorreu um extremo racionamento de comida e energia. Isso mostra como uma empresa responde a uma ameaça de falência e como a mudança que parecia impossível acontece. Pense em como mudanças de estilo de vida, que anteriormente pareciam muito difíceis, de repente se tornam relativamente fáceis. Nós podemos transformar nossa economia. A única coisa que precisamos mudar é como pensamos e como nos sentimos.

Sei que os fundamentalistas do mercado livre dirão que mais crescimento, mais coisas e 9 bilhões de pessoas fazendo compras é o melhor que podemos fazer. Eles estão errados. Nós podemos ser mais. Nós podemos ser muito mais. Podemos escolher esse momento de crise para perguntar e responder às grandes questões da evolução da sociedade. Como e o que queremos ser quando crescermos como seres humanos? Quando deixaremos essa adolescência desajeitada, onde pensamos que não há limites e sofremos delírios de imortalidade? Bem, é hora de crescer com sabedoria. Para nos tornarmos mais maduros. Como as gerações antes de nós, estaremos crescendo em guerra. Não uma guerra entre civilizações, mas uma guerra pela sobrevivência da civilização.

Leia também :

Ainda dá tempo de salvar nossas espécies mais ameaçadas?

Referências: 
 Yuval Harari – 21 lições para o Século XXI
National Geografic – Environment Studies 

Os Mistérios dos Oceanos

Os oceanos formam os maiores biomas de nosso planeta, tendo, portanto, destaque em nossa imaginação. Desde tempos antigos, os mares moldam culturas, cidades e, até mesmo, países, influenciando a culinária, a mitologia, a arquitetura, inclusive as características físicas de determinados povos. Embora eles cubram cerca de 70% da superfície terrestre, conhecemos apenas 5% dos mares e 1% do leito oceânico, segundo dados da NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration).

Descubra alguns mistérios e curiosidades sobre esse ambiente de bilhões de anos que possui montanhas, rios, lagos, vulcões, animais brilhantes e criaturas tão grandes que um homem adulto poderia nadar em suas artérias!

Tamanho

Os oceanos cobrem uma área total de 360 milhões de quilômetros, o equivalente a 36 vezes o tamanho dos Estados Unidos ou a 42 vezes o tamanho do Brasil. Possuem um total de 1,3 bilhão de quilômetros cúbicos de água, o que significa que, se fossem colocados apenas sobre o Brasil, se entenderiam por 152,6 metros de altura, ultrapassando até mesmo nossa camada de ozônio!

Imagem relacionada
Fonte: Wikimedia Commons

Os oceanos possuem uma profundidade média de 3,8 quilômetros. Considerando que a luz é incapaz de ultrapassar profundidades maiores que 1 quilômetro, podemos concluir que a maior parte da superfície do nosso planeta nunca receberá a luz solar e que os maiores ecossistemas de nosso planeta são completamente escuros. A região mais profunda, por sua vez, possui cerca de 11,3 km de profundidade. Caso o Monte Everest fosse colocado no fundo desse abismo, denominado de Fossa das Marianas, ainda faltariam mais de dois quilômetros até a superfície.

Resultado de imagem para mariana trench everest
Profundidade da Challenger Deep, ponto mais fundo da Fossa das Marianas, em comparação com o Monte Everest – Retirado do site Venngage

Lagos oceânicos

Embora pareçam coisa de ficção científica, enormes lagos se escondem nos oceanos, a milhares de metros de profundidade. As chamadas “brine pools” são regiões de água extremamente densa, com salinidade de três a oito vezes maior do que o entorno, que não se misturam e possuem uma turbidez elevada. Possuem uma biodiversidade única, com características que possibilitam que esses animais sobrevivam a condições extremas (devido à ausência de luz nas profundidades em que esses lagos ocorrem, não existem plantas no local).

Resultado de imagem para Brine pool
Três lagos oceânicos, de aparência extremamente turva – Fonte: Lophelia II 2010 Expedition, NOAA-OER/BOEMRE National Oceanic and Atmospheric Administration

Por serem extremamente salgados, esses lagos são tóxicos para a maioria dos organismos. Milhares de animais entram anualmente nessas lagoas, sobretudo em busca de alimento, e nunca mais conseguem sair. Assista a seguir um trecho de um episódio da série Blue Planet, da BBC, que mostra os perigos desses ambientes para a vida local (imagens fortes). Felizmente, o animal em questão conseguiu escapar, mas nem todos têm a mesma sorte.

 

Animais gigantes

Devido ao grande espaço, à redução do peso na água e à enorme disponibilidade alimentar, os maiores animais do planeta se encontram na água. O maior e mais famoso desses é, sem dúvida, a baleia-azul (Balaenoptera musculus). Com até 33 metros de comprimento e pesando até 190 toneladas, essas criaturas produzem sons que podem ser ouvidos a mais de 800 quilômetros de distância! Seus pulmões suportam até 5.000 litros de ar, sua língua é tão pesada quanto um elefante adulto e sua boca é capaz de reter 90 toneladas de alimento por vez. Sua aorta possui de 23 a 38 cm de diâmetro, grande o bastante para passar um ser humano adulto.

Resultado de imagem para blue whale
Uma baleia azul -jovem . Fotógrafo desconhecido
Tamanho de uma baleia-azul em comparação com um elefante-africano e com um ser humano – Fonte: Enciclopédia Britanica
Imagem relacionada
Modelo de um coração de uma baleia-azul no Museu de Ontário, no Canadá

Um evento evolucionário frequentemente estudado pelos biólogos marinhos é o chamado “deep-sea gigantism”, ou “gigantismo abissal”, em português. Por razões ainda desconhecidas, os invertebrados que vivem em regiões fundas dos mares tendem a crescer até tamanhos descomunais. Lulas-gigantes de até 18 metros (que inspiraram lendas como a do Kraken), caranguejos maiores que os seres humanos e águas-vivas com dezenas de metros de comprimento povoam as regiões mais inóspitas de nossos oceanos, causando medo e admiração em quem os encontra.

Resultado de imagem para giant squid
Lula-gigante (Architeuthis sp.)  encontrada na costa da Nova Zelândia em Agosto de 2018 – Foto por Daniel Aplin
Japanese spider crab is listed (or ranked) 1 on the list Horrifying Examples Of Abyssal Gigantism
Caranguejo-aranha-japones (Macrocheira kaempferi) encontrado em 1920 – Foto:   Popular Science Magazine, jun. 1920
Resultado de imagem para giant isopod
Isópodes marinhos gigantes podem ser encontrados em mares de todo o mundo
Resultado de imagem para oarfish
Menos comumente, o gigantismo também ocorre em peixes, como nesse Regalecus glesne, animal que inspirou as lendas de serpentes marinhas gigantes.

Aliens submarinos

Devido a adaptações para suportar a imensa pressão nas regiões abissais e a características que possibilitam que esses organismos vivam em um local com completa ausência de luz solar, os animais das regiões abissais são, sem dúvidas, aliens aos nossos olhos. A bioluminescência (produção de luz por seres vivos) é a forma de comunicação mais comum da natureza e, mesmo assim, ainda nos surpreende até hoje. (Por serem pouco conhecidos, a maioria dos animais a seguir não possui nomes em português).

