Capivaras – Pragas urbanas ou importantes animais silvestres?

As capivaras são grandes animais da América do Sul, que vivem associadas a lagoas, rios, savanas alagadas e pântanos, sendo encontradas também no interior de florestas tropicais úmidas. Por esse motivo, também são frequentemente encontradas nos centros urbanos, vivendo em lagoas, rios e açudes por cidades de todo o Brasil, sobretudo nas regiões Sudeste e Centro-Oeste. Nos últimos anos, um crescimento populacional abrupto desses animais, associado ao aumento do número de casos de febre maculosa, fez com que diversas cidades criassem planos de manejo para reduzir a população desses organismos. Mas, afinal, combater esses animais pode reduzir o número da doença? E, ainda, devemos tratar esse roedor como uma praga urbana?

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Capivaras em Curitiba – Por Bill Machado

A capivara (Hydrochoerus hydrochaeris) é o maior roedor do mundo, que pode chegar aos 136 centímetros de comprimento e pesar mais de 91 quilos em casos raros. É um animal gregário, que vive em bandos que variam de 10 a 100 indivíduos, compostos majoritariamente por indivíduos jovens. Quando os ambientes em que vivem secam ou se tornam desfavoráveis, tendem a migrar para outros locais, frequentemente movendo-se para o interior de cidades ou zonas de pasto, nos quais os lagos ou açudes são mantidos para uso do gado ou com objetivo paisagístico.

Capybara
Capivara na região Amazônica – Fotógrafo desconhecido

 

Entretanto, o problema começa com a falta de predadores desses animais em fazendas e em centros urbanos, como as onças e sucuris, o que permite o crescimento de suas populações de forma desenfreada. Em diversas regiões do país, as Hydrochoerus tornaram-se uma ameaça para lavouras e plantações, gerando prejuízos para pequenos agricultores. Isso levou ao aumento da caça, gerando desequilíbrios também em ambientes naturais, uma vez que as capivaras passaram a ser vistas como uma ameaça em locais como o Pantanal.

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Capivara em lavoura em em Arealva (SP) – Fonte TV TEM/Reprodução – G1

Um problema ainda maior relacionado a esse animal é a febre maculosa, doença causada pela bactéria Rickettsia rickettsii e transmitida pelo carrapato-estrela (Amblyomma cajennense). Ao picar e se alimentar de sangue, o carrapato infectado pode transmitir a doença por meio de sua saliva, após cerca de 6 horas de contato. Depois do contágio, a bactéria irá se alojar no cérebro, pulmões, coração, fígado, baço, pâncreas e tubo digestivo, causando febre intensa, dores de cabeça, náuseas, diarreia, inchaço e vermelhidão nas palmas das mãos e nas solas dos pés, e manchas na pele, de 2 a 14 dias após a infecção. Se não tratada, a doença pode gerar gangrena e paralisia, resultando em morte de 60% dos indivíduos portadores.

Close do carrapato-estrela, transmissor da febre maculosa.
Carrapato-estrela (Amblyomma cajennense) – Retirada de drauziovarella.uol.com.br
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Fonte – Ministério da Saúde – Retirada do Portal G1

Para que a doença se mantenha viável na natureza, carrapatos precisam contaminar animais selvagens, que funcionarão como reservatórios da doença, permitindo a infecção posterior por outros carrapatos. Após infectados, os carrapatos permanecerão assim por toda sua vida, que pode durar até 18 meses. Nesse tempo, eles podem permanecer até 200 dias sem se alimentar, o que aumenta ainda mais o risco da infecção. Por viverem em altas densidades populacionais e devido à falta de predadores, as capivaras são ótimos reservatórios para a doença, que também pode infectar cães domésticos, marsupiais, outros roedores e cavalos.

