Mas, afinal, o que é uma espécie ameaçada? – Como interpretar os graus de ameaça da Lista Vermelha da IUCN

A extinção é um processo que, um dia, afetará todas as espécies conhecidas do planeta. Esse é um fato um pouco assustador mas, na realidade, pelo menos 99,9% de todas as espécies que já viveram não existem mais. Naturalmente, as espécies interagem entre si e com o meio e, ao longo de milhões de anos, pressões seletivas favorecem ou desfavorecem características nos diferentes organismos que compõem nossa biosfera. A “extinção filética”, por exemplo, ocorre quando mudanças gradativas tornam um ser vivo tão diferente de seu ancestral que ele é considerado de espécie diferente (esse processo também é conhecido como pseudoextinção, uma vez que a linhagem não foi perdida). Em outros casos, uma espécie pode ser eliminada apenas pela seleção do meio e por relações com outras espécies, como competição, parasitismo ou predação. Esse é o tipo mais comum de extinção no planeta, conhecida como “extinção de fundo”, responsável pela manutenção de táxons dominantes e pela eliminação de grupos menos adaptados ao meio em que vivem. Em contrapartida, entretanto, eventos externos podem acarretar a destruição de uma grande parte da biosfera em poucos milhões ou milhares de anos, conhecidas como “extinções em massa”.

A Survivor by Julio Lacerda : Naturewasmetal
Embora nossa espécie tenha convivido (e caçado) o rinoceronte-lanudo (Coelodonta antiquitatis), essa espécie provavelmente foi extinta por causas naturais, antes do início das famosas extinções do Holoceno – Arte por Julio Lacerda

Extinções em massa não são eventos isolados. Ao contrário, ocorrem, em média, a cada 26 milhões de anos, segundo autores como Raup e Sepkoski. Diversos desaparecimentos drásticos de grande parte da biosfera ocorreram no passado e continuarão ocorrendo no futuro, em processos naturais. Entretanto, dessas extinções em massa, cinco se destacam. Chamadas de “Big Five” (termo traduzido geralmente apenas como “as cinco grandes extinções”, esses eventos no passado varreram mais de 50% das espécies conhecidas para a época. A mais famosa, a chamada “Extinção K-Pg”, foi ocasionada pela queda de um grande meteoro há 66 milhões de anos, que eliminou 75% das espécies e colocou um fim a todos os dinossauros não-avianos, pterossauros, répteis marinhos e amonitas nos anos seguintes. A maior de todas, a Extinção Permo-Triássica, eliminou 96% dos organismos, representando quase o fim da vida na Terra.

Mass Extinctions | Biology for Majors II
O mundo já viu centenas de extinções em massa, mas cinco delas foram muito mais devastadoras. No momento, provavelmente estamos vivendo uma sexta grande extinção – Imagem de courses.lumenlearning.com

Ao que tudo indica, já entramos em uma extinção em massa, a “Sexta Extinção”. Nos últimos milhares de anos, já perdemos 80% dos grandes animais do planeta e, com isso, 98% da translocação de nutrientes em ambientes terrestres. Desde o surgimento das civilizações, reduzimos 83% dos mamíferos selvagens, 80% dos mamíferos marinhos e 15% dos peixes. Em comparação a 1970, as populações de animais selvagens caíram outros 68% e, atualmente, 60% da biomassa dos mamíferos é composta por gado, enquanto 70% da biomassa das aves é composta por frangos e patos de granjas. Aquecemos tanto o planeta que o aumento do nível dos oceanos já foi responsável pela extinção de uma espécie (Melomys rubicola) e a Groenlândia entrou em um processo de degelo impossível de ser revertido. Já cortamos 50% das árvores do planeta e em no máximo 200 anos, nenhuma árvore restará caso o ritmo seja constante: isso, se não formos extintos antes.

Humanos estão causando a sexta extinção em massa da Terra - Revista Galileu  | Ciência
Porcentagem de espécies em extinção ao longo dos anos – Imagem retirada da Revista Galileu

Pensando na grande crise ambiental em que vivemos, no dia 5 de outubro de 1948 foi criada a União Internacional para Conservação da Natureza, a IUCN (International Union for Conservation of Nature). Atualmente composta por 1.250 organizações, dentre elas 84 governos, 112 agências de governo e um grande número de organizações não-governamentais (ONG’s) nacionais e internacionais e mais de dez mil membros individuais, a IUCN tem a função de incentivar o uso sustentável de recursos, promover a saúde única e assistir na proteção de espécies em todo o planeta. Em 1964 a organização criou sua primeira Lista Vermelha de espécies ameaçadas, um inventário para detalhar diferentes graus de ameaça para diversas espécies do planeta.