Camarão abissal translúcido – Espécie desconhecida
Barreleye, peixe abissal argentino com cabeça transparente. Note o cérebro (amarronzado) e os seus olhos verdes voltados para cima
Colourful sea creatures on black background
Diversidade abissal (Spiny King Crab, Facless Cusk, Monkey Brittle Star. Em baixo: Smooth-head Blobfish, Flesh-eating amphipod e Threadfin Dragonfish) fotografada por Robert Zugaro
Lizardfish (Peixe-lagarto em tradução literal) por Robert Zugaro
Tomopteris, um anelídeo abissal
Imagem relacionada
Lophiiformes, também conhecidos como tamboril, são peixes abissais com uma isca bioluminescente para atrair suas presas. São famosos por terem aparecido no filme Procurando Nemo, da Pixar
Resultado de imagem para salps
Salpas, tunicados coloniais bioluminescentes, fotografadas por Tyler Pockran
Imagem relacionada
O tubarão-charuto (Isistius brasiliensis) é uma espécie de tubarão bioluminescente do Brasil que possui um

Resultado de imagem para isistius brasiliensis

“The Bloop”

The bloop é o nome dado a um som misterioso registrado por oceanógrafos de vários países desde 1997, que provém de uma mesma fonte, em algum ponto do Oceano Pacífico. Esse barulho, que inicialmente se acreditava ser de origem biológica e que viaja por mais de 5.000 quilômetros, ainda não foi desvendado, mas atualmente acredita-se que tenha origem geológica ou que seja gerado por rachaduras em geleiras. Entretanto, essas teorias ainda não foram confirmadas, e o mistério continua.

 

Embora muito estudados, os oceanos ainda continuam extremamente misteriosos. A destruição e a poluição humana podem acabar com milhares de espécies nos próximos anos, antes mesmo que sejam descobertas. As nossas ações dos próximos anos podem determinar a proteção ou a ruína dos maiores e mais antigos ecossistemas do planeta.

Referências

Site https://www.marineinsight.com/environment/top-10-amazing-ocean-mysteries-and-phenomena/

Site https://listverse.com/2016/06/20/10-intriguing-mysteries-lurking-deep-under-the-ocean/

Vídeo do canal Sci Show

Texto https://www.livescience.com/14493-ocean-exploration-deep-sea-diving.html

Sobre o tamanho dos oceanos: https://www.megacurioso.com.br/numeros-malucos/37077-voce-tem-ideia-de-qual-e-o-tamanho-do-oceano-.htm

Artigo: Microbial Diversity of the Brine-Seawater Interface of the Kebrit Deep, Red Sea, Studied via 16S rRNA Gene Sequences and Cultivation Methods, de Eder et. al.

Texto https://www.wired.co.uk/article/bloop-mystery-not-solved-sort-of

A poluição pode acabar com nossa Internet nos próximos dez anos – e não há nada que você possa fazer para impedir!

A internet é uma das maiores invenções dos últimos tempos, mas ela corre sérios riscos, devido à poluição antropológica. Mas essa é a menor de nossas preocupações. Podemos estar criando uma armadilha para nós mesmos e ser aprisionados em nossa própria ignorância.

Colocar algo no espaço é incrivelmente difícil. Para isso, é preciso se locomover muito, muito rápido, primeiramente na vertical, para deixar a atmosfera, e depois de lado, para começar uma espécie de círculo ao redor da Terra, vertiginosamente. Se isso for feito com sucesso, o objeto entrará em uma baixa órbita terrestre e, a menos que consiga exercer alguma força, nunca sairá dela.

Low-Medium-and-High-Earth-orbits-Types-of-orbits-small

Grande parte da infraestrutura espacial está orbitando em volta da Terra, a algumas centenas de quilômetros sobre a superfície, antes que a resistência do ar possa diminuir sua velocidade a ponto de trazê-la de volta à Terra. 

Essa é a fonte de nossa maior armadilha: resíduos espaciais. Para entendermos o funcionamento dessa poluição espacial, temos que entender o funcionamento de foguetes. Os foguetes são cilindros de metal que armazenam grande quantidade de combustível no seu interior. Sempre que uma quantidade de combustível acaba, os tanques vazios são descartados para deixar o foguete mais leve. Algumas partes caem na Terra e outras queimam na atmosfera, mas a maior parte das peças se mantém orbitando na Terra. Após décadas de viagens espaciais, a baixa órbita terrestre tornou-se um ferro-velho de foguetes auxiliares que foram descartados, de milhões de estilhaços de explosões, além de satélites quebrados. 

abre.jpg
Atualmente, sabe-se que existem na órbita terrestre 2.600 satélites extintos, 10.000 objetos maiores que um monitor, 20.000 tão grandes quanto uma maçã, 500.000 do tamanho de uma bola de gude e pelo menos 100.000 objetos tão pequenos que não podem ser rastreados. Esses detritos estão se movendo a uma velocidade de até 30.000 km/hora, circulando a terra várias vezes por dia. Portanto, toda vez que colocamos no espaço um satélite ou um foguete, estamos lançando uma infraestrutura bilionária direto em uma zona de perigo. 

Hoje, a rede de satélites exerce funções essenciais no mundo moderno: comunicação global (Internet), GPS e navegação, dados meteorológicos, observação de asteróides, dentre outros. Se apenas um entulho espacial do tamanho de uma mísera bala atingisse um dos nossos 1.100 satélites em funcionamento, ele seria destruído instantaneamente. É dessa maneira que 3 ou 4 satélites são destruídos todos os anos. 

Como a quantidade de satélites e de lixo espacial tendem a crescer dez vezes na próxima década, estamos alcançando um ponto de inflexão. Dessa forma, um simples colapso entre duas partículas poderia gerar uma reação em cadeia, que transformaria satélites em funcionamento em mais lixo, gerando uma nuvem de mais estilhaços orbitando pela Terra. Esses detritos iriam colidir com mais e mais partículas, gerando um lento e destrutivo efeito dominó. Com mais e mais satélites sendo destruídos, o dano cresceria exponencialmente. 

atv-break-up.jpg

O pior cenário imaginável é simplesmente aterrorizante, já que, com o tempo, seria criado ao redor da Terra um campo de detritos, possivelmente, muito perigoso de atravessar. Os planos de criação de uma base lunar e de colônias em Marte poderia sofrer grandes atrasados por causa disso. E o pior. A perda de nossa infraestrutura espacial nos levaria tecnologicamente de volta à década de 70, ou seja, nada de Internet, GPS, etc. 

Entretanto, ainda não é necessário se desesperar, pois temos soluções para virar esse jogo. Enquanto a  indústria espacial vem estudando maneiras de diminuir seus resíduos, há muitas pessoas pensando em como remover detritos espaciais sem gerar mais lixo durante o processo. Algumas das soluções principais seriam a utilização de captura e retorno de lixo espacial, o emprego de força magnética por meio de imãs gigantes e, até mesmo, o uso de lasers. 

35fbcc4f0435471064ac373d3e654ed9.jpg

Qualquer que seja a tecnologia escolhida para remover o lixo espacial, os responsáveis terráqueos precisam agir rápido, antes que 100 milhões de partículas se tornem 1 trilhão e a armadilha esteja pronta. Se nada for feito, nossa aventura no espaço pode acabar antes mesmo de começar. 

Referências 

NASA – Orbital debris : https://www.orbitaldebris.jsc.nasa.gov
NASA – Missions : https://www.nasa.gov/mission_pages/station/news/orbital_debris.html
Canal Kurzgesagt in a Nutshell



Ainda dá tempo de salvar nossas espécies mais ameaçadas?

Quando pensamos em espécies ameaçadas, geralmente lembramos de pandas, tigres e elefantes. Embora estejam em risco de desaparecer completamente do planeta, sua fama ajudou a financiar diversos projetos de conservação, que trabalham dia e noite para salvar esses organismos únicos. Entretanto, pesquisas apontam que, anualmente, mais de 2000 mil espécies são extintas (alguns dados sugerem que cerca de 200 são extintas diariamente, totalizando mais de 73.000 ao ano), das quais a maioria é totalmente desconhecida para o público comum. Sendo assim, ainda dá tempo de salvar as espécies mais ameaçadas do planeta? E ainda, o que podemos aprender com nossos erros e acertos?

Resultado de imagem para jubarte
Jubarte, uma das espécies ameaçadas mais famosas do planeta

O ato de preservar uma espécie ameaçada consiste em seu monitoramento, proteção governamental, fiscalização, prevenção de caça/pesca e, em alguns casos, sua reprodução em cativeiro, bem como todo o processo de reabilitação e de devolução à natureza. Embora pareça relativamente simples, a maioria das espécies é negligenciada ou sequer é conhecida, enquanto outras lutam contra a destruição de habitat, a caça ilegal ou com a falta de investimentos do governo. Em outros casos, por outro lado, alguns animais cuja extinção era considerada inevitável voltaram à natureza de forma surpreendente, graças ao esforço de governos e até de organizações não governamentais.

