Era do Gelo: Por que o aquecimento global pode causar um resfriamento nas altas latitudes?

Muitas pessoas têm lembrança dos invernos amargos do fim dos anos 70 e início dos anos 80, e, na época, houve muita discussão nos círculos científicos sobre se as condições congelantes do inverno eram ou não um presságio de uma nova era do gelo.

Nas últimas duas décadas, esses avisos foram abafados pelo grande debate sobre o aquecimento global e pela preocupação de como a sociedade poderia lidar no futuro com um planeta sufocante, em vez de um planeta coberto de icebergs. Aparentemente, o fato de ainda estarmos dentro de um período interglacial, durante o qual o gelo recuou em grande parte, faz com que muitos esqueçam da ciclicidade do clima do planeta e que ela não descredibiliza a preocupação com o aquecimento e com as espécies aqui presentes.

O problema está na corrente oceânica conhecida como Corrente do Golfo, que banha o Reino Unido e o noroeste da Europa com águas quentes transportadas em direção ao norte do Caribe. É a Corrente do Golfo, e correntes associadas, que permitem que os morangos prosperem ao longo da costa norueguesa, enquanto nas latitudes comparáveis nas geleiras da Groenlândia as águas mais densas seguem seu caminho até o leito oceânico, gerando uma corrente mais profunda. Sem a Corrente do Golfo, as temperaturas no Reino Unido e no noroeste da Europa seriam cinco graus centígrados mais frias, com invernos rigorosos pelo menos tão violentos quanto os da chamada Pequena Idade do Gelo ocorrida nos séculos XVII a XIX.

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Corrente do Golfo

A Corrente do Golfo é parte de um sistema mais complexo de correntes, conhecido por vários nomes diferentes, dos quais a Circulação Meridional Transversal do Atlântico (AMOC) é provavelmente a mais famosa. Isso incorpora, não apenas a Corrente do Golfo, mas também as correntes de retorno a frio, que levam a água para o sul novamente. Ao se aproximar do Ártico, a Corrente do Golfo perde calor e parte dela volta para climas mais quentes ao longo da costa da Groenlândia e do leste do Canadá, sob a forma fria e cheia de icebergs, um deles responsável pelo naufrágio do Titanic. Muito, no entanto, sobe, esfriando e afundando sob os mares nórdicos entre a Noruega e a Groenlândia, antes de seguir para o sul novamente abaixo da superfície.

AMOC

Esse processo poderia ocorrer indefinitivamente caso a salinidade e a temperatura da água fossem mantidas nas mesmas proporções em escala global. Mas o grande problema é que o aquecimento global está alterando fortemente esses parâmetros e, consequentemente, alterando as correntes marítimas tão importantes. O aumento da temperatura atmosférica nas altas latitudes causa um aumento da temperatura da água, reduzindo sua densidade e diminuindo a vazão de água que afundaria. Além disso, com o derretimento do gelo, há uma redução da salinidade da água nessa área, mais uma vez reduzindo sua densidade. Esses dois fatores causariam um enfraquecimento das correntes oceânicas. Apesar de ainda não haver comprovações e unanimidade cientifica a respeito disso, há grandes chances dessa hipótese se tornar logo uma teoria.

Foto: Shawn Ang

Mas o que o enfraquecimento das correntes trariam para o Planeta? No passado, a desaceleração da Corrente do Golfo estava intimamente ligada ao dramático resfriamento regional. Apenas 10.000 anos atrás, durante um clima frio conhecido como o Younger Dryas, a corrente foi severamente enfraquecida, causando a queda de até 10 graus nas temperaturas no norte da Europa. Dez mil anos antes disso, no auge da última era glacial, quando a maior parte do Reino Unido foi reduzida a um deserto congelado, a Corrente do Golfo tinha apenas dois terços da força que tem agora. Nos dias atuais, o calor seria retido na Faixa Equatorial, deixando as temperaturas ainda mais elevadas nessa latitude, além do resfriamento das altas latitudes.

O que é preocupante é que, há alguns anos, os modelos climáticos globais vêm prevendo um futuro enfraquecimento da Corrente do Golfo como conseqüência do aquecimento global. Esses modelos visualizam o rompimento do AMOC, incluindo a Corrente do Golfo, como resultado do derretimento em grande escala do gelo do Ártico e o consequente despejo de enormes volumes de água doce no Atlântico Norte, em um século ou dois. Novos dados sugerem, no entanto, que talvez não precisemos esperar séculos e, de fato, todo o processo já está acontecendo.

Foto: Ben Klea

Para que as águas superficiais quentes e salgadas da Corrente do Golfo possam continuar seu caminho para o norte, deve haver uma corrente de retorno comparável e profunda de água fria e densa dos mares nórdicos. Perturbadoramente, esta corrente de retorno parece ter diminuído desde meados do século passado. Bogi Hansen, do laboratório de pesca das Ilhas Faroe, e colegas na Escócia e na Noruega, têm monitorado o fluxo profundo de água fria dos mares nórdicos quando passa sobre o cume submarino da Groenlândia-Escócia, que fica no Atlântico Norte. Os resultados do monitoramento demostram que o fluxo de saída caiu 20% desde 1950, o que sugere um influxo reduzido comparável da corrente do Golfo.

Wallace Broecker, um pesquisador de circulação oceânica no observatório de Lamont-Doherty Earth, em Nova York, descreveu perfeitamente a situação quando afirmou que “o clima é uma fera raivosa e estamos cutucando-a com paus”. O ser humano não tem noção das consequências de se mudar o clima mundial e uma hora a fera raivosa vai atacar.

 

 

 

 

 

Referências 

Xianyao Chen & Ka-Kit Tung – “Global surface warming enhanced by weak Atlantic
overturning circulation”

Will global warming trigger a new ice age?”

 

2 comentários em “Era do Gelo: Por que o aquecimento global pode causar um resfriamento nas altas latitudes?

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