As epidemias e a biodiversidade – Como a destruição da natureza pode ameaçar a saúde humana

Nos últimos meses, uma doença extremamente contagiosa se espalhou por todo o planeta. O vírus conhecido como COVID-19 já matou mais de 10 mil pessoas e infectou cerca de 250 mil, em um cenário cada vez mais preocupante. Ao tentar descobrir a origem desse novo patógeno, pesquisadores concluíram que, dos primeiros 41 infectados, 27 estiveram no Mercado de Huanan, na cidade de Wuhan, na China. Em 2002, uma outra doença viral, também causada por um coronavírus, conhecida como SARS, também surgiu na China, em um mercado como esse. Conhecidos como “wet markets”, esses centros comerciais são especializados em vender produtos frescos e perecíveis, sobretudo carne de animais domésticos e selvagens. Na África, por sua vez, várias doenças também apareceram nas últimas décadas, principalmente em áreas de intenso contato entre animais selvagens e seres humanos. Então, por que tantas doenças têm aparecido nos mesmos locais? E ainda, qual é o papel da biodiversidade nesses números?

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Embora essa imagem seja de um “Wet Market” na China, quantos brasileiros já não viram cenas como essa? – Foto de Adobe

Primeiramente, é importante lembrar que muitos vírus que infectam seres humanos surgiram devido ao contato com animais. Na natureza, animais tendem a viver em baixíssima densidade, o que foi alterado quando iniciamos a pecuária. Ao confinar centenas ou milhares de galinhas e porcos juntos, contribuímos para a rápida disseminação de doenças, que gera também uma alta taxa de mutação e, consequentemente, aumenta a chance de que uma mutação viável no patógeno permita que ele infecte seres humanos. Foi dessa forma que a gripe passou, em diferentes ocasiões, de porcos e aves para os seres humanos, trazendo consequências devastadoras em alguns casos, como nos surtos de gripe suína, em 2009, e de gripe aviária, em 2005. Muitas vezes, entretanto, animais selvagens entram em contato com nossas criações, passando a doença de um bicho silvestre para os domésticos e, posteriormente, para os seres humanos.

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A enorme concentração de animais em cativeiro permite a rápida propagação de doenças, como a gripe aviária – Foto tirada na Polônia durante surto da doença/ Fotógrafo desconhecido

Outras doenças, em contrapartida, se originaram a partir do contato direto com animais selvagens, sobretudo em regiões tropicais do globo. Desde seu surgimento, 70 milhões de pessoas já foram infectadas com o vírus HIV e 35 milhões já morreram, mas tudo começou por meio do contato com um parente próximo dos humanos: os chimpanzés. Por volta de 1908, um caçador matou um chimpanzé, provavelmente na região do Camarões, e o sangue do animal entrou em contato com alguma ferida em seu corpo. Lentamente, a doença foi se espalhando na região, chegando ao Congo, Gabão e à República Democrática do Congo, onde a infecção se espalhou pelas cidades. Por volta de 1980, o HIV já havia infectado pessoas em todo o mundo, tornando-se uma pandemia.

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Estudos genéticos apontam grande similaridade entre o HIV e vírus que causam imunodeficiência em outros primatas africanos; Primeira infecção humana veio de chimpanzés – Imagem por Denis M Tebit e Prof Eric J Arts

Muitas febres hemorrágicas, por outro lado, se originaram de um animal tido, por muitos, como um grande vilão: o morcego. Ao contrário da maioria dos animais, morcegos tendem a viver em altíssimas densidades populacionais, muitas vezes compartilhando seus abrigos com morcegos de várias outras espécies. Por esse motivo, diversos patógenos altamente infecciosos evoluíram em comunidades desses mamíferos. Além disso, esses vírus não costumam afetar drasticamente a saúde desses animais, o que permite que eles vivam normalmente, espalhando a doença para outros membros de sua colônia. Entretanto, nas últimas décadas, o ser humano vem destruindo o habitat desses organismos para a construção de cidades ou para a produção pecuária, o que possibilitou um maior contato entre morcegos e humanos (ou com os animais que consumimos), que passaram a viver em cidades e fazendas.

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Vírus como o o Ebola, Nipah, Marburg e Hendra surgiram em morcegos, mas não são tão letais para esses animais – Imagem por  GETTY

Pior do que gripes, essas doenças, como o Ebola, Nipah, Marburg e Hendra podem causar até 90% de letalidade em algumas regiões, devido ao meio em que elas surgiram. Ao contrário da maioria dos mamíferos (inclusive nós), morcegos possuem um metabolismo altíssimo, que faz com que sua temperatura corporal seja maior do que 40ºC. Uma das principais defesas de nosso corpo contra infecções severas é a febre, uma vez que os vírus humanos não estão adaptados a temperaturas altas. Ao sermos infectados com essas doenças, a temperatura do nosso corpo é elevada para tentar eliminar os microorganismos, o que apenas contribui para a rápida reprodução do vírus e para a disseminação da doença.

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Morcegos transmitem diversas doenças ao ser humano devido à destruição de seu habitat natural, que faz com que esses animais vivam nas cidades e fazendas – Por MinuteEarth

Então, o que aconteceu na China? É aí que entram os Wet Markets. Além de venderem animais domésticos e carnes, esses locais também vendem uma enorme quantidade de animais selvagens, vivos e mortos. Em gaiolas apertadas e empilhadas, os animais comem, dormem e defecam, contaminando outros animais ali presentes e as carnes vendidas no local, geralmente com bactérias que causam diarreias e outras formas de infecções alimentares. Aves, roedores, primatas, cervos e canídeos permanecem ao lado de porcos recém abatidos, que serão vendidos para restaurantes ou para consumidores  comuns. Dessa forma, vírus podem facilmente saltar de um animal selvagem para um doméstico ou, como aconteceu no nesse caso, diretamente para o ser humano.