Resultado de imagem para tigre da tasmânia
Tigre-da-tasmânia, uma espécie extinta em 1936 devido à negligência do governo australiano.     A primeira e única lei visando sua proteção foi aprovada 59 dias após sua extinção.

Um bom exemplo da importância dessas ações de proteção é o caso da saiga (Saiga tatarica), um antílope peculiar que possui uma tromba e que vive em grandes bandos, em estepes da Ásia. Originalmente, essa espécie vivia em toda a América do Norte, Europa e Ásia mas, devido a mudanças climáticas e, mais recentemente, à ação do homem, sua população se reduziu de forma extremamente drástica, de milhões de indivíduos para poucas centenas, por volta de 1920. Entretanto, a proibição de sua caça pela antiga União Soviética elevou sua população para mais de 2 milhões de indivíduos em 1950, mostrando a eficiência de leis para a proteção animal. Após a queda da União Soviética, os novos países que dela faziam parte não mantiveram sua proteção, fazendo com que a espécie entrasse em declínio novamente. Atualmente, apenas 50 mil desses animais vivem na natureza, o que corresponde a aproximadamente 5% do número de 15 anos atrás.

Resultado de imagem para saiga
A saiga, um dos antílopes mais raros do mundo

No momento em que você está lendo esse texto, existem animais cuja extinção é apenas uma questão de tempo, e que, provavelmente, nada mais poderá ser feito. A vaquita (Phocoena sinus), uma espécie de golfinho do México com apenas 140 cm de comprimento, é, atualmente, um dos animais documentados mais ameaçados do mundo, sobretudo devido à poluição e ao uso de redes de pesca nas áreas em que vive. Segundo dados da IUCN (International Union for Conservation of Nature), sua população era de aproximadamente 600 animais em 1997, 100 em 2014, 60 em 2015, 30 em 2016 e apenas 12 em 2018. Embora seu declínio já estivesse acentuado nas últimas décadas, apenas em 2017 grandes projetos de proteção foram iniciados pelos governos do México e dos Estados Unidos. Após tentativas falhas de criação em cativeiro, essa espécie será, provavelmente, uma das próximas vítimas conhecida da ação humana.

Imagem relacionada
Uma vaquita, o cetáceo mais raro do mundo

Entretanto, nem tudo está perdido. Com um manejo correto e com investimentos governamentais ou do setor privado, uma espécie quase extinta pode, sim, florescer novamente. Dentro de inúmeros exemplos, o que mais se destaca é o do Falco punctatus.  Após constatarem uma população de apenas 4 indivíduos em 1974, os biólogos Gerald Durrell e Carl Jones criaram um santuário na Ile aux Aigrettes, no arquipélago de Maurício, com o objetivo de salvar essa ave. Foram anos de estudo, coleta e manejo de ovos e de monitoramento dos filhotes e adultos e, em 1984, sua população ultrapassava os 50 indivíduos. Por volta de 1990, uma população autossustentável já vivia na ilha e, atualmente, mais de 400 animais em idade reprodutiva estão vivos. Embora possuam baixa diversidade genética, estudos apontam sua viabilidade no ambiente.

Resultado de imagem para Falco punctatus
Falco punctatus, uma espécie que voltou da beira da extinção

Dessa forma, podemos perceber que, caso as espécies ameaçadas sejam corretamente manejadas, elas podem, sim, ter um futuro pela frente. Pelo mundo, diversos projetos como o Tamar possuem a missão de auxiliar na preservação e na reprodução de espécies ameaçadas, criando um futuro melhor para todo o planeta. Espécies como o rinoceronte-de-java (43 indivíduos) ou o íbis-eremita (500 indivíduos) podem não estar mais entre nós nos próximos anos mas, com toda certeza, o trabalho e a dedicação de centenas de profissionais em todo o mundo garantirão que muitas outras espécies perdurem por milhares de anos.

 

Referências

https://www.iucnredlist.org/

http://wwf.panda.org/knowledge_hub/endangered_species/saiga_antelope/

https://www.bbc.com/news/magazine-17826898

http://wwf.panda.org/our_work/biodiversity/biodiversity/

http://www.ubss.org.uk/resources/proceedings/vol18/UBSS_Proc_18_1_74-80.pdf

https://www.independent.co.uk/news/world/europe/endangered-saiga-antelope-mysteriously-dying-in-vast-numbers-in-kazakhstan-10274294.html

https://www.ecowatch.com/vaquita-on-brink-of-extinction-2233479187.html

https://news.mongabay.com/2018/03/only-12-vaquita-porpoises-remain-watchdog-groups-report/

https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1055790302002543?via%3Dihub

 

 

 

 

 

O Desafio de Ser Sustentável

Com a evolução da humanidade e o crescimento populacional, estamos reduzindo problemas de miséria enquanto a natureza entra em colapso. Até onde a natureza pode ir e qual é ponto de equilíbrio para tudo isso?


A mente humana quer se preocupar. Isso não é necessariamente uma coisa ruim, afinal, se um lobo está perseguindo você, se preocupar com isso pode salvar sua vida. Embora a maioria de nós não precise perder muito sono com lobos nos dias de hoje, a vida moderna apresenta muitas outras razões para preocupação: terrorismo, mudança climática, ascensão da inteligência artificial, invasões à nossa privacidade, e, até mesmo, o aparente declínio da internacionalização.

O ponto é que a competição de hoje entre as nações “na verdade representa um surpreendente acordo global”. E esse acordo global torna mais fácil a cooperação, bem como a competição. Nossa cooperação global pode ter dado alguns passos atrás nos últimos dois anos, mas antes disso demos alguns passos adiante.

Então, por que temos a impressão de que o mundo está em declínio? Por quê a sensação estranha de que estamos rolando ladeira abaixo?  Em grande parte, porque estamos muito menos dispostos a tolerar o infortúnio e a miséria. Mesmo que a quantidade de violência no mundo tenha diminuído bastante, nós nos concentramos no número de pessoas que morrem a cada ano em guerras porque nossa indignação com a injustiça cresceu.

Apesar dos riscos significativos para a vida humana e não humana, as emissões de gases de efeito estufa (GEE) ainda estão aumentando. Algo tem que mudar e esse algo é mais significativo do que aqueles com o poder de estimular a mudança estão dispostos a admitir. A Calculadora Global do governo do Reino Unido é um bom exemplo. Esta ferramenta, recentemente lançada, nos permite modelar a compatibilidade de nossos alimentos, viagens, moradia e ambiente de trabalho com metas nacionais para limitar as mudanças climáticas. O secretário do clima, Ed Davey, afirma que a calculadora mostra que “todos no mundo podem prosperar enquanto limitam a elevação da temperatura global a dois graus, evitando os impactos mais sérios da mudança climática”. No entanto, mesmo as mudanças mais ambiciosas que a ferramenta preconiza desviam um pouco de nossos atuais padrões “normais” de comportamento Resta saber qual  seria o governo  que adotaria as mudanças “extremamente ambiciosas”. Portanto, se já se sabe qual será nosso futuro, porque tantos postergam para modificá-lo? Pelo simples motivo de que muitos de nós não estarão mais aqui quando as consequências de uma irresponsabilidade generalizada chegar a acontecer, ou seja, o típico egoísmo coletivo. 

