A Volta dos que Não Foram – Como espécies extintas podem ser encontradas novamente

Recentemente, um grupo de pesquisadores do Equador se deparou com uma enorme surpresa durante um trabalho de campo. Em uma expedição na floresta de Chocó, os cientistas se depararam com a perereca Gastrotheca cornuta, uma espécie que possui estruturas semelhantes a chifres, olhos dourados e uma estranha bolsa nas costas das fêmeas que serve para guardar seus ovos. O mais impressionante é que esse animal não era visto há mais de uma década e, portanto, era considerado extinto na natureza. Mas afinal, como esse anfíbio retornou da extinção?

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Foto de uma Gastrotheca cornuta em cativeiro, com ovos em sua bolsa nas costas – Foto por Joel Sartore

Ao contrário da desextinção, que consiste na clonagem de espécies extintas ou na manipulação de espécies atuais para aproximá-las de seus antepassados, o processo que vemos aqui é completamente natural. Devido à falta de técnicas mais precisas para encontrar espécies, à sua localização isolada ou simplesmente à extensão de nosso planeta, muitas vezes animais e plantas são dados como extintos e reaparecem anos depois. São as chamadas “Espécies Lazarus”, em alusão a Lázaro, personagem Bíblico que morreu e foi ressuscitado por Jesus Cristo. Embora raras, essas espécies demonstram nossa falta de conhecimento da complexidade do mundo natural e nos dão uma nova chance de preservar organismos considerados extintos anteriormente. A seguir, veremos alguns exemplos de animais e plantas que quebraram a barreira da extinção e, pelo menos ao nosso ver, retornaram à vida.

Minhoca gigante de Washington (Driloleirus americanus)

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Foto: Universidade de Idaho, Kelly Weaver

O primeiro animal da nossa lista é um caso clássico, que demonstra as nossas limitações para encontrar as espécies que buscamos. Essa grande minhoca, que pode chegar a quase um metro de comprimento e que exala um odor semelhante ao do lírio, não era vista desde a década de 1980 e foi considerada extinta por vários anos, até ser redescoberta em 2005. Embora provavelmente ameaçada, essa espécie não é facilmente encontrada, sobretudo, devido a seu habitat, mais de 5 metros abaixo da superfície.

Gecko-de-crista                          (Correlophus ciliatus)

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Foto: Harry Lyndon-Skeggs

Esse simpático lagarto foi descoberto na ilha de Nova Caledônia, em 1866 e, anos depois, foi considerado extinto pela ciência, uma vez que não foi mais avistado depois de seu primeiro registro. Entretanto, após uma forte tempestade ocorrida em 1994, um desses indivíduos caiu do alto de uma árvore e foi encontrado pelo cientista Robert Seipp. Por viver no alto das árvores em uma região remota, a espécie permaneceu escondida por mais de um século e, após várias expedições, centenas de indivíduos foram encontrados. Por muitos anos, cientistas reproduziram esses animais em cativeiro para estudo e, por um tempo, sua exportação foi permitida pelo país. Atualmente, é um dos lagartos mais populares como pet no mundo, sendo criado legalmente em diversos países, embora seu status no ambiente natural ainda seja preocupante.

Tartaruga Gigante de Galápagos de Fernandina                                                        (Chelonoidis phantastica)

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Foto: Rodrigo Buendía

Mesmo em uma ilha, encontrar um animal pode ser um desafio. Descoberto em 1906, esse jabuti gigante nunca mais foi visto e, portanto, acreditava-se que a espécie havia se extinguido. Apenas um exemplar havia sido coletado, o que fez com que muitos cientistas duvidassem que essa fosse uma espécie distinta das outras tartarugas-gigantes-de-Galápagos já conhecidas. Entretanto, para a surpresa de muitos, uma fêmea foi encontrada em fevereiro de 2019 e, devido a expedições no local, acredita-se que outros indivíduos ainda existam. Sua população atual não deve ultrapassar os 5 indivíduos, o que torna sua sobrevivência pouco provável, mas sua descoberta abre portas para tentativas de sua preservação.

Cachorro-do-Mato-Vinagre           (Speothos venaticus)

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Um dos casos mais curiosos de nossa lista aconteceu no Brasil, no estado de Minas Gerais. Peter Lund, considerado o pai da paleontologia brasileira, foi um brilhante cientista dinamarquês que passou grande parte da sua vida em Lagoa Santa, onde se dedicou a estudar e classificar espécies fósseis e atuais. Em sua casa, ele criava diversos animais para estudo que, posteriormente, sacrificava para registrar sua estrutura óssea. Um dos animais que criou foi um cachorro-do-mato-vinagre, que considerou uma nova espécie. O que ele não percebeu foi que a espécie já havia sido descoberta poucos anos antes, em 1839, por ele mesmo. Ao encontrar um fóssil de um canídeo em uma caverna, ele imaginou que se tratava de uma espécie extinta há milhares de anos, mal sabendo ele que teria um exemplar vivo em sua casa, quatro anos depois.

