A triste realidade dos pets silvestres

Nos últimos anos, a busca por animais de estimação pouco convencionais cresceu drasticamente, sobretudo com a popularização de redes sociais, como o Instagram, onde pessoas do mundo todo podem seguir usuários que possuem ouriços, tucanos ou, até mesmo, tigres em casa. Embora a procura por bichos silvestres esteja inclusive relacionada com a valorização de nossa fauna, ela esconde uma dura verdade relacionada ao tráfico, à caça, bem como à extinção de espécies na natureza. Por outro lado, quando feita corretamente, ela pode ser a chave para a preservação de nossa biodiversidade.

Resultado de imagem para vale verde criatorio
Arara-azul-grande no Criatório Vale Verde, um dos melhores e mais conhecidos do país

O termo “animal silvestre” engloba todos os bichos que vivem na natureza, dentro do território nacional, ao contrário dos animais exóticos, que são oriundos de outros países. A comercialização de espécies exóticas dentro do Brasil é extremamente complicada, uma vez que esses organismos podem gerar inúmeros problemas ecológicos caso sejam soltos na natureza, motivo pelo qual poucos animais exóticos podem ser vendidos no país. Por outro lado, a lista de silvestres permitidos é incrivelmente longa, mas sua posse requer diversos cuidados.

Resultado de imagem para pets exoticos
Por não ser nativo da nossa fauna, o ouriço é considerado um pet exótico – hoje proibido no Brasil 

Primeiramente, vale ressaltar que a cultura de possuir animais silvestres em casa gera enormes prejuízos para a natureza. Ainda hoje, a maior parte dos pets silvestres são adquiridos de forma ilegal, na qual os animais são capturados diretamente na natureza para serem comercializados. Essa prática pode oferecer diversos riscos sanitários, uma vez que o comprador poderá adquirir um animal com alguma zoonose ou parasitose, sob pena de contaminar toda sua família. Entretanto, os impactos são ainda maiores para os animais. Anualmente, a indústria do tráfico de animais no Brasil movimenta 1 bilhão de dólares e comercializa cerca de 12 milhões de animais, que, na maioria das vezes, são transportados em condições desumanas, com dezenas de aves levadas dentro de pequenas gaiolas adequadas para comportar apenas duas. Essa indústria foi, inclusive, responsável pela extinção local de espécies na natureza como o bicudo (Sporophila maximiliani), ave comum em cativeiro que não é vista solta em Minas Gerais há mais de 50 anos.

Resultado de imagem para trafico de animais silvestres
Acredite, essa gaiola está relativamente vazia comparada com outras do tráfico de animais
Resultado de imagem para bicudo
Bicudo (Sporophila maximiliani) – Ave comum em cativeiro e localmente extinta na natureza em vários estados –  Foto retirada do Wiki Aves

Muitas vezes, animais são mortos a tiros para que os traficantes obtenham os seus filhotes. A mutilação também é outro problema sério. Para que se tornem mais dóceis, cantem mais ou não ofereçam riscos ao comprador, aves são cegadas e têm as asas cortadas de forma irreversível (diferente do corte de penas da asa realizado por profissionais veterinários), mamíferos, como macacos e quatis, têm unhas e dentes arrancados e répteis são incapacitados ou, ainda, em alguns casos amputados (em respeito aos nossos leitores, imagens dessas práticas não serão colocadas, podendo ser facilmente encontradas no Google imagens digitando “tráfico de animais”).

Então, como adquirir um pet silvestre de forma ética e legal? Primeiramente, o comprador deve ter consciência que criar um animal silvestre pode ser difícil e perigoso. Ao contrário dos animais domésticos, os silvestres não foram alterados geneticamente por meio de seleção artificial ao longo de milhares de anos e, por isso, ainda retêm características “selvagens”. Uma arara ou um papagaio, por exemplo, requerem alimentação especial e são extremamente barulhentos, o que torna sua criação muito difícil em áreas residenciais. Uma cobra ou um macaco, por outro lado, podem gerar despesas exorbitantes, além de oferecerem certos riscos a seus donos. Estudar o animal e oferecer condições apropriadas a seu bem estar são condições essenciais para a sua compra.