IUCN Red List - Wikipedia

Após diversas atualizações, a lista conta hoje com 120.372 espécies, analisadas com critérios rigorosos baseados em pesquisas científicas e separados em diferentes graus de ameaça. Ao contrário da maioria das listas desse tipo, a Lista Vermelha da IUCN conta também com espécies não ameaçadas, cujas tendências populacionais também são descritas, assim como área de ocorrência e habitats. A meta da organização é, ter analisado 160.000 espécies e contemplar cada vez mais espécies dos mais diversos grupos taxonômicos, a fim de auxiliar projetos de conservação e mensurar nossas perdas de biodiversidade ao longo dos anos.

Das espécies analisadas, 32.000 estão em algum grau de ameaça (27% do total). Em breve poderemos perder 14% das aves, 26% dos mamíferos, 30% dos tubarões e raias, 33% dos corais, 34% das coníferas e 41% dos anfíbios, porcentagens que aumentam a cada nova análise. Assustadoramente, estamos perdendo espécies em uma taxa maior do que podemos contabilizar, com estimativas apontando a extinção de 5 mil espécies ao ano. Mas, afinal, o que define uma espécie ameaçada? Por que existem tantas categorias de ameaça? O que cada uma significa?

Por definição, uma espécie ameaçada é aquela que está em risco de se extinguir em um futuro próximo. Entretanto, as diferentes pressões e situações em que cada espécie está envolvida são extremamente complexas e, portanto, nove principais categorias foram criadas pela IUCN. A seguir, explicarei brevemente cada uma das categorias com exemplos brasileiros de fácil compreensão:

não avaliada (NE – Not evaluated)

Espécies NE são aquelas que ainda não tiveram seus dados checados e, portanto, não foram associadas a nenhuma outra categoria da IUCN. Geralmente, espécies novas, pouco conhecidas (porém comuns) ou divergências taxonômicas estão dentro dessa categoria e não constam na lista. A maior parte das espécies do planeta entram nessa categoria, uma vez que possuímos uma grande defasagem em nosso conhecimento do mundo natural.
Exemplo: A anta-pretinha (Tapirus kabomani) é uma espécie de anta descoberta em 2013 por Cozzuol et. al., mas ainda é contestada por alguns cientistas. Enquanto sua validade não for confirmada e mais pesquisas forem feitas, a espécie não será avaliada pela IUCN. – Para saber mais, recomento esse post: Whatever Happened to the Kabomani Tapir?

Nova anta? Cientistas disputam descoberta biológica do século - Notícias  ambientais
Anta-pretinha (Tapirus kabomani) – Espécie NE. Foto de Cozzuol et. al.

Dados insuficientes ( DD- Data deficient)

Uma categoria provisória que indica que o animal foi avaliado pela IUCN mas que, devido a uma insuficiência de dados, o animal não pôde ser associado à outra categoria. Geralmente, espécies crípticas (extremamente parecidas com outras e, portanto, de difícil identificação precisa), com baixa densidade populacional ou de locais de difícil acesso não possuem dados suficientes para sua categorização e permanecem nessa categoria. Países com baixa produção acadêmica tendem a possuir mais animais DD.
Exemplo: Existe um complexo de espécies popularmente conhecidas como veado-catingueiro. O Mazama americana (conhecido também como veado-mateiro) é muito parecido com outras espécies e, dessa forma, estudos populacionais são complexos e de difícil execução

Veado-mateiro (Mazama americana) - FAUNA DIGITAL DO RIO GRANDE DO SUL
Veado-mateiro (Mazama americana) – Espécie DD. Foto por Patricio Robles Gil / Sierra Madre

Mesmo com diversas populações conhecidas e muito bem estudadas, a orca (Orcinus orca) é uma espécie DD, uma vez que pode ser encontrada em oceanos de todo o planeta e suas tendências populacionais são de difícil determinação.

