Jardineiros do Passado: Como os seres humanos da pré-história criaram florestas e salvaram árvores da extinção

Quando falamos de impactos humanos no planeta, logo pensamos em destruição. Seja por meio da caça, pesca, poluição ou desmatamento, os humanos do passado alteraram drasticamente diversos ecossistemas por todo planeta, criando ondas de extinção que varreram ecossistemas inteiros. As grandes savanas brasileiras não são as mesmas sem mais de 80% de sua megafauna, que desapareceu há 12 mil anos. A Austrália, antes rica em animais colossais, agora é lar para pequenas espécies em sua maioria, que rapidamente rumam para a extinção. As grandes estepes da Rússia deixaram de ter vida após a extinção de seus grandes animais. Criamos desertos, secamos rios e mares e, em alguns lugares, causamos tantos danos que não conseguimos mais sobreviver.

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O Mar de Aral é considerado uma das maiores tragédias ambientais do planeta – Fotógrafo desconhecido

Mesmo podendo causar tantos problemas, também somos ótimos em criar novos ambientes. Os animais úteis para nossa sobrevivência se espalharam por todos os continentes habitáveis, assim como nossas plantas cultiváveis dominaram estepes e pradarias e, juntos, alteraram os ecossistemas nos quais foram inseridos. O que pouca gente sabe, entretanto, foi o impacto positivo que tivemos na dispersão de algumas plantas nativas e, como exemplo para entendermos melhor esse processo, não existe país melhor do que o Brasil.

Primeiramente, gostaria de citar o exemplo de duas plantas famosas que quase extinguimos, mas também que fomos responsáveis pelo seu sucesso: o pequizeiro (Caryocar brasiliense) e o abacateiro (Persea americana). Durante os eventos de extinção do Holoceno nas Américas, ocasionamos o desaparecimento de grande parte da megafauna desses continentes. A América do Sul, por sua vez, é o continente com a maior diversidade de árvores com grandes sementes que, consequentemente, necessitam ser dispersadas por grandes animais. Extinguimos preguiças-gigantes, toxodontes e elefantes e, consequentemente, destruímos redes de interações complexas. Sem seus dispersores, muitas espécies de árvores provavelmente também foram extintas ou extirpadas, em um processo conhecido como co-extinção.

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Alguns exemplos de dispersores de grandes sementes da América do Sul – Stegomastodon waringi, Catonyx cuvieri e Eremotherium laurillardi – Por Peter Schouten

Entretanto, nem tudo estava perdido para as árvores que mencionei anteriormente. Preguiças podiam adorar o corpo carnoso e gorduroso dos frutos do abacateiro mas, felizmente para ele, os seres humanos primitivos adoravam também. O abacate, antes restrito a uma pequena região do México, teve sua área expandida milhares de quilômetros em poucos mil anos, em um processo que foi apenas recentemente compreendido. Os povos mesoamericanos começaram a consumir abacate há pelo menos 18 mil anos e, por onde iam, levavam (provavelmente ainda de forma não intencional) essa saborosa fruta. As primeiras grandes plantações de abacate  conhecidas foram realizadas pelo povo Mokaya, no México, há 3500 anos e, menos de 300 anos depois, o cultivo da planta já tinha chegado até o Peru e o Brasil. Os olmecas e os maias utilizavam a planta como fonte de renda, transportando e vendendo em outras regiões e, atualmente, o abacate é encontrado na natureza por toda a América Latina.

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Variedade selvagem do abacate – Por Jen Geacone-Cruz
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O abacateiro é facilmente encontrado por toda América do Sul – Foto de Bruno Navez

 

 

 

O pequizeiro, por outro lado, não possui uma história tão conhecida. Assim como o abacateiro, era dispersado por animais que já não existem mais. Entretanto, como essa planta ainda existe? Os poucos estudos sobre o assunto apontam que, sem dúvidas, o desaparecimento da megafauna impactou de forma significativa a distribuição da planta e, atualmente, o pequizeiro é considerado ameaçado pela IUCN (International Union for Conservation of Nature). Entretanto, indícios apontam que a sobrevivência da fruta também está ligada com nossa espécie, uma ótima notícia para as abelhas e morcegos que se alimentam de seu néctar (e para aqueles que, assim como eu, adoram essa  fruta com cheiro e gosto forte!)

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O pequizeiro, sua flor e seus frutos –  Retirado do site Guia Ecológico

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divide o país em nove principais biomas: Caatinga, Campos, Cerrado, Floresta Amazônica, Mata Atlântica, Mata de Araucária, Mata de Cocais, Pantanal e Zonas Litorâneas. Embora prática, essa divisão não representa os biomas naturais do país, uma vez que dois deles foram, ao menos em parte, criados por nossa espécie.

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Biomas brasileiros segundo o IBGE

A Mata de Cocais é um ambiente transicional, situado entre a Caatinga, Cerrado e Amazônia, nos estados do Maranhão, Piauí e em partes do  Ceará, Pará e Tocantins. Destaca-se pela alta densidade de cocais, sobretudo de babaçu (Attalea speciosa) e de macaúbas (Acrocomia aculeata). É um ambiente indispensável para as populações da região, devido a sua alta densidade de plantas comestíveis e de interesse econômico (a página da Wikipédia aponta que esse ambiente também possui: pequi, bacuri, mangaba, açaí, cajuí, araticum, macaúba, anajá, puçá, murici, guabiraba, tucum, araçá, pitomba, mangabeira, pente-de-macaco, todas de interesse econômico). Seria coincidência esse bioma ter tantas plantas comestíveis? Provavelmente não.