A crise ambiental é realmente uma crise de consciência. A maioria das pessoas sabe que o mundo natural está enfrentando grandes desafios e muita degradação, mas poucos sabem a verdadeira extensão das mudanças e privações que o meio ambiente enfrenta, além dos seus efeitos estendidos sobre o bem-estar humano e todas as outras formas de vida na Terra. Há uma grande lacuna entre a multiplicidade de problemas que o ambiente enfrenta em todas as frentes e o nível de conscientização que a maioria das pessoas tem sobre esses problemas. Durante este período crítico da história humana, nossa geração recebeu a tarefa urgente de reverter os danos da civilização industrial e superar talvez o maior desafio que a humanidade já enfrentou. A ideia seria haver uma união como uma força consciente e sustentável para assegurar a estabilidade de nosso futuro ambientalmente, economicamente e socialmente. Não podemos destruir o planeta, devastar a sua biodiversidade, alterar o clima e continuar a viver da riqueza das gerações futuras sem nos condenarmos e às custas da nossa civilização no processo.

O movimento ambientalista, com mais de um milhão de organizações ambientais, de justiça social e indígenas presentes, é o movimento que mais cresce na Terra. O ambientalismo se tornou uma questão humana mais ampla e unificadora, na qual todos os sistemas vivos da biosfera estão em constante e acelerado declínio. O aquecimento global, por exemplo, é real, destrutivo e seus impactos futuros desafiam a imaginação, mas nossa vontade coletiva de fazer a diferença é tão real e igualmente desafiadora diante de grandes desafios. Tudo começa com a superação da ideia de que você é pequeno demais para fazer a diferença. Além desse obstáculo, as possibilidades são infinitas e o céu é só o limite.

Os impactos da mudança climática e do dano ambiental são frequentemente observados de uma forma direta, em que o nível do mar é medido e as temperaturas são monitoradas. O aquecimento global já teve efeitos observáveis no meio ambiente, como o derretimento de geleiras, a quebra prematura de gelo em rios e lagos, o aumento das secas, a intensificação do clima extremo e a mudança de plantas e de animais. Sem uma ação efetiva para deter a queima de combustíveis fósseis e reduzir os níveis de gases de efeito estufa liberados pela atividade humana, os seres humanos e a vida selvagem no mundo enfrentarão um futuro inóspito. Haverá um aumento das perturbações para a sociedade devido às condições meteorológicas extremas, com inundações e tempestades mais frequentes, secas mais severas e ondas de calor, elevação do nível do mar e aquecimento do permafrost (tipo de solo existente na região do Ártico). Em muitas regiões, os efeitos da escassez de água e do calor extremo afetarão negativamente a agricultura. Os efeitos no mundo natural serão severos, com uma grande perda de recifes de corais gerada pelo aquecimento dos oceanos e o sumiço de florestas tropicais à medida que os incêndios se tornarem mais frequentes. Esses impactos também serão sentidos enormemente em termos econômicos.

 Yuval Harari

Em um mundo cada vez mais complexo, como qualquer um de nós pode ter informações suficientes para tomar decisões fundamentadas? É tentador recorrer a especialistas, mas como você sabe que eles não estão apenas seguindo o rebanho? O problema do pensamento grupal e da ignorância individual afeta a todos

É fundamental que cada ser vivo pensante consiga tomar consciência, praticando a atenção plena sobre o que ocorre para além de nossa pequenez. Após a tomada de consciência e a empatia com as gerações futuras é natural que, automaticamente, atitudes mais sustentáveis, minimalistas e conscientes tomem conta das nossas decisões. Mesmo que, em algum momento, essas atitudes não sejam sempre perfeitas, o sentimento de culpa dará uma nova cara às próximas ações. 

Mudanças no nosso conforto serão necessárias em prol de um bem maior, para além de algumas gerações passadas e presentes. Nosso compromisso deve ser firmado para que nosso legado não seja em vão. 

Referências 


21 Lições Para o Século 21 
The Global Calculator 

Mineração: Um risco iminente em Minas Gerais

A mineração é um dos setores básicos da economia do país e contribui de forma decisiva para o bem estar e a melhoria da qualidade de vida das presentes e futuras gerações, sendo fundamental para o desenvolvimento da sociedade, desde que seja operada com responsabilidade. Porém, a realidade é muito diferente da utopia e, muitas vezes, as atividades minerárias trazem com elas um enorme impacto ao meio ambiente, afetando, não só as florestas, como também o solo e o equilíbrio hidrológico.

mineração-carajas

Hoje em dia é impossível implantar projetos realmente importantes sem se pensar no impacto que ele pode causar ao meio ambiente. Por meio da mineração, o homem extrai recursos naturais que alimentam a economia e sem ela nenhuma atividade subsequente pode vir.

A história e as tradições de Minas Gerais estão fortemente ligadas à atividade mineradora e às suas reservas minerais. Afinal, o Estado extrai mais de 160 milhões de toneladas de minério de ferro por ano e responde por 29% de toda a produção mineral do país, por 53% da produção de minerais metálicos e por cerca de 50% de todo o ouro produzido no Brasil. Única fonte nacional de produção de zinco, Minas Gerais também é o maior produtor de ferro, ouro, fosfato, grafita, lítio e calcário, além de ser o responsável pela geração de 75% de todo o nióbio do mundo.

black coal passes above the conveyor belt
Fonte: BOSCH

Os depósitos minerais encontram-se onde as condições geológicas são favoráveis à sua formação. A este condicionante dá-se o nome de “rigidez locacional da jazida”. Alguns fatores geográficos estão relacionados à posição do jazimento, tais como: densidade da população, topografia, clima e aspectos sócio-econômicos, dentre outros, que poderão influir de forma positiva ou negativa na extração econômica destas riquezas.

A lavra de minerais industriais, frequentemente, apresenta um alto potencial impactante. Em contrapartida, poucos minerais desta classe são tóxicos e o uso de reagentes químicos no tratamento deles é limitado. Por isso, os principais problemas ambientais deste tipo de mineral são o impacto visual, o abandono das lavras, a poeira, o ruído e a vibração.

mineração-1.jpg

 

Em Minas Gerais, na cidade de Belo Horizonte, há dois parques estaduais que possuem importância estratégica para o abastecimento de água na Região Metropolitana. Localizado na confluência das serras do Curral, Três Irmãos e da Moeda, o Parque Estadual Serra do Rola-Moça é considerado essencial para o abastecimento urbano da região. Ele foi criado há 24 anos atrás justamente para a proteção das nascentes que fornecem água para os mananciais de água que abastecem a RMBH (Região Metropolitana de Belo Horizonte). O Parque Estadual da Baleia, que fica na base da Serra do Curral, é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

1216069_341627.jpg

Hoje esses principais mananciais de Belo Horizonte estão ameaçados devido ao extrativismo mineral. No caso da Serra do Curral, a ameaça vem da Mina Corumi da Empresa de Mineração Pau Branco (Embrapa), localizada no Bairro Taquaril, zona Leste de BH.

O Instituto Estadual de Florestas (IEF) também identificou que a cava feita pela mineradora provocou alterações no balanço hídrico da região, por meio da redução da vazão das nascentes.

A ameaça ambiental ainda é maior que isso: há um risco de retomada da atividade minerária, atualmente embargada, que pode desestabilizar de vez o topo do maciço da Serra do Curral.

cavacurral cópia
Cava criada pelo extrativismo da Serra do Curral

site_noticias_1315169013.jpg“Há um novo projeto da Taquaril Mineração (que pertence à Construtora Cowan) e está em fase de licenciamento. Ele prevê um potencial de exploração de 25 milhões de toneladas de minério por ano no lado novalimense da Serra do Curral. Caso seja aprovado, 150 hectares de floresta de Mata Atlântica em transição para o Cerrado serão devastados para a implantação do empreendimento.” Ecológico – Edição 99

É preciso estarmos atentos às possíveis consequências hídricas e de riqueza natural, principalmente das Serras de Minas, que podem ser perdidas juntamente com a exploração minerária. Tendo em vista o conceito cada vez mais forte de desenvolvimento sustentável, faz-se necessário um programa eficiente de disposição de resíduos gerados por parte da mineração, pois, de uma forma geral, o uso dos bens minerais no momento é inevitável. Além disso, a elaboração de Estudos de Impacto Ambientais (EIA) bem feitos e estruturados é primordial para se averiguar e mensurar qualitativamente e quantitativamente os impactos causados. Precisamos proporcionar um meio ambiente adequado para as futuras gerações, afinal de contas, a vida sempre deve estar em primeiro lugar.

