Precisamos falar sobre saneamento

Saneamento básico é um assunto não muito bem vindo em rodas de conversa e que nem sempre desperta o interesse que quem lê, porém tem importância única para o funcionamento de uma sociedade. Apesar de saneamento ser o conjunto dos serviços, infraestrutura de abastecimento de água, esgotamento sanitário, limpeza urbana, drenagem urbana, manejos de resíduos sólidos e de águas pluviais, vamos focar o texto na coleta e no tratamento dos esgotos.

Exatamente 150 anos atrás, um verão excepcionalmente quente tornou o rio Tâmisa, que flui por Londres, em um córrego repugnante. O grande fedor do rio era tão torturante que o Parlamento em Westminster mal conseguia se reunir. Os terrores da cólera eram relativamente novos. A doença apareceu na literatura européia em 1642, na descrição do médico holandês Jakob de Bondt. Acredita-se que os primeiros surtos no subcontinente indiano tenham sido resultado de más condições sanitárias.

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A figura à esquerda é a personificação da cólera, enfrentando resistência de um grupo de mulheres. Esta gravura do século XIX é de Barcelona.

Cheiros ruins são rotineiramente emanados em todo o mundo por rios  repletos de esgoto bruto. Os córregos são reduzidos a um gotejamento na estação seca. Hoje, investimentos públicos maciços são desesperadamente necessários para atender à 40% da população mundial: 2,3 bilhões de pessoas sem um meio adequado de lidar com seus dejetos diários.

Segundo Barros (2014), o primeiro indício de saneamento no Brasil ocorreu em 1561, quando Estácio de Sá mandou escavar no Rio de Janeiro o primeiro poço para abastecer a cidade. Em 1673, deu-se início ao primeiro aqueduto do País, que ficou pronto em 1723, transportando águas do rio Carioca em direção ao Chafariz. Atualmente o aqueduto é conhecido como os Arcos da Lapa. Em 1746, foram inauguradas linhas adutoras para os conventos de Santa Tereza, e na Luz, em São Paulo. Na capital paulista, o primeiro chafariz foi construído em 1744 e em 1842, havia cinco chafarizes na cidade. No período colonial, ações de saneamento eram feitas de forma individual, resumindo-se à drenagem de terrenos e instalação de chafarizes.

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Arcos da Lapa

No final do século XIX, ocorreu a organização dos serviços de saneamento e as províncias entregaram as concessões às companhias estrangeiras, principalmente inglesas. O Governo de São Paulo construiu o primeiro sistema de abastecimento de água encanada, entre 1857 e 1877, após assinar contrato com a empresa Achilles Martin D’Éstudens. Em Porto Alegre, o sistema de abastecimento de água encanada foi concluído em 1861, e no do Rio de Janeiro, em 1876, por Antônio Gabrielli. Com o uso do decantador Dortmund, o sistema do Rio de Janeiro tornou-se pioneiro na inauguração, em nível mundial, de uma Estação de Tratamento de Água (ETA), com seis filtros rápidos de pressão ar/água.

Com a péssima qualidade dos serviços prestados pelas companhias estrangeiras, o Brasil estatizou o serviço de saneamento no início do século XX. A partir dos anos 40, iniciou-se a comercialização dos serviços de saneamento. Surgiram, então, as autarquias e mecanismos de financiamento para o abastecimento de água, com influência do Serviço Especial de Saúde Pública (SESP), hoje denominada Fundação Nacional de Saúde (FUNASA).

Hoje,  2,3 bilhões de pessoas ainda vivem sem acesso a saneamento, dos quais 1 bilhão ainda praticam defecação a céu aberto. Mas porque falamos tão pouco sobre esse assunto que ainda é um problema? Os banheiros são algo em que raramente pensamos, a menos que precisemos desesperadamente de um. Pode parecer engraçado, mas os banheiros são o direito humano mais esquecido. Todos os anos, mais de 360.000 crianças morrem de doenças evitáveis ​​causadas por falta de saneamento. Para colocar as coisas em perspectiva, mais pessoas têm telefones celulares do que banheiros. Essa é a escala do problema.

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Nessa altura do texto, você provavelmente já está pensando: se esse é um problema tão grande, por que não ouvi nada sobre isso? A crise global de saneamento é uma “crise silenciosa” que causou mais baixas por doenças do que qualquer guerra. No entanto, permanece nas periferias da cobertura da mídia global e no desinteresse da atenção do público.

Três fatores principais ajudaram a prolongar a natureza silenciosa da crise:

  • A maioria das pessoas nos países desenvolvidos tem a sorte de usar o banheiro sempre que quiser, o que significa que não sente a necessidade de pensar ou falar sobre saneamento.
  • Saneamento não é algo atraente: em comparação com outras causas, como água, comida ou educação, os banheiros são vistos como uma atividade menos interessante e, portanto, recebem menos atenção e investimento.
  • O tabu do banheiro: muitas pessoas e culturas são muito tímidas ou envergonhadas para falar sobre banheiros, o que apenas perpetua a falta de atenção dada ao problema.

