China e Sustentabilidade: Uma história de amor ou ódio?

Desde 2008, o governo chinês mudou para uma postura proativa sobre governança climática e desenvolvimento de baixo carbono. Devido a melhorias significativas na eficiência de CO2 e a uma lenta desaceleração no total anual de emissões de CO2, a China é cada vez mais percebida como uma nova campeã de baixo carbono e parece estar em posição de assumir a liderança de mitigação climática global. Em dezembro de 2009, na COP-15, a Conferência das Nações Unidas para Mudanças Climáticas, realizada na Dinamarca, a China não atingiu metas de um acordo global de redução de emissões de gás carbônico. O argumento deles à época dizia que as grandes economias queriam frear o crescimento chinês.

Segundo a revista Exame, todos os anos, de 1,1 milhão a 1,6 milhão de chineses morrem por problemas de saúde causados pela poluição atmosférica. No mundo, são cerca de 3 milhões de mortes prematuras decorrentes desse tipo de poluição. Respirar o ar de Pequim é o equivalente a fumar 40 cigarros por dia, segundo estimativa da Universidade da Califórnia, em Berkeley, nos Estados Unidos.

Poluição em Pequim
Mulher usando máscara devido à poluição atmosférica. Foto: Kevin Frayer

Para mudar essa realidade, o governo de Pequim deu uma guinada em suas políticas ambientais nos últimos seis anos para a grande surpresa dos ambientalistas. Em 2014, o primeiro-ministro Li Keqiang declarou “guerra à poluição” e anunciou que os principais objetivos da China estavam mudando: em vez de buscar o enriquecimento a todo custo, a nova meta é tornar a China uma economia verde. Em março de 2017, no encontro anual do Partido Comunista, Keqiang reafirmou o compromisso de “fazer o céu da China azul novamente”.

Desde 2014, a China construiu uma rede nacional de monitoramento de emissão das partículas, chamado de PM 2.5. Essas emissões causam problemas de pele, hipertensão e doenças neurológicas. O país também passou a compartilhar dados com a Organização Mundial da Saúde e começou a fazer parte do projeto de monitoramento Air Quality Index. Graças a esse controle se sabe, por exemplo, que a poluição média do ar na região mais problemática do país, que reúne as províncias de Pequim, Hebei e Tianjin, ficou em 77 PM 2.5 em 2015, uma queda de 25% em relação ao ano anterior. Em Baoding, a média ficou em 128 ao ano, também em queda. A boa notícia é que os índices têm caído no país inteiro. A má notícia é que levará pelo menos dez anos para que a China alcance a meta de chegar ao índice 30, considerado mais saudável. Qualquer chinês pode checar a qualidade do ar em tempo real e denunciar fábricas que estejam poluindo mais do que o limite permitido por lei. Com isso, monitorar a qualidade do ar virou uma obsessão nacional. Uma executiva de uma empresa de tecnologia, ouvida pela revista Exame, afirmou que usa o app para saber a melhor hora de ir ao supermercado, de sair para uma corrida ou, até mesmo, de abrir as janelas da casa.

Shenzhen é uma das cidades que mais crescem na China, sendo hoje o epicentro das empresas chinesas de tecnologia, localizada no Sul do país. Hoje, possui 12 milhões de habitantes, 140 empresas inovadoras listadas em bolsa e, orgulho de seus moradores, um dos ares mais limpos da China. Em 2015, a média de poluentes PM 2.5 na cidade foi de 29,9, já abaixo da meta estabelecida para 2030.

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Uma mulher observa a vista com um guarda-chuva para proteger do sol em Shenzhen, China. Foto : Bob Rye

Em 2002, Shenzhen recebeu o prêmio máximo das Nações Unidas por ser uma das cidades mais ecológicas do mundo, um elogio que, tanto chocou, quanto impressionou seus vizinhos. Em menos de uma década, a cidade reduziu seus níveis de poluição do ar em cerca de 50%, segundo suas autoridades. A consultoria global McKinsey & Company, em 2016, nomeou Shenzhen a cidade mais sustentável de toda a China. Shenzhen também fez parte das manchetes globais por ter sido a primeira grande cidade do mundo a lançar uma frota de 16 mil ônibus públicos totalmente elétricos. Para se colocar isso em perspectiva, a cidade tem mais ônibus totalmente elétricos do que a soma de ônibus em operação de Nova York, Los Angeles, Toronto, Nova Jersey e Chicago. E para cada mil ônibus movidos a bateria em operação, o país deixa de consumir 500 barris de diesel, segundo cálculos da Bloomberg New Energy Finance. Foi essa frota totalmente elétrica que ajudou a cidade a atingir suas metas de qualidade do ar em 2016 e 2017.