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Fonte: Ministério da Saúde

Nos últimos anos, várias epidemias têm ocorrido por todo o Brasil, sobretudo nos estados de São Paulo e Minas Gerais, o que desencadeou uma série de programas para eliminar os maiores roedores do planeta de diversas cidades. Em 2009, um centro de pesquisa foi criado em Campinas, onde capivaras infectadas foram isoladas para o controle da doença. Entretanto, em 2011, após três funcionários morrerem pela doença, a prefeitura autorizou o abate de mais de 40 capivaras na cidade. O Secretario de Saúde da cidade à época, José Francisco Kerr Saraiva, afirmou que a eliminação das capivaras seria a única forma real de lidar com esse problema de saúde pública, uma vez que o uso de carrapaticidas nem sempre é eficiente. Em 2019, novos casos foram relatados em Itatiba – SP, onde, mais uma vez, o abate foi autorizado.

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Isolamento de capivaras em Campinas – Foto: Reprodução/EPTV

Entretanto, a capivara não é o único problema. Ao serem retiradas do local, os carrapatos infectados poderão buscar outros animais para se alimentarem, afastando-se da água e invadindo pastos ou, até mesmo, áreas residenciais, onde infectarão cavalos ou cães. Em entrevista para o jornal O Globo, o veterinário Paulo Anselmo Felippe, que trabalha com esses animais, afirmou que a castração e esterilização são manejos mais adequados, uma vez que capivaras deixam de transmitir a doença após 15 dias, e explicou: “Porque o sistema imunológico dela se organiza e ela não vai ter mais essa riquetsemia, essa bactéria circulando. Então, ela não infecta novos carrapatos. Sempre que a riquétsia circulou naquela população, você retira os animais e vêm novos, vai acontecer riquetsemia nesses novos, porque eles não tiveram contato anterior com a bactéria”. Dessa forma, abater as capivaras pode abrir espaço para a chegada de novos animais, que nunca entraram em contato com a doença e, dessa forma, passarão a ser novos reservatórios.

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Fonte: Secretaria de Saúde de Rio Preto

Embora esse argumento tenha sido criticado por alguns estudiosos, a prática do manejo e castração vem sendo adotada em algumas cidades do país. Em 2014, na cidade de Belo Horizonte, a Fundação Ezequiel Dias (FUNED) constatou que, das 46 capivaras analisadas na Lagoa da Pampulha, 28 possuíam a bactéria da doença. Pouco depois, em 2018, um plano de manejo foi criado, no qual todas as 56 capivaras contabilizadas foram esterilizadas, receberam carrapaticida e microchip. Suas populações permaneceram estáveis e os animais ficaram saudáveis por muito tempo, o que permitiu novamente a sua convivência tranquila com a população.

O último censo indicou que vivem cerca de 65 capivaras na orla da lagoa
Capivaras na Lagoa da Pampulha, o principal cartão postal de BH – Foto por Flávio Tavares

 

Entretanto, em 2019, 84 suspeitas da doença foram reportadas na Grande BH, tendo sido confirmadas quatro mortes e dois pacientes infectados. Como uma nova capivara com a doença foi encontrada na Lagoa da Pampulha e devido à sua proximidade com a cidade de Contagem, novos planos de manejo deverão ser futuramente criados e os animais do local deverão ser novamente analisados, uma vez que a capivara infectada pode ser oriunda de outro local.

Febre maculosa
Cavalos foram recolhidos e vêm recebendo carrapaticida pela Prefeitura de Contagem – Foto por Leo Fontes

A relação conturbada das capivaras e dos seres humanos, portanto, ainda está longe de ter fim. Se por um lado a população se preocupa com a Saúde Pública, por outro o abate desenfreado pode, não só causar desequilíbrios ambientais, como também piorar as epidemias da febre maculosa, uma vez que ainda não compreendemos completamente o seu ciclo. Estudos realizados pela FUNED e UFMG vêm tentando solucionar o problema e, quem sabe, no futuro, uma vacina poderá ser criada.