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Mata de cocais – Foto do site conhecimentocientifico

 

Estudos recentes apontam que regiões dentro da Amazônia se parecem muito com Matas de Cocais. Sempre ao redor de rios, com pouca diversidade vegetal mas com muitas plantas cultiváveis. Plantadas há centenas de anos para extração humana, essas áreas permanecem, ainda hoje, com essas mesmas características, e as matas do Maranhão não são diferentes. Anteriormente dominado por savanas com eventuais palmeiras, milhares de anos de plantios subsequentes de árvores com frutos comestíveis, realizados pelos povos Ka’apor, Guajá, Tembé e Guajajara, transformaram partes do estado em um gigantesco pomar, que ainda hoje garante sustento aos povos da região.

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Foto do site conhecimentocientifico

Por fim, não podia deixar de mencionar a história das araucárias. Essas grandes árvores da espécie Araucaria angustifolia estão no planeta há pelo menos 200 milhões de anos e dominavam as paisagens da Gondwana, continente do Hemisfério Sul que compreendia a América do Sul, Antártida, Índia, África e Austrália. Nos milhões de anos seguintes, foi extinta na maior parte de sua área de ocorrência original, mas ainda estava presente por toda a América do Sul, incluindo a Região Nordeste brasileira. Mudanças climáticas, sobretudo ao longo do Pleistoceno e início do Holoceno, as restringiram ao sul do continente e, progressivamente, rumaram à extinção. A pesquisadora Mariana Vasconcellos aponta que estudos arqueológicos mostraram que as primeiras populações indígenas que habitaram o Sul do Brasil se alimentavam do pinhão, há pelo menos 4,3 mil anos. Enquanto as araucárias da Mantiqueira e de outros ambientes mais ao norte apresentam características genéticas que demonstram uma população natural, as araucárias que compõem a famosa Mata de Araucárias apresentam uma baixíssima variabilidade genética em uma grande área geográfica, o que aponta que elas foram cultivadas. O arqueólogo Paulo DeBlasis ainda conta que o local a partir do qual a floresta se expandiu, entre 1.410 e 900 anos atrás, é exatamente onde as populações nativas se espalharam, o que mostra que a expansão das araucárias acompanhou a expansão humana. Infelizmente, a extração de madeira novamente ameaça a árvore e se não tomarmos cuidado, ela poderá desaparecer em breve. 

Fonte- Shutterstock

Esses são apenas alguns exemplos dos impactos positivos do ser humano para algumas espécies. Diversos povos, mesmo com tecnologias primitivas, foram capazes de salvar espécies da extinção (mesmo sem saber) e de criar florestas que já duram milhares de anos. Possuímos tecnologias avançadas e um conhecimento vasto sobre o mundo a nossa volta mas, mesmo assim, não agimos. Salvar nossas florestas e nossas árvores ameaçadas é um esforço simples e surpreendentemente barato, mas poucos têm esse interesse. Resta saber se o futuro nos reserva um mundo reflorestado ou se nosso impacto acabará com nossas florestas.

 

Referências

https://www.persee.fr/doc/hom_0439-4216_1993_num_33_126_369639

A araucária e a erosão genética que destrói a Mata Atlântica

https://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0001745

https://bioone.org/journals/Harvard-Papers-in-Botany/volume-12/issue-2/1043-4534(2007)12%5B325:TAPALC%5D2.0.CO;2/The-Avocado-Persea-Americana-Lauraceae-Crop-in-Mesoamerica–10000/10.3100/1043-4534(2007)12%5B325:TAPALC%5D2.0.CO;2.full?casa_token=MZaGrPY6EKQAAAAA%3a_E5s2ijon_p3o2PFm3WRvt2GAXmsNgjMo-tfDLksM1SHlKooM-P7lu-Kj_fNQAdwLYfFtDvEpQ

https://onlinelibrary.wiley.com/doi/epdf/10.1046/j.1365-2699.2003.00842.x

https://books.google.com.br/books?hl=pt-BR&lr=&id=ofKbPTg2r0wC&oi=fnd&pg=PR7&dq=Maranh%C3%A3o+Baba%C3%A7u+forests+prehistory&ots=0DEjnASxL3&sig=BNJZDv1SOyAAdu0CZnIiAQYz4yw#v=onepage&q&f=false

https://books.google.com.br/books?hl=pt-BR&lr=&id=Yn88DwAAQBAJ&oi=fnd&pg=PA265&dq=Maranh%C3%A3o+Baba%C3%A7u+forests+prehistory&ots=82XptfKbES&sig=M1MlaXyop0ChHBkKpTTiQv3V9as#v=onepage&q&f=false

https://www.persee.fr/doc/hom_0439-4216_1993_num_33_126_369639

https://pt.wikipedia.org/wiki/Mata_dos_cocais

https://www.unicamp.br/unicamp/ju/noticias/2019/07/23/dispersao-da-araucaria-na-mata-atlantica-foi-influenciada-por-povos-pre

Povos pré-colombianos podem ter evitado extinção da araucária

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