A maldição do golfo: o que são as zonas mortas nos oceanos?

Você sabe o que são as zonas mortas nos oceanos? Imagine um local completamente inóspito, sem a menor condição de ter a presença de vida aquática. Durante a maior parte do ano, o Golfo do México está repleto de vida marinha, desde minúsculos crustáceos a enormes baleias de barbatanas. Mas a cada verão, ocorre um desastre. Por volta de maio, os animais começam a fugir da área. E logo, criaturas que não podem nadar ou não podem nadar rápido o suficiente começam a sufocar e a morrer em grande escala. Do final da primavera ao início do outono no hemisfério norte, milhares de quilômetros quadrados ao longo da costa se tornam uma zona marinha morta, incapaz de suportar a maioria das formas de vida aquática. Essa estranha maldição anual não ocorre somente no Golfo do México. Zonas mortas estão se formando em todo o mundo.

Um golfinho com suspeita de lesões de água doce é um dos muitos que têm aparecido nas praias do Golfo do México. (Instituto de Estudos de Mamíferos Marinhos dos EUA)

A maior zona morta do mundo está no Mar Báltico, onde a influência do continente acabou com a maior parte da vida presente ali. Um estudo publicado em 2018 na revista Biogeosciences descreve uma história detalhada de 1.500 anos de condições de baixo teor de oxigênio no norte do Mar Báltico. Os cientistas ligaram os fatos usando dados de dois núcleos de sedimentos de camadas finas, retirados próximos à costa da Finlândia. Mas para explorar o que está criando tais condições letais, primeiro precisamos entender como funciona um ecossistema marinho saudável.

Ecossistema Marinho e seu desequilíbrio

Em qualquer corpo d’água que receba luz solar suficiente, organismos semelhantes às plantas, como algas e cianobactérias, prosperam. Nuvens de fitoplânctons riscam a superfície das águas profundas e, em regiões mais rasas, grandes algas e algas marinhas cobrem o solo. Não apenas esses organismos formam a base das cadeias alimentares locais, como sua fotossíntese fornece o oxigênio necessário para a sobrevivência dos animais aquáticos. Além de luz solar e CO2, o crescimento das algas também depende de nutrientes como o fósforo e o nitrogênio. Embora esses recursos sejam normalmente escassos, às vezes, a bacia hidrográfica circundante ou até mesmo os rios que chegam até o mar podem inundar as águas costeiras com esses nutrientes, gerando assim um desequilíbrio.

Bloom de fitoplânctons no Mar Báltico

Por exemplo, um rio poluído pode levar uma alta carga orgânica para o mar. Na presença de concentrações excessivas de nitrogênio e fósforo, o fitoplâncton prolifera, atingindo florações massivas. O fenômeno de acrescimento de nutrientes adicionais que levam a um grande aumento no crescimento de algas é conhecido como eutrofização. Mas ao invés de fornecer mais comida e oxigênio, essa onda de crescimento tem consequências mortais. Quando os fitoplânctons morrem, eles descem para o fundo do mar e são digeridos por microrganismos. O processo consome o oxigênio da água do fundo, criando zonas de baixo teor de oxigênio. Às vezes, essas zonas são anóxicas, ou seja, sem oxigênio algum. Conforme mais algas crescem na superfície, elas bloqueiam a luz do sol para as plantas abaixo. Essas plantas privadas de luz morrem e se decompõem em um ciclo que vai reduzindo cada vez mais o suprimento de oxigênio já deficitário na água. Com o tempo, isso pode reduzir o teor de oxigênio a menos de 2 miligramas por litro, criando uma zona morta inabitável.

Águas totalmente oxigenadas podem ter até 10 mg/L de oxigênio. Uma vez que o oxigênio cai para 5 mg/L ou menos, os peixes têm dificuldade para respirar. Os tubarões deixam as águas quando elas atingem cerca de 3 mg/L de oxigênio, mas alguns peixes permanecem até que o nível alcance 2 mg/L ou menos. Existem raros corpos d’água que dependem da eutrofização natural. Regiões como a Baía de Bengala estão repletas de vida marinha, que vive no fundo e adaptada a condições de baixo oxigênio. Mas a atividade humana tornou a eutrofização uma ocorrência regular e generalizada.

Via: Árvore e Água

Ocorrências de Zonas Mortas

O Mar Báltico não é estranho às zonas mortas. Condições de baixo oxigênio, frequentemente chamadas de hipóxia, surgiram ao longo de sua história, mesmo antes de os humanos entrarem em cena. As zonas mortas ocorrem, em grande parte, devido à circulação limitada do Báltico e a fortes camadas de água, que impedem o oxigênio de reabastecer as águas do fundo. Desde a década de 1950, a poluição de nutrientes por fertilizantes e esgoto fez com que a hipóxia aumentasse no Báltico. Esses nutrientes contribuem para a proliferação de algas, que cobrem as praias com um lodo verde desagradável e bloqueiam a luz das plantas oceânicas.

Baltic Sea - Dead Zones
Zona Morta Mar Báltico

Outro local com forte depleção de oxigênio é o Golfo de Omã, no Mar Arábico, que possui 181 mil quilômetros quadrados e é, na verdade, um estreito que liga o Mar da Arábia ao Estreito de Ormuz. Os pesquisadores encontraram uma zona com pouco ou nenhum oxigênio cobrindo quase 165 mil quilômetros quadrados, aproximadamente do tamanho da Flórida ou da Escócia, dizem professores da Universidade de East Anglia (UEA) do Reino Unido. 