Resultado de imagem para terrario jiboia pet
Exemplo de terrário para serpentes e lagartos

Em segundo lugar, o comprador deve conhecer a legislação por trás de cada espécie e saber onde comprá-la. Existem vários criadouros certificados pelo IBAMA pelo país, nos quais podem ser comprados macacos-prego, jiboias, iguanas, teiús, tarântulas, passarinhos, tucanos, araras, papagaios e, até mesmo, grandes aves de rapina. Esses animais são muito caros, podendo chegar a até 15 mil reais e, em nenhum caso, seu manejo adequado é simples. Vale lembrar que um animal ilegal não pode ser legalizado, uma vez que todos os pets silvestres devem ter nascido em cativeiro e dentro de um dos locais certificados. A multa para o porte de animais ilegais varia entre R$ 1.625,70 a R$ 16.250,00 por animal e o indivíduo pode ser preso, com pena de seis meses a um ano, de acordo com o artigo 29 da Lei de Crimes Ambientais (Lei nº 9.605/98). Entretanto, um animal ilegal pode ser entregue voluntariamente ao IBAMA sem nenhum tipo de penalidade, onde ele passará por avaliações médicas e, em alguns casos, poderá até ser reabilitado para voltar para a natureza.

Resultado de imagem para terrario jiboia pet
Jiboia-arco-íris, um dos pets legais mais procurados no país

Em resumo, a obtenção de um animal silvestre é custosa, seu manejo é difícil e a obtenção de animais ilegais patrocina a caça e a mutilação de nossa biodiversidade. Mesmo os animais legalizados podem ser prejudiciais, uma vez que podem influenciar pessoas a buscar o mercado ilegal devido ao preço alto de bichos provenientes de criatórios. Então, por que não proibir os pets silvestres? Assim como as drogas, por exemplo, a proibição só aumentaria o tráfico e, no caso dos animais, aumentaria também os maus tratos. Independente da legislação, muitas pessoas irão buscar animais silvestres. Ao existirem centros especializados para sua reprodução e venda, a saúde e bem estar desses animais são garantidas e os seus compradores podem ser responsabilizados por quaisquer danos a eles, uma vez que o IBAMA possui um registro de todos os adquirentes. Entretanto, o aumento da penalização para os infratores e a criação de mecanismos mais eficientes para a fiscalização e punição do tráfico devem ser adotados. Além disso, esses criatórios são indispensáveis para a conservação de alguns animais, algo que abordaremos em um texto futuro.

Resultado de imagem para papagaio pet
O papagaio-comum é a ave mais traficada do país. A ave legalizada custa em torno de 3 mil reais.

Precisamos lembrar que, se quisermos um animal silvestre, devemos procurar criadouros legais, conhecer as necessidades de cada bicho e estar dispostos a gastar muito dinheiro com seu recinto, alimentação e despesas médicas. Possuir um pet silvestre é muito bom, mas requer ética, responsabilidade e carinho. Portanto, pense bem antes de escolher um pet silvestre e lembre-se de não contribuir com atividades que ameacem diretamente nossa fauna. Eventualmente, algumas pessoas compram animais ilegais por perceberem que eles estão em uma situação ruim, mas isso também financia o tráfico. Sendo assim, não comprar um animal é a melhor forma de ajudá-lo.

Segue abaixo um link com a lista de criatórios certificados pelo IBAMA:

https://smastr16.blob.core.windows.net/home/2015/09/criadores_e_estabelecimentos_comerciais_v3.pdf

Referências

http://drfala.com.br/post/roedores/cuidados/como-comprar-animais-silvestres-de-forma-legal

https://www.forumanimal.org/silvestre-nao-e-pet

https://canaldopet.ig.com.br/curiosidades/especiais/2019-02-16/animais-silvestres-comprar.html

https://g1.globo.com/sp/sorocaba-jundiai/mundo-pet/noticia/ter-animais-silvestres-em-casa-requer-autorizacao-do-ibama-e-cuidados-especificos-entenda-as-regras.ghtml

https://www.todamateria.com.br/trafico-de-animais/

https://pib.socioambiental.org/en/Not%C3%ADcias?id=104804

https://criatoriovaleverde.com.br/tabela-de-precos

Projeto Bicudos

 

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: