Guerra à Ciência – Parte I – Por que as pessoas não acreditam mais nos cientistas?

Desde o fim da Idade Média, no século XV, movimentos como o Renascentismo e o Iluminismo auxiliaram no desenvolvimento técnico-científico de nosso planeta. Cada vez mais, diversas pessoas pararam de se dedicar às profissões mais comuns e passaram a se dedicar à ciência, que tomou o lugar da religião na explicação de eventos da natureza e se tornou o principal molde da sociedade, sendo respeitada pela maior parte das esferas sociais. Entretanto, nos últimos anos, o pensamento científico da sociedade como um todo entrou em um retrocesso e a ciência vem perdendo força. Afinal, o que fez com que a ciência perdesse sua credibilidade? Nessa série de textos iremos abordar os grandes alvos do movimento anticientífico e os diversos perigos por trás desse discurso, que ameaça, não só o aperfeiçoamento de nossas tecnologias, como também a vida de milhões de pessoas.

Famoso quadro De Anatomische les van Dr. Nicolaes Tulp, de Rembrandt, que aponta o renascimento científico no século XVII

A ciência é baseada no método científico, que consiste no conjunto de regras básicas adotadas para a realização de experiências, com o objetivo de produzir conhecimento. Por meio da observação de um fato e de um questionamento (o que queremos saber daquele fato observado), o cientista irá formular uma hipótese, que será testada de modo que outros cientistas possam repetir seu feito. Após seu experimento, uma análise de dados será realizada e, caso sua hipótese estiver errada, o cientista poderá criar novas hipóteses. Posteriormente, ele apresentará suas conclusões, comentando os resultados obtidos. Após a realização de todas as etapas do método científico, as afirmações serão chamadas de teorias. Um argumento muito usado por anticientistas é de que algo considerado como “apenas uma teoria” demonstra simplesmente a falta do entendimento de como funciona a ciência.

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Esquema de como funciona o Método Científico retirado do site omundodaquimica.com.br

Acredita-se que o movimento anticientífico tomou força a partir dos anos 70, impulsionado inicialmente por grandes setores da economia. Ao questionar o aquecimento global, por exemplo, a produção petrolífera, que movimenta bilhões de dólares anualmente, possibilita que mais pessoas continuem a investir nesse setor, tão prejudicial para o planeta. Dessa forma, algumas indústrias, sobretudo nos Estados Unidos, tentam reduzir a credibilidade de pesquisas científicas como forma de defender seus interesses econômicos, ideologias e crenças, além de financiarem políticos que, por sua vez, também defendam esses interesses.

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Embora dependa totalmente da ciência para seu desenvolvimento, a indústria petrolífera é uma das principais forças contra as ciências climáticas na atualidade

A Anticiência tem como princípio a apresentação de argumentos contra pesquisas e teorias científicas sem bases teóricas concretas, ou seja, que não se utilizam de métodos científicos. Quando direcionada a pessoas que não entendem a fundo o funcionamento da ciência, essa argumentação falaciosa pode convencer milhões de indivíduos, ameaçando a confiabilidade das instituições sérias de pesquisa. Quando relacionada a fatos banais do cotidiano, a anticiência pode não ser preocupante, mas, caso ameace a saúde pública e as decisões políticas do planeta, ela pode se tornar um grande perigo para toda a sociedade.

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Imagem da “Terra Plana”, um dos principais movimentos anticientíficos da atualidade

Um outro ponto extremamente importante é a popularização da internet. O acesso rápido e fácil à informação e a possibilidade do desenvolvimento de conteúdos sem nenhum rigor científico fizeram com que textos e mensagens falsas, sobretudo em redes sociais e no WhatsApp, se propagassem rapidamente. A noção de que a mídia convencional não é imparcial fez com que muitas pessoas se esquecessem de que os escritores autônomos também podem ser parciais, colocando suas crenças pessoais na frente do rigor técnico.

Por fim, os maiores causadores do retrocesso da ciência são a mídia e os próprios cientistas. Enquanto 97% dos cientistas concordam com o aquecimento global, apenas 60% da população dos Estados Unidos acredita em sua existência. Muitas vezes, ao apontar dois lados de um tópico, os argumentos científicos e não-científicos são apontados como equivalentes, o que descredibiliza o método científico perante a população. Por sua vez, os cientistas têm grande dificuldade em expor suas ideias para as pessoas comuns, pecando consideravelmente na divulgação de seus trabalhos. Quando questionados, os pesquisadores, muitas vezes, tendem a apontar a falta de conhecimento de seu questionador, ao invés de realmente tentar entender o por quê daquela pessoa pensar assim e, consequentemente, poder explicar melhor suas descobertas.

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O Movimento Anti-Vacina é, segundo a OMS, um dos maiores perigos atuais para a saúde pública mundial

Por ser tão perigosa, a luta contra a anticiência é algo que deve partir de todos, ensinando, de forma calma e respeitosa, àqueles que não concordem com conceitos empíricos. Dessa forma, mais pessoas entenderão que a ciência não fornece respostas concretas mas, sim, tenta responder perguntas baseando-se em experiências e testes rigorosos e não-enviesados.

Nos próximos textos de nossa série, mostraremos como ideias como a Terra Plana, o Movimento Anti-Vacina, o negacionismo cego ao aquecimento global e o Design Inteligente vêm ganhando força e moldando a sociedade de diversas formas diferentes, ameaçando, inclusive, nossa própria sobrevivência.

Referências

https://netnature.wordpress.com/2017/02/27/por-que-os-cientistas-estao-perdendo-a-luta-para-comunicar-a-ciencia-ao-publico-comentado/

https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe2605200203.htm

https://netnature.wordpress.com/2017/02/27/por-que-os-cientistas-estao-perdendo-a-luta-para-comunicar-a-ciencia-ao-publico-comentado

http://futureatrisk.blogspot.com/2010/09/o-movimento-anti-ciencia-e-anti.html

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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