40 anos para nosso fim – Conheça e entenda o novo artigo da Nature que afirma que a humanidade irá se extinguir em apenas quatro décadas

Resumo e análise do artigo de Mauro Bologna & Gerardo Aquino  intitulado “Deforestation and world population sustainability: a quantitative analysis“, publicado pela revista Nature em Julho de 2020.

Imagine que você está navegando na internet e se depara com uma manchete chocante em um site de notícias: “Novo artigo afirma que a humanidade acabará em até 40 anos!”. Rapidamente, você pensa que é apenas mais um artigo sensacionalista, com um título chamativo para atrair leitores como você. Mesmo assim, resolve dar uma olhada nessa publicação, que com certeza está em uma revista péssima e sem credibilidade, certo? Ao abrir a notícia, um novo susto. O artigo foi publicado pela Nature, uma das revistas mais conceituadas do mundo. Além disso, inúmeros cientistas renomados comentaram acerca da impecabilidade do artigo, que é um dos mais completos desse tipo. Isso pode significar apenas uma coisa: o fim do mundo está próximo, certo? Como sempre, a verdade é mais complexa do que apenas uma manchete em um site de notícias. Descubra a seguir os impactos que o desmatamento podem ter na nossa sociedade – e como revertê-los.

Os efeitos das graves violações ao meio ambiente se revelam como um problema que não faz distinção entre fauna e flora e não vê restrições de fronteiras nem de nacionalidades.
Por Christiane Costa Assis – Divulgação

O artigo “Deforestation and world population sustainability: a quantitative analysis” (Desmatamento e sustentabilidade da população mundial: uma análise quantitativa, em tradução livre), escrito pelos pesquisadores Mauro Bologna e  Gerardo Aquino pode, em um primeiro momento, parecer uma obra sensacionalista quando analisada de longe. Uma visão a fundo, entretanto, mostra exatamente o contrário disso. Primeiramente, é importante mencionar que a revista Nature é uma das mais conhecidas do mundo e ter um artigo aprovado nela é um feito difícil. Para ser aprovado, o artigo passa por revisores exigentes, que irão averiguar a relevância e, principalmente, a confiabilidade dos dados apresentados, analisando a metodologia e sua coerência com os resultados apresentados. Além disso, mesmo com um achado tão relevante, os autores desse paper¹ relutaram em colocar um título mais chamativo, o que mostra cautela para a apresentação de resultados, algo que você não esperaria de um trabalho sensacionalista.

Mas então, sobre o que esse artigo se refere?

Logo na introdução, os autores apontam que, por mais que o aquecimento global causado por ações antrópicas ainda seja questionado por uma parcela de cientistas, o desmatamento é, sem dúvida, extremamente evidente. Árvores não são a principal fonte de oxigênio do planeta, mas a quantidade que produzem também deve ser considerada e, portanto, o desmatamento pode, a longo prazo, comprometer a quantidade de oxigênio disponível, mesmo em uma menor escala. Além disso, árvores são a base de diversos ecossistemas, servem como depósitos de carbono, regulam a ciclagem de nutrientes do solo e, principalmente, criam os chamados “rios voadores”, indispensáveis para a manutenção do regime de chuvas em diversas regiões do globo. Em artigos citados pelos autores, cientistas concluíram que, dos 60 milhões de km² de florestas do nosso planeta, menos de 40 milhões de km² ainda não foram derrubadas, uma situação alarmante.

Comparação da cobertura florestal intocada (em verde) com a parcialmente degradada ou degradada (em amarelo) – Nesse caso, savanas florestadas (como o cerrado) também foram consideradas – Domínio Público
Cobertura florestal original (esquerda) e atual (direira) no Brasil. O gradiente de cores que vai do verde ao vermelho indica uma menor ou maior proximidade com a borda da mata (fragmentos pequenos são mais avermelhados) – Por Clinton Jenkins

Para eles, o aquecimento global é preocupante, mas jamais sentiremos seus maiores impactos caso nossos ecossistemas entrem em colapso. Grandes florestas, como a Amazônia, já estão bem perto do chamado “point of no return“, que consiste no limiar de destruição necessário para que esse ecossistema seja incapaz de se autossustentar, o que iria gerar uma reação em cadeia que culminaria em seu completo desaparecimento. Isso já aconteceu em diversos locais do nosso planeta, nos quais tantas árvores foram retiradas que a paisagem foi transformada em um deserto (na região da Mesopotâmia, Vale do Mississípi ou na Ilha de Páscoa, que também abordamos em nosso texto sobre ecocídio).

Babylon - UNESCO World Heritage Centre
A Babilônia era uma enorme cidade, situada em uma das regiões mais propícias para a agricultura do mundo. Atualmente, a maior parte do Iraque é um deserto inóspito –  Por Qahtan Al-Abeed,

Para mensurar esse fato já tão conhecido, os pesquisadores resolveram criar modelos matemáticos extremamente complexos que levaram em conta a taxa de crescimento populacional humana, a taxa de criação e destruição de unidades de conservação ao redor do mundo, variações da demanda por madeira, áreas de pasto ou agrícolas, as previsões de mudanças na taxa de desmatamento e, até mesmo, os prováveis avanços tecnológicos que poderiam interferir positivamente nesse cenário. Após diversas simulações utilizando diversos cenários possíveis (cuja metodologia não abordarei aqui), os resultados alarmaram cientistas do mundo todo.

Deforestation and world population sustainability: a quantitative ...
Exemplo de modelo adotado por Mauro Bologna e Gerardo Aquino. Recomendo fortemente a leitura do artigo para aqueles que gostam de matemática e possuem domínio da língua inglesa.