 

 

 

Referências  

Aspectos e impactos ambientais de pedreira em área urbana. 

Licenciamento Ambiental e Impactos Ambientais de Atividades de Mineração. FEAM – Fundação Estadual do Meio Ambiente. Manaus, AM.

CRPM. Perspectivas do Meio Ambiente do Brasil – Uso do Subsolo. MME – Ministério de Minas e Energia, 2002. Disponível em http://www.cprm.gov.br.

Revista Ecológico número  112

Quais são as propostas do futuro presidente para o Meio Ambiente?

No dia 28 de outubro de 2018, Jair Messias Bolsonaro venceu, com 55,13% dos votos válidos, a corrida eleitoral brasileira, sendo nomeado o 38º presidente do país e assumirá o cargo em 1 de janeiro de 2019. Mas, afinal, quais são suas propostas com relação ao meio ambiente? Que medidas tomará para proteger a maior biodiversidade do planeta? E ainda, o que podemos esperar de seu governo?

Plano de Governo

Em seu plano de governo não existem mensões diretas ao tema. Indiretamente, o militar mensiona o meio ambiente ao retratar um novo modelo institucional para a agricultura, no qual o estado teria menos poder para determinar como a agropecuária no país deve ser gerida. Embora essa proposta ofereça maior autonomia ao agricultor para administrar a sua fazenda, o que pode auxiliar pequenos produtores, ela irá abrir espaço para que grandes latinfundiários expandam suas terras, sobretudo em áreas de cerrado e de florestas da Amazônia Legal. Além disso, ele propõe a união de temas relacionados à agricultura em uma só pasta, para “sair da situação atual onde instituições relacionadas ao setor estão espalhadas e loteadas em vários ministérios” (tópico que abordaremos mais a frente).

8b342f3a-1ac7-45b5-96dc-86e9008adbab

Aquecimento Global

O futuro presidente também aponta, em seu planto de governo, o “fim do monopólio da Petrobras sobre o gás natural”, o que, segundo ele, contribuiria para “reduzir as emissões de CO2 e ajudar a integrar outras fontes renováveis intermitentes.” Em contrapartida, o integrante do PSL afirmava que iria retirar o Brasil do Acordo de Paris, que tem como objetivo reduzir as emissões de carbono em escala global. Na reta final da campanha, o então canditado disse que iria manter o Brasil no acordo, apesar de criticar o documento. Após a eleição de Bolsonaro, o presidente francês Emmanuel Macron alertou o presidente da importância da cooperação internacional para a preservação do planeta, deixando claro que pretende ser um parceiro do Brasil nesse quesito.

Imagem relacionada

Ministérios

Um dos tópicos mais polêmicos, o plano de governo do Partido Social Liberal explicita que, para reduzir gastos, irá fundir os Ministérios da Agricultura e do Meio Ambiente. Após voltar atrás com essa ideia, o político afirmou, na última semana, que iria manter sua decisão. Essa proposta, embora possa, em teoria, ajudar a enxugar os gastos públicos, irá facilitar o licenciamento ambiental para grandes latifundiários, o que irá ameaçar ainda mais nossos biomas, uma vez que cerca de 128 terrenos do tamanho de campos de futebol são desmatados por hora na Amazônia. Para saber mais, leia a nota publicada hoje pelo Ministério do Meio Ambiente clicando aqui.

Resultado de imagem para desmatamento

Reservas

Bolsonaro afirma que pretende reduzir grande parte das reservas atuais. Segundo ele, “O Brasil não suporta ter mais de 50% do território demarcado como terras indígenas, áreas de proteção ambiental, parques nacionais e essas reservas todas, atrapalha o desenvolvimento. Você quer derrubar uma árvore que já morreu leva dez anos, quer fazer uma pequena central hidrelétrica é quase impossível, não podemos continuar admitindo uma fiscalização xiita por parte do ICMBio e do Ibama, prejudicando quem quer produzir” (sic). Somado a isso, ele afirma, também, que não concederá nem um centímetro de terra a mais para reservas indígenas e quilombolas.

Resultado de imagem para reserva ambiental charge
Charge de Turcios

Caça

Embora não tenha sido diretamente mencionada após a eleição de Bolsonaro, esse assunto preocupa os ambientelistas, uma vez que ele já afirmou, em vídeo, ser a favor da liberação da caça, inclusive em reservas, por esse ser um “esporte saudável”. Posteriormente, o até então candidato afirmou que se referia apenas a espécies invasoras, como o javali, o que não foi mencionado no vídeo original circulante.

Imagem relacionada
Javali no estado de São Paulo – Foto da Revista Fórum

Amazônia

Outra preocupação dos ambientalistas diz respeito à “abertura comercial da Amazônia para o mundo“, mencionada por Bolsonaro em diversas ocasiões. Segundo ele, é preciso que países como os Estados Unidos façam uso da terra para auxiliar em sua preservação. “Será que a Amazônia ainda é nossa? Em 1982, a Argentina falou que as Malvinas eram deles. Perderam. Hoje em dia, ouso dizer que dificilmente a Amazônia é nossa”, afirmou.

Resultado de imagem para amazonia
A Amazônia, a maior floresta tropical do mundo, pode ser aberta à exploração estrangeira nos próximos anos – Imagem da Revista Exame

Emenda Constitucional 95/2016

Apesar de Bolsonaro ter votado a favor da Emenda Constitucional n.º 95, de 2016, que limita o teto dos gastos públicos pelos vinte anos seguintes, a acessoria do presidente afirmou que não descarta eventuais manutenções em propostas de governos anteriores, podendo inclusive revogá-las. Isso seria um grande avanço para o país, uma vez que sua revogação permitiria o aumento de recursos para pesquisas, que poderá auxiliar na preservação da biodiversidade.

Resultado de imagem para biologos
A revogação da PEC dos gastos pode auxiliar na preservação de nossa biodiversidade

Conclusão

Após esse panorama em relação às ações que podemos esperar do Governo Bolsonaro para o Meio Ambiente, devemos nos preocupar? A resposta é sim e não. Primeiramente, é importante ressaltar que um presidente não governa sozinho. Suas decisões deverão ser aprovadas pelo Congresso Nacional e, ainda que aprovadas, poderão ser alteradas futuramente. Além disso, suas escolhas serão avaliadas com mais atenção no futuro, podendo gerar bons frutos para o país. Nesse momento, é nosso dever observar o que ocorre na Câmara dos Deputados e no Senado para que possamos cobrar do novo governo mudanças que auxiliarão o planeta. Afinal, um mandato dura apenas 4 anos, mas suas ações podem gerar consequências que permanecerão para sempre.