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Diversas doenças comuns em humanos podem ter surgido em animais selvagens – Por Kuldeep Dhama
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Animais selvagens vivos são frequentemente vendidos em Wet Markets, o que contribui para a propagação de doenças.

Embora “Wet markets” podem ser encontrados em diversas partes do mundo, os da China são os mais famosos devido à enorme variedade de espécies neles presentes, por motivos históricos e culturais. Durante ondas de fome na China, em 1970, o governo tornou-se responsável por ampliar a produção agrícola, investindo em enormes produções com técnicas modernas, o que desfavoreceu os pequenos agricultores. Para suprir sua renda e para evitar a fome, essas pessoas passaram a vender carne de animais selvagens, uma prática que foi incentivada pelo governo, que rapidamente se tornaram uma iguaria no país, principalmente para as classes mais altas. Entretanto, em 1988, o governo declarou que animais selvagens são um recurso natural protegido pelo governo e incentivou a domesticação e produção de animais selvagens, o que criou uma nova indústria rentável no país. Em vez de pequenos produtores, investidores milionários criaram produções em massa de produtos animais e enormes latifúndios, que abrigavam milhares de ursos, cães-guaxinins, aves selvagens e répteis, o que contribuiu para a propagação de doenças entre membros da própria espécie.

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Com permissão legal, animais selvagens são vendidos em mercados chineses – Por Vox

Essa indústria legal também incentivou a procura de produtos ilegais provenientes de animais ameaçados, como elefantes, tigres e rinocerontes, cuja carne também é vendida (mesmo que de forma ilegal) nesses espaços. Animais menores, por sua vez, são levados ainda vivos para os “Wet Markets”, onde podem contribuir para o surgimento de uma zoonose. Após a epidemia de SARS, em 2002, provavelmente causada pelo contato com espécies selvagens, a China proibiu as fazendas de animais selvagens e sua venda em mercados. Entretanto, lobbies dessas indústrias pressionaram o governo, que permitiu a reabertura dessas fazendas e ainda incluiu animais ameaçados na lista de espécies permitidas para o consumo, como tigres e pangolins. Além da carne e da pele, essas indústrias se apoiam em ideias antigas da medicina tradicional chinesa para manter o comércio em alta, até mesmo de produtos como chifres de rinocerontes africanos ou (por mais chocante que pareça), ossos de mamutes, retirados na Sibéria. Ao contrário da nossa crença popular, apenas a parcela mais rica do país utiliza esses produtos e consome carne de espécies selvagens, mas sua influência à rentabilidade da indústria faz com que o governo chinês não a proíba.

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O surto de SARS provavelmente foi iniciado pelo contato com civetas selvagens em Wet Markets, como o da foto – Autor desconhecido

E é aí que entra o pangolim (Manis spp.), o animal ameaçado citado anteriormente. Esse estranho mamífero é a espécie mais traficada do planeta (mais de 50 mil indivíduos por ano) , sobretudo devido a seu uso na medicina tradicional. Pesquisas recentes indicaram que o COVID-19 surgiu de morcegos, mas foi por meio dos pangolins que a doença saltou para seres humanos, o que agora ameaça todo o nosso planeta. No momento, os “Wet Markets” e a venda desses animais estão proibidos na China, mas talvez seja apenas uma questão de tempo até que sejam liberados novamente.

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O pangolim é hoje o animal mais traficado do planeta
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Por: Getty Images/BBC NEWS BRASIL

Mais uma vez, a ganância humana e a destruição da natureza têm um impacto negativo em todo o planeta, beneficiando uma pequena parcela da sociedade. Além disso, esses animais se tornam ainda mais ameaçados ao serem culpabilizados pelas doenças que nos transmitiram, devido às nossas próprias ações.  O bem estar da população mundial depende da proibição da caça e de formas mais conscientes de produção pecuária, práticas essas que ameaçam não só o nosso meio ambiente, como também a saúde e a sobrevivência de todos nós.

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Referências

https://www.plantbasednews.org/opinion/chinese-wet-markets-coronavirus

https://www.researchgate.net/figure/Wild-life-zoonotic-diseases-being-transmitted-to-humans-a-glimpse_fig1_259870465

https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS1473-3099(10)70186-9/fulltext

https://www.nature.com/articles/d41586-020-00548-w?fbclid=IwAR1TaU8leMGzeMUzV0uZVIOBskJC2Zh4P7hixJfBEvwnsouHZGZnF4QTz_A

Chinese Citizens Call for Permanent Ban on Wildlife Markets

https://www.scmp.com/comment/opinion/article/3047828/first-sars-now-wuhan-coronavirus-heres-why-china-should-ban-its

https://journals.lww.com/infectdis/Fulltext/2002/02000/FROM_BATS_TO_PIGS_TO_MAN__THE_STORY_OF_NIPAH_VIRUS.3.aspx

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/19497090

 

 

 

Clique para acessar o global-pangolin-assessment.pdf

 

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4 comentários em “As epidemias e a biodiversidade – Como a destruição da natureza pode ameaçar a saúde humana

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