Atualmente, perdemos cerca de 200.000 km² de floresta todos os anos, em uma velocidade cada vez maior. Caso o ritmo atual fosse mantido, perderíamos todas as árvores da Terra em apenas 100 ou 200 anos (embora pareça um número extremo, essa conta é fácil de fazer e, infelizmente, o resultado é sempre esse). Entretanto, não precisaríamos cortar a última árvore para começar a sentir os efeitos dessa destruição. Previamente, Mauro Bologna já havia trabalhado com esse tipo de modelo para entender o ecocídio que ocorreu na Ilha de Páscoa (Bologna, M. & Flores, J. C. A simple mathematical model of society collapse applied to Easter Island – 2008) e, segundo ele, o que está ocorrendo no planeta é assustadoramente similar.

A Ilha de Páscoa possuía uma das maiores densidades vegetais das ilhas oceânicas do pacífico mas literalmente todas as árvores nativas da ilha foram cortadas. A maioria dos habitantes originais do local morreram de fome antes da chegada dos europeus no local – Mann et. al.

Ainda, de uma forma clara e simples, os autores citaram o chamado “Paradoxo de Fermi”, que questiona nossa falta de conhecimento de civilizações extraterrestres. De um ponto de vista estatístico, bilhões de civilizações existem em planetas a nossa volta mas, na prática, nenhuma foi encontrada. Além da possibilidade de ainda não termos tecnologia para encontrá-las, de um ponto de vista teórico uma civilização pode ser tão complexa que teria colonizado grande parte de sua galáxia, algo que por nós nunca foi determinado. Dessa forma, o paradoxo postula que uma barreira poderia impedir que essas civilizações conseguissem atingir tamanha complexidade, como, por exemplo, o esgotamento de seu planeta natal, que resultaria em sua extinção. A pergunta “onde estão todos os aliens?”, assustadoramente, poderia ser respondida com “(quase) todos já estão mortos”.

O Paradoxo de Fermi: onde é que estão as outras Terras?
Apelidada de “o grande filtro”, essa barreira pode impedir que as civilizações alcancem uma escala interplanetária. Enquanto nossa espécie ultrapassou várias barreiras no passado, não conseguiremos ultrapassar o grande filtro (em vermelho) pois, segundo os autores, esgotaremos nosso planeta antes – Créditos na imagem

Em conclusão, esse paper apontou que o cenário mais plausível para os próximos anos é a completa aniquilação humana pela destruição massiva das florestas do planeta que, muito em breve, poderão atingir seu point of no return e ocasionar o colapso sistêmico dos principais ecossistemas do globo. O fim das florestas provocaria secas extremas, que impossibilitariam a produção da comida que necessitamos para sobreviver e isso, sem dúvida, seria o fim de nossa sociedade. Adotando um modelo combinado determinístico e estocástico, eles puderam concluir que, de um ponto de vista puramente teórico e estatístico, a humanidade teria apenas 10% de chance de sobreviver às próximas quatro décadas, no cenário mais otimista. Esse mesmo cenário também explicaria o Paradoxo de Fermi, uma vez que civilizações tendem a se autodestruir antes de expandir para outros planetas.

Birds-eye view: How deforestation takes over in Brazil - Axios
Desmatamento na Amazônia Legal – Fonte Google Earth

Então, devemos nos preocupar? Absolutamente, sim. Mas talvez não da forma que pensamos em um primeiro momento. Cenários estatísticos são extremamente teóricos e pequenos erros ou aproximações podem ter grandes implicações no resultado final. Entretanto, esses modelos foram extremamente embasados e elogiados por outros cientistas, o que é um indicativo de que essas previsões podem estar certas. No ritmo atual, a sociedade como conhecemos irá acabar muito em breve. Uma outra possibilidade, porém, é que resolvamos mudar drasticamente nossa forma de consumo quando nossa civilização começar a ruir e, dessa forma, apenas alguns milhões de vidas sejam perdidos antes que seja tarde demais. Provavelmente, quanto mais um país desmatar, mais rapidamente ele será afetado, um fato altamente problemático para países subdesenvolvidos (segundo dados da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, os 10 países que mais desmataram na última década foram o Brasil, a República Democrática do Congo, Indonésia, Angola. Tanzânia, Paraguai, Myanmar, Cambójia, Bolívia e Moçambique). Infelizmente, o cenário mais provável é que só começaremos a realmente nos preocupar com o planeta quando nossas vidas estiverem em jogo. Lamentavelmente para nós, esse momento é agora. Só nos resta mudar.

¹ Paper, que significa “papel” em inglês, é um outro nome para se referir a trabalhos científicos. Essa palavra é reconhecida pela ABNT como um nome oficial e, portanto, não necessita de itálico

 

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Referências

Deforestation and world population sustainability: a quantitative analysis 

Bologna, M. & Flores, J. C. A simple mathematical model of society collapse applied to Easter Island. EPL 81, 48006 (2008)

Bologna, M., Chandia, K. J. & Flores, J. C. A non-linear mathematical model for a three-species ecosystem: Hippos in Lake Edward. Journal of Teoretical Biology 389, 83 (2016)

Engler, J. O. & von Wehrden, H. Where is everybody?? An empirical appraisal of occurrence, prevalence and sustainability of technological species in the Universe. International Journal of Astrobiology 18, 495–501 (2019).

The State of the World’s Forests 2018. Forest Pathways to Sustainable Development, Food, and Agriculture Organization of the United Nations. Rome (2018)

https://www.businessinsider.com/r-forests-shrink-70-percent-now-less-than-1-km-from-edge-2015-3

https://www.cambridge.org/core/journals/quaternary-research/article/drought-vegetation-change-and-human-history-on-rapa-nui-isla-de-pascua-easter-island/055607D0C7522B8F6A39E78C6900F951

 

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