As capivaras são um dos principais grandes herbívoros no país e sua proteção em áreas selvagens é essencial para a manutenção de onças, sucuris e jacarés. Em muitas áreas urbanas, esses animais representam um marco para a cidade, tornando-se até mesmo pontos turísticos vivos e contribuindo para a diversidade de aves, que muitas vezes se alimentam de parasitas (incluindo carrapatos) presentes no dorso desses animais. Um dos principais símbolos de Belo Horizonte, essas criaturas deverão continuar a ser amplamente estudadas e protegidas, caso seja possível, garantindo, assim, a presença de animais silvestres tão marcantes no meio urbano.

a onça e a capivara
A capivara é uma das principais presas da onça-pintada (Panthera onca) – Foto por Zig Koch
Capivaras na orla da Lagoa da Pampulha (foto:Renato Weil).
A capivara é o mascote não-oficial da cidade de Belo Horizonte – Foto por Renato Weil

Para saber mais sobre como se proteger da doença, acesse

Febre Maculosa: causas, sintomas, tratamento, diagnóstico e prevenção – Ministério da Saúde

Febre Maculosa – Portal Dráuzio Varella

Leia também: Matar os macacos da Febre Amarela pode aumentar seus riscos!

Foto de capa por Pedro Henrique Tunes

Referências

http://g1.globo.com/bom-dia-brasil/noticia/2011/02/capivaras-infestadas-de-carrapatos-dividem-campinas-mata-las-ou-nao.html

https://espaco-vital.jusbrasil.com.br/noticias/2600456/abatam-se-as-capivaras

https://www.hojeemdia.com.br/horizontes/contagem-investiga-60-casos-suspeitos-de-febre-maculosa-1.722696

https://g1.globo.com/sp/sorocaba-jundiai/noticia/2019/06/17/secretaria-de-meio-ambiente-autoriza-abate-de-40-capivaras-de-condominio-e-gera-polemica-em-itatiba.ghtml

https://portal.fiocruz.br/noticia/especialista-esclarece-duvidas-sobre-febre-maculosa-transmitida-pelo-carrapato-estrela

https://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,apos-morte-por-febre-maculosa-condominio-abate-capivaras-em-itatiba,70002879525

https://g1.globo.com/sp/sorocaba-jundiai/noticia/2019/06/17/secretaria-de-meio-ambiente-autoriza-abate-de-40-capivaras-de-condominio-e-gera-polemica-em-itatiba.ghtml

Jundiaí registra 16 casos suspeitos de febre maculosa em 2019

https://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2014/11/21/interna_gerais,592183/capivaras-recolhidas-da-orla-da-pampulha-tem-bacteria-da-febre-maculosa.shtml

http://ciflorestas.com.br/arquivos/d_d_d_10906.pdf

https://www.hojeemdia.com.br/horizontes/contagem-investiga-60-casos-suspeitos-de-febre-maculosa-1.722696

https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/noticia/2019/06/05/belo-horizonte-e-contagem-investigam-mais-de-60-casos-suspeitos-de-febre-maculosa.ghtml

https://www.otempo.com.br/cidades/bh-registra-31-casos-suspeitos-de-febre-maculosa-em-contagem-j%C3%A1-s%C3%A3o-32-1.2192064

https://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2019/06/26/interna_gerais,1064836/bacteria-febre-maculosa-confirmada-lagoa-da-pampulha-cidade-administra.shtml

http://www.aprag.org.br/noticias/capivaras-na-pampulha-chega-ao-fim-primeira-etapa-de-manejo-dos-animais

http://g1.globo.com/espirito-santo/agronegocios/noticia/2014/09/superpopulacao-de-capivaras-causa-transtornos-para-agricultores-do-es.html

https://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2018/10/30/interna_gerais,1001557/prefeitura-termina-manejo-das-capivaras-da-lagoa-da-pampulha.shtml

https://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2018/10/31/interna_gerais,1001753/manejo-das-capivaras-e-passo-importante-contra-a-febre-maculosa-em-bh.shtml

https://www.hojeemdia.com.br/horizontes/metade-das-capivaras-da-pampulha-j%C3%A1-foi-esterelizada-e-recebeu-microchip-1.632225

http://www.saude.gov.br/saude-de-a-z/febre-maculosa

http://www.icmbio.gov.br/parnaitatiaia/images/stories/o-que-fazemos/Animal_business_-_Febre_Maculosa.pdf

https://g1.globo.com/sp/sorocaba-jundiai/nosso-campo/noticia/capivaras-invadem-propriedades-e-causam-prejuizos-a-agricultores.ghtml

 

 

 

 

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