 

 

Referências

Seu plano de governo : https://abrilveja.files.wordpress.com/2018/10/plano-de-governo-jair-bolsonaro.pdf

https://oglobo.globo.com/brasil/ensino-superior-vai-para-ciencia-tecnologia-saiba-quais-sao-os-15-ministerios-definidos-por-bolsonaro-23201813?utm_source=Facebook&utm_medium=Social&utm_campaign=compartilhar&fbclid=IwAR1xm9zK-1P0t55mPyhmxieR4HYaEPoINhWM8U-qFV34Mab7xEoNQbi2eI0

http://www.impactounesp.com.br/2018/09/as-propostas-ambientais-do-candidato.html

https://www.opovo.com.br/noticias/politica/2018/10/as-acoes-de-bolsonaro-e-haddad-para-o-meio-ambiente.html

https://congressoemfoco.uol.com.br/eleicoes/conheca-as-propostas-de-bolsonaro-e-haddad-para-o-meio-ambiente/

https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/10/lideres-da-direita-na-europa-desejam-boa-sorte-a-bolsonaro-macron-fala-em-tragedia-eleitoral.shtml

https://oglobo.globo.com/brasil/bolsonaro-diz-que-nao-vai-tirar-brasil-do-acordo-de-paris-23185397

https://extra.globo.com/noticias/brasil/bolsonaro-diz-que-pode-retirar-brasil-do-acordo-de-paris-se-eleito-23034957.html

https://brasil.elpais.com/brasil/2018/05/18/politica/1526612140_988427.html

http://g1.globo.com/politica/noticia/2016/10/saiba-como-cada-deputado-votou-em-relacao-pec-do-teto-de-gastos.html

 

 

 

 

 

Amazonas: O rio brasileiro que surgiu na África

O Rio Amazonas é considerado por muitos o maior rio do planeta. Com quase 7 mil quilômetros de comprimento, uma bacia que ocupa cerca de 40% de toda a América do Sul e uma vazão de 209.000 m³/s (o equivalente à vazão combinada dos sete outros maiores rios do planeta), esse corpo d’água é responsável por 20% de toda água doce despejada nos oceanos diariamente. Mas afinal, de onde vem toda a sua água? Como é possível que ele exista? E ainda, como ele surgiu?

Resultado de imagem para amazon river
Encontro do Rio Negro e do Rio Solimões, afluentes do Amazonas

As origens do Rio Amazonas remontam à Gondwana, um supercontinente formado pela junção da América do Sul, África, Antártida, Austrália e do sub-continente indiano. Na metade do período Cretáceo, há cerca de 100 milhões de anos, uma grande bacia, apelidada de  “proto-Amazon-Congo river system” existia desde a porção central do continente africano até o Oceano Pacífico. Um grande rio que cruzava os dois continentes no sentindo leste-oeste, oposto ao Amazonas atual, foi, provavelmente, um dos maiores que já existiram na história do nosso planeta, mas foi parcialmente destruído com o surgimento do Oceano Atlântico. A nova bacia exclusivamente africana formou o molde para o que se tornaria o Rio Congo milhões de anos depois.

Representação gráfica da bacia de vários rios atuais em comparação com a geografia durante a quebra da Gondwana

Durante a separação dos dois continentes, o fluxo de água na porção sul-americana foi cortado, e, posteriormente, sua bacia foi invadida pelos oceanos circundantes, criando uma área de mares rasos e recifes. Posteriormente, a porção Atlântica foi fechada com o surgimento de uma cadeia de montanhas na região, deixando aberta apenas a conexão com o Oceano Pacífico e, posteriormente, criando rios que desaguariam no mar interior do continente.

Amazon 4
Modelo paleogeográfico representando os possíveis mares rasos na América do Sul durante a fragmentação da Gondwana, 122 milhões de anos atrás  (ARAI, 2005, 2007, 2011) – Retirado da apresentação “Reconstrução paleogeográfica com base em paleontologia: Estudo de caso do Atlântico Sul Aptiano”, feita por Mitsuru Arai com apoio da Petrobrás

Amazon 1
O surgimento de uma cadeia de montanhas na porção leste da América do Sul  fechou a ligação da bacia proto-amazônica com o Oceano Atlântico – Diagrama feito pela UNC (EUA).

A quebra da Gondwana foi causada pela movimentação no sentido leste-oeste da Placa Sul-Americana, que colidiu com a Placa de Nazca, que, por sua vez, se movia no sentido oeste-leste.  Esse choque ocasionou a subducção de Nazca e, consequentemente, o fechamento do braço do pacífico para dentro da América do Sul, na região que se tornaria os Andes. Esse processo gerou um mar interior com espécies, sobretudo do pacífico, que deixaram linhagens que evoluíram em condições salobras e, posteriormente, na água doce, uma vez que o constante fluxo de rios para o mar interior e a deposição de sais foi progressivamente reduzindo a salinidade da água. Atualmente, mais de 20 espécies de raias de água-doce, filogeneticamente próximas a raias de água-salgada do Pacífico, vivem no Amazonas.

Resultado de imagem para nazca plate  andes
A colisão entre as Placas de Nazca e a Placa Sul-Americana criou a porção norte da Cordilheira dos Andes – Imagem retirada do site mapsofworld.com

Imagem relacionada
O fechamento do braço do Pacífico no interior da América do Sul criou um grande lago de água doce, com espécies únicas descendentes de animais do Pacífico –  (Acima)                                                       Comparação entre espécies de raias do Pacífico e da Bacia do Amazonas (Abaixo)

Imagem relacionadaResultado de imagem para Potamotrygonidae

 

 

 

 

 

Nos milhões de anos seguintes, o surgimento de uma cordilheira na porção central do continente, além do aparecimento da floresta amazônica 15 milhões de anos atrás, criou uma rede de afluentes que desaguavam no grande lago amazônico, que transbordou e criou um novo rio em direção ao Pacífico. (Para entender como as florestas podem alterar o regime de chuvas e criar rios, clique aqui). Há cerca de 9 milhões de anos, golfinhos do Pacífico colonizaram o continente, dando origem aos botos dulcícolas. Entretanto, o crescimento acelerado dos Andes durante o Mioceno, entre 8 e 6 milhões de anos atrás, cortou a sua drenagem, criando uma rede de planícies alagadas entre as duas cordilheiras, além de um rio que seguia na direção do Atlântico na porção leste dos Arcos Purus. Essa bacia endorreica foi o que originou a Bacia do Solimões, que existe até hoje na área e possui uma fauna exclusiva.

Resultado de imagem para Isthminia
Isthminia, golfinho extinto do Pacífico ancestral dos botos – Artista desconhecido

Imagem relacionada
Boto-cor-de-rosa (Inia geoffrensis), uma das três espécies atuais de botos continentais sul-americanos – Foto por Martina Kiselová

Amazon 2
O surgimento dos Arcos Purus e, posteriormente, dos Andes, criou uma bacia endorreica na região Amzônica

Resultado de imagem para julio lacerda paleoart miocene
Fauna amazônica durante o Mioceno contava com roedores de 700 quilos (Phoberomys) e com jacarés de 10 metros (Purussaurus) – Arte por Julio Lacerda

Pouco tempo depois, essa bacia cavou seu caminho pelos Arcos Purus e originou um rio que unia as porções leste e oeste dessa cordilheira, criando, finalmente, o Rio Amazonas. O ciclo de glaciações ocorrido nesse período colaborou para a drenagem do grande lago para dentro do rio, além de favorecer que milhares de litros de água, vindos dos Andes, entrassem na bacia, o que aumentou ainda mais o seu fluxo. Cerca de 4 milhões de anos atrás, surgiu uma corrente de ar, que partia da África e chegava na Amazônia, carregando toneladas de nutrientes do recém formado Saara para a floresta, o que colaborou para a sua expansão. O crescimento da floresta corroborou para a manutenção do rio e para o surgimento de inúmeras outras bacias da América do Sul, através dos rios voadores. Cerca de 3 milhões de anos atrás, uma nova leva de animais vindos do Atlântico colonizou sua foz e alguns se adaptaram à água-doce, como o peixe-boi-da-amazônia (Trichechus inunguis), que vive exclusivamente no rio, e o tubarão-cabeça-chata (Carcharhinus leucas), espécie marinha que pode ser eventualmente encontrada a mais de 4.000 quilômetros de seu delta.  A quantidade de sedimentos transportados pelo rio era tanta que essa característica moldou o leito oceano perto de sua foz e possibilitou a fixação de corais, que são nutridos pelos sedimentos da bacia. Um recife com mais de 9,500 km² existe no local até hoje, com uma fauna conhecida de 40 espécies de coral, 60 espécies de esponja (sendo 29 ainda não descritas pela ciência) e 73 espécies de peixes.