Em 2013, as Nações Unidas decidiram estabelecer o Dia Mundial do Toalete como um dia oficial de observação da ONU, criado para aumentar a conscientização e inspirar ações para enfrentar a crise global de saneamento. As evidências mostram que investir em saneamento seguro é essencial para apoiar um ambiente saudável, o empoderamento das mulheres, a educação global e as economias mais fortes. Visto que o saneamento inseguro leva à disseminação de doenças transmitidas pela água, como cólera, diarreia, febre tifoide e disenteria.

Dois anos depois, a ONU estabeleceu os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, um plano para alcançar um futuro melhor e mais sustentável para todos. Os Objetivos abordam os desafios globais que enfrentamos, incluindo os relacionados à pobreza, desigualdade, clima, degradação ambiental, prosperidade, paz e justiça. A meta 6 exige água limpa e saneamento para todos, uma vez que a pobreza extrema e a falta de saneamento estão estatisticamente ligadas. Portanto, alcançar o acesso universal a um banheiro seguro é fundamental para eliminar a pobreza. Atualmente, o mundo não está no caminho de alcançar o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 6 (ODS 6) sobre Água e Saneamento no prazo estabelecido para 2030, de acordo com um novo relatório da ONU. A menos que mudemos as coisas e comecemos verdadeiramente a fazer algo sobre o assunto.

Você sabia? Desde o dia 1 de janeiro até a data desse artigo foram despejadas 2.112.637 piscinas olímpicas de esgoto na natureza.

 

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Pensando nisso, Bill Gates e Melinda Gates criaram projetos para chamar atenção para a necessidade de banheiros sanitários fora da rede de esgotamento, que possam remover subprodutos nocivos do dejeto humano, o que ajuda a impedir a propagação de doenças entre os dois bilhões de pessoas que não têm acesso ao saneamento básico. A exposição Reinvent the Toilet, que partiu de uma iniciativa da Fundação Bill e Melinda Gates, contou com 20 designs de banheiros desenvolvidos por empresas de todo o mundo, a maioria dos quais usou engenharia inteligente para separar resíduos sólidos e líquidos com segurança e sem odor.

Como esses banheiros funcionam? Como um banheiro autônomo, que mata patógenos , é inodoro e está a quilômetros de distância do encanamento de esgoto é diferente de um banheiro comum? Um dos principais projetos que supostamente tem o apoio da Gates Foundation foi desenvolvido por cientistas e engenheiros da Cranfield University e ganhou dois prêmios importantes no International Water Association Product Innovation Awards 2018 em Tóquio, em setembro de 2018. Chama-se Nano Membrane Toilet e usa uma brilhante série de engrenagens, parafusos e câmaras de retenção para separar, limpar e armazenar resíduos.

Ao ser perguntado sobre o motivo em investir em saneamento básico, Bill Gates respondeu à BBC:

“Nos países ricos, temos esgotos que absorvem água limpa e expelem parte da água suja; em quase todos os casos há uma estação de tratamento”, disse ele. “Como temos novas cidades com muitas pessoas de baixa renda, esses esgotos não foram construídos e, de fato, não é provável que algum dia sejam, então a questão é: você poderia fazê-lo? É possível processar resíduos humanos sem sistema de esgoto? “

A fundação disse esperar que o banheiro reinventado seja lançado em escolas e apartamentos, até que os custos diminuam gradualmente e se tornem acessíveis nas residências.

E completou: “Você está economizando todos os custos das águas e dos produtos de processamento, mas temos que reduzir em quase um fator de 10 vezes o valor dos novos vasos sanitários, o que não é atípico para novos mercados de produtos”.

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Ou seja, um dos homens mais ricos do mundo já percebeu a importância do saneamento básico, não somente para a saúde humana, como também para o meio ambiente, para o desenvolvimento e para a qualidade de vida. O saneamento deve ser discutido e cobrado dos governantes, já que é um direto adquirido. E não podemos ignorar um tema tão importante!

 

 

Veja Também :

ODS – Parte I – Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (1 ao 9)

Iraque: Tigre e Eufrates estão morrendo

A ecologia urbana e seus estudos

 

Referências: 

A história do saneamento básico no Brasil – Rodrigo Barros

BBC Londres

Gates Fundation

Trata Brasil: saneamento é saúde

 

Um comentário em “Precisamos falar sobre saneamento

  1. Pingback: Novo Marco do Saneamento Básico: nós queremos essa mudança? – TUNES AMBIENTAL

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