Killer Whale Beach Attack!
Orca (Orcinus orca) – Espécie DD. Foto por Bill Klipp

pouco preocupante (LC – Least concern)

As espécies LC são as espécies mais numerosas do planeta. Para entrar nessa categoria, o táxon deve ser avaliado e seus números na natureza devem ser elevados, sua população não pode estar declinando em um ritmo acelerado e os impactos humanos ainda são sustentáveis para esses grupos. É o caso de espécies sinantrópicas (bem adaptadas às cidades), de reprodução acelerada, criadas pelo o ser humano (sem ser espécies domesticadas), de uma ampla distribuição geográfica ou extremamente protegidas. Mesmo extintas em algumas regiões, elas não correm nenhum risco nas próximas décadas. 20% das espécies avaliadas entram nessa categoria.
Exemplo: A jubarte (Megaptera novaeangliae) já foi uma espécie ameaçada. Por ser mundialmente protegida e possuir uma população crescente de mais de 85 mil indivíduos, essa espécie é considerada LC.

Oil Spill in Brazil Hits Breeding Grounds for Humpback Whales - Bloomberg
Jubarte ((Megaptera novaeangliae) – Espécie LC. Foto Crédito: AFP via Getty Images

Uma das espécies de sapo-cururu (Rhinella marina) não sofre risco em sua área nativa e se tornou uma espécie invasora em diversas regiões do planeta, sendo, por isso, uma espécie LC.

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Sapo-cururu (Rhinella marina) – Espécie LC. Foto por Bernard DUPONT via Flickr

Quase Ameaçada (NT – Near threatened)

Espécies NT são espécies que, em breve, poderão ser consideradas Vulneráveis. Possuem populações em declínio ou sofrem pressões ambientais cada vez mais perigosas, seja pela destruição de seu habitat, caça, atropelamentos ou introdução de espécies. Muitas espécies NT são hoje dependentes de conservação, o que significa que, se deixadas de lado, certamente entrarão em extinção.
Exemplo: Queridinho dos brasileiros, o lobo-guará (Chrysocyon brachyurus) possui tendências populacionais desconhecidas e é extremamente vulnerável a queimadas, à destruição de seu habitat e à construção de estradas. Sem medidas de conservação, ele se tornará uma espécie em extinção.

Maned Wolf – Fossil Rim Wildlife Center
Lobo-guará (Chrysocyon brachyurus) – Espécie NT. Foto por David Burton

Vulnerável (VU- Vulnerable)

Primeira categoria de espécies ameaçadas, indica que o táxon tem um risco elevado de extinção nas próximas décadas caso medidas não sejam tomadas. Critérios rigorosos de redução populacional, áreas de ocorrência ou populações menores que 10.000 indivíduos podem ser enquadrados em VU.
Exemplo: Segundo a IUCN, o Brasil possui 603 espécies vulneráveis. A arara-azul-grande (Anodorhynchus hyacinthinus) sofre hoje com o tráfico e a destruição de seu habitat. Com cerca de 4.300 indivíduos na natureza e com uma população em declínio, ela é uma espécie VU.

Arara Azul Grande (Anodorhynchus hyacinthinus) - Hyacinth … | Flickr
Arara-azul-grande (Anodorhynchus hyacinthinus) – Espécie VU. Foto por Marcos Paiva

 Em perigo (EN – Endangered species)

Espécies em perigo são aquelas que sofrem as mesmas pressões das vulneráveis, mas que possuem declínios mais acentuados (mais de 70% da população perdida nas últimas décadas) e, geralmente, uma população com menos de 2500 indivíduos maduros. Provavelmente serão extintas em um futuro próximo.
Exemplo: O mico-leão-dourado (Leontopithecus rosalia) é endêmico da mata-atlântica. Possui uma pequena área de ocorrência e uma população de pouco mais de 1.400 indivíduos na natureza. A espécie já foi considerada CR.

Mico-leão-dourado em perigo: exonerados os chefes de UCs que protegem a  espécie da extinção - GreenMeBrasil
Mico-leão-dourado (Leontopithecus rosalia) – Espécie EN. Foto de capa retirada do site GreenMeBrasil

Perigo crítico (CR – Critically endangered)

As espécies CR são aquelas que tiveram uma redução de mais de 90% de sua população original, que possuem uma área de ocorrência de menos de 100 km2 ou que possuem uma população de menos de 250 indivíduos maduros. Espécies extintas, muitas vezes, ainda se encontram nessa categoria devido ao tempo necessário para a confirmação de sua extinção. Eventualmente, espécies tidas como extintas podem ser reencontradas e voltar para essa categoria.
Exemplo: O Brasil conta com 211 espécies nessa categoria. Uma das mais famosas é o pato-mergulhão (Mergus octosetaceus). Segundo o último balanço da IUCN, o número de indivíduos maduros dessa espécie está entre 50 e 249 indivíduos e podem ser encontrados em apenas 8 pequenas localidades.

