Fogo na Amazônia: Como as queimadas podem acabar com nossa floresta

O bioma florestal Amazônia é biologicamente a região mais rica da Terra, hospedando 25% da biodiversidade global, e é um dos principais contribuintes para o funcionamento biogeoquímico do sistema terrestre. Sua degradação e queimada em grande escala deixaria um legado duradouro sobre o funcionamento e a diversidade da biosfera.

As florestas de terras baixas da Amazônia têm uma temperatura anual média de 26° C, com muita pouca variabilidade espacial, e uma precipitação anual média de 2400 mm, variando de >3000 mm no noroeste da Amazônia até <1500 mm nas zonas de transição de savana – floresta.

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Floresta Amazônica. Fonte: Unsplash

Recentemente, as temperaturas nas regiões tropicais de baixada em todo o mundo aumentaram 0,25° C por década e projeta-se um aumento de 3 a 8° C (média de 5° C) durante o século 21 sob o cenário de emissões. A Amazônia, e em particular suas margens mais secas, é palco de intensa pressão humana sobre a floresta por meio da extração de madeira, desmatamento e expansão do uso de fogo. Segundo estudiosos da Universidade de Oxford, com o aumento das fronteiras agrícolas há maiores chances de haver pontos de ignição prontos para inflamar as florestas amazônicas no caso de uma mudança para um clima mais seco e/ou mais sazonal. Vale ressaltar que, na maioria das vezes, as frentes de fogo são causadas por ações criminosas de grileiros e de exploradores de terras. As pressões vêm do agronegócio, juntamente com o aumento da demanda regional e global por carne bovina e soja da Amazônia, além da demanda global emergente por biocombustíveis.

Essa pressão influencia a resposta das florestas de várias maneiras:
(i) removendo diretamente a cobertura florestal e sendo um agente independente da morte da Amazônia;
(ii) modificando diretamente o clima local, a temperatura da superfície e o regime de chuvas, contribuindo, assim, para as mudanças climáticas regionais; e
(iii) aumentando a presença e a vulnerabilidade ao fogo.

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Biodiversidade na Floresta. Fonte: Green Economy

O desmatamento pode afetar diretamente o clima da região, reduzindo a reciclagem local da água do solo por meio de raízes profundas na transpiração da floresta e, consequentemente, na precipitação, embora isso pareça depender da escala e da localização do desmatamento. A transpiração da floresta perdida resulta em diminuição do resfriamento da superfície e, consequentemente, no aumento da temperatura do ar regional, em demanda evaporativa e em estresse hídrico nas florestas remanescentes. A mudança no uso da terra e o fogo também afetam o regime de chuvas, aumentando consideravelmente a quantidade de aerossóis da atmosfera por intermédio da fumaça e da poeira. Os aerossóis favorecem a chuva convectiva menos frequente, porém mais intensiva, e a possível supressão da chuva na estação seca. Um recuo da floresta amazônica (seja causada por desmatamento, por seca severa ou por fogo), portanto, aumentaria ainda mais a mudança climática regional, alterando a reciclagem local de água e outras propriedades biofísicas.

O fogo

 As florestas possuem grande resiliência à intensificação da estação seca. No entanto, isso pode se quebrar quando a presença de fogo é considerada. Vários estudos de campo relatam que as florestas tropicais sazonais se tornam temporariamente inflamáveis, mas a falta de pontos de ignição natural na Amazônia inibe a quantidade de fogo natural.

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Estado de Tocantins. Foto: Xinhua/ Rex

O papel potencialmente crítico do fogo era visível durante as recentes secas na Amazônia, com incêndios extensos que vazaram das zonas agrícolas para as florestas inflamáveis ​​durante as secas de 1997, 1998, 2005 e 2007.

Na última década, vários estudos de campo exploraram as mudanças nas florestas primárias expostas a incêndios individuais ou repetidos. A maioria das árvores da floresta tropical é pouco adaptada ao estresse do fogo, e até incêndios florestais de baixa intensidade podem levar a excessivas mortes de árvores. Esses estudos pintam um quadro convincente de como as florestas tropicais são intolerantes ao fogo e podem reduzir significantemente sob cenários de seca e aumento de incêndios. Na divisa savana-floresta existe uma zona com maior potencial de inflamabilidade, onde os incêndios são possíveis, mas geralmente não ocorrem devido à falta de fontes de ignição.