Ações mais importantes feitas pela China:

Menos carvão, ar mais limpo

A China tomou medidas para desmantelar as centrais a carvão, reduzir os níveis globais de emissões e as taxas de emissão de partículas. Um enorme progresso foi feito na qualidade do ar, e agora há menos dias de poluição nas maiores cidades da China.

Melhor regulamentação

O antigo Ministério de Proteção Ambiental foi transformado no Ministério de Ecologia e Meio Ambiente (MEE), uma nova entidade com responsabilidades mais amplas e claras. O novo ministério supervisionará todas as políticas relacionadas à água, da gestão de recursos oceânicos à água subterrânea. Anteriormente, estas atribuições estavam espalhadas entre os diferentes departamentos. O ministério também é responsável pelas políticas sobre mudança climática.

Financiando um futuro mais verde

A China estima que necessitará aumentar de 40,3 trilhões de RMB (US$ 6,4 trilhões) para 123,4 trilhões de RMB (US$ 19,4 trilhões) para financiar a transição para uma economia mais verde. Ela começou a cobrar uma taxa ambiental para ajudar a financiar suas políticas ambientais e também está tentando atrair mais investimentos verdes. A Iniciativa do Cinturão e Estrada da China (BRI), um programa global massivo que visa melhorar a interconectividade entre os países, inspirado na antiga Rota da Seda, procura impulsionar o comércio e o crescimento econômico na Ásia e além. Como o vice-primeiro-ministro Liu He disse na Reunião Anual do Fórum Econômico Mundial, ocorrida em Davos este ano, reduzir a poluição é um dos principais objetivos estratégicos da China, pois persegue essa iniciativa, além de prevenir grandes riscos financeiros e aliviar a pobreza.

Zonas de desenvolvimento sustentável

No início deste ano, o governo chinês aprovou três zonas de desenvolvimento sustentável, que implementarão os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas para 2030:

  • Shenzhen ( como já exemplificado acima)

Shenzhen é o motor de inovação da China. Essa zona integrará tecnologias de tratamento de esgoto, utilização de resíduos, restauração ecológica e inteligência artificial para resolver problemas, desde o gerenciamento de recursos até a poluição.

  • Guilin

Esta zona se concentrará em inovações que lidam com a desertificação, criando soluções que podem ser replicadas por outras regiões que enfrentam a ameaça de invasão de desertos.

  • Taiyuan

Visando a poluição do ar e da água, esta zona promoverá soluções inovadoras que podem ser replicadas por regiões que dependem da extração de recursos.

  • Empresas de tecnologia verde

Os gigantes da tecnologia da China desempenham um papel vital no desenvolvimento sustentável. Tencent, Baidu e Alibaba estão entre as 10 maiores empresas de internet do mundo. A tecnologia on-line, principalmente o comércio eletrônico, o internet banking e as mídias sociais, estão acelerando o ritmo das mudanças. Por exemplo, a Ant Financial, uma subsidiária bancária do Alibaba, é uma das fundadoras da Green Digital Finance Alliance. Esta aliança visa usar a tecnologia digital para promover finanças verdes. Mais de 200 milhões de usuários da Ant se inscreveram no Ant Forest, um aplicativo que utiliza o rastreamento da pegada de carbono. O aplicativo leva os usuários à reduzirem as emissões de gases do efeito estufa na vida real, demonstrando o enorme potencial da Fintech para apoiar o desenvolvimento sustentável. Até o final de janeiro de 2017, a abordagem economizou 150.000 toneladas de CO2.

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Vista aérea de Shanghai. Foto: Denys Nevozhai

 

Joyce Msuya, microbióloga tanzaniana, veterana do Banco Mundial e Diretora Executiva do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), falou na 4ª Assembleia Ambiental ocorrida em março desse ano: “Esta é a hora de realmente fazer uma diferença, fazer a diferença no meio ambiente. A natureza não é inesgotável, deve ser vista como o capital financeiro.”

A China não é somente um polo de produção industrial, como também tem muito a oferecer em termos de boas práticas. Hoje ela está se transformando, não apenas em relação à mudança climática e à poluição, bem como tem procurado compartilhar o que foi aprendido com outros países que estão passando por desafios semelhantes. A China está tentando corrigir os seus erros. O que esse país oriental percebeu é que sem a natureza e sem saúde, a busca pelo ranking de potência mundial de nada adianta. Vamos aprender Brasil? 

 

 

 

 

Referência:

Artigos do World Economic Forum e da Nature

Matérias do Business Insider e Exame 

 

Veja também:

 

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