Amazon 3
Configuração simplificada atual da bacia amazônica

Imagem relacionada
Peixe-boi-da-amazonia (Trichechus inunguis) – Por Doug Perrine

Resultado de imagem para Carcharhinus leucas river
Tubarão-de-cabeça-chata (Carcharhinus leucas) – Por mark Colin – acima-  pode ser encontrado a mais de 4.000 quilômetros da foz do rio – abaixo

 Amazon River Map

Imagem relacionada
Recife de coral próximo da foz do Amazonas

A configuração e os ciclos atuais do Rio Amazonas são, relativamente, muito recentes, tendo sido firmadas há pouco mais de 400 mil anos. Entretanto, a porção central da bacia manteve uma configuração similar nos últimos milhões de anos, sobretudo nas regiões de planícies alagadas. O lento fluxo de água nessas áreas gerou meandros extremamente longos, que caracterizam a área. Durante a época das cheias, a região se torna uma grande planície alagada, com uma diferença de até 7 metros no nível da água em algumas regiões.

Resultado de imagem para amazon river
Meandros do Rio Amazonas – Foto por SK Films

 Amazon River in Brazil
Planícies alagadas do Amazonas – acima – e foto de árvores submersas – abaixo – Por Cristian Dimitrius

Imagem relacionada

Atualmente, no seu ponto mais largo, o Rio Amazonas pode alcançar 11 quilômetros entre uma margem e outra e até 100 metros de profundidade em sua região mais profunda. Possui mais de 2.500 espécies de peixes, além de centenas de espécies de plantas endêmicas. Ele desloca tanta massa diariamente que é capaz de criar uma anomalia no campo eletromagnético da Terra sobre a América do Sul.  Ele é essencial para a manutenção da floresta e de inúmeras comunidades locais. Sua relevância mundial se deve, principalmente, a seu valor sócio-ambiental e a sua história, que nos mostra a mutabilidade do planeta e, ao mesmo tempo, nos ensina a importância da preservação de nossa natureza.

Resultado de imagem para amazon river
Tartaruga-da-Amazônia (Podocnemis expansa), uma das milhares de espécies de animais que dependem da manutenção do rio para sua sobrevivência – Foto retirada do site ietravel.com

Referências

Sobre o Amazonas

Texto “Amazon River”, publicado no site geologypage.com

Origem Gondwanica do Amazonas

Artigo “Modification of the Western Gondwana craton by plume–lithosphere interaction”, por Hu et al.

Texto “The Amazon-Congo River

Origem dos Andes e Inversão do Fluxo do Amazonas

Texto “Age of the Amazon River estimated at 11 million years”, publicado no site  Mongabay.com

Artigo “Amazonia Through Time: Andean Uplift, Climate Change, Landscape Evolution, and Biodiversity”, por Hoorn et al.

Artigo “Eustatic and tectonic change effects in the reversion of the transcontinental Amazon River drainage system”, por Caputo e Soares

Artigo “Late Miocene onset of the Amazon River and the Amazon deep-sea fan: Evidence from the Foz do Amazonas Basin”, por Figueiredo et al.

Cetáceos Sul-Americanos

Artigo “Isthminia panamensis, a new fossil inioid (Mammalia, Cetacea) from the Chagres Formation of Panama and the evolution of ‘river dolphins’ in the Americas”, por Pyenson et. al

Tubarão-cabeça-chata no Amazonas

Texto “Sharks In The Amazon River?”, publicado no site rainforestcruises.com

Recife Amazônico

Artigo “An extensive reef system at the Amazon River mouth”, por Moura et al.

 

 

 

 

 

Ilhas de Calor: um problema urbano

Se você não aguenta o calor, saia do centro urbano em que você vive. Ative o boletim meteorológico local e você provavelmente notará uma tendência estranha. As temperaturas são, muitas vezes, mais altas nas cidades do que nas áreas rurais vizinhas. Essa discrepância de temperatura é o resultado de um fenômeno bizarro conhecido como o efeito da ilha de calor.

Resultado de imagem para ilha de calor

Como o nome indica, esse efeito faz das cidades ilhas de calor. De acordo com a Agência de Proteção Ambiental dos EUA, as temperaturas nas cidades dos Estados Unidos podem ficar até 10 graus Fahrenheit mais altas do que nas áreas vizinhas. Normalmente, a disparidade de temperatura não é tão grande, mas mesmo alguns graus podem fazer uma enorme diferença. A demanda por ar condicionado no verão leva a contas de energia mais altas. E muitos argumentam que isso também aumenta as emissões de gases de efeito estufa pelas usinas de energia que fornecem energia extra.

Talvez o pior resultado do efeito ilha de calor seja o número de mortes relacionadas ao aumento de temperatura. Embora as tempestades causadoras de danos recebam a maior atenção da mídia, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica relata que o calor geralmente é mais mortal. Nos EUA, o calor normalmente mata mais pessoas a cada ano do que o conjunto de furacões, inundações e raios [1].

Resultado de imagem para heat wave
Pessoas se refrescando em rio durante onda de calor no Paquistão em 2017, em que as temperaturas chegaram a 53.5°

Belo Horizonte não foge a esse padrão. De 1910 a 2000 a temperatura média anual da cidade era de 21° C. Entretanto, considerando-se o período mais recente, ou seja, de 1980 a 2000, a temperatura média anual cresceu para 21,5° C. Por meio de uma tabela é possível verificar que, de uma lista de dez temperaturas médias anuais mais elevadas dos últimos 100 anos, seis foram registradas a partir de 1990.

Resultado de imagem para temperaturas medias anuais belo horizonte

Moraes (2002) propõe o valor de 4,7° C para o aumento de temperatura do centro da cidade em relação ao seu entorno rural, conforme constatado em medições realizadas entre 16 e 18 horas do dia 23 de agosto de 1999. A ilha de calor de Belo Horizonte, além de criar impacto ambiental de natureza térmica na área urbana, gera também uma pluma de contaminação térmica que se estende preferencialmente de acordo com o sentido predominante dos ventos na região metropolitana, na direção dos municípios de Contagem e Betim. Dessa forma, o autor resume a natureza da ilha de calor de Belo Horizonte e sua forma de ação.

Então, o que cria o efeito de ilha de calor urbana e como os planejadores urbanos podem reduzi-lo?

Os telhados das construções e o asfalto da cidade costumam ser de cor escura, o que ajuda a impulsionar o efeito da ilha de calor urbana.

Para entender o efeito da ilha de calor urbana, primeiro precisamos entender algumas regras simples da física. Além disso, devemos entender que os objetos podem absorver e refletir a luz. Na verdade, a cor de um objeto depende do tipo de luz que ele reflete. Por exemplo, um objeto verde reflete a luz verde e absorve todas as outras cores visíveis da luz. Quando vemos um objeto verde, percebemos que ele é verde porque reflete o comprimento de onda verde de volta aos nossos olhos. Objetos de cores escuras são excelentes absorvedores de luz. De fato, as superfícies pretas absorvem quase toda a luz. Por outro lado, superfícies coloridas, mais claras, não absorvem muita luz. Ao contrário, elas refletem quase tudo.

Resultado de imagem para cores refletir

Então, o que a absorção da luz tem a ver com o calor? Quando um objeto absorve a luz, ele converte a luz em energia térmica e a emite de volta como calor. Como os objetos negros absorvem mais luz, eles também emitem mais calor. É por isso que usar uma camisa preta em um dia quente e ensolarado só vai deixar você mais sexy. A camisa preta absorve a luz e a emite como calor em sua pele. Por outro lado, vestir uma camisa branca o ajudará a refletir a luz do sol e a mantê-lo mais fresco.

Telhados verdes, como este localizado no topo da Prefeitura de Chicago, ajudam a compensar o efeito da ilha de calor urbana.

Resultado de imagem para Prefeitura de Chicago
Terraço da Prefeitura de Chicago

Felizmente, ao conhecermos a causa do efeito de ilha de calor urbana, podemos controlá-lo de forma significativa. Certas técnicas reduzem a demanda por ar condicionado e, consequentemente, reduzem as contas de energia.