Metasequoias                                            (Metasequoia glyptostroboides)

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O reaparecimento de criaturas desaparecidas há centenas e até milhares de anos é impressionante, mas nada se compara aos organismos que ressurgem após períodos geológicos inteiros. As metasequoias eram conhecidas apenas pelo registro fóssil, supostamente extintas há mais de 100 milhões de anos, durante o período Cretáceo. Entretanto, em 1943, um pesquisador chamado Zhan Wang coletou amostras de estranhas árvores que encontrou em uma região remota da China e descobriu a similaridade entre as espécies, que foram sinonimizadas em 1946.

Celacanto                                                           (Latimeria spp.)

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Fóssil de celacanto do Cretáceo
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Celacanto atual (Latimeria chalumnae) – Foto de oceana.org

Os celacantos são, sem dúvida, os táxons lazarus mais famosos. Esses animais eram conhecidos a partir de fósseis e, junto com os dinossauros não-avianos, pterossauros e diversos répteis marinhos, teriam sido extintos na última grande extinção em massa de nosso planeta, há 66 milhões de anos. Em 1936, entretanto, Marjorie Courtenay-Latimer, curadora de um museu na África do Sul, foi surpreendida ao ver um espécime em uma rede de pesca. Desde então, celacantos já foram vistos em diversos países africanos e, anos depois, uma segunda espécie foi descoberta na Indonésia.

Anomalocaridid

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Anomalocaris canadensis (ROM 51214) – Foto por Jean-Bernard Caron
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Representação de um Anomalocarideo – Por Julio Lacerda

Muitas vezes, a preservação de um determinado grupo no registro fóssil é extremamente reduzida, sobretudo devido à dinâmica dos solos, o que gera grande representatividade de táxons lazarus na paleontologia. É o caso dos Anomalocarideos, um grupo de artrópodes do Cambriano que desapareceu completamente no final desse período e reapareceu milhões de anos depois, no meio do Ordoviciano. Por alguma razão, nenhum desses animais foi preservado durante uma grande escala temporal (ou os que foram ainda não foram encontrados), o que gera um buraco no nosso conhecimento desse grupo.

Mas, afinal, espécies redescobertas devem ser divulgadas?

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Rinoceronte-de-Bornéu (Dicerorhinus sumatrensis harrissoni) – 

Embora encontrar viva uma espécie considerada extinta possa auxiliar na sua proteção, casos no passado mostraram que isso nem sempre acontece. O rinoceronte-de-Bornéu (Dicerorhinus sumatrensis harrissoni) foi considerado extinto por 27 anos, até ser redescoberto em 2013, o que fez com que o governo criasse leis de proteção à esse animal. Atualmente, estima-se que sua população seja de 15 animais e, desde a criação das leis protetivas, pouco foi feito para garantir e fiscalizar o seu cumprimento. Pesquisadores temem que, com a redescoberta desses animais, caçadores sejam atraídos para a região em busca dos seus chifres, que podem valer quantias exorbitantes no mercado negro. Portanto, a descoberta das espécies lazarus podem determinar sua sobrevivência ou sua extinção. Os táxons lazarus são para sempre um lembrete dos organismos de nosso planeta que quase perdemos, muitas vezes por nossa causa, além de serem uma nova chance para mudar positivamente o destino de uma espécie.

Referências

https://www.theguardian.com/science/2019/mar/10/the-five-back-from-the-brink-species-thought-exctinct-giant-tortoise-horned-marsupial-frog

https://www.nationalgeographic.com/animals/2018/12/lost-marsupial-frog-rediscovered-ecuador-choco-forest/

http://theconversation.com/meet-the-lazarus-creatures-six-species-we-thought-were-extinct-but-arent-50274

https://scroll.in/article/915875/species-thought-to-be-extinct-are-being-sighted-again-are-they-rising-from-the-dead

https://faunalytics.org/is-secrecy-good-conservation-policy-the-case-of-lazarus-species/

https://www.theguardian.com/environment/2019/feb/21/giant-tortoise-believed-extinct-for-100-years-found-in-galapagos

https://www.iucnredlist.org/species/170517/128969920

https://g1.globo.com/natureza/noticia/2019/02/20/encontrada-no-equador-tartaruga-gigante-considerada-desaparecida-ha-um-seculo.ghtml

Artigo “A review of bush dog Speothos venaticus (Lund, 1842) (Carnivora, Canidae) occurrences in Paraná state, subtropical Brazil”, por Tiepolo, L. M. et al. – http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1519-69842016000200444

https://www.forbes.com/sites/kionasmith/2019/02/28/when-species-come-back-from-the-dead/#3884edc1206c

Artigo “The Pleistocene Bush Dog Speothos pacivorus (Canidae) from the Lagoa Santa Caves, Brazil” – Por Berta, A.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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