Algas verdes redemoinham na praia de Bandar al-Jissah em Omã em 3 de março de 2017. O Golfo de Omã fica verde duas vezes por ano por cerca de três meses seguidos, quando uma proliferação de algas se espalha. (Sam McNeil / Associated Press)

Bem, se já existiam esses fenômenos até mesmo antes da existência humana, por que deveríamos nos preocupar? Um estudo recente revisou evidências sobre zonas de baixo oxigênio coletadas ao redor do mundo e descobriu que essas faixas mortais de água no oceano aberto quadruplicaram em número desde 1950, expandindo-se em milhões de quilômetros quadrados. E esse é um problema muito maior do que a maioria das pessoas reconhece.

Mudança Climática e Eutrofização

Existe um fator, além da poluição aquática, que agrava ainda mais o problema: a mudança climática.  Muitos vão dizer que nós, do Tunes Ambiental, adoramos falar de mudanças climáticas e que dedicamos grande parte de nossos artigos para falar dela. Porém, caros leitores, ela também pode causar a desoxigenação em grande escala, já que águas mais quentes retêm menos oxigênio. Ou seja, além das zonas mortas costeiras resultantes de fertilizantes e esgotos que escorrem da costa para os mares, o aumento da temperatura nos oceanos torna esse oxigênio ainda mais escasso. 

Os principais eventos de extinção na história da Terra foram associados a climas quentes e a oceanos deficientes em oxigênio. É para essa direção que estamos seguindo se não modificarmos a trajetória atual. 

“As consequências para os humanos de permanecer nessa trajetória são tão terríveis que é difícil imaginar que iríamos tão longe nesse caminho. ” Denise Breitburg, do Smithsonian Environmental Research Center nos Estados Unidos.

No Golfo do México, a zona morta custa atualmente às indústrias de frutos do mar e ao turismo dos EUA cerca de 82 milhões de dólares por ano, e esse custo só aumentará à medida que a zona morta ficar maior. Em média, a zona morta do golfo é de aproximadamente 15.000 quilômetros quadrados, mas só em 2019 cresceu para mais de 22.000 quilômetros quadrados, uma área aproximadamente do tamanho do estado de Sergipe.

Essas imagens de cores artificiais mostram como a cor do oceano muda do inverno (esquerda) para o verão (direita) no Golfo do México. As observações de satélite da cor do oceano no verão mostram águas altamente turvas, que podem incluir grandes florações de fitoplâncton, estendendo-se da foz do rio Mississípi até a costa do Texas. Vermelhos e laranjas representam altas concentrações de fitoplâncton e sedimentos de rios. Imagens de satélite: NASA MODIS / Aqua

À medida que nosso planeta continua a esquentar, nossos oceanos estão adquirindo tons mais profundos de azul e verde, de acordo com pesquisa publicada na revista Nature Communications. As mudanças de cor são, em parte, em função das populações flutuantes de fitoplâncton ou algas. Executando um modelo de previsão, até o ano de 2100, estimam que mais de 50% dos oceanos do mundo exibirão mudanças de conforme suas populações de algas aumentarem ou diminuírem. Como cada espécie é diferente, as mudanças climáticas causarão efeitos distintos em diferentes comunidades de fitoplâncton. Nos subtropicais, por exemplo, espera-se que as águas fiquem mais azuis à medida que a população de algas cair. As águas próximas aos pólos, por outro lado, devem ter tons mais profundos de verde, conforme as condições mais quentes acenam para que as algas cresçam.

 

Os níveis baixos e decrescentes de oxigênio no oceano aberto e nas águas costeiras afetam os processos que vão da biogeoquímica à segurança alimentar. O mapa global indica locais costeiros onde os nutrientes antropogênicos exacerbaram ou causaram declínios de O2 para <2 mg litro − 1 (<63 mmol litro − 1) (pontos vermelhos), bem como zonas oceânicas de oxigênio mínimo a 300 m de profundidade (azul regiões sombreadas). [Mapa criado a partir de dados fornecidos por R. Diaz, atualizado por membros da rede GO2NE e baixado do World Ocean Atlas 2009

Dentre os problemas ambientais que enfrentamos, esse definitivamente não possui uma solução complexa demais. Os países devem e podem definir regulamentações mais rígidas sobre o escoamento industrial e proibir o despejo de esgoto não tratado nas águas de rios e dos oceanos. Nas fazendas agrícolas, podemos plantar zonas tampão compostas por árvores e arbustos que absorveriam o lixiviamento de nutrientes como fósforo e nitrogênio. As soluções de longo prazo exigirão mudanças radicais na maneira como cultivamos alimentos. Os agricultores são atualmente incentivados a usar técnicas que reduzem a saúde do solo e dependem fortemente de fertilizantes. Uma saída seria a restauração de nutrientes no solo por meio do plantio de diferentes espécies. O professor Robert Diaz do Instituto de Ciência Marinha da Virgínia, que revisou o novo estudo, disse: “No momento, a crescente expansão das zonas costeiras mortas e o declínio do oxigênio em mar aberto não são problemas prioritários para governos em todo o mundo. Infelizmente, será necessária uma mortandade severa e persistente de peixes para que a gravidade do baixo oxigênio seja percebida. ”

Como podemos perceber, o plástico não é o único problema para os nossos mares, a poluição vai muito além disso. Sem oxigênio nos oceanos não há vida no planeta Terra. As florestas são o coração do nosso planeta, bombeando toda água para a atmosfera, porém, nossos oceanos são o real pulmão do mundo e, sem a respiração dele, não há vida.

 

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Referências:

Dead Zones Spreading in World Oceans – CHERYL LYN DYBAS

Declining oxygen in the global ocean and coastal waters – Denise Breitburg

Long-term effectiveness and consequences of carbon dioxide sequestration – Gary Shaffer

Biogeosciences

 

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