Como as superfícies escuras e a baixa capacidade de reflexão da radiação solar das estruturas urbanas aquecem a área, a solução lógica seria reverter essa tendência. Os planejadores urbanos podem fazer isso pintando as estruturas de branco ou de outras cores claras. Essa técnica básica ajuda muito a minimizar o efeito da ilha de calor urbana.

Imagem relacionada
A manutenção de estruturas urbanas escuras favorecem o surgimento de ilhas de calor

No entanto, algumas pessoas não gostam da ideia de uma cidade toda branca e gritante. Nesse caso, a utilização de revestimentos de baixa refletividade, com cores diferentes do branco, seria uma alternativa. Esses tipos de revestimento refletem radiação invisível sem refletir toda a luz [2]. Ou seja, eles mantêm um objeto relativamente frio sem sacrificar a sua cor.

Certos revestimentos de alta refletividade também podem ser aplicados no asfalto. As vedações de cavacos de asfalto e as camadas de vedação de emulsão são dois exemplos desse tipo de revestimento, que tratam o asfalto para tornar a sua superfície mais refletiva [3]. Os processos reduzem o fator albedo do asfalto, que é um dos principais contribuintes para o efeito de ilha de calor urbana.

Resultado de imagem para asfalto refletivo calor
Pavimentação branca foi adotada em Los Angeles para reduzir a temperatura das cidades

Uma tendência que vem ganhando popularidade é a instalação de telhados verdes em cima de edifícios da cidade. Essa solução não tem nada a ver com cor. Um “telhado verde” é simplesmente um telhado que inclui plantas e vegetação. Os telhados verdes conferem ao ambiente o mesmo efeito de resfriamento evaporativo que as cidades perdem quando cortam a vegetação. Assim, um telhado verde não só impede que o telhado do edifício absorva calor, como também resfria o ar em torno dele, compensando o efeito de ilha de calor urbana até certo ponto. Ademais, muitos edifícios sustentáveis ​​usam telhados verdes para reduzir sua dependência do consumo de energia.

Resultado de imagem para rooftop garden

Outras soluções que vêm sendo utilizadas também ajudam a reduzir o efeito de ilha de calor urbana, como por exemplo, a aspersão do telhado, método de resfriamento evaporativo. Os sprinklers molham a superfície do telhado para que o ar ao redor resfrie com a evaporação [4]. Planejadores urbanos também estão montando estacionamentos tradicionais ao longo de lotes onde existem árvores e vegetação. As árvores altas não apenas contribuem para o resfriamento evaporativo, mas também fornecem sombra muito necessária.

Resultado de imagem para aspersão do telhado
Aspersão do telhado com água reutilizada oferece uma solução ecológica e prática para o resfriamento do edifício

A melhor maneira de minimizar as ilhas de calor nas cidades é por meio do planejamento urbano adequado, de modo a promover a fiscalização da emissão de poluentes na atmosfera, o plantio de árvores e a preservação das áreas verdes existentes.

 

Referências

  1. NOAA (em inglês)
  2. Synneffa
  3. EPA (em inglês)
  4. Asimakopoulos

Para saber mais:

ILHA DE CALOR URBANA, METODOLOGIA PARA MENSURAÇÃO:
Belo Horizonte, uma análise exploratória

O Campo de Força Terrestre – Como nosso campo eletromagnético nos protege e pode um dia destruir a nossa sociedade

 

A Terra é o quinto maior planeta do sistema solar e o mais denso de todos. Com um manto formado sobretudo de ferro derretido, a constante movimentação e atrito do magma em seu interior gera correntes elétricas que, consequentemente, criam campos magnéticos, que, por conseguinte, geram correntes elétricas e assim sucessivamente. Essa característica de nosso planeta possibilitou a formação de campos eletromagnéticos,  que atuam como um grande imã por toda a superfície.

Resultado de imagem para campo eletromagnético terrestre
Representação do Campo Eletromagnético Terrestre e de suas influências – Por Tila Barrionuevo

Os chamados Polos Magnéticos são duas regiões específicas de nossa crosta onde esse campo eletromagnético se torna mais forte. Localizados próximo aos Polos Geográficos da Terra, esses pontos direcionam as faces opostas de imãs do mundo todo, ou seja, a face norte de um imã sempre apontará para o sul geográfico e vice-versa. Dessa forma, o Polo Norte Magnético encontra-se no Polo Sul Geográfico (na Antártida), enquanto o Polo Sul Magnético, que direciona a face norte das bússolas convencionais, está localizado no Polo Norte Geográfico, em uma área próxima à Groenlândia.

Resultado de imagem para campo eletromagnético terrestre

Desde 206 AC, com a invenção da bússola, utilizamos os campos eletromagnéticos terrestres para nossa orientação espacial, tomando como referência o polo norte geográfico. Entretanto, embora essa técnica milenar pareça infalível, os polos terrestres não são imutáveis, deslocando-se lentamente em direções variadas com o passar do tempo. Embora pequenas mudanças nos campos magnéticos terrestres sejam comuns, uma inversão completa dos polos magnéticos terrestres ocorre mais ou menos a cada 200 mil anos, o que pode causar grandes impactos em todo o planeta. No passado, esse processo já ocorreu em um período de milhares de anos e, até mesmo, em poucos dias, o que torna seus efeitos nos dias de hoje imprevisíveis.

Resultado de imagem para magnetic field reversal
A Inversão dos Polos Magnéticos iria colocar os polos geográficos e magnéticos na mesma posição, fazendo com que as bússolas apontassem para o Sul

Resultado de imagem para Geomagnetic reversal
Representação de épocas de reversão dos polos magnéticos terrestres desde o Jurássico

O campo magnético terrestre atua como um campo de força, protegendo a crosta de ventos solares, ou seja, emissões de partículas altamente energéticas pelo sol com alto poder mutagênico. Uma inversão repentina dos polos magnéticos poderia, durante poucas horas, enfraquecer essa proteção, expondo nosso planeta a tempestades solares. Caso isso ocorra, um pulso eletromagnético vindo dessa estrela poderia danificar todos os equipamentos eletrônicos da Terra, parando carros, derrubando aviões, desligando computadores, sistemas de distribuição de água e toda a rede elétrica mundial, provocando o fim da sociedade como conhecemos.

Imagem relacionada

Outro impacto significativo da inversão de polos seria em nossa fauna. Milhares de espécies, incluindo lagostas, salmões, nematódeos, aves, tubarões e tartarugas, se orientam através do campo magnético terrestre, utilizando um sentido conhecido como magnetocepção. Uma mudança eletromagnética brusca iria desorientar esses animais significativamente, alterando padrões de migração e causando enormes revoadas de pombos nas cidades e no campo.

Imagem relacionada
Cena do filme The Core demonstrando a ação do campo eletromagnético nas aves

Por fim, um efeito que seria percebido em diversas áreas do mundo seria a alteração nos padrões de auroras boreais e austrais. Esses fenômenos são formados pela interação de partículas solares com o campo eletromagnético terrestre, o que seria exacerbado caso esses campos fossem enfraquecidos. Durante a inversão, essas luzes poderiam ser observadas inclusive em regiões tropicais do mundo, criando verdadeiros espetáculos de luzes e de cores.

Resultado de imagem para northern lights

Atualmente, os polos magnéticos terrestres estão se movendo cerca de 60 quilômetros por ano e o campo eletromagnético de nosso planeta está aproximadamente 10% mais fraco do que quando foram realizadas as primeiras medições, o que pode indicar a aproximação dessa inversão. Sendo assim, devemos nos preocupar? A resposta é não. Embora os efeitos desse fenômeno sejam imprevisíveis, ele provavelmente demorará milhares de anos para ser completado, o que não enfraqueceria o campo de força terrestre a ponto de destruir as nossas tecnologias.

Portanto, enquanto a inversão dos polos não acontece, confie na sua bússola e agradeça a existência dessa proteção gerada pelo interior de nosso planeta, que permitiu a formação da vida que conhecemos e a manutenção de toda a nossa tecnologia.

 

Referências