Raro e precioso: pato-mergulhão é encontrado em SP - Fundep
Pato-mergulhão (Mergus octosetaceus) – Espécie CR. Foto por Adriano Gambarini

Extinta na natureza (EW – Extinct in the wild)

Apenas 77 espécies estão atualmente nessa categoria. Ela engloba todas as espécies que só existem em cativeiro ou que, caso ocorram na natureza, não existem mais em sua área natural de ocorrência. No passado, muitas espécies EW foram reintroduzidas, mas esse processo é complexo e pode não dar certo. Caso o número de indivíduos maduros seja muito pequeno, a reintrodução não é uma opção. Sem a existência de zoológicos, muitas dessas espécies já estariam extintas.
Exemplo: O Brasil conta com 5 espécies EW, sendo três plantas e duas aves. A ararinha-azul (Cyanopsitta spixii) poderá retornar para a natureza em breve enquanto o Mutum-do-Nordeste (Mitu mitu) já está em processo de reintrodução, mas ainda não possui uma população naturalizada.

A ararinha-azul, do filme Rio, foi considerada provavelmente extinta na  natureza em um estudo - Gizmodo Brasil
Ararinha-azul (Cyanopsitta spixii) – Espécie EW. Foto por Patrick Pleoul
Florestas Vazias – Descubra por que a vida está desaparecendo em nossas  matas – TUNES AMBIENTAL
Mutum-do-Nordeste (Mitu mitu) – Espécie EW. Foto por Pedro Henrique Tunes

Extinta (EX – Extinct)

A categoria EX da IUCN engloba apenas extinções relativamente recentes (dinossauros não-avianos jamais entrarão na lista da IUCN, por exemplo). Para ser classificado como EX, diversas pesquisas de campo devem buscar esses organismos e, após uma série de critérios rigorosos, eles poderão ser considerados extintos. Devido a falhas em nossa capacidade de pesquisa, espécies extintas podem “voltar à vida”, um tema que já abordamos em nosso texto A Volta dos que não foram.
Exemplo: O roedor Noronhomys vespuccii é uma espécie EX endêmica da ilha de Fernando de Noronha, Brasil. A espécie foi relatada viva uma única vez, em 1503.

Rato-de-Fernando-de-Noronha (Noronhomys vespuccii). Espécie EX

Como podemos perceber, as classificações da IUCN são de grande importância para que possamos compreender a real situação de nossas espécies. Além disso, elas são uma ferramenta-chave para auxiliar programas de conservação em todo o mundo.

Leia também:

40 anos para nosso fim – Conheça e entenda o novo artigo da Nature que afirma que a humanidade irá se extinguir em apenas quatro décadas

De Volta ao Lar – Conheça os desafios da reintrodução de espécies extintas na natureza

Ecocídio – Como civilizações se destruíram ao destruir o ambiente à sua volta

A Volta dos que Não Foram – Como espécies extintas podem ser encontradas novamente

A volta das baleias – Como a proibição mundial da caça conseguiu salvar dezenas de espécies da extinção

Estradas – Conheça as ameaças da maior causa de morte de animais silvestres no Brasil – e como podemos solucioná-las

Ainda dá tempo de salvar nossas espécies mais ameaçadas?

Referências

Inspirado no post de Jean Zen (Instagram)

https://www.iucnredlist.org/

Livro A Sexta Extinção, de Elizabeth Kolbert

Doughty, C. E.; Wolf, A.; Malhi, Y. (2013). “The legacy of the Pleistocene megafauna extinctions on nutrient availability in Amazonia”. Nature Geoscience. 6 (9): 761–764.

De Vos, Jurriaan M.; Joppa, Lucas N.; Gittleman, John L.; Stephens, Patrick R.; Pimm, Stuart L. (August 26, 2014). “Estimating the normal background rate of species extinction”. Conservation Biology. 29 (2): 452–462. doi:10.1111/cobi.12380. PMID 25159086.

Yinon M. Bar-On, Rob Phillips;Ron Milo (2018) “The biomass distribution on Earth”. PNAS

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