Com o “Dia do Fogo”, que ocorreu no dia 10 de agosto de 2019, realizado por fazendeiros do entorno da BR-163, no sudoeste do Pará, o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisa Espaciais) registrou uma explosão de focos de incêndio na região.  No dia 5 de agosto de 2019, o jornal Folha do Progresso, de Novo Progresso, revelou o que era o Dia do Fogo, no qual, de acordo com a publicação, os produtores se sentiam “amparados pelas palavras do presidente”, coordenando assim a queima do pasto e de áreas em processo de desmate.

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Número de focos de incêndio

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Nos últimos anos o Ibama mantinha uma base de fiscalização em Novo Progresso durante, principalmente, o período seco. Neste ano, porém, a operação foi cancelada devido à falta de apoio da polícia militar do Pará. Segundo dados do Deter (Detecção do Desmatamento em Tempo Real), sistema do Inpe, o Pará perdeu 893 km² de floresta apenas no mês de julho, equivalente a dois municípios de Curitiba.

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Com as queimadas e cenários de altas emissões, há grande probabilidade de intensificação das estações secas na Amazônia. O aumento das temperaturas e das taxas de transpiração, o desmatamento generalizado e o recuo florestal induzido pelo fogo e pelas mudanças climáticas podem contribuir ainda mais para a intensificação do estresse hídrico sazonal. Florestas nas margens secas ou em solos rasos ou inférteis podem ser mais vulneráveis. Nesse caso, teme-se que a Amazônia passe a ser um ponto de inflexão na estrutura e função do ecossistema, assim como a atividade humana e a disseminação do fogo possam ser críticas ao ponto de desencadear uma quebra na resiliência da floresta e o consequente desaparecimento.

Como já falamos aqui, a floresta Amazônica tem papel fundamental, não somente para a manutenção de biodiversidade, como também para levar umidade para outras partes do Brasil por meio dos rios voadores. Os pesquisadores da Embrapa – Meio Ambiente, Marco Gomes e Lauro Pereira, destacam a importância dos rios voadores: tal evento possui ação direta nas condições de clima, na vida humana e nos recursos hídricos. E Gomes explica: “Dada a sua alta relevância por abordar os deslocamentos de massas úmidas da região amazônica para a região centro-sul do país – daí a denominação de Rios Voadores, influencia no regime de chuvas de boa parte do território nacional”.

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Árvore Samaúma. Fotografia de Araquém Alcântara

Mesmo que a Amazônia esteja distante de nossa realidade urbana, todos nós necessitamos dela. Dependemos de sua umidade, das possíveis curas de doenças que se escondem em suas matas, da sua biodiversidade e equilíbrio, de sua regulação de temperatura e de seu oxigênio. É fundamental que os governos atuais e futuros percebam que a Amazônia é de nossa responsabilidade, porém que a natureza não tem fronteiras e que dela depende o mundo.

 

 

 

Leia também:

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Quais são as propostas do futuro presidente para o Meio Ambiente?

Amazonas: O rio brasileiro que surgiu na África

 

Referências:

 

INPE (Instituto Nacional de Pesquisa Espaciais)  – Monitoramento de Queimadas

EMBRAPA

NASA

 

Artigos científicos: 

“Tipping elements in the Earth’s climate system.” de LENTON

” Amazonian forest dieback under climate-carbon cycle projections for the 21st century. ” de COX

 “Spatial patterns and fire response of recent Amazonian droughts.” de LEOC

“The role of ecosystem-atmosphere interactions in simulated Amazonian precipitation decrease and forest dieback under global climate warming.” de BETTS

“Exploring the likelihood and mechanism of a climate-change-induced dieback of the Amazon rainforest” de MALHI

 

2 comentários em “Fogo na Amazônia: Como as queimadas podem acabar com nossa floresta

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